Cadernos Barruel 13 - 1984

ITINERÁRIOS EM DIREÇÃO A UM "ESOTERISMO CRISTÃO"

"A colheita poderá brotar após a morte do semeador" – Jean Reyor

René Guénon não é um pensador solitário. Certamente ele deu à sua doutrina um relevo particular, mas ele veio na sequência de outros mestres e ele próprio gerou uma multidão de discípulos muito diversos. De fato, o pensamento guenoniano, como todo pensamento esotérico, pode ser apreendido em vários níveis, e tornou-se a inspiradora comum de homens cujas doutrinas exteriores apresentam diferenças sensíveis; disso resulta que qualificar um pensador de guenoniano, se informa bastante bem sobre os princípios profundos que animam esse homem, nem sempre basta para fornecer um critério simples de reconhecimento externo: existem, na verdade, várias apresentações exteriores ou, se preferirmos, diversas aparências guenonianas.

Essa diversidade, consequência lógica do Esoterismo, foi reforçada pela evolução histórica: o meio no qual se delineou a vocação de Guénon, e onde surgiram os primeiros de seus discípulos, não se destacava particularmente por seu cristianismo, pode-se até dizer que era francamente descristianizado, enquanto os cristãos da época eram antes hostis a todas essas noções ocultistas e orientalistas.

A guinada parece ter vindo entre 1920 e 1930 com a "Crítica do Mundo Moderno" de Guénon, e do lado católico com a percepção muito nítida de que a Tradição cristã estava como que irremediavelmente minada por esse mundo moderno: daí a tentação para alguns de apoiar a defesa dessa Tradição em bases diferentes, mais amplas e, pensavam eles, realmente opostas ao racionalismo ambiente.

Essa evolução levou Guénon a refinar seu projeto, a "cristianizar" sua manobra. Não podemos fazer melhor para expressar os princípios que ele seguiu nessa matéria do que reproduzir as linhas seguintes de um de seus discípulos e biógrafos. Sua densidade é tal que é impossível resumi-las, tudo é importante, e convém, ao contrário, comentá-las um pouco para fazer sobressair toda a sua riqueza subversiva.

"E eis aí outra contribuição capital de Guénon, a mais inédita, de ter formulado primeiro a teoria da iniciação concebida como a transmissão de uma influência espiritual que engendra, por um novo nascimento, o homem novo que é o próprio sujeito da realização espiritual.

Outro ponto extremamente importante é ter afirmado, no seio das tradições de forma religiosa, a distinção do exoterismo (religião) e do esoterismo (iniciação) e, ao mesmo tempo, sua inseparabilidade, casca e núcleo do mesmo fruto que é a tradição total".

Essa noção capital, da qual todo o resto efetivamente decorre, não é de modo algum uma descoberta de Guénon; ela também não lhe foi transmitida por alguma "influência espiritual supra-humana", segundo sua expressão favorita, e ele não a encontrou no estudo de doutrinas hindus; essa noção foi simplesmente retomada da tradição muçulmana, do esoterismo muçulmano, onde é constantemente afirmada, sobretudo no xiismo. Esse ponto muito importante não pode ser desenvolvido aqui, pois exigiria mais de um artigo, mas o será mais tarde, tamanha é sua necessidade para uma boa compreensão da questão, a saber, a penetração neo-gnóstica no Ocidente do século XX.

"O grave perigo de exposições sobre o esoterismo e a iniciação, sem as precauções tomadas por Guénon, teria sido o de desviar da religião, julgada boa apenas para o vulgo, os aspirantes à Iniciação que eram anteriormente fiéis de um exoterismo regular, e de deixar sem nenhum vínculo tradicional os 'infiéis' teoricamente convertidos e em busca da iniciação.

Mas aquele que leu bem Guénon compreende que o primeiro passo em vista da iniciação é integrar-se a uma tradição regular: sob seu aspecto exotérico ou seguir suas prescrições com um rigor e um fervor aumentados, se já é um exoterista praticante."

Pode-se ler aqui, nas entrelinhas, uma crítica à Maçonaria que se tornou visivelmente antirreligiosa no século XIX, apesar das instruções das Constituições de Anderson que, em 1717, já precisava que o Irmão não deve ser um "ateu estúpido" e que, ao contrário, deve frequentar o culto religioso de seu país.

Indo mais longe que Desaguliers, Guénon afirma não apenas a possibilidade, mas a necessidade da religião exotérica. Não se deve ver aqui uma simples astúcia tática, um camuflagem, mas em um nível mais profundo a intenção de interpretar a religião exotérica à luz da doutrina esotérica e de utilizar as formas da primeira para fazer adotar os princípios da segunda.

De passagem, fica assim justificada a preferência de alguns guenonianos pela missa de São Pio V em detrimento do Novus Ordo Missae de Paulo VI.

"Graças à obra de René Guénon, um certo número de ocidentais reencontrou, portanto, o caminho da Tradição, geralmente sob a forma do Catolicismo Romano, que é a tradição regular normal da Europa e de seus prolongamentos étnicos (com exceção do Leste europeu colocado sob a regência das Igrejas ditas Ortodoxas), e eis aí um resultado cuja importância não poderia ser suficientemente sublinhada em nossa época de descristianização."

Caso alguns não tenham entendido, o autor tem a bondade de esclarecer: para se tornar um bom esoterista, um europeu deve ser (ou tornar-se) um exoterista cristão, católico ou ortodoxo. A Ortodoxia, aliás, até agora gozava do favor dos guenonianos, devido a uma certa mistura de orientalismo com o cristianismo. Nos últimos anos, os esoteristas parecem estar fazendo um grande esforço em direção ao catolicismo e dentro dele e, em boa lógica, parecem se interessar sobretudo pelo catolicismo mais tradicional, o dos grupos fiéis à liturgia tridentina; mas os meios "conciliares" não estão isentos dessa influência, e seria conveniente examinar sob essa luz os trabalhos dos partidários do "recentramento" que atuam há cerca de quinze anos e exercem hoje, em 1984, um papel determinante nos mais altos círculos vaticanos.

"Mas muitos desses se encontraram em uma cruel perplexidade diante do problema da Iniciação. Não pretendemos resolver esse problema, pois é o Caminho que escolhe o homem, e não o contrário, mas nos parece oportuno precisar como ele se coloca, se é verdade que um problema bem colocado está meio resolvido."

Evidentemente, ser ao mesmo tempo cristão e esoterista coloca muitos problemas, e compreende-se que o autor fale de cruel perplexidade! Mas Guénon, e ainda mais seus discípulos, que zelam por tudo, analisaram a situação e não faltam soluções. — Em resumo, vamos encontrar agora as diversas vias, os itinerários estabelecidos para introduzir o esoterismo oriental no cristianismo ocidental.

"Guénon fixou os elementos de forma nítida, e não pensamos alterar seu pensamento ao resumi-los como segue:

1° A obra de Guénon tem por objetivo a restauração do espírito tradicional integral no Ocidente, de forma mais ou menos ampla, conforme a elite ocidental tenha ou não conseguido exercer uma influência apreciável sobre o meio.

2° Essa restauração supõe, pelo menos em alguns, um conhecimento e uma compreensão do Cristianismo em seus aspectos mais internos e mais profundos.

3° Um conhecimento verdadeiro não poderia ser unicamente teórico ou especulativo.

4° O acesso ao conhecimento efetivo, que se pode designar também como realização espiritual ou realização metafísica, supõe:

a) o recebimento da iniciação virtual por um rito sobreposto aos ritos exotéricos dos quais participam todos os fiéis;

b) a comunicação de um método próprio para atualizar a virtualidade conferida pela transmissão iniciática.

5° Um exoterismo é indispensável a todo homem, mesmo que iniciado.

6° A Igreja Católica é o suporte normal de uma restauração do espírito tradicional integral no Ocidente, portanto o suporte normal da vida exotérica de uma elite ocidental.

7° À parte a sobrevivência de iniciações cristãs no seio da Igreja Latina, conservadas em meios muito restritos e praticamente inacessíveis, só existe uma organização iniciática autêntica difundida no mundo ocidental e acessível a todo homem de boa vontade: a Maçonaria (a iniciação corporativa estando ligada ao exercício de certos ofícios). Esta, tornada especulativa desde 1717, não possui mais que os ritos de iniciação aos diferentes graus e os ritos de abertura e fechamento dos trabalhos, com exclusão de toda técnica de realização.

8° Finalmente, é preciso acrescentar o que todo mundo sabe: a Igreja católica condenou a Maçonaria e excomungou seus membros."

Não quisemos cortar este longo parágrafo para não lhe tirar a coesão, mas é preciso agora retomá-lo ponto por ponto:

a) A obra guenoniana tende à restauração do espírito tradicional integral no Ocidente: não se trata, evidentemente, da tradição católica ordinária tal como a conhecemos, mas daquela tradição universal, comum a todas as religiões, da qual Guénon fala constantemente ao longo de todo o seu ensinamento.

Aliás, essa restauração dependerá da ação da elite guenoniana e só poderá ocorrer se os guenonianos tiverem exercido influência suficiente: por exemplo, se os meios católicos tradicionais se deixarem penetrar, como vem acontecendo atualmente há alguns anos.

b) É perfeitamente possível que pessoas e grupos dedicados a essa "obra de restauração" não compreendam verdadeiramente em que empreendimento estão engajados, bastando que uma minoria tenha "uma compreensão do cristianismo em seus aspectos mais internos e mais profundos", ou seja, seja adepta de um cristianismo esotérico, em suma, de um orientalismo esotérico com cobertura e vocabulário cristãos.

c) Para se tornar um esoterista cristão, não basta ler livros, por mais inteligente e apaixonado pelo estudo que se seja, pois não se trata de adquirir ideias, mas de transformar o próprio ser; outros métodos são, portanto, necessários, os quais delineiam três níveis:

Encontramos aqui, ainda que de forma implícita, uma crítica à Maçonaria, que conferiria apenas um direito de entrada, mas nenhum verdadeiro método iniciático desde que se deixou invadir pelo racionalismo.

d) Diante dessas três necessidades, o candidato ocidental se depara com três realidades bastante problemáticas:

Percebe-se a dificuldade, e mesmo as inúmeras dificuldades, e compreende-se que alívio a recente adequação do direito canônico realizada pelos "irmãos" romanos pôde trazer a esses "cristãos em busca". (2)

"Diante desse quadro, parece-nos que as soluções teoricamente possíveis são em número limitado, se reconhecermos a autoridade de Guénon em todos os pontos.

1° Remanifestação das iniciações cristãs conservadas no seio da Igreja Latina que, segundo modalidades que nos escapam, considerasse oportuno tornar-se menos inacessíveis.

2° Modificação das relações entre a Igreja e a Maçonaria, ou bem entre a Igreja e os Maçons que não professam nenhuma das ideologias legitimamente condenadas pela Sé Romana e desejosos de seguir integralmente o exoterismo católico. Uma segunda etapa comportaria então a busca dos meios de restituir as técnicas próprias à atualização da iniciação maçônica. Vislumbram-se aqui duas possibilidades:

a) ou bem restituição de métodos por alguma das iniciações cristãs supracitadas que teriam recolhido ao longo dos tempos o depósito técnico perdido pela Maçonaria, ou ainda que possuiria a ciência suficiente para proceder à adaptação.

b) ou bem restituição de métodos por uma ajuda oriental que não seria mais, desta vez, de ordem teórica, o que suporia que a organização oriental pertencesse a uma forma muito próxima daquela à qual pertence a iniciação maçônica e possuísse dados das ciências tradicionais muito extensos."

Com base na abertura jurídica do novo Código Canônico, "as soluções teoricamente possíveis" poderão se desenvolver, tanto mais facilmente quanto já estão sendo implementadas há muitos anos (contra a autoridade do antigo Código Canônico de 1917, é claro... mas o jurídico só tem valor exotérico, não é verdade!).

Uma primeira eventualidade, puramente teórica e fictícia, está ali apenas por simetria e também para preparar o futuro: um ramo esotérico cristão, que decidisse se manifestar, não existe e nunca existiu, mas sua afirmação atual proporcionará muitas facilidades no dia em que os guenonianos conseguirem criar um do zero, como já tentaram fazer antes de 1940 (3).

Quanto às modificações nas relações entre a Igreja e a Maçonaria, chegamos a elas, após os primeiros passos nessa direção terem sido dados há 50 anos. Naturalmente, como sugere o texto citado, a abertura realizada pelo novo Código Canônico se dirige aos maçons que não são racionalistas nem marxistas, e que pretendem seguir o exoterismo cristão... o que é exatamente o caso dos neognósticos guenonianos, como se este novo código tivesse sido feito para eles e por eles!

Uma vez que essa abertura se torne realidade, "uma segunda etapa" consistiria em devolver à Maçonaria as técnicas próprias para desenvolver o germe da iniciação, realizando assim o sonho neognóstico, com um século de idade, de retransformar a Maçonaria racionalista em Maçonaria mística (4).

Novamente, dois caminhos são propostos para este "milagre":

Concedemos que toda solução apresenta um número respeitável de dificuldades, algumas das quais não podem ser superadas apenas pela iniciativa individual.

Para começar, no entanto, é preciso que alguns tenham a clara consciência do que deve ser feito e a firme vontade de realizá-lo. E, sem dúvida, alguns estariam em condições de poder, desde já, dar um primeiro passo.

Há, em todo caso, uma preparação que está ao alcance de todos: é a aquisição desse conhecimento teórico amplo e inabalável que Guénon fazia ser a condição prévia de toda tentativa de realização.

Especificamos: conhecimento da obra de Guénon em sua totalidade e conhecimento, na medida compatível com a disciplina do segredo, do que nos chegou do esoterismo ocidental.

É para facilitar essa preparação indispensável que, sem deixar de dar sua parte às doutrinas orientais, nos dedicamos, desde a morte de Guénon, em nossa revista "Etudes Traditionnelles", publicando traduções e reimpressões de textos essenciais do esoterismo cristão e da Cabala, na esperança de que, como escrevia Jean Reyor:

"A colheita poderá brotar após a morte do semeador".

O autor sublinha "conhecimento da obra de Guénon em sua totalidade", ou seja, não apenas de sua faceta hindu, mas também das outras, a chinesa e a islâmica, e conhecimento do esoterismo ocidental. Encontramos, através dessas fórmulas, uma alusão às diversas variantes de discípulos guenonianos de que falamos no artigo do Boletim nº 10, e cuja evolução da Revista "Etudes Traditionnelles" ao longo dos anos do pós-guerra testemunha as inúmeras "nuances".

Observemos, de passagem, como esse conhecimento, necessário aos discípulos, é igualmente necessário aos adversários do neognosticismo contemporâneo: é por essa razão que nosso Colóquio de agosto de 1982 dedicou o segundo de seus três dias ao estudo dos Teosofistas ocidentais dos séculos passados (nota 5).

Acreditar que se pode evitar este tipo de estudo no momento em que a epidemia gnóstica se alastra entre clérigos e leigos ignorantes não é uma doce ilusão, é um crime contra a fé católica, pelo qual se prestará contas no limiar da eternidade.

Pois agora estamos nela!

"A colheita poderá brotar após a morte do semeador", escrevia há alguns anos Jean Reyor, fiel discípulo de René Guénon. A colheita brotou, colheita do joio entre o trigo: o joio do falso tradicionalismo guenoniano agora infesta o verdadeiro e bom trigo tradicional católico.

Quem, então, se recusará a vê-lo, senão os cúmplices daquele que semeou o joio? Quem, sobretudo, se recusará a fazer o esforço necessário para discernir os fundamentos e desdobramentos dessa vasta manobra que se desenrola há mais de cinquenta anos? Quem, por fim, pretenderá não poder fazer tal esforço no momento em que os documentos e as confissões abundam de tal modo que somos quase submersos por sua profusão?

O estudo do pessoal guenoniano é certamente um pouco complicado pelo fato de seus membros nem sempre declararem explicitamente tal rótulo; na realidade, a vinculação a essa categoria de pensamento se dá por sinais externos mais ou menos marcados conforme cada um, mas que desenham, no entanto, uma fisionomia moral, um tipo de mentalidade que se reconhece sem muita dificuldade quando se está familiarizado com os princípios do guenonismo.

É preciso também levar em conta a evolução histórica, já que Guénon recrutou seus discípulos por quarenta anos, através de épocas diversas e meios variados, de 1910 a 1950; e é, ainda mais, após sua morte que surgiram aqueles de seus discípulos que nos interessam hoje, especialmente depois de 1960, quando o Concílio Vaticano II deu à Tradição Católica o abalo final que conhecemos.

A partir desse momento, cruzaram-se e encontraram-se dois movimentos totalmente estranhos um ao outro: de um lado, o projeto guenoniano de subversão "tradicionalista"; de outro, a inquietude e o desespero de certos católicos.

Apesar de sua diversidade, os "guenonianos" podem, portanto, ser divididos, ao menos de um ponto de vista pragmático, em duas grandes categorias:

Essa união antinatural, que tende a arruinar por dentro o verdadeiro catolicismo, só pôde ser realizada graças a inúmeras cumplicidades, especialmente eclesiásticas, e sobretudo devido à ignorância da maioria dos católicos.

A única verdadeira reação consiste, portanto, em trazer luz onde a sombra reinou até agora, para desacelerar e precisar a penetração e o desenvolvimento da Revolução na Igreja. Nossa Sociedade encontra-se assim no centro da tarefa que se propôs desde sua criação e que desde então sempre se esforçou por realizar, apesar de meios bastante fracos.

Ao contrário do que alguns podem crer ou imaginar, não se trata de uma empresa extraordinária, mas de um trabalho comum de síntese que exige, no final das contas, muita aplicação para não reduzir o campo de estudos e, ao contrário, mantê-lo o mais amplamente aberto.

Se tantos de nossos contemporâneos são surpreendidos pelas manobras gnósticas – as de ontem e de hoje, assim como as que o amanhã nos reserva – é porque reduziram imprudentemente seu campo de interesse: um só se interessa pela política, outro pela economia, um terceiro pela teologia católica, e quase todos se gloriam de ignorar as teorias e os movimentos não católicos.

Estamos pagando caro por essa atitude insana que já levou mais de um católico tradicional a se deixar seduzir pelo inimigo gnóstico: que todos os que puderem, especialmente os padres, se recomponham antes que o mal se alastre, é mais que tempo...

P. R.


Nota 1 - O próprio Guénon não parecia atribuir grande importância aos sacramentos católicos. Ocorreu exatamente o oposto com alguns de seus discípulos, como F. Schuon, que, aliás, lhe fazia severas críticas por isso, e que queria transformá-los em vias iniciáticas, secularizadas, certamente, mas reais. Essa posição é obviamente lógica para quem empreende desenvolver um esoterismo no interior do cristianismo.

Nota 2 - O novo Código de Direito Canônico, iniciado por João XXIII em 1963 e efetivamente aplicado desde 25 de novembro de 1983, prevê no cânon 2335 que a excomunhão dos Maçons não é mais automática. A partir de agora, apenas são visados os Irmãos que atacam a Igreja e, portanto, não aqueles que se declaram "espiritualistas"; consequentemente, os católicos que frequentam tais Maçons, ou mesmo que aderem às suas lojas, não estão mais sujeitos à excomunhão.

Nota 3 - Após a partida de Guénon para o Egito, entre 1933 e 1940, alguns de seus discípulos, especialmente Jean Reyor, tentaram "ressuscitar" uma hipotética "Fraternidade do Paráclito", que teria sido uma antiga rede esotérica católica! Sem sucesso, aparentemente, e cedo demais, sem dúvida!

Nota 4 - Esta importante questão do renascimento místico da Maçonaria moderna, contemporânea, ao menos de alguns de seus ramos, não poderia ser tratada aqui, nem mesmo considerada - mas a ela chegaremos um dia próximo, é evidente.

Nota 5 - Se não houve esoterismo católico no passado, por outro lado, não faltaram, ao longo dos séculos de cristandade, homens e mulheres, cristãos de origem em sua maioria, seja externamente, seja até mesmo no interior da Igreja, que professassem uma variante do velho gnosticismo milenar e praticassem seus métodos místicos, tudo sob um véu cristão mais ou menos frouxo.

Todo mundo conhece o famoso caso de "Mestre Eckhart", esse provincial da ordem de São Domingos que foi finalmente condenado após semear muitos miasmas heterodoxos na igreja renana, mas este exemplo é apenas um entre tantos.

É perfeitamente compreensível, e muito hábil, que os guenonianos "catolicizantes" queiram investigar nessa direção com a secreta esperança de nos fazer "tomar gatos por lebres". Cabe aos católicos não ter a tolice de cair nessa armadilha.

NEM DIÁLOGO, NEM POLÊMICA...

O Padre Luc J. Lefebvre, diretor do Pensée Catholique, não apreciou nosso estudo sobre o desenvolvimento gnóstico na França contemporânea, compreende-se facilmente, e nos enviou uma carta interessante que submetemos a nossos leitores com alguns breves comentários.

Paris, 21 de junho de 1984,

Prezado Senhor,

Dirijo esta mensagem ao Senhor Paul Raynal, podendo pensar que é ele quem assina P. R. em seu Boletim.

Lamentei a leviandade de seu tom quando fala dos teólogos que me cercam: dois doutores e dois mestres em teologia são, a seus olhos, apenas "cúmplices".

Isso não é sério.

Não conte com diálogo nem com polêmica.

O "combate" seria desigual. De um lado, o meu, que conta apenas com ingênuos, vítimas inconscientes. Do outro lado, o seu, cujos membros são todos infalíveis. Estamos derrotados de antemão.

Permita-me apenas esta observação: será mesmo a vocação dos discípulos de Barruel atacar apenas os teólogos da Igreja Romana, numa hora em que Roma e os romanos são desprezados e rejeitados por todas as potências modernistas e progressistas do fim deste século?

O querido Barruel não deve aprovar seu afinco contra a "Pensée Catholique", que, na verdade, é seu principal alvo. Pois — segundo os advogados de Nancy e Paris — o caso "Borella" não passa de um pretexto.

Vocês não são os primeiros que buscam me derrubar. A maçonaria, a República, a terceira, a quarta e os Jesuítas já atuaram antes de vocês há mais de 60 anos!

Vocês só me "pegarão" quando Deus me chamar para Si.

Sejam pacientes.

Que o Senhor os perdoe, assim como asseguro-lhes meu perdão.

P.S. Para divertir ou superexcitar seus leitores, vocês relatam os textos dos teólogos suprimindo o essencial de sua intervenção.

Que leviandade! Que Barruel jamais teria aceitado.

Luc J. Lefebvre

O Padre Lefèvre não quer diálogo nem polêmica: ele tem toda razão, é muito mais prudente, mesmo com dois doutores e dois mestres em teologia como guarda-costas e cúmplices.

Quanto a qualificar esses advogados do Sr. Borella de teólogos da Igreja Romana, que humor negro! Certamente o foram no passado, mas sua atual atitude prognóstica no mínimo leva a questionar, pois de duas, uma:

O desenvolvimento intelectual desses teólogos, aliás, não nos permite inclinar para a primeira explicação e nos força a adotar a segunda; restaria, claro, explicar como homens, padres, que foram católicos em um nível doutrinário tão elevado, puderam mudar de lado dessa forma: fizeram-no mais ou menos inconscientemente, enredados nas teias da mística e nas do esoterismo, talvez... ou sem dúvida.

Mais interessante é a afirmação de que Roma e os romanos estariam sob ataque dos modernistas e progressistas. Que nada! Roma está há muito tempo em suas mãos, e a autoridade romana serve à propagação da Revolução. São coisas que se conhecem bem no Pensée Catholique, e uma afirmação dessas, tão contrária à evidência, abre perspectivas interessantes sobre a vasta manobra de "recentramento" em curso desde o pontificado de João Paulo II, da qual participam muitas pessoas inesperadas: voltaremos a falar disso em breve.

O diretor do Pensée Catholique deveria ter evitado alegar que estamos de olho em sua revista, sendo o caso Borella apenas um pretexto. Ele quer dizer com isso que sua revista é globalmente dedicada à causa gnóstica, sendo o senhor Borella apenas um redator entre outros? Afinal, de tanto insistir, ele acabará nos convencendo disso.

Por outro lado, não o seguiremos por um instante quando ele afirma que a Maçonaria busca destruí-lo, justamente quando ela conseguiu colocar insidiosamente a seu serviço uma revista que foi por muito tempo a única realmente católica na França, e que, por isso mesmo, é tanto mais valiosa para seu trabalho de infiltração nos meios católicos tradicionais.

Quanto às nossas intenções, enfim, elas não são de forma alguma "pegar" o Padre Lefèvre, mas, ao contrário, de esclarecê-lo para evitar que ele tenha que comparecer diante de Deus no papel terrível que desempenha hoje. Que tenhamos fracassado nessa empreitada é mais do que evidente; no entanto, nos consolaremos com o pensamento de seus leitores, que não serão mais suas vítimas no futuro.

P. R.


Nossos leitores são convidados a consultar o conjunto de artigos publicados sobre este tema nos n.º 9, 10, 11, 12, bem como os dois estudos desta presente edição, especialmente "Itinerários para um esoterismo cristão".

A NOVA DIREITA E SEUS FUNDAMENTOS DOUTRINÁRIOS

Entre as correntes contemporâneas subversivas do pensamento cristão ocidental, uma das mais dinâmicas é a da "Nova Direita", representada principalmente pelo GRECE.

Seu sucesso se deve, em particular, a uma ambiguidade que repousa sobre uma diversidade notável, capaz de satisfazer naturezas diferentes: ao mesmo tempo ligada aos paganismos antigos e ao modernismo mais aguçado, a Nova Direita propõe uma gnose materialista e racionalista, a meio caminho entre a ciência e o esoterismo, para um novo "amanhecer dos magos".

Após numerosos estudos sobre as ressurgências gnósticas de coloração mística, pareceu-nos interessante publicar o estudo a seguir, de um de nossos correspondentes, que analisa aqui os fundamentos doutrinários do GRECE, seus alicerces ideológicos, bem como suas primeiras realizações: de fato, e é importante notar, a "Nova Direita" não se contenta em vaticinar, mas, sabendo aliar-se muito bem às potências de esquerda, já participou amplamente da mutação ideológica de nossos contemporâneos, especialmente no que diz respeito à contracepção, ao aborto e, amanhã, à eutanásia.

A revista Nouvelle École e a associação GRECE (Grupo de Pesquisa e Estudos para a Civilização Europeia) foram lançadas praticamente simultaneamente. A revista começou a circular em fevereiro-março de 1968, e a associação foi criada no início de março de 1968.

O primeiro encontro nacional dos dirigentes ocorreu nos dias 4 e 5 de maio de 1968, em Lyon. Eles vêm essencialmente do Europe-Action, boletim dos anos 60 abertamente nacional-socialista e racista.

A natureza dessa corrente é definida no nº 17 da revista Nouvelle Ecole:

"O G.R.E.C.E. é, de acordo com seus estatutos, uma sociedade de pensamento com vocação intelectual que tem como objetivo aprofundar os diferentes campos de investigação filosófica e científica contemporâneos, contribuir mais especialmente para o conhecimento do passado, do presente e do futuro da civilização europeia; constituir uma nova corrente de pensamento; estender sua influência e praticar a mútua ajuda."

O presidente Roger Lemoine, no folheto de apresentação do GRECE, acrescentava:

"Essa influência pode resultar tanto do crescimento da associação como tal, quanto das promoções socioprofissionais de que seus membros possam eventualmente ser objeto... Os cargos que eles obterão beneficiarão, em última análise, a corrente de pensamento da qual somos o vetor."

Esclarecimentos dados pelo mesmo homem, por um lado no artigo "Laboratórios da Inteligência" (Valeurs Actuelles de 8/11/71):

"Queremos reconciliar o pensamento liberal com o rigor científico. Queremos oferecer àqueles que reivindicam a Liberdade, sejam eles crentes ou não, uma concepção de mundo coerente."

e, por outro lado, em Nouvelle Ecole nº 9:

"GRECE é uma maçonaria de direita... Do que precisamos é de homens influentes, que tenham seu lugar nas esferas de decisão de hoje e, mais ainda, nas de amanhã."

A) ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURAS

Boa parte dos homens dirigentes provém da Europe - Action: Gilles Fournier, Alain de Benoist (também conhecido como Fabrice Laroche), Dominique Venner, P. d'Arribière, Roger Lemoine, Saint-Loup, Fr. d'Orcival, J. Mabire... e outros como Jacques Bruyas, Jean Claude Valla, Jean Yves Blochet, Philippe Milliau ou Pierre Vial são quadros do GRECE e da revista.

A distinção entre os dois é, portanto, totalmente teórica...

Entre as Personalidades que aceitaram figurar no Comitê de Patrocínio de Nouvelle Ecole e participar de sua redação, é preciso citar, de forma aleatória: Robert Ardrey, Robert Blanche, Raymond Bourgine, G. H. Bousquet, A. Brissaud, Jean Cau, Pierre Debray-Ritzen, Georges Dumézil, Thierry Maulnier, Jules Monnerot, Michel Mourlet, Louis Pauwels, Louis Rougier, Paul Sérant, Gérard Swang... Alguns talvez tenham se deixado enganar...

Quanto aos participantes – conferencistas das noites de debate ou colóquios – encontramos: Jean Gaumier, Dr. Claude Peyret, Desmond Kolborne, Maurice Bardèche, Dr. R. Soufaut, Olivier Mordrel, Pierre Bercot, Roland Laudenbach...

A Associação se compõe de membros titulares (apresentados por um padrinho e após um interrogatório rigoroso), membros associados (qualidade concedida aos anteriores que comprovaram seu valor ou dedicação, pelo C.A.), membros assistentes eleitores e elegíveis ao C.A., membros fundadores que criaram a Associação ou que foram cooptados.

Segundo seu presidente, ela contava com aproximadamente 2.000 aderentes na França e Delegados na Bélgica, Itália, RDA, Suíça, Grécia, Espanha, Suécia, Argentina, EUA e República Sul-Africana.

ESTRUTURA INTERNA

O I° RANG compreende: o "núcleo duro" denominado "Central" (membros fundadores ou cooptados) tem como papel principal garantir a manutenção de uma orientação conforme o objeto da Associação. e o Conselho de Administração formado por membros eleitos para 3 anos, renováveis por terços. Seus poderes são amplos: ele institui as comissões especializadas: "Tradições, Organização, Disciplina, Auxílio Mútuo..."

A Mesa do Conselho de Administração compreende um Presidente, uma Secretaria Administrativa e Financeira (S. A. F.), um Secretário de Estudos e Pesquisas (S. E. R.) que coordena as atividades correspondentes.

O II° RANG é constituído por

O III° RANG é formado pelos Círculos que se reúnem a cada quinze dias. Em Paris: pelo menos 7 voltados para H. E. C., Instituto de Estudos Políticos, Quadros e Independentes, Profissionais, Liceanos... No Interior: círculos em Lyon, Estrasburgo, Nantes, Lille, Aix-en-Provence, Marselha, Toulouse, Nice, Clermont-Ferrand... bem como Participantes de Seminários regionais, Colóquios nacionais, Palestras - Debates...

Uma Assembleia Geral reúne-se uma vez por ano.

MEIOS DE AÇÃO
  1. Diversas atividades culturais muito orientadas: Acampamentos - Escolas; Incursões; "Árvores de Maio e Solstícios" com vigílias, fogueiras; concertos (Wagner); visitas a Museus ou Sítios (celtas e gauleses, culto solar...); Fins de semana temáticos; cineclube...

  2. A revista "Nouvelle Ecole", com edições consistentes, luxuosamente apresentadas. As ilustrações são de uma estética germanista, escandinava e céltica.

A orientação da revista (a ideologia da Nova Direita) será estudada mais adiante. No entanto, é preciso notar que a ideologia do GRECE é destilada na revista com precauções de estilo notáveis e sob pretexto de examinar os conhecimentos atuais à luz da cultura europeia.

  1. Um boletim oficial "Elements", desde 1973.

  2. Publicação dos trabalhos sob todas as formas possíveis: livros, cadernos, fichas doutrinárias...

INFLUÊNCIA

Sobre certas revistas, trata-se de uma influência oculta, "suave", que pode levar as revistas a uma transformação insidiosa, resultando na adesão dos leitores... não "vacinados".

As mais importantes são: Figaro Magazine, Valeurs Actuelles, Spectacle du Monde, Magazine-Hebdo... através de homens como R. Bourgine, A. de Benoist, Patrice de Plunkett, Jean Jacques Mourreau, Michel Marmin, Jean Claude Valla...

Muitas revistas são mais locais ou mais confidenciais: "Le mouvement normand", "Jeune Bretagne", "La Bretagne réelle - Keltia", "Le Courrier Lillois", "Grande Burgondie", e "La Société Nietzsche"...

Existe também uma influência sobre certos movimentos separatistas, como o FLB - ARB e o FPLC.

De modo mais geral, é difícil medir exatamente o nível de penetração das ideias do GRECE nas mentes de nossos contemporâneos e, consequentemente, avaliar sua influência.

No entanto, é preciso reconhecer que, dado o pequeno número de membros do grupo, o resultado obtido — e visível — é notável.

Dois grupos bem definidos exibem visões idênticas:

O Instituto da Vida, que desenvolve seus esforços nas três grandes categorias de "tecnologia biológica": a tecnologia "eugênica", "genética" (mutações dirigidas, ação sobre os genes humanos) e a tecnologia "eufênica" (controle da expressão dos genes). (cf. Nouvelle Ecole n° 7. p. 88).

O Clube do Relógio, presidido por Michel Norey, também conhecido como Yvan Blot, ex-diretor do Secretariado de Estudos e Pesquisa do GRECE, ex-chefe de gabinete do RPR. Alain Devaquet. (2).

Todos os homens que defendem os Direitos do Homem em uma sociedade materialista da qual Deus foi completamente evacuado estavam dispostos, conscientemente ou não, a se tornar adeptos e até mesmo cúmplices zelosos da Nouvelle Ecole.

A lógica fria do "Direito" sem a opinião de uma consciência iluminada por uma moral transcendental ao Homem, ou seja, sem o reconhecimento prévio dos deveres do Homem para com Deus, seu Criador, deveres que se resumem a "fazer a Sua Vontade", leva inevitavelmente os fortes e poderosos a desconhecer e negar os direitos dos fracos e dos governados, mesmo que isso esteja inscrito em uma declaração dita "universal" e em uma proclamação dita "solene".

Para os maçons, a lógica cientificista da gnose: "Nada antes. Sem Criador. Nada depois", portanto tudo deixado ao livre uso do Homem, "encaixa" muito bem com as ideias do GRECE. Quem infiltra quem?

Para não sair do Hexágono, há mais de quinze anos o mundo político (os eleitos pelo povo), da Sras. Weill-Hale, Simone Veil, Monique Peltier, Roudy, Iff, Halimi... etc., aos Srs. RRPP Pohier e Ribes, Caillavet, Doutor Peyret, Doutor Pierre Simon, Professor Jacob, Neuwirth, Attali... etc., não se tornou o difusor e o legislador da ética da "Nova Direita"?

Isso com a bênção da Presidência da República, feliz em satisfazer a demanda do Grande Oriente da França. De fato, o Sr. F. Corneloup, Grande Comendador de Honra ad vitam do Grande Colégio dos Ritos, durante o colóquio de março de 1974, considerava que é necessário substituir a ética corrente (a moral cristã) compartilhada pela maioria dos Homens por uma nova ética que será imposta por via legal num primeiro momento, pela educação em seguida. (3)

E é preciso perguntar se Valery Giscard d'Estaing, por seu discurso de encerramento do Colóquio "Biologia e devir do Homem" (20 a 25 de setembro de 1974 na Sorbonne) afirmando: "Cabe a nós inventar uma moral da espécie", e François Mitterrand colocando em funcionamento o Comitê Nacional de Ética, não testemunham a Declaração Universal dos Direitos do Homem, ou pelo menos o fato de que ela agoniza e não durará muito (4) sem serem, a priori, membros da Associação GRECE?

Voltar-se-á com mais ênfase à demonstração do acordo, da similitude de ação entre os legisladores e cientistas que nos dirigem e as concepções humanistas defendidas por essa "nova direita".

É necessário agora analisar o fenômeno de forma mais aprofundada.

B) A IDEOLOGIA DA NOVA DIREITA

1. Fundamentos Filosóficos

Nesta matéria, HERÁCLITO é o mestre e o GRECE adota uma variante moderna da filosofia do devir, que ele denomina "antropologia filosófica" e cuja apresentação geral é feita no folheto nº 2 do Secretariado de Estudos e Pesquisas:

Na história das ideias filosóficas, o autor distingue:

"A corrente dos filósofos do espírito = filósofos do ser (corrente igualitária) com Sócrates, Santo Tomás de Aquino... os racionalistas do século XVIII... Hegel, Marx... e o existencialismo."

É preciso notar a amalgama feita para atender às necessidades da causa.

"A corrente dos filósofos da Liberdade: filósofos do devir (corrente integritária), todos oriundos de Heráclito... com Mestre Eckhart, os alemães Fichte, Schopenhauer... Nietzsche... a filosofia assume o papel... e no século XX a filosofia da vida, renovada pelas descobertas recentes da biologia, torna-se antropologia filosófica."

Este é o campo do GRECE, cuja filosofia está bem vinculada a Heráclito: não há metafísica "insignificante no sentido próprio do termo, na medida em que não é passível de verificação." (Alain de Benoist).

Não há verdade absoluta:

"O cérebro do homem e seus órgãos de percepção lhe mostram apenas uma certa imagem do mundo... Inexistência de uma razão que extraia automaticamente verdades universais... Não há outra verdade senão as verdades de experiência."

"O Homem não possui uma Alma, uma Consciência, uma Razão, ou seja, um atributo metafísico que lhe dite sua conduta, mas, ao contrário, ele constrói seu próprio universo de percepção e reflexão agindo. Isso não é outra coisa senão o 'Torna-te quem és' (pela ação) nietzschiano."

O Homem não é um "Ser", mas um "devir" (6).

A segunda contribuição é O NEO-POSITIVISMO ou positivismo lógico, conforme Nouvelle École nº 16.

Esta atitude filosófica reunia no Círculo de Viena, entre as duas guerras, um certo número de cientistas, lógicos e filósofos europeus influenciados pela lógica matemática de Bertrand Russell e pelos progressos da física moderna.

Em 1931, vários deixam o Círculo e vão, seja para a Tchecoslováquia, seja para os EUA e Inglaterra, onde fazem discípulos.

Até 1939, Congressos Internacionais sobre a Unidade da Ciência (denominação próxima à do I.C.U.S., caro a Moon) reuniam, em torno dos "vienenses", outros pensadores que também participavam de outros congressos na França, Grã-Bretanha e EUA. É necessário citar Bertrand Russell... G. Moore... Louis Rougier... etc.

O neopositivismo se difundiu com sucesso no mundo anglo-saxão do período entre guerras, com sua forte corrente "pragmatista", e nos países escandinavos.

Na França, a influência do Círculo de Viena era nula na época.

Do ponto de vista de seu conteúdo, o neopositivismo baseava-se na vontade de aproximar a filosofia e a ciência, "exorcizando os falsos problemas" denunciados sob o nome de metafísica.

Apegados ao empirismo, atribuem à experiência todo o conteúdo do nosso saber, rejeitando qualquer metafísica, qualquer conhecimento não experimental e qualquer ideia de um mundo suprassensível ou espiritual; reduzem a filosofia a ser apenas uma lógica da ciência, ou seja, "uma sintaxe lógica da linguagem da ciência" (Carnap).

Nouvelle École procede diretamente do neopositivismo mais radical. Ela assume para si o positivismo lógico mais extremado.

Vai ainda mais longe, estendendo-se à etnologia, à biologia, à genética.

A lógica é o puro produto absolutamente determinado de uma linguagem. A linguagem é o puro produto absolutamente determinado de uma estrutura cerebral particular.

Essa estrutura é particular a uma certa classe de Homens, específica de um certo "substrato étnico" geneticamente determinado, fruto momentâneo da Evolução e da Seleção.

A conclusão pode ser extraída de Nouvelle École n° 16:

"Não existe lógica universal válida para todo Homem enquanto ser racional. É necessário rejeitar os sistemas de valores universais: 'o Belo em si, o Verdadeiro, o Bem... o Justo' com maiúsculas são meras visões do espírito."

É bom, é verdadeiro, é belo para tal tipo de Homem o que corresponde ao seu "substrato étnico": constituição, composição genética, hereditariedade, meio social e racial.

"O Homem" não existe e a "Humanidade" é apenas um conceito zoológico: as raças que resultam do poder separador da vida caminham para um máximo de diferenciação.

Os Homens são apenas realidades biológicas, conjuntos de genes, frutos de uma obscura "necessidade" e da seleção.

2. O Nietzscheísmo

A associação e sua revista reivindicam abertamente Nietzsche, que é contraposto a Marx e a Cristo. É necessário consultar o artigo de Giorgio Locchi em Nouvelle Ecole nº 18:

"... Nietzsche não é um filósofo como os outros... O filósofo deve ser um artista que toma o próprio homem como sua matéria-prima. Ele deve ser aquele que atribui seus objetivos à humanidade e, por meio de sua obra, a obriga a buscar os meios para alcançá-los. Nietzsche proclama assim o fim da antiga filosofia. Ele anuncia o evento de um pensamento que finalmente escapou do preconceito 'moral'... Nietzsche empreende demonstrar os limites da razão prática: não pode haver 'verdade absoluta'. O verdadeiro e o falso são apenas pontos de vista interessados... tudo é arbitrário.

..."O destino da humanidade inteira, em cada 'momento' histórico, é comandado pela perspectiva mais vasta, a mais elevada, aquela que engloba todas as outras e as organiza hierarquicamente em seu seio. Essa perspectiva é a do Homem Superior. E é apenas na medida em que triunfassem definitivamente o igualitarismo e o nivelamento... que haveria efetivamente apenas uma perspectiva, uma 'verdade absoluta', uma miserável verdade.

Nietzsche diz: isso pode acontecer. Portanto, é preciso impedir. É por isso que Nietzsche quer que sua obra seja uma gigantesca empresa de provocação e sedução, que suscite, pelo 'meio poético', um novo tipo de homem, um 'Homem superior eternamente voltado para o Super-Homem', assegurando assim à humanidade um eterno devir histórico, uma eterna criação e recriação de si."

O próprio Nietzsche pede que "a ética individual, esse jardim onde os outros não poderiam penetrar", seja "um discurso psicologicamente ativo, criador de um novo tipo de homem"; o esboço de um projeto de "grande política" e "a colocação em andamento dos meios necessários à sua realização".

Tal é o projeto retomado pelo GRECE e Nouvelle Ecole segundo Alain de Benoist:

"Será preciso ensinar ao homem a sentir que o futuro depende de sua própria vontade, que esse futuro depende do querer humano; será preciso preparar grandes experiências coletivas de disciplina e de seleção... Precisaremos um dia de uma nova espécie de filosofia e de chefes..."

"Nietzsche declara guerra ao igualitarismo sob todas as suas formas históricas, que ele assimila em seu desprezo ao Cristianismo – este, com a fórmula da igualdade dos homens perante Deus, inoculou a doutrina igualitária no mundo greco-romano; ao 'Liberalismo' explicitado pela revolução de 1789; à democracia, ao socialismo, ao comunismo, ao anarquismo." (7).

"O Super-Homem de Nietzsche é aquele cuja afirmação do Eu dá nascimento a uma nova espécie... Livremente criador, o homem é criador de si mesmo, ele basta a si mesmo." (8).

C) AS TEORIAS CIENTÍFICAS FUNDAMENTAIS DA NOVA DIREITA

Um certo número de teorias surgidas durante o século XIX sustentam o pensamento da nova direita e convém relembrá-las antes de passar aos aspectos propriamente doutrinários, ou seja, a ética do movimento.

I. A EVOLUÇÃO TRANSFORMISTA DAS ESPÉCIES

O tema é tratado principalmente em um número especial (nº 18), em três artigos do nº 16 e alguns outros sobre o DNA, a biologia moderna e J. Rostand.

a) Aparecimento da Vida – Origem das Espécies

Nouvelle Ecole retém a origem comum e única dos seres vivos, lembrando que todos os seres vivos são constituídos de molécula de carbono assimétrica do mesmo tipo levógiro.

Alguns grandes geneticistas contemporâneos observam que a universalidade de estrutura talvez seja apenas uma condição necessária e determinante da constituição de seres vivos e que uma pluralidade de filos originais evoluindo de forma diferente é perfeitamente plausível.

A teoria obviamente questiona a unicidade do ser vivo. Os seres vivos não decorrem todos de uma mesma "alga azul".

Nouvelle Ecole, neste momento, retoma os termos da teoria de Jacques Monod, exposta em "O Acaso e a Necessidade", segundo a qual o mecanismo da evolução nos ensinaria que "o transformismo se traduz por uma mistura de acasos e anti-acasos, de invariância e teleonomia."

Nouvelle Ecole n° 18 retoma:

"O acaso governa, se assim podemos dizer, o nascimento desordenado de novas formas, oriundas de mutações naturais. A necessidade impõe um processo rigoroso, pelo qual a seleção peneira essas novas formas e só 'autoriza' a perdurar as mais bem adaptadas."

É sobre esse postulado que repousa a teoria transformista neodarwiniana, que explica a macroevolução, ou seja, o surgimento dos filos, dos ramos e das ordens...

E esse postulado se baseia unicamente na noção de acaso!

Essa falta de rigor intelectual e de austeridade científica permite restaurar o binômio darwiniano.

b) O Binômio Mutação – Seleção

Do ponto de vista de suas origens, essa teoria se fundamenta na fusão de um fato científico (mutações e seleção) com uma hipótese filosófica (evolução de Spencer). A confusão entre ambos ocorreu de imediato, apesar da reserva de Darwin – por duas razões:

O consenso da época vitoriana.

Expansão mundial; classe dirigente adepta do cientificismo, da gnose e da teosofia, influenciada por John Ruskin e seus discípulos em torno de Cecile Rhodes e W. T. Stead (ver capítulo Mundialismo); o inglês, julgando-se o melhor, pretendia levar aos indígenas do Império a luz!

O livro de Darwin, "A Descendência do Homem", é lido e aceito com fervor: no princípio era o macaco – depois veio o homem – e, finalmente, no topo do homem – o britânico.

O africano, o asiático ou o árabe eram para o inglês o "elo perdido", a prova palpável da luta pela vida, da seleção natural e da evolução.

A vontade antirreligiosa.

Quis-se inscrever o nome de Darwin ao lado dos de Galileu e Copérnico.

A refutação do antropocentrismo respondia à refutação do geocentrismo. Darwin, rejeitando o fixismo, rejeitava a criação e concordava com Spencer.

Para Nouvelle Ecole, a evolução é bem mais importante do que o modo de organização do universo e do mundo vivo.

Ela autoriza os cientistas a rejeitar "esse tipo de neutralidade, de compatibilidade tática do dogma em relação ao saber científico".

Incentiva-os a aderir à opinião de Julian Huxley:

"Não há lugar para seres sobrenaturais capazes de influenciar o curso dos eventos humanos, e sua necessidade não se faz presente. A Terra não foi criada, ela evolui. O corpo, a mente, a alma do Homem e tudo o que produzem, incluindo as leis, os costumes, as religiões, os deuses, resultam inteiramente da evolução."

Quando se analisa, vê-se que as mutações constituem o elemento motor fundamental do fenômeno da evolução. Essas variações fazem surgir raças, espécies, famílias, ordens, classes, ramos múltiplos dentro de uma mesma espécie. Elas seriam fortuitas, acidentais, sem relação com os efeitos que acarretam, vantajosas ou desvantajosas, e, por fim, súbitas.

Nouvelle Ecole n° 18 afirma:

"Qualquer que seja sua natureza, as mutações aparecem sempre abruptamente e são de imediato hereditárias e totais."

A Seleção Natural se traduz por uma espécie de lei que resultaria na sobrevivência dos mais aptos e na eliminação dos menos aptos...

A Seleção Sexual será acrescentada mais tarde por Darwin: os machos mais fortes são os únicos capazes de procriar.

A seleção natural é um processo de eliminação "dos inválidos e dos defeituosos inviáveis". É também um processo de reprodução diferencial. Ela conferiria às mutações seu valor específico...

MAS, a maioria das mutações não apresenta nenhum caráter positivo, e os cruzamentos, bem como a miscigenação, desempenham um certo papel "desvantajoso".

GRECE conclui que, para o desenvolvimento de uma nova raça de mutantes, é absolutamente necessário permitir-lhes apenas o cruzamento entre si por meio de um isolamento... geográfico, ecológico ou genético. (Nouvelle Ecole n° 18).

Ela descarta sistematicamente, na escolha dos fatos e das observações, as descobertas e perspectivas recentes que infirmam seu raciocínio e demonstram que o problema da evolução permanece em grande parte inexplicado, e está longe de estar resolvido.

Se os últimos estados da pesquisa científica favorecem o monogenismo (as raças humanas atuais derivam de uma fonte comum), a GRECE é fundamentalmente poligenista e se empenha em sustentar tanto a tese do neodarwinismo quanto a do poligenismo, pois sua ideologia e a ética dela decorrente não podem prescindir dessas bases.

II. O Materialismo Biológico

O realismo biológico é frequentemente evocado nos estudos publicados pela GRECE. Do que se trata rapidamente?

Ele se fundamenta no neodarwinismo, que explica a macroevolução e a diferenciação dos filos.

Graças a um conjunto de condições resumidas acima, a especiação (passagem do estado de população ao de espécies distintas) se seguiria.

Do Polifiletismo chega-se ao Poligenismo:

"cada um dos grandes grupos raciais derivaria de uma estirpe distinta de símios antropoides: os Brancos dos Chimpanzés (erro cientificamente demonstrado atualmente), os amarelos do Orangotango, os negros do Gorila." (Nouvelle Ecole n° 18).

A noção de raça implicando uma dimensão cronológica, as raças não têm necessariamente a mesma idade. Além disso, elas evoluem de forma diferente.

As raças "geram" espécies diferentes, ou seja, "um conjunto de seres vivos semelhantes que geralmente são suscetíveis de cruzar entre si." (Nouvelle Ecole n° 18).

O isolamento favorecendo a especiação (exceto qualitativo), "Longe de ser um progresso, a convergência, a mistura, a fusão universal equivalem, portanto, a uma regressão em relação à Vida."

E somos levados ao ponto seguinte.

III. O Racismo Científico

Embora seja fundamentado e aprofundado em vários artigos da Nouvelle Ecole, precisamos nos ater aos estudos que recorrem às posições de cientistas americanos de renome mundial.

Os trabalhos de Arthur R. Jensen, Professor de Psicologia da Educação na Universidade da Califórnia, Diretor Executivo do Institute of Human Learning em Berkeley e "Fellow" da American Educational Research Association; de Hans J. Eysenck, grande e famoso psicólogo britânico; de W. Shockley, Universidade de Stanford (EUA), Prêmio Nobel de Física; de J. D. Hofmeyer, ex-diretor do departamento de genética da Universidade de Pretória; de Wesley C. George, ex-Presidente da Academia de Ciências da Carolina do Norte, concluem pela superioridade de 15 pontos do Q.I. médio dos Brancos em relação aos Negros, com uma diferença especialmente clara no domínio do raciocínio abstrato...

Estabelecem uma hierarquia formal entre as raças: os Brancos em primeiro lugar, depois os sujeitos de origem asiática. Cerca de 85% dos Negros estão abaixo da média dos Brancos, apesar de uma miscigenação de 20% que melhora os resultados gerais..

MAS, há uma escolha particular nos dados científicos, uma preocupação com a diferenciação, com a especiação a partir de diferenças bem reais, mas exaltadas por um anti-igualitarismo obsessivo e uma psicose da indiferenciação, para levar a Nouvelle Ecole a preconizar "o desenvolvimento separado" e "o isolamento genético".

IV. A Condenação da Medicina Tradicional.

Ela é condenada por ser respeitosa da vida:

"Os progressos da medicina, da cirurgia e da higiene hoje têm o efeito de permitir que indivíduos geneticamente mal nascidos, que, em condições naturais, teriam sido eliminados na primeira infância, atinjam a idade adulta e procriem... (esses progressos da medicina) ao atacar a diferenciação, que é um princípio de vida, e a seleção, que é o motor da evolução... colocam em perigo toda a espécie, em seu futuro e em suas possibilidades de renovação." Nouvelle Ecole nº 18.

Unindo-se ao Conde de Gobineau, a Nouvelle Ecole agita o espantalho da degradação genética da espécie humana em nível geral e, no plano do homem particular, a degradação física e mental mais insuportável que a morte.

A medicina é, portanto, fundamentalmente questionada e, com ela, seu garantidor moral, a Ordem dos Médicos. A ela se opõem a Ciência e suas possibilidades eugênicas.

E eis o ponto final da abordagem:

V. Restaurar a Etnia Originária.

O Belo, o Bom, o Verdadeiro e os Valores universais não existindo, tudo o que faz o Homem provindo exclusivamente de um substrato étnico geneticamente determinado, fruto da evolução e da seleção, o GRECE nos considera como os representantes atuais DA RAÇA INDO-EUROPEIA:

"Sabemos hoje e de maneira segura que existiu um povo indo-europeu... e com não menos certeza que a herança indo-europeia moldou de forma determinante as civilizações que deram origem à 'civilização europeia'." (Nouvelle Ecole nº 21 - 22).

Nossa cultura e uma certa visão do mundo devem se identificar, se identificam com as culturas indo-europeias: as culturas dos povos celtas, arianos, gauleses e germânicos.

Paralelamente à exaltação de nosso inconsciente ariano-céltico, a Nouvelle Ecole se dá a missão de expulsar de nossa cultura, de nossa moral, de nossa mentalidade, de nossos comportamentos, todos "os germes de mentalidade oriental" que se infiltraram em nós, que nos tornam "estrangeiros a nós mesmos" e nos fizeram perder "até a consciência mesma do que somos".

Houve e há conflito cultural entre dois sistemas de pensamento: entre Roma e a Judeia, a Europa e a Afrásia (NT: África e Ásia), a cultura ocidental e o mundo afro-oriental...

"Nós, indo-europeus, estamos alienados culturalmente desde o triunfo, há 2.000 anos, de um tipo de pensamento estrangeiro, importado pelo cristianismo e de origem 'camito-semita'."

O que fazer para restaurar nossos valores primitivos?

"É preciso purificar as aquisições, desembaraçar a herança... somos todos bastardos... somos os produtos de uma cultura que incorporou elementos estrangeiros e os tornou seus...

É descobrindo nossos ancestrais, reconhecendo-nos no pai 'indo-europeu' do qual descendemos, que estamos aptos, ao mesmo tempo, a desmascarar 'o pai abusivo' que nos havia adotado." (Nouvelle Ecole nº 17).

"A solução para 'a crise moral' é a rejeição definitiva e completa daquilo que tivemos que absorver pela força... é o retorno a nós mesmos, estrangeiros que somos neste mundo que deveria ser o nosso, que criamos e onde não nos reconhecemos mais." (9)

No momento, esse retorno a nós mesmos se caracteriza por uma forte tendência germanista. Esse retorno às origens se caracteriza sobretudo pela reabilitação de uma espécie de paganismo neodruídico, pelo recurso às mitologias e divindades indo-europeias e pelo ressurgimento de costumes do "velho ocidente": solstícios, árvores de maio, etc.

D) A ÉTICA DA NOVA DIREITA

A concordância exata do "projeto nietzschiano" e dos temas científicos (neodarwinismo: mutações - seleção - poligenismo) escolhidos, adotados, sustentados e reforçados pela Nouvelle École e pelo GRECE, o "Científico" dando toda a sua força e autoridade ao filósofo e o corroborando, traduz-se diretamente no nível ético pela Biopolítica (realização técnica do projeto nietzschiano) e por uma moral individual "psicologicamente ativa" e criadora do "novo tipo de homem" procurado.

Primeiramente, será examinado, em nível geral, o que se deve entender por Biopolítica e as justificativas fornecidas pelo GRECE.

Em seguida, o percurso da ideologia ao longo do tempo, seu desenvolvimento e suas explicações em todos os meios ocidentais e, mais precisamente, em nossa França, será estudado em dois períodos separados pela Segunda Guerra Mundial de 1939-1945.

A essa "base" dinâmica será acrescentado o estado descritivo da situação atual do sistema em nosso país e suas tendências de evolução, incluindo aquelas que estão apenas presentes em germe.

O "percurso" assim definido permitirá esboçar uma imagem terminal, inevitavelmente realizada em um futuro muito próximo, se uma reviravolta sociopolítica radical, uma verdadeira contrarrevolução, não bloquear sua evolução ou não alterar fundamentalmente seus dados.

1) Os princípios da Biopolítica

Ela é uma verdadeira ética coletiva. Aplicada à espécie humana, consiste em agir sobre o Homem, sobre seu patrimônio genético, sobre sua reprodução, sobre sua fertilidade.

Ela se enriqueceu com os recentes progressos da genética e da cirurgia. Ela tende a se confundir com a Eugenia, ciência que considera todos os meios possíveis, das medidas sociais às intervenções genéticas, suscetíveis de assegurar a manutenção e a saúde das populações. A Biopolítica acrescenta a ela um certo número de juízos de valor, critérios, "motivos" e objetivos determinados.

O Eugenismo é ação: ele supõe certos problemas de ordem moral resolvidos, os critérios de ação e os objetivos determinados. Ele pode se justificar do ponto de vista do interesse geral atual.

A Biopolítica, que se confunde em grande parte com o Eugenismo, vai muito além: ela visa, além da simples manutenção ou melhoria do nível genético da espécie, a constituição provocada de uma hierarquia e de uma aristocracia genética:

Não se sabe para onde se vai, mas vai-se, deve-se ir...

O econômico, o social, o político são elementos muito importantes da tranquilidade, do bem-estar dos homens e dos Estados... mas a Biopolítica, revolução sexual asséptica e congelada, é a pedra angular da transformação definitiva e irreversível de nossa sociedade em um imenso criatório...

A Nouvelle École justifica esses princípios biopolíticos por vários motivos:

Em nome da evolução (Nouvelle Ecole n° 9. Alain de Benoist).

"Todo mundo deseja que o Homem melhore; uns querem agir pela educação sobre o espírito, outros pelo conforto sobre os costumes, outros sobre o Homem e pelo Homem para que ele se supere.

Estas são as únicas três filosofias possíveis: a filosofia do ser, que é a dos teólogos e sonhadores, a filosofia do ter, que é a dos consumidores e possuidores, e a filosofia do devir... a filosofia dos homens que se preocupam (não com o que é a natureza humana, mas) com o que ela será."

Observa-se a frequente cumplicidade tácita existente entre o par consumidores - possuidores e a eugenia.

Em nome da sociedade (Nouvelle Ecole n° 4) esta justificativa mistura motivos de proteção social e motivos políticos: de criminosos passa-se aos associais, termo clínico muito amplo onde podem ser enquadrados contestadores de todos os níveis, delinquentes, doentes e deficientes... etc.

É preciso eliminar "a escuma biológica - caldo de cultura dos parasitas legais e semilegais", e "o sedimento biológico, caldo de cultura da malandragem e do refugo."

Ela também apresenta motivos econômicos: o preço a pagar para aumentar fortemente em seu seio a quantidade de "indivíduos de elite", "da raça superior", utilizando o único meio da "educação integral" que deveria ser empregada durante "um milhão de anos":

"A três gerações por século, bastariam algumas centenas de anos para povoar a terra - pelo emprego da seleção - de uma humanidade morfologicamente perfeita.

Esse prazo poderia ser encurtado em proporções consideráveis empregando a inseminação artificial... dissociando de forma definitiva... amor, volúpia e fecundidade." podia-se ler em Europe - Action em 1960.

Em nome da degenerescência genética da espécie. Esta justificativa é muito mais comumente aceita do que se pensa.

O Conde Joseph Arthur de Gobineau, adepto do neodarwinismo, autor em 1853-1855 de "Um ensaio sobre a desigualdade das raças humanas", escrevia em seu tempo:

"A previsão entristecedora não é a morte, mas a certeza de só chegar a ela degradado."

Sinal verde dado ao suicídio, a todas as eutanásias... Ao mesmo tempo, a crítica à medicina tradicional e à moral cristã - binômio irredutível - é precisada.

"A questão se coloca, com efeito, de saber em que medida as sociedades poderão enfrentar, mantendo um alto nível de vida, o sustento de uma multidão sempre crescente de deficientes naturais (ou acidentais)."

"Além disso, deixando crescer e multiplicar estes últimos (os deficientes naturais), é a espécie inteira que é colocada em perigo, em seu futuro e suas possibilidades de desenvolvimento." (Nouvelle Ecole n° 18).

Para sustentar a ideia da eliminação "das crianças de má qualidade" e até mesmo de outras pessoas, o GRECE enuncia uma nova (SUA) DEFINIÇÃO DE VIDA em um artigo da Nouvelle Ecole n° 10.

Em nome "da solidariedade filogenética" e da "unicidade do vivo", assim como "o Homem não existe", da mesma forma que "a Humanidade é um conceito zoológico", "a Vida humana" não existe.

"O que é a Vida? Frequentemente se afirma que a vida é um valor supremo. Mas essa afirmação não se aplica de modo algum ao princípio vital em geral. O homem nunca se privou de destruir os vegetais ou de matar os animais. Ela já subentende que se restrinja a afirmação da vida humana."

Precisão adicional fornecida pelo Professor Kahane em agosto de 1967 na revista "Raison Présente":

"O respeito universal pela vida não pertence aos instintos; não encontramos seu germe nas espécies das quais descendemos. Ele provavelmente só foi cultivado nos últimos milênios, por seitas de uma filosofia muito depurada." 

Em outras palavras (veja acima), é um efeito adicional da alienação cristã, que em 2.000 anos tentou, com fracassos risíveis, colocar a Vida Humana a salvo da Caridade, do Amor.

Erro fundamental constata a Nouvelle École nº 14:

"Por que o homem, que sempre se preocupou em melhorar a qualidade das espécies que domesticou, não fez o mesmo consigo mesmo, espécie autodomesticada e cuja qualidade deixa a desejar?

A resposta é muito simples. O homem não se deu esse direito porque considerou, durante séculos, que era um ser à parte."

Sendo a vida do homem, no máximo, a de um animal... a nova moral se enuncia muito rapidamente:

"Ocorre com as espécies como com os organismos: sua existência é transitória. A espécie humana não escapa à regra: ela poderá estagnar, evoluir ou desaparecer... Seja como for, uma escolha deve ser feita. Essa escolha implica em julgamentos de valor e em uma ética. A LEI MORAL para qualquer espécie é aquela que tende à sua conservação, à sua multiplicação, ao seu progresso relativamente aos lugares e aos tempos...

É primeiramente nessa perspectiva que se colocam as concepções eugenistas, a filosofia que delas decorre..."

2) O percurso da Biopolítica ao longo do tempo

Esses princípios e sua aplicação tiveram um longo percurso durante os séculos XIX e XX, e é necessário seguir seu rastro de forma detalhada para melhor compreender sua importância e amplitude.

a) Antes de 1945

Os Teóricos

1853-1855: "Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas" por Gobineau. A única raça pura é representada pelos germanos, exclusivamente os sujeitos loiros, dolicocéfalos, habitantes da Inglaterra, Bretanha e norte da França... os outros ocupantes da Alemanha tendo sido miscigenados, como os celtas...

1870: aproximadamente
Jean Rostand atribui a fundação da eugenia científica a Francis Galton, um primo de Darwin - que inaugura em Londres, em 1904, um ensino nacional de eugenia.

1871:
Assinatura do Tratado de Versalhes - Nascimento do I Reich alemão. "Transformando, em um país abalado por uma onda de febre nacionalista, devido à unificação, as lendas teutônicas em teorias pseudocientíficas a favor da higiene da raça, homens como Ranke, Treitsche, Futsch, Von Zuschlan, Von Ehrengeilo, H. S. Chamberlain, Ploetz, Schallmayer e tantos outros pensadores dessa época contribuíram amplamente para a elaboração da futura doutrina nazista." (11).

1908:
Fundação na Grã-Bretanha da Eugenic Education Society.
Fundação nos EUA da Connecticut Society for Mental Hygien.

1910: EUA. Criação do Eugenic Record Office.

1916: O alemão Dr. Ploetz, fundador em 1905 da Gesellschafür Rassenhygien, é eleito vice-presidente da Eugenic Education Society.

1929: Himmler torna-se Reichsführer SS e assume a liderança da Ordem Negra, baseando-se nos trabalhos de Rudolf Virchow, iniciados em 1871, e nas definições raciais estabelecidas pelo teórico oficial do partido Hans Günther; os escritórios de recrutamento começam a busca por representantes autênticos dos povos indo-europeus, outrora vindos da Dinamarca e instalados na Alemanha desde o século III a.C.: o homem loiro, alto, dolicocéfalo, rosto estreito, queixo bem definido, nariz fino e implantado bem alto, cabelos claros e não ondulados, olhos claros e fundos, pele de um branco rosado.

Anos 1930 e seguintes: 34 países possuíam sua associação de higiene mental. Um dos líderes franceses foi o professor Édouard Toulouse (1865-1947), alienista parisiense (Ste Anne), fundador da Liga de Higiene Mental e da Associação de Estudos Sexológicos. Na Inglaterra, a Sra. Evelyn Fox, que vinha da Eugenic Society, era secretária da Associação de Higiene Mental. Ela participou da fundação do National Council for Mental Hygiene, em cujo conselho estava Cyril Burt, fundador da MENSA. 

1931: Criação, na Alemanha, do RUSHA, escritório superior de raça e povoamento.

1933: Ernst Rüdin, cofundador com o Professor Ploetz da Gesellschafür Rassenhygien, é nomeado representante do Ministro do Interior do Reich na direção das duas associações alemãs de Higiene Racial.

URSS: Faltam possibilidades de investigação e elaboração de uma história. A eugenia do poder bolchevique parece mais orientada para a eliminação de contestadores ou refractários, visando a criação do homem perfeitamente dócil e passivo...

Os "expurgos" começaram bem antes do final de 1917. Passaram por períodos de intensa atividade: a leva de mujiques deskulakizado* em 1929-1930, a leva de 1937-1938 e a leva de 1944-1946, representando talvez cinquenta milhões de pessoas – além desses acessos... a rotina... para "limpar a terra russa de todos os insetos nocivos".

As primeiras legislações

1896: EUA. Connecticut, depois 1903 Kansas, e nos anos seguintes Nova Jersey, Ohio, Michigan, Indiana: Proibição do casamento para deficientes mentais, alienados, sifilíticos, alcoólatras, epilépticos e certos criminosos.

1907: Indiana: lei prevendo a esterilização de degenerados.

1909: Califórnia adota legislação semelhante. 28 estados norte-americanos seguirão.

1928: Suíça. Cantão de Vaud. art. 97 do Código Civil: com autorização do Conselho de Saúde, uma pessoa acometida por doença ou enfermidade mental pode ser objeto de medidas de ordem médica para impedir a sobrevivência de crianças, se essa pessoa for reconhecida como incurável e se, segundo toda previsão, só puder ter uma descendência defeituosa (na época, não existia qualquer meio científico-médico de previsão).

1922: Suécia. Lei autorizando a esterilização.

1933. Castração de reincidentes em crimes sexuais. Dos 59.936 processos examinados, 56.244 esterilizações. Maio de 1934. Modificação da lei de 1922: a esterilização torna-se obrigatória em um certo número de casos. O paciente deve escolher entre o asilo ou a operação.

Esta será realizada sempre que o defeito puder ser transmitido aos filhos ou sempre que estes não "puderem ser criados adequadamente".

1934: Noruega. Lei sobre esterilização.

1935: Dinamarca. Esterilização e castração por doença mental, epilepsia ou defeito passível de ser transmitido aos descendentes, após julgamento do Tribunal.

1937: Estônia. Esterilização ou aborto se um dos cônjuges sofrer de debilidade mental ou de uma malformação hereditária incurável. A hereditariedade do defeito deve ser demonstrada.

1935: Alemanha. Lei para a prevenção de uma descendência hereditariamente doente por meio da esterilização do genitor. Lei para a proteção da saúde hereditária do povo alemão, ou lei de saúde do casamento. Criação da "Sociedade Registrada Lebensborn" – creches e clínicas que, um ano depois, fica sob a tutela do Estado – Major SS. Sigilo obrigatório para os nascimentos – reservados às "genitoras" (casadas ou não) de puros "germânicos". Após 1940, extensão da atividade dos Lebensborn a hospitais, casas de repouso para idosos, casas de crianças. Criação de um registro civil próprio dos Lebensborn.

1939: Início da eliminação sistemática dos "pequenos" anormais.

1940: Na primavera, nota de Himmler a todos os comandantes de campo: "Todos os poloneses devem desaparecer da face da terra." Triagem racial, visando, além dos poloneses e judeus... os ucranianos, os russos brancos, os "Gorates", os "Lemken" e os "Kaschuubianos"... Triagem da juventude, Formação em escola primária única "ensinando" aos alunos que a submissão à Alemanha é um mandamento de Deus.

1941: A Inseminação Artificial, para suprir a falta de genitores masculinos – é considerada pelo Doutor Conti, ministro da Saúde, e outras personalidades.

1943: Agosto. Primeiro uso em um documento oficial do termo "Züchtungsziel", metas de criação, pelo Doutor Gregor Ebner, verdadeiro esteio dos Lebensborn.

As datas são formais. Durante quase 80 anos e até quase o fim do III Reich, estabeleceram-se laços estreitos entre as organizações anglo-saxônicas e as organizações alemãs. Lady Priscilla Norma (discípula e amiga de Evelyn Fox), esposa de um banqueiro, governador do Banco da Inglaterra, Montagu Norman, que apoiou a economia alemã mesmo após a ocupação da Tchecoslováquia, tornou-se Presidente da Provisional Association for Mental Health, que reunia as três associações já existentes.

Isso confirma de forma notável a filiação e o parentesco filosófico e metapolítico... apontados... entre o movimento internacional em favor da eugenia, por um lado, e as organizações de higiene racial e os conselheiros científicos do III Reich, por outro.

b) Desde 1945

Apesar do Julgamento de Nuremberg, talvez também devido à atividade incessante dos judeus em busca dos responsáveis por "seu" genocídio, os sofrimentos de outros povos e outras raças foram praticamente esquecidos.

Os trabalhos dos cientistas alemães, nos campos de extermínio, nas clínicas supervisionadas pela organização SS, não levaram os autores e seus colaboradores à prisão ou ao tribunal para receber uma punição justa.

Assim, o administrador-chefe dos Lebensborn, Max Sollmann, nascido em 1904, filiado ao partido nazista em 1922, carteira da SS nº 903 - e o médico-chefe, General SS Gregor Ebner, nascido em 1892, filiado ao partido nazista em 1930, carteira da SS nº 1.257, amigo íntimo de Himmler, viviam "tranquilamente", oficialmente, em 1974. O mesmo ocorria com muitos colaboradores, médicos, enfermeiros e juristas.

Por que essa clemência, essa liberdade de ação concedida a tais pessoas?

Após a guerra, o banqueiro Montagu Norman e sua esposa se dedicaram à formação de uma nova associação, federando todas as já existentes. A National Association for Mental Hygiene foi fundada em sua casa, em Thorpe Lodge (Grã-Bretanha).

Um comitê para a higiene mental se reuniu em Londres no Ministério da Saúde (início de 1945?), onde foi lançada a World Federation for Mental Health (W. F. M. H.).

Rawling Rees, psiquiatra, tornou-se Presidente no III Congresso Internacional da World Federation for Mental Health em 1948. Ele havia declarado em 1940 no congresso do NCMH: "Acho que devemos imitar os totalitários e organizar uma espécie de 5ª coluna", ou seja, a infiltração e a ação pessoal dentro de todos os grupos sociais.

Elegeram em 1948 o Doutor Carl Jung, ex-codiretor com o primo de H. Goering da "política de Higiene Mental e Racial do III Reich", ou seja, responsável pela política de eutanásia sistemática... e o Doutor Friedrich Mang, Professor de psiquiatria na Universidade de Königsberg, cuja participação no programa de "eutanásia" aplicado em Treblinka e Sobibor não pôde ser estabelecida com certeza.

Deveriam participar deste congresso o Doutor Wahlman, diretor de um Instituto subordinado diretamente à chancelaria do Führer e organizador dos verdadeiros extermínios de que foram vítimas soldados alemães gravemente feridos que voltavam do front, poloneses e alienados mentais - preso na época, só foi libertado em 1954; e o Doutor Paul Nitsche, Líder do movimento correspondente ao NCMH na Alemanha... executado em 1947 por crimes massivos perpetrados contra doentes mentais.

Em 1951, ocorreu sob a égide da World Federation for Mental Health, na Inglaterra, uma conferência presidida por Rawling Rees e pelo Doutor Werner Willinger, conselheiro da chancelaria do Führer em matéria de esterilização e eutanásia de doentes mentais.

Este senhor participou em Washington de uma conferência "sobre crianças e jovens", nos trabalhos do grupo "educação do público" da World Federation for Mental Hygiene, que se reúne anualmente em Bruxelas... antes de ser preso em 1961 pelas autoridades da Alemanha Federal e cometer suicídio na prisão.

1959 O Doutor Hans Hoff, psiquiatra austríaco, admirador de Willinger, torna-se Presidente da World Federation for Mental Hygiene.

1968 O Doutor Ehrard, também admirador de Willinger e de Marc de Crinis, ex-conselheiro da Chancelaria de Hitler, é eleito para o conselho executivo da associação mundial. Em 1969, o Doutor Muller-Hegeman, antigo discípulo e assistente de Marc de Crinis, junta-se ao conselho. É necessário assinalar que Marc de Crinis está refugiado na R.D.A.

1ª constatação: Surpreendente! Longe de terem prestado contas pelos massacres que ordenaram ou apoiaram, numerosos médicos e psiquiatras alemães e nazistas reapareceram após um eclipse mais ou menos longo. Atualmente, dirigem organizações a favor da eutanásia, da eugenia, da esterilização e do aborto eugênico. Uma competência inegável, fruto de experimentações variadas e muito numerosas, permitiu-lhes recuperar influência e posição social — condizentes com seu orgulho nietzschiano. Gozam de uma impressionante impunidade.

2ª constatação: Eles introduziram seus amigos, seus antigos alunos, seus assistentes nas organizações inglesas, americanas ou internacionais, das quais assim assumiram, discretamente, o controle.

3ª constatação: As recomendações datadas de 1940, emitidas pelo Presidente Rawling Rees, foram seguidas por estes homens que conhecem bem as técnicas de infiltração.

A partir de 1957, fragmentando astuciosamente seu programa, apresentando-o progressivamente de acordo com o estado do consenso estabelecido, graças à mídia e ao poder cúmplices, no país visado, multiplicaram as organizações nacionais e setoriais que surgem sozinhas no cenário público e são conhecidas pela opinião.

A confirmação da organização é fornecida pelo jornalista alemão Bernhard Schriber, em seu livro "Os homens por trás de Hitler". O autor conseguiu estabelecer, com provas, as atividades passadas e atuais, a influência, o papel desses homens, discípulos, amigos, parentes, alunos, colaboradores uns dos outros, que dirigiram e ainda dirigem, intercambiáveis que são nos diferentes cargos, através do mundo ocidental, o movimento eugenista internacional e os satélites especializados ou nacionais.

4ª constatação: A construção, a organização do movimento de Biopolítica segundo um esquema estilo sociedades secretas, que apresenta todas as formas de manipulação humana com direção internacional.

O Iº círculo - "Núcleo duro":

No topo, a Eugenic Society, depois a World Federation for Mental Hygiene e a Federação Internacional das Organizações Eugênicas.

A Eugenic Society recebe fundos de uma série de Fundações. No topo, a família Rockefeller, muito dedicada à causa eugenista, pois financiou o laboratório do Doutor Ernst Rüdin.

O IIº círculo:

Pela aplicação da estratégia de Rees finalmente adotada em 1960 graças aos esforços do Doutor C. P. Blacker, lançamento de duas organizações com vocação internacional:

A Family Planning Association e a International Planned Parenthood Foundation controladas financeiramente e em termos de pessoal pela Eugenic Society.

O IIIº círculo: Desenvolvimento de um número significativo de Sociedades, Associações, Centros, Movimentos, Agrupamentos destinados tanto a profissionais da Medicina quanto ao público.

As criações foram tanto mais numerosas e variadas quanto maior era o número de partidários no local.

Os países nórdicos Dinamarca, Noruega, as duas Alemanhas, Canadá, Grã-Bretanha, Austrália e EUA foram os primeiros a serem envolvidos.

Neste país – que havia retomado o bastão seguido antes da guerra pela Inglaterra – as organizações se multiplicaram.

É preciso citar o Population Council, o Population Reference Bureau, a Path Finder Foundation, o Population Crisis Committee, apoiados por fundações privadas Victor Bostrom, Ford, Rockefeller... e, também, por organismos governamentais como o National Institute of Health dos EUA ou a U. S. A. I. D. (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional), mandatada pela A. C. D. A. de V. G. E.

Existem também uma multitude de associações médicas reunindo psiquiatras, neurologistas e eugenistas de todas as origens: Euthanasia Educational Fund, American Humanist Association, American National Association for Mental Hygiene, American Medical Association for Euthanasia...

Todos esses grupos são, na maioria das vezes, filiados à World Federation for Mental Hygiene.

Seus membros puderam se beneficiar das declarações do M. I. T. e do Clube de Roma quanto ao perigo da explosão demográfica mundial, dos discursos alarmistas de homens como Dumont René e Mansholt Sicco que colocavam em dúvida a sobrevivência da humanidade, para obter a audiência dos organismos internacionais que tratam do problema: Organização Mundial da Saúde, O. L. I., F. A. O., U. N. E. S. C. O., B. I. R. D.

A importância dos EUA na ajuda econômica mundial permitiu impor, de 1960 a 1974, planos de limitação da fecundidade, mesmo em países muçulmanos.

São primeiramente as raças "inferiores" que são visadas, os hindus, párias – os negros da África – os sul-americanos, porto-riquenhos... etc., que recebem meios de esterilização em grande escala ou que "experimentam" (sic) os novos produtos contraceptivos.

Mesmo nos EUA, a Fundação para a Eutanásia redige uma proposta de legalização para voluntários, retomada em 1975 pelos estados da Califórnia e da Flórida – O Arkansas aprova uma lei autorizando terceiros a decidir sobre a eutanásia de outrem. Em 1972, Maryland suprime a ajuda financeira para famílias com 6 filhos ou mais. Em 1977, os senadores Charles Percy e Robert Packwood lançam a ideia de aliviar o orçamento federal de ajuda às famílias por meio do aborto generalizado...


Um processo semelhante se desenvolveu na França a partir de 1945, e nos restará acompanhar seu percurso em um próximo artigo. Veremos se instalarem as filiais francesas dos organismos citados anteriormente, e os principais políticos desempenharem seu papel; o sistema desemboca finalmente na criação, em dezembro de 1983, do Comitê Nacional de Ética para as Ciências da Vida e da Saúde – que se destina a coordenar as realizações eugênicas, teoricamente para controlá-las, na prática para melhor encobri-las.

L. D.


* Ser “deskulakizado” significava ser expropriado de terras e bens, preso, deportado para campos de trabalhos forçados (gulags) ou executado.

A SUBVERSÃO DA IDEIA DE CRIAÇÃO NA GNOSE BORELLIANA

"Tocar uma criatura é tocar a Deus. Sobre o corpo que toco, Deus pôs a sua mão. A linha desse corpo é o próprio gesto de Deus tornado carne; é o ato divino como forma e matéria. E assim da pedra, da árvore e do vento. Em verdade, tocamos a Deus em toda parte..." (1)

O que surpreende de imediato o leitor – ao menos o leitor católico com alguma lembrança do seu catecismo e, com mais razão, o leitor instruído na "filosofia da Igreja", a qual, queira-se ou não, é "a filosofia de São Tomás de Aquino", como não cessou de escrever e declarar o Magistério da Igreja desde pelo menos o papa Urbano V – o que surpreende o leitor nessa passagem de A Caridade Profanada do Professor Borella é o acúmulo de metáforas cujo encadeamento sempre termina com uma fórmula totalmente heterodoxa em relação à doutrina católica.

O VÉU DAS METÁFORAS

São metáforas! – dir-se-á. Sim, e sabemos até que metáfora e metafísica são duas coisas. No entanto, essas metáforas não podem deixar de causar estranheza sob a pena de um autor que não só professa ensinar filosofia, mas, além disso, trata em sua obra temas fundamentais da doutrina católica.

Certamente, o emprego da metáfora pode revelar-se útil para tornar perceptível um pensamento, uma demonstração um tanto abstrata. A metáfora é então como um esboço que, em poucos traços rápidos, a condensa, a resume, ao sabor de uma analogia tomada de empréstimo à ordem do sensível.

Todavia, em si, a metáfora não requer explicação, pois se pretende uma explicação. Ora, curiosamente, o autor se esforça por explicá-la, convidando-nos assim a nos encerrar até o mais profundo do seu pensamento íntimo: é por aí que esse pensamento não se revela de modo algum na linha direta da doutrina tradicional da Igreja e de seu dogma.

Enfim, o autor, que saibamos, não se apresenta a nós como um poeta, mas como um pensador, um filósofo. Não se pode, portanto, concordar, sem se enganar a si mesmo, que se trata de um certo jogo poético descontrolado, quando o autor usa metáforas e as multiplica à saciedade. É, nele, uma técnica – a das "duas verdades", notavelmente aperfeiçoada pelos discípulos latinos de Averróis, que a herdou do misticismo orientalista e hermético de seus predecessores árabes, e que foi condenada pela Igreja em 1270, a respeito de Siger de Brabante, e, novamente, a respeito da Escola de Pádua, em 1513.

Por enquanto, retenhamos do texto do Senhor Borella apenas estas fórmulas:

"Tocar uma criatura é tocar a Deus. Sobre o corpo que toco, Deus pôs a sua mão. A linha desse corpo é o próprio gesto de Deus tornado carne; é o ato divino como forma e matéria. E assim da pedra, da árvore e do vento. Em verdade, tocamos a Deus em toda parte..."

Notemos quão distante está o pensamento do Senhor Borella daquele de Michelangelo, quando este, a pedido do papa Júlio II, pintou na Capela Sistina a Criação do Homem. No afresco de Michelangelo, Deus não põe a sua mão sobre o corpo do homem, Deus não modela com sua mão "a linha desse corpo". Deus nem mesmo toca com seu dedo indicador estendido o do homem, ainda entorpecido de não-ser, que, por esse gesto divino de comando, desperta para a vida. Em suma, tudo aqui participa de uma inspiração cristã, que Michelangelo é obrigado a materializar sob forma pictórica. O Senhor Borella, por sua vez, não está de modo algum na necessidade de materializar o "ato divino", como foi constrangido Michelangelo. A escrita oferece outras possibilidades para expressar o mistério da criação.

Notemos ainda que escrever: "Tocar uma criatura é tocar a Deus... e assim da pedra, da árvore e do vento" é, no mínimo, sugerir esse "Tudo é Deus" próprio de toda doutrina panteísta. Ora, o Senhor Borella nos convida a isso tanto mais quanto ele mesmo conclui: "Em verdade, tocamos a Deus em toda parte".

Essa escolha de metáforas, esse "véu", sob o qual o autor expressa seu pensamento, tem, no mínimo, o inconveniente de nos desviar da ideia cristã de criação. Por isso mesmo, o Senhor Borella nos incita a crer que o Deus em que ele pensa não é "o Deus de Abraão e de Jacó", o Deus da Bíblia, o Deus do nosso Credo. Ou, se o é... Discutiremos isso no momento oportuno.

Seja como for, as metáforas do autor nos afastam muito longe da letra e do espírito do Livro do Gênesis, que se abre com estas palavras fulgurantes: "(No princípio)... No começo, Deus criou o Céu e a Terra", e que se continua com esta fórmula repetida: "Deus disse, e houve..." "Deus disse, e assim foi". Embora sendo uma metáfora, a fórmula expressa perfeitamente a ideia de criação de todas as coisas por Deus. Por ela, toda ideia de qualquer coisa preexistente ao mundo, preexistente ao ato divino, é rechaçada. Nenhum intermediário entre o ser que cria e o ser que é criado. Nenhum movimento, mudança ou mutação, como solicita acreditar o Senhor Borella.

Melhor ainda, a metáfora bíblica afasta até a ideia absurda de fazer do próprio Deus esse "aquilo em que", como teria dito Platão, do qual seriam tiradas as coisas que Deus cria; pois, desde então, não haveria criação, criação ex nihilo, mas parturição, geração – emanação. Deus não produz, quando cria, a partir de uma substância preexistente, seja ela qual for – ainda que fosse a sua própria, se é que se pode falar de substância quando se trata de Deus. A ideia de criação, desde o Livro do Gênesis, é notavelmente significada por estas simples palavras: "Deus disse,... e assim foi".


Voltemos às metáforas do Senhor Borella. Deixemos de lado essa ideia que poderia surgir no leitor, distraído ou mesmo assustado pela fórmula completa: "a linha deste corpo (que toco), é o próprio gesto de Deus feito carne", ideia que nasceria de alguma forma pelo desejo de permanecer na continuidade da imagem sugerida pela frase anterior. De modo que se trataria de reter apenas esta noção, a saber, que a mão de Deus, tendo-se "pousado sobre o corpo (que toco)", teria modelado "a sua linha".

Pelo próprio desenrolar de metáforas cada vez mais explícitas, o autor nos afasta desse pensamento ingênuo, que consistiria em ver "o próprio gesto de Deus" como o do modelador e do oleiro. Não é a esse pensamento que o autor nos quer conduzir: ele próprio o reprime.

Para o autor, a mão de Deus, após ter-se pousado sobre o corpo que toco, não modelou "a sua linha". A modelagem da linha de um corpo não dá o ser a esse corpo. Todo aristotélico e tomista concordaria: o contorno, a configuração, a figura, a "linha" de uma coisa não dá o ser a essa coisa.

Sem querer nos alongar muito sobre este tema, digamos que a configuração, a figura, é uma forma acidental, a qual, por ser tal, não dá o ser a uma coisa: ela dá a essa coisa apenas um modo de ser. Uma forma acidental não atenta contra a identidade da coisa que a recebe e a reveste, não atenta contra o seu ser. Que Sócrates, de gordo, torne-se magro, ou vice-versa, de rosado torne-se branco, ou vice-versa, de silencioso torne-se falante, ou vice-versa, Sócrates não deixa de ser Sócrates.

Convir que a mão de Deus teria modelado "a linha deste corpo (que toco)", "e assim da pedra, da árvore e do vento", pressuporia um ser qualquer já subsistente ao "ato divino". Se assim fosse, não se trataria de um ato criador. Deus não seria a causa universal de todo o ser das coisas que cria. Em suma, as coisas assim "criadas" não teriam, de fato, ser próprio: elas teriam ser apenas do ser da substância na qual teriam sido modeladas.

Seria como um vaso modelado pelo oleiro. O vaso, de fato, não tem em si ser próprio: ele tem ser, existir, existência, apenas do ser, do existir, da existência da argila da qual é feito — na qual foi modelado. A "figura-vaso" é apenas uma forma acidental, que sobrevém, chega (accidit) à argila. Pelo seu gesto, o oleiro apenas submete a argila a uma mutação acidental, a qual não atenta contra o ser próprio da argila.

Não, o Senhor Borella não é um mecanicista, como foram Demócrito e Descartes e como são, nos dias de hoje, muitos físicos, cibernéticos, ou mesmo biólogos do tipo Monod. Ele nos afasta desse pensamento de imaginar "o próprio gesto de Deus" como o de um oleiro.

E, NO ENTANTO, O SENHOR BORELLA NÃO SUGERE MENOS QUE A CRIAÇÃO É UM MOVIMENTO, UMA MUTAÇÃO, UM DEVIR — tanto isso lhe é essencial para o restante de sua exposição.

A CRIAÇÃO... UM DEVIR?

Embora se proponha a nós como um pensador católico de tradição, o autor provavelmente não leu — a menos que tenha esquecido — o que São Tomás de Aquino escreve sobre a criação na Suma contra os Gentios (gentios = bárbaros, pagãos, na tradição bíblica), a qual Suma foi escrita "contra os pagãos árabes", e na Suma Teológica. Ater-nos-emos à Suma Teológica, cuja tradução é a mais difundida: "criar é fazer algo a partir do nada" (Suma Teológica Ia, q. 45, a. 1).

A noção de criação está além da noção de geração e alteração, porque seu termo é a totalidade do ser da coisa, quer se trate do ser composto de forma e matéria, quer do ser sem matéria, como os espíritos separados (da matéria) — os anjos (q. 45, a. 1, ad 2); a criação não é um movimento, uma mudança, um devir: "a criação é, na verdade, uma relação — relação extratemporal — na criatura, seu sujeito"; a criação é um resultado sem ponto de partida e sem devir (q. 45, a. 2, ad 2; q. 45, a. 3).

Analisemos um pouco esses pontos:

"A criação não é um movimento, uma mudança, visto que tudo o que se faz por movimento se faz a partir de um termo preexistente".

Se Deus agisse a partir de algo que fosse pressuposto ao seu ato criador, esse algo escaparia ao seu ato criador. Deus, quando cria, não seria, portanto, causa universal da totalidade do ser daquilo que cria.

"A criação não é um movimento, uma mudança, um devir"...

Todo movimento, mudança, devir pressupõe um sujeito que é movido, que muda, que devém — em suma, que primeiro é assim e depois é de outro modo.

"Mas quando se trata da criação, pela qual é produzida toda a substância de uma coisa, não se pode apreender nada em dois estados sucessivos".

"A criação não é um movimento, uma mudança, um devir"... "Todo movimento, toda transformação de qualquer espécie que seja implica no sujeito que é movido, que muda, a ação e a paixão – uma não diferindo da outra senão segundo relações diversas, como diz Aristóteles na Física (III, 3º, n° 5)".

De fato, a ação é o que é feito em algum lugar por um agente, pois o que é um agente senão algo que age, e a paixão é o que é sofrido, suportado, padecido, em algum lugar. Assim, a ação e a paixão só se encontram no mesmo lugar, num mesmo sujeito, aquele mesmo que é movido, muda – o paciente; pois é a mesma coisa, num mesmo lugar, num mesmo sujeito, o que é feito e o que é sofrido. Mas essa mesma coisa é paixão do sujeito em relação ao agente, de onde ela vem; e ação do agente em relação a ela.

... OU UMA CERTA RELAÇÃO?

"Deus, quando cria, produz as coisas sem movimento... Portanto, O MOVIMENTO AFASTADO, não resta, no ser que cria e no ser que é criado, senão uma (certa) relação... RETIRADO O MOVIMENTO DA AÇÃO E DA PAIXÃO, não resta senão uma certa relação ao Criador, como ao princípio de seu ser" (45/2; 45/3).

Efetivamente, não pode se tratar de uma relação que seria descendente, como seria a do emanante ao emanado, do gerador ao gerado – Deus não é imanente ao que cria, e a criatura não é emanada, gerada de Deus. Trata-se de uma RELAÇÃO ASCENDENTE, porque precisamente da ordem da criação.

Digamos, resumindo: o ser da causa e o ser do efeito são dois, isto é, não apenas distinguidos pela razão, mas distinguidos por natureza. O ser do efeito está suspenso ao ser da causa, e não o inverso. Daí esta famosa fórmula de Aristóteles:

"O Céu e toda a Natureza estão suspensos a Deus, este Pensamento pensado do seu pensamento".

Tratando da criação, São Tomás de Aquino não diz outra coisa:

"A criação, na verdade, é uma relação, que se encontra na criatura, seu sujeito".

E o Aquinate acrescenta:

"Uma relação, em Deus, com a criação, não é coisa real, é uma coisa de pura razão. Ao contrário, a relação da criatura com Deus é uma relação real (45/3)".

De fato, se as relações das coisas entre si são uma realidade da natureza (aquela que funda a ordem objetiva imanente ao mundo), com muito mais razão a relação de dependência de todas as coisas a Deus é coisa real (e não de pura razão), já que é o fundamento de seu próprio ser.

Deus é “o Pensamento pensado do seu pensamento”, diz Aristóteles, sistematizando assim a contribuição de Anaxágoras (500‑428) que põe um “Noûs”, uma Inteligência: primeira subsistente por si, transcendente ao mundo que ela ordena. Essa contribuição abalará Sócrates. Mas, por meio dele, todas as doutrinas panteístas e emanatistas são repelidas; de modo que, para explicar o advento, a gênese do mundo, não se oferece senão a ideia de criação: é Sócrates, mas mais ainda Platão e Aristóteles. O espírito não secreta, não engendra, não se engendra matéria. A matéria não secreta, não engendra, não se engendra espírito.

Sim, mas de Deus, que é o Espírito subsistente por si, não se pode conceber que nossas almas e os anjos, já que são de natureza puramente espiritual, emanam dele, fluem dele, derivam dele? Não se encontra essa ideia em Sócrates, Platão e Aristóteles, nem, com mais razão, nos pensadores católicos. Sejamos consequentes! Se as almas humanas, se os anjos fossem emanados, gerados de Deus, eles não teriam ser próprio; eles só teriam ser do ser da substância divina da qual seriam feitos. Seriam consubstanciais a Deus, portanto o próprio Deus. Eles são criados! Deus não é a substância de nossas almas e dos anjos. Deus não é imanente ao anjo. Deus não é imanente ao homem. E, no entanto, o Senhor Borella...

O autor da "Caridade Profanada" – como haveria muito a dizer sobre esse título – parece ter, no mínimo, esquecido muitas coisas de Aristóteles e de São Tomás de Aquino. Muito mais do que ter lido Aristóteles "à luz" de Aristóteles, como fez São Tomás de Aquino, e São Tomás de Aquino "à luz" de São Tomás de Aquino, e, com mais razão, da doutrina católica e de seu dogma, ele os leu "à luz" do neoplatonismo gnóstico greco-latino, e depois árabe, o qual é panteísta e emanacionista. (2) De modo que a isso ele reduz tudo. O que tem como consequência não apenas atentar contra a doutrina católica, mas também contra a metafísica aristotélica e tomista e ainda contra a intuição dominadora do platonismo, a qual não é de modo algum panteísta. (3)

A SUBSTÂNCIA DA CRIAÇÃO...

Voltemos ao texto do Senhor Borella, o qual, pelo encadeamento de suas metáforas, não sustenta menos que a criação é movimento, mudança, devir: "o gesto mesmo de Deus feito carne... O ato divino como forma e matéria". Certamente, vimos, o autor nos desvia de ver no "gesto mesmo de Deus" o de um modelador: ele não deixa, portanto, pressupor uma "matéria para modelar" preexistente e estranha ao "ato divino".

No entanto, se a criação não é menos, para o autor, um movimento, uma mudança, é preciso que haja EM ALGUM LUGAR um sujeito, um substrato para o movimento, para a mudança. Qual pode ser esse sujeito, essa "realidade única onde se encontram a ação e a paixão", segundo a expressão mesma de São Tomás. Qual pode ser esse substrato necessário a toda mudança, devir? Sigamos a cascata de fórmulas: "a linha desse corpo (que eu toco), é o gesto mesmo de Deus feito carne"... Melhor: "é o ato divino como forma e matéria". Assim, o sujeito onde se encontram a ação e a paixão, o substrato, a "matéria" da criação, é o PRÓPRIO DEUS. Deus é o sujeito, o substrato, a substância mesma da criação. (4)

Não se pode concluir de outra forma. As fórmulas nos encerram nisso. É Deus que, por seu próprio gesto, SE FEZ carne... "e assim da pedra, da árvore e do vento". Deus, por seu ato divino, SE FEZ substância do mundo.

Objetar-se-á: o gesto do oleiro é bem o oleiro, mas o oleiro não é o vaso. É verdade. Mas o autor, ao mesmo tempo em que sustenta que a criação – o ato divino – é movimento, nos desvia de ver no ato divino o de um modelador, de um oleiro. O autor é um pensador, um filósofo. Assim, quando escreve, ele sabe escolher suas palavras e ordená-las para expressar seu pensamento. Se utiliza metáforas, não é gratuitamente, e isso tanto mais quanto elas se concluem por uma fórmula de sentido absoluto.

Esta é a técnica das "duas verdades", mas, além disso, revisada conforme a teoria do reflexo condicionado elaborada por Pavlov (1839-1936). Este só se preocupava com os animais. Hoje, adaptou-se ao homem: sabe-se perfeitamente imprimir em nossos cérebros imagens, metáforas — "arquétipos" — que não se dirigem à inteligência (sobretudo não) — e que, no entanto, cedo ou tarde, gerarão um comportamento mental desejado.

De qualquer modo, o autor, desprezando a doutrina tradicional da Igreja e os trabalhos de São Tomás de Aquino, nos inclina a pensar o que ele pensa, a saber, que a criação é movimento, mudança, devir, rejeitando de nosso pensamento ver no próprio gesto de Deus, no ato divino, o de um oleiro.

De modo que resta apenas uma solução, à qual o próprio texto nos convida: "A linha deste corpo (que toco)... é o ato divino tornado carne, tornado como forma e matéria", ou seja, como substância deste corpo que toco... "e assim da pedra, da árvore e do vento". Nenhuma outra conclusão possível — toda a obra tem aí seu fundamento: é Deus que, por seu próprio gesto, SE TORNOU carne; é Deus que, por seu ato divino, SE TORNOU "substância deste corpo que toco... e assim da pedra, da árvore e do vento". Donde a conclusão: "Em verdade, tocamos Deus em toda parte". E com razão! TUDO É CONSUBSTANCIAL A DEUS. TUDO É DEUS.

Nenhum contra-senso possível: Deus, por seu ato divino, SE TORNOU, SE FEZ, substância do mundo. A criação, para o autor, é movimento, mudança, devir, MAS MOVIMENTO, MUDANÇA, DEVIR DO PRÓPRIO DEUS.

Eis aonde conduzem as metáforas do autor, em seu encadeamento sempre mais explícito. POR QUÊ? Simplesmente para imprimir no leitor, por meio de imagens, metáforas, portanto sem que o leitor esteja plenamente consciente, que DEUS, por seu ato divino, PERDEU SUA TRANSCENDÊNCIA, como professa Hegel, após todos os neoplatônicos gnósticos (5).

Por seu ato divino, DEUS SE TORNOU SUBSTÂNCIA DO MUNDO, IMANENTE AO MUNDO. Contrassenso? De modo algum. A conclusão em dois níveis nos declara sem rodeios: a primeira (ligada à pedra, à árvore e ao vento... ao corpo que toco — referindo-se portanto ao Todo do mundo): "Em verdade, tocamos Deus em toda parte"; e a segunda, apropriada à fórmula: "Há no Homem como que algo de Deus" — referindo-se portanto ao Homem (com uma maiúscula bastante significativa, como quer o autor): "Deus não nos recusou sua imanência". Efetivamente, se Deus, por seu ato divino, não é mais Transcendente e se, por isso mesmo, não é mais que Imanente ao mundo, qual é, no mundo — que já não é mais que o Todo do real — esse Ser que possui o Pensamento, a Inteligência, o Espírito, senão o Homem, e o Homem apenas. Portanto...

DO PANTEÍSMO PRIMITIVO À GNOSE MODERNA

Não estamos tão longe quanto se poderia crer desse panteísmo primitivo, próprio a todo pensamento, inteligência, ligado à sensação e que a ela se reduz a ponto de não poder distinguir o espírito da matéria, Deus do mundo, e que então não se entende outra realidade senão o mundo, a matéria e seu movimento.

O mundo, a matéria é um "ser-movimento", um "ser vivo", em perpétua parturição de si mesmo. Esse dinamismo, essa força, essa vida imanente ao mundo, à matéria, é uma lei — lei inflexível, que comanda o fluxo dos fenômenos e dos seres. Ela é essa força divina, necessidade universal e razão universal; ela é esse "logos spermatikos" de Marco Aurélio, de onde procede toda força, toda vida, toda razão, e que, fluindo como um fluxo inapreensível, engendra os mundos, os anima e os governa.

Esse panteísmo naturalista, esse panteísmo hilozoísta e vitalista circula por toda a Antiguidade na Grécia e na Itália, no Egito e na Caldeia, na Babilônia e na Pérsia, na Índia e na China, na Sibéria e no Ocidente setentrional, onde, apesar da penetração do cristianismo, ele rola seus miasmas para aparecer em sua violência mística no século XIV, depois nos séculos XVI e XVII, e novamente no século XIX, com o que se chama pudicamente "o romantismo alemão".

Este, de início, não é senão uma ressurgência da velha mística panteísta popular, que a intelligentsia apenas expressa em forma poética mais erudita: canta-se o culto do Deus-Natureza. Tudo se ordena segundo uma mística da "vida profunda", pela qual o homem pode "comungar" com o Todo aprofundando, não pela inteligência, mas pela intuição e pela fé, sua própria vida — sua vida impulsiva, inconsciente. Esse retorno ao vitalismo hilozoísta será teorizado por Schelling.

Contudo, esse misticismo naturalista se vê elevado ao plano de uma mística "espiritualista", no sentido de que já não é assumido por um pensamento reduzido à sensação, pela intuição — o inconsciente, mas pela "razão pura": a alma, e a alma apenas, não é o homem, como se professa novamente desde Descartes.

Em suma, já não se trata do Deus-Natureza, do Deus-Elã-Vital, imanente ao mundo, da tradição vitalista e hilozoísta; trata-se do Deus-Espírito, do Deus-Luz, que, primeiro Transcendente, por sua "irradiação" nas Trevas, no Caos original, de certo modo se "pulverizou" no mundo, e que, por isso, perdeu sua Unidade e sua Transcendência originárias. Já não se trata de uma emanação, de uma parturição de ordem material, mas de uma parturição, de um engendramento, de uma emanação divina de ordem imaterial — espiritual, e, por conseguinte, das almas humanas.

Assim, trata-se sempre do mesmo panteísmo emanantista primitivo: o que muda são os atributos da natureza do Deus-Emanante. Essa inversão dos atributos divinos, da qual Hegel (6) será o promotor, não é outra senão a que haviam realizado os neoplatônicos greco-romanos e orientais. É a religião gnóstica.

Qual é a origem da religião gnóstica? Está na perturbação do pensamento místico oriental, consecutiva à penetração do platonismo nos países do Oriente, por ocasião das conquistas de Alexandre. Com efeito, se o platonismo é um racionalismo decidido, não é menos também um espiritualismo igualmente decidido. Esse espiritualismo atinge em cheio um pensamento ainda ligado à sensação e, por conseguinte, impotente para distinguir claramente o espírito da matéria, logo a natureza de Deus e a natureza da alma.

Do platonismo, o que se retém? Digamos sucintamente:

Primeiro, não apenas que Deus é de natureza incorpórea - espiritual, e que a alma humana, a alma pensante, também é de natureza incorpórea - espiritual, - embora, na verdade, a noção de natureza espiritual permaneça sempre vaga nos espíritos, e que o homem empírico, o homem terrenal, é uma associação efêmera de duas substâncias: uma, o corpo; a outra, a alma; mas também que a alma (pensante), e somente a alma, é o homem.

Em seguida, a teoria da reminiscência, segundo a qual a alma, em sua vida pré-empírica, conheceu as Ideias, isto é, os protótipos das coisas que, cá embaixo, delas participam; de modo que, em sua vida empírica, a alma, pelo modo da reminiscência, é capaz de conhecer as coisas cá embaixo.

Se amalgamarmos e ordenarmos toda essa contribuição platônica, temos a base fundamental da religião gnóstica.

Com efeito, o que a mística oriental concluirá a partir desses elementos platônicos? É que a alma, e somente a alma, é o homem, obviamente, mas também que a alma é consubstancial a Deus, portanto, por sujeição ao panteísmo emanatista, que a alma é uma emanação de Deus - o que, no entanto, é totalmente estranho ao pensamento de Platão, assim como também o é ao pensamento de Aristóteles.

Mas, desde então, uma vez sustentada a consubstancialidade, isto é, a unidade e identidade de substância, da alma e de Deus, e, de fato, do homem e de Deus, já que a alma, e somente a alma, é o homem, resulta ipso facto UMA MODIFICAÇÃO RADICAL DA RELAÇÃO DO HOMEM COM DEUS E DE DEUS COM O HOMEM.

É de acordo com essa doutrina da consubstancialidade da alma e de Deus, portanto do homem, já que a alma, e somente a alma, é o homem, e de Deus, que nascerão todas as doutrinas e sistemas gnósticos. Com efeito, como não viria então ao pensamento, se a alma é consubstancial a Deus e que a alma, e somente a alma, é o homem, que o homem empírico, o homem presente neste mundo, já que revestido então de uma "carapaça", encerrado numa ganga terrosa, só pode sê-lo em razão de um drama vivido no seio da própria divindade emanante.

Não é por causa desse drama que as almas emanadas do Espírito universal e divino, que é Deus, se encontram alienadas na matéria, prisioneiras de um corpo que as desvia de sua natureza, ligando-as aos prazeres sensíveis deste mundo, e que as mergulha assim no esquecimento de sua origem e lhes interdita viver segundo sua natureza divina?

Mas, por isso também, funda-se toda a escatologia gnóstica sobre a reminiscência.

Todo o destino do homem, que é também o destino de Deus, já que o homem é consubstancial a Deus, "centelha" emanada de Deus, depende, portanto, do único modo que convém eminentemente ao espírito puro que é o homem, a saber, o "modo especulativo", como escreve o Sr. Borella, isto é, o modo da reminiscência, da "lembrança da comunhão ontológica" original, da Unidade primordial do Espírito universal e divino, onde o Homem estava em Deus e era Deus - em suma, dessa era edênica antes da "explosão", como a chama o Sr. Borella, isto é, antes do estilhaçamento do Espírito universal e divino em partículas, logo alienadas na matéria, no mundo, pelo qual o Espírito universal e divino, Deus, perdeu sua Unidade e Transcendência originais.

Dessa reminiscência, desse conhecimento - GNOSIS - depende a salvação do Homem e de Deus, já que o Homem é consubstancial a Deus, sua parte alienada na matéria. Essa reminiscência, esse conhecimento é o próprio fundamento da salvação, sua única possibilidade. "ESSE MODO ESPECULATIVO... ESSA LEMBRANÇA... ESSE CONHECIMENTO É ESSA PRÓPRIA POSSIBILIDADE, ESSA ÚLTIMA POSSIBILIDADE", como escreve, p. 130, o Sr. Borella. (7)

CONCLUSÃO SEM ILUSÕES

"Tocar uma criatura é tocar Deus. Sobre o corpo que toco, Deus colocou sua mão. A linha desse corpo é o próprio gesto de Deus tornado carne; é o ato divino como forma e matéria... HÁ NO HOMEM COMO TAL ALGO DE DEUS, ALGO DADO QUE DEVE SER DEVOLVIDO. DEUS NÃO NOS RECUSOU SUA IMANÊNCIA. A SUBSTÂNCIA HUMANA É CAPAZ, POR SI MESMA, DE UM COMPORTAMENTO QUASE DIVINO".

Diante das últimas fórmulas, o leitor católico pode crer que se trata de uma alusão à teologia da Encarnação e da Ressurreição que, em particular, comanda todo o pensamento de São João, e que procede, neste último, de sua preocupação em atualizar e interiorizar a escatologia cristã. É verdade, a alusão é real; mas aqui ela não está de modo algum no espírito da tradição católica.

Analisemos sucintamente:

"Existe no Homem como tal algo de Deus..." Sim, mas sabemos que, para o autor, a criação, ao contrário da tradição católica, é movimento, mudança, devir. Ora, vimos que todo movimento, mudança, devir, necessita de um substrato, e que este substrato, como o próprio autor nos conduz, só pode ser entendido como a própria substância divina.

Sabemos também que, para o autor, que distingue a alma "pneumática" da alma "psíquica", o "pneuma" do "psique", como todos os gnósticos, a alma pneumática, e somente ela, é o homem, e que ela é consubstancial a Deus, já que a "criação", para o autor, tem como substrato a própria substância divina, e que a alma pneumática é a parte mais divina dela.

Assim, portanto, para o autor, Deus não é criador no sentido próprio da palavra: Deus é Emanante, e nossas almas emanam de Deus, são parcelas "explodidas" do Espírito universal e divino, Deus. Sabemos tudo isso. O autor não hesita, através de suas metáforas cada vez mais explícitas, em nos imprimir isso na mente.

"Existe no Homem como tal algo de Deus, algo de dado que deve ser retribuído"... Retribuído a quem? Sejamos coerentes com as fórmulas do autor. Se a alma (e a alma sozinha, é o Homem - com maiúscula) é consubstancial a Deus, se ela é uma "centelha" explodida, emanada de Deus, mas alienada na matéria, "aprisionada em uma carapaça", como diz o Sr. Borella, essa alma que é divina, só pode ser retribuída ao Deus do qual ela emana.

Toda a escatologia do Sr. Borella tem como finalidade a absorção no Deus - Emanante das almas emanadas dele. Em outras palavras, as almas emanadas de Deus, consubstanciais a Deus, devem fazer "retorno" ao Deus - Emanante, reunir-se a Ele, unir-se a Ele, aniquilar-se nele, a fim de restituir o Deus - Emanante à sua Unidade primordial, à sua plenitude original.

"Existe no Homem como tal algo de Deus, algo de dado que deve ser retribuído"... E a fórmula chave que segue: "DEUS NÃO NOS RECUSOU SUA IMANÊNCIA". E com razão! Nossa alma (a qual sozinha é "o Homem como tal") é emanada de Deus, consubstancial, portanto, a Deus.

E finalmente a conclusão: "Existe no Homem como tal algo de Deus, algo de dado que deve ser retribuído. Deus não nos recusou sua Imanência. A SUBSTÂNCIA HUMANA É CAPAZ, POR SI MESMA, DE UM COMPORTAMENTO QUASE DIVINO".

Compreendamos. A alma, e a alma sozinha, (a alma "pneumática", como a chama o Sr. Borella), é o Homem. Ora, nossa alma pneumática é uma substância, e uma substância consubstancial à substância divina, emanada de Deus. (Vimos que Deus é a substância do que Ele "cria", e o que Ele "cria" e que é o mais consubstancial à sua substância, é nossa alma: "Existe no Homem como tal algo de Deus... Deus não nos recusou sua Imanência". Conclusão: "A substância humana é capaz, POR SI MESMA, de um comportamento quase (como) divino". Em claro: já que a substância da alma, que é a substância do "Homem como tal", é consubstancial a Deus, é evidente que o Homem é capaz, POR SI MESMO de se comportar como Deus - ele é substancialmente Deus.

Mas tudo isso, sob a condição de apelar ao "modo especulativo", ou seja, à reminiscência, à lembrança, ao conhecimento - gnose - da "comunhão ontológica" original, ONDE O HOMEM ESTAVA EM DEUS E ERA DEUS.


(1) Encontramos curiosamente essas metáforas no pretenso "Evangelho de Tomé", que nada mais é que um evangelho gnóstico. Assim, esta fórmula atribuída a Cristo: "Levanta a pedra, aí estou, parte a madeira, também aí estou".

(2) Ver APÊNDICE nº 1: o neoplatonismo com, in fine, notas sobre o hermetismo.

(3) Certamente o Sr. Borella dedica uma página inteira a Aristóteles, mas para nos mostrar os limites e a insuficiência do pensamento do Estagirita, a respeito... da Ressurreição dos corpos. Os autores do Antigo Testamento não falam disso mais do que Aristóteles... Mas o Sr. Borella nos revela simplesmente que não compreendeu a doutrina aristotélica e tomista do hilomorfismo e aquela do "composto humano" que lhe é inerente. O Sr. Borella leu Aristóteles através dos neoplatônicos, dos gnósticos greco-latinos, mesopotâmicos e árabes.

Para o Sr. Borella, como para todos os platonizantes e, com mais forte razão, os gnósticos de ontem e de hoje, a alma, e a alma sozinha, é o homem, e o corpo não é senão um suporte provisório, uma prisão da alma. O homem empírico, o homem deste mundo, é uma associação efêmera e trágica de duas substâncias: uma, a alma, a outra, o corpo.

Na morte, o corpo, essa prisão da alma, desmorona. A alma (como um pássaro libertado de sua gaiola) - seja ela pecadora ou não: o pecado não é imputável ao homem, mas a Deus, a essa "doença de Deus", como a chama Hegel, que o fez emitir-se no mundo, alienar-se na matéria - reencontra a plenitude de sua natureza original, já que é consubstancial a Deus, "a parte mais divina", como diz ainda Plotino, e simplesmente retorna à sua fonte e nela se aniquila.

Não há ressurreição dos corpos para o Sr. Borella, assim como para todos os gnósticos: a alma, e a alma sozinha, é o homem. A "ressurreição" é a alma, liberta de sua prisão na qual estava encerrada neste mundo, retornando à sua fonte e "reconciliando-se", como diz Hegel, com a "unidade primordial" da substância divina anterior à sua fragmentação; "pois tal é o fim bem-aventurado para aqueles que possuem o Conhecimento, a Gnose: tornar-se Deus - theothenai" (Hermes Trismegisto). (Ver Apêndice nº 1).

(4) Os sacerdotes de Hermópolis, para combater a penetração do cristianismo no Egito, assimilaram, sob a influência da gnose grega – o neoplatonismo alexandrino – o deus Thot-Hermes ao Logos cristão: a voz (o logos) de Thot está na origem do mundo, pois, condensando-se sobre si mesma, tornou-se um ser – o ser do mundo. (Apêndice nº 2).

(5) Digamos que, se o platonismo é redutível a isso, não sem algumas distorções que arruínam sua intuição dominadora, o aristotelismo e o tomismo são irredutíveis.

(6) Ver APÊNDICE: Notas breves sobre o hegelianismo – a gênese de Deus.

(7) O senhor Borella fala da lembrança do Paraíso perdido, mas, como a expressão "comunhão ontológica" significa, não se trata dessa relação entre Deus e o homem própria da idade edênica do Paraíso terrestre: este é apenas um mito, como diz Hegel. Aqui, o "Paraíso perdido" é a idade da "comunhão ontológica", a idade da unidade primordial do Ser universal e divino, antes de sua "explosão" em partículas alienadas no mundo, na matéria, a idade em que o Homem estava em Deus e era Deus.


APÊNDICE I – ACERCA DO NEOPLATONISMO

Recordemos primeiro que, se Anaxágoras (500 – 428 a.C.) é o primeiro a colocar racionalmente a existência de um "Nous", de uma Inteligência primeira, separada em natureza do mundo que ela ordena, portanto de natureza incorpórea – espiritual, como se diria mais tarde, é, no entanto, Platão (427 – 347), sob a influência de Sócrates (470 – 399), que, considerando que o homem é dotado de inteligência, confiará à inteligência, à alma humana pensante, essa natureza incorpórea – espiritual, que Anaxágoras havia atribuído ao Nous, a Deus.

Nenhum antropomorfismo em Anaxágoras, quando ele coloca Deus como transcendente e de natureza incorpórea – espiritual. Para ele, como para todo o pensamento primitivo e antigo, a alma humana, como princípio do conhecimento, é entendida como sendo da mesma natureza que as coisas. Segundo o adágio: o semelhante é conhecido pelo semelhante, deduz-se que a alma conhecedora, já que conhece as coisas, é da mesma natureza que as coisas.

Constatando, como matemático e astrônomo que era, uma ordem imanente ao mundo, Anaxágoras raciocina assim: quem diz ordem diz inteligência, e inteligência necessariamente separada em natureza das coisas do mundo que ela ordena. É, de acordo com essa reflexão – uma das primeiras provas racionais da existência de Deus – que, pela primeira vez, se distingue o espírito da matéria.

Nós o dissemos, Platão – posteriormente – apenas atribui à alma humana, princípio do conhecimento, essa natureza incorpórea – espiritual, confiada por Anaxágoras à Inteligência primeira, a Deus. Mas notemos bem: Platão não sustenta de modo algum que a alma humana é emanada de Deus, ou seja, que é consubstancial a Deus. Sua teoria das Ideias e a da reminiscência, que lhe é solidária, testemunham isso.

A penetração do platonismo no Oriente, graças às conquistas de Alexandre, provocará ali uma reviravolta sem precedentes. Se o platonismo é um racionalismo decidido, não é menos um espiritualismo decidido, contendo sua conclusão interna: a ideia de criação. De fato, uma vez que se distingue o espírito da matéria, não se pode admitir que a matéria engendre o espírito, nem tampouco que o espírito secrete, engendre a matéria.

No entanto, o espiritualismo (natureza incorpórea, espiritual de Deus, natureza incorpórea espiritual da alma humana pensante) atinge em cheio o pensamento antigo e será combatido por todas as escolas contemporâneas de Platão e Aristóteles, tais como a escola epicurista (seguidora da filosofia mecanicista atomista de Demócrito) e a escola estoica (seguidora da tradição hilozoísta e vitalista de Heráclito).

Em suma, por toda parte, denuncia-se o espiritualismo como inadmissível: "De propriamente incorpóreo, escreve, por exemplo, Epicuro, nada se pode conceber, a não ser o vazio. E o vazio não pode agir nem sofrer. Portanto, dizer que a alma é incorpórea é pura tolice. Se a alma fosse tal, ela não poderia nem agir nem sofrer, o que, no entanto, vemos claramente fazer."

Digamos que os primeiros Padres apologistas ainda estarão envoltos por esse materialismo psicológico. Será necessário, de fato, esperar por Santo Agostinho (354 – 430) para que se afirme novamente a natureza incorpórea, espiritual, da alma. No entanto, muitos agostinianos, ao longo de toda a Idade Média e mesmo depois de São Tomás de Aquino, na preocupação de demarcar a natureza espiritual de Deus da natureza da alma humana, não hesitarão em atribuir à alma humana uma natureza material – infinitamente sutil.

Para o senhor Borella, "o homem é especificamente definido pelo cérebro" (p. 254) – o que é próprio de todo pensamento materialista. Todavia, como mostra sua obra, o senhor Borella, como todos os gnósticos, distingue a alma "pneumática" (emanada de Deus, consubstancial a Deus), constitutiva do que ele chama "o Homem como tal", da alma "psíquica" – princípio vital, animante, fabricado pelo Demiurgo – o Deus do mundo.

Há uma passagem muito sugestiva na obra do Sr. Borella – da mais pura tradição gnóstica (p. 254). O autor nos recorda a Última Ceia, onde São João, o Apóstolo amado, reclinado sobre o peito de Jesus Cristo, escuta o "som" do pneuma, da alma pneumática de Jesus Cristo, que assim o "desperta" para o "Grande Segredo". O Sr. Borella inspira-se diretamente no Apócrifo de João ou Livro do Segredo de João, obra dos barbelognósticos, extraída da Biblioteca Gnóstica de Nag Hammadi, e traduzida em 1955 por W. Till (Berlim), depois por Krause e Labib, e por Giversen.

Mas voltemos a Platão. O espiritualismo platônico é manchado por um dualismo antropológico desmedido – o qual será precisamente refutado e rejeitado de sua doutrina por Aristóteles, e depois por São Tomás de Aquino, em favor da doutrina do "composto humano".

Para Platão, de fato, o homem empírico é uma associação efêmera de duas substâncias heterogêneas: uma material, o corpo; outra imaterial – espiritual, a alma; e, para Platão, a alma, e somente a alma, é o homem (daí o racionalismo de Platão). Antes de sua queda em um corpo (queda devida a uma falta da alma, especifica Platão, e não a Deus, como quererão todos os gnósticos), a alma, essa "irmã das Ideias", como diz Platão, existia em um mundo separado tanto de Deus quanto do mundo, próximo ao mundo das Ideias (as quais são apenas Inteligíveis, enquanto a alma é um Inteligível dotado de inteligência – daí a separação em Platão do mundo das almas e do mundo das Ideias).

É durante essa estadia em um mundo próximo ao das Ideias que a alma conhece, não todas as Ideias, mas um grande número delas: o que, durante sua vida empírica, ou seja, aqui embaixo, lhe permitirá, por "rememoração", conhecer as coisas deste mundo que delas participam. (Notemos que Platão não faz da alma uma Ideia (única) da qual todas as almas participariam, como farão precisamente os gnósticos. Ora, como a alma é o homem, eles farão dela, em alguns sistemas, o "Homem primordial", a Ideia-Homem.

Nós o dissemos, quando o platonismo penetra no Oriente, ele provoca uma profunda reviravolta. O que se retém dele? Primeiro, que a alma, e somente a alma, é o homem, que esta, ou melhor, este existia em um mundo separado e que o homem empírico é uma associação de duas substâncias: uma, o corpo; a outra, a alma; em seguida, que a alma e Deus são de natureza incorpórea – espiritual (notemos que a distinção entre a vida (no sentido biológico) e a vida espiritual nunca será muito nítida ali).

Seja como for, é aqui que ocorre a mais grave traição ao pensamento de Platão. Com efeito, do fato de Platão sustentar a natureza espiritual da alma e de Deus, deduz-se, por sujeição à tradição panteísta e emanacionista, que a alma é consubstancial a Deus, portanto, emanação de Deus – o que é totalmente estranho ao pensamento de Platão e de Aristóteles. Ora, postular a consubstancialidade, isto é, a unidade e a identidade de substância, da alma e de Deus tem como consequência imediata modificar totalmente a relação do homem com Deus e de Deus com o homem.

Daí nascerão todas as doutrinas e sistemas gnósticos. Com efeito, se a alma (e a alma é o homem, não esqueçamos) é uma pura emanação, secreção da substância divina, e que, em sua vida empírica, a alma se encontra revestida, "enclausurada numa carapaça", em suma, alienada na matéria, conclui-se:

Assim, por sua própria origem, a gnose traz o selo da hostilidade ao mundo e ao seu Deus (criador) e, por assim dizer, um contra-selo: a rebelião. Por isso, portanto, a gnose assume um caráter diteísta: um Deus-Emanante: "ultramundano", como dizem os gnósticos: Deus de Luz e de Vida, Deus bom, e um Deus-Emanado, mas demiúrgico e mau, "mundano", o "Deus do mundo", que será assimilado, por reação contra a extensão do cristianismo no Oriente, a Javé. É este Deus-Demiurgo que está na origem do mundo, fazendo-o sair do Caos original e que nele aprisiona as almas emanadas do Deus-Luz, em suma, aliena-as na matéria, a fim de que conheçam o "Esquecimento", permaneçam na "Ignorância" de sua natureza divina e da existência do Deus-Luz do qual emanam, de quem são as "centelhas" mais divinas.

No século III antes de Jesus Cristo, a conquista por Roma da Itália oriental, colonizada pelos gregos (a Magna Grécia), e a da Grécia metropolitana por Filipe da Macedônia, tiveram como consequência uma emigração dos gregos para o Egito. Fundada por Alexandre em 332 a.C., Alexandria será o grande centro da cultura grega, mesmo depois que Roma se tornou herdeira do império de Alexandre. Devido à miscigenação dos povos e culturas resultante da conquista de Alexandre e da conquista de Roma, Alexandria é uma verdadeira caldeira de bruxa na qual fervilham todas as correntes de pensamento da época, tanto profanas quanto religiosas.

Sob a pressão do misticismo oriental, a racionalidade grega e o empirismo romano são fortemente abalados. No entanto, há uma unidade: a cultura grega. Com efeito, a intelligentsia, seja ela grega, romana, egípcia, síria, persa ou indiana, é de cultura grega, e na verdade platônica: disso nascerá o neoplatonismo com seu caráter próprio: a teoria da consubstancialidade da alma e de Deus, fundamento de toda doutrina gnóstica, e sua consequência, uma modificação fundamental da relação do homem com Deus e de Deus com o homem.

É no século I de nossa era que surge, com Fílon, o Judeu (-30 – +50) e Plutarco (46 -120), ambos de cultura grega, o neoplatonismo. No entanto, é no século III que ele assume um aspecto mais sistemático, pelo fato de participar da preocupação de salvar, contra a extensão do cristianismo, "o tesouro da Sabedoria antiga", segundo a fórmula consagrada: são Plotino (204-270) e Porfírio (233-304), o qual, filósofo taumaturgo e mistagogo, terá uma influência preponderante sobre o último período do neoplatonismo, que se encerra, pelo menos no mundo latino, com Proclo (412-485), isto é, sob a pressão da universalização do agostinianismo.

Trata-se de um platonismo eclético e gnóstico onde se combinam elementos emprestados aos "antigos teólogos" gregos, pitagóricos e órficos, ao aristotelismo (o Tratado da Alma), ao estoicismo (o Vitalismo), etc. Em suma, interpreta-se e corrige-se o platonismo, por um lado, conforme essa contribuição que lhe é confiada e que lhe é, no entanto, estranha, a saber, a teoria da consubstancialidade da alma e de Deus – a qual não é, de fato, senão uma adaptação ao espiritualismo platônico da doutrina vitalista e hilozoísta própria a todo o pensamento antigo – e, por outro lado, conforme as "sabedorias reveladas" do Oriente, egípcia, caldeia, persa, indiana, etc. Todo o movimento neoplatônico se ordena num esforço de síntese dessas "sabedorias", tanto profanas quanto religiosas.

No neoplatonismo de Plotino, com mais rigor do que em seus predecessores, misturam-se o misticismo orientalista e hermético com a racionalidade grega. Tudo é comandado pela teoria da consubstancialidade da alma e de Deus, ou seja, como em todos os gnósticos, o pensamento plotiniano participa dessa preocupação com uma "religião mental", como a nomeia o Asclepius, isto é, desse objetivo último da gnose: a divinização da alma, que, por saber-se consubstancial a Deus, centelha "estilhaçada" da substância divina, só deve aspirar a fazer o "retorno", a "aniquilar-se" em Deus para lhe restituir sua Unidade primordial; pois "tal é o fim bem-aventurado para aqueles que possuem o conhecimento – a gnose: tornar-se Deus – theothênai" (Hermes Trismegisto, I, 26).

Mas a alma, para realizar este "retorno", esta "reconciliação do Emanado ao Emanante", deve superar um grande número de provas e evitar todas as armadilhas elaboradas pelos poderes gerados pelo "Deus do mundo", com o intuito de lhe interditar este "retorno". Plotino, por sua vez, rejeita essas "invenções supérfluas" (9), como fruto da imaginação febril do Oriente, que multiplica os deuses, visíveis e invisíveis, as emanações, os signos e os selos, etc., e o diteísmo que isso pressupõe.

Plotino não é diteísta. Para ele: "Deus não está longe, e os intermediários não são numerosos: basta tomar em sua alma, que é divina, a parte mais divina, o que faz com que cada alma contenha em si as razões seminais do mundo inteiro; pois 'a natureza divina está presente em todas as coisas, como o centro está para os raios que dele procedem' – a 'rota mundi' da tradição chinesa e indiana, sobre a qual nos fala com exaltação o Senhor Borella; e, para aquele que está no centro de tudo, no núcleo do Todo, não há o que buscar" (Enéadas, V, 1; V, 7; VI, 5).

"Em verdade, tocamos Deus em toda parte", escreve o Senhor Borella, que só tem o defeito de não citar suas referências. Uma vez que "a natureza divina está presente em todas as coisas", por que buscar Deus onde ele não está: "Deus não nos recusou sua Imanência" (Borella dixit). Deus é imanente a todas as coisas, no centro do Todo, já que tudo dele emana, e, a fortiori, ao homem, pois sua alma pensante – pneuma – é, do Todo emanado, "a parte mais divina".


Misticismo orientalista e hermético ou "Mistérios do Verbo – Logos".

Desde o VI° século antes de nossa era, a dinastia saíta abriu o Egito aos colonos gregos. Estes deram o nome de Hermes (o Mercúrio dos latinos) ao deus Thoth, originalmente deus local de Khmouon, que então chamaram de "a cidade de Hermes" – Hermópolis. O deus Thoth, desde a mais alta antiguidade egípcia, era assimilado ao deus Lua e, por isso, entendido como o regulador do tempo. É por isso que ele se tornará o escriba do deus Rá, depois de Osíris, e, ainda por isso, o inventor da escrita e das ciências ocultas, conhecíveis apenas por aqueles que sabem ler.

No 1° século, para lutar contra a penetração do cristianismo no Egito, os sacerdotes de Hermópolis, sob a influência do neoplatonismo gnóstico, o ergueram como deus cósmico, fundador do mundo: a voz (logos) de Thoth está na origem do mundo; pois, refletindo-se, condensando-se sobre si mesma, tornou-se um ser – o ser do mundo ordenado saindo do Caos original.

(Notemos: Entre os gregos e a tradição grega, é SEGUNDO o Logos que as coisas foram feitas: "katà tòn lógon tònde ginoménon pànton" (Heráclito); em São João, é PELO Logos que todas as coisas são feitas: "Pànta di'autoù égèneto". A diferença das preposições katà e dià é fundamental, pois denota uma diferença metafísica essencial).

Como primeira abordagem das doutrinas e sistemas gnósticos, aconselhamos a leitura de "A religião gnóstica" de Hans JONAS, tradução de Luis Evrard, edição Flammarion, 1978, "Coleção: Ideias e pesquisas". A obra tem a vantagem de se referir às recentes descobertas e traduções da Biblioteca gnóstica de Nag Hammadi, dita Biblioteca de Quenobóscion. Lamentamos, no entanto, que o autor não tenha analisado suficientemente o platonismo e sua influência sobre o pensamento gnóstico tanto greco-romano quanto oriental.


(8) notas sobre o hermetismo – fim do parágrafo.

(9) O que não faz o Senhor Borella, pois ele nos fala, para este "retorno" do emanado ao Emanante, da alma à sua fonte divina, da necessidade de a alma passar por um grande número de intermediários... "tantas estações espirituais... graus de irradiação" (p. 140).


APÊNDICE 2 – NOTAS BREVES SOBRE O HEGELIANISMO E A GÊNESE DE DEUS

Para penetrar o pensamento hegeliano, é preciso lembrar que Hegel, a fim de teorizar a Gnose em uma formulação moderna, conjuga a teoria platônica das Ideias e a da reminiscência que lhe é inerente com a teoria dialética ternária (tese – antítese – síntese) da Consciência, elaborada por Fichte (em Nova Exposição da Doutrina da Ciência).

Para Platão, existem "Ideias", as quais são criadas pelo Uno – Bem, Deus. Elas são, de certa forma, o protótipo das coisas que delas participam aqui embaixo. Elas existem realmente em um lugar separado tanto de Deus quanto do mundo: elas são seres. De natureza incorpórea, de natureza inteligível, a "Ideia" é o ser inteligível das coisas que dela participam, separada das coisas. A Ideia é "o uno"; as coisas que dela participam são "o múltiplo" – suas manifestações.

Assim, para Platão, a Ideia de carvalho – o "carvalho em si" – existe realmente, e dele participam, como sendo suas manifestações na ordem do mundo sensível, todos os carvalhos-matéria, todos os carvalhos singulares. A reminiscência... Ao contato com as coisas, a sensação oferece à alma uma imagem, a qual desperta a alma para se lembrar da Ideia, da qual participam as coisas sentidas; pois, em sua vida pré-empírica (antes de sua queda em um corpo), nossa alma, porque existia em um mundo próximo ao "mundo divino das Ideias", conheceu as Ideias. Assim, comparando a imagem oferecida pela sensação e a Ideia rememorada, nossa alma é capaz de definir com certeza o que é a coisa sentida.

Para Hegel, há apenas uma Ideia. Essa Ideia única, esse Uno, esse Ser universal: é o próprio Deus, que, ao sabor de um desenvolvimento dialético, toma consciência de sua inteligibilidade, enfim, consegue tomar consciência de si por seu próprio desenvolvimento interno, isto é, por suas próprias mutações acidentais de um contrário ao outro (o Eu e o Não-eu de Fichte e sua conjugação com a Ideia de Platão que, de una e de natureza incorpórea [inteligível], torna-se múltipla e corpórea).

Assim como a Ideia de Platão está de certo modo em devir de Matéria e de Múltiplo, a Ideia-Deus está em devir de Matéria e de Múltiplo; O termo do devir da Ideia (=Deus) é o Homem. O Homem é o Ser universal, o Espírito, Deus: é "a Ideia retornada a si mesma de sua dispersão exterior" (de sua emissão no Múltiplo), (é) o Ser universal que suprimiu suas manifestações exteriores e que, saindo da Natureza (de sua alienação na matéria), recolhe-se em sua própria idealidade" (Filosofia do Espírito).

Pois o Homem foi primeiro "alma" imersa, alienada na matéria, depois – (como expressa o Cogito de Descartes, quando Descartes, para concluir que a alma, e somente a alma, é o homem, repudia a existência de tudo no mundo, inclusive a de seu próprio corpo) – ele é "consciência", "razão", "espírito", mas "espírito que se apreendeu como espírito (= consciência) – (Cogito de Descartes). Por fim, nos "Homens superiores", o Homem tornou-se o "Espírito absoluto", isto é, o "espírito que se apreendeu como Espírito (com maiúscula)"... a Ideia-Deus fragmentada reencontrando a unidade de sua essência e de sua existência, enfim, sua "Unidade primordial".

Em outras palavras, a "Ideia", o Uno-Deus, o Ser, a Substância única e divina do Todo, é originalmente "solitária e sem vida", "consciência nula", que, para alcançar a consciência de si, deve obedecer ao desenvolvimento dialético da Consciência, do Cogito de Descartes – é isso a "doença de Deus". É isso "a gênese de Deus".

Para tanto, a Ideia, o Uno-Deus, gera-se em seu "contrário", a saber, Natureza, Múltiplo. É a etapa antítese, à qual sucede a etapa síntese. O Uno-Deus, o Espírito, tornado imanente à Natureza, mas "saindo da Natureza", torna-se "a parte mais divina", como escreve Plotino, isto é, o espírito que se apreendeu como espírito – o HOMEM – o Homem, essa comunidade das parcelas da Substância divina, do Espírito universal original.

Mas o Homem – esse "momento crucial" da gênese de Deus – deve franquear uma nova etapa antitética, pois de Múltiplo deve tornar-se o Uno. Ele deve "recuperar-se" com seu ponto de partida, "recolher-se em si mesmo", a fim de apreender-se Espírito Absoluto – enfim, ser "o espírito que se apreendeu como Espírito (com maiúscula) – o HOMEM-DEUS" – termo da gênese de Deus.

Uma imagem, embora apenas aproximada, pode fazer compreender: a do desenvolvimento da borboleta. Originalmente, o ovo ("consciência nula", "solidão sem vida"), o qual gera seu "contrário", lagarta, a qual gera seu "contrário", crisálida, a qual gera seu "contrário", borboleta perfeita.

Se você acrescentar a teoria dialética da consciência, terá uma noção da "filosofia" teogônico-cosmogônica de Hegel. A cada mutação acidental da substância única e divina intervém o acesso a um estado de consciência. No entanto, cada estado adquirido anterior, portanto inferior, deve esquecer sua passagem ao estado posterior, portanto superior, senão... senão o inferior usurparia em seu proveito o estado superior: a crisálida usurparia da borboleta perfeita a consciência da borboleta perfeita. É o inverso – a "reminiscência" – que deve ocorrer: é o estado superior de consciência que deve "rememorar" seu estado anterior, seu estado inferior, a fim de que, ao término do processo, haja "reconciliação" do estado final com o estado original. Senão, a borboleta perfeita não saberia que é consubstancial ao ovo, e o termo da gênese da borboleta; senão, o Homem não saberia que é consubstancial a Deus, e o termo da gênese de Deus.

As três quedas de Deus, segundo Hegel:

Os "Homens superiores" compreenderam o perigo da Encarnação. O perigo era real: o Espírito universal, ao encarnar-se no espírito singular, o Deus-feito-Homem, teria permanecido não apenas superior ao homem e o teria mantido sob seu domínio, mas teria interditado o próprio desenvolvimento da gênese de Deus, até seu termo: o Homem-Deus.

Pelo Gólgota, diz-nos Hegel, encerram-se os trabalhos gigantescos da ascensão do Homem ao estado divino, inaugurados pela revolta de Adão. O Homem – a "comunidade dos Homens superiores" – matou o Deus-feito-Homem para que permaneça para sempre o Homem-feito-Deus. (1)

Daí a conclusão hegeliana (Filosofia da História) – própria de toda a tradição gnóstica: a necessidade de "superar" a doutrina da Igreja de Cristo, pois é a do Usurpador. Ela deturpou a verdade. Reúne os "fracos", os "medrosos", alimentando o mito da Ressurreição do Deus-feito-Homem, quando este, no Gólgota, morreu tanto como homem quanto como Deus. Daí a necessidade de criar a "Nova Igreja" e perpetuar nela o drama do Gólgota, em sua verdade: matar o Deus-feito-Homem para que viva o Homem-feito-Deus. Tal é a missão dos "Homens superiores" unidos na comunidade do espírito que se apreendeu como Espírito (com maiúscula). Tal é o "Novo Evangelho" da "Nova Igreja" que todos os gnósticos – todos os luciferianos, de Manes a Hegel e seus discípulos, esforçam-se por estabelecer frente ao Evangelho e à Igreja de Cristo-Jesus. Seja ontem ou hoje: o lobo se faz cordeiro para entrar no aprisco...

Assim, ao "ateísmo passivo", gerado pelo agnosticismo de Kant – esse "ateísmo preguiçoso", como o chamam Marx e Engels – sucede logo o "ateísmo ativo", que nada mais é que o luciferismo, preconizado por Hegel. Este será assumido não apenas pelos hegelianos materialistas como Marx, mas também pelos neoespiritualistas hegelianos como Guénon e Borella (e uma multidão de outros entre nossos contemporâneos).

Daí essa tenaz sobre os católicos pelos hegelianos de "esquerda" social-marxistas e pelos hegelianos de "direita", como Guénon, Borella ou os animadores do "GRECE". Pois de ambos os lados, sob aparências um tanto diferentes, o objetivo é o mesmo: gerar o culto do super-homem, da super-humanidade, em suma, prosseguir "os trabalhos gigantescos" da divinização do homem pelo homem, inaugurados, sob a instigação da serpente, pela revolta de Adão.

A bom entendedor, meia palavra basta!

H. P.


(1) Para o estudante, recomendamos a obra (de leitura fácil): A mística do Super-homem, de Michel Carrouges, edição N. R. F. Gallimard.