Capítulo VIII — Pedro Orseolo prediz o futuro
Aconteceu certa vez que Romualdo, lendo o livro das Vidas dos Padres,[^vitae-patrum]1] encontrou a passagem em que se conta que certos irmãos jejuavam em solidão durante toda a semana, mas se reuniam aos sábados para aliviar o rigor do jejum e tomar alimento com maior liberdade no sábado e no domingo.
Romualdo adotou imediatamente esse modo de vida e permaneceu nele, com austeridade ininterrupta, durante cerca de quinze anos ou mais.
O duque Pedro, porém, acostumado desde sempre a numerosas iguarias, não tardou a sucumbir ao peso de jejum tão severo. Lançou-se humildemente aos pés do bem-aventurado Romualdo e, quando recebeu ordem de levantar-se, confessou envergonhado a necessidade que o constrangia:
“Pai, como tenho um corpo grande, não consigo sustentar-me, em penitência por meus pecados, apenas com esta metade de pão.”
Romualdo, compadecendo-se piedosamente de sua fraqueza, acrescentou mais um quarto à medida habitual. Estendeu assim a mão da misericórdia ao irmão que já vacilava, para que não viesse a cair inteiramente, e o confirmou no caminho da boa vida que havia começado.
Pedro tinha um filho do mesmo nome, homem muito prudente segundo a sabedoria do mundo, que certa vez foi visitá-lo. O pai — não sei se por espírito de profecia ou por alguma outra revelação — predisse-lhe o que haveria de acontecer:
“Fica sabendo, meu filho, sem nenhuma dúvida, que serás constituído duque e prosperarás. Cuida apenas de preservar os direitos das Igrejas de Cristo e de não te desviares da justiça para com teus súditos, nem por amor nem por ódio a pessoa alguma.”
[^vitae-patrum]: Vitae Patrum (“Vidas dos Padres”) é o nome dado a coleções antigas e medievais de vidas, histórias e ensinamentos dos Padres do Deserto e de outros ascetas dos primeiros séculos do monaquismo.