CAPÍTULO 11 - 442b 27 – 443b 16
442b 27 Os odores devem ser entendidos do mesmo modo. Pois o que a secura causa na umidade, a umidade enquímica causa em outro gênero, a saber, o ar, e também na água.
442b 29 Chamamos agora de transparente o que é comum a estes. Mas isso é objeto do olfato não enquanto é transparente, mas enquanto é capaz de ser embebido ou lavado pela secura enquímica.
443a 2 O odorífero não está apenas no ar, mas também na água. Isso é claro no caso dos peixes e dos testáceos, pois parecem cheirar. E o ar não existe na água, pois sobe à superfície quando está na água. E esses animais não respiram.
443a 6 Assim, se se sustenta que a água e o ar são ambos úmidos, o odor será a natureza da secura enquímica na umidade, e o odorífero é o que é tal.
443a 8 Que esta afecção é causada pelo enquímico é claro tanto pelo que tem odor quanto pelo que não tem. Pois os elementos, a saber, fogo, ar, terra e água, são inodoros, porque tanto os secos quanto os úmidos são áquimos, a menos que se faça uma mistura. É por isso que o mar tem odor, pois tem umidade e secura. E o sal é mais odorífero que o nitro (o fato de que deles flui óleo é revelador), mas o nitro tem mais terra.
Além disso, a pedra é inodora, pois é áquima. Mas as madeiras são odoríferas, pois são enquímicas, e as aquosas são menos odoríferas.
Além disso, entre os metais, o ouro é inodoro, pois é áquimo. O bronze e o ferro são odoríferos, mas, quando a umidade é queimada neles, suas escórias se tornam inodoras. A prata e o estanho são mais odoríferos que alguns, mas menos que outros, pois são aquosos.
443a 21 Ora, parece a alguns que o odor é uma evaporação fumosa, comum à terra e ao ar. Todos falam do odor com base nisso. Assim Heráclito diz que, se todos os entes se tornassem fumaça, as narinas os discerniriam. Todos introduzem alguma causa desse tipo para o odor, uns apresentando-a como "exalação", uns como "vapor" e uns como ambos. O vapor é uma espécie de umidade, mas a exalação fumosa, como se disse, é algo comum ao ar e à terra. Da primeira se produz água, da segunda uma espécie de terra.
443a 29 Mas o odor não parece ser nenhuma dessas coisas, pois o vapor pertence à água, mas a evaporação fumosa não pode ocorrer na água. Pois os animais na água também cheiram, como se disse acima.
443b 1 Além disso, usam o termo "evaporação" como usam o termo "emanações". Portanto, se este último não é correto, tampouco o é o primeiro.
443b 3 Portanto, não é difícil ver que a umidade, tanto a do vento quanto a da água, pode receber a secura enquímica e ser de algum modo afetada por ela. Pois o ar também é por natureza úmido.
443b 6 Além disso, se isto produz no úmido e no ar algo como uma secura embebida, é claro que os odores devem ser análogos aos sabores.
443b 8 E em alguns casos o são, pois os odores também são "azedos", "doces", "ásperos", "picantes" e "gordurosos". E poder-se-ia dizer que o pútrido é análogo ao amargo: assim como este é difícil de beber, o pútrido é disanapneustico. É claro, então, que o que o sabor é na água, o odor o é no ar e na água.
443b 14 Por isso o frio e a coesão embotam os sabores e expulsam os odores: pois o frio e a coesão removem o calor que os move e gera.
Comentário
442b 27 Depois de fazer uma determinação sobre os sabores, o Filósofo começa aqui a fazer uma determinação sobre os odores.
Isto se divide em duas partes. Na primeira, faz a determinação sobre os odores. Na segunda, compara o olfato com os outros sentidos, onde diz Os sentidos existem em número ímpar (cap. 13, 445a 4).
Sobre o primeiro ponto, faz duas coisas. Primeiro, determina a geração e a natureza do odor. Segundo, determina as espécies de odor, onde diz Há duas espécies de odorífero (cap. 12, 443b 17).
Sobre o primeiro ponto, faz duas coisas. Primeiro, mostra o que é passivo na geração dos odores. Segundo, mostra o que é ativo nela, onde diz Que esta afecção é causada pelo enquímico (443a 8).
Sobre o primeiro ponto, faz três coisas. Primeiro, apresenta sua intenção. Segundo, explica algo que disse, onde diz Chamamos agora de transparente o que é comum (442b 29). Terceiro, prova-o, onde diz O odorífero não está apenas no ar (443a 2).
Diz, pois, primeiro, que a geração dos odores deve ser entendida do mesmo modo que a dos sabores: isto é, há algo passivo e algo ativo. O que se disse sobre os sabores foi que a umidade da água é afetada pela secura da terra e assim é levada, pela ação do calor, à condição de ser saborosa. Mas o que é ativo na geração do odor é a umidade enquímica. Chama-se "enquímica" de "en", que significa "em", e "chymous", que significa "umidade": pois a umidade existe como que bebida e incorporada por algo seco. Isto, então, é o que é ativo no odor. O que é passivo é outro gênero, que inclui o ar e a água.
442b 29 Então, quando diz Chamamos agora de transparente o que é comum, explica que este é o gênero comum ao ar e à água e receptivo de odor.
Diz que o que é comum aos dois se chama transparente. Contudo, o transparente enquanto transparente é receptivo não de odor, mas de cor, como se estabeleceu acima; mas é receptivo de odor enquanto é capaz de ser embebido ou lavado pela secura enquímica, isto é, enquanto é receptivo da secura enquímica. Chama a essa recepção "embeber" ou "lavar" na medida em que uma coisa é naturalmente lavada ou purificada pela umidade que recebe.
443a 2 Então, quando diz O odorífero não está apenas no ar, prova algo que pressupôs, a saber, que não só o ar, mas também a água é receptiva de odor.
Primeiro, introduz uma prova disso. Segundo, conclui o que é propriamente receptivo de odor, onde diz Assim, se se sustenta que a água e o ar (443a 6).
Diz, pois, primeiro, que o odor é recebido não só no ar, mas também na água. Isso se mostra claramente pelo fato de que os peixes e os testáceos, isto é, os animais de concha dura que vivem na água, parecem cheirar, pois são atraídos de longe pelo odor a um alimento que não podem ver. Disso é claro, por dois argumentos, que a água é receptiva de odor.
Primeiro, esses animais vivem não no ar, mas na água. E prova que não há ar sob a água, onde vivem peixes desse tipo, pelo fato de que o ar sobe à superfície da água mesmo que seja posto debaixo dela. Isso é evidente no caso de um odre inflado, que, se for submerso à força, virá à superfície da água.
Segundo, mesmo concedendo que haja ar sob a água, tais animais não respiram ar. Portanto, se só o ar fosse receptivo de odor, não perceberiam odor.
443a 6 Então, quando diz Assim, se se sustenta que a água e o ar, conclui o que é propriamente receptivo de odor.
Diz que, porque o ar e a água, que são receptivos de odor, são úmidos, segue-se que o odor nada mais é que a "natureza", isto é, a forma, impressa pela secura enquímica na umidade que é o ar e a água. E o odorífero é o que é tal: isto é, a umidade com uma "natureza" impressa nela pela secura enquímica.
443a 8 Então, quando diz Que esta afecção é causada pelo enquímico, prova que o enquímico causa o odor.
Prova-o de três modos: primeiro, pelo que tem e pelo que não tem odor; segundo, onde diz Ora, parece a alguns (443a 21), pelas diferentes opiniões que alguns sustentaram sobre o odor; terceiro, onde diz Além disso, se isto produz (443b 6), pela afinidade do odor com o sabor.
Diz, pois, primeiro, que é claro, tanto pelo que tem quanto pelo que não tem odor, que esta afecção que é o odor é impressa pelo enquímico, isto é, pela umidade infundida e absorvida pela secura, como se disse acima.
Primeiro, porque todos os elementos, a saber, fogo, ar, água e terra, carecem de odor. Pois, sejam úmidos ou secos, são áquimos, isto é, sem umidade absorvida pela secura, pois os úmidos têm umidade sem secura, e os secos têm secura sem umidade. Isso é assim a menos que se faça uma mistura de elementos. Assim o mar tem odor, porque nele a secura da terra foi misturada à umidade da água, como é claro por seu sabor salgado: pois o sal tem ainda mais odor que o nitro. E que esses dois, o sal e o nitro, têm algo de enquímico é claro pelo óleo que deles se extrai por certa técnica, o que mostra que há neles uma umidade oleosa absorvida pela secura. Mas o nitro tem menos dessa umidade que o sal, e por isso é menos odorífero.
Segundo, mostra o mesmo no caso das pedras e das madeiras. Diz que a pedra sólida e dura carece de odor porque, por seu grande componente de terra, não tem a umidade mencionada, causadora de odor. Mas as madeiras têm odor porque têm algo da umidade mencionada, como é claro pelo fato de serem inflamáveis por causa da oleosidade que há nelas. Daí que as madeiras que têm umidade mais aquosa e menos oleosa, isto é, não absorvida, por assim dizer, pela secura, sejam menos odoríferas. É claramente o caso da madeira de choupo. Mas as madeiras de abeto e de pinheiro são muito odoríferas por causa da oleosidade de sua umidade.
Terceiro, mostra o mesmo no caso dos metais, entre os quais o ouro é completamente inodoro, porque carece da umidade mencionada; isso se deve a seu grande componente de terra, indicado por seu grandíssimo peso: pois é mais pesado que os outros metais. O bronze e o ferro são odoríferos, porque a umidade neles é digerida e bebida pela secura, mas não inteiramente dominada por ela, como no caso do ouro; daí que suas escórias sejam menos odoríferas por causa da queima da umidade que há neles. A prata e o estanho são mais odoríferos que o ouro, mas menos que o bronze e o ferro: pois têm uma umidade mais aquosa e menos absorvida pela secura do que o bronze e o ferro; contudo, porque sua umidade é de algum modo absorvida pela secura, não são completamente inodoros como o ouro.
443a 21 Então, quando diz Ora, parece a alguns, mostra, por opiniões de outros, que o enquímico é o que é ativo no odor.
Sobre este ponto, faz três coisas. Primeiro, apresenta as opiniões dos outros. Segundo, elimina-as, onde diz Mas o odor não parece ser nenhuma dessas coisas (443a 29). Terceiro, conclui sua proposta, onde diz Portanto, não é difícil ver (443b 3).
Diz, pois, primeiro, que parece a alguns que o odor é uma evaporação fumosa, sendo a fumaça comum ao ar e à terra, isto é, como que intermediária entre eles, porque é algo dissolvido da secura da terra que não alcança a finura do ar. Todos os Antigos falam do odor de modo próximo a essa posição. Daí que Heráclito diga que, se todos os entes fossem dissolvidos em fumaça, as narinas, ao perceber o odor, discerniriam todos os entes, como se dissesse que todos os entes seriam odores. Pois Heráclito pensava que o vapor é princípio das coisas. Mas nem todos os filósofos sustentaram que o odor é fumaça; alguns sustentaram que é só algo semelhante a ela. Por isso, para mostrar essa diversidade, acrescenta que uns atribuíram ao odor a "exalação", outros o "vapor" e outros ambos. E mostra a diferença entre os dois: o vapor nada mais é que umidade dissolvida da água, mas a exalação ou fumaça é algo comum ao ar e à terra, pois é algo dissolvido da secura da terra, como se disse. Sinal dessa diferença é que, quando o vapor se condensa, dele se gera água, mas, quando a exalação de fumaça se condensa, dela se gera algo terroso.
443a 29 Então, quando diz Mas o odor não parece ser nenhuma dessas coisas, elimina as posições acima mencionadas por dois argumentos.
O primeiro é que o vapor pertence à água, que não é odorífera sem uma mistura de secura, como se disse acima. Mas a fumaça não pode ocorrer na água, embora o odor ocorra nela, como se mostrou acima pelo fato de que alguns animais podem cheirar na água. Portanto, o odor não é nem fumaça nem vapor.
443b 1 Então, quando diz Além disso, usam o termo "evaporação", apresenta o segundo argumento.
É este. O argumento de que o odor deve ser chamado "evaporação" é semelhante ao argumento de que as cores devem ser chamadas "emanações". Mas, como se mostrou acima, este último não é uma descrição correta das cores; portanto, tampouco o primeiro é uma descrição correta dos odores. Pois em ambos os casos seguir-se-ia que o sentir ocorre por contato, seja dos odores, seja das cores, e que os corpos vistos e cheirados diminuem e por fim se dissolvem completamente pela emanação ou dissolução. E isso é irrazoável, sobretudo porque uma coisa pode ser vista e cheirada de tal distância que não há como algo dissolvido do corpo ser levado tão longe. Antes, a percepção tanto da cor quanto do odor ocorre a tal distância por uma alteração espiritual do meio.
443b 3 Então, quando diz Portanto, não é difícil ver, conclui a proposta, a saber, que, porque o odor não é nem vapor nem fumaça, é claro que a umidade no "vento", isto é, no ar, e na água é afetada pela secura enquímica, e assim o odor ocorre e é percebido. Pois a umidade está presente não só na água, mas também no ar.
443b 6 Então, quando diz Além disso, se isto produz, mostra que o enquímico é o que é ativo no odor pela afinidade do odor com o sabor.
Sobre este ponto, faz três coisas.
Primeiro, apresenta a proposta. Diz que, se o enquímico causa o odor na umidade da água e do ar, do modo como a secura da terra embebida pela umidade da água causa os sabores, é claro que os odores devem ser análogos aos sabores.
443b 8 Segundo, onde diz E em alguns casos, esclarece a proposta coordenando os odores com os sabores.
Diz que em alguns casos essa coordenação é evidente. Pois os odores se chamam "azedos", "doces", "ásperos", isto é, adstringentes, "picantes" e "gordurosos", como os sabores. Mas não chamamos os odores "amargos": antes, os odores pútridos correspondem analogicamente aos sabores amargos, pois, assim como os sabores amargos são engolidos com dificuldade, o pútrido é "disanapneustico", isto é, difícil de inalar. Daí é claro, por essa afinidade do odor com o sabor, que o sabor ocorre na água do modo como o odor ocorre no ar e na água.
443b 14 Terceiro, onde diz Por isso, prova a afinidade acima mencionada pelos impedimentos ao sabor e ao odor.
Os sabores são embotados e os odores expulsos pelo frio e pelo congelamento, pois o calor que gera e move os odores e os sabores é removido pelo frio e pelo congelamento, como é claro pelo que foi dito.