Cadernos Barruel 16 - 1987

DESENVOLVIMENTOS ATUAIS DA GNOSE

Desde seu primeiro Boletim, há oito anos, a Sociedade Augustin Barruel não cessou de alertar seus leitores sobre as realidades subversivas, e há quatro anos, com o nº 9, ela enfatizou a mais recente destas, a mais perigosa certamente, a penetração neognóstica nos meios católicos, especialmente aqueles que rejeitam a Revolução na Igreja.

Recordemos os estudos já publicados:

Hoje, a subversão gnóstica continua a se desenvolver a bom ritmo, especialmente na França, onde conta com inúmeras cumplicidades em meios supostamente antirrevolucionários, e até mesmo católicos.

Convém retomar essa questão para fazer um balanço a respeito de algumas manifestações recentes, ilustradas por cinco documentos nos quais se vê a influência guenoniana espalhar-se descaradamente.

Reproduzimos esses documentos em fac-símile, contentando-nos em comentá-los brevemente.

I – UM PADRE GUENONIANO EM ÉCÔNE...

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Sim, o leitor leu bem: o padre Leschenne, ordenado sacerdote em Écône em 27 de junho de 1986, afirma-se discípulo de Jean Borella e do pensamento expresso em "A Caridade Profanada"; melhor ainda, atribui a eles a origem de sua vocação.

Várias questões vêm imediatamente à mente, das quais reteremos as três principais:

1°) De que vocação se trata? Se nos lembrarmos de tudo o que foi escrito sobre o assunto nos números anteriores deste Boletim, é evidente que se trata de uma vocação "esotérica", destinada a fazer penetrar as doutrinas e práticas gnósticas sob o pretexto e por meio do sacerdócio católico; para melhor compreender, favor consultar dois estudos anteriores: "Gnose e gnosticismo na França no século XX", Boletim n° 12, página 10 especialmente, e "Itinerários rumo a um esoterismo cristão", Boletim n° 13, páginas 4 e 5.

2°) Essa dupla natureza do padre Leschenne era conhecida de seus superiores? Sem dúvida, já que há alguns anos a posição deste Padre esteve em perigo no Seminário de Écône, onde se sabe que numerosas discussões e disputas opunham adversários e partidários do Borellismo e da Gnose.

Nessas condições, não se pode deixar de se surpreender com tal ordenação final... e de questionar as reais intenções de superiores que encobrem tais manobras, ainda mais que esta ordenação não é a única desse tipo.

3°) A última questão levantada será a do papel futuro deste padre recentemente nomeado Prior em Dijon, perto do novo Seminário de Flavigny: imagina-se sem dificuldade os possíveis, prováveis, estragos de tal influência junto aos jovens seminaristas indefesos.

II - O FIGARO E OS GUENONIANOS

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O segundo documento publicado pelo Figaro-Magazine no início do mês de junho possui um duplo interesse: por um lado, confirma, se necessário fosse, a posição favorável desta publicação, e da vasta corrente que ela expressa, em relação ao Guenonismo; por outro, nos dá a conhecer os participantes do Colóquio Guenoniano de novembro de 1986, cujos nomes se revelam repletos de ensinamentos, confirmando o adágio "quem se assemelha se junta":

Pierre Alleau, um dos mais antigos e famosos esoteristas contemporâneos, foi o principal animador do Colóquio dedicado em 1976 a René Guénon em Cérisy-la-Salle, primeira aparição ao ar livre das redes guenonianas constituídas ao longo dos quarenta anos anteriores.

Paul Barba-Negra, autor de numerosos filmes esotéricos sobre lugares emblemáticos da França, colaborador da conhecida organização gnóstica internacional "Nova Acrópole", famosa por suas posições doutrinariamente sincréticas (Egito, América do Sul, Alquimia, Platonismo, etc.) e politicamente direitistas.

Jean Biès, universitário de Perpignan, animador do grupo "Epignosis" que reúne cerca de trinta universitários gnósticos; este organismo, oficialmente instalado no âmbito da Universidade de Perpignan, publica documentos bastante esclarecedores, especialmente uma rica bibliografia cobrindo a centena de obras que convém ler para conhecer o essencial da Gnose antiga e moderna.

Jean Borella, evidentemente...

Roland Goffin, diretor da revista guenoniana "Vers la Tradition" já citado em artigos anteriores.

Jean-Pierre Laurant, estudioso universitário da maçonaria, que investigou extensivamente o caso de Joseph de Maistre.

Michel Michel, sociólogo de Grenoble, conhecido por suas opiniões próximas às da Action Française, e principal animador do grupo "Tradição e Modernidade". Grenoble é um importante centro gnóstico, reduto do acadêmico Gilbert Durand, e de outro participante deste colóquio,

Jean-Pierre Schnétzler, médico psiquiatra e monge budista, que participou há três anos (Pentecostes de 1984) de um encontro no centro budista da antiga Cartuxa de Saint Hugon, na companhia de François Chénique, amigo de Jean Borella.

Louis Pauwels, ex-discípulo dos Surrealistas, depois de Gurdjieff, grande chefe da "Planète", figura eminente do Figaro-Magazine, e "recente convertido" ao catolicismo tradicional, embora, segundo a notoriedade pública, seja membro do Grande Oriente e muito próximo da Nova Direita.

Jean Phaure, do grupo Atlantis, portanto especializado em esoterismo cristão e próximo de certos meios São Pio V.

Michel Random, especialista em esoterismo muçulmano, bem como em artes marciais japonesas.

Jean Tourniac, o mais antigo e famoso especialista na mistura Cristianismo/Maçonaria, escreveu um grande número de obras diversas sobre este tema.

Jean Hani, já conhecido de nossos leitores, helenista, subdiretor do centro de estudos das mitologias da Sorbonne, e autor de três obras muito difundidas nos meios católicos tradicionais: "O Templo Sagrado", "A Divina Liturgia" e "A Realeza Sagrada, do Faraó ao Rei Cristianíssimo"; também redator da revista guenoniana "Rumo à Tradição", e especialista em questões de deslizamentos simbólicos: cf. o estudo "Os perigos do simbolismo: o caso de Jean Hani" publicado no Boletim n° 15.

É necessário sublinhar que se reencontra neste areópago especialistas dos diversos ramos da neo-gnose? Maçonaria, Islamismo, Budismo, Esoterismo cristão, os componentes do coquetel são sempre os mesmos, e a clientela à qual se destina é cada vez mais evidente.

É igualmente interessante notar a importância da participação universitária, o que confirma que, se os primeiros discípulos de Guénon eram recrutados sobretudo entre místicos e pesquisadores individualistas, hoje, a Universidade se deixou amplamente penetrar — o que não deixa de exercer certo prestígio sobre espíritos primários.

III - O ECUMENISMO POLÍTICO EM REIMS

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A leitura da última obra de Jean Hani, "A Realeza Sagrada", e de diversos artigos da revista "Rumo à Tradição", bem como de alguns outros, mostra que há muito tempo os discípulos de René Guénon não se contentam com a mística, mesmo esotérica: reivindicando a autoridade espiritual contra o racionalismo, eles aspiram igualmente ao poder político, e em um mundo arruinado pela Revolução, eles se fazem passar com demasiada facilidade por anti-revolucionários (quando seu pensamento profundo constitui a própria Essência da Revolução).

No caso presente, no entanto, basta ler para ver e conhecer os pontos de referência confessados:

Em sua obra O Mito do Graal, ou a Ideia Imperial Guelfa, Julius Evola inclinava-se pela superioridade do Imperador sobre o Papa, a exemplo de seu modelo, o imperador alemão Frederico II de Hohenstaufen, cuja guarda pessoal aquartelada na Sicília era muçulmana.

Essa divergência, embora à primeira vista muito importante, entre os evolianos e os puros guenonianos, e que explica algumas observações cortantes aqui e ali, não impede, no entanto, a colaboração no essencial, como constatamos aqui.

E, aliás, se nos debruçarmos um pouco mais sobre essa questão da primazia do espiritual sobre o temporal, à qual os guenonianos aparentemente dão tanta importância, não podemos deixar de constatar o que ocorre, inclusive no seio do Islã, que é seu modelo, implícito ou explícito, constante.

Não há poder espiritual islâmico, daí o esfacelamento em uma multitude de seitas penosamente canalizadas pelos poderes temporais, a não ser no interior das confrarias místicas três quartos secretas e esotéricas; é, aliás, a elas que se ligam a maioria dos discípulos de René Guénon, como Fritjof Schuon, grande recrutador de europeus para essas seitas, e bem conhecido dos católicos da fronteira franco-suíça.

IV - O COLÓQUIO GUENONIANO DE LYON

Os textos publicados abaixo confirmam em todos os pontos o que nossos leitores conhecem há muito sobre o pensamento guenoniano; seus fundamentos, a Maçonaria e o Islã; seu meio principal, a crítica ao mundo moderno; seu objetivo, a recuperação e a subversão dos cristãos; mas têm sobretudo o mérito de destacar dois pontos importantes sobre os quais nos alongaremos um pouco.

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O primeiro é o da tolerância interconfessional, velha mania maçônica: tal princípio não surpreende quem conhece a trajetória e o fundo do pensamento do místico de Blois; mas deveria chocar, no mínimo, o mundo católico tradicional, que atualmente é um dos públicos-alvo do guenonismo. É verdade que, após a reunião politeísta de Assis e as viagens orientais de João Paulo II, tal atitude não pode, ao contrário, deixar de satisfazer os meios romanos.

O próprio título do Colóquio, Unidade transcendente e universalidade das religiões, bastante explícito por si só, confirma que o ecumenismo é a marca dominante do debate atual. Trata-se, claro, desse ecumenismo de direita, poder-se-ia dizer, ao qual já fizemos alusão em um artigo do Boletim nº 12, p. 11, ecumenismo fundado no esoterismo, e que finge se opor a um outro ecumenismo, mais raso, menos sutil, racionalista, o do Conselho Ecumênico das Igrejas, que também estudamos no passado (Boletins nº 7 a 13).

O segundo interesse deste documento é fazer aparecer novas figuras da rede guenoniana; ao lado dos dirigentes da Nova Acrópole, Schwartz e Bricnet, Barbanégra e Michel Michel, citados acima, mencionam-se dois jornalistas, Michel Henri Coste, do jornal Rhône-Alpes, e Jean-Jacques Gabut, do Lyon-matin (dois jornais do grupo de Robert Hersant, como o Figaro). A assinalar que há alguns meses Gabut fez uma conferência sobre a Gnose e o cristianismo diante da mesma Associação dos Amigos do Museu Guimet. Roger Payot, por fim, é universitário em Lyon III, reduto da Nova Direita e do Clube do Relógio, emanado do Grece.

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Pode-se notar também que o Colóquio organizado pela Nova Acrópole era patrocinado por outras duas estruturas gnosticizantes bem conhecidas:

= Os Amigos do Museu Guimet, que se dedicam há muito tempo, assim como o próprio Museu Guimet, criado com esse objetivo, à propaganda orientalista, especialmente Índia e, sobretudo, Egito.

= Os Cadernos de l'Herne, que editam enormes números especiais dedicados cada um a um pensador gnóstico famoso: Guénon, Corbin, Abellio, Jung, etc.

Não é desprezível ver assim aparecer à luz do dia uma parte dessa teia de aranha gnóstica, pacientemente tecida há várias décadas e graças à qual os princípios da Gnose anticristã puderam deixar o círculo limitado dos cenáculos orientalistas e maçônicos para se infiltrar amplamente nos meios católicos, e mesmo entre os mais fiéis da tradição, como mostra o caso do padre Leschenne, guenoniano e boreliano ordenado em Econe em 27 de junho de 1986, com pleno conhecimento de causa.


Se considerarmos os temas escolhidos, encontramos, sem surpresa, os diversos elementos da manobra neognóstica.


As outras comunicações buscam precisar as formalidades concretas da manobra guenoniana em nosso mundo contemporâneo, seja no âmbito do intelecto, da sociedade ou do mundo político.

V - NOVA ACROPÓLE: UM CENTRO GNÓSTICO A CÉU ABERTO

Entre as oficinas consagradas à propaganda subversiva para o grande público, a Nova Acrópole é certamente uma das mais famosas e dinâmicas; é, portanto, interessante examinarmos agora o programa da seção de Lyon para o último trimestre de 1986.

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As Oficinas do Homem Global constituem o ensino de base repetido mês a mês: fundada nas doutrinas gnósticas do Egito e da América do Sul e mesclada com um apelo constante ao super-homem, essa formação visa selecionar uma elite encarregada de espalhar a Gnose pelo mundo.

Os ensinamentos complementares estão bem na mesma linha: o cristianismo esotérico, isto é, aqui a gnose maniqueísta e a metempsicose; o sentido oculto da música mozartiana: não se pode esquecer que, além de sua altíssima qualidade musical, Mozart era um músico maçônico, fato particularmente nítido em uma obra como A Flauta Mágica, que Jacques Chailley pôde qualificar de ópera maçônica; o espírito do Budo é a teologia budista, panteísta, subjacente às diversas artes marciais, que é desenvolvida por Michel Random, já encontrado no colóquio guenoniano de Paris e também especialista em esoterismo muçulmano;

Quanto ao concerto de música de Natal numa igreja católica, é uma prática renovada ano após ano, com o mesmo grupo Guillaume de Machaut: o que é mais cômodo quando se quer passar por católico, uma vez que o clero (conciliar, neste caso) é cúmplice, e por que se incomodar?

A aproximação dessas diversas manifestações, em alguns meses, em Lyon, Nancy, Paris, Reims, onde se encontram os mesmos homens, os mesmos temas, habilmente entrelaçados e graduados segundo públicos particulares, deve bastar para fazer refletir as pessoas de boa fé e abrir os olhos daquelas que ainda não haviam sido informadas do escândalo permanente da penetração gnóstica nos meios católicos.

Quanto aos demais, seja qual for sua vestimenta, sua fingida ignorância tem cada vez mais dificuldade em dissimular uma cumplicidade real, profunda e lúcida. Então Deus julgará...

P. R.

A DESCOBERTA DO ISLÃ - III

O PODER TURCO DO SÉCULO XI À QUEDA DE CONSTANTINOPLA

A DINASTIA DOS SELJÚCIDAS (1050 - 1260)

Ela iria cuidar da reconquista sunita em meio muçulmano e, para esse fim, os Seljúcidas criaram numerosos colégios religiosos para formar missionários destinados a todo o Oriente contaminado pelo Xiismo.

Muito rapidamente, eles se chocaram com as tropas do Basileu grego, e em Manzicerta, por volta de 1071, a derrota e a captura deste último marcaram o fim da Armênia cristã. Os Seljúcidas só tiveram que explorar sua vitória. Em 1076, eles penetraram em Jerusalém e, a partir de 1078, ocuparam quase toda a Ásia Menor. Mais ainda, Nicéforo Botaniates, persuadido de que o dinheiro pode obter tudo, imaginou tomar suas bandas a seu soldo e ele mesmo as instalou no Helesponto, na Propôntida e no Bósforo...

Em 1081, a chegada ao trono de Bizâncio de Aleixo Comneno marcou o fim da anarquia. O chefe turco Solimão, principal vassalo do Imperador do Oriente, recusou-se a reconhecê-lo e proclamou-se independente. Niceia foi a primeira capital da dinastia.

Em Roma, o Papa Gregório VII, o Reformador, marcou o início de uma sucessão de Papas muito ouvidos. A vida monástica se desenvolvia de forma extraordinária. Os descendentes dos Vikings, os normandos convertidos, instalaram-se no sul da Itália, raça de homens ávidos e bons guerreiros que cobiçavam o Oriente e suas riquezas.

A tomada de Jerusalém foi sentida com muita emoção pelo mundo católico, cujos peregrinos rumo aos Lugares Santos enfrentavam extremas dificuldades, sendo frequentemente reduzidos à escravidão. A ideia tomava corpo de uma necessidade de intervenção para libertar a região do domínio muçulmano e livrar o Santo Sepulcro. Já os normandos de Cápua e da Apúlia, pondo fim ao domínio bizantino na Itália, conseguiram conquistar a Sicília sobre os muçulmanos. A tomada de Palermo em 1072 pôs fim à operação.

Uma tentativa de derrubar o Basileu ocorreu, na forma de uma ofensiva normanda em direção a Bizâncio, a partir de um desembarque em Dirráquio (Albânia), onde as tropas de Aleixo Comneno foram esmagadas. A partir dessa data, começam o jogo duplo dos Basileus e a desconfiança dos europeus. Tendo salvo seu trono com uma habilidade duvidosa, reincidiu contra os bárbaros do Norte... e, finalmente, sem vergonha, pediu a ajuda da Cristandade. Com ou sem apelo, no final de 1095, o Papa Urbano II pregou a Cruzada.

Em relação aos turco-muçulmanos, o momento era oportuno. Desde a morte do terceiro Sultão seljúcida, Maleque Xá, em 1092, o império estava dividido em três partes. A Ásia Menor, de Niceia a Cónia, chamada Sultanato dos Rum, cobrindo aproximadamente o território da Turquia atual; a Pérsia, onde dois de seus filhos disputavam o trono; e a Síria, com duas capitais opostas: Alepo e Damasco. Mais ao sul, os egípcios odiavam os turcos.

A Primeira Cruzada (1096 - 1099)

Ela ocorreu em duas ondas sucessivas. O pregador Pedro, o Eremita, e alguns senhores pobres partiram com uma multidão de pessoas humildes e pobres: homens, mulheres, crianças, jovens e velhos! Muitas nacionalidades se misturavam ali. Inquieto, o astuto Aleixo Comneno emprestou-lhes seus navios e os desembarcou nas margens do Mar de Mármara, a poucos passos das tropas seljúcidas, talvez previamente avisadas. Foi um verdadeiro massacre. Apenas alguns milhares de pessoas escaparam.

Elas se juntaram à segunda onda, a cruzada senhorial, que estava chegando. Os chefes se chamavam Godofredo de Bulhão, duque da Baixa Lorena; Hugo de Vermandois, irmão do Rei da França Filipe I; Raimundo de Saint-Gilles, Conde de Toulouse; e o normando Boemundo de Taranto. Vindos por terra, os quatro corpos do exército, totalizando cinquenta a cem mil homens, fizeram sua junção em 1097 diante de Bizâncio; Aleixo Comneno, manobrando, só os fez passar para a Ásia após obter certas vantagens.

O primeiro trabalho dos cruzados foi tomar de assalto a cidade de Niceia, capital dos turcos. Os cruzados avançaram penosamente através da Anatólia para chegar à Síria. Em Dorileia, em 1º de julho de 1097, os seljúcidas atacaram uma tropa muito reduzida pelo calor. Graças a Godofredo de Bulhão, o confronto terminou com o esmagamento dos muçulmanos. Os cristãos armênios, refugiados na cordilheira do Tauro, facilitaram a travessia da montanha. Os francos sitiaram Antioquia. Graças a reforços em homens e material vindos pelo mar, com a cumplicidade dos armênios residentes, a cidade foi tomada em 2 de agosto de 1098. Imediatamente cercada por um exército muçulmano sob as ordens do Sultão de Mossul, uma violenta surtida a libertou definitivamente.

As rivalidades entre os chefes e a duplicidade do Basileu, que retomou contato com os fatímidas do Egito, fizeram a tropa estagnar. Os francos avançaram muito lentamente, de modo que Jerusalém lhes apareceu em 7 de junho de 1099. A cidade estava ocupada pelos egípcios. Reforços, principalmente materiais, chegaram pelo mar em Jafa. O assalto foi dado em 15 de julho. Ao anoitecer, tudo estava terminado.

Era necessário deixar uma guarnição, comandada por um chefe de valor. Godofredo de Bulhão foi designado. Um ano depois, seu irmão Balduíno o sucedeu à frente do Reino Franco de Jerusalém, que deveria durar quase dois séculos. A união nunca pôde ser realizada entre os gregos e os cruzados.

Por outro lado, estes nunca consideraram o Islã como um bloco, deixando-se enganar pela aparência de divisões que não eram senão lutas pelo poder aqui ou ali, mas dentro da Umma. Frequentemente se aliaram a bandos muçulmanos e até lutaram entre si.

As manobras do Basileu e a desunião dos latinos permitiram que os muçulmanos tomassem de assalto a cidade de Edessa, capital de um Condado fundado pelos cruzados de Balduíno de Hainaut. Os seljúcidas, no final de 1143, haviam encontrado na pessoa do Atabeg Zengui um notável chefe de guerra; a cidade foi palco de uma orgia de horrores. Essa verdadeira catástrofe levou o Papa Eugênio III a pregar, em dezembro de 1145, o apelo a uma nova cruzada. A ação e as pregações de (São) Bernardo, particularmente a da Páscoa em Vézelay, em 1146, permitiram a concretização do empreendimento.

A Segunda Cruzada (1147 - 1148)

Ela compreendeu dois exércitos. O primeiro sob o comando do Rei da França, Luís VII, acompanhado de sua esposa Leonor da Aquitânia; e o segundo dirigido pelo germânico Conrado III, cunhado do Basileu. Chegando diante de Bizâncio antes dos francos, o Imperador não os esperou. Qual o papel do grego? Ele fez passar os germânicos rapidamente para a Ásia... e, por um acaso surpreendente, os seljúcidas, reunidos em força, os esmagaram em Dorileia, em 26 de outubro de 1147.

O Rei da França chegou. O Basileu mais uma vez adotou uma postura repleta de falsidade. Ocultou o desastre germânico e enviou os cruzados para o sul de seu território. Uma vitória penosa, seguida de uma sangrenta derrota em Laodicéia, selou a imperícia do comando. Abandonando seus soldados, o Rei e o Imperador embarcaram para a Síria. Juntaram-se em Tiberíades ao jovem Rei de Jerusalém, Balduíno III.

Rivalidades impossíveis, escândalos em torno de Leonor, falta de senso tático: em vez de se dirigirem a Alepo e ao norte, os Príncipes preferiram atacar Damasco. A cidade foi tomada, mas o saque durou tanto que os muçulmanos puderam se rearticular. Noradino obrigou o Rei e o Imperador a reembarcarem. O turco ampliou seu sucesso.

Balduíno III opôs-se com coragem à sua ação e conseguiu contê-lo. Se não impediu que Damasco fosse conquistada em 1154, ele esmagou seu adversário nas margens do Lago de Tiberíades, graças aos Cavaleiros do Templo. Sua morte, em 1160, foi tão súbita que se falou em envenenamento.

Nessa época, o príncipe seljúcida da Síria recebia apelos do Egito. Pedia-se sua intervenção para reprimir as desordens de todos os tipos que marcavam a decadência dos fatímidas e que corriam o risco de favorecer as ações dos Cruzados na Palestina. Estes, lamentáveis diplomatas, não aproveitaram a ocasião.

O Califa seljúcida enviou, portanto, um exército sob o comando de um curdo emigrado da família dos aiúbidas, o Vizir Chirkouh. A conquista foi concluída em 1171. Com a morte do Vizir, o título passou para seu sobrinho e herdeiro Saladino, que, até sua morte em 1193, se mostraria o homem forte do Islã. Tendo o exército à sua disposição, Saladino assumiu o poder total em Damasco e se dedicou a restaurar a unidade. Depois de estender suas possessões até seu país de origem, conseguiu cercar o Reino Franco.

O Reino de Jerusalém, desde a perda do Condado de Edessa, de Alepo e do território de Antioquia situado além do Orontes, começava no Mediterrâneo em direção a Alexandreta (Iskenderun), englobava Antioquia, seguia a margem esquerda do Orontes, depois se alargava abaixo de Damasco, passava ao lado esquerdo do Litani, descia além do lago de Tiberíades e do curso do Jordão, além do Mar Morto, subindo até Gaza.

Tendo terminado com o cisma egípcio, Saladino retomou a jihad. Apesar da heroica resistência do jovem Rei leproso Balduíno IV, que conseguiu libertar o Krak de Moab, do outro lado do Mar Morto, antes de morrer em 1185, a revanche muçulmana se concretizava.

Os sucessores incapazes e rivais, a carência dos chefes permitiram que Saladino esmagasse o exército dos cruzados em Hattin, nas colinas acima de Tiberíades, em julho de 1187. Nada pôde então deter seu avanço. Uma após a outra, São João d'Acre, Sidon, Ascalão, Nazaré sucumbiram. Tiro resistiu. Finalmente, em 2 de outubro de 1187, Jerusalém lhe abriu suas portas.

Do Reino de Jerusalém, restava apenas a fortaleza de Tiro; do Principado de Antioquia, apenas a cidade e a fortaleza de Margat; do Condado de Trípoli, apenas a cidade, Tortosa e o Krak dos Cavaleiros. Era um verdadeiro aniquilamento, dolorosamente sentido na Cristandade e por um homem corajoso e bom chefe de guerra que se encontrava em Tiro, Conrado de Monferrato.

Enquanto os vencidos se recuperavam e se preparava na Europa, por instigação do Papa Clemente III, a 3ª cruzada, o Islã se expandia para o Leste.

A Terceira Cruzada (1189 - 1191)

O Islã se expandia em direção à Índia. De fato, a tribo turca dos gaznávidas, senhores do Afeganistão, transpôs as montanhas sob as ordens de Mahmud e se estabeleceu no Punjab, a partir de 1021. Os gaznávidas governaram a Índia gangética até 1191. Um muçulmano afegão da família dos rúridas os eliminou. Afirmando sua independência, fundou o Sultanato de Deli. Por volta de 1202, havia anexado o Doab e o Bengala. Evolução tornada clássica, como em muitos outros estados muçulmanos, o poder foi finalmente apropriado por seus tenentes mamelucos em 1206...

Se a unidade foi restaurada da Ásia Menor ao Egito e em todo o Oriente, sob a bandeira de Saladino, isso não era sequer cogitado no Norte da África, onde tribos e ritos diversos travavam uma luta impiedosa. Muito antes de tomarem o poder no Cairo, os fatímidas de Cairuão intervieram no Ocidente.

Após a morte de Idris II, em 829, seus sucessores dividiram o Marrocos. Esperando restaurar o xiismo e seu domínio, um exército vindo da Tunísia invadiu o país e pôs fim ao reinado dos idríssidas. O xiismo não conseguiu se impor, e o sunismo permaneceu o rito de um grande número de pequenas repúblicas berberes... O conjunto passou ao controle do Emir de Córdova em 980.

Em 909, os mesmos fatímidas intervieram no Reino de Tiaret, também vassalo de Córdova. A ordem xiita não pôde ser restaurada. Finalmente, senhores do Egito, eles usaram tribos saqueadoras a seu soldo para realizar uma terrível repressão: a invasão hilaliana. A partir de 1148, os berberes da tribo dos ziridas já se haviam refugiado na costa mediterrânea, em Bugia. A grande massa berbere, após os ataques de 1052, tornou-se nômade e se espalhou de um extremo ao outro do Saara. Eles permaneceram fiéis ao sunismo.

Uma tribo, os sanhaja, havia sido doutrinada por um peregrino de volta de Meca. Desejosos de trazer os muçulmanos de volta à verdadeira fé, esses nômades das areias, velados de azul, organizaram-se em comunidades religiosas guerreiras, "al-muribatum", sob o nome cristianizado de Almorávidas. Lançaram-se à conquista do Marrocos. Já em 1054, os oásis estavam em seu poder e, em 1059, todo o sul marroquino.

Seu Yusuf I fundou Marraquexe em 1062. Apoderou-se de Fez e até mesmo de Argel em 1082. Muçulmano sunita muito ortodoxo, fazia rezar a oração ritual em nome do califa abássida.

A pedido dos emires espanhóis, Yusuf e seu exército de homens velados e negros passaram para a Espanha. Diante da Reconquista católica, a jihad pura e dura recomeçava.

Desde cerca de 1063, o Papa Alexandre II havia encorajado os cavaleiros franceses a se juntarem aos espanhóis para lutar contra os infiéis. Todas as grandes ordens religiosas participaram da organização dessa Cruzada. Não apenas a Marca criada por Carlos Magno e o conjunto dos pequenos Estados que permaneceram católicos, Astúrias, Galiza, Castela, Navarra, Aragão, Catalunha, agarrados às suas montanhas, haviam resistido, mas nas partes ocupadas, fortes núcleos católicos, os moçárabes, mantinham vigorosamente sua fé.

Em 920, o omíada de Córdova havia tomado o título de Califa. No final do século, o empreendedor Almançor tentara reduzir a resistência por meio de razias destruidoras. Em 997, arrasou Santiago de Compostela, exceto o Santo Sepulcro... Em seguida, os muçulmanos, amolecidos pelo clima e pela vida fácil, aquietaram-se. Em 1031, o Califado foi substituído por uma federação de vinte e três pequenos reinos, os "Taifas".

Consciente da fragmentação e, portanto, da fraqueza gerada, o Rei de Castela, Fernando I, o Grande (1033-1065), iniciou uma campanha. Conseguiu conquistar um certo número de Taifas. Seu filho Afonso VI (1065-1109) convocou cavaleiros e monges em seu auxílio. O Papa Gregório VII pregou uma verdadeira cruzada. O exército católico retomou a ofensiva. Toledo caiu em 1085, após mais de dois anos de cerco. A guerra tornou-se geral. Os emires, apavorados, fraquejaram... e os guerreiros velados almorávidas fizeram sua aparição.

No final de junho de 1086, a situação foi revertida. Em poucos anos, a nova dinastia impôs ao país uma autoridade rígida e uma religião fanática. Em outubro de 1086, Yusuf massacrou o exército do Rei Afonso VI em Zalaca.

De atacantes, os católicos tornaram-se defensores. Encontraram um notável chefe de guerra na pessoa de Rodrigo de Bivar, "Sid Campidictor", o Cid Campeador, que morreu em julho de 1099, no momento em que os Cruzados penetravam em Jerusalém. A luta continuou com acirramento, com altos e baixos.

Os almorávidas conseguiram invadir Portugal; os mouros da Provença intervieram e tomaram as Ilhas Baleares, de onde atacaram Barcelona. Afonso I de Aragão (1104-1134) impôs-se como chefe dos católicos. Da tomada de Saragoça em 1118 à de Córdova e Granada em 1126, os almorávidas, embora derrotados, não foram eliminados.

Em seu país de origem, berberes do Atlas se revoltaram, liderados por um "Madhi", Muhammad ibn Tûmart. Desejando reagir contra o laxismo religioso e moral dos outros muçulmanos, esses berberes afirmavam-se "Confessores da Unidade de Deus", os almôadas.

De 1120 a 1146, uma verdadeira guerra religiosa, amarga e cruel, ocorreu através do Marrocos pela tomada do poder. Desde o início, os Zíridas os chamaram para Bougie. Abd al-Mu'min, sucessor de Ibn Tûmart, conquistou toda a Tunísia. Ele esmagou, em uma justa reviravolta, a tribo dos invasores saqueadores de 1052, os Banû Hilal. Ele não esqueceu os católicos nativos, cujo desaparecimento obteve por meio de perseguições. Ele repeliu as tentativas de desembarque em Bougie dos normandos e dos almorávidas das Baleares. A Tunísia tornou-se um vice-reino almóada, controlado pela família dos hafáridas. Eles dominaram todo o leste argelino. O Magrebe central dependia do Emir de Tlemcen, um abdaluádida. Os almóadas passaram, desde sua entrada no Marrocos, para a Espanha. Em 1145, eles haviam subjugado os almorávidas. Abd al-Mu'min declarou-se Califa em 1147.

A resistência e, em seguida, a ofensiva católica contra os novos senhores foram lideradas pelo Rei de Portugal, Afonso Henriques. Ele foi, em algumas operações, auxiliado por uma frota de cruzados anglo-franceses. Mas a pressão da reconquista foi interrompida pelo chefe almóada Iácome, em Alarcos, em 1195.

Finalmente, uma coalizão organizada sob o impulso do Arcebispo de Toledo, ajudada pelos Cruzados, liderada por vários reis, enfrentou-se para a batalha decisiva com as tropas de Iácome, o mesmo Iácome que em 1220, no Marrocos, decapitou com sua própria mão cinco franciscanos enviados da Espanha pelo rei mouro de Sevilha, perto da Serra Morena, em junho de 1212, em Las Navas de Tolosa. A vitória marcou o fim do poder almóada. No momento de sua morte em 1252, o Rei Fernando III deixou aos muçulmanos apenas o pequeno reino de Granada, sem ambições guerreiras.

Enquanto se desenrolavam as peripécias da "Reconquista", o drama eclodiu entre os bizantinos e os católicos. Por uma questão de casamento, "a populaça massacrou em plena Bizâncio os fiéis de Roma, sob a direção dos monges cismáticos que clamavam pelo carnificina. A cabeça cortada do Legado Pontifício foi amarrada ao rabo de um cão..." Aproveitando-se desses distúrbios muito violentos, um novo Basileu tomou o poder, Isaac II Anjo.

O novo Imperador viu surgir um novo problema. Os exércitos da III Cruzada se aproximavam.

Por via terrestre, dirigiam-se para Bizâncio as tropas do Imperador Germânico Frederico Barbarossa. Haviam se reunido na Sicília um exército comandado pelo Rei da França Filipe Augusto, e outro dependente do filho de Leonor da Aquitânia, ex-esposa de Luís VII, pai de Filipe Augusto, e de Henrique II Plantageneta, Rei da Inglaterra. O príncipe comandante de guerra era Ricardo, que ganharia seu apelido de "Coração de Leão". O mínimo que se pode dizer é que os dois comandantes não se suportavam.

Os germânicos chegaram primeiro. O Basileu se submeteu e os fez passar para a Ásia Menor, onde seu avanço foi muito rápido. A capital dos seljúcidas foi tomada, Saladino recuou precipitadamente.

Infelizmente, Frederico morreu de congestão após um banho. Nesse mês de junho de 1190, o exército se desintegrou. Algumas tropas juntaram-se, em São João d'Acre, ao corpo expedicionário franco-inglês finalmente desembarcado. Em 12 de julho, a cidade foi tomada de assalto. Filipe Augusto, considerando seu voto cumprido, reembarcou. Ricardo ficou sozinho para continuar a guerra. Suas vitórias serviram apenas para torná-lo quase amigo de Saladino. Este aceitou assinar um tratado garantindo a todos os cristãos o livre acesso aos Lugares Santos.

Saladino morreu em 1193. Seus herdeiros dividiram o império. Houve dois sultanatos, o de Damasco e o do Cairo. Sua autoridade dependia em grande parte de suas tropas, os mamelucos, em sua maioria de origem turca.

Os cruzados, que se reinstalaram na costa síria, obtiveram de Damasco o estabelecimento de um modus vivendi, economicamente lucrativo para ambas as partes, quanto ao uso dos portos.

Um novo Papa, Inocêncio III, subiu ao trono de Pedro em 1198. Ele se empenhou em relançar uma cruzada. Foi apenas com muita dificuldade que se organizou gradualmente

A Quarta Cruzada (1201-1204)

Desde o início, foi uma cruzada verdadeiramente desviada! Para obter os navios necessários ao transporte de suas tropas, os chefes Bonifácio de Montserrat, Simão de Monfort e o escritor Godofredo de Villehardouin tiveram que passar pela vontade do Doge de Veneza.

Os Cruzados esmagaram a cidade dálmata de Zara, uma temível rival comercial. Em seguida, um membro da expedição, filho de Isaac Ângelo, o basileu deposto, conseguiu levá-los a conquistar Bizâncio para retomar o poder.

Em 17 de julho de 1203, a cidade foi tomada sem muita dificuldade. Isaac Ângelo e seu filho recuperaram o trono. Por fim, o povo se revoltou e liquidou os dois soberanos. Muito irritados, em 13 de abril de 1204, os Cruzados retomaram a cidade. O massacre e o saque foram abomináveis e sacrílegos. A fortaleza que impedia os muçulmanos e outras hordas asiáticas ou eslavas de passar foi destruída.

Apesar da criação de um novo Império Romano do Oriente, chamado Império Latino e confiado a Balduíno de Flandres, nada pôde impedir sua decadência. Os ataques dos búlgaros e dos descendentes dos antigos basileus levaram à rendição do Império Latino a Miguel Paleólogo, em 1261. Apesar dos esforços do basileu, Bizâncio nunca recuperou seu poder e, no início do século XIII, uma tribo turca, cheia de ambição, acampava sob suas torres.

Mas o perigo imediato, tanto para os seljúcidas quanto para os cristãos, viria das estepes que margeiam o lago Baikal. No momento em que os Cruzados saqueavam Bizâncio, uma raça de cavaleiros extraordinários, os mongóis, lançava-se para conquistar as riquezas da China, da Pérsia... e do Ocidente.

Em 1202, com seu líder Gengis Khan, eles haviam se tornado senhores da Manchúria e, em 1209, da Mongólia. Dois anos depois, invadiram a China, arrasaram Pequim e fizeram dos imperadores Song seus vassalos.

Em seguida, partiram para o Oeste. O Turquestão e o Afeganistão foram conquistados em condições atrozes. Eles cruzaram os Urais e, em 1224, invadiram o sul da Rússia, esmagando a cavalaria dos príncipes de Kiev.

Contornando o mar Cáspio, preparavam-se para penetrar na Pérsia, quando Gengis Khan morreu em 1226. Ele deixou um enorme império, da Coreia ao Volga, do Baikal ao Tibete. Seus filhos continuaram a expandir suas posses. Um deles atacou em direção a Kiev, que tomou e arruinou, invadiu a Volínia e a Galícia de 1236 a 1237, territórios que se estendiam ao sul dos pântanos de Pinsk, margeando a Polônia e terminando no Danúbio e nos Cárpatos.

Assim foi fundado o Canato de Kipchak, dividido em duas regiões: a Horda de Ouro (Rússia europeia) e a Horda Branca (Mar de Aral - Turquestão). Em 1237, os búlgaros foram subjugados e a Rússia ocupada até Novgorod. De 1239 a 1242, eles devastaram a Polônia, o extremo do Império Germânico (Viena não estava longe), a Hungria, a Sérvia e se retiraram para além do Danúbio.

A ofensiva contra a Pérsia permitiu a criação do Canato da Pérsia, que anexou, a nordeste, o Afeganistão e, a oeste, a Mesopotâmia. Em seguida, eles colidiram com o império seljúcida. Empurraram-nos para a Ásia Menor e, em 1258 e 1259, tomaram Bagdá e Damasco.

No ano seguinte, o sultão do Egito bloqueou seu avanço e os empurrou de volta para o Eufrates. Na outra extremidade de seu império, os mongóis subjugaram novamente a China, cujos imperadores, no entanto, eram seus vassalos. Eles derrubaram a dinastia Hung e instalaram em seu lugar sua própria família, os Yuan, em Pequim, em 1279. Invadiram a Birmânia e o Tibete.

Os mongóis, embora pouco numerosos, e talvez por isso mesmo, revelaram-se excelentes organizadores. Eles estabeleceram um sistema financeiro, uma rede de postos que funcionava muito bem e serviços de abastecimento eficientes.

O que era ainda mais surpreendente é que um certo número deles havia sido evangelizado por missionários nestorianos. Estes, muito cultos, foram frequentemente os secretários dos chefes e criaram alfabetos a partir dos dialetos utilizados. Sua influência era considerável. Algumas tribos eram budistas, outras judaicas; muitas se mostravam preocupadas em poupar os cristãos. Todas odiavam os muçulmanos.

Uma oportunidade excepcional se apresentava para a Europa católica. Em pleno período de reconquista cristã diante do Islã invasor, seria possível estabelecer uma cooperação entre esses asiáticos e os Cruzados que ocupavam os Lugares Santos?

Infelizmente, em mais de um século, a vontade de testemunhar a fé "cruzando-se" para a glória de Deus havia se enfraquecido muito no mundo dos adultos da Europa; a heresia e os combates da Guerra dos Cem Anos monopolizavam as paixões.

Foi a juventude que testemunhou o impulso da fé... Por volta de 1212, ocorreu uma verdadeira cruzada de crianças. Milhares de adolescentes embarcaram em Marselha. Das sete galés de transporte, duas naufragaram, e duas atracaram na Argélia, onde os jovens foram vendidos como escravos. Da Alemanha também, um jovem grupo partiu por terra, mas se dispersou, exausto, na Itália.

O Papa Inocêncio III, insistindo no exemplo dado e na afronta assim feita aos adultos de todas as classes sociais, retomou a pregação de

A Quinta Cruzada (1217-1221)

Com sua morte em 1216, seu sucessor Honório III continuou seus esforços. O Rei da Hungria e o Duque Leopoldo da Áustria partiram. Os franceses já haviam mobilizado suas tropas. Apenas o Rei de Jerusalém, João de Brienne, era capaz de conduzir as operações. O entendimento não pôde ocorrer. O Rei da Hungria guerreou sem resultado por alguns meses e depois reembarcou. O Papa o excomungou.

Por instigação de João de Brienne, os "Francos" desembarcaram em 1218, em frente a Damieta. O plano consistia em tomar a cidade e depois trocá-la por Jerusalém. Em fevereiro de 1219, o Sultão do Cairo aceitou o acordo. A teimosia obstinada do Legado Pontifício fez a manobra fracassar. Encerrando-se em Damieta, tomada em 1219, o Cardeal ficou preso na armadilha. Cidade do Delta, a planície ao redor foi inundada pela cheia do Nilo. Tentando uma saída, foi derrotado diante de Mansura. Foi o reembarque geral.

Um precursor do ecumenismo moderno, o Imperador Germânico Frederico II era conhecido pela amplitude de suas ideias. Vivendo, aliás, com sua corte em Palermo, havia estabelecido excelentes relações com o mundo muçulmano bem próximo. O Sultão do Egito, Melik el Kâmil, tornara-se seu amigo, razão pela qual se comportara com generosidade durante a derrota dos cruzados em Mansura. Embora excomungado pelo Papa Gregório IX, mas muito interessado no título de Rei de Jerusalém, o Imperador embarcou para

A Sexta Cruzada (1228-1229)

A diplomacia e a amizade foram eficazes. Por um tratado assinado em fevereiro de 1229, o Sultão devolveu Jerusalém, exceto a Mesquita de Omar, Nazaré e todas as localidades que ligavam a cidade santa a São João d'Acre e a Jaffa. Libertou os cristãos prisioneiros. Os fiéis das duas religiões obtiveram o direito de ir rezar aos Lugares Santos. Os dois soberanos comprometeram-se mutuamente para uma aliança defensiva e ofensiva recíproca, por dez anos.

Em março, Frederico II se coroou a si mesmo Rei de Jerusalém... Após essa vitória, o Papa suspendeu a excomunhão.

Esse enorme resultado obtido sem morte de homem algum se devia apenas às boas relações dos dois príncipes? A impressão muito forte que o Sultão Melik el Kâmil recebera alguns anos antes da extraordinária visita que lhe fizera (São) Francisco de Assis, durante a Quinta Cruzada, no mínimo havia preparado o terreno...!

A Sétima Cruzada (1239-1240)

Pregada e reivindicada pelo velho Papa Gregório IX, ela partiu conduzida por dois trovadores famosos. Nenhum grande chefe de guerra os acompanhava. Aproveitando a rivalidade existente entre os dois sobrinhos herdeiros de Saladino, o sultão do Egito Eyoub e o Sultão de Damasco Ismail, o exército dos Cruzados conseguiu reconquistar vastos territórios: a Galileia, a cidade de Ascalão, trazendo quase o Reino de Jerusalém de volta aos seus antigos limites.

A euforia não durou. O Sultão de Alexandria, senhor da situação, tinha diante de si, como sempre, um reino franco em meio à anarquia. Era a época da invasão mongol. O Sultão contratou uma tribo turca particularmente feroz, os khwarezmianos, que fugiam diante do avanço asiático. Eles retomaram Tiberíades, Jerusalém e Ascalão em 1244. Em seguida, foram, com os egípcios, sitiar Damasco.

O grande medo que assombrava as mentes cristãs e muçulmanas provinha desses pequenos cavaleiros que forjavam um imenso império. Após a derrota de Liegnitz, na Polônia (Baixa Silésia), sofrida pelas tropas católicas em 1241, os Papas tentaram pregar uma cruzada contra os tártaros.

Por fim, sensíveis à presença e à influência dos cristãos nestorianos entre os invasores, decidiu-se enviar embaixadores. Um monge franciscano, partindo de Lyon em abril de 1245, chegou em julho de 1246 a Caracórum. Bem recebido, sua missão, no entanto, resultou em fracasso. Um cônego lionês entrou em contato com o governador da Transcaucásia. Este aceitou a ideia de uma luta comum contra os muçulmanos.

Era mais ou menos a época em que o Rei da França, São Luís IX, curado de uma doença muito grave, decidiu realizar o voto feito durante a mesma.

A Oitava Cruzada (1248-1254)

O Papa Inocêncio IV ajudou muito em sua preparação, que durou três anos. Da construção de Aigues-Mortes à captura de São Luís, tudo foi narrado pelo Duque de Joinville, Senescal de Champanhe, que fazia parte do alto-comando. Foi uma expedição repleta de fervor religioso e ímpeto místico. O Rei era acompanhado por sua esposa, Margarida de Provença, enquanto sua mãe, Branca de Castela, assegurava a regência.

Os cruzados dirigiram-se a Chipre, possessão dos lusignanos poitevinos. O plano de campanha não estava definido, e muitos meses se passaram discutindo o ponto de desembarque: Egito ou Síria.

São Luís recebeu um pedido de colaboração do governador do Cáucaso para um ataque combinado. Os embaixadores eram nestorianos. São Luís acolheu com interesse a proposta e enviou de volta os cristãos orientais com ricos presentes. O Santo Rei não pôde se resolver a associar-se com bárbaros pagãos e cismáticos por uma causa, mesmo que excelente... A negociação parou por aí.

Decidiu-se desembarcar no Egito. Em 4 de junho de 1249, o exército chegou diante de Damieta, que caiu sem dificuldades. Os cruzados permaneceram, sem motivo aparente, mais de cinco meses no local. Finalmente, São Luís deu ordem de marchar sobre o Cairo.

Como na Vª Cruzada, tudo se decidiu em Almançora. O cerco durou vários meses. Tomada a cidade, no dia seguinte os cruzados foram cercados por sua vez. A doença, a fome, obrigaram os franceses a recuar para Damieta, e foi a catástrofe. Em 8 de fevereiro de 1250, o Rei foi capturado.

Damieta resistia, as tropas sendo galvanizadas pela presença da bela Rainha Margarida. No final de abril de 1250, em troca de Damieta e do pagamento de um resgate enorme, os muçulmanos libertaram o Rei e os outros prisioneiros... São Luís permaneceu quatro anos nos Lugares Santos. Enviou aos mongóis, em maio de 1253, um novo franciscano. Fez fortificar as praças do pequeno reino e reembarcou em abril de 1254.

Os vencedores não tiveram tempo de saborear sua vitória. Os mongóis chegaram. Damasco foi tomada em 1259 e toda a Síria ocupada. A dinastia aiúbida e seus protegidos, os seljúcidas, desapareceram na aventura.

As tropas mongóis eram comandadas por um cristão nestoriano, que tinha consigo descendentes de cruzados e armênios. Merecia ser aproveitada a oportunidade de uma cooperação para expandir o Reino de Jerusalém. No entanto, os líderes de São João d’Acre recusaram a chance assim oferecida e preferiram um acordo com os egípcios.

Desde 1254, a enorme guarda pessoal do Sultão, os mamelucos, e seu chephe Albek haviam tomado o poder. Bons soldados, conseguiram resistir e repeliram os mongóis até a Mesopotâmia. Antes disso, os chefes militares haviam, de forma muito astuta, recolhido no Cairo, por volta de 1258, um príncipe abássida em fuga e o instalaram como Califa. A associação assim realizada das forças temporais e espirituais mostrou-se muito eficaz. O Egito tornou-se o farol do Islã sunita, irradiando sobre toda a comunidade.

Foi nesse período que as populações da Núbia, atual Sudão, cristãs coptas, passaram para o Islã. Os mamelucos reunificaram os dois antigos sultanatos e lançaram-se contra os católicos. Tudo foi reocupado; da Armênia do Tauro, Antioquia, Cesareia, Jafa e o Krak dos Cavaleiros Hospitalários, restou apenas a cidade de São João d’Acre.

A Nona Cruzada (1270)

Já em 1267, São Luís havia anunciado sua decisão de partir novamente para combater os Infiéis. Por diversos motivos, o Rei levou as tropas a desembarcar na Tunísia, perto de Cartago. O cólera dizimou os Cruzados; o Rei morreu em 25 de agosto.

Estava acabado. O Ocidente se desinteressaria da Terra Santa. Apesar de numerosos apelos dos cãs mongóis que tentaram rechaçar os muçulmanos, as nações católicas não se moveram. Após repelir mais uma vez os mongóis, os mamelucos apoderaram-se de São João d’Acre, em maio de 1291. O massacre foi praticamente total!

Na Índia, os mamelucos, senhores do Sultanato de Déli, também repeliram os mongóis de Gengis Khan em 1222 e permaneceram no poder até 1290. Seus sucessores, os turcos Khalji, tomaram o Decão e mantiveram a totalidade do norte da Índia. Seus substitutos, os turcos Tughluq, controlaram quase toda a Índia. A partir de 1338, ocorreu um fracionamento em estados muçulmanos. Foi o ataque dos mongóis de Timur que pôs fim ao poder de Déli, que se manteve até 1526, quando o poder, ainda muçulmano, passou para o Grão-Mogol.

Sob o reinado dos seljúcidas, outras tribos turcas se estabeleceram na Anatólia. Elas guerrearam contra os bizantinos. Entre elas, a tribo dos osmanlis havia dado mostras de fidelidade ao Sultão. Dela, recebera terras perto de Ancara e, posteriormente, se convertera ao Islã. De seu acantonamento ao redor de Niceia, ganhou importância sob a direção de Osman I, que foi assim o fundador da dinastia dos otomanos.


A DINASTIA DOS OTOMANOS (1260 - 1918)

Pouco tempo após a ascensão destes ao poder, a família real capetiana extinguiu-se na França. O trono coube aos valois, cujo primeiro Rei, Filipe VI, inauguraria os combates da Guerra dos Cem Anos.

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Desde o início da dinastia otomana, sem intervenção do Sultão, o Islã consolidou seu domínio sobre a Pérsia. Por volta de 1295, o Chefe Mongol do Canato, o Príncipe Ghazan, se converteu. Como, ao chegarem, os mongóis haviam expulsado o califa sunita de Bagdá e libertado os xiitas, foi o rito deles que se tornou preponderante na Pérsia. Isso não cessou desde então. Sempre em luta contra novos invasores vindos do Norte, os turcomanos, o canato desabou sob os golpes de Timur, Tamerlão, entre 1380 e 1392.

Graças à fidelidade de seu chefe aos califas de Damasco, os otomanos viram seu território se expandir. Orhan (1324-1359) transferiu a capital para Bursa, em 1327. Ele foi verdadeiramente o organizador do poder de sua família. Estabeleceu uma administração séria ao dividir seu estado em três províncias e criou um exército permanente, o corpo dos janízaros.

É notável constatar que o Sultão não buscou refazer a unidade material da Umma. Ele deixou em paz o outro império, o dos mamelucos do Egito, e voltou todas as suas forças contra a Europa Católica.

O Basileu usurpador lhe deu sua filha em casamento, para convidá-lo a lutar contra o Paleólogo, imperador legítimo de Bizâncio. Isso foi abrir a Europa para seus intentos. Aproveitando as divisões religiosas das populações balcânicas, Orhan se instalou em Galípoli, nos estreitos, em 1354, e começou a conquista da Trácia e da Macedônia.

Diante da expansão islâmica, a Catolicidade conhecia sua decadência. A unidade de fé representada por Roma e pelo latim, conduzida pelo Rei da França, iria pouco a pouco desaparecer. A rivalidade franco-inglesa, estendida de 1337 a 1453, semeará o caos e a miséria; o surgimento do protestantismo facilitará o desenvolvimento dos egoísmos e interesses materiais particulares, os dos mercadores, banqueiros, cidades, nações e monarcas. Os infiéis puderam operar sem temer reações verdadeiras.

Assim que chegou ao poder, Murade I (1360-1389) fixou sua capital no coração da Trácia: Adrianópolis. Os emires da Ásia Menor, mantidos tranquilos, ele pôde lançar suas forças ao assalto da área ocupada direta ou indiretamente pela civilização bizantina.

O Papado estava consciente do perigo. O apelo à cruzada ecoou diante da França e da Inglaterra se despedaçando, da Itália em presa às lutas intestinas e de um Império Romano Germânico inexistente! Apenas o Príncipe Amadeu VII de Saboia, "o Conde Verde", se cruzou. Partiu de Veneza em 1366, retomou Galípoli, fez uma incursão no Mar Negro, obteve alguns sucessos e retornou.

Após Urbano V, foi a vez de Gregório XI apelar por socorro. Os soberanos da Europa Oriental ameaçada, Hungria, Sérvia, Bósnia, Bulgária e Valáquia reuniram suas tropas sob o comando do Rei da Hungria.

O exército católico foi esmagado em 1371, às margens do Maritsa. O Sultão avançou até Sófia e terminou a ocupação da Bulgária em 1388. Paralelamente, na Ásia Menor, ele havia eliminado o último vestígio das Cruzadas, os cristãos da Pequena Armênia e seu último chefe, Leão VI de Lusignan.

Após a vitória do Maritsa, o reino da Sérvia, estendido sobre a Macedônia, o Épiro (Albânia) e a Tessália, tornou-se o próximo alvo. Ele conseguiu suscitar para sua defesa uma coalizão regional. O exército assim constituído, sob as ordens de Lázaro, Príncipe de Raska (Sérvia do Norte), foi esmagado em 1389, em Kosovo, embora o Sultão tenha perecido no combate.

Seu sucessor Bajazeto (1389-1402) mostrou-se muito enérgico. Bizâncio teve que lhe pagar tributo e fazer com os otomanos o cerco da única fortaleza cristã remanescente ao sul da Anatólia.

1394 viu a tomada de Tessalônica e a pregação de uma nova cruzada. Como as operações da Guerra dos Cem Anos estavam suspensas por uma trégua, um grande número de cruzados veio da França e da Alemanha. As tropas, com o Duque da Borgonha, João sem Medo, e o Almirante João de Viena, colocaram-se sob as ordens do Rei da Hungria, Sigismundo de Luxemburgo.

Mais uma vez, a coragem não supriu a nulidade estratégica dos chefes. Tendo sitiado Nicópolis, no Danúbio, em 1396, o exército foi atacado e destruído pelos muçulmanos. Se João sem Medo foi feito prisioneiro, Sigismundo conseguiu atravessar o rio e se salvar. Todos os prisioneiros foram massacrados, com exceção de algumas grandes personalidades, que tiveram de pagar um alto resgate.

A situação na Europa continuava favorável aos infiéis: loucura de Carlos VI na França, Guerra das Duas Rosas na Inglaterra, questionamento da autoridade pontifícia em Roma...! Bayezid completou a conquista da Bulgária, ocupou a Bósnia, a Romênia (Valáquia e Moldávia) no Danúbio, atravessou a Hungria e, para além do Lago Balaton, lançou incursões na Estíria e nas fronteiras da Alemanha.

Nas montanhas balcânicas, de difícil acesso, a penetração foi fraca. Nas vastas planícies da Trácia, da Rumélia e da Bulgária, os otomanos instalaram muitos homens. Eles impuseram sua própria civilização. As planícies foram literalmente subjugadas. Os nobres foram mortos ou deportados para a Ásia, as igrejas incendiadas e as terras submetidas ao regime do "Sipahinik".

Substituindo os aristocratas locais, grupos de cavaleiros muçulmanos extraíam seu sustento das massas camponesas. As famílias foram obrigadas a entregar regularmente parte de seus filhos ao Sultão. Seguiu-se uma emigração muito significativa e uma insurreição quase permanente nos maciços montanhosos. A Bulgária tornou-se o celeiro da Turquia... O domínio otomano muçulmano foi total até o século XIX, graças à administração e à organização das explorações agrícolas à maneira turca, em "tschiftliks", a forma rural mais dura para o Homem dos Bálcãs, segundo Fernand Braudel.

Bayezid se acalmou... retomando para si o velho sonho infiel, ele sitiou Bizâncio. Ainda não era a hora da realização; outros bárbaros salvaríam a velha capital.

Da Transoxiana, entre o Mar de Aral e o Altai, daquela região de Samarcanda e Bukhara de onde partiram os seljúcidas, o Rei do País, o turco Timúr, muçulmano devoto, já havia começado a expandir seu império. Declarando-se em 1370 sucessor de Gengis Khan, ele se tornou senhor do Afeganistão e da Pérsia em 1280. Expandiu-se em direção à Índia e chocou-se com o Sultanato de Déli em 1398-1399. Para o oeste, suas tropas ocuparam a Geórgia, do outro lado do Cáspio, depois a Armênia, a Mesopotâmia e a Cilícia, bloqueando assim a Ásia Menor. Vencedor em Damasco e Alepo sobre os mamelucos, devastou Bagdá em 1401.

Ele se voltou para a Anatólia. Bayezid acorreu... A batalha decisiva ocorreu no mesmo ano perto de Ancara. O Sultão foi vencido e feito prisioneiro. Pouco tempo depois, morreu no cativeiro.

Bizâncio teve que se reconhecer vassala de Timúr. Esmirna, ainda mantida pelos Cavaleiros Hospitalários de Rodes, foi destruída.

Verdadeiro nômade, Timúr Leng (Tamerlão) partiu novamente com suas hordas em direção à Ásia...!

A sucessão de Bayezid provocou uma série de lutas internas, que se voltaram a favor de Maomé I. Durante esse período conturbado, a desunião endêmica dos cristãos não permitiu a organização de uma contraofensiva para rechaçar os muçulmanos de volta à Ásia. Foram eles que retomaram o ataque. Após restabelecer a ordem em suas tribos, o Sultão bloqueou novamente Bizâncio em 1422. Repelidos em seu assalto por uma aparição da Virgem, e prejudicados pela solidez das muralhas, os infiéis levantaram o cerco. O Peloponeso conheceu razias e pilhagens.

O Basileu João VIII, que já não possuía mais nada além de sua cidade, correu ao Ocidente pedir socorro. A divisão dos europeus, a guerra civil francesa, a lembrança das manobras de Bizâncio na época das Cruzadas impediram qualquer forma de ajuda.

O avanço das tropas otomanas continuou e o novo chefe, Murade II, alcançou Belgrado em 1440. Uma pequena coalizão obteve vários sucessos contra os otomanos. Por fim, a juventude do chefe, o polonês Ladislau III, permitiu que o Sultão o esmagasse em Varna, às margens do Mar Negro, em 1444... As tropas turcas haviam sido transportadas por navios genoveses! As tropas húngaras, ainda em campanha, foram massacradas em 1448.

Restava apenas o Ocidente para salvar Bizâncio. De Inocêncio III a Nicolau V, todos os Papas receberam embaixadores e súplicas, mas todos impuseram como primeira condição o retorno ao seio da fé católica, antes de pregar a cruzada.

Finalmente, no final de março de 1438, abriu-se na Itália o Concílio, no qual os enviados bizantinos evocaram a atroz situação de tantos cristãos gregos já submetidos ao jugo muçulmano, muitos reduzidos à escravidão e à abjuração, e a angústia de todos aqueles que, ainda livres, aguardavam o golpe mortal. Os ortodoxos se alongavam em discussões ociosas... bizantinas, para defender um cisma sem fundamento sério. A morte do Patriarca em pleno concílio, deixando uma declaração-testamento, reconhecendo o Bispo de Roma como Pontífice Supremo e único representante de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra, permitiu a realização de um acordo. Em 6 de julho de 1439, o Ato de União foi assinado e publicado em latim e grego.

Mas, em Constantinopla, a multidão, incitada pelos monges, em sua grande maioria fanáticos e ignorantes, recusou-se a obedecer. O Clero seguiu o mesmo caminho, e o Basileu Constantino XI não publicou o decreto... Diante do agravamento da situação, a fórmula do Ato seria finalmente proclamada: os altos dignitários da Igreja Romana foram recebidos pela multidão grega com a frase: "Melhor ver reinar em Constantinopla o turbante dos Turcos Maometanos do que a mitra dos Latinos!". Exclamação aberrante que prefigura o "Melhor ser Vermelho do que morto", dos pacifistas modernos.

Em 1451, Maomé II, homem culto, muito ativo, muito enérgico, mas sem escrúpulos e bastante cruel, tornou-se Sultão. Ele reforçou as fortalezas necessárias ao controle dos Estreitos. Sua diplomacia obteve a neutralidade das grandes cidades marítimas, Gênova e Veneza. Os antigos inimigos húngaros e a própria família do Basileu deixaram-se convencer a não intervir. O cerco pôde começar no início de 1453.

As frotas ocidentais, compostas por grandes "naus" de cem toneladas ou mais, poderiam facilmente ter destruído a frota muçulmana, esmagando suas faluas. A trégua as imobilizou. Por uma manobra ousada, o transporte de seus navios por via terrestre, o Sultão conseguiu neutralizar a frota de Bizâncio no Corno de Ouro. O ataque definitivo ocorreu em 29 de maio. O saque e o massacre foram o que se podia esperar dos Cavaleiros de Alá.

Em Santa Sofia, os milhares de Cristãos que ali se refugiaram e rezavam foram degolados. Mais de cinquenta mil gregos, de ambos os sexos e de todas as idades, foram vendidos como escravos. Todos os altos personagens da Corte foram supliciados. Inestimáveis tesouros da Arte e da Inteligência foram absurdamente saqueados e destruídos.

No terceiro dia, em Santa Sofia, cujas paredes haviam sido besuntadas de gesso, o vencedor fez sua entrada solene e recitou a oração muçulmana... Bizâncio-Constantinopla havia definitivamente mudado de religião e de senhor.

Os Cristãos restantes tiveram de pagar um imposto per capita. O Sultão conseguiu fazer do Clero um amigo e... o novo patriarca recebeu dele a investidura!

Apenas o Papado manifestou uma real lucidez diante do desastre representado pelo desaparecimento do bastião cristão mais que milenar. A partir desse momento, todos os Papas se empenharam em pregar a Cruzada para deter o avanço do Islã.

Em 1455, uma nova tentativa contra Belgrado resultou em fracasso. Um exército de socorro, reunido por um Franciscano apoiado por Roma, conseguiu penetrar na Cidade. Uma frota pontifícia conseguiu derrotar a frota otomana em 1457, em Metelino... sobressalto passageiro.

Maomé II apoderou-se da Moreia e do restante da Ática. Sua frota, vitoriosa sobre a de Veneza, em 1470, em Negroponte, invadiu Creta e as Ilhas Gregas. Conquistados os últimos estabelecimentos venezianos da costa albanesa, o Sultão submeteu a Sérvia e a Bósnia e, em seguida, retomou o controle das planícies romeno-búlgaras do Danúbio, apesar de algumas violentas reações húngaras.

A frota superou-se. As feitorias italianas foram tomadas de assalto. Ataques ocorreram no Friul, e Veneza teve de pagar tributo. Em 1480, o cerco e a tomada de Otranto, no Sul da Itália, seguidos do massacre de todos os habitantes, lançariam a Itália no terror.

Maomé II anunciou que faria seu cavalo comer no altar de São Pedro, em Roma!

L. D.

A CRISE DA FILOSOFIA CRISTÃ NA FRANÇA DO SÉCULO XIX

Os primeiros sinais de renovação do paganismo antigo no final da Idade Média cristã manifestaram-se no campo do pensamento filosófico, e deve-se constatar que, ao término do Renascimento, no alvorecer do século XVII, a filosofia cristã está como que morta; de fato, se ainda se conserva parcialmente em certos meios religiosos, em algumas Ordens religiosas, ela é inexistente para a maioria dos pensadores: o exemplo do Cardeal de Bérulle, todo contente por encontrar um Descartes de quem esperava fazer "o filósofo cristão", e depois a rápida adesão ao cartesianismo dos Oratorianos, gradualmente imitados pela maioria dos religiosos ao longo do século XVIII, confirmam suficientemente que o pensamento racionalista vinha, na verdade, preencher um vazio real.

Esse vazio, e essa invasão pagã, explicam suficientemente os acontecimentos do século XVIII e suas consequências políticas, a Revolução de 1789 — e é necessário lembrar-se disso se quisermos entender o que se passou posteriormente, pois a situação no século XIX é diretamente tributária da do século XVIII em muitos domínios, especialmente em matéria de filosofia.

Após a tormenta revolucionária, a Igreja da França pôs-se corajosamente a reparar as ruínas, a reabrir as igrejas, a restaurar a liturgia e o catecismo. Novas ordens religiosas partiram para a conquista das populações abandonadas e paganizadas. Pôde-se assistir então a uma verdadeira renascença religiosa em todos os domínios por volta do meio do século. Apenas um permaneceu por muito tempo inculto, o da filosofia cristã. Um clero insuficiente, esmagado pela abundância de novas tarefas, não tinha lazer suficiente para se dedicar ao estudo.

Alguns pensadores isolados, leigos muitas vezes autodidatas, ergueram-se então para denunciar com eloquência e convicção os malfeitos da Revolução, seu caráter satânico e anticristão. Não tiveram dificuldade em conquistar o público culto de seu tempo, pois os horrores da Revolução ainda estavam em todas as memórias, e suas obras obtiveram imenso sucesso. Focar-nos-emos, em nossa exposição, nos mais célebres desses escritores: Joseph de Maistre, o Visconde de Bonald, o Padre de Lamennais e Blanc de Saint-Bonnet.

Eles constituíram, na história da filosofia cristã, um movimento totalmente original e que só teve um sucesso momentâneo, antes de desaparecer sem deixar traços visíveis posteriormente: o TRADICIONALISMO.

Como, então, Alain Besançon, em seu livro "A Confusão das Línguas", pôde qualificar essa escola tradicional de "primeira invasão gnosticizante"?

Ele precisa até que "em sua exaltação do Papado, da Inquisição, da autoridade espiritual sob todas as suas formas, não se imagina que eles façam passar uma mercadoria suspeita – e ela passa tanto melhor quanto seus portadores se colocam de antemão, em toda sinceridade, sob a proteção das autoridades que eles restauram; estas só se aperceberão disso com uma geração de atraso. (por volta de 1840).

Nas origens, a Humanidade recebeu com a língua não apenas um sistema de comunicação, mas um sistema de pensamento, uma doutrina. Ela forma a revelação primitiva, a TRADIÇÃO. Esta é transmitida pela Sociedade, guardiã querida por Deus da Verdade fundamental que a comunica a seus filhos e lhes revela o segredo pela língua que lhes ensina.

Era aparentar-se com os Iluministas que se vomitava por outro lado por terem preparado a Revolução, mas cujo tradicionalismo iniciático se retoma, desta vez em proveito da reação."

Eis um quadro que não corresponde em nada à ideia que sempre se fez desta escola em nossas famílias tradicionais. Veremos que este quadro é totalmente exato e, na exposição que se segue, provavelmente iremos revolucionar muitas ideias e juízos que pareciam solidamente estabelecidos.


Uma primeira dificuldade deve ser levantada inicialmente. Como homens muito piedosos e muito cristãos puderam fazer coexistir em seu espírito uma submissão profunda e sincera ao ensinamento da Igreja com ensinamentos que a Igreja sempre condenara? A primeira resposta é evidentemente a ignorância religiosa desses mestres do pensamento contrarrevolucionário. Eles foram autodidatas. Nunca haviam estudado a filosofia cristã. Seus mestres de pensamento foram esses escritores anticristãos do século anterior, ROUSSEAU, MONTESQUIEU, FENELON, "esse Renan do século XVIII"...

LACORDAIRE percebeu bem essa incoerência de um pensamento balançado entre verdades parciais e erros mal apreendidos.

"A maioria dos homens ignora seu caminho, diz ele em sua "Carta sobre a Santa-Sé"; eles acreditam que o universo termina no lugar onde estão cansados e que os princípios são inconsequentes como as pessoas ou não têm mais alcance do que elas têm. Mas, prossegue ele admiravelmente, embora essa porção cega e preguiçosa diminua a força do poder que lhe dá o impulso, ela o serve maravilhosamente, porque forma degraus onde param as almas e os instrumentos que não podiam ir mais longe. Se não existisse nenhuma nuance entre o erro e a verdade, poucos homens seriam fortes o suficiente para cair no erro. Eles precisam descer lentamente e familiarizar-se com as trevas. É por isso que, para julgar um poder, é preciso estabelecer seu princípio, deduzir das consequências realizadas aquelas que inevitavelmente sairão delas e, deixando de lado a multidão que nunca sabe o que faz, ver a ação de onde ela parte..."

Com efeito, podemos carregar, sem o saber, em nosso sistema de pensamento, erros parciais cujas consequências não apreendemos bem, nem mesmo as premissas que estão implicitamente contidas neles. Nós os corrigimos em nós mesmos pela experiência e pela reflexão. Mas os deixamos coexistir em nosso espírito e um dia a contradição, finalmente percebida, nos faz rejeitar para fora tudo o que não forma realmente corpo com nosso sistema geral de pensamento. Não há coesão possível entre o erro e a verdade. Um dos dois deve um dia eliminar o outro. Será, por exemplo, como veremos, o caso de LAMENNAIS lendo Joseph de MAISTRE.

O próprio Joseph de MAISTRE, que se quer católico completo, perfeitamente submisso ao ensinamento da Igreja, diz no entanto em 1816:

"Permaneci na Igreja Católica Romana, não sem ter adquirido, no convívio com os iluministas martinistas e no estudo de sua doutrina, uma infinidade de ideias das quais tirei proveito."

Seu biógrafo, Emile DERMENGHEN, explica-nos que o ensinamento dos iluministas desempenhou em seu espírito o papel de um fermento, enquanto a doutrina católica romana serviu de contrapeso, de regulador e de freio. Ele precisa ainda que essa amálgama de ideias contraditórias, que deveria ter provocado uma explosão, pôde se estabelecer porque MAISTRE tinha a preocupação de sustentá-las umas pelas outras. Mas sabemos que seus leitores irão, ao contrário, levar os princípios iluministas contidos em suas obras até suas consequências profundas e sofrer então as condenações romanas.

AS FONTES DESTA FILOSOFIA "TRADICIONAL"

A) O ENSINAMENTO DE DESCARTES

Já explicamos anteriormente o papel destrutivo da filosofia de DESCARTES (cf. "Da Gnose ao Ecumenismo", cap. III: Descartes e a fé católica). Por sua dúvida metódica e por seu "Cogito", Descartes destruiu nas almas toda possibilidade de alcançar qualquer verdade que seja.

É, de fato, absurdo pedir ao nosso espírito que faça o vácuo completo de todos os conhecimentos por um ato contrário à natureza, e depois pedir-lhe que reconstrua o mundo a partir do seu próprio "Eu" pensante. A ruptura com o real é profunda e definitiva; Descartes está assim na fonte do Subjetivismo e do Idealismo. Veremos ainda que ele veicula, apesar de si mesmo, todo o Panteísmo moderno. Sua filosofia desempenhou no século XIX o papel de uma lavagem cerebral.

Aliás, DESCARTES tinha plena consciência disso. Ele escreve em 1641:

"Provei muito expressamente que Deus é criador de todas as coisas... São coisas às quais desejo que se preste muita atenção. Mas creio ter colocado muitas outras, e vos direi entre nós que estas seis Meditações contêm todos os fundamentos da minha Física. Mas não é preciso dizê-lo, por favor, pois aqueles que favorecem Aristóteles teriam mais dificuldade em aprová-los, e espero que aqueles que os lerem se acostumarão insensivelmente aos meus princípios e reconhecerão a verdade antes de perceberem que eles destroem os de Aristóteles."

Como dizia LACORDAIRE, desce-se lentamente para o erro e é preciso habituar-se às trevas: é DESCARTES quem nos explica muito bem.

Nos Seminários dos séculos XVIII e XIX, ensinava-se o Cartesiano. O manual mais usado era a "Filosofia de Lyon", publicada em 1783 e 1784 pelo Oradoriano Joseph VALLA, a pedido de Monsenhor MONTAZET, arcebispo de Lyon, jansenista e cartesiano, que impôs ao autor que ensinasse o Inatismo sobre o problema da origem das ideias.

Quando o Padre EMERY restaurou a Companhia de São Sulpício, ele impôs o uso deste manual a todos os seminários da França. Este Padre Joseph VALLA havia visto suas "Instituições Litúrgicas" colocadas no Índex devido ao Jansenismo que nelas estava implicado. É verdade que três teólogos eminentes diziam, no prefácio das Instituições Filosóficas de Lyon, ter eliminado tudo o que pudesse inquietar a mais severa ortodoxia.

A geração de jovens padres, assustada com o espetáculo das ruínas acumuladas com o desaparecimento de toda verdade, precipitava-se então sobre todas as teorias que humilhavam a razão. A influência de ROUSSEAU permanecia profunda nos espíritos e a apologética do sentimento fez furor então.

Além de CHATEAUBRIAND, via-se o Padre MAURY, "oposto aos abusos da razão nas coisas da Fé", aplicar a dialética afetiva do Vigário Saboiano em favor da Religião natural, marcar a completa concordância da nossa natureza sensível com o Cristianismo. Estamos então em pleno pragmatismo religioso e em pleno Subjetivismo.

Veremos o ensino de DESCARTES na fonte de todos os erros da Escola "tradicionalista". O Padre NOIRET em Lyon o ensina e ele foi o mestre de BLANC DE SAINT BONNET. O Padre MARET o ensina na Sorbonne oficial. Ele impõe restrições, mas permanece cartesiano determinado. Um único padre, destinado à celebridade, mostrou-se absolutamente refratário a Descartes e aos escritores tradicionais, foi Dom GUERANGER, explicando em um artigo do "L'Univers" de 22 de novembro de 1857 ao Padre MARET que esta situação é insustentável para um filósofo e que o pensamento cristão deve se saciar noutras fontes.

B) O ILUMINISMO MAÇÔNICO

Se o ensino de DESCARTES foi negativo a ponto de provocar um vazio espiritual em todos os espíritos, outros se encarregarão com eficácia de preencher esse vazio, foram os maçons. Era preciso primeiro esvaziar os espíritos da filosofia escolástica, isto é, cristã, para neles introduzir progressivamente e em dose homeopática a GNOSE luciferina, a das Lojas.

Joseph de MAISTRE, o primeiro mestre do pensamento contra-revolucionário, foi um maçom convicto e apaixonado quase toda a sua vida e nunca renegou sua pertença à Seita. Esta frequência assídua às Lojas deixou em seu espírito uma impregnação gnóstica que transparece em todas as páginas de seus escritos.

Ele recebeu primeiro uma verdadeira iniciação de seu mestre WILLERMOZ, o fundador das lojas martinistas em Lyon. Este lhe envia suas Instruções em 9 de julho de 1779.

Para lê-las, diz-lhe, é preciso colocar-se "acima de todos os preconceitos adquiridos ou naturais" (cf. a dúvida metódica), ouvir a voz do seu coração "princípio da convicção interior num assunto onde o homem razoável não deve esperar nenhuma exterior" (cf. o desprezo pela razão, a recusa do real e das autoridades naturais), rejeitar todos os sistemas filosóficos que "deixam vazios que afligem e atormentam o homem" (cf. a rejeição das superstições religiosas), "não esperar nada dos homens, pois o fogo que deve nos iluminar, nos aquecer está em nós e um desejo puro, vivo e constante é o único fole que pode inflamá-lo e estendê-lo" (cf. a natureza divina e onisciente da nossa alma), saber também que "o homem assim preparado adquire por seu próprio trabalho o que permanece sua propriedade" (cf. o homem possui em si mesmo a fonte de seus conhecimentos). Eis um belo programa cartesiano de "lavagem cerebral".

Joseph DE MAISTRE leu avidamente os grandes autores maçônicos. Claude DE SAINT-MARTIN, o fundador das lojas martinistas, acabara de publicar em 1790: "O Homem de Desejo". O Homem é um desejo de Deus, explicava ele, que quer infiltrar nele uma seiva maravilhosa, e o homem deve ser um homem de desejo, por sua assiduidade em desenvolver em si suas propriedades divinas. Assim devem cair os últimos obstáculos entre suas duas naturezas semelhantes, entre os dois seres que aspiram à sua união, entre o Homem e Deus. Reconhecemos bem neste livro os temas gnósticos do Retorno à Unidade Primordial.

Thérèse de Maistre, irmã do escritor, achava esse profeta "ora sublime, ora herético, ora absurdo". Era a reação de uma alma reta e simples. Mas seu irmão lhe responde, esclarecendo que só concedia o primeiro ponto:

"Esse ponto não sofre dificuldade alguma. Nego-te formalmente o segundo e comprometo-me a sustentar sua ortodoxia em todos os aspectos..."

Em suma, MAISTRE emitia em 1790 um certificado de ortodoxia para Claude de SAINT-MARTIN. Em 1797, copiando certas acusações do eudista LE FRANC contra nosso sublime profeta, acrescentava: "Nada é mais digno do riso inextinguível".

Nas lojas martinistas, MAISTRE ouvia falar (sabemos por ele mesmo) de um "Cristianismo real, ascendente" (cf. a subida através dos Éons em direção à Ogdoada dos Gnósticos), que era uma verdadeira iniciação, que havia sido "conhecido pelos cristãos primitivos" e que revelava e "podia revelar ainda grandes maravilhas e não somente desvendar os segredos da natureza, mas nos colocar em comunicação com os espíritos." (Oh! Oh!) e que talvez, em breve, unificaria as diversas comunhões sob um chefe que residiria em Jerusalém. (Oh! Oh! bis) (Obras, tomo VIII, páginas 327-328 e tomo V, página 241).

Eis algo que deveria agugar os ouvidos: Joseph de MAISTRE, ancestral de um ecumenismo presidido pelo futuro Messias judeu...

C) JOSEPH DE MAISTRE E ORÍGENES

Sua formação maçônica o levou a buscar, entre os antigos escritores eclesiásticos, aqueles que estavam impregnados de Gnose: Orígenes e Clemente de Alexandria. Em um grosso volume de Miscelâneas B, iniciado em Turim, em 25 de maio de 1797, encontramos 25 páginas de breves comentários sobre o "Tratado de Orígenes contra Celso".

Este grande homem, este "sublime teólogo", acreditava na Magia em geral, ou seja, na realidade de uma ciência que pode colocar o homem em comunicação com inteligências de uma ordem superior; ele admitia "uma Magia branca", de modo que essa ciência era boa ou má, dependendo do tipo de espíritos que se invocava. Maistre considera provado por Orígenes que "o Cristianismo, nos primeiros tempos, era uma verdadeira iniciação onde se desvelava uma verdadeira magia divina". Ele cita entre os objetos dessa iniciação, a alma dos astros e a divisão das nações.

Lemos ainda, nas Miscelâneas B (inédito, 2 de dezembro de 1797):

"Santo Agostinho, na Cidade de Deus, compreendeu mal Orígenes, quando este diz que a causa da matéria não é a bondade de Deus apenas, mas que as almas, tendo pecado ao se afastar de seu criador, mereceram ser encerradas em diversos corpos como numa prisão, segundo a diversidade de seus crimes e que este é o mundo; que assim a causa da criação não foi para fazer coisas boas, mas para impedir coisas más. A opinião em questão, acrescenta DE MAISTRE, nada tem a ver com o Maniqueísmo. Pode-se observar que ela ainda hoje é a base de todas as iniciações modernas."

Eis um bom resumo dos ensinamentos gnósticos transmitidos por Orígenes. Santo Agostinho, que conhecera os Maniqueus de perto, não teve dificuldade em reencontrar suas teses em Orígenes e em denunciá-las. Joseph de MAISTRE, todo impregnado da verborragia maçônica, ao contrário, a elas adere intimamente e marca seu espanto diante da reação enérgica de Santo Agostinho (Cf. "Cidade de Deus", XI, 23-24).

Mas, há algo melhor. Encontra-se sob sua pena, anotados em suas miscelâneas, trechos completos do Evangelho Gnóstico de Tomé, aquele que foi reencontrado em Nag-Hammadi em 1947 e que permanecera desconhecido anteriormente:

"Quando dois não fizerem mais um e o que está fora for como o que está dentro, que o macho se confunda com a fêmea e que não haja nem mulher nem homem, quando tiverdes deposto a veste de vergonha e ignomínia (trata-se de nosso corpo), então virá o reino."

Esses textos, ele os encontrou em São Clemente de Alexandria, ainda um escritor eclesiástico impregnado de Gnose e que venerava em sua biblioteca pessoal o Evangelho de Tomé.

Será preciso ter muito cuidado, ao lermos "As Noites de São Petersburgo", com essa impregnação gnóstica e maçônica no pensamento maistriano.

AS GRANDES TESES DESTA FILOSOFIA "TRADICIONAL"

A) O DESPREZO PELA RAZÃO: De Lutero a Lamennais

Já conhecíamos as violentas diatribes de LUTERO contra a Razão humana. Fiel ao seu erro fundamental sobre a corrupção absoluta da natureza humana, fruto do pecado original, LUTERO ensinava "que a razão é inimiga da fé e a noiva do diabo". (Ele empregava uma palavra mais grosseira). Entre todos os perigos que cercam o homem na terra, acrescentava ele, o maior é a sua própria razão, quando se mete a falar de Deus e da alma. Tudo o que ela diz é vergonha e blasfêmia. "É mais fácil um asno falar do que a inteligência conhecer a Verdade."

Se a linguagem de nossos filósofos tradicionais é menos grosseira e menos violenta, nem por isso é menos verdade que percorre todos os seus escritos um desprezo pela razão que forma o ponto de partida sempre subjacente a todas as suas considerações metafísicas. Encontram-se fórmulas mais ou menos incisivas nos escritos de MAISTRE, de BONALD, de LAMENNAIS.

Páginas a fio, MAISTRE exalta o "sentimento interior" e a "intuição" como fonte da verdade e denuncia a razão raciocinante (como se pudesse existir uma razão não raciocinante).

LAMENNAIS tem fórmulas ainda mais contundentes: "O homem não pode, por suas forças, assegurar-se plenamente de nenhuma verdade, porque não pode, por suas próprias forças, dar-se nem conservar o ser"... Em outra passagem: "Quando a verdade se dá, o homem a recebe; é tudo o que pode; ainda é preciso que a receba de confiança e sem exigir que ela mostre seus títulos; pois nem mesmo está em condições de verificá-los."... Poderíamos continuar assim. Para quê? (Pensées diverses, página 488).

O Visconde de BONALD publica em 1802: "A Legislação Primitiva considerada nos últimos tempos pelas únicas luzes da razão". Neste livro, nosso visconde explica ao seu leitor que ele deve compreender "pelas únicas luzes de sua razão" que a razão pessoal é incapaz de alcançar qualquer verdade que seja, mas deve se submeter ao sentimento geral da Humanidade que é o único infalível.

Que ironia! Não se pode, sem rir, fazer comparecer a razão diante do tribunal de sua única razão pessoal para condená-la. E que incoerência! Se as luzes apenas da razão são capazes de me demonstrar que a razão é ineficaz, estou condenado ao ceticismo mais absoluto e mais decepcionante!!!

No fim da vida, contudo, Joseph de MAISTRE sentiu medo e escreveu esta carta em seu leito de agonia ao Padre de LAMENNAIS:

"Gostaria, Senhor Padre, de lhe dizer uma palavra essencial. O senhor quer agarrar a razão em seu trono e forçá-la a fazer uma bela reverência; mas com que mão agarraremos essa insolente? Com a de Aristóteles, sem dúvida, não conheço outra que possamos empregar. Eis-nos, pois, em Roma reduzidos ao sistema romano e a esses mesmos argumentos que já não lhe parecem nada. As demonstrações de Euclides são tão conclusivas hoje quanto o eram em seu tempo. Mas se Abadie, Pascal, Ditton, Sherlok, Bergier e companhia podem fazer hoje incrédulos, o que devemos concluir? Tome cuidado, Senhor Padre, vamos devagar, tenho medo e é tudo o que posso dizer."

Este ato supremo do pensamento religioso de MAISTRE foi um impulso de ansiedade a respeito do tradicionalismo de LAMENNAIS que, treze anos depois, Roma condenaria.

É Auguste COMTE quem vai colocar o dedo na ferida nesta página do seu "Curso de Filosofia Positiva":

"Que se analisem as verdadeiras tentações tão frequentemente renovadas ao longo de dois séculos por tantas inteligências distintas e, por vezes, superiores, para subordinar, segundo a fórmula teológica, a razão à fé, será fácil reconhecer sua constituição radicalmente contraditória, que estabelece a própria razão como juíza suprema de tal submissão, cuja intensidade e duração dependem unicamente dessas decisões verbais, raramente severas demais.

O mais eminente pensador da atual escola católica, o ilustre de MAISTRE, prestou ele mesmo um testemunho tão brilhante quanto involuntário a essa inevitável necessidade da filosofia, quando, renunciando a todo aparato teológico, esforça-se, em sua obra principal, por fundamentar o restabelecimento da supremacia papal em meros raciocínios históricos e políticos, aliás a certos respeitos admiráveis, em vez de limitar-se a comandá-lo diretamente pelo direito divino, único modo plenamente em harmonia com a natureza de uma tal doutrina e que um espírito desses, em outra época, não teria hesitado, sem dúvida, em seguir exclusivamente, se o estado geral da inteligência não o impedisse, mesmo nele, de exercer total preponderância."

É bem evidente: não se pode apelar da razão contra ela mesma sem cair no absurdo. Mas se Augusto COMTE tivesse conhecido a filosofia escolástica, saberia que jamais a Igreja propôs dogma algum sem produzir, ao mesmo tempo, seus títulos de credibilidade ao juízo da razão.


Mas então, de onde vem esse desprezo pela razão em nossos filósofos cristãos? Paradoxalmente, da filosofia de DESCARTES.

Por sua dúvida metódica, DESCARTES rejeitou para fora do nosso espírito todos os nossos conhecimentos objetivos. Ele cortou nosso espírito do Real. Declarou-o incapaz de atingir o ser mesmo das coisas conhecidas. Por seu "cogito", reconstruiu o pensamento a partir do Eu pensante. Ensinou as ideias inatas na esteira de Platão.

Se as ideias estão em mim como obra mesma do meu pensamento, se não são em mim a forma mesma das coisas conhecidas, minha razão não pode mais operar sobre o mundo real. Encontra-se condenada a operar sobre formas construídas pelo meu pensamento, no interior dele mesmo. De repente, eis-me tornado cego. Meu pensamento nada pode me dizer sobre o mundo exterior.

Onde encontrar então a certeza? Se a verdade não é o acordo do meu pensamento com as coisas, minha razão só pode mais valsar com os conceitos. Ela funciona a vazio. E posso então pensar qualquer coisa, já que não tenho mais esse contato com as coisas que deveriam conter minhas construções racionais. Eis a Razão divinizada, mas esvaziada. Posso pensar um mundo construído por mim mesmo.

Um dia quero criar esse mundo do meu pensamento. Como o mundo real se apresenta diante de mim com suas coerções e resistências, precisarei destruí-lo: será a REVOLUÇÃO, esse ódio feroz e devastador contra um mundo criado pelo Outro, que não responde ao meu desejo de felicidade e perfeição tais como os concebo em meu espírito. Para destruir, será preciso erguer essa RAZÃO-DEUSA sobre um Altar no lugar de DEUS e adorá-la.

Compreendemos então por que nossos filósofos cristãos sentiram repulsa por essa RAZÃO. Foi uma reação de bom senso, mas, ai de nós! sem prudência. Ao denunciar essa razão divinizada, eles atacaram a verdadeira razão, aquela que Deus nos deu para conhecer, julgar e amar. Eles rebaixaram o Homem; declararam-no incapaz de alcançar a Verdade com certeza. Ao fazer isso, caíram em um erro fundamental que poderia ter sido evitado graças a algumas distinções conceituais necessárias.

A teologia católica sempre ensinou que nossa razão tem o poder absoluto de conhecer por suas próprias luzes todas as verdades religiosas e morais de ordem natural. Infelizmente! podemos nos enganar e mergulhar no erro. A história da humanidade nos ensina isso amplamente. Como reduzir essa antinomia? Simplesmente distinguindo a faculdade de seu exercício.

Deus não quis enganar os homens. O próprio DESCARTES, num acesso todo provisório de franqueza, escreveu: "Pois Deus, não podendo ser enganador, não podendo também querer que suas criaturas se enganem, não pôde dar ao homem a razão e os sentidos como meios de erro."

Sem dúvida, Deus nos dotou de inteligência e razão para conhecer e compreender o mundo criado que nos rodeia. Quando usamos esses meios em sua ordem natural e sua finalidade, não podemos nos enganar. Mas podemos não usar nossa razão ou até mesmo abusar dela. Então caímos no erro: é o privilégio da nossa liberdade. Podemos recusar-nos a pensar, porque a reflexão, a meditação são atos difíceis, que exigem um esforço. Preferimos sonhar, dormir ou gozar. O bêbado inveterado possui uma razão natural. Infelizmente! ele não a utiliza! O ambicioso, o vaidoso usam sua razão para justificar seus excessos! Eles a desviam de sua finalidade. Como vocês querem que eles não se enganem?

O Papa Pio IX, em sua encíclica de 9 de novembro de 1846, condenou as doutrinas dos "Anais de filosofia cristã" nas quais Agostinho BONNETTY ensinava que "o homem, em qualquer estado em que se encontre colocado, não possui na realidade senão UM princípio de conhecimento para as verdades da religião natural, tais como a existência de Deus, a existência da lei natural, a imortalidade da alma e a existência de uma outra vida. Esse princípio do conhecimento não é outro senão a revelação divina manifestada ao homem pela Tradição. Privada do auxílio dessa tradição, a razão, inteiramente deixada a si mesma, é absolutamente incapaz de descobrir essas verdades". Registre-se.

Coloca-se aqui o problema da Fé. Quando Deus propõe à nossa inteligência uma verdade de ordem sobrenatural que ultrapassa infinitamente as capacidades compreensivas do nosso espírito, Ele não pretende apelar para uma faculdade diferente da razão, à qual justaporia uma espécie de razão divina alojada em nossa alma. Também não pretende pedir que nossa razão se retire para substituí-la por outro modo de conhecimento que não seria mais humano, mas divino. Absolutamente não. Ele pede que nossa razão se "abra" a uma verdade mais perfeita, mais elevada. Ele lhe pede um esforço de perfeição e, como essa ordem sobrenatural ultrapassa as faculdades nativas de nossa razão, é necessário acrescentar uma graça apropriada que não destrói a razão, mas a completa e a aperfeiçoa.

Um dos raros pensadores católicos a manter, nessa época, a verdadeira doutrina da Igreja sem cair no Tradicionalismo nem no Liberalismo doutrinal que então grassavam, DOM GUÉRANGER expôs muito bem a questão em um notável artigo de "L'Univers" de 3 de junho de 1858.

Ele começa rejeitando o Tradicionalismo, sistema rebento, diz ele, do Baianismo, felizmente em vias de desaparecer. Em seguida, explica o uso legítimo da razão que se prepara para a Fé, da razão que se entrega à Fé, da razão que se exerce sob o controle da Fé. Mostra que o ato de Fé é admiravelmente razoável e plenamente voluntário, que é a coroa da Razão, como é sua prova, que germina sob a graça na alma do homem e nunca dispensa "essa gloriosa humildade que nos inclina diante do pensamento de Deus". Como poderia Deus, então, fazer germinar a Fé numa alma privada de razão?

B) O INATISMO DAS IDEIAS: DE PLATÃO E DESCARTES A JOSEPH DE MAISTRE

Se nossa inteligência dotada de razão não é capaz de produzir em nós as ideias extraídas das coisas que nos rodeiam, de onde podem então provir nossas ideias? Para os filósofos platônicos, elas já estavam em nós antes do nosso nascimento. É o Inatismo que supõe, aliás, a pré-existência das almas antes de sua queda nos corpos.

Joseph de MAISTRE encontrava em seu tempo a Filosofia do Sensualismo que ensinava que as ideias eram o produto das sensações; daí a tirá-las da matéria, havia apenas um passo, rapidamente ultrapassado. Foi o caso de CONDILLAC e de LOCKE.

Reagindo contra essa concepção, fonte do materialismo, e citando esta fórmula de Aristóteles: "Que o homem nada pode aprender senão em virtude do que já sabe", MAISTRE tira daí a conclusão de que isso supõe necessariamente algo semelhante à teoria das Ideias inatas.

Ele cita até mesmo várias vezes São Tomás de Aquino sem compreendê-lo. Porque este último afirma que "Nada pode entrar no espírito senão por intermédio dos sentidos" (Nihil est in intellectu quod prius non fuerit sub sensu), porque afirma ainda que "a inteligência, em nosso estado de degradação, nada compreende sem imagens" (Intellectus noster secundum statum praesentem nihil intelligit sine phantasmata), MAISTRE conclui "que não pode haver nenhuma relação, nenhuma analogia, nenhuma equação entre a coisa compreendida e a operação que compreende" e "que os mais nobres e mais virtuosos gênios do Universo concordaram em rejeitar a origem sensível das ideias" (Soirées de Saint-Pétersbourg).

Ora, São Tomás não diz que as ideias são produzidas pelos sentidos, mas que elas precisam dos sentidos para se fixar no espírito.

Em outra passagem, Maistre continua: "Observe bem em todos os livros filosóficos do século XVIII. Não se dizia francamente, não há Deus. Mas dizia-se: Deus não está aí. Ele não está em suas ideias, elas vêm dos sentidos, ele não está em seus pensamentos que são apenas sensações transformadas, etc..."

Claro, ele tem razão ao negar que as sensações possam produzir as ideias; mas erra ao concluir disso que nossas ideias não vêm das coisas percebidas pelos sentidos. O cartesianismo implícito que impregna seu espírito, após torná-lo inapto a perceber o que há de inteligível nas coisas, o obriga a buscar fora do Real conhecido a fonte das ideias. O que lhe resta? Uma revelação divina ou ainda uma atividade propriamente divina operando em nosso espírito.

Ele continua:

"Toda ideia que não provém nem do comércio do espírito com os objetos exteriores, nem do trabalho do espírito sobre si mesmo, pertence à substância do espírito. Há, portanto, ideias inatas, ou anteriores a toda experiência. Não vejo consequência mais inevitável; mas isso não deve surpreender. Todos os escritores que se exercitaram contra as ideias inatas se viram conduzidos, pela só força da verdade, a fazer confissões mais ou menos favoráveis a esse sistema" (Ainda em "As soirées").

Esse inatismo foi ensinado por PLATÃO, também por Santo AGOSTINHO, mas este as rejeitou em suas "Retratações" (Livro I, cap. 2). Chegando aos 75 anos, ele disse: "Justamente, lamento ter feito tão grandes elogios seja de Platão, seja dos platônicos. Eram homens ímpios que não deveriam ser tão louvados por causa dos grandes erros em que caíram (quorum contra errores magnos defendenda sit christiana doctrina)."

Seguindo nisso a escola cartesiana, de MAISTRE, e BONALD na sua esteira, negam que o homem tenha a faculdade própria de formar as ideias. Eles supõem que é pela luz divina que vemos em nós as ideias.

Suposição absurda e desrespeitosa para com Deus criador! É extraindo das imagens recebidas das coisas sua forma inteligível que o espírito por sua atividade própria pode captar o real e apreender a ideia que a coisa realiza. Para compreender isso, é preciso saber que os seres que nos enviam sua forma já são a realização de uma ideia criadora e possuem em si esse caráter imaterial já pré-adaptado à natureza imaterial de nossa alma.

Mas se, como afirmam os inatistas, é Deus que, por sua luz infinita, grava diretamente essas ideias no espírito de todos os homens, na verdade não há ideias, mas um único agente, operando com a ajuda de um único instrumento, o entendimento divino, distribuindo diretamente as ideias em cada espírito.

Se o espírito humano não tem faculdade nem operação que lhe seja própria, é porque não tem ser próprio. Nosso espírito seria apenas uma parcela do espírito divino. Deus seria tudo em todos os espíritos. Estamos em pleno Panteísmo!

O "Eu universal" de FICHTE, o Absoluto de SCHELLING, a "Substância essencial, a Razão Geral" da Humanidade não são senão o espírito de Deus englobando os espíritos de todos os homens. É a consequência necessária e rigorosa do ensinamento de PLATÃO e DESCARTES.

Infelizmente! Joseph de MAISTRE e BONALD o retomaram para si. Há em sua obra um Panteísmo implícito.

C) DA REVELAÇÃO PRIMITIVA À DIVINIZAÇÃO DO POVO: DE MAISTRE E BONALD A LAMENNAIS.

Foi o Visconde de BONALD quem apresentou a exposição mais acabada dessa revelação primitiva. Sua formação intelectual é inteiramente autodidata. Ele se ligou ao Padre MANDAR, um professor e amigo de J. J. ROUSSEAU. Leu Claude de SAINT MARTIN, o "filósofo desconhecido", fundador das lojas maçônicas ditas martinistas. Dele tomou emprestado todo o essencial de suas teses sobre os números, a estrutura da alma, sobre sua teoria da linguagem. TODA sua doutrina é maçônica e gnóstica, como a de MAISTRE. Durante o período de emigração, leu PLATÃO, DESCARTES e LEIBNITZ. Refere-se frequentemente a "O Espírito das Leis" de MONTESQUIEU e ao "Contrato Social" de ROUSSEAU, os grandes teóricos revolucionários. Como, com uma formação intelectual dessas, pôde alguém torná-lo um mestre da Contrarrevolução?

A ideia central de seu sistema é que "o homem pensa sua palavra antes de falar seu pensamento". A linguagem é, portanto, o instrumento necessário de toda operação intelectual e o meio de toda existência moral" (Investigações Filosóficas). Incapaz de inventar a linguagem, o homem teve necessariamente que recebê-la de Deus e, com ela, as principais verdades morais e religiosas. É a "Revelação primitiva" que nos faz conhecer essas verdades que a linguagem transmite de geração em geração, e é na infalibilidade de Deus revelador que se encontra a única garantia que estabelece sua certeza.

O Verbo cria e gera o pensamento que significa. As fórmulas de BONALD, nos diz Albert GARREAU, em seu livro "As vozes no deserto, Profetas do século XIX", assumem uma aparência inquietante.

No primeiro tempo da humanidade, diz nosso Visconde, quando as leis da natureza não eram conhecidas, o pensamento as ultrapassava e, de certo modo, remontava ao próprio Deus, autor de todas essas leis. Essa presença geral da divindade, que é um dogma para uma razão esclarecida, era para sua razão nascente uma presença local.

Deus, portanto, habitava em nossa alma e se substituía à nossa razão para ensinar-lhe as verdades de ordem natural. Adão era apenas um aborto de homem, dotado de uma razão nascente (? ?), sem dúvida, um macaco em vias de hominização à moda de Teilhard de Chardin.

"O gênero humano, isto é, as sociedades de todos os tempos e de todos os lugares, teve o sentimento da existência da divindade. Logo, a divindade existe, pois o sentimento geral do gênero humano é infalível". (Pareceria estar lendo J. J. ROUSSEAU) e: "Os homens nomeiam Deus, logo ele é; pois se não fosse, não seria nomeado." Vocês veem bem que para BONALD são as palavras que criam as coisas! Reconhecemos aí a prova ontológica, copiada diretamente de DESCARTES.

Esse sistema é extremamente grave, é de origem ocultista, inteiramente emprestado de Claude de SAINT MARTIN. Ele contém em si implicitamente toda a Gnose primitiva. A Cabala nos explica que a palavra é criadora dos seres. A cada letra do alfabeto, a Cabala faz corresponder um número místico. Portanto, as letras do Hebraico são sagradas e de origem divina. O Verbo é um ser intermediário entre o criador e a criação. Ele carrega em si mesmo o próprio ser das coisas que designa. Não é, portanto, um simples sinal convencional, inventado pelo homem para transmitir seu pensamento. É um verdadeiro retorno ao Nominalismo. É a palavra que traz ao pensamento seus objetos de conhecimento. Alcançamos pelo pensamento a linguagem e não os objetos que ela designa.

Sistema duplamente errôneo, porque supõe na fonte de nossos pensamentos uma Revelação. É, portanto, Deus que pensa em nós. A ordem natural e a ordem sobrenatural são confundidas. Todas as tradições de todos os países são os restos de uma Grande Revelação primitiva; elas são, portanto, sagradas. E os povos detêm em si mesmos a infalibilidade divina.

A tais absurdos, é preciso responder com algumas perguntas de bom senso. Se nosso pensamento é o produto de uma linguagem divina, como se podem explicar os erros? Poderia Deus enganar-se em sua Revelação? Como poderia o homem inventar multidões de deuses? Dito de outra forma, o Politeísmo seria impossível.

Melhor ainda, o primeiro conhecimento dos homens é um ato de Fé. A filosofia não é, portanto, senão o desenvolvimento desse ato de Fé primitivo. Ela é, portanto, uma Teologia. Eis que isso arruína tanto a Fé quanto a Teologia.

Acreditar em Deus revelador da linguagem e criador do pensamento humano, sem antes ter apresentado uma prova de sua existência, é um ato desarrazoado, é uma demissão de nossa inteligência. O homem condenado a um ato de Fé, antes mesmo de ter podido fazer uso de sua razão (já que ela é dita nascente), que loucura! Deus, ao nos dar uma alma espiritual dotada de inteligência e ao nos tornar incapazes de usá-la, teria zombado de nós!

Na realidade, a linguagem não é a ferramenta do pensamento, mas o instrumento que o homem forjou para transmitir seu pensamento. Não há relação necessária entre as palavras e as coisas que elas significam: as palavras são símbolos, isto é, signos convencionais. De uma língua para outra, a palavra pode mudar, mas a ideia que ela representa permanece a mesma, porque está em relação necessária com o objeto, visto que dela é a forma inteligível. Pela palavra, nosso espírito atinge o próprio objeto. O Nominalismo é impensável.

Encontram-se n'"As Noites de São Petersburgo", de Joseph de MAISTRE, uma multidão de reflexões e observações que supõem tanto a origem divina da linguagem quanto a infalibilidade divina da Humanidade. Sob sua pena, encontra-se "a crença geral, a razão geral, o instinto natural e o consentimento universal das nações". É este o critério que o guia através de todas as suas especulações.

MAISTRE personifica os povos e os Impérios. Isso poderia ser um artifício literário, um jogo do espírito. Mas nele é uma mania ver Deus agindo através dos povos e determinando o curso dos Impérios:

"A existência e o curso dos governos não podem ser explicados por meios humanos. Há em cada império um espírito diretor que o anima, assim como a alma anima o corpo e que provoca a morte quando se retira" (3º diálogo).

MAISTRE afirma que um povo, uma cidade, uma família, são seres morais e únicos, tendo cada um "suas boas e más qualidades, capazes de merecer ou desmerecer e passíveis de penas e recompensas" (10º diálogo). O gênero humano inteiro é também um imenso ser coletivo, suscetível de uma culpabilidade coletiva.

Encontram-se tais elucubrações no "Timeu" de PLATÃO, comparando o Universo a um grande animal, do qual o homem é uma célula, a terra um grande corpo animado por correntes magnéticas, assim como um organismo é dotado de um sistema nervoso, etc... etc...


O Padre de LAMENNAIS não fez mais do que levar as ideias que acabamos de expor às suas últimas consequências. Melhor ainda, ele explicitou seu conteúdo real e os admiradores de MAISTRE e de BONALD vão se alvoroçar. Por fim, a Igreja o condenará.

Quando o segundo volume de "O Ensaio sobre a Indiferença em matéria de Religião" foi publicado em 1820, algumas mentes mais ponderadas começaram a manifestar reticências.

Lamennais ensinava que a razão individual é capaz de nos dar apenas certezas instintivas ou de fato, e que somente a razão coletiva da Humanidade, o consentimento universal, o "senso comum", dão a certeza absoluta ou de direito, apoiada em Deus, de quem guardam e transmitem os ensinamentos.

O critério do verdadeiro não é a evidência da proposição que o enuncia, mas a autoridade da razão geral que o afirma: "O que todos os homens creem ser verdadeiro é verdadeiro". É preciso rejeitar a razão do homem separada da razão humana e da razão de Deus, que se expressa através da razão humana geral ligada ao uso da palavra. O conhecimento não é inato no homem, nem adquirido, mas inato na sociedade. É preciso rejeitar, extirpar da filosofia cristã a ideia de que em cada um a razão é dotada do poder de alcançar o verdadeiro.

De modo que, para Lamennais, sob as religiões "ditas primitivas" e os cultos da Antiguidade, sob a alteração dos paganismos, reconhecem-se crenças universais, idênticas às ideias essenciais do Cristianismo. A verdadeira religião encontra-se em todos os povos. O cristianismo não é senão a explicação mais completa.

MAINE DE BIRAN reagiu imediatamente com muito bom senso:

"Eis um outro mistério bem maior. A sede das verdades em questão é a Sociedade que, dotada de uma espécie de entendimento coletivo, diferente daquele dos indivíduos, foi imbuída desde a origem pelo dom da linguagem e em virtude de uma influência miraculosa exercida sobre a massa sozinha, independentemente das partes. O homem não é nada, apenas a Sociedade existe, é a alma do mundo moral. Só ela permanece, enquanto as pessoas individuais não passam de fenômenos... Entenda quem puder essa Metafísica social !!!..."

DOM GUERANGER estava então no seminário de Le Mans. Seu professor de filosofia, o Senhor Arcanger, e seu repetidor, o Senhor Nourry, eram menaisianos. Ele fez como eles, tomou partido pelo senso comum. "O senso comum, dizia ele mais tarde, nós realmente não o tínhamos, mas acredito que nossos colegas cartesianos eram ainda mais absurdos do que nós." E acrescentava: "Aliás, só compreendi essas questões, como muitas outras, depois de sair do Seminário."

É uma das glórias de DOM GUERANGER ter-se sempre levantado contra um divórcio tão prejudicial à razão e à Fé e ter sido o precursor de um movimento filosófico que, para se sustentar e defender a razão contra o Agnosticismo ou o Tradicionalismo, só precisava retornar às suas origens escolásticas e a São Tomás de Aquino. Já em 1862, o Padre RAMIERE, S. J., publicava: "Da Unidade do ensino da Filosofia no seio das escolas católicas", primeira tentativa de restauração do Tomismo na Igreja da França.

LAMENNAIS tenta se defender de ter inovado e tem razão. Todo o seu ensino provém de BONALD, "esse carvalho vigoroso, diz ele, que vai buscar sua seiva através dos rochedos primitivos até nas entranhas da terra."

"Este pobre livro, escreve ele a Saint-Brieux, em 3 de agosto de 1820, foi pouco compreendido até agora, sobretudo no clero de Paris. Fazem de mim um cético, porque eu arruinei o Ceticismo e dei, ao que me parece ao menos, uma base verdadeira à razão. Pessoas que, no entanto, têm espírito escreveram-me sobre isso coisas estranhas... O Senhor de BONALD pensa como eu e sustentará minha doutrina. Creio sinceramente que ela é de extrema importância para a religião, e é isso que me tranquiliza quanto à minha sorte."

"Quanto às minhas ideias, escreve ele ainda em 10 de fevereiro de 1837, à Senhora Cottu, elas se desenvolveram, não mudaram. O broto tornou-se folha, eis tudo... Minhas ideias, sempre as mesmas no fundo, se retificaram, se ampliaram, se desenvolveram, eis tudo. Só se está unido a Deus na medida em que se está unido à Humanidade, sem distinção de lugares, de tempos, de opinião, de crença..."

É maravilhoso! É fundando seu pensamento no pensamento coletivo da Humanidade que se pode alcançar a Verdade. Marx e Hegel não disseram outra coisa. A Humanidade divinizada, o Mundo detentor da Verdade infalível! Todas as religiões não passando de expressões variadas de uma mesma religião universal! Não estamos aqui em plena Gnose maçônica?

E não acabou. Vamos ver que essa Gnose é inteiramente ensinada em "As Noites de São Petersburgo", pelo próprio Joseph de MAISTRE.

D) DO PAGANISMO AO CRISTIANISMO E À SUPER IGREJA: DE JOSEPH DE MAISTRE A NEWMANN E PUSEY

Joseph de MAISTRE, refugiado em 1792 em Lausanne, na Suíça, leu uma obra de DUTOIT-MAMBRINI, discípulo de Claude de SAINT-MARTIN, publicada naquele mesmo ano nessa cidade sob o pseudônimo de KELEPH-BEN-NATHAN e intitulada: "Filosofia divina aplicada às luzes naturais, mágica, astral, sobrenatural, celeste ou divina, ou Imutáveis verdades que Deus revelou de si mesmo em suas obras, no triplo espelho analógico do Universal, do Homem e da Revelação escrita."

É particularmente em seus "Esclarecimentos sobre os Sacrifícios" que vamos encontrar o pensamento de Joseph de MAISTRE sobre a Religião Universal. Ele cita um livro publicado em 1730: "Conferência da Fábula com a Escritura Sagrada", onde se vê que as grandes Fábulas, os Cultos e os mistérios do Paganismo não passam de cópias alteradas da História e das tradições dos Hebreus, pelo Sr. de LAVAUR.

MAISTRE tira desta conclusão que "as tradições antigas são todas verdadeiras, que o Paganismo inteiro não passa de um sistema de verdades corrompidas e deslocadas, que basta limpá-las por assim dizer e recolocá-las em seu lugar para vê-las brilhar com todos os seus raios" (Soirées, II° encontro).

Ele especifica que os escritos de Plutarco, de Xenofonte, de Platão, "esse prefácio humano do Evangelho" e os ensinamentos de Sócrates estão cheios de ideias com uma semelhança impressionante com certos ensinamentos judeus e cristãos. Ele compara, sem hesitar, os deuses do paganismo aos anjos e santos do Cristianismo.

Ele escreve, na conclusão de sua obra "Do Papa", uma Invocação ao Panteão de Roma eterna: "Todos os santos no lugar de todos os deuses! É no Panteão que o Paganismo é retificado e levado de volta ao sistema primitivo do qual era apenas uma corrupção visível. O nome de Deus, sem dúvida, é exclusivo e incomunicável; no entanto, há muitos deuses na terra e no céu. Há inteligências, naturezas melhores, homens divinizados. Os deuses do Cristianismo são os Santos..." MAISTRE encontrou a inspiração deste trecho numa passagem do "piedoso THEYER, na relação que ele deu de sua conversão." (Religion E, 30 de dezembro de 1805 e 11 de janeiro de 1806).

Que diferença, aliás, há entre a Apoteose antiga e a canonização? Esculápio não era para Xenofonte o que chamamos de Santo...

"Não há dúvida, especifica ele, 1°) que não se pôde passar subitamente do culto de Jeová ao culto dos espíritos, 2°) que os deuses das nações eram, aos olhos dos antigos adoradores do Verdadeiro Deus, verdadeiros deuses, 3°) mas que esses verdadeiros deuses eram e podiam ser maus deuses" (Mélange B, novembro de 1807).

Ele acrescenta em seus "Esclarecimentos sobre os Sacrifícios":

"Uma crença justa em sua raiz, mas corrompida por essa força que havia corrompido tudo; havia gerado, apesar da razão, apesar da piedade natural, o uso geral dos sacrifícios de animais ou plantas e até mesmo o horrível abuso dos sacrifícios humanos. Foi uma depravação do Dogma inato. Pois o homem não adota naturalmente o erro. É a religião cristã que explicou e justificou o instinto religioso da humanidade, que desvencilhou esse sentimento universal dos erros e crimes que o desonravam. Todos os dogmas e todos os usos da Igreja católica têm sua raiz na profundidade da natureza humana e, consequentemente, em alguma opinião universal, comum em seu princípio a todos os povos de todos os tempos." (Do Papa).

Há, portanto, uma continuidade entre paganismo e Cristianismo. Poder-se-ia dizer que o Cristianismo seria o desabrochar do Paganismo. É bem o pensamento de Joseph de Maistre que aparece subjacente a todos os Diálogos das Soirées.

Mas, então, façamo-nos algumas perguntas. Como é que uma Humanidade, depositária de uma Revelação divina, proprietária de uma Verdade infalível, recebida diretamente de Deus, poderia ter "alterado" esse depósito divino? "corrompê-lo", "deslocá-lo"? E qual é essa força que poderia ter deteriorado uma crença justa até em sua raiz? Se os falsos deuses do paganismo são apenas Santos ou Anjos, como explicar a fonte dessa corrupção. Há, diz-nos ele, maus deuses! Por quê? E se um ser de caráter divino não carrega necessariamente em si a perfeição, o que significa a ideia de Divindade? E se a Perfeição pode se corromper, onde se deve colocar o Critério da Verdade? Já mostramos a incoerência fundamental dos Gnósticos no problema do Mal (cf. "Da Gnose ao Ecumenismo", Capítulo 1). Joseph de MAISTRE não escapa a essa contradição.

Segunda questão. Se o Cristianismo é apenas o Paganismo, "limpo", "purificado", aperfeiçoado, ele é apenas uma forma transitória da evolução na Religião Universal que poderá atingir mais tarde uma forma evoluída ainda mais perfeita.

Emile FAGUET já havia notado isso em "Políticos e moralistas", (1° série, 1891). Sua concepção da continuidade das religiões leva necessariamente a um Cristianismo "racionalizado", que, deixando cair seu dogma e seus mistérios, tornar-se-á a Religião da Humanidade. E isso é bem verdade.

MAISTRE especifica nas Soirées (II° encontro) "que à revelação limitada do Sinai, à de Cristo, mais ampla, mas ainda "restrita pelas circunstâncias de tempo e de lugar", sucederá uma nova manifestação da divindade:

"Contemple este lúgubre espetáculo e junte a ele a expectativa dos Homens escolhidos e verá se os Iluminados estão errados em vislumbrar como mais ou menos próxima uma terceira explosão do poder divino em favor do gênero humano, uma nova efusão do Espírito."

Joseph de MAISTRE: precursor dos movimentos carismáticos? Com certeza! Pois imbuído de Iluminismo maçônico...

E todo esse jogo intelectual não foi inocente. Teve consequências desastrosas cujos últimos efeitos sofremos hoje.

A influência de Joseph de MAISTRE, de BONALD e de LAMENNAIS foi muito grande sobre todos os espíritos cristãos durante o século XIX.

OZANAM buscava através dos séculos a herança comum da Humanidade. Por volta de 1830, um grupo de estudantes católicos acreditava com ele em uma palingenesia ou renovação do mundo pelo Catolicismo, divino complemento da religião primitiva cujos traços se encontram em todos os povos e que satisfaz as necessidades do indivíduo e da Sociedade (cf. Monsenhor BAUDRILLART: "Frederic Ozanam, 1912").

Goerres, Schlegel, Brentano, o redator das Visões de Ana Catarina Emmerich, Arnim, desenvolveram essas ideias na Alemanha.

NEWMAN escrevia em 1838, na Inglaterra:

"A verdadeira religião é o cume e a perfeição das falsas. Ela combina tudo o que há de bom e verdadeiro em cada outra separadamente. A Fé católica é em grande parte a combinação de verdades separadas que os hereges dividiram entre si, daí o seu erro."

Eis um monstruoso ecumenismo: fazer surgir a verdadeira religião das falsas, combinar verdades parciais, isto é, misturadas com erros; considerar os hereges, não como tendo rejeitado verdades já conhecidas e professadas, mas como tendo conservado verdades parciais. Como dizíamos, o Cristianismo é bem o desabrochar do Paganismo, em seu espírito. Eles deveriam surgir por uma evolução natural.

Mas então pergunta-se por que Cristo veio sofrer a Paixão. Se o Paganismo continha em si mesmo implicitamente todo o Cristianismo, a Encarnação e a Redenção não têm mais nenhuma razão de ser.

Augusto COMTE percebeu bem a influência de Joseph de MAISTRE sobre o movimento de Oxford. Numa carta a Stuart Mill, Paris, 5 de abril de 1842, ele vê no Puseyismo um "estranho advento do Catolicismo anglicano e uma emanação espontânea de nossa escola retrógrada desde de Maistre." Estamos aqui, segundo a expressão de Julien BENDA, "na turva perversidade de Belphegor."

UMA REAÇÃO PSEUDO-CRISTÃ: O ONTOLOGISMO OU A VISÃO EM DEUS

A) DE SANTO AGOSTINHO A BLANC DE SAINT-BONNET

Outros filósofos cristãos, impressionados pelas incoerências do Tradicionalismo, buscaram um acordo entre o pensamento de Descartes e a doutrina católica.

Dissemos que DESCARTES, por sua doutrina do "Cogito", acabava por fazer surgir o mundo inteiro do "Eu pensante". Era em germe todo o erro do Idealismo e do Panteísmo. Ao "penso, logo existo", esses pensadores cristãos quiseram substituir a ideia de infinito, isto é, de Deus que seria a única base de todo conhecimento intelectual. É o que se chamou de ONTOLOGISMO.

BLANC DE SAINT-BONNET recebeu em Lyon toda a sua formação filosófica do Padre NOIROT, cujas "Lições de Filosofia" foram publicadas por um aluno, TISSANDIER, ao qual ele havia comunicado seus cadernos de curso.

Para este Padre NOIROT, a Filosofia é a ciência das Ideias:

"O objeto da Filosofia é, portanto, o próprio pensamento e tudo o que constitui de perto ou de longe o pensamento. São todas as ideias, todas as noções de que se compõe, em uma época qualquer, o saber humano" (p. 6).

Eis a filosofia reduzida a uma psicologia e privada de Metafísica.

"As noções que chamamos ideias necessárias, continua o Padre NOIROT, concepções, permaneceram imutáveis, invariáveis em meio a todas as revoluções do pensamento humano. Os filósofos que discerniram e descreveram este elemento do pensamento lhe deram nomes diferentes e cada uma dessas denominações expressa um dos caracteres dessas ideias."

Ele então cita PLATÃO e suas "ideias inatas", LEIBNIZ e suas "ideias necessárias", BOSSUET e FÉNELON e suas "ideias puras".

"Essas noções, acrescenta ele, distinguem-se de todas as outras porque são indemonstráveis. Elas são verdadeiras porque existem." (página 40).

Mas se reduzirmos essas ideias absolutas a uma criação a priori da razão, caímos necessariamente no Kantismo e, por fim, no Ceticismo agnóstico. Para evitar tais conclusões, será necessário vincular essas ideias absolutas e a priori ao real, cuja natureza e leis elas devem fazer conhecer.

O Padre NOIROT realiza essa junção ao fazer um empréstimo da célebre teoria das Verdades eternas derivada de SANTO AGOSTINHO.

"Esta razão que está em mim e que não sou eu, de onde vem ela? Não é ela algum hóspede celeste descido em nós para nos entreter com as coisas do alto?"

Em seguida, ele cita BOSSUET:

"Se procuro agora, diz a Águia de Meaux, onde e em que sujeito essas verdades subsistem eternamente e imutáveis como são, sou obrigado a admitir um Ser no qual a Verdade é eternamente subsistente e onde ela é sempre entendida, e esse ser deve ser a própria Verdade, e deve ser toda Verdade, e é dele que a verdade deriva em tudo o que é e se entende fora dele. Esse objeto eterno é Deus, eternamente subsistente, eternamente a própria Verdade." (páginas 111 e 112).

Esse texto, tomado de BOSSUET, resume uma prova da existência de Deus, sempre ensinada na filosofia cristã. Mas o Padre NOIROT o faz dizer outra coisa: que a razão seria em nós algo de divino.

É o Ontologismo, doutrina segundo a qual o primeiro objeto do olhar de nossa razão seria o próprio Deus, e seria Nele que ela buscaria suas ideias eternas, as quais teriam sido inseridas pelo próprio Deus em nosso espírito, e é ao recebê-las de Deus que a razão as concebe. A concordância dessas ideias com o real se dá por intermédio de Deus. Não é difícil encontrar nessa teoria traços evidentes do inatismo cartesiano.

BLANC DE SAINT-BONNET continua o ensinamento do Padre NOIROT. Ao precisá-lo, marca bem seu ponto de chegada, e o que não estava muito claro nele vai assumir subitamente um aspecto novo, o Panteísmo implícito de toda essa construção cartesiana.

"Desde sempre, diz-nos ele, percebeu-se que havia no homem algo além do homem, que nele a Verdade tomava um santuário e a consciência uma sede para ditar sentenças certas. Os grandes filósofos ao longo dos séculos se preocuparam particularmente com a razão... A razão é o que vê por excelência, o que vê o ser. Ver apesar do véu dos objetos exteriores, ver além dos sentidos e do horizonte dos fenômenos é próprio da razão. A razão é um reflexo ainda puro, embora enfraquecido, dessa Luz que decorre do próprio seio da Substância eterna. Ela desce de Deus, aparece à consciência como um hóspede que lhe traz notícias de um mundo do qual lhe dá a ideia e a necessidade... Esse parentesco entre a razão humana e a sabedoria divina, essa filiação direta na qual o pensamento do homem e o pensamento de Deus se encontram, explica-nos por que o bem, aqui embaixo, é realmente o bem, o verdadeiro, realmente o verdadeiro... Nossa razão pertenceu a Deus e faz parte de sua Sabedoria eterna, antes de descer em nós pela criação, e a alma não é enganada. Por mais humilde que seja o homem, ele pode dizer: Tenho algo em comum com Deus, possuo um elemento, faculdades que esse ser divino deve possuir..." (Trecho do livro "Da Razão", 1866).

Sublinhamos, ao longo deste texto, todas as fórmulas que desenvolvem essa ideia panteísta de que nossa alma é uma parcela da alma divina descida num corpo. Os Gnósticos, que negam que Deus seja algo além do Mundo, fazem dela uma parcela da alma do Mundo. O ponto de aplicação do princípio é análogo. Nossa alma racional não nos pertence e não constitui para nós o princípio de nossos conhecimentos.

Supõe-se que "o conhecimento direto de Deus é natural ao homem". É a negação de uma ordem sobrenatural, pois se concede à criatura o poder de conhecer diretamente o Criador, de vê-lo sem intermediário. Ora, a visão intuitiva de Deus ultrapassa absolutamente as forças e as exigências de todas as criaturas.

Quando a irmã de BLANC DE SAINT-BONNET publicou a obra de seu irmão, ela teve plena consciência de que sua doutrina se afastava sensivelmente do ensinamento da Igreja e, por isso, a fez preceder deste aviso:

"Revestindo de meu respeito e de meu afeto a pena de meu irmão, tenho o dever, como filha devotada da Santa Igreja Católica, de explicar certas expressões, certos pensamentos emitidos nestas páginas. Aluno do douto Padre NOIROT e dedicado ao culto da filosofia em uma época em que esta ciência era estudada fora de suas relações com a escolástica, Antoine BLANC DE SAINT-BONNET não teve a felicidade de conhecer os admiráveis ensinamentos de Leão XIII relativos ao caminho a seguir no estudo das ciências filosóficas e de se beneficiar desses ensinamentos. O leitor saberá, portanto, explicar as possíveis lacunas e dignar-se-á a desculpá-las..."

Acrescentemos ainda que os ontologistas frequentemente apelam para este texto de São João: "O Verbo é a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo." (Portanto, no momento de seu nascimento, Deus lhe insufla os princípios da razão). São Tomás de Aquino já refutou há muito tempo essa teoria das ideias inatas:

"O texto de São João que citais, dizia ele aos platônicos, prova apenas uma coisa, que nós admitimos: que a Luz do Verbo ilumina o entendimento humano como causa universal, mas não prova que esta luz divina é a causa imediata das funções do espírito humano. Esse texto, longe de excluir a existência do intelecto agente no homem, a prova; pois é desta luz universal do Verbo que a alma recebe essa espécie de virtude particular chamada intelecto agente."

B) RETORNO AO REALISMO

O objeto da Filosofia não é o próprio pensamento, mas o próprio ser das coisas. Ao contrário da afirmação de DESCARTES e de todos os filósofos que acabamos de citar, o homem não pensa seu pensamento, ele pensa as coisas. As ideias não são o que é conhecido, mas aquilo pelo qual as coisas são conhecidas. Elas não são o termo do pensamento, mas o meio.

A partir de uma reflexão do pensamento sobre si mesmo, como a preconizada por DESCARTES, é impossível atingir qualquer verdade que seja, já que a verdade é uma conformidade de nosso pensamento com a forma recebida das coisas. Não se conclui do pensamento ao ser, mas no pensamento é dado o ser das coisas. Como poderíamos observar nosso pensamento, se não houvesse objeto nele? Não se pensa o nada, mas algo, e se se decidiu rejeitar num "dúvida metódica" todos os conhecimentos adquiridos, não há mais possibilidade para qualquer pensamento que seja. A Verdade é o ser das coisas atualmente pensado. Ela reside tanto no ser quanto em nosso pensamento. Não temos em nós a potência prodigiosa de criar um ser e de impor-lhe uma forma. Contentamo-nos em receber a forma dos seres que pensamos, extraindo-a, abstraindo-a das percepções sensíveis.

Entre Deus e nosso pensamento coloca-se a criatura, o único objeto imediato aqui em baixo de nosso olhar intelectual. E é essa percepção imediata do objeto que assegura o valor absoluto das ideias e dos primeiros princípios do ser e da razão.

A verdadeira filosofia cristã exalta o valor de certeza da razão humana. A inteligência dos primeiros princípios é o fruto direto do puro olhar da inteligência sobre os objetos. Ela os lê espontaneamente no real, desde que este lhe seja apresentado sob qualquer forma que seja. E esse primeiro olhar não é o resultado de um raciocínio, é uma apreensão direta. A lógica está nas coisas, nós a recebemos com o próprio conhecimento do ser das coisas.

A inteligência humana, segundo seu funcionamento natural, encontra seu objeto próprio, o ser, somente nas coisas criadas. Ela percebe nas criaturas as exigências e as leis do ser. Descobre então que a razão de ser primeiramente extraída de uma criatura qualquer contém a plenitude ilimitada de ser que é Deus. Deus está, sem dúvida, em certo sentido, no conteúdo de seu olhar, mas ali está apenas de maneira implícita. O conhecimento de Deus precisará aparecer explicitamente na sequência de um raciocínio. Somente a razão nos permite atingir Deus, ao menos na ordem do conhecimento humano, já que a visão intuitiva está além de todas as nossas capacidades nativas. Nossa ideia das coisas não é construída, nem inata; ela é extraída do real. É pela submissão ao real que nossa inteligência se conforma a ele e se torna verdadeira. Os grandes princípios da razão são infalivelmente verdadeiros porque são, primeiramente, as próprias leis do ser.

E. C.

A "CRISTOLOGIA" DE RUDOLF STEINER

Artigo já disponibilizado anteriormente pela Ação Restauracionista aqui

TESTEMUNHO SOBRE AS ORIGENS DO CENTRO DE PASTORAL LITÚRGICA

Artigo já publicado pela Ação Restauracionista aqui.