INTRODUÇÃO DE SÃO TOMÁS
Assunto deste livro e sua relação com o assunto da ciência natural em geral
1. Como diz o Filósofo no livro I da Física: "Julgamos que conhecemos uma coisa quando conhecemos as primeiras causas e os primeiros princípios até os elementos." Disso o Filósofo mostra claramente que, nas ciências, há um processo ordenado, que procede das causas e princípios primeiros até as causas próximas, que são os elementos constitutivos da essência de uma coisa. E isso é razoável: pois o método seguido nas ciências é obra da razão, a quem cabe estabelecer ordem; por isso, em toda obra da razão se encontra alguma ordem segundo a qual se passa de uma coisa a outra. E isso se mostra não só na razão prática, que considera as coisas que nós fazemos, mas também na razão especulativa, que considera as coisas feitas por outra origem.
2. O processo do anterior ao posterior encontra-se no ato da razão prática segundo uma ordem quádrupla: primeiro, segundo a ordem de apreensão, na medida em que o artífice primeiro apreende a forma da casa de modo absoluto e depois a realiza na matéria; segundo, segundo a ordem de intenção, na medida em que o artífice pretende completar a casa e, para isso, faz tudo o que faz às partes da casa; terceiro, segundo a ordem de composição, na medida em que primeiro talha as pedras e depois as junta num só muro; quarto, segundo a ordem de sustentação do edifício, na medida em que o artífice primeiro assenta o alicerce, sobre o qual se apoiam as demais partes da casa.
De modo semelhante, encontra-se uma ordem quádrupla na consideração da razão especulativa. Primeiro, porque há um processo do geral ao menos geral. E essa ordem corresponde à primeira ordem que chamamos "ordem de apreensão", pois os universais são considerados segundo uma forma absoluta, ao passo que os particulares o são pela aplicação da forma à matéria, como diz o Filósofo em Sobre o Céu: que a palavra "céu" significa uma forma, e "este céu" significa uma forma na matéria.
A segunda ordem é aquela segundo a qual se vai do todo às partes. E ela corresponde à "ordem de intenção", na medida em que o todo é considerado antes das partes, não de quaisquer partes, mas daquelas que são segundo a matéria e que pertencem ao indivíduo. É o caso do semicírculo, na definição do qual entra o "círculo" (pois é "meio círculo"), e do ângulo agudo, na definição do qual entra o "ângulo reto" (pois o ângulo agudo é um ângulo "menor que um ângulo reto"). Ser dividido dessa maneira é acidental ao círculo e ao ângulo reto; portanto, nenhuma dessas divisões é parte da espécie do círculo ou do ângulo reto. Pois as partes desse tipo [isto é, as partes da espécie] são anteriores na consideração ao todo e são usadas na definição do todo, como a carne e os ossos na definição do homem, conforme se diz no livro VII da Metafísica.
A terceira ordem é aquela segundo a qual se vai do simples ao composto, na medida em que os compostos são conhecidos a partir dos simples, como por meio de seus princípios. E essa ordem é comparada à terceira ordem, que é a "ordem de composição". Já a quarta ordem é aquela que requer que as partes principais sejam consideradas primeiro, como o coração e o fígado antes das artérias e do sangue. E isso corresponde, na ordem prática, àquela ordem segundo a qual o alicerce é assentado primeiro.
Essa ordem quádrupla também é considerada no procedimento da ciência natural. Pois, em primeiro lugar, as coisas comuns à natureza são determinadas no livro da Física, no qual se trata do ente móvel enquanto móvel. Assim, o que resta nos demais livros da ciência natural é aplicar essas coisas comuns aos seus sujeitos próprios. O sujeito do movimento, porém, é a grandeza e o corpo, pois nada é movido senão o que é quantificado.
Ora, é nos corpos que se consideram as outras três ordens: de um modo, na medida em que todo o universo corpóreo é anterior na consideração às suas partes; de outro modo, na medida em que os corpos simples são considerados antes dos mistos; e, em terceiro lugar, na medida em que, entre os corpos simples, deve-se considerar primeiro o primeiro, isto é, o corpo celeste, pelo qual todos os outros são sustentados. E essas três coisas são tratadas neste livro, que os gregos intitulam Sobre o Céu. Pois neste livro são tratadas certas coisas que dizem respeito ao universo inteiro, como é evidente no livro I; e coisas que dizem respeito ao corpo celeste, como é evidente no livro II; e coisas que dizem respeito aos corpos simples, como é evidente nos livros III e IV. Por conseguinte, com boa razão este livro é o primeiro em ordem depois do livro da Física. Por essa razão, o primeiro tópico de discussão no começo mesmo deste livro é o corpo, ao qual se deve aplicar tudo o que foi exposto sobre o movimento na Física.
3. Como neste livro se tratam coisas diversas, houve entre os primeiros comentadores de Aristóteles uma questão sobre o sujeito deste livro. Pois Alexandre acreditava que o sujeito tratado principalmente aqui é o universo. Assim, como "os céus" tem um tríplice sentido (pois às vezes se refere à esfera mais externa, às vezes a todo o corpo movido circularmente, e às vezes ao universo inteiro), ele afirma que este livro se intitula Sobre o Céu como se significasse Sobre o Universo ou Sobre o Mundo. Ao afirmar isso, supõe que o Filósofo determina aqui certas matérias pertinentes ao universo inteiro, por exemplo, que ele é finito, que é único, e coisas desse tipo.
Por outro lado, parece a alguns que o principal assunto tratado neste livro é o corpo celeste, que se move circularmente, razão pela qual o livro se intitula Sobre o Céu. Os outros corpos, porém, são discutidos nele por consequência, na medida em que são contidos pelos céus e por eles influenciados, como dizia Jâmblico; ou apenas por acidente, na medida em que se pressupõe o conhecimento dos outros corpos para explicar o que se diz dos céus, como diz Siriano. Mas isso não parece provável, pois, depois de terminar a discussão sobre os céus no livro II, o Filósofo trata nos livros III e IV dos outros corpos simples como se fossem seu assunto principal. Ora, o Filósofo não costuma atribuir a uma ciência uma parte principal a coisas que são levantadas apenas incidentalmente.
4. Por isso, pareceu a outros, como diz Simplício, que a intenção de Aristóteles neste livro é determinar sobre os corpos simples enquanto participam da noção comum de corpo simples; e, porque entre os corpos simples o principal são os céus, dos quais os outros dependem, o livro inteiro recebe seu nome dos céus. E, segundo ele, não faz diferença que neste livro se considerem coisas pertinentes ao universo inteiro, pois as condições em questão pertencem ao universo na medida em que pertencem ao corpo celeste, isto é, ser finito e eterno, e assim por diante. Mas, se a intenção principal do Filósofo fosse determinar sobre o universo ou o mundo, então teria de estender sua consideração a todas as partes do mundo, até as plantas e os animais, como faz Platão no Timeu.
Mas o mesmo argumento pode ser usado contra Simplício, pois, se Aristóteles neste livro pretendesse tratar principalmente dos corpos simples, então teria de mencionar aqui tudo o que pertence aos corpos simples, ao passo que discute apenas o que pertence à sua leveza e peso, tratando os outros aspectos no livro Sobre a Geração.
5. Assim, a opinião de Alexandre parece mais razoável, isto é, que o sujeito deste livro é o próprio universo, que se chama "os céus" ou "o mundo", e que a determinação sobre os corpos simples é feita neste livro na medida em que eles são partes do universo. Ora, o universo corpóreo é composto de suas partes segundo uma ordem de posição [situs]; por conseguinte, este livro determina apenas sobre aquelas partes do universo que primária e per se têm posição no universo, a saber, os corpos simples. É por isso que os quatro elementos não são tratados neste livro sob o aspecto de serem quentes ou frios ou algo do gênero, mas apenas com respeito à sua gravidade e leveza, das quais se determina sua posição no universo. As outras partes do universo, como pedras, plantas e animais, têm um lugar determinado [situs] no universo não segundo o que são em si mesmas, mas segundo os corpos simples; por conseguinte, não são tratadas neste livro. E isso concorda com o que se costuma dizer entre os latinos, que este livro discute o corpo móvel com respeito à posição ou ao lugar, sendo tal movimento comum a todas as partes do universo.