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Capítulo XVI — Romualdo traz no corpo a cicatriz de sua luta contra os demônios

Depois de corrigir o pai, Romualdo estabeleceu para si uma pequena cela no pântano de Classe e passou a viver no lugar chamado Ponte de Pedro.

(nota de rodapé: Classe: antiga localidade portuária situada nos arredores de Ravena, no nordeste da Itália. Na Idade Média, a área era marcada por terrenos pantanosos e abrigava o mosteiro de Santo Apolinário em Classe)

Pouco depois, porém, mudou-se para outra propriedade de Classe, onde havia a Igreja do bem-aventurado Martinho chamada São Martinho no Bosque. Não o fez por medo de alguma enfermidade corporal nem por repugnância ao mau cheiro do pântano, mas para que a fraqueza do corpo não lhe servisse de pretexto para abrandar o rigor de sua abstinência.

Certo dia, enquanto cantava as Completas naquele lugar, ocorreu-lhe de repente um pensamento relacionado ao antigo cemitério que ali existia. Como às vezes acontece, aquela cogitação começou a revolver-se repetidamente em sua mente, e um grande horror, produzido por ilusão fantasmagórica, invadiu-lhe o coração.

Eis que espíritos malignos irromperam subitamente em sua cela, lançaram-no ao chão e o subjugaram com tremenda surra, descarregando golpes violentíssimos sobre membros já extenuados por longos jejuns.

Por fim, no meio dos açoites, Romualdo foi visitado pela dispensação da graça Divina e bradou:

“Querido Jesus, amado Jesus, por que me abandonaste? Acaso me entregaste inteiramente nas mãos dos meus inimigos?”

Imediatamente todos os espíritos malignos foram postos em fuga pelo poder divino.

Tamanha compunção de amor divino inflamou então o peito de Romualdo que todo o seu coração se derreteu em lágrimas como cera, e ele já não sentia os muitos ferimentos do corpo espancado.

Levantou-se imediatamente do chão são e vigoroso e, embora ainda coberto de sangue, voltou ao versículo do salmo que havia interrompido.

Quando os demônios entraram, a pequena janela da cela batera-lhe contra a testa. Formou-se ali uma cicatriz visível, que permaneceu como testemunho evidente daquele ferimento durante toda a vida do santo homem.