Gnose e Literatura Contemporânea
A MIRAGEM CÓSMICA E O RETORNO À TERRA-MÃE
A Terra-Mãe é a mais antiga divindade conhecida dos etnólogos. Dispensa o alimento e a vida aos homens; habita o fundo da terra e das águas. É uma divindade ctônica, isto é, subterrânea e infernal. É a Mãe da Totalidade, do conjunto do Cosmos; deu à luz as grandes serpentes e os monstruosos répteis. Seu culto está sempre associado ao da Serpente. Encontraram-se nos túmulos de Ur, na Caldeia, estatuetas femininas, com cabeça de serpente, que amamentavam um bebê. A deusa é muitas vezes representada em meio a serpentes enroladas e entrelaçadas. Diodoro da Sicília a chama Reia ou Istar e a representa cercada de serpentes de prata de grossura enorme.
O papel da serpente na mitologia greco-latina é considerável. Basta percorrer um manual clássico de mitologia para se convencer. Sai-se dessa leitura submerso pelo grande serpentino. O papel da serpente é bem conhecido nos ritos de iniciação dos mistérios de Elêusis. O culto de Delfos foi primeiro um culto da Terra-Mãe, ao qual estava associado o culto de Píton, o familiar de Gaia, a "Mãe". A Pítia, sacudindo-se sobre seu tripé, proferia seus oráculos em nome da Serpente. Foi assim que toda a Grécia esteve enfeitiçada durante séculos por esse réptil satânico.
Encontra-se esse culto em toda parte. Na Índia, é o "Naga", a serpente, "personificação das energias profundas da Terra", Deus do torrão natal, desse solo misterioso e profundo de onde subiu até os homens.
A Igreja, ao cristianizar o Ocidente, lutou com energia perseverante contra esse culto demoníaco e serpentino. Levou séculos para livrar dele nossos países latinos. Ora, eis que há mais de um século uma nova geração de escritores se esforça por reintroduzir esse culto em nossa literatura. Trata-se ao mesmo tempo de ressuscitar os antigos deuses celestes e de pôr novamente em honra os grandes temas gnósticos da Alma Universal do Mundo, do Retorno à Terra, matriz originária, e da reabsorção de todos os seres no Grande Todo divino.
Eis, por exemplo, uma carta de Taine, dirigida em 16 de novembro de 1851 a Prévost-Paradol:
"O homem que, percorrendo as leis do espírito e da matéria, percebe que todas elas se reduzem a uma lei única, que é a de que o ser tende a existir, que vê essa necessidade interior, como uma alma universal, organizar as estrelas, impelir o sangue do animal em suas veias, levar o espírito à contemplação do infinito, que vê o mundo sair vivo e magnífico de um único e eterno princípio, sente uma alegria e uma admiração maiores que o devoto ajoelhado diante de um homem engrandecido..."
A vida é produto da alma universal, é idêntica no homem, no animal, na planta; o sangue, a seiva, a força atrativa das esferas constituem uma só e mesma animação; tudo se sustenta no cosmos. Taine tirou toda a sua filosofia desse princípio panteísta.
Émile Zola não diz outra coisa. Em seu romance "A Obra", expõe seu pensamento pela boca de Sandoz, que apresenta a seu amigo Claude o plano desse belo trabalho:
"Ah! como seria belo se se desse a existência inteira a uma obra em que se procurasse pôr as coisas, os bichos, os homens, a arca imensa! E não na ordem dos manuais de filosofia, segundo a hierarquia imbecil com que nosso orgulho se embala; mas em plena corrente da vida universal; um mundo em que seríamos apenas um acidente, em que o cão que passa e até a pedra dos caminhos nos completariam, nos explicariam; e por fim o grande todo, sem alto nem baixo, nem sujo nem limpo, tal como funciona..."
Mais tarde, Sandoz — alias Zola — encontrou a ideia geral da síntese buscada:
"Ah! Boa Terra! Toma-me, tu que és a Mãe comum, a única fonte da vida! Tu, a Eterna, a Imortal, onde circula a Alma do Mundo, essa seiva espalhada até nas pedras e que faz das árvores nossos grandes irmãos imóveis! Sim, quero perder-me em Ti; é Tu que sinto aí, sob meus membros, abraçando-me e inflamando-me, és Tu só que estarás em minha obra como a força primeira, o meio e o fim, a arca imensa onde todas as coisas se animam com o sopro de todos os seres!"
Convém notar igualmente que as fórmulas literárias e as figuras poéticas não são indiferentes em si à expressão desse pensamento gnóstico. A escolha das metáforas, a busca das expressões figuradas não são fruto de um jogo intelectual entregue aos acasos da imaginação. Há, no uso desses procedimentos literários, uma intenção profunda, direções de pensamento sugeridas sem serem explicitadas, que permitem impregnar insensivelmente os espíritos, sem despertar, no curso da leitura, as reações de uma consciência cristã reta. Foi assim que muitos desses escritores, cujo ensinamento gnóstico vamos expor, chegaram a desviar seus leitores da verdadeira fé.
Por exemplo, a utilização dos elementos naturais no jogo das metáforas não é inocente. O poeta compraz-se, por exemplo, em comparar a alma ao ar, ao sopro vivificante, a essa formidável potência do vento que permanece invisível. Trata-se do [pneuma] dos gnósticos. O homem quer-se pássaro, capaz de sulcar os ares, de escapar à gravidade, de sair de seus limites, de sua prisão, de vibrar à luz pura do céu. Faltam-lhe, pois, as asas. Podeis ter certeza de que se trata de um apelo ao suicídio.
A comparação sugere uma passagem à identificação: "Sou esse pássaro no céu, sou verdadeiramente essa natureza na qual quero mergulhar". Há aí verdadeiramente uma assimilação geral de todas as substâncias umas nas outras. Trata-se de operar uma metamorfose grandiosa, de reencontrar a unidade mágica de todas as coisas. Essa música de imagens, de sensações e de impressões maravilhosas tem por fim operar a dissolução de toda atividade racional e criar um universo que apreende todas as coisas na unidade de uma música das esferas, no Grande Todo Divino.
Neste texto evocador, Baudelaire nos mostra com que fervor se dá essa dissolução das almas nas coisas:
"Acontece por vezes que a personalidade desaparece e que a objetividade, que é própria dos poetas panteístas, se desenvolve em vós tão anormalmente que a contemplação dos objetos exteriores vos faz esquecer a própria existência e que vos confundis logo com eles. Vosso olho se fixa numa árvore harmoniosa curvada pelo vento; em alguns segundos, o que não seria no cérebro de um poeta senão uma comparação muito natural tornar-se-á no vosso uma realidade. Emprestais primeiro à árvore vossas paixões, vosso desejo ou vossa melancolia, seus gemidos tornam-se os vossos e logo sois a árvore."
"A matéria inorgânica", escreve Nietzsche, "é o seio materno. Ser libertado da vida é voltar a ser verdadeiro, é completar-se. Aquele que compreendesse isso consideraria uma festa retornar à poeira insensível".
O CULTO DA TERRA E DOS MORTOS SEGUNDO MAURICE BARRÈS
Eis outro gnóstico que enganou muito bem seu mundo! Quis ser o cantor da energia nacional. Foi por um tempo o mestre de pensamento da França nacionalista e cristã, o herdeiro da "Tradição", da Ordem, da disciplina social. Infelizmente! Sua influência profunda e prolongada sobre seus leitores exerceu-se numa direção totalmente outra, a de um panteísmo cósmico, como vamos demonstrar.
Barrès ligara-se, desde a juventude, a um ocultista bem conhecido, Stanislas de Guaita. "Vivíamos em quarto como estudantes. Guaita vinha tirar-me da cama. Tínhamos nossos poetas. Líamo-los em voz alta", conta-nos ele. Ambos se fartavam na leitura dos românticos, em meio à fumaça dos cigarros. Ocupavam-se de espiritualismo, de necromancia. Foi por ocasião de uma sessão desse gênero que Barrès conheceu uma amiga de Vintras.
Por um momento, Barrès deixou-se atrair pelo pensamento de Lamennais. Assim como Sainte-Beuve erguera sua monumental história de "Port-Royal" contra o dogmatismo intransigente de Roma, também ele acariciou a ideia de apresentar o domínio de La Chênaie como um lugar elevado do espírito. Mas foi seu encontro com Renan que o desligou definitivamente da fé cristã. Renan inculcou-lhe a ideia de que todos os cultos são apenas manifestações variadas de uma mesma e eterna aspiração ao divino. Semeou nele uma mística telúrica, da terra profunda: culto das florestas, das fontes e das pedras, fé na Natureza e em suas influências mágicas, sentimento profundo da divindade da Natureza, concepção panteica do Mundo. A partir desse momento, Barrès já não nomeia Deus, mas o divino, conceito neutro aplicável a tudo.
"Os mortos", escreve em 1909, em seus "Cadernos", "associam-se aos vivos, sentimento inexplicável e fundamental, o passado e o presente unem-se num mesmo sentimento do divino. É aqui que se cumpre e se propõe o velho mistério da regeneração. O homem natural despoja-se para deixar aparecer, desabrochar, alçar voo o homem espiritual. É aqui que a matéria bruta passa ao estado de obra de arte. Aqui repousam, velam forças que modelam a alma".
É, portanto, na matéria bruta que jaz a força criadora das almas. O espírito, aos olhos de Barrès, é uma força misteriosa, esparsa no Universo, captada somente por uma intuição divinizante e incapaz de manifestar-se através de nossa inteligência natural, "pobre coisinha à superfície de nós mesmos", diz ele. "Nossa alma e o universo em nada se distinguem um do outro. Esses dois termos só significam uma mesma coisa, a soma das emoções possíveis".
Em seu célebre romance "A Colina Inspirada", Barrès exaltou uma seita gnóstica, a do heresiarca Vintras. Como Mani, como Joaquim de Fiore, Vintras repartiu em três épocas a duração total da história do mundo: a era do Pai, atravessada pelos séculos de Fé e de Temor; a era do Filho, marcada pela graça e pela esperança; a era do Paráclito, toda impregnada de caridade, a sua, a de Vintras. Essa colina de Sion-Vaudémont é "um dos teatros misteriosos da ação divina e uma das antigas moradas do espírito". Foi dela que se ergueram, através da bruma, os deuses antigos. Barrès escuta as vozes que sobem da terra e sopram sobre os outeiros. Reconhece nelas "a efígie dos deuses autóctones", isto é, saídos da profundeza do subsolo.
"Há lugares onde sopra o espírito", esse espírito da Colina que anima fortemente Léopold Baillard, o mestre da comunidade. Para Barrès, Léopold é um místico da terra. Apresenta-o como defensor da "Tradição", guardião da alma do país, do solo natal e dos mortos, diante dos inimigos, os "soldados de Roma", isto é, os Oblatos, o bispo de Nancy, esses invasores vindos para suplantar os cultos ancestrais, célticos, das florestas, das fontes e das pedras. Não se pode ser mais panteísta e mais anticristão...
Mas eis que, desde 1907, Maurice Barrès refletiu. Toma medo. Vê o indivíduo sublevado contra a ordem social. Toma a defesa da "ordem hierárquica", da "disciplina", da "razão", da própria "ortodoxia". Seus "Cadernos" dão testemunho. Que conversão! De repente a natureza exata desse sopro divino lhe aparece. "Essa colina", escreve, "esse centro da Lorena, onde estavam estabelecidos os Baillard, formava desde toda a eternidade uma acrópole nacional e religiosa, um lugar santo, um lugar todo saturado de potências místicas... Sobre a Santa Colina conspurcada, foi uma ressurreição das forças de outrora. Os dragões do paganismo, vencidos no alto lugar pelo glorioso apóstolo de Toul, São Gerardo, reapareceram... Sobre a alta colina, em torno do velho santuário, foi, durante alguns meses, uma prodigiosa ciranda que só se pode comparar a certas festas pagãs na estação das vindimas. Toda a Lorena olhava com estupor a dança satânica conduzida lá em cima, nas brumas do inverno, pelos três padres e por religiosas desgrenhadas".
Credes Barrès convertido, queimando o que havia adorado e exaltado? Pois não... Eis que cai em sua própria armadilha: "Minha razão condena", explica, "o que meu coração às vezes não pode deixar de amar. Ao longo dos séculos, os gênios revoltados não têm direito à nossa inteira veneração; mas como seríamos equitativos se, depois de condená-los, nos recusássemos a sentir, a amar as altas partes de seu ser". Seu coração acompanha com afetuosa solicitude os combates de Léopold, seu herói, até "a tristeza do vencido, comparável a uma pena de amor".
A sedução da serpente é singularmente poderosa sobre um espírito que continua a venerar e a adorar em segredo o que sua razão lhe ensina como uma manifestação do Grande Revoltado. Mas o fundo de seu pensamento não variou. Mesmo em seu apelo em favor da "Grande miséria das Igrejas da França", continua a exaltar essa "Terra encerrada numa rede divina, da qual eu não gostaria de romper nenhuma das inúmeras malhas; é a hora de completar a reconciliação dos deuses vencidos e dos santos... Todo o divino em socorro!!!" Decididamente, Barrès permaneceu incorrigível, "um dos exemplos mais grandiosos e mais terríveis de gênio maldito", concluiu André Thérive. Compreende-se por que hoje a Nova Direita neopagã se esforça por repor em honra sua obra em nossa pobre França descristianizada...
O TRISMEGISTO SEGUNDO BAUDELAIRE
O poeta teve o cuidado de nos prevenir:
"Leitor pacato e bucólico, Sóbrio e ingênuo homem de bem, Joga fora este livro saturnino, Orgíaco e melancólico. Se não estudaste tua retórica Com Satã, o astuto decano, Joga fora! Nada entenderás, Ou me julgarás histérico."
A retórica de Satã?... A "Gnose", é claro! Baudelaire a estudou na Revelação de Hermes Trismegisto, graças à complacência de seu amigo Louis Ménard. Este último acreditava na transmigração das almas, que vagavam após a morte de astro em astro. Foi seu discípulo na École Normale. Com seu amigo comum Leconte de Lisle, praticavam o panteísmo. Um dia, foram à floresta de Meudon. Cada um se instalou numa árvore para a noite: "Ó Panteísmo, tu me inundas!" De manhã, voltaram, enregelados e gripados...
Louis Ménard publicara o "Poimandres" de Hermes Trismegisto, precedido de uma Introdução: "Estudo sobre a Origem dos livros herméticos", na qual afirmava que a doutrina hermética se encontra nos pagãos Plotino, Apuleio, Macróbio, em Orígenes e outros doutores da Igreja. "Há assim, em cada século", diz ele, "uma soma de ideias comuns a todas as seitas, mesmo rivais e inimigas..."
O Sr. Paul Arnold encontrou a verdadeira fonte das "Flores do Mal" numa obra do século XVI, publicada em Bordéus em 1579, sob o título "Pimandro de Mercúrio Trismegisto, da filosofia cristã, conhecimento do verbo divino e excelência das obras de Deus, traduzido do exemplar grego, com colaboração de amplíssimos comentários, por François, Senhor de Foix... bispo de Aire...", obra dedicada a Margarida da França, rainha de Navarra. O autor, bispo católico, considera a revelação de Hermes ou Mercúrio Trismegisto como texto revelado, puramente católico. Interpreta essa revelação, palavra por palavra, por um comentário seguido dos mais pitorescos. Mostra a alma humana aprisionada num corpo oriundo, por emanações e degradações sucessivas, do princípio divino e entregue ao poder de demônios destruidores.
O homem, diz ele, não tem nenhum poder de escapar à lei do universo: "Verdadeiramente um homem não é sábio de empreender, por qualquer força ou poder de Deus que lhe seja comunicado, romper a necessidade e a ação que o astro ou o fado exerce em sua pessoa. Devemos resolver-nos, tanto quanto possível, a suportar e combater... É que, reinando a vida e a imperfeição na matéria, não pode ser que o que se encontra nessa matéria não apresente sua principal natureza, que é o mal... A terra é a verdadeira pátria do Mal."
François de Foix nos explica que "o Verbo de Deus, saído de Deus, 'indo para baixo', produziu 'caindo para baixo' as criaturas de formas. A alma é cativa dos demônios. O 'homem' permanece errante em trevas, sofrendo as dependências da morte"... pois está ligado à matéria "que por sua natureza é cheia de toda malícia e imperfeição". A matéria... "produz e brota imperfeições e vícios como flores e frutos procedentes dela". E eis o título das "Flores do Mal". Seu autor lembra com frequência a equação natureza–Mal, natureza–Ruído, Natureza–Satã.
O homem, salvo pelo conhecimento (a Gnose!), concebe desde então sua verdadeira natureza como imortal e contemplativa, como unida a Deus. Tat, ensinado por Mercúrio-Hermes, exclama então: "Ó meu Pai, figuro-me (concebo) não pela vista dos olhos, mas pela eficácia das virtudes inteligíveis? Estou no céu, na terra, na água, nos animais, no ventre, antes do ventre, tudo em toda parte."
Depois Mercúrio-Hermes entoa o Hino à Gnose: "Ó Santo Conhecimento (Ó Santa Gnose!), pelo qual devo recobrar a entrada de minha ventura e felicidade e por teu meio entrar na verdadeira comunhão de meu deus e soberano bem, sendo iluminado por Ti em todas as minhas ações e operações, ó Luz inteligível que és esse Santo Conhecimento dando claridade a todos os meus pensamentos e cogitações, que sem Ti seriam obscuros e trevas... a fim de que eu participe de vossa fonte eterna, ó vida e Luz, de vós a nós passou a bênção." Graças à Gnose, a alma foi regenerada e restaurada pela intervenção dos "demônios vingadores".
Pode-se dizer que a obra de Baudelaire não é senão um comentário poético da Revelação de Hermes. Ouçamo-lo.
Segundo a Gnose, o mundo é o resultado de uma degradação do ser divino na matéria, uma queda catastrófica, um pecado original cósmico. Baudelaire traduz, em prosa: "A Teologia – O que é a queda? – Se é a unidade tornada dualidade, é Deus que caiu. – Em outros termos, a criação não seria queda de Deus?" (em "Meu coração a nu"). Em verso, o mundo é
"Uma Ideia, uma Forma, um Ser, Partido do azul e caído Num Estige lodoso e plúmbeo Onde nenhum olho do Céu penetra."
Nossa alma, centelha divina, foi encerrada num corpo, como num túmulo. Os gnósticos jogaram com as palavras soma–corpo e sema–túmulo. Baudelaire copia por sua vez, fielmente, no soneto "O mau monge", primitivamente intitulado "O túmulo vivo":
"Minha alma é um túmulo que, mau cenobita, Desde a eternidade percorro e habito; Nada embeleza as paredes deste claustro odioso."
Tudo na natureza humana é mau: "É preciso sempre", escreve, "voltar a Sade, isto é, ao homem natural, para explicar o mal". – "O homem é naturalmente depravado". – O crime, de que o animal humano haurira o gosto no ventre da mãe, é originalmente natural... e é essa infalível natureza que criou o parricídio e a antropofagia... "Natureza infalível, pois só pode engendrar o mal, por uma fatalidade necessária; o que é o tema repetido das 'Flores do Mal'".
Baudelaire está impregnado da doutrina gnóstica da metempsicose. Nascemos com um passado, vidas anteriores, com uma espécie de ficha criminal pré-natal, carregada do peso das faltas acumuladas no curso das encarnações precedentes. Atroz fatalidade, contra a qual o homem não tem nenhum recurso. É, portanto, prisioneiro de uma nova encarnação sofrida; é "um navio preso no Polo", diz o poeta de "O Irremediável". Compreende-se, pois, que se considere "condenado desde o começo e que sua vida o seja para sempre" (numa carta de 4 de dezembro de 1854).
Como sair desse ciclo infernal?, pergunta-se o poeta:
"– Certamente, eu sairei, quanto a mim, satisfeito De um mundo onde a ação não é irmã do sonho; Possa eu usar a espada e perecer pela espada. São Pedro renegou Jesus... Fez bem."
Dois meios, portanto: o sonho e o suicídio. Este mundo não é senão um "oásis de horror num deserto de tédio". É preciso prosseguir um périplo através dos ciclos da existência, das trevas até o mergulho no nada:
"Esses viajantes, para os quais está aberto O império familiar das trevas futuras... Vem! Oh! vem viajar nos sonhos, Além do possível, além do conhecido! ...alma de sonhos obscuros, Que o céu sufoca entre suas quatro paredes."
Nossa alma está exilada neste mundo hostil; é a Estrangeira. Em marcha! Partamos "para qualquer lugar, contanto que seja fora deste mundo". Baudelaire prefere ao real "os monstros de sua fantasia". Exalta a imaginação, que é "a rainha do verdadeiro", explica; é "a mais científica das faculdades, porque somente ela compreende a analogia universal, ou o que uma religião mística chama a correspondência" (numa carta a Alphonse Toussenel de 21 de janeiro de 1856). "A imaginação é uma faculdade quase divina que percebe antes de tudo, à margem dos métodos filosóficos, as relações íntimas e secretas das coisas, as correspondências e as analogias" (em suas notas sobre Edgar Poe).
Qual é, pois, essa religião mística que ensina as analogias e as correspondências entre o macrocosmo e o microcosmo? É a revelação de Hermes Trismegisto, é o ensinamento da Cabala e da Gnose.
Satã é um poderoso sedutor. Depois de semear o desespero na alma do iniciado, apresenta-lhe sua estranha Beleza, como isca para lançar a vítima no abismo. Descreve-lhe seu domínio com os atrativos do Céu. O poeta parece hesitar entre um e outro, mas, de fato, já está decidido a mergulhar no abismo.
"Derrama-nos teu veneno para que nos reconforte! Queremos, tanto esse fogo nos queima o cérebro, Mergulhar no fundo do abismo, Inferno ou Céu, que importa? No fundo do desconhecido para encontrar o novo!"
"Quer venhas do Céu ou do Inferno, que importa, ó Beleza! De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia, Que importa, se tornas... O Universo menos hediondo e os instantes menos pesados?"
A repetição do "Que importa" é significativa. A tentação satânica consiste em criar uma incerteza no espírito do iniciado, em apresentar-lhe o céu e a Beleza sob uma luz sombria e tenebrosa, plena de mistérios e de sonho, de modo a provocar nele uma indiferença cansada que prepara a futura capitulação da alma. Em "O Amor da Mentira", Baudelaire precisa:
"Mas não basta que sejas a aparência Para alegrar um coração que foge da verdade? Que importa tua tolice ou tua indiferença? Máscara ou cenário, salve! Eu adoro a Beleza."
Por fim, o iniciado está possuído e pode exclamar:
"Não há uma fibra em todo o meu corpo trêmulo Que não grite: Ó meu caro Belzebu, eu te adoro."
Só resta lançar-se no nada. A partir do momento em que o poeta está decidido à morte, as expressões de seu apelo ao suicídio são inúmeras. Citemos algumas:
"Ó vermes, negros companheiros sem ouvidos e sem olhos, Vede vir a vós um morto livre e alegre..." É a morte que consola, ai de nós! e que faz viver! É o pórtico aberto sobre lugares desconhecidos! É que a morte, pairando como um sol novo Fará desabrochar as flores de seu cérebro...! Enfim! Ó Morte, vem, capitão, é tempo, levantemos a âncora. Este país me entedia; ó Morte, aparelhemos!...
Até no suicídio o iniciado possuído crê encontrar o contrário da morte. Associa a morte à vida, a um pórtico para céus desconhecidos, a um sol novo, à liberdade e à alegria. A confusão é total. Satã, o Trismegisto, tirou dessas "Flores do Mal" de corolas venenosas um perfume mágico e fúnebre e depois, com um sopro poderoso, empurrou a alma do poeta para as profundezas ctônicas onde reina a Serpente.
BERGSON, "FLOR DE GNOSE"
Numa manhã de abril de 1922, o Sr. Firmin Nicolardot entrava por acaso numa livraria de usados em Nice. Sua pequena exploração ia chegar ao fim quando notou um folheto de filosofia intitulado "O Universo, sua força e sua vida", de um certo A. Laggrond, publicado em 1884. Na introdução, um engenheiro, Édouard Pellis, dizia apresentar nele as reflexões de um amigo oculto sob o pseudônimo de Laggrond, amigo que encontrara "primeiro na Boêmia, depois pelos caminhos do Egito".
De volta para casa, o Sr. Nicolardot começou a leitura e, de repente: "Mas isto é Bergson!... Parece que o estou ouvindo ainda!" Com efeito, reencontrava, ao longo das páginas, as mesmas ideias, quase as mesmas expressões, já bem conhecidas do célebre filósofo.
O que dizia o livrinho? "Nosso corpo", escreve Laggrond, "é a porção do Universo encarregada de liberar as forças que são as únicas que podem atingir nosso princípio de sensibilidade..." Depois de ter agido sobre a alma, a força pode, portanto, voltar ao mundo material, idêntica em sua quantidade... Mas necessariamente modificada em alguma coisa... Existe, pois, uma força única que age sobre as coisas e sobre o corpo humano, passando de um ser a outro, animação universal. Reconheceu-se a Grande Alma Universal do Mundo.
"Minha razão", escreve ainda Laggrond, "não sou eu, é um de meus órgãos, aquele que encarreguei de desempenhar minhas funções intelectuais", ideia bem bergsoniana, à qual opõe "esse ser invisível que se afirma no fundo do organismo humano e que diz: eu". Seu verdadeiro nome é o espírito, o [nous] dos gregos. É o "verdadeiro centro do Homem", pelo qual "se liga ao eterno e ao infinito". Tema já bem conhecido dos pitagóricos e dos gnósticos.
O autor prossegue: "Se nosso princípio de sensibilidade é imortal, podemos já ter vivido uma infinidade de existências, e outro infinito nos espera... As lembranças que podemos ter delas limitam-se à nossa coleção de quadros cerebrais. A metempsicose não é de modo algum uma ideia incompatível com o estado atual da ciência..." O autor alude à reminiscência platônica e às reencarnações. Rejeita com horror a ideia da "ressurreição de nosso corpo material e terrestre".
"Não se deve considerar nossa inteligência como a parte espiritual e imortal de nosso indivíduo. Todo raciocínio mergulha sua última raiz na pura sensibilidade". É o conhecido desprezo dos gnósticos pelo uso natural de nossa razão.
O Sr. Nicolardot, no curso de sua leitura, tivera o cuidado de anotar as similitudes de pensamento, as identidades de expressão entre esta pequena obra e a obra bem conhecida de Bergson. Dispusera em duas colunas as fórmulas similares ou idênticas. Concluíra que esta pequena obra era o primeiro livro de Bergson, publicado sob pseudônimo aos 24 anos.
Mas eis que pesquisas posteriores o levaram a Lausanne, na Suíça, onde soube que Laggrond era um dos pseudônimos de um pastor vaudois, Auguste Glardon, escritor fecundo, editado na Suíça, que morrera em 1922. Esse Auguste Glardon fizera várias estadias na Ásia, nas Índias. Percorrera também o Egito em busca de sua antiga religião e estudara o budismo com seu amigo engenheiro, Édouard Pellis. Além disso, era maçom entusiasta, muito antirromano.
Nicolardot retomou então sua investigação em novas bases, mas não conseguia desprender o espírito da ideia de que Bergson fora inspirado em sua juventude por Glardon. Fez-lhe a pergunta. Bergson declarou nunca ter ouvido falar de Laggrond. Ora, os dois nomes, Laggrond e Bergson, encontravam-se na época, por volta de 1886, na "Revue de philosophie", e os empréstimos de Bergson ao livrinho sobre "O Universo" são numerosos e incontestáveis.
O Sr. Nicolardot completou seu estudo mostrando as grandes afinidades do Bergsonismo com a Gnose oriental e o Budismo. O próprio Bergson reconheceu em "As Duas Fontes" essa inspiração. Refere-se a Buda, a Plotino, a Jesus Cristo. Sabemos que "As Enéadas" de Plotino foram um de seus livros de cabeceira.
Aliás, basta enumerar as principais afirmações de Bergson ao longo de toda a sua obra para reconhecer-lhe o caráter fundamentalmente gnóstico. Nas citações que se seguem, sublinhamos os termos diretamente tomados às obras dos ocultistas.
Todo o desenvolvimento do mundo é o resultado de uma queda: "A natureza tende a um fim último, compõe-se de uma série de quedas, é um imenso desmoronamento". Sabe-se que Bergson admirava na obra de Lucrécio essa queda incessante dos átomos e os "grandes desmoronamentos" de universos. A gênese do mundo é assimilada por Bergson a uma espécie de degradação da divindade: "Imaginemos, pois, um recipiente cheio de vapor a alta tensão... Assim, de um imenso reservatório de vida devem lançar-se sem cessar jatos, cada um dos quais, ao recair, é um mundo".
"Vejo em toda a evolução da vida em nosso planeta uma travessia da matéria pela consciência criadora, um esforço para libertar, à força de engenhosidade e de invenção, algo que permanece aprisionado no animal e que se desprende definitivamente no homem". Pensa-se imediatamente na alma encerrada no túmulo de seu corpo.
"Somente a matéria que o fluxo da vida arrasta consigo e em cujos interstícios se insere pode dividi-lo em individualidades distintas. A corrente passa, pois, atravessando as gerações humanas, subdividindo-se em indivíduos. Assim se criam sem cessar almas que, no entanto, em certo sentido, preexistiam. Não são outra coisa senão os regatos em que se reparte o grande rio da vida, correndo através do corpo da humanidade".
"Nosso ser", diz ainda Bergson, "formou-se no Oceano da vida" por uma espécie "de solidificação local".
"A filosofia não pode ser senão um esforço para fundir-se de novo no Todo; a inteligência, reabsorvendo-se em seu princípio, reviverá às avessas sua própria gênese". Anotaram-se de passagem as fórmulas gnósticas: a queda, a degradação da divindade, o aprisionamento das almas, sua preexistência, a fusão e a reabsorção no Grande Todo. Poderíamos assim continuar por muito tempo as citações de Bergson que apresentam um sabor gnóstico nitidamente caracterizado. Um dos objetos de "A Evolução Criadora" é mostrar "que o Todo é da mesma natureza que o eu e que se o apreende por um aprofundamento cada vez mais completo de si mesmo", declara o boletim da Sociedade Francesa de Filosofia de 25 de novembro de 1909.
O Sr. Nicolardot encontrou assim uma fonte pouco conhecida do pensamento de Bergson, que o liga, através do Hinduísmo e do Budismo, à Gnose primitiva e, mais precisamente, à Cabala. "A mais audaciosa tentativa de niilismo intelectual", no dizer de Maritain. Acrescentaríamos "de Nirvana".
A CABALA SEGUNDO SIMONE WEIL
Antes de expor o pensamento de Simone Weil, queremos reproduzir este protesto indignado do Cônego Moeller:
"O entusiasmo dos meios cristãos pelos escritos de Simone Weil é uma manifestação característica do desnorteio dos espíritos no pensamento católico deste século. Estamos obcecados por 'concordismos' fáceis, já o disse a propósito de Huxley. Tentamos batizar in extremis tudo o que, de longe ou de perto, se assemelha ao cristianismo, porque não nos damos ao trabalho de conhecer a mensagem cristã autêntica. Dir-se-ia que é necessário que verdades cristãs nos sejam propostas por pensadores não cristãos para que tomemos consciência das riquezas que possuímos desde sempre, mas que havíamos esquecido. Temos má consciência, envergonhamo-nos de nossa fé.
Simone Weil passa por cristã aos olhos de muitos. Quase ninguém viu que era maniqueia. É, pois, possível, em nosso século XX, difundir ideias heréticas que estão nos antípodas dos pontos mais essenciais de nossa fé, sem que ninguém franza o sobrolho. Contanto que não se empreguem as fórmulas que todo cristão sabe serem heréticas, podem-se desenvolver teorias que não só ficam aquém da Revelação, mas a negam, e pode-se ficar tranquilo; será preciso muito tempo antes que alguém se levante para protestar."
Fazemos nosso esse protesto e pensamos que poderia aplicar-se a muitos outros escritores indevidamente considerados cristãos. Citemos Lanza del Vasto, Marcel Légaut e outros ainda vivos, que são atualmente os best-sellers da edição religiosa...
O primeiro livro de Simone Weil, "A Gravidade e a Graça", entrou na literatura como um "clássico cristão", graças à complacência de Gustave Thibon, que teve o cuidado de eliminar do manuscrito toda a tralha gnóstica que o atulhava para inflectir seu pensamento numa direção aparentemente cristã, sem ver que o próprio título da obra é herético.
Para compreender o pensamento de Simone Weil, é preciso reportar-se à Cabala judaica, tal como é exposta no livro do "Zohar", isto é, "O Esplendor". Havíamos escrito em "A Gnose contra a Fé", p. 46: "O Grande Todo Pleroma de nossos Gnósticos chama-se entre eles (os cabalistas) o En-Sof, isto é, o 'não limitado', grande Ser imutável, eterno, infinito, que encerra em si todas as formas. Para explicar o aparecimento do mundo visível e a multiplicidade dos seres que povoam o universo, os cabalistas recorrem à noção de emanação e de contração. O Grande Todo primitivo, espécie de caos, contrai-se para deixar um vazio no interior do qual vão aparecer as formas determinadas e múltiplas das criaturas, que são o reflexo aparente do En-Sof."
Essa ideia de contração do mundo divino é digna das elucubrações e ratiocinações de rabinos. Em si, é intangível. Eis como Simone Weil traduz a coisa para os profanos:
"A criação é abandono. Ao criar o que é outro que ele, Deus o abandonou necessariamente... Deus abdicou ao dar-nos a existência".
Esvaziou-se de sua divindade, de sua substância em favor de uma criação que é "gravidade". A criatura é, portanto, "um pecado"; o bem está "fora do mundo", pois o mundo é abandonado ao mal; a criatura é "não-ser", "ficção de Deus", "brincadeira de Deus", "escravidão". O próprio Deus é o inimigo da criatura viva. "Iahweh, sob um aspecto ao menos, é o diabo" — ousa dizer —, sob o aspecto de criador, naturalmente.
Acrescenta: "Se perdoarmos a Deus seu crime contra nós, que é o de nos ter feito criaturas finitas, Ele nos perdoará nosso crime contra Ele, que é o de sermos criaturas finitas. Deus me criou como um não-ser que tem ar de existir, a fim de que, renunciando por amor a essa existência aparente, a plenitude do ser me aniquile".
A criação é, pois, no pensamento de Simone Weil, um erro catastrófico de Deus; deve desaparecer. O homem, objeto da maldição divina, deve divinizar-se mergulhando na matéria cósmica e absorvendo-se no Grande Todo, o En-Sof. "Um pensamento humano pode habitar a carne", diz ela, "mas, se um pensamento habita a matéria inerte, só pode ser um pensamento divino. Eis por que, se um homem é transformado em ser perfeito e seu pensamento substituído pelo pensamento divino, sua carne, sob as espécies da carne viva, tornou-se em certo sentido cadáver". A ascese consiste em fazer da carne um cadáver, isto é, uma matéria inerte, a fim de que o pensamento humano possa identificar-se com o de Deus e habitar um mundo não vivo. Compreendemos que se trata de um apelo ao suicídio. Todo esse sistema é uma blasfêmia contra Deus. E isso se intitula: "Intuições pré-cristãs".
Teria sido preciso dizer anticristãs e satânicas.
Só o demônio pode inspirar ao homem uma atração por perfeição sobre-humana para melhor fazê-lo cair mais baixo que a besta, no ciclo dos mitos, no inferno da necessidade, no aniquilamento de sua personalidade e na identificação com a matéria inerte.
Como todos os gnósticos, Simone Weil recita o Pai-Nosso. Quando pronuncia: "Venha a nós o vosso reino", pensa: "que a criação desapareça", pois, diz ela, "a criação e o pecado original não são senão dois aspectos, diferentes para nós, de um único ato de abdicação de Deus".
A encarnação de Cristo não é senão um dos numerosos "avatares" do divino; a alma de Cristo é a alma do mundo. A morte na Cruz realiza precisamente essa destruição da carne, que se torna "Carne" inerte. Cristo não ressuscitou, pois sua carne, tornada matéria inerte, constitui a substância da terra cósmica. Sempre em "Intuições pré-cristãs".
A atitude de Simone Weil a respeito do amor humano está em continuidade com sua visão gnóstica do mundo. "A energia sexual", diz ela, "não é destinada a um uso natural, mas ao amor de Deus... O desejo carnal é uma corrupção, uma degradação do amor de Deus". Mais adiante: "Sexualidade. Há um mecanismo em nosso corpo que, quando se desencadeia, nos faz ver o bem nas coisas deste mundo. É preciso deixá-lo enferrujar até que seja destruído". Com efeito, para que participar da criação pelo uso natural da sexualidade, já que este mundo é uma maldição e que nosso maior desejo deve ser evadir-se dele? "Minha existência é um diminuição da Glória de Deus", diz ela. "Deus ma dá para que eu deseje perdê-la".
Tudo isso dispensa comentários. Se o leitor teve o cuidado de estudar nossos capítulos anteriores, reconheceu logo, através das fórmulas de Simone Weil, os temas clássicos da Gnose marcionita e maniqueia, revista e agravada pela Cabala.
NOTA I SOBRE A LITURGIA NOVA
Em 1941, Simone Weil publicara um estudo sobre a missão sagrada do homem do campo. Queria transformar "a própria vida cotidiana em metáfora de significação divina". O trigo dará a farinha a transformar em pão para tornar-se o corpo de Cristo; a videira dará o vinho para tornar-se o sangue de Cristo. "O sacerdote", diz ela, "tem o privilégio de fazer surgir sobre o altar a carne e o sangue de Cristo, mas o camponês tem um privilégio não menos sublime. Sua carne e seu sangue, sacrificados no curso de interminárias horas de trabalho, passando através do trigo ou da uva, tornam-se eles próprios a carne e o sangue de Cristo". Assim, o labor do camponês participou da vida cósmica. "Seria preciso encontrar", acrescenta Simone Weil, "e definir para cada aspecto da vida social seu laço específico com Cristo. Esse laço deveria ser a inspiração de cada agrupamento da Ação Católica".
Compreendemos bem que o verdadeiro sacrifício é o fruto do trabalho humano, que é da mesma essência que a pessoa de Cristo. Uma vez que a matéria inerte é de essência divina, como Simone Weil repete com frequência, é do seio do cosmos que pode surgir essa força divina capaz de transcender a matéria e de infundir-lhe, sob a forma de trigo ou de videira, uma potência divinatória. O sangue e a carne do homem passam à terra, depois à planta, e tornam-se sangue e carne de Cristo. Há aqui uma assimilação geral de todas as substâncias umas nas outras, todas oriundas da Terra-Mãe divinizada.
Disse-se que Paulo VI bem gostaria de canonizar Simone Weil. É, com efeito, muito perturbador encontrar no novo ofertório uma fórmula que lembra estranhamente o ensinamento de Simone Weil: "Este pão, fruto da terra e do trabalho dos homens... este vinho, fruto da videira e do trabalho dos homens, nós vo-los apresentamos, eles se tornarão o pão da vida, o vinho do reino eterno..." Como poderiam tornar-se divinos por si mesmos, se não possuem já em si mesmos essa divindade inscrita na matéria inerte?
No verdadeiro ofertório, o sacerdote oferece a Deus "uma vítima santa e imaculada", o próprio Jesus Cristo, e não frutos da terra e do trabalho dos homens. Na consagração, não se produz uma "evolução do pão e do vinho que atualizam uma substância divina já contida em potência na terra e no corpo do trabalhador", como diz Simone Weil, mas uma transubstanciação, isto é, o corpo e o sangue de Cristo "substituem-se" ao pão e ao vinho que desapareceram, não deixando no altar senão suas aparências. Nem os frutos da terra nem o trabalho dos homens possuem em si mesmos a capacidade de tornar-se divinos.
NOTAS SOBRE GUSTAVE THIBON
Havíamos acompanhado, em seu tempo, com simpatia e até admiração, a obra de Gustave Thibon, sobretudo: "Retorno ao Real", "O que Deus uniu", "Nosso olhar que falta à luz". Infelizmente! Thibon deixou-se enfeitiçar por Simone Weil e caiu em seu rastro na Gnose maniqueia, sobretudo em suas duas últimas obras: "A ignorância estrelada" e "O véu e a máscara". Ele próprio reconhece essa inspiração: "O maniqueísmo sempre foi minha tentação". Quando se sabe, resiste-se, rejeita-se a inspiração satânica. Pois bem, não! As fórmulas gnósticas são inúmeras nessas duas obras citadas.
O homem, diz ele, é "um Deus mutilado e conspurcado, uma centelha de eternidade que sufoca a cinza dos dias". Expressão retomada várias vezes. O homem é "um ser que, caído da eternidade, só pode atingir seu fim subindo de volta a seu princípio". "Se sofremos por estar separados de Deus, é porque no fundo de nós mesmos nunca o deixamos, como o exilado que leva consigo a alma do país natal. A ideia platônica de reminiscência testemunha essa presença no âmago da ausência". É necessário lembrar que o homem foi criado na terra e colocado num paraíso terrestre e não celeste? O homem não possui nenhuma reminiscência de um mundo divino do qual teria sido precipitado. Isso é a tese dos gnósticos e, portanto, de Satã.
Mais adiante, Thibon rejeita "a concepção aristotélica do composto substancial em proveito da teoria platônica da alma prisioneira do corpo". Também aí a sedução de Platão desempenhou seu papel nefasto, como sempre.
Por fim, duas afirmações blasfematórias: "A criação pela qual Deus saiu de si mesmo e se apagou atrás de sua obra". Em referência a Léon Bloy, Thibon acrescenta: "É preciso consolar Deus de quê? De ter-se separado de si mesmo ao criar-nos. É de nós que espera o fim de seu exílio". Não é "uma admirável intuição" de Léon Bloy, é o ensinamento corrente de todos os gnósticos, desde sempre. E ainda: "Mal ouso evocar essa loucura: a criação concebida como um suicídio divino por amor. Deus, que, ao tirar o universo do nada, cava o túmulo em que vai deitar-se, inerte e gelado, e correndo a aventura de ser despertado da morte pela fidelidade de sua criatura". É uma loucura, evidentemente, Sr. Thibon! Mas o senhor a evocou. É, pois, o fundo de seu pensamento, mas é uma blasfêmia.
"Saber do fundo da alma que Deus, primeiro autor do mal, é também a suprema vítima dele". Como pode um cristão falar assim de Deus?
Sobre o amor: "Beatriz, Tristão e Isolda devem desvanecer-se na plenitude de seu amor e não amortecê-lo estabilizando-o pelo casamento. Saber isso e não sucumbir à tentação do Maniqueísmo". Mas, Sr. Thibon, o senhor já sucumbiu à tentação. Essa concepção do amor-suicídio e estéril é bem conhecida no pensamento gnóstico. Parece-nos que o senhor ensinara outrora exatamente o contrário em "O que Deus uniu". Então? Que concluir?
A GNOSE DE TEILHARD DE CHARDIN
Não é nossa intenção retomar aqui o estudo do pensamento do célebre jesuíta. A coisa já foi feita com mão de mestre. Queremos apenas mostrar a filiação gnóstica desse pensamento. Teilhard foi ao mesmo tempo um iluminado e um iniciado, muito cedo, desde a juventude. Claude Cuénot declara que sua obra é fruto de uma iluminação: "Muitos relâmpagos já sulcaram o céu mental de Teilhard, o último em data sendo o Meio Divino..." O padre de Lubac, por seu lado, fala da "intuição primeira que uma reflexão incessante não consegue esgotar", cuja força ativa vem "de uma primeira centelha que tudo iluminou".
O próprio Teilhard confessa sua iniciação gnóstica em sua "Missa sobre o Mundo": "Sob o despertar de iniciação terrível e doce de que me fizestes sucessivamente transpor os círculos, cheguei a não poder mais ver nem respirar fora do meio em que tudo é um".
Sua égeria, sua iniciadora na Gnose foi a Sra. Maryse Choisy, diretora-fundadora da revista "Psyché", membro do "Droit Humain". Foi ela quem lhe fez "transpor os círculos" da iniciação maçônica.
Pouco antes de morrer, ele ainda lhe escrevia: "Cara amiga, que é feito de você? E em que pé está sua 'evolução'? Faça-me saber, faço questão, porque, apesar da distância e da ausência, continuamos a ter necessidade um do outro; há aí uma força preciosa que não devemos deixar dissipar-se".
Em sua última carta a Maryse Choisy, precisa: "Sinto-me cada vez mais preocupado (isto é, apaixonadamente interessado) pela busca do Deus (não somente cristão, mas transcristão) tornado necessário pelas exigências crescentes de nossa adoração".
Toda a tralha gnóstica que atulha as milhares de páginas de nosso jesuíta é tirada dos grandes escritores ocultistas e esotéricos: Schuré, Weiss, Benson.
"A embriaguez do panteísmo pagão, desviá-la-ei para um uso cristão, reconhecendo a ação criadora e formadora de Deus em todas as carícias e em todos os choques... A alta paixão da luta por saber, por dominar, por organizar, desencadeá-la-ei sobre os objetos naturais, mas com a segunda intenção e o fim último de prosseguir a obra humana... O amor ingênuo ou inquisidor da Terra-Mãe, divinizá-lo-ei, pensando que, desse todo misterioso que é a matéria, algo deve passar, pela ressurreição, ao mundo dos céus... E assim, sem ruptura, levado pela gradação natural do material, do vivo, do social, reencontro, no termo de meus desejos, o Cristo cósmico (se ouso dizer), aquele que ata no centro consciente de sua pessoa e de sua obra todo movimento dos átomos, das células, das almas..."
A iniciação gnóstica do P. Teilhard remonta à sua juventude. Seu espírito já era prisioneiro do culto da Terra-Mãe, de um evolucionismo delirante, de uma identificação da alma de Cristo com a matéria e os átomos. É preciso reconhecer aqui o sopro poderoso e devastador do espírito das trevas, que exalta as paixões mais baixas, as da ambição e da dominação.
Por fim, numa carta a Maryse Choisy, escrita de Nova York alguns dias antes de sua morte, em 10 de abril de 1955, o Padre Teilhard lhe dirige suas reflexões após a leitura de um texto de Jung, a quem chama seu "ilustre Mestre"...
Escreve à irmã, Sra. Teilhard-Chambon: "Li também Schuré, que é evidentemente muito tônico para o espírito. Faz sentir e pensar na ordem das realidades que nos interessam a ambos... Alegria de encontrar um espírito extremamente simpático ao meu — excitação espiritual ao entrar em contato com uma alma apaixonada pelo mundo — prazer de ver que meus ensaios de solução convêm, em suma, perfeitamente às visões dos 'Grandes Iniciados', sem alterar o dogma... Da leitura dessas páginas, tenho consciência de ter tirado até aqui sobretudo um acréscimo veemente de minha convicção na necessidade, para a Igreja, de apresentar o dogma de maneira mais real, mais universal, mais cosmogônica, ouso dizer".
Sentimento, paixão, excitação, veemência: todos esses termos mostram bem a alma enfeitiçada por uma atração satânica e uma tomada de posse demoníaca que retiram toda possibilidade de recorrer ao bom senso natural para rejeitar semelhantes futilidades.
Aliás, esse pensamento gnóstico assombrava o espírito do Padre Teilhard desde a juventude. Testemunha-o esta carta de 15 de março de 1916 ao Padre Fontoynont:
"A propósito da Assunção, Jung sustentaria a tese de que, na mística católica, a ascensão da mariologia seria obra das mulheres, que fazem questão de ver-se bem 'representadas' na estrutura do Reino dos céus. Mas minha convicção, ao contrário, é que essa ascensão tão notável do mariano ao lado do crístico é principalmente obra dos homens, dos homens votados ao celibato sobretudo. Os grandes devotos da Virgem foram homens: São Bernardo, São Francisco de Sales, São Luís Gonzaga, São João Berchmans etc. Ao passo que os grandes devotos do Cristo-homem — não digo do Cristo cósmico — foram mulheres, Santa Teresa etc. O fundo e o interesse da questão mariana, do 'fato mariano', é, a meu ver, trair uma irresistível necessidade cristã de 'feminizar', ainda que por uma atmosfera ou envoltório externo, um Deus, Iahweh, horrivelmente masculinizado, o que é simplesmente uma das faces presentes da sobredescoberta de Deus: Deus ao mesmo tempo 'cosmizado' e 'feminizado' em reação contra um certo 'paternalismo neolítico', demasiadas vezes apresentado como a essência definitiva do Evangelho. Que pensa o senhor? Bom ânimo para sua bela tarefa".
Eis, sob uma linguagem complicada e rebuscada, a evocação da "Sofia" dos gnósticos; um Deus feminizado é a forma feminina do Grande Todo Divino. Pela sobredescoberta de Deus, atingimos um Hiperteos, uma divindade–Sabedoria que contém e encerra todos os seres do Universo, do Cosmos.
Tudo isso mostra bem a formação maçônica do Padre Teilhard por intermédio de Maryse Choisy. É, pois, perfeitamente lógico encontrar na revista maçônica "Symbolisme" de abril/junho de 1962 esta afirmação significativa: "Não creio que os teólogos reconheçam facilmente o P. Teilhard como um dos seus. Mas é certo que os maçons, conhecendo bem sua arte, o saúdam como seu irmão em espírito e verdade".
Infelizmente! quantos teólogos o reconheceram como um dos seus, apesar do que diz a revista maçônica. Era preciso que o mundo eclesiástico estivesse singularmente maçonizado até os cumes da hierarquia para ter reconhecido e magnificado a obra de um "Irmão".
Para terminar e reencontrar os princípios que dirigiram nossas pesquisas neste capítulo, pensamos dever citar esta página inédita do célebre jesuíta:
"... Fazer surgir, das profundezas juvenis, magmáticas de seu ser, uma força ainda informe, mas poderosa, de aspiração e de esperança ilimitadas. Mugido das vagas sociais... todos os ruídos discordantes que sobem neste momento da massa humana, ressoando na medida de uma nota fundamental única... Somente nele, por bruscos afluxos, em dose maciça, de uma seiva nova, é o espírito religioso que borbulha e se transforma..."
Compreendemos bem que esse "Espírito" religioso, que borbulha ao surgir das profundezas magmáticas, com mugidos, vagas e ruídos discordantes, não é outro senão a Serpente gerada pela Terra-Mãe, saída desse mundo subterrâneo e infernal, desse solo misterioso e profundo de onde subiu para atrair por sua vez os homens e fazê-los mergulhar nesse "espelho cósmico", por uma queda no "Nada", no "Nirvana".
CONCLUSÃO
Constatamos que Satã aperfeiçoou sua estratégia desde as origens da Gnose. Outrora, propunha aos homens livrá-los de seu corpo, carapaça inútil e ganga terrestre, para libertá-los, soltar sua alma e permitir-lhe voar para o mundo da Luz.
Hoje, ao contrário, atrai o homem inteiro, corpo e alma, para as profundezas ctônicas de seu mundo subterrâneo. Explica aos homens que sua alma não é outra coisa que um movimento de átomos, um mugido de vagas, um amontoado de células, matéria inerte; que tudo isso deve voltar à sua fonte originária, magmática, ao COSMOS, o mundo de que ele, a Serpente, é o senhor soberano. É o que os Gnósticos de todos os tempos chamaram o Retorno à Unidade Primordial. Nada mais de libertação, de voo no azul, mas uma atroz sujeição à matéria. Chamamos essa atração para baixo uma "Miragem cósmica".
Limitamo-nos a expor o pensamento de cinco escritores contemporâneos que gozam, em nosso mundo paganizado, de imenso prestígio. Poderíamos também ter citado uma multidão de outros autores de hoje que continuam a difundir esse pensamento gnóstico e trabalham com encarniçamento diabólico para perder as almas. Para quê? Aqueles que se deram ao trabalho de seguir nossos estudos com toda a atenção necessária não terão dificuldade em reencontrar os temas aqui abordados em suas próximas leituras e serão por si mesmos capazes de reconhecer-lhes a malfeitoria. Dom Marcel LEFEBVRE, na época em que era Superior dos Padres do Espírito Santo, escrevera ao Sr. Alain Tilloy para lhe dizer sua concordância de fundo a respeito de seu estudo sobre Teilhard de Chardin:
"Caro Senhor Tilloy, Sua obra é uma tese que mostra as afinidades dessa doutrina de Teilhard de Chardin com ideologias antigas que se perpetuam ao longo de toda a história. A aproximação que o senhor faz é impressionante e faz compreender melhor o perigo das obras de Teilhard de Chardin... Sem ter podido, como o senhor, estudar esses estreitos laços com a Gnose e os autores gnósticos, eu chegava à mesma conclusão que o senhor quanto à contradição profunda, radical, do pensamento de Teilhard com o de Nosso Senhor..."
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
– Michel CARROUGES: "A mística do Super-homem" (NRF Gallimard, 1948); absolutamente notável, a completar por
– Jean CARRÈRE: "Os maus mestres: Rousseau, Chateaubriand, Balzac, Stendhal, George Sand, Musset, Baudelaire, Flaubert, Zola" (Plon, 1922)
– Charles Moeller: "Literatura do século XX e cristianismo. I. Silêncio de Deus: Camus, Gide, Huxley, Simone Weil, Graham Greene, Julien Green, Bernanos" (Casterman, 1947)
– "Les Cahiers d'Hermès", publicados sob a direção de Roland de RENÉVILLE, N.º 1: "As letras francesas e a Tradição" (La Colombe, 1947)
Monografias importantes:
– Paul ARNOLD: "Esoterismo de Baudelaire" (Vrin, 1972) – Jean MASSIN: "Baudelaire entre Deus e Satã" (Julliard, 1945) – J. de TONQUÉDEC: "Sobre a filosofia bergsoniana" (Beauchesne, 1936) – Alain TILLOY: "Teilhard de Chardin, pai da Igreja ou pseudoprofeta?" (Éd. St Michel, 1967) – Paul-Bernard GRENET: "Pierre Teilhard de Chardin ou o filósofo a contragosto". Beauchesne, 1960.