I. Institutas - Livro VI
Sobre o espírito de fornicação
Introdução à tradução
A sexta Instituta pertence à segunda parte da obra de Cassiano, dedicada aos remédios contra os oito vícios principais. Depois da gula, Cassiano trata do espírito de fornicação, descrevendo-o como um combate mais longo, mais duradouro e mais difícil do que os demais, porque envolve simultaneamente corpo e alma. Por isso, o remédio não pode ser apenas corporal: jejum, vigílias e trabalho manual devem ser acompanhados por contrição do coração, oração perseverante, meditação das Escrituras, disciplina dos pensamentos e, sobretudo, humildade.
Este livro é diretamente retomado pela Conferência XII, onde o abade Querêmon desenvolve a distinção entre continência e castidade, e também pela Conferência XXII, onde Teonas volta ao problema das ilusões noturnas, da emissão involuntária e da recepção da comunhão. A Instituta VI funciona, assim, como o núcleo ascético e prático dos dois tratados posteriores: nela Cassiano estabelece que a pureza corporal depende da pureza do coração, que os sonhos noturnos revelam negligências diurnas, e que a castidade perfeita é dom da graça, não conquista autônoma do esforço humano.
Capítulos
I. Da dupla luta contra o espírito de fornicação.
II. Da principal correção contra o espírito de fornicação.
III. Como a solidão, unida à continência, contribui como remédio para vencer o vício da fornicação.
IV. Qual é a diferença entre continência e castidade, e se ambas são sempre possuídas juntas.
V. Que a tentação da fornicação não pode ser vencida apenas pelo esforço humano.
VI. Da graça particular de Deus no dom da castidade.
VII. Exemplo do combate terreno segundo a palavra do Apóstolo.
VIII. Da comparação com a purificação daqueles que haverão de combater numa luta terrena.
IX. Quanta pureza de coração devemos sempre preparar diante dos olhos de Deus.
X. Qual é o sinal da pureza perfeita e íntegra.
XI. De que vício procede a ilusão noturna.
XII. Que a pureza da carne não pode ser obtida sem a pureza do coração.
XIII. Qual é a primeira vigilância da purificação carnal.
XIV. Que não devemos tentar tecer o elogio da castidade, mas expor seu efeito.
XV. Que a virtude da castidade é chamada especialmente de santidade pelo Apóstolo.
XVI. De outro testemunho do Apóstolo sobre a mesma santidade da castidade.
XVII. Que a esperança de um prêmio mais sublime deve aumentar a guarda da castidade.
XVIII. Que, assim como a castidade não pode ser obtida sem humildade, também a ciência espiritual não pode ser obtida sem castidade.
XIX. Sentença do santo Bispo Basílio sobre a natureza de sua virgindade.
XX. Qual é o fim da verdadeira integridade e pureza.
XXI. Como podemos conservar o estado da pureza perfeita.
XXII. Até que ponto pode chegar a pureza da integridade de nosso corpo, e qual é o sinal de uma mente purificada.
XXIII. Remédios de cura pelos quais pode permanecer a perfeita pureza de nosso coração e de nosso corpo.
I. Da dupla luta contra o espírito de fornicação
1. Segundo a tradição dos Padres, nossa segunda luta é contra o espírito de fornicação. É uma luta mais longa e duradoura que as outras, e pouquíssimos a vencem de modo puro. É uma guerra terrível, que começa a atacar o gênero humano desde o primeiro tempo da puberdade e não se extingue antes que os demais vícios sejam superados.
2. Pois sua investida é dupla, armada de dois vícios, levantando-se para a batalha. Por isso, também se deve resistir-lhe com uma dupla frente. Como ela adquire força a partir de uma doença misturada à carne e à alma, não pode ser vencida se ambas não combaterem igualmente.
3. Não basta, portanto, apenas o jejum corporal para alcançar ou possuir a pureza da castidade perfeita. É preciso que antes venham a contrição do espírito e a oração perseverante contra esse espírito impuríssimo; depois, a meditação contínua das Escrituras, à qual se una a ciência espiritual; também o trabalho e a obra das mãos, que contêm e reconduzem as instáveis divagações do coração; e, antes de tudo, que esteja bem estabelecida a verdadeira humildade, sem a qual jamais se poderá obter triunfo algum sobre qualquer vício.
II. Da principal correção contra o espírito de fornicação
1. A correção principal desse vício procede da perfeição do coração, pois daí também, segundo a palavra do Senhor, brota o veneno dessa enfermidade: “Do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, fornicações, furtos, falsos testemunhos” e assim por diante (Mt 15:19). Portanto, deve ser purificado em primeiro lugar aquilo de onde se sabe que emana a fonte da vida e da morte, conforme diz Salomão: “Com toda vigilância guarda teu coração, pois dele procedem as saídas da vida.” (Pr 4:23) A carne, com efeito, serve ao arbítrio e ao comando do coração. Por isso, deve-se seguir com sumo zelo a sobriedade dos jejuns, para que a carne, refeita pela abundância dos alimentos, não se oponha aos preceitos salutares da alma e, tornando-se insolente, derrube seu governante, o espírito. Mas, se colocarmos toda a nossa atenção apenas na mortificação do corpo, enquanto a alma não jejua igualmente dos demais vícios nem se ocupa da meditação divina e dos estudos espirituais, de modo algum poderemos subir ao cume sublime da verdadeira integridade; pois aquilo que há em nós de principal estará perturbando a pureza de nosso corpo. Portanto, segundo a palavra do Senhor, convém limpar primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior se torne puro.
III. Como a solidão, unida à continência, contribui como remédio para vencer o vício da fornicação.
1. Os demais vícios costumam ser purificados também pelo trato com os homens e pelo exercício cotidiano, e de certo modo são curados pela própria ofensa da queda. Por exemplo, a ira, a tristeza e a enfermidade da impaciência são curadas pela meditação do coração, pela vigilante solicitude, pela convivência frequente com os irmãos e pela provocação assídua; pois, quando se manifestam por terem sido agitadas, são mais frequentemente repreendidas e chegam mais depressa à saúde. Mas esta enfermidade de que tratamos necessita da aflição do corpo, da contrição do coração, da solidão e do afastamento, para que, deposta a febre perniciosa de seus ardores, possa chegar ao estado íntegro de saúde. Assim como, para os que sofrem de certa enfermidade, muitas vezes é útil que alimentos nocivos nem sequer sejam oferecidos ao olhar, para que, pela ocasião da vista, não lhes nasça um desejo mortal, assim também a quietude e a solidão ajudam muito a expulsar especialmente essa doença. Desse modo, a mente enferma, não sendo perturbada por diversas imagens, chega mais facilmente ao olhar de uma contemplação mais pura e pode arrancar pela raiz o foco pestilento da concupiscência.
IV. Da diferença entre continência e castidade
4.1 Que ninguém pense, porém, que por isso negamos que possam ser encontrados continentes mesmo na congregação dos irmãos. Confessamos que isso pode acontecer com muita facilidade. Mas uma coisa é ser continente, isto é, enkratēs; outra coisa é ser casto e, por assim dizer, passar ao estado da integridade ou da incorruptibilidade, chamado hagnós. Essa virtude é atribuída principalmente àqueles que permanecem virgens na carne ou na mente, como se sabe que foram São João Batista e São João Evangelista no Novo Testamento e, no Antigo, Elias, Jeremias e Daniel. No mesmo grau serão, não sem razão, contados também aqueles que depois de experiências de corrupção chegaram por meio de longo trabalho e empenho a um estado semelhante de pureza, pela integridade da mente e do corpo; e sentem os aguilhões da carne não tanto como ataque de uma concupiscência vergonhosa, mas apenas como movimento da natureza.
4.2 Dizemos que esse estado é dificílimo de alcançar entre as multidões humanas. Se é também impossível, cada um o examine não por nossa opinião, mas pelo exame de sua própria consciência. Não duvidamos, porém, de que existam muitos continentes que extinguem e reprimem os ataques da carne - quer raros, quer cotidianos - pelo medo da geena (inferno) ou pelo desejo do Reino dos Céus. A respeito deles, os anciãos afirmam que podem não ser inteiramente vencidos pelos estímulos dos vícios; contudo, ensinam também que não permanecem sempre seguros nem livres de feridas. Pois quem se encontra em combate, ainda que muitas vezes vença e supere o adversário, inevitavelmente será também perturbado alguma vez.
V. Que a tentação da fornicação não pode ser vencida apenas pelo esforço humano
1. Portanto, se temos no coração o desejo de combater legitimamente com o Apóstolo (2 Tm 4:7) o combate espiritual, apressemos-nos a vencer esse espírito impuríssimo com toda a intenção da mente, não confiando em nossas próprias forças - pois o esforço humano não tem poder para realizar isso -, mas no auxílio do Senhor. Com efeito, é necessário que a alma seja afligida por esse vício até reconhecer que trava uma guerra acima de suas próprias forças, e que não pode obter a vitória por seu próprio trabalho ou empenho, a menos que seja sustentada pelo auxílio e pela proteção do Senhor.
VI. Da graça particular de Deus no dom da castidade
- E, na verdade, embora em todo progresso das virtudes e na expulsão de todos os vícios a graça e a vitória pertençam ao Senhor, quanto à castidade declara-se de modo claríssimo, tanto pela sentença dos Padres quanto pela experiência da própria purificação, que há um benefício particular de Deus e um dom especial para que se vença o vício da fornicação. Pois, de certo modo, permanecer no corpo sem viver segundo a carne é já sair da carne; e não sentir os aguilhões da carne, estando ainda cercado por uma carne frágil, é algo que ultrapassa a natureza. Por isso é impossível que o homem, com suas próprias asas - por assim dizer -, voe até prêmio tão alto e celeste, se a graça do Senhor não o retirar do lodo da terra pelo dom da castidade. Nenhuma virtude iguala tão propriamente os homens carnais aos anjos espirituais, por imitação de conduta, quanto o mérito e a graça da castidade. Por ela, ainda vivendo na terra, possuem, segundo o Apóstolo, a cidadania nos céus; e aquilo que se promete aos santos no futuro, quando tiverem deixado a corrupção carnal, eles já possuem aqui na carne frágil. (Fl 3:20)
VII. Exemplo do combate terreno segundo a palavra do Apóstolo
1. Ouve o que diz o Apóstolo: “Todo aquele que combate na arena abstém-se de tudo.”(1 Cor 9:25) Investiguemos de que “tudo” ele fala, para que, pela comparação com o combate carnal, possamos receber instrução sobre o combate espiritual. Aqueles que se esforçam por combater legitimamente nesse combate terreno e visível não têm o direito de usar todos os alimentos que o desejo lhes sugere, mas apenas aqueles que a disciplina dessas mesmas competições estabeleceu. E é necessário que se abstenham não só dos alimentos proibidos, da embriaguez e de toda intemperança, mas também de toda inércia, ócio e preguiça, para que, por exercícios cotidianos e meditação contínua, sua força possa crescer.
7.2 Assim também se tornam alheios a toda solicitude, tristeza, negócios seculares e até ao afeto e ao trato conjugal, de modo que nada conheçam além do exercício da disciplina, nem se envolvam absolutamente com qualquer cuidado mundano, esperando apenas daquele que preside ao certame obter o sustento cotidiano, a glória da coroa e os prêmios correspondentes ao louvor da vitória. E eles se guardam tão puros de toda contaminação carnal que, quando se preparam para o certame dos jogos, para que alguma ilusão noturna, talvez enganando-os durante o sono, não diminua as forças conquistadas por longo tempo, cobrem a região dos rins com placas de chumbo, a fim de que o frio do metal aplicado às partes íntimas possa impedir os humores obscenos. Eles compreendem, sem dúvida, que serão vencidos e que já não poderão travar o combate proposto, se a imagem enganosa de um prazer nocivo corromper a solidez da castidade previamente guardada.
VIII. Da comparação com a purificação dos combatentes terrenos
8. Portanto, se compreendemos a disciplina dos esportes terrenos, por cujo exemplo o bem-aventurado Apóstolo quis nos instruir, mostrando quanta observância e quanta diligência existem nela, o que nos convém fazer? Com que pureza deveremos guardar a castidade de nosso corpo e de nossa alma, nós que precisamos alimentar-nos todos os dias das carnes sacrossantas do Cordeiro, que os preceitos da antiga Lei não permitiam que nenhum impuro tocasse? No Levítico, com efeito, se ordena assim: “Todo aquele que estiver puro comerá da carne.” E: “Toda alma que comer das carnes do sacrifício salvífico que pertence ao Senhor, havendo nela impureza, perecerá diante do Senhor.” (Lv 7:19-20) Quão grande é, portanto, o dom da integridade, sem o qual nem aqueles que estavam sob o Antigo Testamento podiam participar dos sacrifícios típicos, nem aqueles que desejam alcançar a coroa corruptível deste mundo podem ser coroados.
IX. Quanta pureza de coração devemos preparar diante dos olhos de Deus
9. Portanto, antes de tudo, devem ser cuidadosamente purificados os recônditos de nosso coração. Pois aquilo que os atletas desejam alcançar na pureza do corpo, nós devemos possuir também nas profundezas da consciência, onde o Senhor, como juiz e presidente do combate, permanece e observa continuamente a luta de nossa corrida e de nosso certame.(Ver Conf. 7.20) Assim, aquilo que temos horror de admitir publicamente, não permitamos que cresça dentro de nós nem mesmo por um pensamento descuidado; e aquilo de que nos envergonhamos diante do conhecimento humano, não permitamos que nos polua nem mesmo por íntima conivência. Ainda que isso possa escapar ao conhecimento dos homens, não poderá esconder-se do conhecimento dos santos anjos nem do próprio Deus onipotente e onisciente, de quem nada se esconde.
X. Qual é o sinal da pureza perfeita e íntegra
10. O sinal evidente e a prova plena dessa pureza será este: que, quando estivermos em repouso e entregues ao sono, nenhuma imagem sedutora nos ocorra; ou, se ela nos perturbar, que não consiga excitar nenhum movimento de concupiscência. Embora tal movimento não seja considerado culpado de pecado, ele é, contudo, sinal de uma mente ainda não perfeita e manifestação de que o vício ainda não foi purificado inteiramente, quando a ilusão opera por meio dessas imagens enganadoras.
XI. De que vício procede a ilusão noturna
11. É no repouso da noite que se revela a qualidade dos pensamentos, guardados com negligência durante as ocupações do dia, são revelados. Por isso, quando sobrevém alguma ilusão desse tipo, não se deve atribuí-la à culpa do sono, mas à negligência do tempo precedente e à manifestação de uma enfermidade escondida interiormente. A hora da noite não a gerou pela primeira vez; antes, escondida nas fibras íntimas da alma, foi trazida à superfície da pele pelo descanso do sono, revelando as febres ocultas dos ardores que contraímos ao longo de todo o dia, alimentando-nos de pensamentos nocivos. Assim também costumam ocorrer as más enfermidades do corpo: não surgem no momento em que parecem aparecer, mas foram adquiridas pela negligência do tempo passado, quando alguém, alimentando-se imprudentemente de comidas contrárias à saúde, contraiu humores nocivos e mortais.
XII. Que a pureza da carne não se obtém sem a pureza do coração
12. Por isso Deus, criador e formador do gênero humano, conhecendo acima de todos a natureza de sua obra e o modo de corrigi-la, aplicou o cuidado medicinal justamente ali de onde sabia que procediam principalmente as causas da doença, dizendo: “Todo aquele que olhar para uma mulher para a desejar já cometeu adultério com ela em seu coração.” (Mt 5:28) Ao apontar os olhos petulantes, ele não acusa tanto os olhos, mas aquele sentido interior que usa mal o serviço deles para ver. Pois é o coração enfermo e ferido pelo dardo da luxúria que olha para desejar, convertendo por seu próprio vício o benefício da visão - corretamente concedido pelo Criador - em instrumento de obras perversas, e fazendo nascer a doença da concupiscência, escondida em si mesmo, pela ocasião da contemplação. Por isso, o mandamento salutar é dirigido ao coração, pois é dele que procede a pior enfermidade quando a ocasião da vista se apresenta. Os olhos nada fazem além de oferecer à alma o simples serviço da visão. Se deles nascesse o impulso da concupiscência, dir-se-ia: “Com toda vigilância guarda teus olhos”; mas não é isso que se diz. Em vez disso, lemos: “Com toda vigilância guarda teu coração.” (Pr 4:23) Pois é sobretudo ao coração que o remédio deve ser aplicado, já que é ele que pode abusar, em qualquer lugar, do serviço dos olhos.
XIII. Qual é a primeira vigilância da purificação carnal
13.1 Esta será, portanto, a primeira vigilância dessa purificação: quando a lembrança do sexo feminino se insinuar em nossa mente por uma sutil sugestão da astúcia diabólica, devemos expulsá-la o quanto antes dos recônditos do coração, trazendo primeiro à memória a recordação da mãe, das irmãs, das parentes ou de mulheres santas. Pois, se nos demorarmos nessa lembrança, o instigador dos males poderá arrastar sutilmente a mente para outras figuras femininas e, por meio delas, introduzir pensamentos nocivos. Por isso devemos recordar continuamente aquele preceito: “Com toda vigilância guarda teu coração.” E, segundo o principal mandamento de Deus, devemos observar atentamente os princípios dos maus pensamentos, que são como a cabeça da serpente e pelos quais o diabo tenta penetrar em nossa alma. Não permitamos, por negligência, que entre em nosso coração o restante do corpo de tal serpente, isto é, o consentimento ao deleite. Pois, se esse consentimento for admitido, a víbora sem dúvida matará a mente cativa com sua mordida venenosa.
13.2 Como ensina o salmista, devemos extinguir logo de manhã os pecadores que se levantam em nossa terra — isto é, os sentidos carnais — (Sl 100:8), e esmagar contra a pedra os filhos da Babilônia enquanto ainda são pequenos (Sl 136:9). Se não forem mortos enquanto ainda são tenros, quando crescerem pela nossa conivência, levantar-se-ão mais fortes para nossa ruína, ou certamente só serão vencidos com grande gemido e esforço. Pois, enquanto o homem forte e armado - isto é, nosso espírito - guarda sua casa, protegendo com o temor de Deus as profundezas de sua alma, todos os seus bens estarão seguros, isto é, os frutos dos trabalhos e as virtudes conquistadas por longo tempo. Mas, se sobrevier um mais forte e o vencer - isto é, o diabo, pelo consentimento aos pensamentos -, ele tomará as armas em que o homem forte confiava, isto é, a memória das Escrituras ou o temor de Deus, e dividirá seus despojos, dispersando os méritos das virtudes por vícios contrários. (Lc 11:21-22)
XIV. Que não devemos tecer o elogio da castidade, mas expor seu efeito
14. Como não me propus a tecer o elogio da castidade, mas a explicar, segundo as tradições dos Padres, suas qualidades, como deve ser adquirida e guardada, e qual é o seu fim, apresentarei apenas uma sentença do bem-aventurado Apóstolo. Por ela se torna claro de que modo, escrevendo aos tessalonicenses, ele a antepôs a todas as virtudes, recomendando-a com tal nobreza de palavra.
XV. Que a castidade é chamada especialmente de santidade pelo Apóstolo
15.1 “Esta é”, diz ele, “a vontade de Deus: a vossa santificação.” E, para que não nos deixasse nenhuma dúvida ou obscuridade sobre aquilo que quis chamar de santificação - se a justiça, a caridade, a humildade ou a paciência, pois em todas essas virtudes se crê que se adquire santificação -, ele acrescenta e designa claramente o que quis chamar propriamente de santificação: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação: que vos abstenhais da fornicação; que cada um de vós saiba possuir seu vaso em honra e santificação, não na paixão do desejo, como os gentios que ignoram Deus.” (1 Ts 4:3-5) Vê com que louvores ele celebra a castidade, chamando-a honra do vaso - isto é, do nosso corpo - e santificação. Portanto, ao contrário, quem está na paixão do desejo permanece na ignomínia e na impureza, e vive afastado da santidade.
15.2 Pouco depois, ele acrescenta pela terceira vez, chamando-a novamente de santidade: “Deus não nos chamou à ignomínia, mas à santidade. Portanto, quem despreza estas coisas não despreza um homem, mas Deus, que também nos deu seu Espírito Santo. Ele uniu ao seu preceito uma autoridade inviolável, dizendo: “Quem despreza estas coisas” - isto é, aquelas que eu disse antes sobre a santidade - “não despreza um homem”, ou seja, a mim que ordeno estas coisas, “mas Deus”, que fala em mim, e que também destinou nosso coração a ser morada de seu Santo Espírito (1 Ts 4:7-8). Vês com que palavras simples e puras, com que proclamações e louvores ele a exaltou: primeiro, atribuindo propriamente a essa virtude o nome de santificação; depois, afirmando que por meio dela o vaso de nosso corpo deve ser libertado da impureza; em terceiro lugar, que, rejeitada a ignomínia e a desonra, ele permanecerá em honra e santidade; por fim - e esta é a soma da recompensa perfeita e da bem-aventurança -, indicou que, por meio dela, o Espírito Santo se habitaria em nosso peito.
XVI. De outro testemunho do Apóstolo sobre a mesma santidade
16. Embora o discurso se encaminhe para o fim deste capítulo, acrescentarei ainda outro testemunho semelhante do mesmo Apóstolo, além do prometido. Escrevendo aos hebreus, ele diz: “Segui a paz com todos e a santidade, sem a qual ninguém verá Deus” (Hb 12:14). Aqui também ele declarou evidentemente que sem a santidade - que ele costuma chamar de integridade da mente ou pureza do corpo - absolutamente ninguém poderá ver Deus. E também aqui ele explica em seguida o mesmo sentido: “Que não haja nenhum fornicador ou profano como Esaú.” (Hb 12:16).
XVII. Que a esperança de um prêmio mais sublime deve aumentar a guarda da castidade
17. Portanto, quanto mais sublime e celeste é o prêmio da castidade, tanto mais graves são as ciladas dos adversários pelas quais ela é atacada. Por isso, devemos aplicar-nos com maior empenho não só à continência do corpo, mas também à contrição do coração, com gemidos assíduos de oração, para que o fogo da fornalha de nossa carne - que o rei babilônico não cessa de acender com os incentivos das sugestões carnais - seja extinto pelo orvalho do Espírito Santo descendo em nossos corações.
XVIII. Que a castidade não se obtém sem humildade, nem a ciência sem castidade
18. Assim como os anciãos dizem que essa virtude não pode ser alcançada se antes não forem colocados no coração os fundamentos da humildade, também definem que ninguém pode chegar à fonte da verdadeira ciência enquanto a raiz desse vício estiver assentada nos recessos de nossa alma. E, de fato, é possível encontrar integridade sem a graça da ciência; mas é impossível possuir ciência espiritual sem a castidade da integridade. Pois os dons são diversos, e nem toda graça do Espírito Santo é dada a todos; mas cada um recebe aquela para a qual se tornou digno e apto por seu zelo e empenho. Por fim, embora se creia que a virtude da integridade tenha sido perfeita em todos os santos apóstolos, o dom da ciência transbordou mais abundantemente em Paulo, porque ele se preparou para ela por zelo atento e empenho diligente.
XIX. Sentença de São Basílio sobre a natureza de sua virgindade
19. Conta-se a rigorosa sentença de São Basílio, bispo de Cesareia: “Não conheço mulher”, disse ele, “e ainda assim não sou virgem”. Com isso ele compreendeu que a incorruptibilidade da carne não consiste tanto em abster-se de relações com mulheres quanto na integridade do coração, que guarda perpetuamente a santidade verdadeiramente incorrupta do corpo, seja pelo temor de Deus, seja pelo amor da castidade.
XX. Qual é o fim da verdadeira integridade e pureza
20. Este é, portanto, o fim da integridade e a prova perfeita: que, quando estivermos em repouso, nenhuma excitação de prazer se insinue; e que, se forem expelidas emissões impuras sem que tenhamos consciência, isso ocorra apenas por necessidade da natureza. Assim como extirpá-las completamente e cortá-las para sempre ultrapassa a natureza, também reduzi-las à necessidade inevitável e raríssima da natureza é sinal de suma virtude; e essa necessidade costuma bater à porta do monge com intervalo de dois meses. Isso, porém, seja dito segundo nossa experiência, não segundo a sentença dos anciãos, pelos quais até mesmo essa pausa de tempo era julgada demasiado estreita. Se quiséssemos expor isso do modo como recebemos deles, talvez fôssemos julgados como tendo descrito coisas incríveis ou impossíveis por aqueles que, por sua negligência ou zelo mais frouxo, experimentaram menos essa pureza.
XXI. Como podemos conservar o estado da pureza perfeita
21. Poderemos conservar perpetuamente esse estado e nunca exceder o modo natural nem o tempo acima compreendido se pensarmos que Deus é, dia e noite, inspetor e conhecedor não apenas de nossos atos secretos, mas também de todos os nossos pensamentos; e se crermos que haveremos de prestar-lhe contas de tudo o que se passa em nosso coração, assim como de nossos feitos e obras.
XXII. Até que ponto pode chegar a pureza da integridade corporal
22. Devemos, portanto, apressar-nos e combater os movimentos da alma e os incentivos da carne até que essa condição da carne satisfaça a necessidade da natureza sem despertar prazer, expelindo o excesso acumulado sem qualquer prurido ou culpa, e sem suscitar guerra contra a castidade. Mas, se a mente, enquanto dorme, ainda é enganada pela visão de imagens, saiba que ainda não foi purificada até a perfeição íntegra da castidade.
XXIII. Remédios para que permaneça a pureza perfeita do coração e do corpo
23. Portanto, para que essas ilusões não possam insinuar-se em nós nem mesmo enquanto dormimos, deve-se manter sempre um jejum equilibrado e moderado. Pois todo aquele que exceder a medida da austeridade necessariamente excederá também a medida do relaxamento. Preso a essa desigualdade, sem dúvida será afastado daquele estado pleno de tranquilidade: ora abatido por excessivo esvaziamento, ora distendido por alimento mais abundante. Com efeito, sempre que se modifica a maneira de nos alimentarmos, modifica-se necessariamente também o estado da nossa pureza. Depois disso, deve-se conservar sempre a humildade constante e a paciência do coração, bem como atenta cautela durante o dia contra a ira e as demais paixões. Pois onde se assenta o veneno do furor, necessariamente também penetra o incêndio da luxúria. Antes de tudo, porém, é necessária a diligente vigilância noturna. Pois, assim como a pureza e a guarda do dia preparam a castidade da noite, também as vigílias noturnas oferecem antecipadamente ao coração um estado firme e vigoroso em sua observância diurna.
Notas e referências da Instituta VI
- Referências bíblicas principais: Mt 15:19; Pr 4:23; Mt 23:26; 1 Cor 9:25; Lv 7:19-20; Dt 23:10-11; Mt 5:28; 1 Ts 4:3-8; Hb 12:14-16.
- Referências cruzadas internas: a distinção entre continência e castidade reaparece na Conferência XII, especialmente em X-XI; a análise das ilusões noturnas reaparece na Conferência XXII, especialmente em III-VI.
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