LIÇÃO 29: Refutação do corruptível ingerado e do incorruptível gerado. Argumento da ciência natural
276. Depois de mostrar que "gerável" e "destrutível" se seguem um ao outro, e dado mesmamesmo formamodo "não-o gerado" e "indestrutível", o Filósofo refuta aqui refuta a opinião contrária, com baseo no fatofundamento de que, a partir de tal opinião contrária, alguns dos princípios assumidospressupostos devem ser destruídos.
Primeiro, ele mostra como tal posição destrói a suposição de que todotoda poderpotência ése referidorefere a um tempo determinado;
Em segundo lugar, elesegundo, mostra que ela destrói a suposição de que a mesma coisa não pode simultaneamente ser e não ser,ser emsimultaneamente, no n. 279.
277. Ele diz,Diz, portanto, primeiro [205] que, uma vez que foi demonstradodemonstrado, a partir de certos princípios pressupostospressupostos, que toda coisa gerada é destrutível, e toda coisa não-o gerada é indestrutível, e vice-versa, consequentemente,por conseguinte, quem quer que declaredeclara que nada impede que algouma quecoisa foi feitofeita ou geradogerada seja indestrutível, ou que algo não-o gerado de serseja destruído, de tal modo, no entanto,porém, que um destes,deles, a saber, o gerado, éseja gerado apenas uma única vez, e o outro, a saber, o destrutível, éseja destruído apenas uma única vez, sem que sejam alternadamente gerados e destruídos, destrói necessariamente destrói, com isso,isso um ou outro dos princípios que foram pressupostos. Pois, se uma conclusão se segue silogisticamente das premissas, a conclusão que delas se segue com necessidade das premissas não pode ser destruída, a menos que uma das premissas seja destruída.
Ora, parece afirmardizer isso contra Platão, que postulouafirmava que o mundo foi feito, mas é indestrutível, ee, consequentementepor postulouconseguinte, afirmava que a desordem da qual o mundo foi gerado era ingerada, mas destrutível -— embora alguns digam que Platão não entendeuentendia isso no sentido em que soam suas palavraspalavras, soam,sentido contra cujoo significadoqual Aristóteles está aqui disputando.argumenta. Mas, no que diz respeitotoca à exposição deste livro, não faz diferença seque Platão sentiutenha pensado de um jeitomodo ou de outro, desdecontanto que fique claro como estaessa posição está sendoé refutada pelos argumentos de Aristóteles.
278. EntãoRetoma, ele retomaentão, um dos princípios dados, a partir dade cuja suposição do qual ele havia argumentadoargumentara para a prova deprovar sua proposição. E ele diz que todas as coisas que têm umcerta certo poderpotência podem fazer algo ou sofrer ação,algo, ou ser ou não ser, desegundo acordosua compotência, seu poder, ouseja por um tempo infinito, ouseja por algum tempo de quantidade definida,determinada, i.e.isto é, por um período de tempo que é absolutamente finito. EE, porque eleantes havia mencionado anteriormentemencionara o significadosentido de poderpotência apenas com respeito a um tempo determinado, ele acrescenta que a razão pela qual as coisas que têm poderpotência podem fazer ou ser algo por um tempo infinito é que mesmo o tempo infinito é, em certo sentido, determinado, a saber, pela razão, de tal modomaneira que nenhuma diversidade pode ser encontrada nele -— uma vez quepois o infinito é "aquilo além do qual não há mais", i.e.isto é, do que algo maior não se pode sertomar tomado.algo Issomaior. Isso, não obstante o fato de que, nano livro III da Física III,, Aristóteles refuta estaessa definição do infinito, dizendo que ela é, antes,antes uma definição do todo e do perfeito, enquantoao passo que o infinito é imperfeito e à maneira de uma parte. Pois ali Aristóteles está falandofala do infinito com respeito àquilo que dele que está em ato, ao qual sempre se pode acrescentar; masaqui, aquiporém, ele está falandofala dele com respeito a tudo aquiloo que dele que está em potência, e ao qual nada se pode ser acrescentado.acrescentar. E tal é também a condição do tempo, sobre odo qual estamos agora falandofalamos -— uma vez quepois o tempo não é todo de uma vez, mas sucessivo.
Ora, um tempo que é infinito em algum aspecto, i.e.isto é, em um sentido qualificado, a saber, com respeito ao seu iníciocomeço ou ao seu fim, não é nem absolutamente infinito, porque pode haver mais dele, nem absolutamente determinado, porque não tem algumauma quantidade certa. E, portanto,por deisso, acordo comsegundo a suposição acima mencionada,referida, não pode ser que algo tenha o poder de fazer ou sofrer ação,sofrer, ou de ser ou não ser, por um tempo que é finito em umanuma extremidade e infinito na outra. Mas quem quer que declaredeclara que algo é não-o gerado, mas destrutível, ou gerado e indestrutível, está postulandoafirmando que algo tem o poder de ser ou não ser por um tempo que é, em um aspecto, infinito e, em outro aspecto,outro, finito. Portanto, ele está destruindo o mencionado princípio suposto.supracitado.
279. Em seguida,Depois, em [206], ele mostra que a posição acima mencionada destrói ainda outro princípio que foifora assumido, a saber, que é impossível para a mesma coisa ser e não ser. SobreA isso,respeito eledisso, faz duas coisas:
Primeiro, ele prova sua proposição do ponto de vista da potência existente naquilono que ése supostosupõe ser gerado ou destruído;
Emsegundo, segundodo lugar,ponto de vista da causa do mesmo, emno n. 284.
Sobre o primeiro, ele faz duas coisas:
Primeiro, ele mostra que supor que o não-o gerado seja destruído, ou que algo gerado seja indestrutível, implica que algo pode,possa ao mesmo tempo,tempo ser e não ser;
Em segundo lugar, elesegundo, mostra que a mesma impossibilidade se segue da suposição de que exista algo destrutível existe que não é destruído, emno n. 283.
Quanto ao primeiro, ele apresenta três argumentos. Com respeito aoNo primeiro deles, ele diz: Sese postularmossupomos que algo não-gerado primeiramenteingerado sempre existiu e depois foi destruído em um certo sinal de tempo, i.e.isto é, em algum instante determinado, nenhuma razão pode ser atribuída para o porquê de dever ser destruído naquele instante em vez de em qualquer outro dos instantes infinitos anteriores. Da mesma forma, se por um tempo infinito algo não estava existindo e então veio a ser em um certo instante, nenhuma razão pode ser atribuída para que seja destruído nesse instante antes que em qualquer outro dos infinitos instantes anteriores. Do mesmo modo, se por um tempo infinito algo não porquêexistia dee poderdepois veio a ser em certo instante, nenhuma razão pode ser atribuída para que pudesse ser ou vir a ser mais naquelenesse instante mais do que em qualquer um dos infinitos precedentes.anteriores.
Se o tempo precedente fosse suposto finito, poder-se-ia atribuir uma razãoo, poderia ser atribuída, porquepois se poderia dizer que a coisa tinha o poder de existir ou não existir por tal e taltanto tempo e não mais. MasMas, devido aopelo fato de que a coisa éser descrita como tendo existido ou não existido por um tempo infinito, a razão acima cessa. E, portanto,por isso, é necessário postularafirmar que o não-geradoingerado poderia não ter existido em cada um dos instantes do tempo precedente, ee, similarmentede modo semelhante, que a coisa gerada era capaz depodia existir em cada um dos instantes do tempo precedente. PoisPois, se não há nada mais, i.e.isto é, nenhuma razão melhor para oque porquê de ser capaz depudesse ser ou não ser naquelenesse instante antes que em vez de qualquer um dos precedentes,anteriores, uma vezvisto que sinaisinfinitos infinitos,sinais, i.e.isto é, uma infinitudeinfinidade de instantes, precederam, é evidenteclaro queque, durante aqueleesse tempo infinitoinfinito, algo será gerável no sentido de que poderia ter sido gerado em qualquer instante daqueledesse tempo infinito. EE, similarmentede modo semelhante, deve-se dizer queque, em cada instante daqueledesse tempotempo, a coisa supostaassumida não-geradacomo ingerada e posteriormentedepois destruída era destrutível. Consequentemente, é evidenteclaro que a coisa supostaassumida como pré-existindopreexistente por um tempo infinito tinha também tinha a potência de não ser em todo aqueleesse tempo infinito. Seguir-se-á, portanto, que algo terá simultaneamente, i.e.isto é, num só eao mesmo tempo, o poder de ser e não ser, de tal modo,maneira, no entanto,porém, que, porda parte do que é não-geradoingerado e destrutível, a existência precedeu a não-o existência, enquanto,ao porpasso que, da parte do que é gerado e indestrutível, a existência é apósposterior aà não-o existência. Ora, nada impede que assumamos o que é possível. Se, então, assumimosassumimos, com relaçãorespeito ao não-geradoingerado, que ele não existiu durante aquele tempo noem qualque existiu e era capaz depodia não existir, seguir-se-á que os opostos coexistem, a saber, que ele existiu e não existiu ao mesmo tempo. Consequentemente,Por conseguinte, a suposição acima mencionadareferida destrói o que havia sidofora pressuposto, a saber, que é impossível para a mesma coisa ser e não ser ao mesmo tempo.
280. Mas estaessa razão não parece convincente. Pois nada impede que o que é possível, absolutamente falando, seja impossível sob certas condições. Por exemplo, se supomos que Sócrates está sentado em algum tempo,momento, é possível, absolutamente falando, que ele não esteja sentado naquelenesse tempo,momento, embora não seja composácompossível. Da mesma forma, pode-se dizer que o que tem existidoexistiu por um tempo infinito tevetinha o poder de não existir durante aqueleesse tempo -— mas não, no entanto,porém, no sentido de que sua não-o existência éseja composácompossível com o que foi postulado,posto, a saber, que poderiapudesse ser simultânea comao seu ser atual.em ato.
Ora, deve-se afirmardizer que nada impede que o que é incompossível àquilocom o que é contingente seja absolutamente possível, mas o que é incompossível àquilocom o que absolutamente deve ser é absolutamente impossível. Aquilo que existe naturalmente através depor um tempo infinito existe necessariamente -— uma vez quepois é necessário que cada coisa seja na medida em que a natureza das coisas provêo parapermite, ela,já poisque nada cessadeixa de ser excetosenão quando já não pode mais ser, jáuma vez que todas as coisas anseiam por ser. Portanto,Por isso, se algo é apresentado como possível de ser, então, por esseisso mesmo fato,mesmo, é necessário postuláafirmá-lo como composácompossível àquilocom aquilo que deve ser. Portanto, se postularmosafirmamos que o que sempre existiu foi capaz depodia não existir durante todo durante aqueleesse tempo, segue-se que foi capazpodia ao mesmo tempo de ser e não ser.
281. dáApresenta o segundo argumento em [207] e diz que o que sempre existiu, ou sempre não existiu, é, de acordo comsegundo o que foi anteriormente presumido, possuiupossuía umuma poderpotência opostooposta ao que estavahavia nele, não em algum sinal ou instante, mas absolutamente em todocada sinal, i.e.isto é, em todocada instante. Consequentemente, segue-se queque, por um tempo infinitoinfinito, algo teria o poder de ser e não ser, o que é impossível, como foise provadoprovou acima.
282. Ele dáApresenta o terceiro argumento em [208], que é este: Naquilonaquilo que começa a ser depois de não ter sido, ou aque nãodeixa de ser depois de ter sido, o poder oua potência precede o ato. Assim, se algo que sempre existiu era não-gerado,ingerado, segue-se que sempre teve a potência de não existir -— pois não há razão para que aquelaessa potência de não-o ser lhe tenha vindo depois de um tempo infinito. Similarmente,De modo semelhante, mesmo seque houverhaja algo gerado que por um tempo infinito não existiu, segue-se queque, durante todo aqueleesse tempotempo, era capaz depodia vir àa existência,existir, de modo queque, ao mesmo tempo em que não estava existindo,existia, tinha o poder de ser e não ser isto, e de que seria depois por um tempo infinito, uma vezvisto que estamos supondo que é indestrutível.
Consequentemente, uma vez queque, pelodurante o tempo infinito antesanterior deà existirsua teveexistência, tinha o poder de existir por um tempo infinito no futuro, não havia razão para que pudesse existir naquelenesse instante e não antes, uma vezjá que não está em potência para existir em um tempo determinado. O que resta,Resta, portanto, é que poderia ter existido mesmo em algum tempo antes de existir; assim, tevetinha o poder de existir naquele tempo em que não estavaexistia existindo,e, eportanto, assimsegue-se, se segue, de acordo comsegundo as premissas, que era capaz depodia ser e não ser ao mesmo tempo. E o mesmo argumento se aplica ao que ése supostoassume ter sempre sido e é em um certo tempo é destruído.
Depois, em [209], ele conclui, segundo oa mesmomesma raciocínio,razão, que é impossível que algo seja destrutível e não seja destruído em algum tempo. Pois alguém poderia objetar aos argumentos anterioresprecedentes e dizer que tudo o que é gerado é destrutível segundo sua natureza, mas pode acontecer que o que é destrutível nunca seja destruído, porque alguma causa está preservandoconserva sua existência, como Platão assumiusupunha que o mundo é em si mesmo gerado e destrutível, mas permanecerá sempre, porque Deus o quer. (Alguns dizem que Platão não entendeuentendia que o mundo é destrutível,vel como se tivesse dentro deem si mesmo a causa necessária de sua destruição, mas que o descreveu dessa maneiraassim porque queria apontarindicar que ele depende de outro para suaexistir, existênciaisto de outro, i.e.é, que a necessidade de sua existência não está nele por si mesmo, mas vem de Deus. Mas o que quer que Platão tenha entendido não faz diferença para o presente empreendimento, uma vez que Aristóteles está objetando às suas palavras.) Portanto,Diz, ele dizentão, que é claramente impossível que algo destrutível não seja,seja em algum tempo,tempo destruído. Porque, se não for destruído em algum tempo, tem o poder de não ser destruído e, assim, será indestrutível; e, no entanto, supõe-se que é suposto ser uma coisa destrutível existindo por um tempo infinito. Consequentemente, será sempre, i.e.isto é, por um tempo infinito, simultaneamente atual destrutível e indestrutível.vel em ato. Mas o que é destruído não existe para sempre, enquantoao passo que o indestrutível existe para sempre. Portanto, haverá algo capaz ao mesmo tempo de existir sempre e de não existir e nem sempre existir.sempre. Mas isso é impossível, como é evidenteclaro pelodo que foi dito acima, porque o que pode existir sempre existirexiste necessariamente existe sempre e, portanto,por isso, não pode não existir sempre. Consequentemente, é claro que tudo o que é destrutível será destruído alguma vez.
De mesmamodo forma,semelhante, se algo é, por sua própria natureza,natureza gerável, é necessário que seja feito. Isso não significa que tudo o que pode ser gerado será gerado em algum tempo, pois há muitas coisas possíveis que nunca serão geradas. Mas não pode ser que algo agora existente tenha uma natureza que é gerável,vel e não tenha sido gerado, mas tenha pré-existidopreexistido desde a eternidade. Pois o que é gerável não tem o poder natural de sempreexistir existir,sempre, mas de poder ser depois de ter sido,sido feito em algum tempo, feito.tempo. É por isso que ele não diz queque, se é gerável, será feito, mas que foi feito.
283. Depois, em [210], ele prova o mesmo do ponto de vista da causa do que ése supostoassume não-geradoingerado e indestrutível.
Primeiro, ele apresenta seu argumento;
Em segundo lugar, elesegundo, rejeita uma objeção, emno n. 286.
Diz, portanto, primeiro que, como seráse dito,dirá, podemos ver também da seguinte maneira que é impossível que uma coisa que é, em algum tempo,tempo gerada seja, a partirseja daí, por diante indestrutível, ou que uma coisa que é não-geradaingerada e temsempre sempreexistiu até agora existido, seja destruída. O que é indestrutível ou não-geradoingerado não pode existir por acaso -— uma vez quepois o produto do acaso ou da fortuna nem existe nem vem a ser como aquilo que é sempre ou usualmente. EnquantoEntretanto, isso,tudo qualquer coisao que existe em tempo infinito, ouseja absolutamente finitofinito, ouseja infinito em uma direção, a saber, antes ou depois, está em existênciaexiste ou sempre, como é aquiloo que existe em tempo infinito absolutamente, ou na maioriamaior parte das vezes, como é aquiloo que está em tempo infinito quanto a uma parte. Portanto, é necessário que tais coisas, que são geradas ou corrompidas apósdepois de um tempo infinito, tenham da natureza que em algum tempo serão e em algum tempo e não serãoo. em algum tempo. MasMas, nas coisas que,que naturalmente,em àsum vezestempo naturalmente são e àsem vezesoutro não são, oa mesmomesma poderpotência ése dirigidodirige paraaos contraditórios, a saber, paraao ser e ao não ser, uma vezvisto que estaessa característica de àsem vezesalgum ser,tempo ser e àsem vezesalgum tempo não ser,ser é tidavem da matériaria, enquanto é sujeita à privação ou à forma. Assim, segue-se ao mesmamesmo coisa deque antes, a saber, que os opostos poderiam existir na mesma coisa ao mesmo tempo. PoisPois, no que foi geradogerado, permanece uma matéria em potência para a não-o existência -— ee, assim, uma vez que é indestrutível, será ao mesmo tempo capaz de ser e capaz de não ser. E o mesmo vale para o não-gerado.ingerado.
285. Então,Depois, em [211], ele exclui uma certa objeção. Pois alguém poderia dizer que aquela coisa indestrutível que é gerada tem o poder de não existir, não com respeito ao futuro, mas com respeito ao passado; similarmente,do mesmo modo, o que é não-gerado,ingerado, mas destrutível, possui uma potência para a existência com respeito ao passado.
Mas ele exclui isso dizendo que não é verdadeverdadeiro afirmar agora que é no presente tempo o ano passado, ou qualquer uma das coisas que foramestiveram no tempo passado; nem se pode dizer que o que existe agora existiu no ano passado -— pois as coisas sãose distinguidasdistinguem no tempo de tal modo que a ordem do tempo não pode ser revertidainvertida a ponto de modofazer ado tornarpassado o passado presente ou de atribuir ao passado as coisas presentespresentes. ao passado. DistoDisso é claramente impossível que algo que,que em umcerto tempo,tempo não existiu,existia tenha depois tenhaa existência para sempre, como já concluímos a partir do argumento precedente. Pois, em razão da matéria da qual foi feito, tem a potência de não existir mesmo depois de existir:existir; mas não se pode dizer que tem a potência de não existir agora, porque já está existindoexiste em ato e, assim, os opostos coexistiram,coexistiriam, como foise concluídoconcluiu nos argumentos anteriores. Mas segue-se que tem a potência para a não-o existência com relaçãorespeito ao ano passado ou ao tempo passado. Mas isso é impossimpossível, como mostra o argumento seguinte: aquilo para o que uma coisa tem potência ou poder pode ser posto em ato. Se, portanto, é possível para algo, com respeito ao tempo passado, ser ou não ser, podemos afirmar que no ano passado não foi, isto é, que o que existiu no ano passado não existia então. Mas isso é impossível, como foi estabelecido antes, pois nenhuma potência olha para o que foi feito no passado, mas para o que está no presente ou será.
DOE CÉU,o LIVROque IIfoi dito a respeito de algo gerado, mas assumido como incorruptível, aplica-se também se algo é assumido como tendo existido previamente por tempo sempiterno e depois assumido como não existente por ter sido corrompido. Pois seguir-se-á que, depois de ter sido corrompido, ainda possui, em razão da matéria, uma potência para algo que não pode ser reduzido a ato, a saber, para a existência em um tempo anterior. Se isso é assumido como possível, será verdadeiro dizer que agora é o ano passado e que tudo o que existiu no passado existe agora, pelo fato de que a potência diz respeito apenas ao presente, como foi dito.
A força desse argumento consiste no fato de que, uma vez que a potência olha apenas para o presente ou o futuro, então, se se diz que algo tem potência com respeito ao passado, segue-se que o passado é convertido e tornado presente ou futuro.
286. Depois, em [212], prova sua proposição principal com um argumento próprio da ciência natural. E diz que também com um argumento natural, e não "universal", isto é, lógico ou metafísico, como eram os precedentes, pode-se considerar que é impossível que o que sempre existiu seja depois destruído, ou que o que previamente não existia seja depois eterno. E prova isso porque todas as coisas destrutíveis e geráveis são alteráveis. Pois a geração e a destruição são os termos da alteração, e a alteração passa de contrário a contrário. Consequentemente, é claro que, pelos mesmos contrários a partir dos quais as coisas vêm a ser, quando antes não existiam, tais coisas são depois destruídas e reduzidas aos mesmos pela corrupção. Assim, por exemplo, se algo de quente se faz frio, pode de novo ser feito quente pelo que é quente. E assim é claro que o que foi gerado pode de novo ser destruído; e que o que foi destruído foi em algum tempo gerado.
Deve-se notar que esses argumentos de Aristóteles se dirigem contra a posição que afirma um mundo produzido por geração e indestrutível, seja por sua própria natureza, seja pela vontade de Deus. Mas, segundo a fé católica, sustentamos que ele começou a ser, não por um processo de geração como a partir da natureza, mas por fluir de um princípio primeiro cujo poder não estava obrigado a dar-lhe existência em tempo infinito, mas como quisesse, depois de uma não existência prévia, a fim de manifestar a excelência de seu poder sobre a totalidade do ser, a saber, que a totalidade do ser depende inteiramente dele e que seu poder não está confinado ou determinado à produção de algum ser dado. Ora, as coisas por ele produzidas para existirem para sempre têm a potência e o poder de existir para sempre, e de modo algum de em algum tempo não existir. Pois, enquanto não existiam, não tinham tal poder; mas, agora que existem, não têm poder com respeito à não existência no passado, mas à existência que agora prevalece ou será — pois a potência não olha para o passado, mas para o presente ou o futuro, como diz o Filósofo.
Assim, é claro que os argumentos precedentes de modo algum impugnam o juízo da fé católica. E com isso se conclui a doutrina do primeiro livro.