A propósito dos manuscritos do mar morto
Complementos de informação após as descobertas dos manuscritos 7Q4 e 7Q5.
Fílon interpreta o nome dos Essênios pela ideia de santidade. A palavra siríaca HASAYA significa « piedoso, santo » e serviu para designar os monges de Hebron. Lembremos que, na Palestina, os judeus não falavam o hebraico, mas o aramaico ou siríaco.
Na Igreja, sempre se considerou que a palavra « Essênios » designava os primeiros monges cristãos. Eusébio o afirma em sua « História eclesiástica ». Um manuscrito de FÍLON do século X, conservado na biblioteca Nacional, é intitulado: « Sobre os fiéis circuncisos e convertidos ao Cristianismo, que levam no Egito a vida monástica », e traz o seguinte escólio: « Alguns pretendem que este livro de Fílon diz respeito a monges judeus pertencentes à seita dos Nazarenos; outros sustentam que se trata de judeus convertidos, observando a lei de Moisés como figura da lei nova; outros, enfim, que se trata de perfeitos cristãos. » Nesses três casos enumerados, trata-se, portanto, sempre de discípulos de Jesus Cristo.
Essa ideia de que os Essênios constituíram uma seita judaica anterior ao cristianismo foi lançada pelos Enciclopedistas do século XVIII. Imediatamente, um erudito beneditino, Dom Bernard de Montfaucon, reagiu energicamente, demonstrando, com notável luxo de provas, que os Essênios descritos por Fílon eram monges Cristãos.
Os Terapeutas e os Essênios rezavam voltados para o Oriente, com as mãos estendidas: « Isso se observava, diz o P. de Montfaucon, entre os antigos cristãos, não somente quanto à postura e à situação, mas também quanto à forma da oração, que encontramos a mesma nas constituições apostólicas e nos mais antigos hinos do breviário. » Com efeito, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Orígenes e Eusébio atestam que os primeiros cristãos rezavam a Deus com as mãos estendidas (expansis manibus), para o Oriente. Pediam, segundo o texto das « Constituições apostólicas », um espírito vigilante, uma ciência sem erro e que o Espírito Santo descesse sobre eles para lhes dar posse e conhecimento da verdade. - « Ao amanhecer, diz Fílon, seus olhares e todo o seu corpo voltam-se para o Oriente, para espreitar os primeiros raios do sol nascente. Quando os avistam, estendem as mãos ao céu, pedindo um dia feliz, o conhecimento da Verdade e a lucidez da inteligência. »... São Basílio põe o uso de rezar voltado para o Oriente entre as tradições que não se encontram na Escritura e nem por isso são menos invioláveis, porque vieram dos apóstolos. Essa prática especial, frequentemente mencionada pelos Gregos, distinguia os cristãos dos judeus, aos quais era proibido voltar-se para o oriente para rezar, « sem dúvida, diz Montfaucon, por causa da inclinação que essa nação tinha pelo culto dos falsos deuses e particularmente do sol e dos astros. »
É coisa muito digna de nota que um rito contrário à religião judaica e anatematizado pelos profetas se encontre ao mesmo tempo entre os Essênios e entre os Cristãos.
Lendo na carta de Plínio, o Jovem, a Trajano, as confissões colhidas da boca dos cristãos da Bitínia, dir-se-ia tratar-se de Essênios perseguidos: « Tinham o costume de reunir-se antes da aurora para cantar um hino a Cristo, como a um Deus... etc. etc. » Relede essa carta. Um observador superficial e não cristão descreve a comunidade cristã nos mesmos termos em que Fílon e Josefo descrevem os Essênios.
Nos manuscritos de Qumran, jamais se trata de Essênios, mas sempre de Ebionitas. A palavra « Ebionim » encontra-se em todos os textos encontrados ali. É uma assinatura.
Se nos damos ao trabalho de estudar bem os ebionitas, temos a resposta a todas as dificuldades levantadas. Os pobres de Jerusalém haviam-se estabelecido nas Lauras, ou grutas adaptadas, dos montes de Judá, nas encostas do vale do Cedron. Praticavam uma liturgia em Hebraico, língua sagrada para os Judeus. Só conheciam o Antigo Testamento, mais um evangelho, dito dos « hebreus » ou dos « Nazarenos », conhecido por São Jerônimo. Durante um século viveram ali, escrevendo os apócrifos ditos do antigo Testamento: Livro de Henoc, Odes de Salomão, Testamento dos Doze patriarcas etc. Tudo isso para aplicar a Jesus, a quem chamavam o Mestre de Justiça, as profecias do Antigo Testamento.
Em 70, refugiaram-se em Pela, do outro lado do Mar Morto, para escapar ao massacre. Depois, restabelecida a paz, voltaram para suas lauras. Mons. Lagier, em seu livro sobre « O Oriente Cristão », dá a lista dos bispos de Jerusalém e Pela até 135 depois de Jesus Cristo. Todos têm nomes judaicos.
Depois da revolta de Bar Kochba e da expulsão de todos os judeus da Palestina pelo imperador Adriano, os Ebionitas tiveram de abandonar suas Lauras dos montes de Judá e seu cemitério de Qumran. Sem dúvida já haviam utilizado as grutas dos arredores para jogar manuscritos rasurados ou em mau estado; A coisa não é impossível, pois é um uso propriamente judaico utilizar « genizá » para esse fim.
Depois de 135, post Christum, uma nova comunidade cristã se instala em Jerusalém. A lista dos bispos dada por Mons. Lagier comporta nomes gregos ou latinos. São, portanto, cristãos não judeus. Seus monges vão reocupar as Lauras dos ebionitas e fundar o que se tornará o Mosteiro de São Saba, recolher os manuscritos ebionitas, considerados então heréticos, e jogá-los em lixeiras inacessíveis, em grutas no alto dos penhascos que dominam Qumran. Continuam a utilizar o cemitério de Qumran para si mesmos. Continuam igualmente a jogar em lixeiras mais acessíveis seus manuscritos deteriorados ou rasurados. É por isso que se encontraram em grutas ou esconderijos sob o cemitério e em volta esses pedaços de manuscritos gregos que hoje nos apresentam, 7Q4 e 7Q5, depois de os terem mantido por muito tempo escondidos porque atrapalhavam a tese dos Essênios pré-cristãos... Prova suplementar de que essa tese era uma mentira, já que era preciso escorá-la por um subterfúgio...
É preciso, portanto, bem distinguir duas literaturas cristãs: uma literatura judeu-cristã em hebraico, língua sagrada, e uma literatura grega mais recente. O conhecimento da história dos Ebionitas permite encontrar uma explicação SIMPLES E NATURAL para as descobertas atuais, sendo a mais verossímil a mais próxima da verdade (Desculpem este pleonasmo!). Essas conclusões a que cheguei por um estudo de mais de trinta anos têm todas as garantias da certeza. As descobertas ulteriores só poderão confirmá-las. É bem o que se passa hoje.
Ao anunciar a descoberta de 7Q4 e 7Q5, tiraram-se imediatamente e sem reflexão conclusões temerárias e prematuras. Na verdade, esses textos gregos cristãos eram conhecidos há muito tempo, mas ocultados, pois tornavam difícil a crença na tese dos Essênios. O que mostra a má-fé dos especialistas.
A tese de uma biblioteca essênia depositada em Qumran antes de 70 por seus proprietários antes de fugirem dos Romanos é uma invenção romanceada de Dupont-Sommer, que a impôs imediatamente. Daniélou e Carmignac aderiram a ela. Talvez ignorassem a existência dos manuscritos gregos cristãos... (?)
Mas já que essa tese romanceada é falsa, é preciso rejeitá-la completamente e não conservar dela elementos que se tentará fazer encaixar com novos dados, senão falseia-se toda a pesquisa. É como num jogo de palavras cruzadas. Se tal palavra bastante longa aparece errada porque uma de suas letras não corresponde à da linha transversal, é preciso rejeitar a palavra inteira, senão o jogo se torna impossível.
Em lugar nenhum foi provado que os manuscritos depositados em Qumran o tenham sido antes de 70; em lugar nenhum foi afirmado nem provado que as grutas tenham sido « obturadas » em 68. Só li essa afirmação depois do anúncio de 7Q4 e 7Q5. Há impossibilidades manifestas em tal hipótese. O Midrash de Habacuc contém um relato da tomada de Jerusalém e da destruição do Templo, que só pode ter sido escrito depois de 70, pois faz menção do culto romano das insígnias, e sabemos que os Romanos vencedores reuniram as insígnias no átrio do Templo para lhes oferecer um sacrifício antes de pôr fogo ao templo. Era a abominação da desolação no lugar santo, que não podia ser conhecida antes de ter acontecido. Isso me parece decisivo para o depósito dos manuscritos, que pôde ter ocorrido no fim do século I ou mais tarde.
Aliás, é impossível que os Ebionitas tenham podido deter manuscritos cristãos gregos. Sua língua era o aramaico e sua liturgia era celebrada em Hebraico. Esses textos gregos foram depositados na gruta 7, perto do cemitério e não nas primeiras grutas situadas no alto do penhasco. Trata-se, portanto, de outro depósito, feito por cristãos de rito grego. Não vejo como explicação plausível senão a substituição, depois de 135 post Christum, por uma comunidade cristã grega em Jerusalém, após a expulsão dos judeus e, portanto, dos judeu-cristãos pelas legiões de Adriano. Não vejo outra explicação possível e verossímil da coisa.
Enfim, não se deve fazer equívoco sobre a expressão « ocupação dos lugares ». Um cemitério é ocupado por cadáveres habitualmente e, ocasionalmente, pelo pessoal encarregado dos trabalhos de sepultamento e de manutenção, mas que não mora no local, ao menos constantemente. Portanto, a presença ou a ausência de certas peças de moedas não significa grande coisa. Não se faz comércio com cadáveres, parece-me.
Tudo isso não prejulga a datação das primeiras obras gregas do Novo Testamento, que podem remontar muito cedo ao uso das comunidades cristãs de rito grego, mas certamente não eram utilizadas pelos judeu-cristãos e seus monges, os Ebionitas. É, portanto, muito perigoso construir tal datação sobre uma teoria aventurosa que será em breve rejeitada por novas descobertas. A decepção arrisca ser forte e bastante prejudicial para uma apologética apoiada na arqueologia. Nesse terreno, convém permanecer prudente e aguardar confirmações que talvez não venham.
As conclusões dos arqueólogos sobre o período de ocupação de Qumran não significam grande coisa. Como disse, um cemitério é ocupado habitualmente por cadáveres e, de tempos em tempos, pelos coveiros e pelos sacerdotes que dão a absolvição. O de Qumran não é exceção. A presença das moedas assinala a passagem destes últimos, mas não se podem tirar delas conclusões precisas em cronologia, porque o uso das moedas se prolonga por várias gerações.
Penso que, antes de ser um cemitério ebionita, o local de Qumran foi ocupado por um posto fortificado judeu, destinado a proteger a cidadela de Jericó, até o início da era cristã e abandonado quando Herodes, o Grande, construiu, mais ao sul, a cidadela de Massada.
Na expectativa de novos desenvolvimentos e de novas descobertas...
E.C.
As revelações de Eisenman e de Wise
Nosso estudo sobre os manuscritos do MAR Morto estava concluído quando tomamos conhecimento do último livro de Robert EISENMAN e Michael WISE (I). Havíamos acompanhado com atenção os trabalhos de Eisenman havia vários anos. Acabam de publicar textos de Qumran, conhecidos havia mais de trinta anos, mas mantidos escondidos, « ocultados », jamais publicados. Vamos compreender por quê...
Do exame desses textos, os autores dessa obra tiraram conclusões notáveis que se juntam muito precisamente às que nos esforçamos por promover há mais de dez anos.
Eles rejeitam firmemente a tese que sustenta a origem essênia desses documentos e mostram as afinidades consideráveis que se podem constatar entre eles e os escritos judeu-cristãos, especialmente o ensinamento de São Tiago, o Menor. As fórmulas de Eisenman e de Wise são muito enérgicas: « Se levamos em conta a natureza messiânica dos textos que apresentamos neste livro e os conceitos que lhes são associados, tais como a Justiça, a Piedade, a Justificação, as Obras, os Pobres, os Mistérios, o que temos aí não é senão uma imagem do que o cristianismo foi efetivamente na Palestina. O leitor sem dúvida não poderá, contudo, reconhecê-lo de fato, porque lhe parecerá encontrar ali o contrário do cristianismo que lhe é familiar... A razão disso é, mais uma vez, muito simples. Não podemos falar de um « cristianismo » per se na Palestina no século I. A palavra foi somente forjada, como mostram claramente os Atos dos Apóstolos (II,26), para descrever uma situação que prevalecia em Antioquia, na Síria, nos anos cinquenta de nossa era. Mais tarde, foi utilizada para descrever uma grande porção do mundo de além-mar que se tornara « cristã », mas esse cristianismo era completamente diferente do movimento que temos diante dos olhos - a bem dizer, não completamente. »
É feliz que os autores tenham retificado por si mesmos um absurdo. Entre o cristianismo dos Judeu-cristãos e o dos pagano-cristãos, o essencial do ensinamento do Cristo permanece idêntico. Constatam-se apenas acentuações particulares à mentalidade judaica dos primeiros. É bem o que havíamos explicado desde o início. Era absurdo opor o ensinamento do mestre de Justiça ao de Jesus Cristo, já que os manuscritos de Qumran nos davam a interpretação ebionita judaica desse ensinamento.
Os autores continuam: « Podemos designar o primeiro como o cristianismo de Tiago, ao menos a julgar pela epístola atribuída a Tiago no Novo Testamento, que tanto Eusébio como Lutero sentiram que não devia ser incluída no cânon neotestamentário. Compreende-se que, a seus olhos, ela não deveria sê-lo, sua orientação geral lembrando a de muitos documentos de Qumran e seu texto sendo saturado de Qumranismos. »
É o que já havíamos notado, há mais de dez anos, e os autores concluem: « É impossível distinguir as ideias e a terminologia associadas à comunidade de Tiago, o Justo, dos materiais presentes neste corpus. » A comunidade de São Tiago é bem a dos « Pobres » ou « Ebionitas », como já mostramos. De modo que « na medida em que essa literatura se assemelha ao essenismo, ao pensamento zelote, ao saduceísmo ou ao judeu-cristianismo (qualquer que seja o sentido que se dê a esse termo), pode ser dita, conforme o caso, essênia, zelote, saducéia ou judeu-cristã. A nomenclatura é sem importância, no caso pouco pertinente. » O que quer dizer, em bom português, que as quatro denominações são sinônimas.
Resumamos: Os judeu-cristãos são « essênios », como é precisado em outro lugar: « Pode-se qualificar esse grupo de essênios, com a condição de redefinir o que se entende por isso, para levar em conta seu ethos militante, nacionalista e resistente, que alguns qualificam de zelote. » Precisemos bem: Os Ebionitas são « Santos » (sentido da palavra Essênio); são cheios de um zelo poderoso pela reconquista da Palestina, a expulsão dos Kittim e a reconstrução do Templo, como vimos.
São também Saduceus. Mas precisemos: « Esse grupo é saduceu ou, melhor (para traduzir a nuance do hebraico), « zadoquitas ». Esses saduceus não são semelhantes aos que descrevem o Novo Testamento e Josefo. Trata-se de saduceus de um tipo totalmente diferente. » São discípulos de « Zadoc », isto é, « O Justo », e sabemos bem que se trata de Jesus Cristo.
Os autores publicaram igualmente um texto mantido « ocultado » onde se trata de « Yesha » ou « Yeshua », que quer dizer « Salvação », mas que é também a forma aramaica do nome de Jesus.
Enfim, publicaram um cântico de louvor ao Rei Jônatas. Precisaram tratar-se de Alexandre Janeu, ao mesmo tempo Sumo Sacerdote e Rei de Israel: « Muitas moedas cunhadas nesse período, dizem eles, trazem a menção: Jônatas, Sumo Sacerdote dos Judeus (Yehudim). As que trazem a menção de Rei são geralmente em grego e dão seu nome Alexandre. Algumas outras trazem a menção: O Rei Jônatas. »
A publicação desse cântico de louvor destrói de alto a baixo a tese essênia que quer identificar o Sacerdote Ímpio com Alexandre Janeu, tal como foi imposta por Dupont-Sommer e retomada em coro por todos os outros.
Eis a conclusão dos autores: « Nas teorias tradicionais sobre as origens de Qumran, a saber, a teoria essênia e suas diversas variantes, Alexandre Janeu é frequentemente assinalado como o candidato mais apto a preencher o papel de Sacerdote Ímpio... Alexandre Janeu, ou qualquer outra figura de combatente do deserto na tradição macabaica, não pode ter sido o « Sacerdote Ímpio ». Há aí uma contradição nos termos e admiti-lo suporia ter fracassado totalmente em apreender o significado dos materiais que estão diante de nós. »
Conclusão definitiva e incontornável. Compreende-se por que esse hino de louvor a Jônatas foi « ocultado » desde o início das escavações. Mas, infelizmente! compreende-se igualmente que a tese essênia era uma mentira e que aqueles que a impuseram sabiam de sua inanidade. Há aí uma prova manifesta de má-fé. Chamamos a isso, em português, uma impostura.
Enfim, Eisenman e Wise notaram ao longo de páginas as correspondências numerosas e notáveis entre os textos de Qumran e as fórmulas do Corão. Bastava ler inteligentemente os manuscritos para neles encontrar a chave do Islã.
E.C.
(I) Robert Eisenman e Michael Wise: « Os manuscritos do Mar Morto revelados. Seleção, tradução e interpretação de 50 textos-chave inéditos. Traduzido do americano por Jean-Christophe ATTIAS (Fayard, 1995) »