Capítulo V — Romualdo transfere-se para Cuxa
Naquele mesmo tempo, Pedro, de sobrenome Orseolo, governava o ducado de Veneza. Ele havia alcançado a dignidade ducal por ter apoiado os assassinos de seu predecessor, Pedro Candiano. Não julgo inútil explicar brevemente por que este fora morto por seus próprios súditos.
Candiano tomara por esposa a irmã do marquês Hugo, o Grande e, desejando imitar o cunhado, reunira numerosos cavaleiros vindos da Lombardia e da Toscana, sustentando-os com grande dispêndio de dinheiro. Os venezianos não toleraram isso e conceberam secretamente um plano para irromper de surpresa no palácio ducal e matar à espada o duque e toda a sua casa.
A conspiração, porém, foi descoberta. Candiano, protegido dia e noite por guardas, frustrou as maquinações dos adversários. Eles tentaram de diversos modos levar o plano a cabo, mas não conseguiam realizá-lo. Por fim decidiram incendiar primeiro a casa de Pedro Orseolo, que era contígua ao palácio, para que o fogo alcançasse o duque e consumisse também toda a sua família.
Como Pedro participava da conspiração, pediram-lhe consentimento para executar esse plano e estabeleceram a seguinte recompensa: em troca da única casa que perderia no incêndio, colocariam toda Veneza sob seu governo; morto o duque que odiavam, proclamariam imediatamente Pedro em seu lugar. Foi assim que ele alcançou o principado.
Mais tarde, já escravizado pelos prazeres de sua elevada posição, Pedro foi finalmente conduzido, pela dispensação da graça divina, à compunção do coração.
Havia então certo venerável abade chamado Guarino, vindo das regiões mais distantes da Gália, que costumava peregrinar por diversas partes do mundo por devoção à oração. Tendo ele chegado à presença do duque, Pedro logo lhe pediu conselho sobre como poderia escapar do perigo de tão grande pecado.
Foram então chamados Marino e Romualdo. Por sentença comum dos três, foi determinado que Pedro abandonasse o mundo ao mesmo tempo que o ducado que adquirira por seu crime; e que, por ter invadido injustamente a fortaleza do domínio alheio, se submetesse agora ao poder e ao governo de outro.
Como, entretanto, Pedro, homem revestido de grande poder, hesitava em realizar a conversão, julgou necessário deliberar sobre o modo de alcançar a salvação.
Aproximava-se a festa de certo santo mártir, em cuja honra Pedro mantinha em sua propriedade um oratório particular. Na véspera, enviou a esposa para lá como se pretendesse segui-la logo depois, ordenando-lhe que ornamentasse magnificamente a Igreja e preparasse rapidamente um banquete de iguarias abundantes para aqueles que o acompanhariam no dia seguinte.
Ele, porém, permaneceu para trás. Separou dos seus tesouros aquilo que julgou necessário levar e, acompanhado de um membro de sua casa, João Gradenigo, que conhecia a conspiração antes mencionada, e dos três bem-aventurados homens de quem falamos, embarcou num navio. Assim fugiu para a Gália, rumo ao mosteiro do abade Guarino.
Pedro e João tornaram-se monges na comunidade de São Miguel. Marino e Romualdo prosseguiram até um lugar não distante do mosteiro e retornaram à vida solitária a que estavam acostumados. Passado menos de um ano, os irmãos já mencionados reuniram-se a eles para abraçar com maior perfeição o rigor daquela mesma solidão.