Capítulo 3
Que vantagem, pois, tem o judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em todos os aspectos: primeiramente, porque lhes foram confiados os oráculos de Deus. E que importa que alguns deles não tenham crido? Porventura a incredulidade deles anulará a fidelidade de Deus? De modo algum. Deus é veraz, e todo homem é mentiroso, como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e vençam quando fores julgado (Sl 50,6). Mas, se a nossa iniquidade põe em relevo a justiça de Deus, que diremos? Será Deus injusto ao infligir a ira? (Falo à maneira humana.) De modo algum. Do contrário, como Deus julgará este mundo? Pois, se a verdade de Deus abundou para a sua glória na minha mentira, por que ainda sou eu julgado como pecador? E por que não (como somos caluniados e como alguns afirmam que dizemos) faremos o mal para que venham os bens? A condenação desses é justa. Que então? Somos superiores a eles? De modo algum. Pois já acusamos que judeus e gregos estão todos debaixo do pecado, como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se desviaram, juntamente se tornaram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um só. Sepulcro aberto é a sua garganta, com suas línguas urdiam enganos, veneno de víboras está sob seus lábios; a sua boca está cheia de maldição e de amargura; seus pés são velozes para derramar sangue; ruína e infelicidade há em seus caminhos, e não conheceram o caminho da paz; não há temor de Deus diante de seus olhos (Sl 13). Sabemos, porém, que tudo o que a lei diz, o diz aos que estão sob a lei, para que toda boca seja fechada e todo o mundo se torne sujeito a Deus; porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada diante dele. Pois pela lei vem o conhecimento do pecado. Mas agora, sem a lei, manifestou-se a justiça de Deus, testemunhada pela lei e pelos Profetas. A justiça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem nele; pois não há distinção. Todos, com efeito, pecaram e estão privados da glória de Deus. Justificados gratuitamente por sua graça, pela redenção que está em Cristo Jesus, a quem Deus propôs como propiciação, mediante a fé, em seu sangue, para manifestação de sua justiça, pela remissão dos pecados anteriores, na paciência de Deus, para manifestação de sua justiça no tempo presente, a fim de que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus Cristo. Onde está, pois, a tua glória? Foi excluída. Por que lei? A das obras? Não, mas pela lei da fé; porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei. Porventura Deus é só dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios; porque há um só Deus, que justifica a circuncisão pela fé e a incircuncisão por meio da fé. Destruímos, pois, a lei pela fé? De modo algum; antes, confirmamos a lei.
Comentário
Como provou acima que a incircuncisão se torna circuncisão e, ao contrário, a circuncisão se torna incircuncisão, o judeu objetaria por isso que, sob o estado do Antigo Testamento, nada mais lhe foi conferido do que ao gentio. Para refutar isto, diz Paulo, inserindo a objeção do judeu: porque eu disse que a incircuncisão é reputada como circuncisão, e vice-versa, dir-me-á, por isso: que vantagem tem o judeu no estado antigo, mais que o gentio? Ou qual a utilidade da circuncisão ao judeu, se ao gentio valia o mesmo a incircuncisão? A circuncisão pareceria feita em vão, a lei dada supérfluamente, se sem essas coisas se pôde ter o bem da lei e da circuncisão, como se mostra no gentio. Teve certamente o judeu no estado antigo muito mais conferido do que o gentio (ainda que não tenha observado); pois ser circuncidado e instruído nas demais coisas da lei foram boas preparações e certas instruções para entender a fé de Cristo; o gentio, porém, não teve instrução alguma além do intelecto natural. Não digo, contudo, que o judeu deva ser tido por mais digno que o gentio na fé de Cristo, mas certamente estava mais preparado para a fé; por isso, se não consentiu na fé, é mais condenado que o gentio; se consentiu, não superou por isso o gentio na dignidade da fé.
Perguntas o que mais foi conferido ao judeu; muito, certamente, e em todos os aspectos, tanto segundo a alma quanto segundo o corpo, e em cada coisa, no corpo e na alma, muitos bens foram feitos ao judeu, dos quais o gentio nada teve: no corpo, porque os livrou dos inimigos e lhes deu a terra da promessa, etc.; na alma, porque os instruiu pela lei e tiveram conhecimento de Deus, etc. E muitas coisas semelhantes lhes conferiu, no corpo e na alma; das quais diz Paulo: muitas coisas poderia aduzir para comprovar que mais foi conferido ao judeu do que ao gentio; mas primeiramente, isto é, porque isto é o principal para provar o que pretendo, porei isto: que mais foi conferido ao judeu porque lhes foram confiados, isto é, propostos para sua instrução, os oráculos de Deus, os preceitos que Deus deu na lei e nos Profetas.
Contra isto o judeu novamente: pelos oráculos dados não houve mais para o judeu que para o gentio, porque não creu nos oráculos de Deus. Na verdade, diz Paulo, houve mais pelos oráculos confiados ao judeu; pois que importa se alguns deles, dos judeus, não creram nos oráculos de Deus e por isso foram reprovados? Que impede que não tenha sido conferido mais ao judeu do que ao gentio? Nada o impede; pois, quanto dependeu de Deus, preparou-os para a fé, embora tenham permanecido incrédulos. Realmente, se alguns deles não creram, nada impede; porque Deus não deixou de cumprir o que prometera por causa da incredulidade deles: porventura a incredulidade deles anulará a fidelidade, isto é, o cumprimento das promessas de Deus? Nada do que Deus prometeu deixou por cumprir, e por isso nada impede que o judeu tenha tido mais, embora alguns tenham sido condenados na incredulidade. Pergunto se por causa dos incrédulos foi anulada a fidelidade de Deus; de modo algum; que a fidelidade de Deus possa ou se creia poder ser anulada de algum modo; porque, embora alguns deles não tenham crido, Deus, contudo, é veraz, isto é, cumpridor de tudo o que prometeu. Deus é certamente veraz, mas todo homem, quem quer que seja, judeu ou gentio, é mentiroso, isto é, pecador; pois Deus, ao vir para salvar, encontrou todo homem sob o pecado e, segundo os méritos, indigno da salvação; donde é manifesto que a fé e a salvação de Deus provêm igualmente da graça para judeus e gentios. Chama-se mentira todo pecado, porque toda criatura, que naturalmente deve obedecer ao seu Criador, ao transgredir o mandamento de Deus torna mentirosa a sua própria natureza, abandonando a pureza em que foi criada.
Que Deus seja veraz, afirmo-o também pelo testemunho da Escritura: digo isto como está escrito, acerca da veracidade de Deus, num salmo; Deus é sem dúvida veraz, pois diz Davi: Para que sejas justificado em tuas palavras (Sl 50,6), isto é, justificando-me, apareças verdadeiro em tuas promessas. Aquele "para que" lê-se na sequência do salmo, no qual Davi, réu de muitos crimes, como a traição ao soldado, a morte do próximo, a concupiscência ilícita e o adultério, tratava de obter o perdão de tudo isso, do qual estava certo pela promessa que lhe fora feita acerca de Cristo, feita somente àqueles que haviam de ser salvos por Cristo; por isso confia que será limpo deste crime, pois do contrário seria indigno da salvação futura. Além disso, deve-se notar que, como Davi, sem alegar mérito algum, confia ser salvo somente pela graça e se confessa pecador, ele que ninguém mais santo viveu sob a lei, ninguém pode salvar-se por mérito, mas só pela graça. Sejas justificado certamente em tuas palavras, e vençam os ímpios, quando fores julgado por eles como não sendo o Filho de Deus, e os venças nisto, justificando os homens como prometeste; ou então, vençam quando fores julgado, isto é, quando te associas a alguém como a mim; dizem, com efeito, que não devo ser salvo por causa do pecado, embora me tenhas sido prometido.
Aqui Paulo entra em algo que parece alheio ao começado; imputava-se, com efeito, a ele e aos demais Apóstolos que ensinavam ser bom pecar, porque, quanto mais numerosos fossem os pecados dos homens, tanto mais glorioso apareceria Deus perdoando todos quantos fossem; tomando daí ocasião: porque «onde abundou o delito, superabundou a graça», e semelhantes. Isto Paulo começa aqui a destruir, e com muita pertinência; pois aqui provará que toda salvação é da graça de Deus e nada do mérito do homem, dizendo que todo homem mentiroso foi achado réu; Deus, porém, justificando todo réu por graça, é veraz nas promessas; por isso aparece que a nossa iniquidade põe em relevo a justiça de Deus, isto é, torna Deus digno de louvor, justificando os homens dos pecados somente pela graça; e isto é verdade, porque quanto mais copiosa é a sua graça na remissão dos pecados, tanto mais, sem dúvida, é digno de louvor Deus. Mas, embora perdoe quaisquer pecados, não dá com isso motivo de pecar. A nossa iniquidade põe Deus em relevo, mas, se é assim, que Deus seja mais digno de louvor por causa da nossa iniquidade, que diremos a isso? Parece seguir-se daí algo estranho; por isso, que diremos? Será Deus injusto por infligir a ira, isto é, a vingança, por causa do pecado que o torna mais digno de louvor? Isto parece contrário à equidade. Isto que digo, que não é bastante justo, porque pune o pecado que o louva, digo-o à maneira humana, isto é, segundo o que entende carnalmente; mas de mim digo isto: de modo algum seja Deus injusto, por punir o pecado.
E prova-o pelo impossível, dizendo: na verdade Deus não é injusto ao infligir a ira; do contrário, isto é, se Deus fosse injusto, como julgará este mundo? Não se deve crer que aquele que foi constituído juiz de todo o mundo seja injusto: e isto é impossível. Realmente, se Deus é injusto, não julgará o mundo, porque nem a mim só; a mim, porém, não julgará pelo pecado, porque assim aumento a sua glória; pois, se a verdade de Deus abundou na minha mentira, isto é, por causa do meu pecado, isto é, mais abundantemente se mostra Deus, pela verdade da promessa, como quem perdoou os pecados; abundou, para a sua glória, isto é, de Deus, porque quanto mais perdoou, tanto mais glorioso é conhecido por sua misericórdia; se certamente o meu pecado é causa de sua glória, por que ainda, isto é, por que também neste mundo eu (para omitir outros) sou julgado, isto é, desprezado, como pecador? Deveria ser arguido por este pecado em que aumento a glória de Deus? E por que não faremos o mal, para que os bens da misericórdia de Deus venham por isso em aumento, como somos caluniados por alguns que creem? Como também afirmam de nós alguns que nós não só cremos, mas também dizemos e pregamos aos outros: façamos o mal, isto é, pequemos à porfia, para que venham os bens, isto é, para que Deus tenha o que perdoar abundantemente. A condenação desses que assim nos caluniam é justa, isto é, devem ser justamente condenados por esta blasfêmia. Se julgo que estes devem ser condenados pelo pecado de blasfêmia, é claro que não prego que seja bom pecar. Os que assim pensavam, porém, pregavam que a glória de Deus está em sua misericórdia.
Como acima se provou que todo homem, judeu e gentio, é mentiroso, portanto, ó judeu, diz-me: que então?, isto é, qual é a causa pela qual devamos ser superiores a eles, isto é, aos gentios, na salvação? De modo algum somos superiores a eles. Na verdade não somos superiores; pois já acusamos, isto é, comprovamos com causas e razões convenientes, que judeus e gregos, todos (não excetuo ninguém), estão debaixo do pecado, não só no pecado, mas tão deprimidos sob o pecado que ninguém poderia por si ressurgir, sem a graça auxiliadora.
Prova dos judeus que todos estão debaixo do pecado, dizendo: quanto ao que digo, que todos os judeus estão sob o pecado, a Escritura me dá testemunho; afirmo-o como está escrito num salmo: não há justo, nem um sequer (aquele "que" lê-se na ordem do salmo); não há, com efeito, nenhum justo, isto é, que deixe o mal e faça o bem; e isto porque não há quem entenda. Não entendem, porém, porque não há quem busque a Deus; pois, se buscassem a Deus, certamente entenderiam e, entendendo, procurariam a justiça. Ninguém entre os judeus é justo, mas todos se desviaram, obrando mal em si mesmos; o que não lhes bastou, mas também se tornaram inúteis, isto é, empenhados na depravação dos outros; os quais se desviaram a tal ponto que não há entre eles quem faça o bem. Nem digo que, excluídos muitos do bem, alguns permaneçam no bem; mas não há entre eles quem faça o bem, nem um só; porque nem um só que faça o bem fica entre eles. Ou então, não há quem faça o bem até que se venha a um só, isto é, a Cristo pela fé; quem, com efeito, vier a Cristo pela fé, esse certamente faz o bem. Não há neles quem faça o bem, mas a sua garganta é um sepulcro aberto, que, recebidos os cadáveres, exala mau cheiro e ainda está aberto para receber cadáveres: assim eles fedem dos pecados anteriores e ainda anseiam por perpetrar crimes. E o que não podem fazer abertamente, urdiam enganos com suas línguas, pensando uma coisa e simulando outra. E sob os seus lábios, isto é, no coração, que está sob os lábios, está veneno de víboras, incurável; porque ninguém, enquanto consentir com eles, poderá ser curado. A boca desses judeus está cheia de maldição; maldiziam, com efeito, a Cristo, dizendo que era filho de um carpinteiro, e coisas semelhantes. Também a boca deles está cheia de amargura; diziam palavras amargas, clamando: «Crucifica-o, crucifica-o» (Lc 23,21). E os pés, isto é, as afeições desses judeus, são velozes para derramar sangue; antes de fato derramaram, com a vontade, o sangue de Cristo. E porque são tão iníquos, por isso em seus caminhos, isto é, em suas obras, há ruína, isto é, a miserável dispersão deles pelo orbe, feita pelos romanos. Há também em suas obras infelicidade, isto é, a condenação das almas, que é a única que se deve chamar infelicidade. E tudo isto lhes sucedeu porque não conheceram o caminho da paz, isto é, a Cristo, por quem se vai à verdadeira paz; e, assim como não o conheceram pelo amor, assim também nem pelo temor: não há temor de Deus diante de seus olhos; porque, mesmo que tivessem por natureza o temor de Deus e se lembrassem bem de que Deus deve ser temido, não tiveram então o temor de Deus diante, mas atrás dos olhos, porque o desprezaram.
Talvez dissesse o judeu que isto foi dito do gentio. Contra isto Paulo: tu, judeu, talvez julgues que isto não foi dito de ti; mas eu e todos os santos sabemos, e à autoridade deles não se deve resistir, sabemos certamente que tudo o que a lei diz, isto é, este salmo, sem dúvida o diz aos que estão sob a lei, isto é, aos judeus. Dizemos que o sabemos para que por esta palavra toda boca seja fechada; convencido o judeu, não há quem resista, pois ninguém duvida de que o gentio está sob o pecado; e assim, convencidos todos, todo o mundo se torne sujeito a Deus, tanto judeus quanto gentios, isto é, confessem todos que se salvam somente pela graça de Deus. E é justo que todo o mundo esteja sujeito a Deus e ninguém à lei; porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada diante dele, ainda que aos olhos dos homens pareça justa; mas todo aquele que está na lei permanece ali carne, isto é, carnal. Na verdade ninguém será justificado pelas obras da lei; pois pela lei vem o conhecimento do pecado, e não a justificação dos pecados. Se alguns, como Moisés e Davi, foram justificados sob a lei, não o tiveram da lei, mas pela fé de Cristo, a quem criam e esperavam como Redentor. Assim todos os justos sob a antiga lei foram justificados não pela lei, mas por Cristo, que, crendo, esperavam que viria[1]. E porque pela lei só se tem o conhecimento do pecado, agora, portanto, mostrado isto, manifestou-se, sem a lei, a justiça de Deus, isto é, tornou-se patente que Deus justifica os que creem somente pela graça, sem lei alguma; essa partícula é ilativa; justiça de Deus testemunhada pela lei de Moisés e pelos demais Profetas como devendo realizar-se pela graça.
Provado que a justiça de Deus se faz sem a lei, acrescenta por que meios se faz: pela fé e pela efusão do sangue de Cristo, dizendo: a justiça de Deus não se faz pela lei, mas se faz mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que creem; todo aquele, com efeito, que crer em Cristo será justificado dos pecados: e também sobre todos; porque o justificado nunca pode merecer tanto que a graça de Deus, retribuindo o seu mérito, não o supere. Na verdade todos são justificados pela fé; pois não há distinção, de modo que este seja justificado por mérito e aquele por graça. Não há distinção porque todos, tanto judeus quanto gentios, pecaram, como foi mostrado acima; e por isso estão privados da glória de Deus, isto é, de serem justificados por Deus, coisa em que Deus aparece glorioso. Estavam certamente privados da glória de Deus, porque foram justificados gratuitamente, sem mérito deles, por sua graça, isto é, pela efusão do Espírito Santo, cuja graça foi dada pela redenção precedente, que está em Cristo Jesus, isto é, pelo preço dado do sangue de Cristo: a quem Jesus Deus Pai propôs, isto é, expôs publicamente ao mundo, feito homem, como propiciação; em Cristo, com efeito, Deus se tornou propício ao mundo mediante a fé, isto é, aos que têm uma fé sã acerca de Cristo: propiciação em seu sangue, o do próprio Cristo; porque nem a fé sem a efusão do sangue, nem o sangue sem a fé aproveitaria para a salvação. Deus certamente propôs assim Cristo para manifestação de sua justiça, isto é, para mostrar-se justo e veraz, pela remissão dos pecados anteriores, isto é, para perdoar os pecados anteriores de Abraão e dos justos, na paciência de Deus; pois Deus suportou pacientemente os pecados deles, quando se cometiam, até purificá-los deles no tempo da graça. Deus propôs também Cristo como propiciação para manifestação de sua justiça, isto é, de sua justificação, no tempo presente, a saber, para que neste tempo da graça ficasse bem demonstrado a todos que, não libertando do vínculo do pecado nem o intelecto natural nem a lei dada, somente Deus podia justificar. Isto, digo, seria demonstrado a fim de que ele seja justo, isto é, veraz no cumprimento das promessas, e justificador de todo aquele que tem fé em Jesus Cristo, dos pecados.
Já que (como se provou acima) toda justiça é pela fé e é para todos; pois o judeu não se distingue do gentio, uma vez que todos igualmente pecaram; portanto, ó judeu, onde está a tua glória? Não te resta mais de que te glories na lei, pois pela lei não há justificação alguma, mas toda é pela fé: por isso foi excluída, isto é, foi tirada, a tua glória, com que te preferias pela lei ao gentio. Mas por que lei foi excluída a glória da tua lei? Foi tirada por uma lei semelhante das obras? A lei antiga era lei das obras, porque nela era igualmente necessário operar, imolando e observando os demais ritos carnais, como em campo ou vinha. Se Deus sobrepusesse a esta lei das obras outra lei semelhante, pareceria incongruente e indiferente que, por obras, repelisse obras; por isso diz: não foi excluída a tua glória pela lei das obras, mas pela lei da fé, isto é, pela fé que justifica, cuja lei é o Evangelho. Na verdade a tua glória é excluída pela fé; pois só a fé justifica, sem obra alguma da lei. E a este passo acrescenta uma autoridade, dizendo: eu e os justos comigo julgamos que o homem é justificado pela fé, só, sem as obras da lei, isto é, ainda que nenhuma obra da lei tenha precedido, a fé só basta, contudo, para a justificação do homem.
Diria o judeu: concedo que se justifica pela fé, mas só os judeus. Contra isso Paulo: não se deve crer que Deus justifique pela fé só os judeus; porventura Deus é Criador só dos judeus? Não o é também dos gentios? Assim como é dos judeus, assim também é Criador dos gentios. Sim, também dos gentios. Se criou igualmente os gentios e os judeus, é certo que Deus quer salvar igualmente a ambos. Na verdade, o Deus dos judeus é o Deus dos gentios, porque há um só Deus de todos. Se há um só Deus, é certo que é o mesmo o Deus dos gentios e o dos judeus. Visto que é um só o Criador dos gentios e dos judeus, é certo que este mesmo é quem justificou a circuncisão, isto é, os judeus, pela fé, e não pela lei, e quem justificou a incircuncisão, isto é, os gentios, igualmente por meio da fé. Os que espreitam a letra dizem que algo mais expressivo é notado pelo que diz "pela fé" (ex fide) do que quando diz "por meio da fé" (per fidem); querem, com efeito, designar ao dizer ex fide que os judeus não tiveram nenhum início de justificação senão pela fé; dos gentios, porém, porque não havia dúvida alguma, não se exprimiu assim. Mas Agostinho diz que ex fide e per fidem são equivalentes, já que em outro lugar o Apóstolo diz que os judeus são justificados per fidem e os gentios ex fide.
E porque dizemos que se é justificado somente pela fé, sem as obras da lei, destruímos, pois, isto é, por isso, a lei pela fé introduzida? De modo algum, que a fé destrua a lei; nós certamente não a destruímos, mas antes confirmamos, isto é, comprovamos que a lei foi estável e válida; se, com efeito, não se seguisse a fé que justifica, a lei antiga seria certamente vã, porque não se daria nem a realidade nem a figura; mas prova-se agora que foi válida porque figurou a graça, que assim justificaria pela fé. Quer ainda comprovar, pelo exemplo de Abraão, que a lei não pode justificar e que a fé só basta para isso, pois ele, antes de ter a lei da circuncisão, foi justificado somente pela fé, dizendo:
Notas
- Na primeira condição do homem, o homem caiu por soberba; Deus esperou-o por muito tempo, para que, se pudesse, ressurgisse pelo intelecto natural. Depois que o homem se achou incapaz disso, disse que, se tivesse uma lei pela qual discernisse os males dos bens e, inversamente, os bens dos males, poderia assim finalmente ressurgir. Deus, porém, para mostrar o homem impotente em tudo por si mesmo, deu a lei pela qual pudesse discernir os bens dos males; e nem assim pôde libertar-se. Deus certamente já sabia bem que assim seria com o homem, mas, conforme o desejo do homem, deixou-lhe o intelecto natural e depois concedeu-lhe a lei, para que, não libertado por estas coisas concedidas, cresse que por si nada é e assim recorresse à graça de Deus, que Deus, depois do intelecto natural e da lei, que não bastavam para a justificação, convenientemente concedeu, quando já nem se podia pensar em outro gênero de salvação. (Nota do próprio Autor.)