RENÉ GUÉNON E O SAGRADO CORAÇÃO
OU COMO SE CORROMPEM AS BOAS ALMAS: O EXEMPLO DA "REVISTA UNIVERSAL DO SAGRADO CORAÇÃO"
A soma dos trabalhos publicados nos últimos cinco anos pela Sociedade Augustin Barruel nos dispensa de preâmbulo; os leitores da Revista já não precisam ser convencidos; conhecem a existência e o trabalho sutil que o espiritualismo subversivo realiza no seio do catolicismo e particularmente nas fileiras dos mais fiéis. Mas admitir sua existência, constatar seus efeitos não confere necessariamente os meios de discernir facilmente as raízes e a natureza do mal coberto pela astúcia de sua hábil e melíflua estratégia.
O fato de que queremos falar, com meio século de idade, é domínio da história, desconhecida ou quase, pois a história da subversão é oculta. A revista mensal em questão há muito desapareceu e os atores todos compareceram ao tribunal Divino. Se não estão aqui para se justificar, seus escritos publicados e arquivados estão entregues à nossa investigação e às disposições de nossa inteligência.
O interesse em trazer à luz este assunto é múltiplo. Ele desvela uma ação e relembra um procedimento: a infiltração, não original, mas sempre renovada e sempre eficazmente empregada por Satanás ao longo dos séculos para enganar e corromper as boas almas que confiam na casa que ostenta a boa insígnia. Deve, sobretudo, nos prevenir contra os perigos que hoje, mais ainda do que há cinquenta anos, ameaçam a presa pequena e frágil, quase sem meios humanos de defesa: os tradicionalistas e seu frágil acampamento. Muitas vezes, onde acreditam ver a cátedra da Verdade e a segurança, lá se encontra emboscado o agressor.
Este caso, entre tantos outros ao longo do século, ajuda a descobrir por quais artifícios tantos fiéis desnorteados vacilaram e caíram na desordem espiritual durante o assalto dado à liturgia, à doutrina, à piedade católica pela própria Hierarquia.
UM TÍTULO ATRATIVO
Não há razão alguma para duvidar do fundamento da existência e do papel de santificação almejado pelos fundadores da "Revista Universal do Sagrado Coração". Criada em 1921, publicada regularmente entre as duas guerras, dirigida pelo R. P. FÉLIX ANIZAN, tinha por título "REGNABIT" (Ele Reinará) e por subtítulo "Revista Universal do Sagrado Coração", e, como epígrafe, "TODA a questão do Sagrado Coração, TODO o movimento das almas para o Sagrado Coração, eis o objeto desta revista".
Era a emanação da "Sociedade do Raio Intelectual do Sagrado Coração", patrocinada por quinze cardeais, arcebispos e bispos. Na quarta página da capa, apresentava-se assim:
"Tem como princípio diretor que, mostrando-nos o seu Coração todo amoroso, Cristo quer fixar no seu Amor o pensamento humano para atrair a si o amor dos homens. Este objetivo eterno de Cristo é exatamente o que se propõe hoje a Sociedade do Raio Intelectual do S. C., ela quer também fixar o pensamento humano no Amor pelo qual palpita sem fim o Coração sempre aberto. Obra essencialmente EVANGÉLICA: Cristo sempre teve a peito mostrar o seu amor para provocar o amor. Obra eminentemente HUMANA. Em nossa época de discórdia, há algo mais útil e mais belo do que recordar aos homens este amor de Cristo?... Agrupados sob o sinal vivo que Leão XIII chamava de 'sinal novo', professores, escritores, conferencistas, artistas querem promover, em toda a ordem do pensamento humano, a ideia deste Amor que resume todo o cristianismo e do qual a humanidade tem mais necessidade do que nunca".
Belíssimo programa, é verdade, capaz de atrair e santificar as almas piedosas, porém, meio-programa da verdadeira e necessária devoção ao Sagrado Coração, que é Amor e REPARAÇÃO. Certamente, Cristo Nosso Senhor "sempre teve a peito mostrar o seu amor para provocar o amor", mas também a Sua Vontade de justiça, exigindo a nossa conversão pela Cruz para reparar as consequências da Queda! Reparação que condiciona o gozo do Reino!
Reconheçamos, no entanto, ao ler REGNABIT, que, se o manifesto é incompleto, a matéria é variada e a omissão original é parcialmente suprida pelos artigos excelentes de alguns redatores.
UMA COLABORAÇÃO HETEROGÊNEA
Chegamos ao ponto central: os colaboradores da Revista. Todos "intelectuais", eruditos, alguns conhecidos e reputados, em maioria eclesiásticos dominicanos, jesuítas, beneditinos, redentoristas, muito estimados pela ortodoxia de sua doutrina, como Dom SÉJOURNÉ OSB, o R. P. Lémius op, o R. P. Henry C.SS.R., diretor do excelente "Apóstolo do Lar", etc. Esses apóstolos "de passagem" fornecem à revista páginas de profunda piedade popular e reparadora, enquanto os colaboradores mais habituais dispensam uma erudição muito "hermética", dando um tom abstruso bem distante das necessidades do coração do pobre pecador. Revista intelectual, sim, mas por isso mesmo não universal! O leitor nos compreenderá quando lhe citarmos títulos de artigos, a acompanhar de fascículo em fascículo.
UMA DEVOÇÃO EMBARAÇOSA
O Diretor de "REGNABIT", o R. P. ANIZAN, intitula seu editorial de MAIO de 1926: "Revelação do Sagrado Coração e Devoção ao Sagrado Coração".
Sua grande ideia é extrair da revelação do S. C. uma doutrina para "recristianizar o pensamento humano". Não se pode deixar de subscrever, mas por que, apelando ao "simbolismo" desta revelação, ele chega a dissociar, a opor mesmo o que é da ordem do coração e o que é da ordem da inteligência, como se um devesse excluir o outro, como se um não devesse conduzir ao outro? A ponto de escrever:
"ódia equivalência entre revelação do Sagrado Coração e devoção ao Sagrado Coração, ódia porque falsa, ódia porque funesta, é ela que barra todo o raio do Sagrado Coração na ordem do pensamento"!!!
Ele qualifica de "sentimentalismo" essa devoção popular. O reverendo Padre não sentiu que seu ostracismo levaria a um intelectualismo frio e dessecante?
"UMA ATITUDE DE INTELIGÊNCIA"
O R. P. ANIZAN, em seu estudo: "Preciso de verdades primeiras sobre o raio intelectual do S. C." (REGNABIT Maio de 1927), tenta acreditar seu pensamento e sua "orientação" assegurando-se de apoios, citando Bossuet e Dom Guéranger. Ele apresenta o Coração de Jesus como o símbolo do Seu Amor, precisando: "é bem assim que é preciso olhá-lo, não pontualmente em sua materialidade apenas, não pontualmente simplesmente como órgão do Amor, mas antes de tudo como símbolo real do Amor". Quem disse o contrário? Ele insiste em condicionar seu leitor, em lhe meter na cabeça que há distinção fundamental entre o órgão objeto de devoção e o símbolo matéria de doutrina.
Antes de levar o bisturi mais a fundo, ele renova a anestesia, tranquiliza seu paciente:
"É um fato que o Sagrado Coração é objeto de uma devoção; essa devoção ao S. C. vai longe na ordem moral, pois, segundo a palavra de Dom PIE, ela é 'o resumo substancial de toda a religião, o compêndio de todo o cristianismo', mas é preciso dizer muito mais que isso: é preciso dizer que o alcance intelectual da manifestação do S. C. é independente da devoção ao S. C. Mesmo que ela não determinasse nenhuma devoção, essa manifestação do S. C. deveria determinar uma orientação de espírito que mereceria ser desejada por si mesma......, a manifestação do S. C., que por seu valor afetivo determina uma orientação de piedade, deve, por seu valor intelectual, determinar uma atitude de inteligência, produzir um estado de espírito, nos orientar mentalmente".
Quem sabe ler deduz: a devoção ao Sagrado Coração, não determinando uma atitude de inteligência, é então uma atitude visceral!
UMA TÁTICA OUSADA E ASTUTA
Apesar de sua "devoção", como conservar os assinantes enquanto os orienta "mentalmente"? Uma solução: misturar! Abrir as páginas da revista aos Apóstolos dessa miserável devoção e, sobretudo, aos filósofos esclarecidos, modeladores de mentalidades inteligentes.
O diretor, depois de ter perturbado a alma e quebrado a devoção do pobre leitor, concede-lhe um calmante administrado pelo famoso dominicano R. P. LEMIUS, apóstolo e orador do Sagrado Coração, superior dos capelães de Montmartre, animador da Adoração Noturna. Como homem realista, acostumado a conduzir homens e elevar almas ao Sagrado Coração, ele escreve em "REGNABIT" o histórico da arquiconfraria do S. C. (sem especular sobre o simbolismo):
"A religião se resume inteiramente no amor; a devoção ao S. C. é a essência do cristianismo".
Ele termina citando Dom Gouraud, um bispo segundo o Coração de Jesus:
"Muitos homens imaginam falsamente que a devoção ao S. C. é muito mística para eles, no que se enganam. A devoção ao S. C. é o culto do Amor que Jesus Cristo teve pela humanidade... ela leva às duas coisas que foram, creio eu dizer, as duas grandes preocupações de Jesus Cristo na terra: a REPARAÇÃO da glória de Deus ultrajada pela ingratidão do gênero humano, e a REDENÇÃO deste pelo apostolado e pelo sacrifício. A experiência já provou que graças particulares são reservadas ao apóstolo devoto ao S. C. Isso não é senão a realização das promessas feitas à Bem-aventurada Margarida Maria".
Pobre leitor de "REGNABIT"!
Isso concedido permitirá ao diretor fazer progredir sua "orientação", corrigindo assim:
"O coração no qual está 'o compêndio de todos os mistérios do cristianismo' não é o Coração de Cristo sozinho e visto em sua mera materialidade, nem é o Coração metafórico, isto é, o Amor sozinho, chamado Coração por figura de retórica; é o Coração simbólico, isto é, o Coração real de Cristo unido ao amor real por um simbolismo que é realmente fundado na realidade e que visa a realidade". (REGNABIT Maio de 1927)
Pobre leitor!
Quando os Vendeanos e os Cristeros se deixavam matar em nome do Sagrado Coração, não cogitavam sobre a materialidade nem sobre o simbolismo; ofereciam seus sofrimentos e seu sangue por amor.
"Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos prudentes e as revelaste aos simples e aos pequenos." São Mateus 11, 25
UMA LITERATURA PERIGOSA NA "CONQUISTA DO PENSAMENTO"
O R. P. ANIZAN prossegue seu objetivo. Ele vê no simbolismo um valor intelectual, partindo para a "conquista do pensamento". Por isso, conduzirá esse apostolado a seu modo, iniciando as boas almas desconcertadas.
Aqui estão os títulos anunciados de alguns dos artigos "muito úteis" em uma revista católica que se propõe a recristianizar o pensamento pelo conhecimento intelectual do Sagrado Coração!
- A propósito de alguns símbolos herméticos
- O Verbo e o símbolo
- O Coração do Mundo na Cabala hebraica
- Considerações sobre o simbolismo. Simbolismo e filosofia
- O Centro do Mundo nas doutrinas extremo-orientais
- A ideia do Centro nas Tradições antigas
- O EMBLEMA DO SAGRADO CORAÇÃO EM UMA SOCIEDADE SECRETA AMERICANA
- O SIMBOLISMO DA ROSA
- A ROSA EMBLEMÁTICA DE MARTINHO LUTERO
- SOBRE ALGUNS SÍMBOLOS HERMÉTICO-RELIGIOSOS
- A ICONOGRAFIA EMBLEMÁTICA DE J. C.
- O TETRAMORFO
- O GOLFINHO E O CRUSTÁCEO
- O GRIFO E A SALAMANDRA
- O HIPOCAMPO E O PISTRIX
Todos esses artigos publicados durante os anos de 1925 a 1927, justamente quando a Igreja instituía a festa e o culto de Cristo Rei! Duvidamos que, em pleno triunfo do laicismo sob o Cartel das Esquerdas, diante da expansão do marxismo, esse tipo de meditação tenha contribuído para a conversão dos pecadores e para o estabelecimento do Reino Universal do Sagrado Coração. Não que se deva ignorar o verdadeiro simbolismo no cristianismo, certamente, mas a ordem das urgências, a prioridade da Caridade em tempo de perdição não será levar a criatura a chorar suas ofensas ao Criador no Coração Misericordioso do Redentor?
Será que já, há sessenta anos, os espíritos estavam tão obscurecidos a ponto de nada ver, o sentido católico tão embotado a ponto de nada sentir... e a formação dada nos seminários tão pobre, senão pervertida? É verdade que os Conselhos de Vigilância – criados e impostos nas dioceses por PIO X no início do século – estavam repletos de modernistas!
UM COLABORADOR HETERODOXO
A quem o diretor de REGNABIT confiou a redação do essencial dessa literatura, ou qual é o autor que se infiltrou nas colunas desta publicação de título tão exaltante? Simplesmente um muçulmano (já!) o sheik Abdel Wahed Yahia. Conjecturemos que o R. P. ANIZAN o conhecia apenas pelo seu nome de batismo: René Guénon.
Em poucos anos e cerca de vinte artigos, ele vai "orientar mentalmente" – a palavra é justa – para outros caminhos as boas almas tão confiantes em uma Revista tão bem patrocinada.
GUÉNON vai ensinar-lhes, de maneira inteligente, é claro, onde se deve buscar o "Centro", que ele prefere ao Coração. Lembremo-nos de que nessa época GUÉNON percorreu seu "itinerário espiritual"; ele é maçom, bispo gnóstico e ao mesmo tempo hinduísta e muçulmano. Não é católico, mas escreve para os piedosos católicos, sem pronunciar ou raramente pronunciando o nome de Nosso Senhor, sendo o Coração, como ele se esforça por demonstrar, de todas as religiões, como o Centro, e não Aquele que sangrou para a redenção dos homens na Única Igreja da Verdade.
GUÉNON, diferentemente de seu diretor, aparentemente não quebra nada em REGNABIT; ele introduz habilmente um modo de pensar esotérico, faz referências constantes às religiões orientais, encontra nelas semelhanças impressionantes com o cristianismo. Ele deposita germes no espírito dos melhores.
"A GRANDE OBRA"
O fascículo de Fevereiro de 1926 de Regnabit, já citado, bastaria por si só para estabelecer os fundamentos de nossa acusação. René GUÉNON trata falsamente de coisas que conhece bem, não do Sagrado Coração, mas de um assunto tão importante para o conhecimento da Misericórdia Divina e a salvação das almas, imagine só!
Do quê? dos símbolos corporativos!
Dando continuidade a um artigo anterior, ele prossegue:
"Uma confirmação nos foi trazida desde então sobre o que havíamos dito ao final a respeito das marcas dos pedreiros e canteiros e dos símbolos herméticos aos quais elas parecem se ligar diretamente. A informação em questão encontra-se em um artigo relativo ao companheirismo que, por uma coincidência bastante curiosa (!), foi publicado precisamente ao mesmo tempo que o nosso. Extraímos dele esta passagem: 'O cristianismo, chegando ao seu apogeu, quis um estilo que resumisse seu pensamento... foi então que os Papas criaram em Roma a Universidade das Artes, para onde os mosteiros de todos os países enviaram seus alunos e seus leigos construtores. Essas elites fundaram assim a maestria universal, onde pedreiros, entalhadores, carpinteiros e outros ofícios de arte receberam a concepção construtiva que chamavam de Grande Obra. A reunião de todos os mestres de obras estrangeiros formou a associação simbólica, a trolha encimada pela cruz... As marcas emblemáticas criaram os símbolos da Grande Maestria Universal' ('A Religião da Arte' em O Véu de Ísis n. nov. 1925)."
Eis a amostra da literatura na qual GUÉNON se compraz, que prossegue: "o uso que se fazia dela, também, no simbolismo puramente hermético".
A extensão das páginas de GUENON familiariza o bom leitor inocente com as práticas dos iniciados, acostuma, condiciona, orienta, corrige "os julgamentos excessivos", diz ele, vejamos como: "tem-se com demasiada frequência o erro de pensar apenas na Maçonaria moderna, sem refletir que esta é simplesmente (sic!) o produto de um desvio" (simplesmente!). GUENON atribui "simplesmente" esse "desvio" aos fundadores da Grande Loja da Inglaterra, que fizeram desaparecer as fórmulas que estes "consideravam muito incômodas, como a obrigação de fidelidade a DEUS, à Santa Virgem e ao Rei", escreve ele.
GUENON conduz muito bem o seu intento, muito hábil, ele fala da "coisa" sem dar a entender, de modo que o leitor se perde. De qual maçonaria se trata? Retomemos seu estudo:
"Não temos que examinar aqui em seu conjunto a questão tão complexa e tão controversa das origens múltiplas da Maçonaria; limitamo-nos a considerar o que se pode chamar de lado corporativo, representado pela Maçonaria Operativa, ou seja, pelas antigas confrarias de construtores. Estas, como as outras corporações, possuíam um simbolismo religioso ou, se preferirmos, hermeto-religioso, em relação com as concepções desse esoterismo católico que foi tão difundido na Idade Média. Apesar do que pretendem numerosos historiadores, a junção do hermetismo com a Maçonaria remonta a muito antes da filiação de Elias Ashmole a esta última (1646)... Parece-nos incontestável que os dois aspectos, operativo e especulativo, sempre estiveram reunidos nas corporações da Idade Média, que empregavam, aliás, expressões tão nitidamente herméticas quanto a de "Grande Obra"."
"NÃO TENHAM MEDO"
Como poderia o "devoto" do Sagrado Coração, tão confiante nesta boa Revista, pressentir a conspiração? Certamente sente um mal-estar, mas lhe é possível suspeitar que redatores da Revista possam servir a outra causa que não a do Redentor, que possam ser esotéricos ou gnósticos? Aliás, vem-lhe à mente a lembrança de um recente artigo do REGNABIT assinado por DOM SEJOURNE, que lhe tira todos os receios. O eminente beneditino havia ali fustigado os espíritos melancólicos hostis à devoção ao Sagrado Coração, comparando-os aos gnósticos dos primeiros séculos e citando, para embasar sua demonstração, Santo IRENEU, o adversário dos gnósticos:
"Diante da falsificação gnóstica que pretendia conhecer um outro Cristo que não Jesus, mais misterioso e mais espiritual, o bispo de Lyon exclama: "Não conheço esse Cristo superior que eles inventam, conheço apenas o Emanuel que nasceu da Virgem e provou, como nós, o leite e o mel"."
Isso é, efetivamente, muito pouco hermético, mas bem católico!
"A ORIENTAÇÃO"
Querer estudar o trabalho subversivo de GUENON nas páginas do REGNABIT exigiria um volume; nossa intenção se limita a mostrar quais temas ele escolhe para "produzir" um estado de espírito, de que método ele se utiliza para "orientar mentalmente" e como pode ocorrer a penetração e o desenvolvimento da Revolução no Cristianismo.
Não esqueçamos que, na época em que GUENON atua, preparam-se ações convergentes para um grande assalto às colunas da Igreja. O movimento ecumênico do Padre PORTAL progride nos seminários e nas obras; o movimento litúrgico de Dom Lambert BEAUDUIN em direção ao orientalismo ganha os mosteiros e as paróquias.
UM OUTRO CORAÇÃO, EIS A TRADIÇÃO
Vejamos, contudo, aonde quer chegar GUENON em um artigo (REGNABIT julho-agosto de 1926) intitulado "O Coração do Mundo na Cabala Hebraica":
"Fizemos alusão ao papel desempenhado na Tradição Hebraica, bem como em todas as outras tradições, pelo simbolismo do Coração, que, lá como em toda parte, representa essencialmente o Centro do Mundo. Aquilo de que queremos falar é o que se chama Cabala, palavra hebraica que significa "tradição" e que designa a doutrina transmitida oralmente durante séculos antes de ser fixada em textos escritos..."
Segue-se um longuíssimo desenvolvimento para chegar à conclusão:
"Seja como for, o que é incontestável é que o Coração... se identifica ao "Santo Palácio" da Cabala, é bem esse mesmo Coração, Centro de todas as coisas, que a doutrina hindu, por seu lado, qualifica de "cidade divina" (Brahma-pura). O "Santo Palácio" é também chamado de "Santo dos Santos"... o santo dos santos não era outra coisa senão uma figura do verdadeiro "Centro do Mundo", figura muito real, aliás, pois era também o lugar da manifestação divina..."
Do Sagrado Coração, Coração da Redenção, ele não diz uma palavra. Guénon é hábil, não parece impor, ele condiciona e deixa seu leitor registar aqui e ali e, finalmente, concluir: em todas as religiões é igual! Por que não se entender e se unir?
UMA SUBVERSÃO
O esotérico GUENON, que se crê católico, não escreve nessa revista católica para fazer avançar o culto ao Sagrado Coração; ele fala de outra coisa, desvia a piedade católica, a perverte. Mas ele seduz, pois fustiga o materialismo, pois louva a Tradição, tranquiliza os inquietos e, além disso... é tão sábio! Seus discípulos de hoje são muito fiéis ao seu método.
Não podemos deixar esse genial corruptor do pensamento católico sem citar esta pérola tão brilhante que lhe permitiu cegar tantos espíritos religiosos; encontra-se no REGNABIT:
"A tendência moderna, tal como a vemos afirmar-se no protestantismo, é antes de tudo a tendência ao individualismo. Esse mesmo individualismo, do ponto de vista filosófico, afirma-se igualmente no racionalismo, que é a negação de toda faculdade de conhecimento superior à razão... O individualismo assim entendido na ordem intelectual tem por consequência quase inevitável o que se poderia chamar de uma humanização da religião, que acaba por degenerar em religiosidade, ou seja, por não ser mais do que um simples assunto de sentimento, um conjunto de aspirações vagas e sem objeto definido; o sentimentalismo, aliás, é, por assim dizer, complementar ao racionalismo".