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Prólogo à Vida do Bem-aventurado Romualdo

Contra ti, mundo imundo, protestamos sem reservas: tens uma multidão intolerável de sábios insensatos, eloquentes quando se trata de ti, mas mudos quando se trata de Deus. Tens homens que, por meio de vã eloquência e filosofia vazia, sabem elevar-se arrogantemente sobre os chifres da soberba; mas não tens quem queira consignar em páginas escritas alguma coisa que possa servir à edificação do próximo e à memória das gerações futuras.

Tens, digo eu, aqueles que sabem defender, com incessante declamação nos tribunais, os litígios e as causas ruidosas dos negócios deste mundo; mas não tens quem seja capaz de descrever os admiráveis poderes e os luminosos feitos sequer de um dos santos da santa Igreja. Sábios para praticar o mal, nem sequer sabem fazer o bem.

Eis que já se passaram quase quinze anos desde que o bem-aventurado Romualdo depôs o peso da carne e partiu para as regiões celestes; e até agora não apareceu nenhum desses sábios que, com a pena do historiador, divulgasse ao menos algumas das muitas glórias de sua vida admirável e satisfizesse a ardentíssima devoção dos fiéis, oferecendo para a utilidade comum da santa Igreja relatos que pudessem ser lidos do púlpito.

Seria mais proveitoso para nós, é verdade, permanecendo no estreito recanto de nossa pequena cela, recordar continuamente diante dos olhos da mente os nossos próprios pecados, como era nosso propósito, do que compor a história da virtude alheia. Seria mais conveniente lamentar as trevas dos males cometidos do que obscurecer, com palavras inábeis, os resplandecentes sinais da santidade.

Entretanto, uma multidão de fiéis acorre ao seu sepulcro, vinda das mais longínquas regiões da terra, durante todo o ano e sobretudo no dia de sua festa; contempla com admiração os milagres que Deus realiza por seu intermédio e deseja ardentemente ouvir a história de sua vida — história que, por ainda não existir, não pode ouvir. Por isso, não sem razão, tememos seriamente que sua celebradíssima fama, que até agora permanece na boca de todo o povo, venha a desaparecer inteiramente da memória dos homens com o curso fugaz do tempo.

Movido, portanto, por esse temor, pelas súplicas de muitos irmãos e pelo vínculo de seu sincero amor, empreenderei, com o auxílio de Deus, pôr por escrito aquilo que aprendi acerca desse homem admirável por meio de seus eminentes discípulos. Embora eu seja certamente inábil, procurarei registrar o princípio, o curso e o fim de sua vida, não compondo propriamente uma história, mas antes um breve memorial, ornado com os recursos literários de que eu for capaz.

Quero, porém, que o leitor saiba desde o princípio uma coisa: não reunirei nesta pequena obra muitos dos milagres realizados por seu intermédio; antes, procurarei narrar aquilo que de todos os modos conduz à edificação — a ordem de sua vida religiosa. O bem-aventurado homem protegeu-se do vento da vanglória sob o abrigo da humildade com tanto cuidado que ocultava tudo aquilo que pudesse parecer admirável aos olhos humanos, zelando ao máximo pelo segredo.

Ainda que não tivesse realizado milagre algum, seria digno de não menor veneração por ter levado uma vida admirável. Pois nem mesmo do Precursor do Senhor se lê que tenha realizado milagres; e, no entanto, a própria Verdade testemunha que entre os nascidos de mulher não surgiu ninguém maior do que ele.

Não são poucos os que julgam prestar honra a Deus quando inventam mentiras para exaltar os poderes dos santos.[^prologo-virtutes] Ignorando que Deus não necessita de nossas mentiras, abandonam a Verdade, que é o próprio Deus, e imaginam poder agradá-lo fabricando falsidades. Jeremias os refuta muito bem: “Ensinaram sua língua a dizer mentiras; cansam-se de praticar a iniquidade.” Aqueles que poderiam facilmente relatar a simples verdade que espontaneamente lhes é oferecida entregam-se, em vão, ao esforço de compor aquilo que não conhecem; e, julgando colocar-se ao lado de Deus como se fossem seus auxiliares, na realidade combatem obstinadamente contra Ele como falsas testemunhas, assim como o Apóstolo atesta aos Coríntios: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a vossa fé”; e acrescenta: “Somos encontrados como falsas testemunhas de Deus, porque testemunhamos contra Deus que Ele ressuscitou Cristo, a quem não ressuscitou.”

Mas, já que antepusemos estas palavras quase com indignação, porque a necessidade nos obrigou a escrever, passemos agora, com as preces daquele de quem falamos e com o auxílio de Deus, à sequência da narrativa.

[^prologo-virtutes]: O latim virtutes pode significar “virtudes”, “poderes” e, em contexto hagiográfico, “milagres”.