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Capítulo 2

Se, portanto, há alguma consolação em Cristo, se algum alívio da caridade, se alguma comunhão do Espírito, se algumas entranhas de misericórdia, completai a minha alegria, para que sintais o mesmo, tendo a mesma caridade, unânimes, sentindo uma só coisa. Nada façais por contenda, nem por vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si, não considerando cada um o que é seu, mas o que é dos outros. Pois tende em vós o mesmo sentir que houve em Cristo Jesus; o qual, sendo na forma de Deus, não julgou rapina o ser igual a Deus; mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, feito à semelhança dos homens, e reconhecido por figura como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus também o exaltou, e lhe deu um nome que está acima de todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e nos infernos; e toda língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai. Portanto, meus caríssimos (como sempre obedecestes), não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, operai a vossa salvação com temor e tremor. Pois é Deus quem opera em vós o querer e o realizar, segundo a sua boa vontade. Fazei tudo sem murmurações e hesitações, para que sejais irrepreensíveis e simples filhos de Deus, sem mácula no meio de uma nação depravada e perversa; entre os quais brilhais como luzeiros no mundo, mantendo a palavra de vida para a minha glória no dia de Cristo, porque não corri em vão, nem trabalhei em vão. Mas, ainda que eu seja imolado sobre o sacrifício e a oblação da vossa fé, alegro-me e congratulo-me com todos vós. E vós também alegrai-vos do mesmo modo e congratulai-vos comigo. Espero, porém, no Senhor Jesus, enviar-vos em breve Timóteo, para que também eu fique de bom ânimo, conhecendo as coisas que vos dizem respeito. Pois não tenho ninguém tão unânime que com sincera afeição se preocupe por vós. Todos buscam o que é seu, não o que é de Jesus Cristo. Conhecei, porém, a prova dele, porque, como filho a pai, serviu comigo no Evangelho. A este, pois, espero enviar-vos, logo que eu tiver visto o que se passa comigo. Confio, porém, no Senhor, que também eu mesmo irei em breve a vós. Julguei necessário enviar-vos Epafrodito, meu irmão, cooperador e companheiro de armas, vosso apóstolo e ministro da minha necessidade; porque ele desejava a todos vós e estava aflito por terdes ouvido que adoecera. Com efeito, adoeceu até à morte; mas Deus teve misericórdia dele; e não só dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza. Enviei-o, portanto, com mais presteza, para que, vendo-o novamente, vos alegreis, e eu fique sem tristeza. Recebei-o, pois, com toda a alegria no Senhor, e tende em honra os que são como ele; porque pela obra de Cristo chegou até às portas da morte, entregando a sua vida, para suprir o que faltava da vossa parte no serviço que me prestais.

Comentário

Disse acima: as cadeias que me sucederam redundaram em proveito do Evangelho; o que também vós padeceis, é-vos causa de salvação, e assim vos foi concedido padecer pelo mérito de Cristo. Disto agora infere, dizendo: porque o meu padecer é proveito do Evangelho, e porque igualmente padeceis por Cristo, é-vos causa de salvação, portanto, irmãos, completai a minha alegria, alegria que já começastes, desde que sofrestes afronta por Cristo. Entende por completar a alegria que padeçam por Cristo de tal modo que tenham sempre associada a humildade da paciência; aqui, com efeito, mais abertamente os exortará a que tenham, com a paciência, a humildade, para que, se padecem por Cristo, não se anteponham por isso, como mais dignos, aos demais; a paciência, com efeito, sem a humildade é inútil. Completai a minha alegria se há alguma consolação em Cristo, isto é, se de Cristo buscais consolação em alguma coisa; ou então (para calar de Cristo), se algum alívio da caridade, isto é, da dileção fraterna, quereis ter, completai então a minha alegria. Ou assim: se alguma consolação me é dada junto de vós em Cristo, isto é, por amor de Cristo, e se algum alívio da caridade, isto é, da dileção fraterna, tenho junto de vós, de querer consolar-me por fraterna caridade, completai então a minha alegria. E se há em vós alguma (isto é, qualquer) comunhão do Espírito, isto é, se no Espírito Santo tendes comunhão com as outras Igrejas; e se há em vós algumas entranhas, isto é, alguns afetos piedosos de misericórdia, isto é, de exibição de misericórdia, completai a minha alegria. As entranhas põem-se aqui como misericórdia; o afeto piedoso (ainda que nada opere) diz-se misericórdia; o efeito da misericórdia chama-se comiseração. Por isso tão instantemente os conjura, porque quer que mantenham a humildade, sem a qual entende ser vã a paciência deles. Completai, digo, a alegria, de modo que sintais o mesmo, isto é, de modo que as prosperidades do próximo tenham tão bom sabor em vós como se fossem vossas; sintais, digo, tendo a mesma caridade, isto é, igual dileção para com todo próximo: ainda que, com efeito, por vezes convenha ter maior familiaridade com alguns, como Cristo a teve com João, isto não se deve contudo dizer caridade, mas maior familiaridade, que se tem conforme alguns são mais oportunos para certas coisas, outros menos.

Sejais também sentindo uma só coisa nas adversidades do próximo, de modo que a angústia dele não só a sintais no ânimo, mas vos pique como própria; vós, digo, unânimes, isto é, tendo igual ânimo de compaixão para com todo próximo; vós, de novo, nada fazendo por contenda, de modo que um que mais padece conteste antepor-se a outro que menos padece; ou então, nada dispondo das coisas eclesiásticas por contenda; nem fazendo coisa alguma por vanglória, isto é, por glória mundana: mas sede julgando cada um os outros superiores a si, que um repute o outro superior a si; e isto não com fingida soberba, mas com humildade, de modo que, assim como um antepõe a si o outro, assim tenha no coração a mesma humildade, julgando superior a si aquele a quem antepõe. E de que modo um julgue o outro superior a si, põe o conselho, dizendo: para que julgueis uns aos outros superiores a vós, não considereis cada um os bens que são seus; mas considerai apenas os bens que são dos outros; se, com efeito, postos de lado os vossos, atendeis às virtudes dos outros, assim os julgareis superiores a vós.

Para lhes recomendar ambas as coisas, humildade e paciência, expõe quão grande foi a humildade e a paciência de Cristo, dizendo: digo bem "com humildade"; pois tende em vós o mesmo sentir que vedes sobretudo não só em mim, mas em Cristo Jesus. E não só tende isto, mas também senti-lo, isto é, prová-lo pela experiência da coisa. Por isso diz "sentir"; muitos há, com efeito, que julgam poder sofrer tudo por Cristo e que, se acaso chegassem à prova, desfaleceriam. Senti, digo, em vós a humildade e a paciência que vedes sobretudo em mim e em Cristo Jesus; o qual Cristo Jesus, sendo na forma, isto é, na igualdade de Deus Pai, invisível como ele, coeterno e consubstancial a ele, soube ser igual a Deus; e nisto que soube, maior humildade; se, com efeito, ignorada a sua altura, assim se humilhasse, a sua humildade, por causa da ignorância, não seria tão recomendável: sabendo certamente ser igual a Deus, não julgou rapina, para usurpar coisa alheia; ou assim, na mesma sentença: julgando ser igual a Deus, não fez rapina, como o anjo maligno, que dizia: «Porei a minha sede ao Aquilão, e serei semelhante ao Altíssimo» (Is 14,13-14); e o homem, a quem a serpente disse: «Sereis como deuses» (Gn 3,5): ambos fizeram rapina, ao quererem usurpar mal para si o que era próprio de Deus; Cristo, porém, não fez rapina, porque julgou coisa própria.

E, embora Cristo estivesse na forma de Deus, contudo esvaziou-se, isto é, esvaziou a claridade da Deidade, ao pô-la sob a forma de servo; esvaziou-se, digo, a si mesmo, isto é, a própria Deidade, permanecendo, porém, ele mesmo no mesmo com o Pai; assim, com efeito, assumiu o que não era, de modo a permanecer o que era: e nisto muita humildade; se, com efeito, qualquer rei, perdido o direito do reino, é humilde, não é muito; mas se, tendo o direito do reino, dele se aliena permanecendo em humildade, é recomendável a sua humildade; esvaziou-se, digo, tomando a forma de servo: incomparável é a humildade, onde o Senhor escolheu ser servo. De novo, poderia tomar a forma de servo sem corrupção, de modo a não sentir as misérias da carne; por isso acrescenta: feito, isto é, recebendo nova feitura, à semelhança dos homens; assim, com efeito, foi passível e mortal como os outros homens. De novo, poderia estar à semelhança dos homens, tendo mãos e pés, e não se haver como homem; por isso acrescenta: e reconhecido por figura, isto é, no haver-se, foi achado como homem pelo tentador, o diabo; o diabo, com efeito, investigava se era Deus ou homem; mas, quando o achou faminto, julgou-o somente homem.

Nem só foi feito à semelhança dos homens, mas também humilhou-se a si mesmo, ele que era tão grande, ele mesmo, a saber, perdurando, porém, na glória da Deidade; humilhou-se, digo, feito obediente ao Pai em tudo, até a morte, e não morte de pessoa que fosse digna, mas morte de cruz, gênero de morte que era mais ignominioso que todo outro. Onde diz "morte", recomenda nele a paciência; onde diz "cruz", a humildade. Por isso, isto é, porque em tão grande humildade e paciência obedeceu a Deus, Deus também o exaltou, ele mesmo por seu mérito e Deus com ele o exaltou, isto é, pô-lo em grande altura, a saber, à sua direita; e a ele exaltado deu um nome, isto é, uma honorificência, nome que está acima de todo nome, isto é, superior a tudo o que se pode nomear, e tão acima que ao nome, isto é, para honra de Jesus se dobre todo joelho, isto é, todas as coisas lhe sejam plenamente sujeitas, como é sujeito quem dobra o joelho: todo joelho, digo, porque dos que estão nos céus, isto é, dos Anjos, na terra, isto é, dos homens, e nos infernos, isto é, dos demônios e das almas que ali estão, se dobre o joelho. E toda língua confesse — isto será no dia do juízo, quando, queiram ou não, os ímpios confessarão a Cristo —; confesse, digo, que o Senhor Jesus Cristo está na glória, isto é, na igualdade de Deus Pai segundo a Deidade, e depois do Pai primeiro quanto à humanidade, sobre toda criatura.

Porque Cristo foi tão paciente e humilde, e por ambas as coisas assim exaltado, portanto, meus caríssimos, operai a vossa salvação, isto é, a vossa exaltação, juntando em vós a humildade à paciência; vós, digo, como sempre me obedecestes enquanto estava convosco, assim agora, com temor do ânimo e tremor do corpo (deve-se, com efeito, sempre temer, ao que está de pé, que caia), operai a vossa salvação, de modo que não só na minha presença se diga que obedecestes, mas muito mais agora na minha ausência se prove a vossa obediência. E por isso nunca seguros, mas sempre com temor e tremor, porque é Deus quem opera em vós (para nada vos deixar) também o querer; e depois que pela graça tiver dado o querer, igualmente opera em vós o realizar; e isto não pelo vosso mérito precedente, mas somente segundo a sua boa vontade.

Deus tudo opera em vós; vós, porém, cooperando com Deus, fazei tudo sem murmurações, para que, se for necessário sofrerdes por muito tempo, não murmureis impacientemente contra Deus, como se injustamente permitisse que fôsseis afligidos. Fazei também tudo sem hesitações, isto é, que não digais: amanhã vigiarei, jejuarei, amanhã começarei a padecer por Cristo. Fazei assim, pois, para que sejais irrepreensíveis, isto é, para que não haja em vós de que um homem possa justamente queixar-se de vós; e para que sejais simples filhos de Deus, isto é, para que haja em vós, pela inocência, simples filiação de Deus; para que sejais também sem mácula, de modo que nem ocasião alguma apareça em vós por que pareçais repreensíveis, ainda que não haja culpa em vós.

Dir-me-iam: é pesado viver sem repreensão entre tantos que invejam a justiça. A isto ele: é verdade, porque habitais no meio de uma nação depravada e perversa em si, isto é, que perverte os outros, entre os quais, contudo, pela fé e pelas boas obras brilhais como luzeiros no mundo; assim como, com efeito, o sol e a lua iluminam o mundo, assim a vossa justiça ilumina as trevas deles: vós, digo, mantendo a palavra de vida, isto é, o Evangelho de Cristo, na fé do qual se tem a vida eterna; mantendo, digo, à maneira do vaso que bem contém o líquido nele infundido e o oferece a outros; assim também vós guardais em vós a palavra de Deus e a ministrais a outros; mantendo, digo, para a minha glória: pois, se eu hei de ter glória por vós manterdes a palavra de vida, muito mais vós que a mereceis; glória, digo, que me caberá no dia de Cristo, quando Cristo remunerará os seus. Terei certamente a minha glória, porque não corri em vão, nem trabalhei em vão. Correu quanto àqueles que facilmente converteu; trabalhou quanto aos mais difíceis no acesso à fé.

Corri, sim, e trabalhei em vós; nem me arrependo, mas, ainda que seja preciso que eu seja imolado por vós, nisto me congratulo convosco; o que diz assim: ainda que eu seja imolado sobre o sacrifício da vossa fé, e sobre a oblação da vossa fé, isto é, eu ofereci a vossa fé a Deus como sacrifício em odor de suavidade, e obséquio, isto é, as vossas boas obras em que depois da fé obsequiastes a Deus; mas se ainda depois destes trabalhos for preciso que eu seja imolado por vós, disso me alegro e congratulo-me, isto é, rendo graças, ou então, alegro-me junto com todos vós, que deveis alegrar-vos, se for vontade de Deus que eu seja imolado por vós. Vós, porém, o mesmo, retribuindo-me, para que igualmente sejais imolados por mim, alegrai-vos e congratulai-vos comigo, que vos armei para coisa tão digna, como é ser imolado por Cristo.

De novo: assim vos edifico pela Epístola para a paciência e humildade; espero, porém, no Senhor Jesus, enviar-vos em breve Timóteo, para que eu, conhecendo o que vos diz respeito, esteja de bom ânimo e seguro de vós, que receio vejais perturbados por causa da peleja iminente de ambos os lados. Por isso enviar-vos-ei antes Timóteo, pois não tenho ninguém tão unânime convosco, e que com tão sincera afeição se preocupe por vós. Verdadeiramente ninguém; todos, com efeito, que agora estão comigo, buscam o que é seu, não o que é de Jesus Cristo.

Envio-vo-lo, preocupado por vós; vós, porém, recebendo-o honrosamente, conhecei a prova dele; não o diz simplesmente, mas a prova dele, isto é, ele bem provado por mim; em muitas coisas, com efeito, tive prova: prova digo bem, porque, como filho a pai, serviu comigo no Evangelho, como filho obediente ao pai. E porque com sincera afeição vos ama, e como a pai me serviu, portanto espero enviar-vo-lo logo que eu tiver visto o fim do que se passa comigo. Por isso assim diz; Nero, com efeito, havia disposto dar em breve sentença sobre ele, se o mataria ou o reservaria. Esperava, porém, escapar, porque instruíra na fé muitos da casa de César, que trabalhavam pela sua libertação. Por isso acrescentou: confio, porém, no Senhor, que também eu mesmo irei em breve a vós. E, embora diga que hei de ir, e que hei de enviar Timóteo, entretanto julguei necessário enviar-vos Epafrodito, meu irmão e cooperador na pregação e companheiro de armas na tribulação, vosso apóstolo, isto é, ou legado, porque o haviam enviado a Paulo, ou apóstolo, isto é, pregador deles, ou bispo deles, e ministro da minha necessidade, isto é, que o que me enviastes me ministrou no tempo da necessidade; por isso julguei que devia ser enviado a vós, embora me fosse necessário, porque desejava a todos vós, e estava aflito, não por si açoitado, mas por terdes ouvido que adoecera, e não queria que vos entristecêsseis por ele. Este Epafrodito, enquanto ministrava a Paulo, interceptado pelos guardas, foi afligido veementemente com açoites. Adoecido, digo, por isso, pois adoeceu até à morte; mas Deus teve misericórdia dele, e não só dele, mas também de mim teve misericórdia nele, [para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza.] E porque vos doíeis por ele, enviei-o, portanto, com mais presteza do que faria (era-me, com efeito, necessário), para que, vendo-o, vos alegreis novamente; outrora, com efeito, quando estava convosco, vos alegráveis. E enviei-o para que eu fique sem tristeza, porque de vós, entristecidos por ele, tenho tristeza. E porque vos ama tanto, e vós a ele, enviamo-lo a vós; recebei-o, pois, com toda a alegria, não em cítaras e flautas, mas com alegria tida no Senhor; e aos que são como ele, que tanto sofreu por vós e tanto vos ama, tende em toda honra: e é justo; porque ele chegou até à morte pela obra de Cristo, que operava em mim, entregando a sua vida, e para suprir quanto ao meu obséquio o que faltava da vossa parte; vós enviáveis dinheiro, mas, além dele, não havia quem ousasse ministrar-me. Por este Epafrodito Paulo lhes enviou esta Epístola.