Lição 20: O universo demonstrado ser constituído de todo corpo natural e sensível como sua matéria
198. Tendo apresentado a solução proposta, o Filósofo aqui prova o que havia pressuposto, ou seja, que o mundo consiste de toda a sua matéria. Primeiro, ele declara sua intenção e ordem de procedimento [137] e diz que, para completar a solução anterior, devemos mostrar que o mundo consiste de todo corpo natural e sensível, que é a sua matéria. Mas antes de mostrar isso, é necessário explicar o que se entende por esta palavra "céu" e em quantos sentidos ela é usada, para que nossa questão possa ser respondida mais claramente. 199. Em segundo lugar, ele prova sua proposição: Primeiro, ele mostra os vários sentidos da palavra "céu";
Em segundo lugar, ele prova a proposição principal, a partir de 200. Com relação ao primeiro [138], ele dá três sentidos para "céu". De um modo, o céu é chamado "a substância da circulação extrema do todo", isto é, aquilo que está no limite de todo o universo e é movido circularmente. E porque ele havia explicado o significado da palavra em termos de "substância", cuja noção transcende a filosofia natural, uma vez que pertence à Metafísica, ele acrescenta outra explicação com o mesmo significado, dizendo que o céu é "o corpo natural cujo lugar está na circunferência extrema do mundo", explicação mais apropriada para a ciência natural. Ele prova este significado a partir do modo de falar das pessoas — já que as palavras devem ser usadas no sentido que a maioria das pessoas as usa, como se diz em Tópicos II. Pois os homens tendem mais a chamar de "céu" aquilo que é o extremo de todo o mundo e que está mais em cima, não, de fato, como "em cima" é tomado na ciência natural, i.e., como sendo o termo do movimento dos corpos leves (pois neste sentido nada está mais "em cima" do que o lugar para onde o fogo é levado), mas tomado segundo a linguagem comum, onde "em cima" designa aquilo que está mais distante do meio. "Em cima" também se refere ao lugar de todos os seres divinos (onde "divino" significa não corpos celestes — nem todos os quais estão na esfera mais externa — mas substâncias imateriais e incorpóreas), pois foi dito acima que todos os homens atribuem a Deus um lugar que está em cima. Num segundo sentido, "céu" significa não apenas a esfera mais externa, mas "todo o corpo contínuo com a circunferência extrema de todo o universo", i.e., todas as esferas dos corpos celestes, nas quais existem a lua, o sol e certos dos astros, a saber, os outros cinco planetas (pois as estrelas fixas estão na esfera suprema segundo a opinião de Aristóteles, que não pôs outra esfera acima da das estrelas fixas). E ele prova este significado também com base na linguagem comum: pois dizemos que o sol, a lua e os outros planetas existem no céu. Ora, esses corpos são ditos contínuos com a esfera extrema porque são semelhantes em natureza, i.e., são imperecíveis e móveis circularmente, e não porque um corpo contínuo seja formado por todos eles — pois então não poderiam ter vários e diferentes movimentos, sendo um contínuo algo cujo movimento é um, como se diz em Metafísica V. Num terceiro sentido, "céu" significa "todo o corpo contido dentro da circunferência extrema", i.e., pela esfera extrema. Isso, também, ele prova pelo uso comum da palavra — pois costumamos chamar todo o mundo e a totalidade, i.e., o universo, de "céu". Deve-se notar que "céu" é aqui usado nestes três sentidos não equivocamente, mas analogicamente, i.e., em relação a um primeiro. Pois é a esfera suprema que é primeiro e principalmente chamada "céu"; em segundo lugar, as outras esferas celestes pela continuidade que têm com a esfera suprema; em terceiro lugar, o universo dos corpos na medida em que são contidos pela esfera extrema. 200. Então, em [139], ele prova a proposição. Primeiro, ele mostra que não há corpo sensível fora do céu tomado no terceiro sentido, i.e., fora deste mundo;
Em segundo lugar, ele mostra que não há fora dele nenhuma das coisas que normalmente seguem os corpos naturais (L. 21). Quanto ao primeiro, ele faz três coisas: Primeiro, ele propõe o que pretende; Em segundo lugar, ele prova sua proposição, em 201;
Em terceiro lugar, ele conclui sua proposição principal, em 206. Ele diz, portanto, primeiro [139] que, enquanto "céu" é dito de três modos, discuti-lo-emos agora em seu terceiro sentido, onde céu é tomado como "o todo contido pela circunferência extrema". Quanto a este céu, é necessário que ele consista de todo corpo sensível e natural — que é a sua matéria, e assim ele consiste de toda a sua matéria — devido ao fato de que fora deste céu nenhum corpo existe, nem pode existir. 201. Então, em [140], ele prova a proposição. Primeiro, ele mostra que não há corpo fora do céu;
Em segundo lugar, que nenhum pode estar lá, em 205. Sobre o primeiro, ele faz duas coisas: Primeiro, ele apresenta uma divisão através da qual manifesta a proposição;
Em segundo lugar, ele exclui cada membro da divisão, em 202. Ele diz, portanto, primeiro [140] que, se há um corpo Físico, i.e., natural, fora da periferia extrema, i.e., circunferência, ele tem de ser ou do número dos corpos simples, ou do número dos corpos compostos. Além disso, deve existir ali segundo a natureza, ou fora de sua natureza. 202. Então, em [141], ele elimina cada membro desta divisão. Primeiro, ele mostra que fora da esfera extrema nenhum corpo simples existe segundo a natureza. Pois os corpos simples são tais que um é movido circularmente, um a partir do meio, e um é movido para o meio e no meio sustenta todos os outros, como foi dito acima. Mas nenhum destes corpos pode existir fora da circunferência extrema. Pois foi mostrado acima, na Física VI, que o corpo movido circularmente não muda de lugar quanto a todo o seu ser, exceto em concepção. Consequentemente, não é possível para aquele corpo que é movido circularmente ser transferido para um lugar fora daquele em que existe. Mas isto se seguiria, se houvesse um corpo movido circularmente existindo fora da circunferência extrema como em seu lugar natural. Visto que a razão pela qual seria natural para aquele corpo movido circularmente também tornaria natural para o corpo movido circularmente neste mundo, e todo corpo é naturalmente levado ao seu lugar natural, seguir-se-ia, portanto, que aquele último corpo movido circularmente seria transferido para fora de seu lugar próprio para outro lugar — o que é impossível. Similarmente, não é possível para um corpo leve que é movido a partir do centro estar fora da circunferência extrema ou para um corpo pesado que sustenta os outros corpos no centro. Pois, se é sustentado que eles existem naturalmente fora da circunferência extrema, tal coisa não pode ser, uma vez que eles têm outros lugares naturais, a saber, dentro da circunferência extrema do todo. Pois foi mostrado acima que há um lugar numérico para todos os corpos pesados e um para todos os corpos leves. Portanto, não é possível que esses corpos estejam naturalmente fora da circunferência extrema do todo. E deve-se notar que este argumento, tanto para o corpo movido circularmente quanto para o corpo movido com movimento retilíneo, possui necessidade devido ao que foi provado acima, a saber, que há apenas um extremo e um meio. 203. Em segundo lugar, em [142], ele mostra que nenhum corpo simples está fora do céu fora de sua natureza. Pois, se estivesse ali dessa maneira, aquele lugar seria natural para algum outro corpo; pois um lugar fora da natureza para um corpo deve ser segundo a natureza para algum outro — se um corpo próprio faltasse a um lugar, aquele lugar existiria em vão. Mas não se pode dizer que aquele lugar é natural para qualquer corpo: pois não é natural para um corpo movido circularmente, nem para um corpo leve ou pesado. Mas foi mostrado acima que não há outros corpos além destes. Consequentemente, é evidente que nenhum corpo simples existe fora do céu, seja segundo a natureza, seja fora da natureza. 204. Em terceiro lugar, em [143], ele prova que não há corpo misto lá. Pois, se nenhum dos corpos simples existe lá, segue-se que nenhum corpo misto existe. Onde quer que haja um corpo misto, os corpos simples devem estar lá, devido ao fato de que corpos simples estão presentes no misto; e um corpo misto obtém seu lugar natural de acordo com o corpo simples predominante nele. 205. Então, em [144], ele mostra que fora do céu não pode haver nenhum corpo. Portanto, ele diz que não é possível para um corpo vir a ser fora do céu. Pois ele estaria ali ou segundo a natureza ou fora da natureza; novamente, seria ou simples ou misto. Mas não importa qual destes seja dado, a mesma situação do acima prevaleceria. Pois, de acordo com as razões acima expostas, não faz diferença se a questão diz respeito à existência de um corpo fora do céu, ou à possibilidade de vir a ser ali, uma vez que os argumentos anteriores concluem ambos, e uma vez que nas coisas sempiternas o ser e o poder ser não diferem, como é dito na Física III.
206. Em [145], ele apresenta a conclusão principal. E afirma que, pelo que foi dito, é evidente que fora do céu não existe, nem pode existir, qualquer massa de corpo, visto que o mundo inteiro consiste em sua matéria própria total, e a matéria do mundo é o corpo natural sensível. No entanto, não se deve entender que ele deseja provar que nenhum corpo sensível existe fora do céu com base no fato de que ele consiste na totalidade de sua matéria; mas sim o contrário. Ainda assim, ele utiliza essa maneira de falar porque os dois são mutuamente conversíveis. Ele conclui, portanto, que não há muitos mundos no presente, nem houve muitos no passado, nem jamais será possível haver no futuro. Pelo contrário, o céu é uno, único e perfeito no sentido de consistir em todas as suas partes ou em sua matéria total.