Capítulo LXIX — Romualdo morre em Val di Castro
Em suma, o santo homem viveu ainda em muitos outros lugares, suportou muitos outros males — sobretudo da parte de seus discípulos — e muitos outros milagres foram realizados por seu intermédio.
Passaremos tudo isso em silêncio, pois procuramos evitar que esta obra se alongue excessivamente.
Depois de todos os lugares em que havia vivido, finalmente, quando percebeu que seu fim se aproximava, regressou ao mosteiro que havia construído em Val di Castro.
Ali aguardou sem hesitação sua iminente partida e mandou preparar para si uma cela com um oratório, na qual pretendia permanecer recluso e guardar silêncio até a morte.
Com efeito, vinte anos antes do fim de sua vida, havia anunciado claramente aos discípulos que deveria repousar naquele mosteiro e que, sem ninguém a seu lado para assisti-lo ou prestar-lhe as últimas honras, seria libertado dos vínculos do corpo e entregaria o espírito.
Foi então preparada a cela de reclusão.
Enquanto estava decidido a entrar nela imediatamente, seu corpo começou a tornar-se cada vez mais pesado devido às enfermidades e a definhar, não tanto por alguma doença determinada quanto pelo enfraquecimento provocado pela extrema velhice.
Desde aproximadamente a metade daquele ano, expelia grande quantidade de catarro, juntamente com toda a corrupção de um pulmão enfermo, e uma tosse o atormentava com intensa falta de ar.
O santo homem, porém, nem por isso consentiu em repousar no leito, nem, na medida do possível, em abrandar o rigor de seu jejum habitual.
Certo dia, suas forças corporais começaram pouco a pouco a abandoná-lo, e o sofrimento que o afligia passou a fatigá-lo com maior intensidade.
Quando o sol já estava prestes a se pôr, ordenou aos dois irmãos que o assistiam que saíssem, fechassem atrás de si a porta da pequena cela e retornassem ao amanhecer, para cantar com ele os hinos da manhã.
Eles partiram com relutância, preocupados com a proximidade de seu fim.
Não foram imediatamente repousar. Temendo que o mestre viesse a morrer, esconderam-se perto da pequena cela e permaneceram vigiando, como quem guarda um tesouro precioso.
Esperaram assim por algum tempo.
Alternando-se, escutavam atentamente, com os ouvidos alerta. Quando já não ouviram nem movimento do corpo nem som algum de voz, compreenderam corretamente o que havia acontecido.
Abriram a porta, entraram depressa, acenderam uma luz e encontraram o santo corpo deitado de costas, enquanto a alma bem-aventurada havia sido arrebatada ao Céu.
Ali jazia, portanto, como uma pérola celeste momentaneamente abandonada, mas que logo seria recolocada com honra no tesouro do Rei supremo.
Sem dúvida, aquele que partiu deste mundo da maneira que havia predito alcançou o lugar ao qual esperava chegar.
O bem-aventurado homem viveu cento e vinte anos: passou vinte deles no mundo, três no mosteiro e noventa e sete no modo de vida eremítico. (nota de rodapé: Pedro Damião atribui a Romualdo 120 anos de vida, número preservado nesta tradução por fidelidade ao texto. Essa idade, contudo, foi questionada pela crítica histórica, em razão de dificuldades cronológicas apontadas por estudiosos como os Bolandistas e Colin Phipps.)
Agora, entre as pedras vivas da Jerusalém celeste, resplandece inefavelmente em vermelho; exulta entre as ardentes fileiras dos espíritos bem-aventurados; veste a alvíssima estola da imortalidade e é coroado pelo próprio Rei dos reis com um diadema que resplandecerá por toda a eternidade.