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I. Institutas - Livro VI

Sobre o espírito de fornicação

Introdução à tradução

A sexta Instituta pertence à segunda parte da obra de Cassiano, dedicada aos remédios contra os oito vícios principais. Depois da gula, Cassiano trata do espírito de fornicação, descrevendo-o como um combate mais longo, mais duradouro e mais difícil do que os demais, porque envolve simultaneamente corpo e alma. Por isso, o remédio não pode ser apenas corporal: jejum, vigílias e trabalho manual devem ser acompanhados por contrição do coração, oração perseverante, meditação das Escrituras, disciplina dos pensamentos e, sobretudo, humildade.

Este livro é diretamente retomado pela Conferência XII, onde o abade Querêmon desenvolve a distinção entre continência e castidade, e também pela Conferência XXII, onde Teonas volta ao problema das ilusões noturnas, da emissão involuntária e da recepção da comunhão. A Instituta VI funciona, assim, como o núcleo ascético e prático dos dois tratados posteriores: nela Cassiano estabelece que a pureza corporal depende da pureza do coração, que os sonhos noturnos revelam negligências diurnas, e que a castidade perfeita é dom da graça, não conquista autônoma do esforço humano.

Capítulos

I. Da dupla luta contra o espírito de fornicação.
II. Da principal correção contra o espírito de fornicação.
III. Como a solidão, unida à continência, contribui como remédio para vencer o vício da fornicação.
IV. Qual é a diferença entre continência e castidade, e se ambas são sempre possuídas juntas.
V. Que a tentação da fornicação não pode ser vencida apenas pelo esforço humano.
VI. Da graça particular de Deus no dom da castidade.
VII. Exemplo do combate terreno segundo a palavra do Apóstolo.
VIII. Da comparação com a purificação daqueles que haverão de combater numa luta terrena.
IX. Quanta pureza de coração devemos sempre preparar diante dos olhos de Deus.
X. Qual é o sinal da pureza perfeita e íntegra.
XI. De que vício procede a ilusão noturna.
XII. Que a pureza da carne não pode ser obtida sem a pureza do coração.
XIII. Qual é a primeira vigilância da purificação carnal.
XIV. Que não devemos tentar tecer o elogio da castidade, mas expor seu efeito.
XV. Que a virtude da castidade é chamada especialmente de santidade pelo Apóstolo.
XVI. De outro testemunho do Apóstolo sobre a mesma santidade da castidade.
XVII. Que a esperança de um prêmio mais sublime deve aumentar a guarda da castidade.
XVIII. Que, assim como a castidade não pode ser obtida sem humildade, também a ciência espiritual não pode ser obtida sem castidade.
XIX. Sentença do santo Bispo Basílio sobre a natureza de sua virgindade.
XX. Qual é o fim da verdadeira integridade e pureza.
XXI. Como podemos conservar o estado da pureza perfeita.
XXII. Até que ponto pode chegar a pureza da integridade de nosso corpo, e qual é o sinal de uma mente purificada.
XXIII. Remédios de cura pelos quais pode permanecer a perfeita pureza de nosso coração e de nosso corpo.

I. Da dupla luta contra o espírito de fornicação

1. Segundo a tradição dos Padres, nossa segunda luta é contra o espírito de fornicação. É uma luta mais longa e duradoura que as outras, e pouquíssimos a vencem de modo puro. É uma guerra terrível, que começa a atacar o gênero humano desde o primeiro tempo da puberdade e não se extingue antes que os demais vícios sejam superados.

2. Pois sua investida é dupla, armada de dois vícios, levantando-se para a batalha. Por isso, também se deve resistir-lhe com uma dupla frente. Como ela adquire força a partir de uma doença misturada à carne e à alma, não pode ser vencida se ambas não combaterem igualmente.

3. Não basta, portanto, apenas o jejum corporal para alcançar ou possuir a pureza da castidade perfeita. É preciso que antes venham a contrição do espírito e a oração perseverante contra esse espírito impuríssimo; depois, a meditação contínua das Escrituras, à qual se una a ciência espiritual; também o trabalho e a obra das mãos, que contêm e reconduzem as instáveis divagações do coração; e, antes de tudo, que esteja bem estabelecida a verdadeira humildade, sem a qual jamais se poderá obter triunfo algum sobre qualquer vício.

II. Da principal correção contra o espírito de fornicação

1. A correção principal desse vício procede da perfeição do coração, pois daí também, segundo a palavra do Senhor, brota o veneno dessa enfermidade: “Do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, fornicações, furtos, falsos testemunhos” e assim por diante (Mt 15:19). Portanto, deve ser purificado em primeiro lugar aquilo de onde se sabe que emana a fonte da vida e da morte, conforme diz Salomão: “Com toda vigilância guarda teu coração, pois dele procedem as saídas da vida.” (Pr 4:23) A carne, com efeito, serve ao arbítrio e ao comando do coração. Por isso, deve-se seguir com sumo zelo a sobriedade dos jejuns, para que a carne, refeita pela abundância dos alimentos, não se oponha aos preceitos salutares da alma e, tornando-se insolente, derrube seu governante, o espírito. Mas, se colocarmos toda a nossa atenção apenas na mortificação do corpo, enquanto a alma não jejua igualmente dos demais vícios nem se ocupa da meditação divina e dos estudos espirituais, de modo algum poderemos subir ao cume sublime da verdadeira integridade; pois aquilo que há em nós de principal estará perturbando a pureza de nosso corpo. Portanto, segundo a palavra do Senhor, convém limpar primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior se torne puro.

III. Como a solidão, unida à continência, contribui como remédio para vencer o vício da fornicação.

1. Os demais vícios costumam ser purificados também pelo trato com os homens e pelo exercício cotidiano, e de certo modo são curados pela própria ofensa da queda. Por exemplo, a ira, a tristeza e a enfermidade da impaciência são curadas pela meditação do coração, pela vigilante solicitude, pela convivência frequente com os irmãos e pela provocação assídua; pois, quando se manifestam por terem sido agitadas, são mais frequentemente repreendidas e chegam mais depressa à saúde. Mas esta enfermidade de que tratamos necessita da aflição do corpo, da contrição do coração, da solidão e do afastamento, para que, deposta a febre perniciosa de seus ardores, possa chegar ao estado íntegro de saúde. Assim como, para os que sofrem de certa enfermidade, muitas vezes é útil que alimentos nocivos nem sequer sejam oferecidos ao olhar, para que, pela ocasião da vista, não lhes nasça um desejo mortal, assim também a quietude e a solidão ajudam muito a expulsar especialmente essa doença. Desse modo, a mente enferma, não sendo perturbada por diversas imagens, chega mais facilmente ao olhar de uma contemplação mais pura e pode arrancar pela raiz o foco pestilento da concupiscência.

IV. Da diferença entre continência e castidade

4.1 Que ninguém pense, porém, que por isso negamos que possam ser encontrados continentes mesmo na congregação dos irmãos. Confessamos que isso pode acontecer com muita facilidade. Mas uma coisa é ser continente, isto é, enkratēs; outra coisa é ser casto e, por assim dizer, passar ao estado da integridade ou da incorruptibilidade, chamado hagnós. Essa virtude é atribuída principalmente àqueles que permanecem virgens na carne ou na mente, como se sabe que foram São João Batista e São João Evangelista no Novo Testamento e, no Antigo, Elias, Jeremias e Daniel. No mesmo grau serão, não sem razão, contados também aqueles que depois de experiências de corrupção chegaram por meio de longo trabalho e empenho a um estado semelhante de pureza, pela integridade da mente e do corpo; e sentem os aguilhões da carne não tanto como ataque de uma concupiscência vergonhosa, mas apenas como movimento da natureza.

4.2 Dizemos que esse estado é dificílimo de alcançar entre as multidões humanas. Se é também impossível, cada um o examine não por nossa opinião, mas pelo exame de sua própria consciência. Não duvidamos, porém, de que existam muitos continentes que extinguem e reprimem os ataques da carne - quer raros, quer cotidianos - pelo medo da geena (inferno) ou pelo desejo do Reino dos Céus. A respeito deles, os anciãos afirmam que podem não ser inteiramente vencidos pelos estímulos dos vícios; contudo, ensinam também que não permanecem sempre seguros nem livres de feridas. Pois quem se encontra em combate, ainda que muitas vezes vença e supere o adversário, inevitavelmente será também perturbado alguma vez.

V. Que a tentação da fornicação não pode ser vencida apenas pelo esforço humano

1. Portanto, se temos no coração o desejo de combater legitimamente com o Apóstolo (2 Tm 4:7) o combate espiritual, apressemos-nos a vencer esse espírito impuríssimo com toda a intenção da mente, não confiando em nossas próprias forças - pois o esforço humano não tem poder para realizar isso -, mas no auxílio do Senhor. Com efeito, é necessário que a alma seja afligida por esse vício até reconhecer que trava uma guerra acima de suas próprias forças, e que não pode obter a vitória por seu próprio trabalho ou empenho, a menos que seja sustentada pelo auxílio e pela proteção do Senhor.

VI. Da graça particular de Deus no dom da castidade

  1. E, na verdade, embora em todo progresso das virtudes e na expulsão de todos os vícios a graça e a vitória pertençam ao Senhor, quanto à castidade declara-se de modo claríssimo, tanto pela sentença dos Padres quanto pela experiência da própria purificação, que há um benefício particular de Deus e um dom especial para que se vença o vício da fornicação. Pois, de certo modo, permanecer no corpo sem viver segundo a carne é já sair da carne; e não sentir os aguilhões da carne, estando ainda cercado por uma carne frágil, é algo que ultrapassa a natureza. Por isso é impossível que o homem, com suas próprias asas - por assim dizer -, voe até prêmio tão alto e celeste, se a graça do Senhor não o retirar do lodo da terra pelo dom da castidade. Nenhuma virtude iguala tão propriamente os homens carnais aos anjos espirituais, por imitação de conduta, quanto o mérito e a graça da castidade. Por ela, ainda vivendo na terra, possuem, segundo o Apóstolo, a cidadania nos céus; e aquilo que se promete aos santos no futuro, quando tiverem deixado a corrupção carnal, eles já possuem aqui na carne frágil. (Fl 3:20)

VII. Exemplo do combate terreno segundo a palavra do Apóstolo

1. Ouve o que diz o Apóstolo: “Todo aquele que combate na arena abstém-se de tudo.”(1 Cor 9:25) Investiguemos de que “tudo” ele fala, para que, pela comparação com o combate carnal, possamos receber instrução sobre o combate espiritual. Aqueles que se esforçam por combater legitimamente nesse combate terreno e visível não têm o direito de usar todos os alimentos que o desejo lhes sugere, mas apenas aqueles que a disciplina dessas mesmas competições estabeleceu. E é necessário que se abstenham não só dos alimentos proibidos, da embriaguez e de toda intemperança, mas também de toda inércia, ócio e preguiça, para que, por exercícios cotidianos e meditação contínua, sua força possa crescer.

7.2 Assim também se tornam alheios a toda solicitude, tristeza, negócios seculares e até ao afeto e ao trato conjugal, de modo que nada conheçam além do exercício da disciplina, nem se envolvam absolutamente com qualquer cuidado mundano, esperando apenas daquele que preside ao certame obter o sustento cotidiano, a glória da coroa e os prêmios correspondentes ao louvor da vitória. E eles se guardam tão puros de toda contaminação carnal que, quando se preparam para o certame dos jogos, para que alguma ilusão noturna, talvez enganando-os durante o sono, não diminua as forças conquistadas por longo tempo, cobrem a região dos rins com placas de chumbo, a fim de que o frio do metal aplicado às partes íntimas possa impedir os humores obscenos. Eles compreendem, sem dúvida, que serão vencidos e que já não poderão travar o combate proposto, se a imagem enganosa de um prazer nocivo corromper a solidez da castidade previamente guardada.

VIII. Da comparação com a purificação dos combatentes terrenos

8. Portanto, se compreendemos a disciplina dos esportes terrenos, por cujo exemplo o bem-aventurado Apóstolo quis nos instruir, mostrando quanta observância e quanta diligência existem nela, o que nos convém fazer? Com que pureza deveremos guardar a castidade de nosso corpo e de nossa alma, nós que precisamos alimentar-nos todos os dias das carnes sacrossantas do Cordeiro, que os preceitos da antiga Lei não permitiam que nenhum impuro tocasse? No Levítico, com efeito, se ordena assim: “Todo aquele que estiver puro comerá da carne.” E: “Toda alma que comer das carnes do sacrifício salvífico que pertence ao Senhor, havendo nela impureza, perecerá diante do Senhor.” (Lv 7:19-20) Quão grande é, portanto, o dom da integridade, sem o qual nem aqueles que estavam sob o Antigo Testamento podiam participar dos sacrifícios típicos, nem aqueles que desejam alcançar a coroa corruptível deste mundo podem ser coroados.

IX. Quanta pureza de coração devemos preparar diante dos olhos de Deus

9. Portanto, antes de tudo, devem ser cuidadosamente purificados os recônditos de nosso coração. Pois aquilo que os atletas desejam alcançar na pureza do corpo, nós devemos possuir também nas profundezas da consciência, onde o Senhor, como juiz e presidente do combate, permanece e observa continuamente a luta de nossa corrida e de nosso certame.(Ver Conf. 7.20) Assim, aquilo que temos horror de admitir publicamente, não permitamos que cresça dentro de nós nem mesmo por um pensamento descuidado; e aquilo de que nos envergonhamos diante do conhecimento humano, não permitamos que nos polua nem mesmo por íntima conivência. Ainda que isso possa escapar ao conhecimento dos homens, não poderá esconder-se do conhecimento dos santos anjos nem do próprio Deus onipotente e onisciente, de quem nada se esconde.

X. Qual é o sinal da pureza perfeita e íntegra

10. O sinal evidente e a prova plena dessa pureza será este: que, quando estivermos em repouso e entregues ao sono, nenhuma imagem sedutora nos ocorra; ou, se ela nos perturbar, que não consiga excitar nenhum movimento de concupiscência. Embora tal movimento não seja considerado culpado de pecado, ele é, contudo, sinal de uma mente ainda não perfeita e manifestação de que o vício ainda não foi purificado inteiramente, quando a ilusão opera por meio dessas imagens enganadoras.

XI. De que vício procede a ilusão noturna

11. É no repouso da noite que se revela a qualidade dos pensamentos, guardados com negligência durante as ocupações do dia, são revelados. Por isso, quando sobrevém alguma ilusão desse tipo, não se deve atribuí-la à culpa do sono, mas à negligência do tempo precedente e à manifestação de uma enfermidade escondida interiormente. A hora da noite não a gerou pela primeira vez; antes, escondida nas fibras íntimas da alma, foi trazida à superfície da pele pelo descanso do sono, revelando as febres ocultas dos ardores que contraímos ao longo de todo o dia, alimentando-nos de pensamentos nocivos. Assim também costumam ocorrer as más enfermidades do corpo: não surgem no momento em que parecem aparecer, mas foram adquiridas pela negligência do tempo passado, quando alguém, alimentando-se imprudentemente de comidas contrárias à saúde, contraiu humores nocivos e mortais.

XII. Que a pureza da carne não se obtém sem a pureza do coração

12. Por isso Deus, criador e formador do gênero humano, conhecendo acima de todos a natureza de sua obra e o modo de corrigi-la, aplicou o cuidado medicinal justamente ali de onde sabia que procediam principalmente as causas da doença, dizendo: “Todo aquele que olhar para uma mulher para a desejar já cometeu adultério com ela em seu coração.” (Mt 5:28) Ao apontar os olhos petulantes, ele não acusa tanto os olhos, mas aquele sentido interior que usa mal o serviço deles para ver. Pois é o coração enfermo e ferido pelo dardo da luxúria que olha para desejar, convertendo por seu próprio vício o benefício da visão - corretamente concedido pelo Criador - em instrumento de obras perversas, e fazendo nascer a doença da concupiscência, escondida em si mesmo, pela ocasião da contemplação. Por isso, o mandamento salutar é dirigido ao coração, pois é dele que procede a pior enfermidade quando a ocasião da vista se apresenta. Os olhos nada fazem além de oferecer à alma o simples serviço da visão. Se deles nascesse o impulso da concupiscência, dir-se-ia: “Com toda vigilância guarda teus olhos”; mas não é isso que se diz. Em vez disso, lemos: “Com toda vigilância guarda teu coração.” (Pr 4:23) Pois é sobretudo ao coração que o remédio deve ser aplicado, já que é ele que pode abusar, em qualquer lugar, do serviço dos olhos.

XIII. Qual é a primeira vigilância da purificação carnal

13.1 Esta será, portanto, a primeira vigilância dessa purificação: quando a lembrança do sexo feminino se insinuar em nossa mente por uma sutil sugestão da astúcia diabólica, devemos expulsá-la o quanto antes dos recônditos do coração, trazendo primeiro à memória a recordação da mãe, das irmãs, das parentes ou de mulheres santas. Pois, se nos demorarmos nessa lembrança, o instigador dos males poderá arrastar sutilmente a mente para outras figuras femininas e, por meio delas, introduzir pensamentos nocivos. Por isso devemos recordar continuamente aquele preceito: “Com toda vigilância guarda teu coração.” E, segundo o principal mandamento de Deus, devemos observar atentamente os princípios dos maus pensamentos, que são como a cabeça da serpente e pelos quais o diabo tenta penetrar em nossa alma. Não permitamos, por negligência, que entre em nosso coração o restante do corpo de tal serpente, isto é, o consentimento ao deleite. Pois, se esse consentimento for admitido, a víbora sem dúvida matará a mente cativa com sua mordida venenosa.

13.2 Como ensina o salmista, devemos extinguir logo de manhã os pecadores que se levantam em nossa terra — isto é, os sentidos carnais — (Sl 100:8), e esmagar contra a pedra os filhos da Babilônia enquanto ainda são pequenos (Sl 136:9). Se não forem mortos enquanto ainda são tenros, quando crescerem pela nossa conivência, levantar-se-ão mais fortes para nossa ruína, ou certamente só serão vencidos com grande gemido e esforço. Pois, enquanto o homem forte e armado - isto é, nosso espírito - guarda sua casa, protegendo com o temor de Deus as profundezas de sua alma, todos os seus bens estarão seguros, isto é, os frutos dos trabalhos e as virtudes conquistadas por longo tempo. Mas, se sobrevier um mais forte e o vencer - isto é, o diabo, pelo consentimento aos pensamentos -, ele tomará as armas em que o homem forte confiava, isto é, a memória das Escrituras ou o temor de Deus, e dividirá seus despojos, dispersando os méritos das virtudes por vícios contrários. (Lc 11:21-22)

XIV. Que não devemos tecer o elogio da castidade, mas expor seu efeito

14. Como não me propus a tecer o elogio da castidade, mas a explicar, segundo as tradições dos Padres, suas qualidades, como deve ser adquirida e guardada, e qual é o seu fim, apresentarei apenas uma sentença do bem-aventurado Apóstolo. Por ela se torna claro de que modo, escrevendo aos tessalonicenses, ele a antepôs a todas as virtudes, recomendando-a com tal nobreza de palavra.

XV. Que a castidade é chamada especialmente de santidade pelo Apóstolo

15.1 “Esta é”, diz ele, “a vontade de Deus: a vossa santificação.” E, para que não nos deixasse nenhuma dúvida ou obscuridade sobre aquilo que quis chamar de santificação - se a justiça, a caridade, a humildade ou a paciência, pois em todas essas virtudes se crê que se adquire santificação -, ele acrescenta e designa claramente o que quis chamar propriamente de santificação: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação: que vos abstenhais da fornicação; que cada um de vós saiba possuir seu vaso em honra e santificação, não na paixão do desejo, como os gentios que ignoram Deus.” (1 Ts 4:3-5) Vê com que louvores ele celebra a castidade, chamando-a honra do vaso - isto é, do nosso corpo - e santificação. Portanto, ao contrário, quem está na paixão do desejo permanece na ignomínia e na impureza, e vive afastado da santidade.

15.2 Pouco depois, ele acrescenta pela terceira vez, chamando-a novamente de santidade: “Deus não nos chamou à ignomínia, mas à santidade. Portanto, quem despreza estas coisas não despreza um homem, mas Deus, que também nos deu seu Espírito Santo. Ele uniu ao seu preceito uma autoridade inviolável, dizendo: “Quem despreza estas coisas” - isto é, aquelas que eu disse antes sobre a santidade - “não despreza um homem”, ou seja, a mim que ordeno estas coisas, “mas Deus”, que fala em mim, e que também destinou nosso coração a ser morada de seu Santo Espírito (1 Ts 4:7-8). Vês com que palavras simples e puras, com que proclamações e louvores ele a exaltou: primeiro, atribuindo propriamente a essa virtude o nome de santificação; depois, afirmando que por meio dela o vaso de nosso corpo deve ser libertado da impureza; em terceiro lugar, que, rejeitada a ignomínia e a desonra, ele permanecerá em honra e santidade; por fim - e esta é a soma da recompensa perfeita e da bem-aventurança -, indicou que, por meio dela, o Espírito Santo se habitaria em nosso peito.

XVI. De outro testemunho do Apóstolo sobre a mesma santidade

16. Embora o discurso se encaminhe para o fim deste capítulo, acrescentarei ainda outro testemunho semelhante do mesmo Apóstolo, além do prometido. Escrevendo aos hebreus, ele diz: “Segui a paz com todos e a santidade, sem a qual ninguém verá Deus” (Hb 12:14). Aqui também ele declarou evidentemente que sem a santidade - que ele costuma chamar de integridade da mente ou pureza do corpo - absolutamente ninguém poderá ver Deus. E também aqui ele explica em seguida o mesmo sentido: “Que não haja nenhum fornicador ou profano como Esaú.” (Hb 12:16).

XVII. Que a esperança de um prêmio mais sublime deve aumentar a guarda da castidade

17. Portanto, quanto mais sublime e celeste é o prêmio da castidade, tanto mais graves são as ciladas dos adversários pelas quais ela é atacada. Por isso, devemos aplicar-nos com maior empenho não só à continência do corpo, mas também à contrição do coração, com gemidos assíduos de oração, para que o fogo da fornalha de nossa carne - que o rei babilônico não cessa de acender com os incentivos das sugestões carnais - seja extinto pelo orvalho do Espírito Santo descendo em nossos corações.

XVIII. Que a castidade não se obtém sem humildade, nem a ciência sem castidade

18. Assim como os anciãos dizem que essa virtude não pode ser alcançada se antes não forem colocados no coração os fundamentos da humildade, também definem que ninguém pode chegar à fonte da verdadeira ciência enquanto a raiz desse vício estiver assentada nos recessos de nossa alma. E, de fato, é possível encontrar integridade sem a graça da ciência; mas é impossível possuir ciência espiritual sem a castidade da integridade. Pois os dons são diversos, e nem toda graça do Espírito Santo é dada a todos; mas cada um recebe aquela para a qual se tornou digno e apto por seu zelo e empenho. Por fim, embora se creia que a virtude da integridade tenha sido perfeita em todos os santos apóstolos, o dom da ciência transbordou mais abundantemente em Paulo, porque ele se preparou para ela por zelo atento e empenho diligente.

XIX. Sentença de São Basílio sobre a natureza de sua virgindade

19. Conta-se a rigorosa sentença de São Basílio, bispo de Cesareia: “Não conheço mulher”, disse ele, “e ainda assim não sou virgem”. Com isso ele compreendeu que a incorruptibilidade da carne não consiste tanto em abster-se de relações com mulheres quanto na integridade do coração, que guarda perpetuamente a santidade verdadeiramente incorrupta do corpo, seja pelo temor de Deus, seja pelo amor da castidade.

XX. Qual é o fim da verdadeira integridade e pureza

20. Este é, portanto, o fim da integridade e a prova perfeita: que, quando estivermos em repouso, nenhuma excitação de prazer se insinue; e que, se forem expelidas emissões impuras sem que tenhamos consciência, isso ocorra apenas por necessidade da natureza. Assim como extirpá-las completamente e cortá-las para sempre ultrapassa a natureza, também reduzi-las à necessidade inevitável e raríssima da natureza é sinal de suma virtude; e essa necessidade costuma bater à porta do monge com intervalo de dois meses. Isso, porém, seja dito segundo nossa experiência, não segundo a sentença dos anciãos, pelos quais até mesmo essa pausa de tempo era julgada demasiado estreita. Se quiséssemos expor isso do modo como recebemos deles, talvez fôssemos julgados como tendo descrito coisas incríveis ou impossíveis por aqueles que, por sua negligência ou zelo mais frouxo, experimentaram menos essa pureza.

XXI. Como podemos conservar o estado da pureza perfeita

21. Poderemos conservar perpetuamente esse estado e nunca exceder o modo natural nem o tempo acima compreendido se pensarmos que Deus é, dia e noite, inspetor e conhecedor não apenas de nossos atos secretos, mas também de todos os nossos pensamentos; e se crermos que haveremos de prestar-lhe contas de tudo o que se passa em nosso coração, assim como de nossos feitos e obras.

XXII. Até que ponto pode chegar a pureza da integridade corporal

22. Devemos, portanto, apressar-nos e combater os movimentos da alma e os incentivos da carne até que essa condição da carne satisfaça a necessidade da natureza sem despertar prazer, expelindo o excesso acumulado sem qualquer prurido ou culpa, e sem suscitar guerra contra a castidade. Mas, se a mente, enquanto dorme, ainda é enganada pela visão de imagens, saiba que ainda não foi purificada até a perfeição íntegra da castidade.

XXIII. Remédios para que permaneça a pureza perfeita do coração e do corpo

23. Portanto, para que essas ilusões não possam insinuar-se em nós nem mesmo enquanto dormimos, deve-se manter sempre um jejum equilibrado e moderado. Pois todo aquele que exceder a medida da austeridade necessariamente excederá também a medida do relaxamento. Preso a essa desigualdade, sem dúvida será afastado daquele estado pleno de tranquilidade: ora abatido por excessivo esvaziamento, ora distendido por alimento mais abundante. Com efeito, sempre que se modifica a maneira de nos alimentarmos, modifica-se necessariamente também o estado da nossa pureza. Depois disso, deve-se conservar sempre a humildade constante e a paciência do coração, bem como atenta cautela durante o dia contra a ira e as demais paixões. Pois onde se assenta o veneno do furor, necessariamente também penetra o incêndio da luxúria. Antes de tudo, porém, é necessária a diligente vigilância noturna. Pois, assim como a pureza e a guarda do dia preparam a castidade da noite, também as vigílias noturnas oferecem antecipadamente ao coração um estado firme e vigoroso em sua observância diurna.

Notas e referências da Instituta VI

  1. Referências bíblicas principais: Mt 15:19; Pr 4:23; Mt 23:26; 1 Cor 9:25; Lv 7:19-20; Dt 23:10-11; Mt 5:28; 1 Ts 4:3-8; Hb 12:14-16.

  2. Referências cruzadas internas: a distinção entre continência e castidade reaparece na Conferência XII, especialmente em X-XI; a análise das ilusões noturnas reaparece na Conferência XXII, especialmente em III-VI.

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Livro das Conferências, por São João Cassiano

II. XII Conferência

Segunda Conferência do Abade Querêmon: Sobre a castidade

Introdução do tradutor da versão Inglesa

Ao final da décima primeira conferência, Germano havia perguntado ao abade Querêmon sobre a castidade e, mais especificamente, sobre o controle dos movimentos da carne - a libidinis titillatio, ou “excitação lasciva”, de 11.14. A décima segunda conferência, que retoma muitos dos pontos já aparecidos no sexto livro das Institutas, “Sobre o Espírito de Fornicação”, é a resposta de Querêmon a esse pedido. O próprio Germano havia estabelecido a conexão entre o amor perfeito e a castidade, e o ancião começa aludindo a esse vínculo, oferecendo assim a perspectiva a partir da qual a conferência deve ser abordada, por mais obscura que ela possa parecer em certos momentos.

O segmento inicial da discussão trata da imagem paulina segundo a qual os vícios formam uma espécie de “corpo do pecado”. Depois de descrever brevemente os vícios que compõem esse corpo, enumerados em Colossenses 3,5, Querêmon observa que, assim como é possível eliminar a avareza e outros vícios, também é possível erradicar a impureza de qualquer espécie. Isso, porém, não se realiza meramente pelas práticas ascéticas habituais, mas de modo particular pela graça divina, que Cassiano enfatiza várias vezes ao longo da conferência.

Quando, em 12.4.3, Querêmon fala do poderoso anseio pela castidade que deve caracterizar a pessoa que deseja possuí-la, ele recorre à linguagem do amor entre um homem e uma mulher. Trata-se de um uso interessante do princípio de compensação — notavelmente paralelo à descrição da visão da castidade em Agostinho, Confissões 8.11.27, também expressa em linguagem de desejo, e a compreensão que Cassiano tem desse princípio, como se evidencia aqui e em 12.5.3, é mais uma prova de seu fino entendimento da psicologia humana.

Querêmon prossegue dizendo que o controle da mente é a chave para o controle do corpo. O crescimento na mansidão e na paciência, especialmente, traz consigo um aumento da castidade. Mas, se alguém fosse tão insensato a ponto de ensoberbecer-se por causa de sua integridade física, a consequência certamente seria uma lembrança corporal de sua fragilidade física: isto é, fantasias noturnas seguidas de polução.

Com isso, Querêmon enumera os seis graus de castidade pelos quais alguém pode subir até a pureza perfeita. Eles vão desde não sucumbir aos ataques carnais quando se está acordado até, por fim, não sonhar com sensualidades quando se está dormindo. A existência de tais imagens, embora não seja pecaminosa, indica, no entanto, que desejos profundamente enraizados estão presentes numa pessoa; essas imagens, segundo Cassiano, dependem, quanto ao seu conteúdo, da vivência carnal - ou da falta dela - que alguém possa ter tido. Há também um sétimo grau de castidade, mas ele é tão raro e tão superior aos demais que deve ser mencionado à parte. Esse grau é a condição cuja possível obtenção já havia sido referida por Germano ao final da conferência anterior: o controle dos movimentos dos órgãos durante o sono, incluindo a polução.

Há um espaço considerável dedicado a esse nível mais elevado de castidade, e parte da discussão trata de fatores biológicos. Cassiano, em todo caso, rejeita a opinião - representada por certo Dióscoro na História dos Monges no Egito 20.2 - de que somente a natureza é responsável pelos movimentos genitais. Ao contrário, em grande parte dos casos, sua causa é um coração não purificado. “Pois o caráter de nossos pensamentos”, escreve ele de modo muito claro nas Institutas 6.11, “ao qual se dá atenção de modo bastante negligente em meio às distrações do dia, é posto à prova na calma da noite. Consequentemente, quando ocorre alguma ilusão desse tipo, a culpa não deve ser atribuída ao sono. Trata-se, antes, do resultado da negligência passada e da manifestação de uma doença oculta interiormente. Não foi a noite que primeiro lhe deu origem, mas o relaxamento do sono que a trouxe à superfície, a partir das profundezas escondidas da alma.” A natureza não deixa de agir, certamente; mas um coração puro pode reduzir movimentos desse tipo a muito poucos. É nesse contexto que Cassiano distingue, como já havia feito em Institutas 6.4.1, entre castidade e continência. A continência, afirma ele, é consequência da luta e implica um deleite persistente naquilo contra o qual se luta; por isso, dificilmente consegue governar os anseios inconscientes. A castidade, por outro lado, é amor à pureza por si mesma, que penetra até o inconsciente e pode agir para controlar até mesmo movimentos corporais involuntários. Aqueles que a possuem já não experimentam a luta entre carne e espírito. A maravilha desse estado, alcançado como resultado do dom prodigioso de Deus, só pode ser narrada por aqueles que eles mesmos o experimentaram, e deve, em última instância, ser descrita em linguagem extática.

A resposta de Germano a tudo isso é perguntar quais são os meios para adquirir tal castidade e em quanto tempo ela poderia ser adquirida. Querêmon responde mencionando algumas práticas ascéticas consagradas e enfatizando uma dependência explícita da graça. Se o ascetismo em questão for praticado, então é possível alcançar essa castidade em seis meses.

A conferência conclui-se tarde da noite com uma reafirmação dos ideais da castidade.

Diferentemente de Padres como Gregório de Nissa - cf. Sobre a Virgindade, passim -, Ambrósio - cf. Sobre as Virgens 1.3.11ss. - e Jerônimo - cf. Carta 29.95 -, para os quais a castidade é uma virtude superlativa que coloca seus praticantes em contato imediato com Deus ou com Cristo, Cassiano não fala dela nesses termos. Para ele, ela é simplesmente um meio para um fim, e não o cume da perfeição; ou, antes, é no máximo uma indicação e um acompanhamento daquela perfeição que pode ser caracterizada como amor, tranquilidade interior ou pureza de coração. Por isso, o foco de Cassiano nos movimentos da carne e nas emissões noturnas, aqui e na conferência XXII, apesar de parecer concentrar-se de modo embaraçoso em aspectos exteriores, é na verdade - como já foi sugerido acima - apenas uma discussão do mecanismo do termômetro de um estado interior. Isso fica particularmente evidente pelo que se relata em 15.10.3, onde lemos sobre a perigosa — embora hipotética — proposta que um anjo teria feito para pôr à prova a tranquilidade interior do abade Pafnúcio, uma condição que, em última análise, é entendida de modo mais amplo que a simples castidade.

De fato, a sexualidade em si mesma não é para Cassiano e para os Padres do Deserto a preocupação que às vezes se imagina - embora se possa comparar Atanásio, Carta 48, dirigida ao monge Amoun, que parece ter sido atormentado por preocupações acerca de seus movimentos involuntários. A grande preocupação monástica é, na realidade, a comida - cf. o comentário perspicaz de Peter Brown, The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity [Nova York, 1988], 213-240.

Para estudos sobre o material contido nesta conferência, e também na vigésima segunda, cf. Terrence Kardong, “John Cassian’s Teaching on Perfect Chastity”, em The American Benedictine Review 30 [1979]: 249-263; Kenneth Russell, “Cassian on a Delicate Subject”, em Cistercian Studies Quarterly 27 [1992]: 1-12; e David Brakke, “The Problematization of Nocturnal Emissions in Early Christian Syria, Egypt, and Gaul”, em JECS 3 [1995]: 419-460, especialmente 446-458.

Capítulos

I. Algumas palavras do abade Querêmon sobre a castidade.
II. O corpo do pecado e seus membros.
III. A mortificação da fornicação e da impureza.
IV. Que o intenso esforço humano é insuficiente para adquirir a pureza da castidade.
V. O valor da luta gerada em nós por nossas emoções e impulsos ferventes.
VI. Que a paciência apaga o fogo da fornicação.
VII. Sobre as diferenças e os graus da castidade.
VIII. Que os inexperientes não podem discutir a natureza da castidade e seus efeitos.
IX. Pergunta sobre se podemos evitar um movimento do corpo mesmo durante o sono.
X. Resposta: uma perturbação da carne durante o sono não causa dano à castidade.
XI. Que há grande diferença entre continência e castidade.
XII. Sobre as maravilhas que o Senhor opera especialmente em seus santos.
XIII. Que somente aqueles que a experimentam conhecem a doçura da castidade.
XIV. Pergunta sobre o caráter da continência e o tempo em que a castidade poderia ser aperfeiçoada.
XV. Resposta sobre o período de tempo necessário para reconhecer a possibilidade da castidade.
XVI. Sobre o fim e o remédio da castidade.

I. Algumas palavras do abade Querêmon sobre a castidade

Cassiano — 1. Depois de termos tomado a refeição — que, para nós, desejosos do alimento do ensino espiritual, parecia mais pesada que agradável —, o ancião compreendeu que estávamos ali aguardando que ele cumprisse sua promessa de uma conversa.

Querêmon — Estou satisfeito, disse ele, não apenas com a intensidade com que vossa mente está voltada para o aprendizado, mas também com o modo como formulastes a pergunta. Pois, de fato, observastes uma ordem razoável em vossa indagação. As recompensas imensuráveis de uma castidade perfeita e perpétua acompanharão inevitavelmente a plenitude de um amor tão elevado, e haverá igual alegria em receber duas palmas tão iguais. 2. Pois elas estão tão intimamente unidas uma à outra que uma não pode ser possuída sem a outra.

O que perguntais a esse respeito é difícil: que, num discurso semelhante, discutamos se o fogo da concupiscência, cujo calor esta carne sente como algo inato, pode ser completamente extinto. Sobre isso, devemos primeiro investigar cuidadosamente a opinião do bem-aventurado Apóstolo. “Mortificai”, diz ele, “os vossos membros que estão sobre a terra.” Antes de prosseguir, portanto, devemos investigar quais são esses membros que ele ordenou mortificar. Pois o bem-aventurado Apóstolo não nos obriga, por um mandamento cruel, a cortar nossas mãos, nossos pés ou nossos órgãos genitais. São Paulo compara o pecado a um corpo e seus membros aos vícios, ao que chama de corpo do pecado. E ele deseja que esse corpo seja destruído o quanto antes pelo zelo de uma santidade perfeita.

Ele fala desse corpo em outro lugar: “A fim de que seja destruído o corpo do pecado.” E explica em seguida em que consiste sua destruição: “Para que já não sejamos escravos do pecado.” Ele também suplica ser libertado dele quando diz, gemendo: “Infeliz homem que sou! Quem me libertará do corpo desta morte?”

II. O corpo do pecado e seus membros

1. Esse corpo do pecado, portanto, mostra-se formado pelos muitos membros dos vícios, e a ele pertence todo pecado cometido por ação, palavra ou pensamento. Seus membros são corretamente ditos estar sobre a terra. Pois aqueles que não fazem uso deles podem verdadeiramente professar: “Nossa maneira de viver está nos céus.” O Apóstolo descreve os membros desse corpo quando diz neste lugar: “Mortificai os vossos membros que estão sobre a terra: fornicação, impureza, lascívia, mau desejo e avareza, que é escravidão aos ídolos.”

  1. Ele julgou que devia mencionar em primeiro lugar a fornicação, que ocorre na união carnal. Chamou o segundo membro de impureza, que às vezes se insinua nos que dormem ou estão despertos, mesmo sem tocar uma mulher, por causa da negligência de uma mente desatenta. Por isso ela é assinalada e proibida na Lei, que não apenas privava todo impuro de comer carne consagrada, mas também ordenava que fosse colocado fora do acampamento, para que as coisas santas não fossem contaminadas pelo contato com ele. Como se diz: “Toda alma na qual houver impureza e que comer da carne do sacrifício salvífico, que pertence ao Senhor, perecerá diante do Senhor; e tudo o que uma pessoa impura tocar será impuro.”

  2. Do mesmo modo, no Deuteronômio: “Se houver entre vós um homem que tenha sido contaminado à noite, em sonho, ele sairá do acampamento e não retornará até que se tenha lavado com água ao entardecer; e, depois do pôr do sol, voltará ao acampamento.” Então, como terceiro membro do pecado, ele menciona a lascívia, que cresce nos recessos da alma e que pode ocorrer numa pessoa mesmo sem paixão corporal. Pois não há dúvida de que a lascívia toma seu nome daquilo que agrada.

  3. Depois disso, ele desce dos pecados maiores aos menores, trazendo à tona o mau desejo como quarto membro. Isso pode referir-se não apenas à paixão de impureza já mencionada, mas também, de modo geral, a toda concupiscência perversa; é a enfermidade de uma vontade corrompida. O Senhor diz a respeito disso no Evangelho: “Todo aquele que olha para uma mulher com desejo já cometeu adultério com ela em seu coração.” Pois é trabalho muito maior conter o desejo de uma mente errante quando uma imagem atraente se apresenta.

  4. Daí se prova claramente que a castidade da abstinência corporal, por si só, é insuficiente para a pureza perfeita, se não estiver presente também a integridade da mente.

Depois de todos esses, ele fala da avareza como o último membro daquele corpo, demonstrando sem dúvida que a mente deve ser preservada não apenas do desejo pelos bens alheios, mas também que os próprios bens devem ser desprezados com grandeza de alma. Pois lemos nos Atos dos Apóstolos que isso também foi feito pela multidão dos fiéis, dos quais se diz: “A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma, e ninguém dizia que algo do que possuía era seu, mas tudo lhes era comum. Pois todos os que possuíam campos ou casas os vendiam, traziam o preço daquilo que haviam vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos; e distribuía-se a cada um conforme a necessidade de cada um.” 6. E, para que essa perfeição não pareça pertencer apenas a poucos, ele declara que a avareza é escravidão aos ídolos. Não sem razão. Pois todo aquele que não contribui para as necessidades dos pobres e coloca seu próprio dinheiro — que retém com apego infiel — acima dos mandamentos de Cristo, comete o crime de idolatria, preferindo o amor dos bens mundanos ao amor divino.

III. A mortificação da fornicação e da impureza

1. Vemos que muitos abandonaram de tal modo os seus bens por causa de Cristo que nos fica claro que arrancaram para sempre de seus corações não apenas a posse do dinheiro, mas até mesmo o desejo por ele. Se isso é assim, segue-se que devemos crer que o fogo da fornicação pode ser extinto do mesmo modo. Pois o Apóstolo não teria unido algo impossível a algo possível; antes, sabendo que ambos eram possíveis, decretou que ambos fossem mortificados da mesma maneira.

  1. E o bem-aventurado Apóstolo está tão certo de que a fornicação e a impureza podem ser arrancadas de nossos membros que declara não apenas que devem ser mortificadas, mas que nem sequer devem ser mencionadas entre nós. Como ele diz: “Fornicação, toda impureza ou avareza não sejam sequer mencionadas entre vós; nem torpeza, nem insensatez, nem zombaria, coisas que não convêm.” De modo semelhante, ele também ensina que essas coisas são igualmente destrutivas e nos excluem do Reino de Deus, quando diz: 3. “Sabei isto: nenhum fornicador, impuro ou avarento — que é escravo dos ídolos — tem herança no Reino de Cristo e de Deus.” E ainda: “Não vos enganeis: nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem os que se deitam com homens, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem salteadores possuirão o Reino de Deus.”

Portanto, não deve haver dúvida de que o contágio da fornicação e da impureza pode ser eliminado de nossos membros, visto que ele não ordenou que fossem extirpados de modo diferente da avareza, da insensatez, da zombaria, da embriaguez e do roubo, que são facilmente eliminados.

IV. Que o intenso esforço humano é insuficiente para adquirir a pureza da castidade

1. Contudo, devemos estar certos de que, embora suportemos todos os rigores da abstinência — isto é, fome e sede, vigílias, trabalho constante e uma busca incessante da leitura —, ainda assim não somos capazes de adquirir, por esses esforços, a pureza perpétua da castidade, a menos que, enquanto nos exercitamos constantemente neles, sejamos ensinados pela escola da experiência que sua incorruptibilidade nos é concedida pela generosidade da graça divina.

  1. Por essa única razão, cada um deve compreender que precisa perseverar incansavelmente nessas práticas. Assim, depois de obter a misericórdia do Senhor por meio das aflições sofridas nelas, merecerá ser libertado, pelo dom divino, dos ataques da carne e do domínio dos vícios reinantes. Mas não deve crer que, por meio dessas práticas, alcançará por si mesmo a castidade corporal intacta que procura.

  2. Assim como alguém busca avidamente o dinheiro, também aquele que persegue a castidade deve arder de desejo e amor por ela. Como quem se esforça ambiciosamente pelas mais altas honras, ou como alguém tomado por um amor insuportável por uma bela mulher deseja consumar seu desejo com ardor impacientíssimo, assim também deve desejar a castidade. E acontece então que, enquanto arde de anseio insaciável pela integridade perpétua, despreza o alimento desejável, sente repugnância pela bebida necessária e rejeita até mesmo o sono exigido pela natureza; ou, ao menos, sua mente extasiada, mas vigilante, considera o sono como enganador fraudulento da pureza, invejoso e adversário da castidade. Portanto, quem a cada manhã toma consciência de sua integridade deve alegrar-se com a pureza que lhe foi concedida, compreendendo que a recebeu não por seus próprios esforços e vigilância, mas pela proteção do Senhor; e deve reconhecer que seu corpo perseverará nesse estado enquanto o Senhor misericordiosamente o permitir.

  3. Aquele que possui firmemente essa fé não confiará com soberba na consciência de sua própria virtude. Tampouco, confiante após uma prolongada continência e ausência de poluções involuntárias, será enfraquecido por uma falsa segurança; pois sabe que, se a proteção divina se afastar dele ainda que por pouquíssimo tempo, será imediatamente manchado pelos contágios da impureza. Portanto, com toda contrição e humildade de coração, deve-se rezar incessantemente pela perseverança nessa pureza.

V. O valor da luta gerada em nós por nossas emoções e impulsos ferventes

Querêmon — V.1. Mas quereis uma demonstração clara da verdade daquilo que estamos dizendo, para que possais ter certeza do que foi afirmado e aprender que essa luta corporal, que nos parece hostil e nociva, foi posta em nossos membros para nosso benefício? Considerai, por favor, aqueles que são eunucos no corpo. Não é sobretudo isto que os torna apáticos e mornos na busca da virtude: o fato de se julgarem livres do perigo de arruinar a castidade?

  1. Que ninguém, porém, julgue que eu tenha proposto isso como se afirmasse que não se possa encontrar absolutamente nenhum deles ardendo pela perfeita renúncia. O que digo é que, se acaso alguns deles se esforçam, com suma disciplina de ânimo, pela palma da perfeição que lhes é proposta, vencem de certo modo sua própria natureza. Pois o ardor e o desejo dessa perfeição, uma vez que inflamam alguém, impelem-no a suportar fome, sede, vigílias, nudez e todos os trabalhos do corpo, não apenas com paciência, mas também de boa vontade. Pois “um homem em sofrimento trabalha por si mesmo e impede à força a própria ruína.” E ainda: “À alma necessitada até as coisas amargas parecem doces.”

  2. Pois os desejos pelas coisas presentes não podem ser reprimidos nem arrancados, a menos que disposições salutares sejam introduzidas no lugar das nocivas que queremos extirpar. De modo algum a vitalidade da mente pode subsistir sem algum sentimento de desejo ou temor, alegria ou tristeza, os quais devem ser convertidos para bom uso. Portanto, se queremos expulsar de nossos corações os desejos carnais, devemos imediatamente plantar em seu lugar prazeres espirituais, para que nossa mente, sempre ligada a eles, tenha com que permanecer constantemente neles e despreze os atrativos das alegrias presentes e temporais.

  3. E quando nossa mente tiver sido exercitada pela disciplina diária e tiver chegado a esse estado, compreenderá, ensinada pela experiência, o sentido daquele versículo que todos cantamos no tom costumeiro, mas cuja força poucos homens experientes compreendem: “Mantive o Senhor sempre diante de mim; porque ele está à minha direita, não serei abalado.” Só alcançará verdadeiramente a força e a compreensão desse cântico aquele que, chegando à pureza de corpo e alma de que falamos, entende que, a cada momento, o Senhor o guarda de cair novamente dela, e que suas mãos direitas — isto é, suas obras santas — são constantemente protegidas por ele.

  4. Pois o Senhor nunca está presente aos seus santos à esquerda, porque uma pessoa santa nada tem que seja esquerdo, mas está presente à direita. Ele não é visto pelos pecadores e pelos ímpios, porque eles não possuem aquelas mãos direitas nas quais o Senhor costuma estar presente; e, por isso, não podem dizer com o profeta: “Meus olhos estão sempre voltados para o Senhor, pois ele mesmo arrancará meus pés do laço.” Ninguém poderá professar isso com verdade, senão aquele que considera tudo neste mundo como nocivo, ou desnecessário, ou ao menos inferior às virtudes mais altas, e que fixa todo o seu olhar, todo o seu esforço e toda a sua preocupação no cultivo do coração e na pureza da castidade. Assim, a mente, polida por essas práticas e refinada por seu progresso, chegará à perfeita santidade de corpo e alma.

VI. Que a paciência apaga o fogo da fornicação

1. Pois, à medida que uma pessoa progride na mansidão e na paciência do coração, também progride na pureza do corpo; e quanto mais afasta de si a paixão da ira, tanto mais firmemente conservará a castidade. Os ardores ferventes do corpo não diminuirão se antes não forem reprimidos os movimentos da mente. A bem-aventurança proclamada pela boca de nosso Salvador declara isso com toda clareza: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.”

  1. Não possuiremos nossa própria terra — isto é, a terra deste corpo rebelde não será colocada sob nosso domínio — se nossa mente não tiver sido primeiro firmada na mansidão paciente. Do mesmo modo, ninguém poderá refrear as revoltas da lascívia contra sua própria carne se antes não tiver sido armado com as armas da mansidão, pois “os mansos possuirão a terra” e “habitarão nela para sempre”. Mais adiante, nesse mesmo salmo, o mesmo profeta nos ensina de que modo adquirir essa terra: “Espera no Senhor e guarda o seu caminho, e ele te exaltará para que possuas a terra por herança.”

  2. É evidente, portanto, que ninguém pode elevar-se à posse firme dessa terra senão aqueles que, por meio de uma mansidão paciente e imutável, guardaram os difíceis caminhos do Senhor e os seus mandamentos, e foram erguidos da imundície das paixões carnais, da qual ele mesmo os tirou. “Os mansos possuirão a terra”, portanto; e não apenas a possuirão, mas também “se deleitarão na abundância da paz”. Ninguém desfrutará disso de modo duradouro enquanto em sua carne ainda se enfurecerem as batalhas da luxúria. Tal pessoa é inevitavelmente assaltada pelos ataques ferozes dos demônios e, ferida pelos dardos ardentes da dissipação, acabará perdendo a posse de sua terra, até que o Senhor “faça cessar as guerras até os confins de sua terra, destrua o arco, despedace as armas e queime os escudos no fogo”. Isto é, com aquele fogo que o Senhor veio lançar sobre a terra, ele despedaça os arcos e as armas com que os espíritos malignos, lutando dia e noite, traspassavam seu coração com os dardos ardentes das paixões.

  3. Assim, quando o Senhor tiver destruído as guerras e libertado essa pessoa de todo fervor e impulso desordenado, ela alcançará o estado de pureza. Então, não mais perturbada pelo horror que sentia de si mesma — isto é, de sua própria carne — quando era assaltada, começará a deleitar-se nela como no mais puro tabernáculo, pois “nenhum mal lhe acontecerá, e nenhum flagelo se aproximará de sua tenda”. Pela virtude da paciência, ela cumprirá essa profecia, de modo que, graças à sua mansidão, não apenas possuirá sua terra, mas também “se deleitará na abundância da paz”.

  4. Mas, onde ainda há incerteza quanto à luta, não pode haver abundância de paz. Pois não se diz que eles se deleitarão na paz, mas “na abundância da paz”. Daí se torna bastante evidente que o remédio mais eficaz do coração é a paciência. Segundo as palavras de Salomão: “O homem manso é médico do coração.” E isso é tão verdadeiro que ela arranca pela raiz não apenas todos os vícios da ira, da tristeza, da acídia, da vanglória e da soberba, mas também, juntamente com eles, o da lascívia. Pois, como diz Salomão: “Na longanimidade está a prosperidade dos reis.” Quem é sempre manso e tranquilo não se inflama com a perturbação da ira, nem é consumido pela angústia da acídia e da tristeza, nem se distrai com a vaidade da vanglória, nem se eleva pelo inchaço da soberba. Pois “há muita paz para os que amam o nome do Senhor, e para eles não há tropeço”.

  5. Portanto, declara-se com razão: “Melhor é o paciente que o forte, e aquele que domina sua ira, melhor que aquele que conquista uma cidade.” Enquanto não merecermos adquirir essa paz firme e perpétua, seremos inevitavelmente assaltados por numerosos ataques e repetiremos com frequência, entre gemidos e lágrimas, este versículo: “Tornei-me miserável e estou aflito sem medida. Todo o dia andei entristecido, pois meus rins estão cheios de ilusões.” E ainda: “Não há saúde em minha carne diante da tua ira. Não há paz em meus ossos diante da minha insensatez.”

  6. Lamentaremos essas coisas bem e verdadeiramente quando, depois de uma longa pureza do corpo e depois de esperar que já tivéssemos escapado completamente do contágio carnal, virmos que os impulsos da carne novamente se levantam contra nós por causa da soberba do coração, ou mesmo que a impureza de uma antiga emissão nos mancha por meio de sonhos enganosos. Pois, quando alguém começa a alegrar-se por um longo período de pureza de coração e de corpo, crendo que já não pode cair desse estado virtuoso, certamente se vangloriará de algum modo dentro de si e dirá: 8. “Eu disse em minha prosperidade: jamais serei abalado.” Mas, quando, abandonado pelo Senhor para seu próprio bem, perceber que o estado de pureza no qual confiava o está abandonando, e vir que vacila em seu progresso espiritual, volte imediatamente ao Autor de sua integridade. Reconhecendo sua fragilidade, confesse e diga: “Senhor, não em minha vontade, mas na tua, deste força à minha beleza. Desviaste de mim o teu rosto, e fiquei perturbado.” Há também as palavras do bem-aventurado Jó: “Ainda que eu me lavasse com água de neve e minhas mãos brilhassem imaculadas, ainda assim tu me mergulharias na imundície, e minhas vestes teriam horror de mim.”

  7. Mas aquele que se mergulhou na imundície por sua própria pecaminosidade não poderia dizer isso ao seu Criador. Portanto, até que uma pessoa chegue ao estado de perfeita pureza, deve ser frequentemente exercitada por essas oscilações, até que, confirmada pela graça de Deus na pureza que procura, seja digna de dizer com verdade: “Esperei, esperei pelo Senhor, e ele se inclinou para mim e ouviu a minha súplica. Tirou-me do poço da miséria e do lamaçal. Pôs meus pés sobre a rocha e guiou meus passos.”

VII. Sobre as diferenças e os graus da castidade

1. Muitos são, pois, os graus da castidade pelos quais se pode subir até a pureza inviolável. Embora nossa capacidade seja insuficiente para distingui-los e falar deles como merecem, ainda assim, já que o plano de nosso discurso o exige, tentaremos expô-los do melhor modo que pudermos, na medida de nossa pequena experiência. Deixaremos aos perfeitos as coisas mais perfeitas e não nos apressaremos em formar juízo sobre aqueles que, graças a esforços mais fervorosos, possuem uma castidade mais pura e se distinguem pela força de sua clareza de visão, tanto mais quanto mais zelosos são.

  1. Assim, embora haja grande diferença de sublimidade entre os graus, eu distinguiria seis altos cumes da castidade. Omitirei, porém, os graus intermediários, que são numerosos e cuja sutileza escapa de tal modo à compreensão humana que nem a mente pode apreendê-la nem a língua expressá-la. Por eles, a perfeição da castidade cresce gradualmente e por progresso diário. Pois a força da alma e a castidade madura são adquiridas à semelhança dos corpos terrenos, que crescem imperceptivelmente de dia para dia e assim alcançam, sem o perceber, seu estado próprio.

  2. O primeiro grau da castidade, portanto, é que o monge não seja vencido por ataques carnais enquanto está acordado. O segundo é que sua mente não se demore em pensamentos prazerosos. O terceiro é que ele não seja movido ao desejo, nem mesmo levemente, ao olhar para uma mulher. O quarto é que, enquanto acordado, não permita nenhum movimento da carne, ainda que simples. O quinto é que, quando uma discussão ou alguma leitura necessária evoca o pensamento do ato procriativo da geração humana, não venha à mente nenhum consentimento, mesmo muito sutil, à ação prazerosa. Antes, deve contemplá-la com o olhar de um coração tranquilo e puro, como uma espécie de ato simples e como um ministério inevitavelmente pertencente à natureza humana. E não deve fazer dessa recordação nada além disso, considerando-a como pensaria na fabricação de tijolos ou em qualquer outro trabalho.

  3. O sexto grau da castidade é que ele não seja enganado, nem mesmo durante o sono, pelas imagens sedutoras de mulheres. Pois, embora não creiamos que esse engano inconsciente seja pecado, ele é, contudo, sinal de um desejo ainda profundamente enraizado. É evidente que esse engano pode ocorrer de vários modos. Pois cada pessoa é tentada, mesmo durante o sono, de acordo com o modo como se comporta e pensa enquanto está acordada. Aqueles que conheceram o trato carnal são desviados de um modo; aqueles que não tiveram parte na união com uma mulher, de outro. Estes últimos costumam ser perturbados por sonhos mais simples e mais puros, de tal modo que podem ser purificados mais facilmente e com menor esforço.

  4. Os primeiros, porém, são enganados por imagens mais impuras e mais explícitas, até que, gradualmente e segundo a medida da castidade pela qual cada um se esforça, até mesmo a mente adormecida aprenda a odiar aquilo que antes achava prazeroso; e, por meio do profeta, o Senhor lhe conceda aquilo que foi prometido aos homens corajosos como o mais alto prêmio de seus trabalhos: “Destruirei o arco, a espada e a guerra de tua terra, e farei com que durmas em segurança.”

  5. E assim, finalmente, a pessoa chegará à pureza própria de nosso bem-aventurado Sereno e de alguns outros homens semelhantes a ele. Eu a separei dos seis graus de castidade anteriormente mencionados porque ela não apenas não pode ser possuída, mas nem sequer pode ser acreditada, senão por pessoas extraordinárias; e porque aquilo que lhe foi concedido em particular pela bondade do dom divino não pode ser proposto como uma espécie de preceito geral: isto é, que nossa mente seja de tal modo marcada pela pureza da castidade que até mesmo o movimento natural da carne tenha morrido e não se produza absolutamente nenhuma emissão impura.

  6. De modo algum devo silenciar a opinião de alguns, os quais, a respeito dessa ocorrência da carne, dizem que ela não sobrevém aos que dormem por ser produzida pelo engano dos sonhos, mas antes porque o excesso e o acúmulo dessa substância corporal fazem surgir certas imagens sedutoras num coração enfermo. Dizem, por fim, que, quando cessa a emissão, também se aquieta a ilusão, pois já não há aquele acúmulo que inquieta a carne.

VIII. Que os inexperientes não podem discutir a natureza da castidade e seus efeitos

1. Mas ninguém pode conceber essas coisas, prová-las e saber com certeza se são possíveis ou impossíveis, senão aquele que, por longa experiência e pureza de coração, chegou aos limites da carne e do espírito sob a condução da palavra do Senhor. A esse respeito, diz o bem-aventurado Apóstolo: “A palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito, das juntas e das medulas, discernindo os pensamentos e as intenções do coração.”

  1. E assim, colocado de certo modo nos limites dessas realidades, cada um discernirá, como observador e juiz, por uma justa ponderação, o que pertence necessária e inevitavelmente à condição humana e o que foi introduzido pelo mau costume e pela negligência da juventude. Quanto ao efeito e à natureza dessas coisas, o monge não se deixará levar pelas falsas opiniões do vulgo; antes, pesando a medida da pureza na balança segura de sua própria experiência e por um exame justo, de modo algum será enganado pelo erro daqueles que, manchados por ocorrências mais frequentes do que a natureza exige, em razão do vício de sua própria negligência, lançam a culpa sobre a condição natural. O inexperiente os vê falar em termos da força da natureza e dela extrair, por distorção, uma contaminação da qual ela não é responsável, atribuindo sua própria imoderação à necessidade da carne, ou melhor, ao seu Criador, e transformando suas próprias faltas em vergonha da natureza. 3. Sobre essas pessoas, expressa-se bem o livro dos Provérbios: “A insensatez do homem corrompe seus caminhos, mas ele culpa Deus em seu coração.”

Se alguém não consegue dar crédito ao que eu disse, peço que não discuta conosco a partir de uma posição preconcebida antes de assumir os institutos desta disciplina. E, quando os tiver observado por pouquíssimos meses, com a moderação costumeira, certamente poderá fazer um juízo responsável sobre aquilo de que falamos. Mas todo aquele que antes não buscou, com o maior esforço e vigor, tudo o que pertence ao domínio de uma determinada arte ou disciplina, lutará em vão para possuí-la plenamente.

  1. É como se eu, por exemplo, afirmasse que do grão se pode produzir algo semelhante ao mel, assim como das sementes de rabanete e de linho se extrai um óleo suavíssimo. Se estivesse presente alguém completamente ignorante desse processo, não clamaria ele que isso contraria a natureza das coisas? Não riria de mim como autor de uma mentira evidente?

Suponhamos, então, que eu apresentasse diante dele inúmeras testemunhas, dizendo que viram, provaram e realizaram isso; e que, além disso, explicasse o método e o modo pelo qual tais substâncias são transformadas na riqueza do óleo ou na doçura do mel. Se, mesmo assim, ele persistisse na obstinação de sua opinião insensata e negasse que daquelas sementes pudesse ser produzido algo doce ou oleoso, sua contestação irracional e teimosa não seria mais espantosa do que risível a verdade do que eu disse? Pois essa verdade estaria confirmada pelo peso do testemunho de muitas pessoas dignas de fé, por documentos claros e, mais ainda, pela prova da experiência.

  1. Portanto, quando uma pessoa, pela atenção constante do coração, chega ao estado de pureza em que sua mente já está completamente livre da excitação dessa paixão, mas sua carne expele durante o sono algo como um excesso de sua substância, ela reconhecerá com absoluta certeza que é a natureza que está agindo. Assim, quando acordar e descobrir que sua carne foi contaminada depois de muito tempo, sem que tivesse tido qualquer consciência disso, então — e somente então — atribua isso às necessidades da natureza. Sem dúvida, ele chegou ao estado em que é o mesmo de noite e de dia; o mesmo na leitura e na oração; o mesmo sozinho e cercado por multidões; de modo que, enfim, nunca se vê em segredo de uma forma pela qual se envergonharia de ser visto pelos homens, e aquele olhar inevitável não vê nele nada que ele desejaria ocultar do olhar humano.

  2. E assim, depois que tiver começado a deleitar-se constantemente na dulcíssima luz da castidade, poderá dizer com o profeta: “Até a noite se ilumina em minhas delícias. Pois, para ti, as trevas não são escuras, e a noite brilha como o dia; para ti, as trevas e a luz são a mesma coisa.” Em seguida, o mesmo profeta acrescenta de que modo isso pode ser adquirido, já que parece ultrapassar a condição da natureza humana, e diz: “Pois tu possuíste os meus rins.” Isto é: não mereci essa pureza por meu próprio esforço ou virtude, mas porque tu extinguistes o fogo do prazer lascivo que estava implantado em meus rins.

IX. Pergunta sobre se podemos evitar um movimento do corpo mesmo durante o sono

Germano — Experimentamos que, de algum modo, a pureza perpétua do corpo pode, de fato, ser possuída pelos que estão acordados, pela graça de Deus; e não negamos que seja possível aos vigilantes evitar uma perturbação da carne, por força de rigorosa disciplina e da determinação de resistir a ela. Mas queremos saber se também podemos estar livres dessa perturbação enquanto dormimos. Não cremos que isso seja possível por duas razões. Embora não possamos exprimi-las sem vergonha, contudo, já que a necessidade do remédio o exige, pedimos que nos perdoes se forem ditas com alguma falta de pudor.

A primeira razão é que a chegada furtiva dessa perturbação jamais pode ser observada durante o repouso do sono, quando se relaxa a vigilância da mente. Em segundo lugar, porque o acúmulo da urina, enquanto repousamos, enche a bexiga por um fluxo contínuo vindo do interior e excita os membros relaxados — o que, pela mesma lei, acontece igualmente às crianças e aos eunucos. Daí sucede que, ainda que o prazer lascivo não prejudique o consentimento da mente, a desordem dos membros a humilha por sua baixeza.

X. Resposta: uma perturbação da carne durante o sono não causa dano à castidade

Querêmon — X.1. Parece que ainda não reconhecestes a virtude da verdadeira castidade, pois acreditais que ela pode ser conservada apenas pelos que estão acordados, com o auxílio de uma disciplina rigorosa. Por isso julgais que a integridade não pode ser preservada pelos que dormem, como se ela dependesse de uma mente rigidamente determinada. Mas a castidade não subsiste — como pensais — graças a uma defesa rigorosa, e sim pelo amor a ela mesma e pelo deleite em sua própria pureza. Pois, quando o prazer iníquo ainda oferece alguma resistência, já não se trata de castidade, mas de continência.

  1. Vede, portanto, que a interrupção do rigor e da vigilância durante o período do sono não prejudica aqueles que, pela graça de Deus, receberam interiormente a disposição da castidade. Essa defesa rigorosa mostra-se, com toda certeza, pouco confiável mesmo nos que estão acordados. Pois, quando algo é contido com esforço, o alívio oferecido ao combatente é apenas temporário, e depois do esforço ainda não há paz duradoura e segura. Mas, quando algo foi vencido por uma virtude profundamente enraizada, há uma calma sem nenhum sinal de perturbação, e ao vencedor é concedida uma paz estável e firme.

  2. Por isso, enquanto sentimos que somos afligidos por uma perturbação da carne, sabemos que ainda não chegamos aos cumes da castidade, mas continuamos trabalhando sob uma continência frágil, envolvidos em combates cujo resultado é sempre inevitavelmente incerto.

Quisestes, porém, estabelecer que a perturbação da carne é inevitável, e fazê-lo a partir deste fato: que os próprios eunucos, privados dos órgãos geradores, não conseguem estar livres dela. Deve-se saber que a eles não lhes faltam nem os fervores da carne nem os efeitos da luxúria, mas apenas a capacidade de geração. 4. Portanto, é claro que também eles não devem relaxar a humildade, a contrição do coração e o rigor da continência, se desejam alcançar a castidade pela qual nos esforçamos, ainda que não se deva de modo algum duvidar que possam apoderar-se dela com menor esforço e trabalho.

XI. Que há grande diferença entre continência e castidade

1. Por essa razão, a castidade perfeita se distingue dos primeiros e laboriosos exercícios da continência por sua tranquilidade perpétua. Pois esta é a consumação da verdadeira castidade: não combater os movimentos da concupiscência carnal, mas detestá-los com total horror, conservando para si uma pureza constante e inviolável. E isso não pode ser outra coisa senão santidade.

Mas, uma vez que a carne deixou de cobiçar contra o espírito e se submeteu aos seus desejos e à virtude, ambos começam a unir-se mutuamente por uma paz firmíssima e habitam como “irmãos em unidade”, segundo as palavras do salmista. Possuem a bênção prometida pelo Senhor, da qual ele diz: “Se dois de vós estiverem de acordo sobre a terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus. Portanto, todo aquele que ultrapassar o grau daquele Jacó espiritual — isto é, daquele que suplanta os vícios — subirá, pela firme orientação do coração, do combate da continência à dignidade de Israel, depois que o nervo de sua coxa tiver sido enfraquecido.

Também o bem-aventurado Davi, pela ação profética do Espírito Santo, distinguiu essa ordem das coisas quando disse primeiro: “Deus é conhecido em Judá” — isto é, na alma que ainda está retida sob a confissão do pecado, pois Judá significa confissão. Mas “em Israel” — isto é, naquele que vê Deus ou, como alguns interpretam, no justíssimo de Deus — ele não apenas é conhecido, mas também “seu nome é grande”. 3. Em seguida, chama-nos a coisas mais sublimes e deseja mostrar-nos o lugar no qual o Senhor se compraz, dizendo: “Seu lugar está na paz” — isto é, não no combate da luta e na batalha contra o vício, mas na paz da castidade e na tranquilidade perpétua do coração. Se alguém mereceu chegar a esse lugar de paz pela extinção de suas paixões carnais, avançando a partir desse grau tornar-se-á uma Sião espiritual — isto é, a contemplação de Deus — e será também sua morada. Pois o Senhor não habita na luta da continência, mas na contemplação contínua da virtude. Ali ele já não resiste nem reprime a força dos arcos de onde outrora eram lançados contra nós os dardos ardentes da lascívia; antes, destrói-os para sempre.

  1. Vedes, portanto, que o lugar do Senhor não está na batalha da continência, mas na paz da castidade, de modo que sua morada está na contemplação e na observação da virtude. Por isso, não sem razão, as portas de Sião são preferidas a todas as tendas de Jacó, pois “o Senhor ama as portas de Sião mais do que todas as tendas de Jacó”.

Afirmastes que a perturbação da carne é inevitável porque a urina, depois de encher a bexiga por um fluxo contínuo, levanta os membros adormecidos. Contudo, essa perturbação não impede os verdadeiros aspirantes à pureza de adquiri-la, uma vez que é provocada apenas por uma necessidade ocasional, e mesmo assim somente durante o sono. Deve-se saber, porém, que, se eles forem perturbados, podem ser reconduzidos à quietude que lhes convém pelo comando da castidade, de tal modo que se acalmem não apenas sem nenhuma sensação de excitação, mas nem sequer com alguma lembrança de concupiscência.

  1. Portanto, para que a lei do corpo se conforme à lei da mente, deve-se moderar até mesmo o excesso de água bebida, a fim de que a quantidade diária de líquido, chegando mais lentamente aos membros, torne aquele movimento corporal — que julgais inevitável — não apenas extremamente raro, mas também frio e entorpecido. Assim será à maneira daquela admirável visão de Moisés: a sarça de nossa carne, cercada por um fogo inofensivo, não se queimará. Ou ainda como aconteceu com os três jovens: as chamas da fornalha caldeia foram de tal modo dissipadas pelo orvalho do Santo Espírito que nem o odor do fogo tocou seus cabelos ou as bordas de suas vestes. Assim começaremos, de algum modo, a possuir neste corpo aquilo que é prometido aos santos pelo profeta: “Quando passares pelo fogo, não te queimarás, e as chamas não arderão em ti.”

XII. Sobre as maravilhas que o Senhor opera especialmente em seus santos

Estas coisas grandes e verdadeiramente maravilhosas, completamente desconhecidas por todos, exceto por aqueles que as experimentaram, são concedidas com generosidade inefável pelo Senhor aos seus fiéis, ainda enquanto vivem neste vaso de corrupção. O profeta, resplandecendo em sua pureza de espírito, proclama isso tanto em sua própria pessoa quanto na pessoa daqueles que chegam a esse estado e disposição: “Maravilhosas são as tuas obras, e minha alma as conhece profundamente.” Tal declaração do profeta passaria despercebida, e nada teria de novo ou grandioso, se ele se referisse apenas às coisas criadas ou a alguma disposição comum do coração.

  1. Pois não há ninguém que, contemplando a grandeza da criação, não saiba que as obras de Deus são maravilhosas. Portanto, o profeta não se refere aqui aos feitos exteriores de Deus, mas àquela obra que ele realiza todos os dias no íntimo de seus santos e que derrama neles por sua generosidade particular. Essa operação interior ninguém conhece senão a alma que dela desfruta. E essa alma, no segredo de sua consciência, é a única testemunha dessas graças: elas são tão íntimas e elevadas que ela não consegue exprimi-las por palavras; e, quando desce daquele fervor inflamado para a consideração das coisas materiais e terrenas, já nem sequer consegue abrangê-las plenamente pelo pensamento.

  2. Pois quem não se admiraria das obras do Senhor em si mesmo, ao ver que a voracidade insaciável do ventre e o luxo suntuoso e ruinoso da gula foram nele tão reprimidos que mal consente em tomar, raramente e quase contra a vontade, uma pequena porção de alimento simples e sem sabor? Quem não ficaria mudo de espanto diante das obras de Deus ao perceber que o fogo da lascívia, que antes julgava natural e como que inextinguível, tornou-se tão frio que ele já não se sente excitado nem sequer por um simples movimento do corpo? Como alguém não tremeria diante do poder do Senhor ao ver que certos homens, antes duros e cruéis, que se inflamavam no mais alto furor da ira até mesmo quando seus subordinados os tratavam com a maior cortesia, passaram a tamanha mansidão que não apenas já não se perturbam com nenhuma injúria, mas até se alegram, com suma grandeza de alma, quando as sofrem?

  3. Quem não se admiraria plenamente das obras de Deus e não clamaria com todo o seu ser: “Sei que o Senhor é grande”, ao ver a si mesmo, ou a algum outro, passar de avarento a generoso, de devasso a continente, de soberbo a humilde, de delicado e mimado a pobre, desapegado e rústico, suportando até voluntariamente a indigência e a escassez das coisas presentes?

Estas são verdadeiramente as obras maravilhosas de Deus, que a alma do profeta e de outros semelhantes a ele conhece de modo especial pelo olhar silencioso de uma contemplação admirada. Estes são os prodígios que ele realizou sobre a terra, e que o mesmo profeta, refletindo sobre eles, convida todos a admirar quando diz: “Vinde e vede as obras de Deus, os prodígios que ele realizou sobre a terra, fazendo cessar as guerras até os confins da terra. Ele destrói o arco, despedaça as armas e queima os escudos no fogo.”

  1. Que prodígio poderia ser maior do que, em pouco tempo, publicanos avarentos tornarem-se apóstolos, e perseguidores cruéis serem transformados em pregadores pacientíssimos do Evangelho, a ponto de propagarem, até o derramamento do próprio sangue, a fé que antes perseguiam? Estas são as obras de Deus que o Filho declara realizar todos os dias juntamente com o Pai, quando diz: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho.” O bem-aventurado Davi, cantando em espírito, diz dessas obras de Deus: “Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel, que sozinho realiza grandes maravilhas.” O profeta Amós diz a respeito delas: “Ele faz todas as coisas e as transforma. Ele muda a sombra da morte em manhã.” É isto, com efeito, a “mudança da direita do Altíssimo”.

  2. A respeito dessa obra salvífica de Deus, o profeta ora ao Senhor e diz: “Confirma, ó Deus, aquilo que realizaste em nós.”

Deixo de lado aquelas secretas e ocultas dispensações de Deus, que a mente de cada santo vê agir de modo especial dentro de si em determinados momentos; deixo de lado aquela efusão celeste de alegria espiritual, pela qual a mente abatida é elevada por uma alegria inspirada; deixo de lado aqueles êxtases inflamados do coração e as consolações alegres, ao mesmo tempo inefáveis e inauditas, pelas quais aqueles que às vezes caem num torpor sem vigor são despertados, como de um sono profundíssimo, para a oração mais fervorosa.

  1. Esta é, de fato, a alegria da qual o bem-aventurado Apóstolo diz: “O olho não viu, o ouvido não ouviu, nem subiu ao coração do homem” — isto é, daquele que ainda é um homem entorpecido pelos vícios terrenos, preso aos sentimentos humanos e incapaz de ver qualquer coisa dos dons de Deus. Em seguida, o mesmo Apóstolo, falando tanto por si mesmo quanto por aqueles que lhe são semelhantes, os quais já haviam rompido com o modo humano de viver, acrescenta: “Mas Deus nos revelou isso por seu Espírito.”

XIII. Que somente aqueles que a experimentam conhecem a doçura da castidade

1. Em todos esses casos, portanto, quanto mais a mente tiver avançado para uma pureza mais refinada, tanto mais sublimemente verá Deus; e crescerá em admiração dentro de si mesma, mais do que encontrará capacidade de falar disso ou palavra para explicá-lo. Pois, assim como aquele que não experimentou essas coisas não poderá apreender em sua mente a força dessa alegria, também aquele que a experimentou não poderá explicá-la por palavras. É como se alguém quisesse descrever com palavras a doçura do mel a uma pessoa que jamais provou algo doce. Um deles, de fato, não perceberá pelos ouvidos o sabor agradável que nunca teve na boca; o outro, por sua vez, não conseguirá indicar por palavras a doçura que seu paladar conhece por seu próprio deleite. Somente pelo conhecimento pessoal dessa doçura atraente poderá admirar silenciosamente, dentro de si, o sabor agradável que experimentou.

  1. Portanto, aquele que mereceu chegar ao estado de virtude de que falamos, depois de examinar no silêncio de sua mente tudo o que o Senhor opera naqueles que lhe pertencem por sua graça especial, e inflamado pela contemplação admirada de todas essas coisas, clamará com o mais profundo afeto do coração: “Maravilhosas são as tuas obras, e minha alma as conhece profundamente.” Esta é, pois, a obra admirável de Deus: que um homem carnal, vivendo na carne, rejeite os desejos carnais; que conserve um só estado de alma em meio a tantas ocupações e assaltos diversos; e que permaneça imutável em toda circunstância mutável.

  2. Certa vez, um ancião exercitado nessa virtude estava em Alexandria e foi cercado por uma multidão de infiéis. Enquanto o empurravam, era atacado não apenas com injúrias, mas até com gravíssimos insultos. Seus zombadores lhe diziam: “Que milagre realizou o vosso Cristo, a quem adorais?” Ele respondeu: “O milagre de eu não me perturbar nem me ofender com estes insultos, nem com outros ainda maiores, se os fizerdes.”

XIV. Pergunta sobre o caráter da continência e o tempo em que a castidade poderia ser aperfeiçoada

Germano — Visto que a admiração por esta castidade — não humana nem terrena, mas claramente celeste e angélica — nos deixa tão subitamente atônitos e maravilhados que nos inspira mais um terrível desalento do que estimula nossa mente a pedi-la para si, rogamos que nos ensines, com a instrução mais ampla possível, qual é o caráter dessa disciplina e qual o tempo em que ela pode ser adquirida e aperfeiçoada. Assim poderemos crer que isso pode ser alcançado e, depois de algum tempo, ser animados a pedi-lo.

Pois somos de certo modo da opinião de que isso é inalcançável para aqueles que habitam nesta carne, a menos que nos seja indicado algum método e caminho pelo qual se possa chegar a ela com segurança.

XV. Resposta sobre o período de tempo necessário para reconhecer a possibilidade da castidade

Querêmon — 1. É bastante temerário fixar um prazo determinado para alcançar essa castidade de que falamos, sobretudo porque há grande diversidade de vontades e de forças. Isso não pode ser facilmente determinado nem mesmo nas artes materiais e nas disciplinas visíveis. Pois, necessariamente, cada um as apreende mais depressa ou mais devagar, conforme a atenção de sua mente e a natureza de suas capacidades. Contudo, podemos estabelecer com firmeza uma forma de disciplina e um período dentro do qual sua possibilidade possa ser reconhecida.

  1. Portanto, aquele que se retirou de toda conversa inútil; que mortificou toda ira, inquietação e cuidado mundano; que se contenta com apenas dois pães para sua refeição diária; que não bebe água até a saciedade; que desperta depois de três horas de sono ou, como outros estabeleceram, depois de quatro horas; e, contudo, não acredita que obterá essa castidade por causa desses esforços ou dessa continência, mas antes pela misericórdia do Senhor — pois, sem essa fé, todo esforço humano intenso é vão —, esse saberá, em não mais de seis meses, que a perfeição dessa virtude não lhe é impossível.

  2. Começar a não esperá-la por seus próprios esforços laboriosos é sinal claro de que a pureza já está próxima. Pois, se alguém compreendeu verdadeiramente a força daquele versículo: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam”, segue-se que não deve gloriar-se dos méritos de sua pureza, já que reconhece tê-la obtido não por seu próprio trabalho, mas pela misericórdia do Senhor. Tampouco deve mover-se contra os outros com severidade áspera, pois sabe que não há virtude humana alguma se a virtude divina não a tiver ordenado.

XVI. Sobre o fim e o remédio da castidade

1. Portanto, para cada um de nós que combate com todas as suas forças contra o espírito de fornicação, já é uma vitória notável não esperar alívio por seus próprios esforços. Embora essa convicção pareça fácil e evidente a todos, é alcançada pelos principiantes com tanta dificuldade quanto a própria perfeição da castidade. Pois, quando a pureza lhes sorri ainda que minimamente, logo se lisonjeiam no íntimo da consciência por uma soberba que se insinua sutilmente, julgando que a alcançaram por seu próprio zelo diligente. Por isso, é necessário que sejam pouco a pouco privados da proteção celeste e oprimidos por aquelas paixões que a virtude divina havia extinguido, até que aprendam pela experiência que não podem obter o bem da pureza por suas próprias forças e trabalhos.

  1. E, para concluirmos brevemente nosso discurso, que se prolongou por toda a noite, sobre o fim da plenitude da castidade, reunamos agora tudo o que foi dito longamente e de modo disperso. Esta é a consumação da castidade: que nenhum prazer lascivo toque o monge enquanto está acordado, e que nenhum sonho enganoso o desvie enquanto dorme; mas, se uma perturbação da carne se insinuar durante o sono, apenas por descuido de uma mente fatigada, então, assim como surgiu sem qualquer excitação prazerosa, também retorne à calma sem nenhuma sensualidade corporal.

  2. Expusemos estas coisas sobre o fim da castidade conforme pudemos, tendo não as palavras, mas a experiência como mestra. Embora eu pense que talvez sejam consideradas impossíveis pelos preguiçosos e negligentes, estou certo, contudo, de que serão acolhidas e aprovadas pelos homens zelosos e espirituais. Pois, assim como os homens diferem entre si, também diferem as coisas para as quais suas mentes se inclinam: o céu e o inferno, Cristo e Belial, conforme as palavras do Senhor Salvador: “Se alguém me serve, siga-me; e onde eu estou, ali estará também o meu servo.” E ainda: “Onde está o teu tesouro, ali estará também o teu coração.”

Cassiano – 4. Até aqui falou o bem-aventurado Querêmon sobre a castidade perfeita; e com palavras desse tipo concluiu seu admirável ensinamento sobre a pureza mais sublime. Em seguida, persuadiu-nos, atônitos e ansiosos como estávamos, a não privar nossos membros do alimento natural do sono, pois a maior parte da noite já havia passado e, pouco a pouco, tornara-se mais silenciosa. Caso contrário, também a mente, fatigado pelo torpor de seu corpo, perderia seu vigor santo e intenso.

Notas e referências da Conferência XII

  1. Referências bíblicas principais: Cl 3:5; Rm 6:6; Rm 6:7; Rm 7:24; Fl 3:20; Lv 7:20-21; Dt 23:10-11; Mt 5:28; At 4:32-35; Ef 5:3-5; 1 Cor 6:9-10; Sl 16:8; Sl 25:15; Mt 5:5; Sl 37; Sl 119:165; Sl 30:6-7; Jó 9:30-31; Sl 40:1-2; Hb 4:12; Pr 19:3; Sl 139; Mt 18:19; Sl 76; Sl 87; Is 43:2; Jo 5:17; Am 5:8; 1 Cor 2:9-10; Jo 12:26; Mt 6:21.

  2. Referências cruzadas internas: a Conferência XII desenvolve a distinção entre continência e castidade já formulada na Instituta VI, IV; retoma a doutrina de Instituta VI, XI, sobre a relação entre pensamentos diurnos e sonhos noturnos; e prepara a Conferência XXII, especialmente no tema da emissão noturna e da comunhão.

  3. Nota editorial: a lista de títulos capitulares da Conferência XII foi fornecida a partir da edição inglesa e vertida para o português nesta organização.

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Quadro de referências cruzadas

Tema

Instituta VI

Conferência XII

Castidade e continência

IV, XV-XVI

X-XI

Pureza do coração e corpo

I-II, IX-XIII

IV-VIII

Ilusões noturnas

X-XI, XX-XXIII

VII-XI

Jejum e moderação

II-III, VII-VIII, XXIII

IV, XV

Graça divina

V-VI, XVIII

IV, XV-XVI

Humildade

I, XVIII, XXIII

IV, VI, XV-XVI

Comunhão/Eucaristia

VIII

tema preparado indiretamente

Pecado, santidade e impecabilidade

XV-XVI

XI-XIII

Observação final

Este volume foi organizado como instrumento de leitura contínua. A Instituta VI apresenta o fundamento ascético; a Conferência XII desenvolve a psicologia espiritual da castidade.