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INTRODUÇÃO

Há uma dupla operação do intelecto, como diz o Filósofo no livro III do De anima [6: 430a 26]. Uma é a intelecção dos simples, isto é, a operação pela qual o intelecto apreende tão somente a essência de uma coisa; a outra é a operação de compor e dividir. Há também uma terceira operação, a de raciocinar, pela qual a razão procede do que é conhecido à investigação das coisas que são desconhecidas. A primeira dessas operações ordena-se à segunda, pois não pode haver composição e divisão a menos que as coisas já tenham sido apreendidas de modo simples. A segunda, por sua vez, ordena-se à terceira, pois é evidente que devemos proceder de alguma verdade conhecida à qual o intelecto assente para termos certeza acerca de algo ainda não conhecido.

    2.

  1. Sendo a lógica chamada ciência racional, ela deve dirigir sua consideração às coisas que pertencem às três operações da razão que mencionamos. Por conseguinte, Aristóteles trata daquelas pertencentes à primeira operação do intelecto, isto é, as coisas concebidas pela simples apreensão, no livro Praedicamentorum; das pertencentes à segunda operação, isto é, a enunciação afirmativa e negativa, no livro Perihermeneias; e das pertencentes à terceira operação, no livro Priorum e nos livros que se lhe seguem, nos quais trata do silogismo em absoluto, dos diferentes tipos de silogismo e das espécies de argumentação pelas quais a razão procede de uma coisa a outra. E assim como as três operações da razão se ordenam entre si, também o fazem os livros: os Praedicamenta ao Perihermeneias, e o Perihermeneias aos Priora e aos livros que se lhes seguem.

  2. 3.

  3. O livro que ora examinamos chama-se Perihermeneias, isto é, Sobre a Interpretação. Interpretação, segundo Boécio, é "som vocal significativo — seja complexo ou incomplexo — que significa algo por si mesmo". Assim, conjunções, preposições e outras palavras deste gênero não se chamam interpretações, visto que não significam nada por si mesmas. Tampouco se podem chamar interpretações os sons que significam naturalmente, mas não a partir de um propósito ou em conexão com uma imagem mental de significar algo — como os sons dos animais brutos —, pois quem interpreta pretende explicar algo. Portanto, somente nomes, verbos e o discurso são chamados interpretações, e é deles que Aristóteles trata neste livro.

O nome e o verbo, todavia, parecem ser antes princípios da interpretação do que interpretações propriamente ditas, pois quem interpreta parece explicar algo como verdadeiro ou falso. Por isso, somente o discurso enunciativo, no qual se encontra a verdade ou a falsidade, é chamado interpretação. Outras espécies de discurso, como os optativos e os imperativos, ordenam-se antes a exprimir a volição do que a interpretar o que está no intelecto. Este livro, portanto, intitula-se Sobre a Interpretação, isto é, Sobre o Discurso Enunciativo no qual se encontra a verdade ou a falsidade. O nome e o verbo são tratados apenas enquanto partes da enunciação; pois é próprio de uma ciência tratar tanto das partes de seu sujeito quanto de suas propriedades.

Fica claro, pois, a que parte da filosofia pertence este livro, qual é a sua necessidade e qual é o seu lugar entre os livros de lógica.