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Prefácio

Como diz o Filósofo na Metafísica I (980b26), “a raça humana vive pela arte e pelos raciocínios”. Nesta afirmação, o Filósofo parece tocar naquela propriedade pela qual o homem difere dos outros animais. Pois os outros animais são levados a seus atos por um impulso natural, mas o homem é dirigido em suas ações por um juízo da razão. E esta é a razão pela qual existem várias artes dedicadas à realização pronta e ordenada dos atos humanos. Pois uma arte parece nada mais ser do que um procedimento definido e fixo estabelecido pela razão, pelo qual os atos humanos alcançam seu devido fim através de meios apropriados.

Ora, a razão não é apenas capaz de dirigir os atos das potências inferiores, mas também é diretora de seu próprio ato: pois o que é peculiar à parte intelectiva do homem é sua capacidade de refletir sobre si mesma. Pois o intelecto conhece a si mesmo. De modo semelhante, a razão é capaz de raciocinar sobre seu próprio ato. Portanto, assim como a arte de construir ou de carpintaria, através da qual o homem é capacitado a realizar atos manuais de maneira fácil e ordenada, surgiu do fato de a razão raciocinar sobre atos manuais, da mesma forma uma arte é necessária para dirigir o ato de raciocinar, de modo que, por ela, um homem, ao realizar o ato de raciocinar, possa proceder de maneira ordenada e fácil e sem erro. E esta arte é a lógica, i.e., a ciência da razão. E ela diz respeito à razão não apenas porque está de acordo com a razão, pois isso é comum a todas as artes, mas também porque está preocupada com o próprio ato de raciocinar como com sua matéria própria. Portanto, parece ser a arte das artes, porque nos dirige no ato de raciocinar, do qual todas as artes procedem.

Consequentemente, deve-se considerar as partes da lógica de acordo com a diversidade entre os atos da razão.

Ora, há três atos da razão, os dois primeiros dos quais pertencem à razão considerada como intelecto. Uma ação do intelecto é o entendimento das coisas indivisíveis ou incomplexas, e de acordo com esta ação ele concebe o que uma coisa é. E esta operação é chamada por alguns de informação do intelecto, ou representação por meio do intelecto. A esta operação da razão está ordenada a doutrina que Aristóteles transmite no livro dos Predicamentos, [i.e., Categorias]. A segunda operação do intelecto é seu ato de compor ou dividir, no qual o verdadeiro ou o falso estão presentes pela primeira vez. E este ato da razão é o sujeito da doutrina que Aristóteles transmite no livro intitulado Sobre a Interpretação. Mas o terceiro ato da razão diz respeito àquilo que é peculiar à razão, a saber, avançar de uma coisa a outra de tal maneira que, através do que é conhecido, o homem chega ao conhecimento do desconhecido. E este ato é considerado nos livros restantes da lógica.

Deve-se notar que os atos da razão são, em certo sentido, não diferentes dos atos da natureza: portanto, na medida do possível, a arte imita a natureza. Ora, nos atos da natureza observamos uma tríplice diversidade. Pois em alguns deles a natureza age por necessidade, i.e., de tal modo que não pode falhar; em outros, a natureza age de modo a ter sucesso na maioria das vezes, embora de vez em quando falhe em seu ato. Daí que, neste último caso, deve haver um ato duplo: um que tem sucesso na maioria dos casos, como quando a partir da semente é gerado um animal perfeito; o outro quando a natureza falha em relação ao que lhe é apropriado, como quando a partir da semente algo monstruoso é gerado devido a um defeito em algum princípio.

Estes três são encontrados também nos atos da razão. Pois há um processo da razão que induz necessidade, onde não é possível falhar quanto à verdade; e por tal processo de raciocínio é adquirida a certeza da ciência. Novamente, há um processo da razão no qual algo verdadeiro na maioria dos casos é concluído, mas sem produzir necessidade. Mas o terceiro processo da razão é aquele no qual a razão falha em alcançar a verdade porque algum princípio que deveria ter sido observado no raciocínio era defeituoso.

Ora, a parte da lógica que é dedicada ao primeiro processo é chamada de parte judicativa, porque leva a juízos possuidores da certeza da ciência. E porque um juízo certo e seguro sobre os efeitos não pode ser obtido exceto analisando-os em seus primeiros princípios, esta parte é chamada de analítica, i.e., resolutiva. Além disso, a certeza obtida por tal análise de um juízo é derivada ou da mera forma do silogismo — e a isto está ordenado o livro dos Analíticos Anteriores que trata do silogismo como tal — ou da matéria juntamente com a forma, porque as proposições empregadas são per se e necessárias [cf. infra, Lições 10, 13] — e a isto está ordenado o livro dos Analíticos Posteriores que trata do silogismo demonstrativo.

Ao segundo processo da razão é dedicada outra parte da lógica chamada investigativa. Pois a investigação não é sempre acompanhada de certeza. Daí que, para ter certeza, um juízo deve ser formado, incidindo sobre aquilo que foi investigado. Mas assim como nas obras da natureza que têm sucesso na maioria dos casos certos níveis são alcançados — porque quanto mais forte o poder da natureza, mais raramente ela falha em alcançar seu efeito — também naquele processo da razão que não é acompanhado de completa certeza certos níveis são encontrados conforme mais ou menos nos aproximamos da completa certeza. Pois embora a ciência não seja obtida por este processo da razão, contudo, às vezes, a crença ou opinião é alcançada (por causa da provabilidade das proposições com as quais se começa), porque a razão inclina-se completamente para um lado de uma contradição, mas com receio quanto ao outro lado. Os Tópicos ou a dialética é dedicada a isto. Pois o silogismo dialético, do qual Aristóteles trata no livro dos Tópicos, procede de premissas que são prováveis.

Contudo, às vezes, a crença ou opinião não é totalmente alcançada, mas sim a suspeita, porque a razão não se inclina incondicionalmente para um dos lados de uma contradição, embora penda mais para um lado do que para o outro. A isso se dedica a Retórica. Outras vezes, uma mera fantasia inclina alguém a um lado de uma contradição devido a alguma representação, assim como um homem se afasta com desgosto de certa comida se ela lhe é descrita em termos repugnantes. E para isso está ordenada a Poética. Pois a tarefa do poeta é conduzir-nos a algo virtuoso por meio de alguma descrição excelente. E tudo isso pertence à filosofia da razão, pois cabe à razão passar de uma coisa a outra.

O terceiro processo de raciocínio é servido pela parte da lógica que é chamada de sofística, que Aristóteles trata no livro Sobre as Refutações Sofísticas.