Skip to main content

Capítulo 15

Faço-vos saber, irmãos, o Evangelho que vos preguei, que também recebestes, no qual também estais firmes, pelo qual também sois salvos, se o guardais tal como vo-lo preguei; a não ser que tenhais crido em vão. Pois transmiti-vos, antes de tudo, o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e que apareceu a Cefas, depois aos Onze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais muitos ainda vivem, mas alguns já adormeceram; depois apareceu a Tiago, depois a todos os Apóstolos; e por último de todos, como a um aborto, apareceu também a mim. Pois eu sou o menor dos Apóstolos, que não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça não foi vã em mim, mas trabalhei mais do que todos eles; não eu, contudo, mas a graça de Deus comigo. Quer eu, quer eles, assim pregamos, e assim crestes. Se, pois, se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é também a vossa fé; e somos até achados falsas testemunhas de Deus, porque testemunhamos contra Deus que ressuscitou a Cristo, a quem não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, nem Cristo ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé, pois ainda estais nos vossos pecados. Logo, também os que adormeceram em Cristo pereceram. Se só nesta vida esperamos em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram, pois, assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. E, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados. Cada um, porém, em sua ordem: as primícias, Cristo; depois os que são de Cristo, os que creram na sua vinda. Depois o fim, quando entregar o reino a Deus e Pai, quando tiver destruído todo principado, toda potestade e toda virtude. Pois convém que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte; pois tudo sujeitou debaixo de seus pés. Quando, porém, diz: Tudo lhe está sujeito, é evidente que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. Quando todas as coisas lhe forem sujeitas, então o próprio Filho se sujeitará àquele que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos. De outro modo, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que também se batizam por eles? Por que também nós estamos em perigo a toda hora? Morro cada dia, pela glória que tenho em vós, irmãos, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Se (humanamente falando) combati com feras em Éfeso, que me aproveita, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos. Não vos deixeis seduzir: as más companhias corrompem os bons costumes. Despertai, justos, e não pequeis; pois alguns têm ignorância de Deus: digo-o para vossa vergonha. Mas dirá alguém: Como ressuscitam os mortos? Com que corpo virão? Insensato, o que semeias não revive, se antes não morrer. E o que semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas um simples grão, por exemplo de trigo ou de qualquer outra semente. Deus, porém, lhe dá um corpo como quer, e a cada uma das sementes o seu próprio corpo. Nem toda carne é a mesma carne; mas uma é a dos homens, outra a dos animais, outra a das aves, outra a dos peixes. Há também corpos celestes e corpos terrestres; mas uma é a glória dos celestes, outra a dos terrestres. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua, e outra a claridade das estrelas. Pois uma estrela difere de outra estrela em claridade; assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se na corrupção, ressuscitará na incorrupção; semeia-se na ignomínia, ressuscitará na glória; semeia-se na fraqueza, ressuscitará no poder; semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também espiritual, como está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente (Gn 2,7); o último Adão, espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, e sim o animal; depois o espiritual. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo homem, vindo do céu, é celeste. Qual o terreno, tais também os terrenos; e qual o celeste, tais também os celestes. Portanto, assim como trouxemos a imagem do terreno, tragamos também a imagem do celeste. Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus; nem a corrupção possuirá a incorrupção. Eis que vos digo um mistério: todos, na verdade, ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados. Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; pois a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Pois é necessário que este corpo corruptível se revista da incorrupção, e que este corpo mortal se revista da imortalidade. Quando este corpo mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: A morte foi absorvida pela vitória (Os 13,14). Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças, porém, a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, abundando sempre na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.

Comentário

Depois de os ter instruído sobre o batismo, sobre o Corpo e Sangue do Senhor e sobre os dons do Espírito Santo, por fim instrui-os sobre a ressurreição dos mortos, que em parte criam, em parte negavam. Criam, com efeito, que Cristo ressuscitara verdadeiramente dos mortos; criam também que ressuscitariam os que morressem na última trombeta, e logo reviveriam com a carne íntegra; mas diziam que aqueles cujos corpos se dissolvessem em cinzas não poderiam ressuscitar por razão alguma, aderindo além da medida a argumentos naturais. A letra liga-se assim: das línguas e da profecia vos instruo assim; da ressurreição dos mortos, porém, faço-vos saber, irmãos: faço saber, digo, o Evangelho, isto é, a ressurreição dos mortos, que é a maior parte da minha pregação; Evangelho que vos preguei, acerca da ressurreição, para que não aleguem pecar ignorantemente; que também recebestes, e deve ser vergonhoso negar de novo o que uma vez crestes bem; no qual também estais firmes; se não crêsseis a ressurreição, com efeito, em vão estaríeis firmes na fé; pelo qual Evangelho também sois salvos; a ressurreição da carne, com efeito, dizemos ser parte da fé, sem a qual ninguém pode salvar-se; salvos, digo, se o guardais tal como vo-lo preguei; a não ser que tenhais crido em vão, isto é, a não ser que digais inútil a vossa fé, o que os coríntios de modo algum confessariam, isto é, que em vão tivessem crido.

Transmito-vos o Evangelho; pois o que vos transmiti antes de tudo, isto é, entre os pontos principais da fé, o que também não tenho de mim, mas recebi de Deus, isto é, este Evangelho: que Cristo morreu pelos nossos pecados para os apagar; e, se os nossos pecados, cuja pena é a morte, foram apagados, por que somos retidos na morte? Cristo morreu; e isto digo segundo as Escrituras dos Profetas que atestam o mesmo. Como agora deve provar a ressurreição, antepõe que Cristo foi verdadeiramente morto, para que à verdadeira morte corresponda verdadeira Ressurreição. Também transmiti isto de Cristo: que foi sepultado, para que, ressuscitando logo depois da morte, não se dissesse: não morreu de verdade. Também transmiti isto dele: que ressuscitou ao terceiro dia; e isto digo segundo as Escrituras, que o atestam.

Provou pelos testemunhos das Escrituras; prova também que Cristo ressuscitou pelos testemunhos daqueles a quem foi visto depois da Ressurreição: e isto vos transmiti, que apareceu a Cefas, isto é, a Pedro (onde e como se deu esta aparição não lemos, mas está só escrito: O Senhor ressuscitou e apareceu a Pedro), e depois aos Onze Apóstolos, quando Tomé estava com eles. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais muitos ainda vivem até este tempo; e, se quiserdes, perguntai a eles; alguns, porém, já adormeceram (diz que Cristo morreu, que estes dormiram); depois apareceu a Tiago, bispo de Jerusalém, que, vendo Cristo na Cruz, fez voto de não comer pão até ver que Cristo ressuscitara: destas duas aparições nada se encontra nos Evangelhos. Depois a todos os Apóstolos, no dia da Ascensão. E por último de todos apareceu a mim, primeiro no caminho, depois no templo, orando; a mim, digo, como a um aborto, isto é, nascido para o apostolado por certa violência e compulsão: diz-se aborto porque, nascido fora do tempo em Cristo, recebeu o apostolado, estando o Senhor já recebido no céu com a carne. Digo bem aborto; pois eu sou o menor dos Apóstolos, que nem sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. E, embora não tenha sido digno, sou o que sou, isto é, Apóstolo, o que certamente sou pela graça de Deus; e, embora tenha sido antes perseguidor, desde que recebi a sua graça, a própria graça não foi vã, isto é, ociosa, em mim, mas trabalhei com todo gênero de paixão mais do que todos os outros Apóstolos; e, embora diga que trabalhei, contudo não eu o pude por mim, mas a graça de Deus operou comigo. Ao dizer que sofreu tantas e tão grandes coisas, aprova por isso bastante a ressurreição, na esperança da qual tudo padece.

Volta ao que acima: na verdade Cristo ressuscitou; pois assim pregamos, quer eu, quer aqueles outros Apóstolos (lugar da autoridade); e assim crestes também vós; que Cristo ressuscitou verdadeiramente, não o negueis. Se, pois, se prega, e não se pode negar, que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição dos mortos? Se Cristo ressuscitou, o que certamente é verdade, segue-se por necessidade a ressurreição dos mortos. Provou acima, por autoridades das Escrituras e por testemunhos dos santos que viram a Cristo, que de fato ressuscitou dos mortos; e daí inferiu que, se Cristo ressuscitou, haverá também ressurreição dos mortos; esta consequência assim prova: na verdade, se Cristo ressuscitou, há também ressurreição dos mortos; pois se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Este lugar é de semelhança e, entre causa e efeito, sob diversos respeitos: a semelhança está em que, se Cristo não pôde ser retido na morte, porque nele não houve o pecado, que é a causa da morte, nem nós, justificados dos pecados segundo o nosso modo, seremos retidos na morte. Se escapamos à morte, então ressuscitaremos, por esta semelhança, a saber, que, justificados dos pecados, ressuscitaremos com Cristo; mas porque Cristo é muito maior que nós em justiça, será também maior na glória da ressurreição. De novo, a Ressurreição de Cristo e tudo o que operou na terra olhavam a que o homem fosse restituído à bem-aventurança perdida: se este efeito, a saber, a ressurreição dos mortos, não se segue, em vão aquelas causas precederam; mas Cristo ressuscitou. E isto prova por muitos inconvenientes que provêm de ele não ter ressuscitado: digo que Cristo ressuscitou; pois se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, isto é, sem realidade; porque a coisa que prega não é assim. E do mesmo, outro inconveniente: vã é também a vossa fé, isto é, infrutuosa, se Cristo não ressuscitou: o que os coríntios, a saber, que a sua fé fosse vã, de modo algum confessariam. De novo outro inconveniente, se Cristo não ressuscitou, porque então somos achados falsas testemunhas de Deus Pai, porque testemunhamos contra Deus; — não agrada a Deus, com efeito, que alguém lhe atribua o que Deus não fez —; este testemunho, a saber, de que ressuscitou a Cristo, a quem, certamente, não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam. É verdade que os mortos ressuscitam como dizeis; pois se os mortos não ressuscitam, nem Cristo ressuscitou. O mesmo havia posto acima, mas para outro fim; ali, com efeito, para provar que é verdadeira esta, se Cristo ressuscitou, os mortos ressuscitarão; aqui, porém, para inferir verdadeira aquela que diz que Cristo não foi ressuscitado, a não ser que os mortos ressuscitem.

Diria o coríntio: preferiria negar a Ressurreição de Cristo a conceder que os mortos ressuscitam. Prova de novo pelo inconveniente que Cristo ressuscitou: na verdade Cristo ressuscitou; pois se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé em Cristo; nula foi aquela fé que recebestes: na verdade, se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé; pois ainda estais nos vossos pecados. Lê-se que ressuscitou para a nossa justificação: se não ressuscitou, nem nos justificou, e assim vã é a vossa fé; e porque os homens ainda estão nos pecados, logo, também os que adormeceram em Cristo, isto é, os mortos na fé de Cristo, pereceram, isto é, estão condenados. De novo outro inconveniente: se só nesta vida esperamos em Cristo, e não vamos ressuscitar, como dizeis, sem haver de ter a futura, então somos os mais miseráveis de todos os homens, porque nem desta nem de outra vida gozaremos, estando cada dia envolvidos em angústias.

Visto que tantos inconvenientes se apresentam da negada ressurreição, agora, portanto, isto é, das razões antecipadas colhe-se que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos; Cristo, digo, primícias, tanto segundo o tempo como segundo a dignidade: [no tempo], porque, embora alguns tenham sido ressuscitados antes dele, não dos mortos, recaíram no número dos que morrem; na dignidade, porque terá glória maior que todos, e tudo o que os outros tiverem, terão dele e por ele: Cristo, digo, primícias dos que adormeceram. Com isto, ao dizer Cristo primícias, insinua que os outros que dormem o seguirão na ressurreição. Dir-se-ia: não parece que, pelo mérito de um só homem, Cristo, possam ressuscitar todos os homens. Contra isto Paulo: na verdade os demais que dormem ressuscitarão por suas primícias, isto é, Cristo; pois assim como por um homem veio a morte de todos, assim também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Donde isto por semelhança: e assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados; se a culpa só de Adão bastou à condenação de todos, para que, omitida a maioridade, falemos só da semelhança, por que de modo semelhante a justiça só de Cristo não bastaria à justificação de todos?

Depois de provar que a ressurreição de todos será verdadeira, acrescenta convenientemente sobre a ordem desta ressurreição, para por isso os certificar mais e convidar à mesma ressurreição, dizendo: embora todos ressuscitem igualmente, cada um, contudo, em sua ordem; quem mais mereceu, com efeito, receberá mais glória; e de tal modo que Cristo será as primícias no tempo e na dignidade, como acima; depois, após Cristo, estarão na glória os que são de Cristo. Digo que são de Cristo naquilo: os que creram na sua vinda, isto é, na ressurreição; e assim creram, na integridade da fé e das boas obras, indo ao encontro, na vinda de Cristo. Poderia dizer: os que creram na Natividade de Cristo ou na Paixão; mas por isso disse "na vinda", porque pretendia recomendar-lhes a ressurreição.

E depois que os que são de Cristo ressuscitarem, depois o fim, isto é, o cumprimento da bem-aventurança prometida, quando entregar o reino, isto é, a sua Igreja, que rege com poder; entregar, digo, a Deus e Pai: dirá então Cristo entregar o reino ao Pai, quando colocar a sua Igreja diante dos olhos de Deus, para que o que aqui viu por espelho e em enigma, ali o veja face a face. Diz a Deus e Pai para mostrar aquele que não teve princípio de outro; para notar também que é tanto Criador como que exerce paterno amor para com as criaturas. Quando entregar, digo, o reino; e quando tiver destruído todo Principado, toda Potestade e toda Virtude.

Deve-se notar que Deus pôs nos Anjos diversidades de ofícios, e isto totalmente por causa dos homens, para que os Anjos ministrassem à salvação deles; mas, depois que os homens já estiverem na perfeição e de nenhuma administração necessitarem, esses nomes serão destruídos nos Anjos, com os quais se chamavam pela diversidade da administração humana: há, com efeito, alguns entre os Anjos que têm principado sobre todos os outros; há também outros que cumprem por poder o que lhes é imposto pelo principado; há outros que se dizem Virtudes, porque são operadores de milagres. Igualmente nos anjos maus, alguns são príncipes sobre todos os outros; outros têm poder de executar o que os príncipes ordenaram; outros, virtudes, que induzem alguns como que milagres novos: e estas coisas serão de novo abolidas no fim; porque, assim como os Anjos bons já não terão em que guardar os homens, assim os maus já não terão em que lhes fazer mal. Assim também entre os homens será destruída toda diferença de prelatura ou sujeição; entre eles não haverá desigualdade alguma de governo.

No fim Cristo entregará o seu reino ao Pai; mas por ora, enquanto não é o fim, convém que reine, isto é, que Cristo reja com poder a sua Igreja; — diz "convém" porque assim foi profetizado nas Escrituras, que por necessidade convém que se cumpram —; reinar, digo, até que Deus ponha todos os inimigos de Cristo debaixo de seus pés, isto é, em tão plena sujeição como alguns estão prostrados aos pés de outros; ou então, debaixo de seus pés, isto é, sujeitos à humanidade de Cristo, que por isso se significa pelos pés, porque pela humanidade assumida a Divindade veio aos homens. E depois que todas estas coisas forem abolidas, então será destruída também a morte, o último inimigo; porque, depois que não houver pecado, nem a pena do pecado, a saber, a morte, permanecerá; a morte, digo, inimiga, a quem os homens são inimigos, e que é inimiga dos homens. Na verdade os inimigos serão postos debaixo dos pés de Cristo; pois está escrito no salmo: Tudo sujeitou Deus debaixo de seus pés (Sl 8,8), isto é, de Cristo, como foi exposto no salmo: tem-se, contudo, "sujeitaste". Quando, porém, a Escritura diz "tudo", é evidente que tudo está sujeito a Cristo, exceto aquele que lhe sujeitou todas as coisas, a saber, exceto a Divindade. Deus, que sujeitou tudo a Cristo, não está sujeito a Cristo; mas o próprio Cristo estará sujeito àquele, isto é, à Deidade, que lhe sujeitou todas as coisas, isto é, a Cristo. Dir-se-ia: por ora Cristo estará sujeito a Deus, até que Deus lhe sujeite todas as coisas; mas depois não. Estará certamente, diz Paulo; porque, quando todas as coisas lhe forem sujeitas, então o próprio Cristo estará sujeito a Deus, que lhe sujeitou todas as coisas; sujeito, contudo, de modo a ser igual, a saber, para que Deus seja tudo em todos, isto é, em cada uma das criaturas; e assim em todos que tudo a cada um, isto é, perfeita bem-aventurança, perfeita glória e paz que supera também todo desejo do homem.

Volta a provar a ressurreição dos mortos, dizendo: a morte será destruída por Cristo, e os homens então ressuscitarão; de outro modo, isto é, se disseres que não há ressurreição dos mortos, que farão os que se batizam pelos mortos? Toca aqui o costume reprovável de alguns que, ouvindo que haveria ressurreição dos que se batizassem, depois de batizados batizavam-se de novo no lugar do pai infiel já morto, para assim o pai ou a mãe se salvarem na ressurreição. E isto aduz à vergonha dos coríntios; porque, se aqueles perversos tinham tanta fé na ressurreição, quanto mais os coríntios deveriam crer na ressurreição? A letra é esta: que farão os que se batizam pelos mortos, na esperança de ressurgir, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que também se batizam por eles, para serem justificados, se nem eles são justificados? Se fossem justificados dos pecados, com efeito, também ressuscitariam. Ou de outro modo assim: de outro modo, isto é, se não há ressurreição, que farão os que se batizam pelos mortos nas obras, isto é, pelos pecados, que operam a morte? Batizam-se, digo, na esperança da ressurreição; e que farão, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que também se batizam por eles, isto é, para serem justificados dos pecados? Ou de outro modo: de outro modo, se os mortos não ressuscitam, que farão os que se batizam por si mortos, isto é, a serem mortificados pelo pecado; ou, por si mortificados a Deus pelo pecado: o resto como foi dito.

De novo, se não há ressurreição dos mortos, por que também nós, Apóstolos, estamos em perigo a toda hora? As nossas tribulações, com efeito, não têm fim, as quais nos alegramos de padecer na esperança da futura ressurreição. Na verdade estamos em perigo; pois morro cada dia, isto é, padeço perigos de morte, irmãos, pela glória que tenho em vós, para que sejais dignos da glória da ressurreição. Ou, segundo Agostinho: morro, e juro isto pela vossa glória, irmãos; glória que já tenho em esperança em Cristo Jesus, nosso Senhor, que já ressuscitou em glória com a minha carne, que também mereceu que eu ressuscitasse com ele. Se, de novo, os mortos não ressuscitam, que me aproveita se, humanamente falando, isto é, segundo o poder da razão humana; ou então, segundo o homem, porque eu, homem, contra feras; humanamente certamente combati com feras em Éfeso, isto é, contra os efésios bestiais; porque, negando a ressurreição, dizem que o homem só vive neste mundo, o que também as feras fazem. Que me aproveita aquela luta, digo, se depois da morte não vou ter glória? Os efésios negavam a ressurreição; contra eles Paulo disputou com muito trabalho, aprovando que haveria ressurreição.

E visto que, segundo vós, não resta vida depois desta, nada mais já se deve fazer senão que, desesperados, comamos e bebamos; porque amanhã morreremos para não mais viver. Esta palavra disseram os judeus quando eram afligidos no cativeiro da Babilônia e desesperavam do auxílio de Deus; igualmente os que negam a ressurreição desesperam do auxílio e poder de Deus. E porque, irmãos, não se deve assim desesperar, mas confiar na ressurreição, por isso não vos deixeis seduzir pelos falsos apóstolos que não têm a fé da ressurreição. Ao dizer "seduzir", nota que há seduzidores entre eles. Não creiais nos seduzidores; pois as más companhias, isto é, os colóquios deles, não só violam a fé, mas corrompem os bons costumes; quem não crê na vida futura, com efeito, não sei por que se esforçaria em aderir aos bons costumes. E, para que não sejais corrompidos pelos seduzidores, despertai a fim de serdes justos; e, para conservardes a justiça, não pequeis mais. É necessário que desperteis; alguns, com efeito, entre vós têm ignorância de Deus, isto é, ignoram a equidade e a fidelidade de Deus; e digo-o para vossa vergonha, isto é, para a vossa confusão, para que tenhais vergonha dos vossos pecados.

Depois que Paulo, por razões necessárias, pelos inconvenientes que daí provêm e, de novo, pelo poder de Cristo, aprovou a ressurreição futura, quer aprová-la pela lei da natureza, porque a sabedoria humana argumenta mais segundo a passibilidade da natureza; como se dissesse: embora acima eu tenha aprovado suficientemente a ressurreição, contudo, objetando segundo a lei da natureza, dirá alguém: Como ressuscitam os mortos já dissolvidos em pó? A natureza não parece suportar isto. De novo, se de algum modo aquele pó se conglutina, com que corpo virão os homens que ressuscitarem? Pode-se porventura crer que tanta glória possa vir ao pó dissolvido, como pregas? Responde à primeira questão: a natureza suporta bem que os mortos ressuscitem; aquilo que tu, insensato, que duvidas da ressurreição; a semente, digo, que tu semeias não revive, isto é, de modo algum pode viver, se antes não morrer e apodrecer: como vês que convém que a semente apodreça, para depois viver, não duvides que o homem possa viver de novo depois da morte, já que por meio da morte convém viver. Prova a outra questão, a saber, a futura glória dos corpos, pela semelhança da mesma semente, dizendo: na verdade virão em maior glória dos corpos; pois o que semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas um simples grão; o corpo, porém, que há de nascer do simples grão terá muitos grãos, palhas e colmos: igualmente não te seja absurdo se dissermos que os nossos corpos ressuscitarão em maior glória do que são aqui semeados. Tu semeias um simples grão, por exemplo, isto é, como o grão de trigo ou o grão de qualquer das outras searas; tu semeias o simples grão, mas Deus dá àquele grão um corpo como quer, glorioso pela fertilidade dos grãos, das espigas e dos colmos; e, contudo, a cada uma das sementes dá o seu próprio corpo; porque, se foi semeado trigo, brota trigo; e assim, na identidade das sementes, cada grão ressuscita, e isto em exemplo de ressurreição melhorada, não de substância perdida.

E, como todos convêm em que terão a glória da ressurreição, diferem, contudo, em que alguns terão glória mais gloriosa, outros não tanto, segundo a diferença dos méritos, diria alguém: como toda a matéria dos homens consta dos mesmos elementos, parece que tudo o que se conferir a um, a matéria semelhante o possuiria totalmente em outro. O que Paulo, para sempre provocá-los ao melhor, refuta pela semelhança de outras criaturas: porque, assim como todos os animais foram feitos dos mesmos elementos, a mesma matéria não impede, contudo, que sejam uns e outros diversos entre si; nas criaturas celestes também, constituídas das mesmas matérias, há diferença de claridade entre si; assim, nos homens, a natureza da carne, a mesma em todos, não impede que possam diversificar-se na glória da ressurreição. A letra liga-se assim: embora todos ressuscitem em maior glória da carne, contudo, diferentemente; nem isto impede a mesma matéria da condição em todos; como vês que nem toda carne é a mesma carne, embora toda da mesma matéria, mas uma é a carne dos homens, outra a dos animais, outra a carne das aves, outra a carne dos peixes. E assim como os corpos terrestres diferem entre si, assim os celestes dos terrestres; há, com efeito, corpos celestes e corpos terrestres; e, convindo em serem corpos, diferem, contudo, em que uma é a glória dos corpos celestes, outra a dos terrestres. E assim como os celestes diferem dos terrestres, assim os próprios celestes entre si; pois uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua, e outra a claridade das estrelas; nas próprias estrelas também há diferença; pois uma estrela difere de outra em claridade: e assim como estas criaturas diferem entre si em claridade, assim também a ressurreição dos mortos será diferente para os justos na claridade da glória.

E, embora difiram na glória da ressurreição, têm, contudo, indiferentemente isto: que aqui se semeia o corpo do homem na corrupção, isto é, para que fique sujeito à corrupção — diz semear desde o dia em que o homem é concebido até o dia da ressurreição de todos —; semeia-se, sim, na corrupção, mas ressuscitará na incorrupção, isto é, para que seja alheio a toda corrupção, e este ressurgir será no dia do juízo. Semeia-se não só na corrupção, mas também na ignomínia; o homem, com efeito, é gerado em muita vileza da carne; mas então ressuscitará na glória perpétua a ter. Semeia-se aqui na fraqueza; está, com efeito, aqui sujeito a todas as doenças e diversas misérias; mas então ressuscitará no poder da impassibilidade e da imortalidade. Semeia-se aqui corpo animal, que convém sustentar com os cuidados cotidianos dos alimentos, como qualquer animal; mas então ressuscitará corpo espiritual, que é regido só pelo espírito, sem uso de alimento corporal. Na verdade semeia-se corpo animal, se este vosso corpo é animal; ressuscitará o mesmo corpo espiritual, se então será espiritual. Ou de outro modo: na verdade ressuscitará corpo espiritual; pois, se o corpo agora se diz animal, deve chamar-se também o mesmo corpo espiritual; animal, com efeito, não se diria senão em relação ao espiritual, de modo que animal e espiritual tenham quase força de relativos. Na verdade este corpo é animal, como está escrito no Gênesis (cap. 2,7): O primeiro homem, aqui chamado Adão, foi feito alma vivente, não que vivificasse o corpo, porque logo foi dissolvido pela morte, mas alma vivente, isto é, que ali viveria na carne; se o corpo não fosse alimentado por alimentos, com efeito, a alma não viveria ali, e por isso se diz vivente, como por forças alheias, e não vivificante: e na verdade ressuscitará corpo espiritual; pois o último Adão, isto é, Cristo — diz-se Adão porque dele nasceu segundo a linha da carne; e por isso último, porque depois dele não haverá outro Adão que introduza nova geração; todo homem, com efeito, é ou filho carnal de Adão ou espiritual —; este último Adão, digo, foi feito espírito, não vivente, mas vivificante; naquela ressurreição, com efeito, a alma vivificará o corpo de tal modo que viva perpetuamente sem necessidade de alimento algum.

Diria aquele: embora Cristo, que foi Deus, tenha podido ser assim vivificado, eu não poderei assim, que sou só homem. Nada impede, diz Paulo, porque, embora Cristo seja Deus, não foi primeiro aquele corpo que é espiritual, mas foi primeiro aquele corpo que é animal; e depois foi aquele corpo que é espiritual. Na verdade o primeiro homem foi feito alma vivente; pois o primeiro homem foi feito da terra, terreno; e o segundo Adão foi feito espírito vivificante; pois o segundo homem foi feito celeste, vindo do céu. E qual foi aquele primeiro terreno, tais são também os terrenos, que aderem à terrenidade dele; e qual foi aquele segundo celeste, tais serão também os imitadores dele, celestes. E, visto que quem seguir o terreno será terreno e quem o celeste será celeste, portanto, assim como trouxemos a imagem do terreno Adão, pelo pecado, tragamos daqui em diante também a imagem do celeste Adão, pela justiça de vida, para que, deposto o peso da terrenidade, nos alegremos na leveza da glória celeste.

Porque acabara de dizer: qual foi o celeste, tais serão os que a ele aderem, dissera também: tragamos a imagem do celeste; para que, por ocasião destas palavras, não julgássemos que nos basta para a salvação depor o homem velho no batismo e assumir ali o homem novo, determina Paulo que não basta trazer assim a imagem do celeste, se não a trazemos por contínua imitação das obras. A letra liga-se assim: embora eu tenha dito: tragamos a imagem do celeste, e seremos celestes, digo-vos, contudo, isto, isto é, determino-vos, irmãos: que a carne e o sangue, isto é, os que aquiescem à carne e ao sangue — alguns pecados, com efeito, são da carnalidade, como a mole luxúria, outros do vício do sangue, como a ira pela melancolia — e quantos seguem a carne e o sangue do pecado, não podem possuir o reino de Deus, isto é, a si mesmos na glória futura; o reino de Deus, com efeito, nada outro é que os próprios homens. Nesta vida ninguém possui a si mesmo, porque não há dia em que alguém não seja possuído pelo pecado; mas na bem-aventurança futura cada um dos justos possuirá a si mesmo, onde ninguém será inquietado por tentação da carne. Na verdade a carne e o sangue não possuirão o reino de Deus; pois a carne e o sangue são corrupção, ao passo que o reino de Deus é incorrupção; a corrupção, porém, não possuirá a incorrupção; portanto a carne e o sangue não possuirão o reino de Deus.

Porque acima dissera: quem trouxer a imagem do celeste ressuscitará em glória, e dissera de novo que a carne e o sangue de modo algum possuirão o reino de Deus; para que ninguém entenda estas palavras como contrárias, resolve-o absolvendo toda contrariedade, dizendo: para que não interpreteis mal as minhas palavras ditas, eis que vos digo um mistério, isto é, abro-vos coisa oculta, para que por sua abertura tire de vós a dúvida desta coisa: é verdade, como já disse, que todos ressuscitaremos, isto é, todos retomaremos os corpos, mas nem todos seremos transformados ao receber a glória; porque alguns ressuscitarão para aumentar a sua pena, outros para a glória. Ressuscitaremos, sim, num momento; e, para abrir maior facilidade da ressurreição, corrige o que dissera "num momento", dizendo: ressuscitaremos num abrir e fechar de olhos, isto é, tão depressa quanto o olho passa a ver algo, ou tão depressa quanto uma pálpebra se junta à outra. Isto, porém, se fará ao som da última trombeta; não que ali se ouça voz de trombeta, mas, assim como a voz da trombeta convida os vencedores à palma, e aos vencidos se faz de terror; assim aquela voz será sinal para os justos para que recebam o mérito do triunfo, e aos ímpios incutirá o terror da pena: última, porque, havendo Cristo dado muitas vozes no mundo, com as quais atemorizasse os ímpios e alegrasse os justos, aquela voz do juízo será a última, consumando aos justos a glória, aos ímpios a ira indefectível.

E porque nada mais dissera desta trombeta, acrescenta: digo bem trombeta; pois a trombeta soará; não determina se Cristo ou um Anjo deverá soar aquela trombeta; ou então, para que seja nominativo, aquela trombeta soará, e na voz da trombeta os mortos ressuscitarão incorruptíveis, isto é, restaurados na integridade dos membros; alguns, porém, a serem corrompidos pela dor das penas; mas nós, eleitos de Deus, seremos transformados, recebendo a glória da ressurreição. Na verdade seremos transformados; pois é necessário, isto é (para que as Escrituras sejam verdadeiras), inevitável; é necessário, digo, que este corpo corruptível, isto é, desgastado por tantas misérias, se revista da incorrupção. E porque poderia ser incorrupto por algum tempo, mas sem escapar, acrescenta: e é necessário que este corpo mortal se revista da imortalidade.

Na verdade este mortal se tornará imortal; pois a morte foi absorvida, isto é, destruída e engolida na vitória de Cristo, quando por sua morte superou a morte; ou então, na vitória sua, isto é, da morte; pelo fato de a morte ter presumido invadir Cristo, em quem não havia o pecado que é a causa da morte, sucumbiu na própria presunção. Esta autoridade encontra-se assim em Oseias: «Ó morte, eu serei a tua morte» (Os 13,14); e porque alguns interpretavam mal esta escritura, dizendo que isto estava escrito da morte da alma, não do corpo, Paulo antecipa a exposição desta autoridade, dizendo: quando, porém, este corpo mortal se revestir da imortalidade (não escapará à morte, com efeito, como alguns erradamente suspeitam, só a alma, mas com a alma também o corpo), então se cumprirá, isto é, realizar-se-á, a palavra que está escrita em Oseias: A morte foi absorvida pela vitória, como foi dito.

As palavras que seguem dizem-se do mesmo Profeta, que insulta a própria morte, porque foi destruída, e diz: visto que foi absorvida, onde está, ó morte, agora a tua vitória, com que sujeitavas tudo ao teu direito? E, ó morte, onde está agora o teu aguilhão, isto é, o pecado, que no aguilhão de sua cauda levava a morte em lugar de veneno? Diz Paulo: digo bem aguilhão; pois o aguilhão da morte é o pecado, isto é, picando com o seu aguilhão a morte nos homens. Por Paulo expor o que seja aguilhão, julga-se que as palavras precedentes não são dele. Ou, se são de Paulo, a sentença, contudo, não muda; insultando, com efeito, diz à morte: porque agora foste absorvida, onde está, ó morte, a tua vitória? O resto não muda.

Para que de novo não dissessem: já que, destruído o pecado, se destrói a morte, bem nos é agora, porque pela lei destruiremos o pecado. Contra isto Paulo: o pecado é o aguilhão da morte; a lei, porém, de modo algum enfraquece o pecado; antes é a força e o aumento do pecado. E isto removeu com acerto, para que, como pelo Cristo provara que se faz a ressurreição, assim por ele mostre ser toda a remissão do pecado. E porque a lei aumenta o pecado, por isso nenhuma graça à lei, mas graças a Deus, que nos deu a vitória sobre o pecado e a morte, e isto por nosso Senhor Jesus Cristo. E porque de Deus e por Cristo vem toda a vitória, portanto, irmãos meus amados, para serdes caros a Deus, sede firmes no bem, enquanto estais na quietude da paz; sede também inabaláveis na fé, se irromperem adversidades; vós, digo, abundando sempre na obra do Senhor, para obrardes cada vez melhor; vós, digo, sempre sabendo que o vosso trabalho não é vão, isto é, sem fruto, mas ressuscitareis em grande glória, e isto no Senhor, isto é, por meio do Senhor que misericordiosamente age em vós.