Skip to main content

LIÇÃO I - Cinco Sentidos do Termo "Princípio". A Definição Comum de Princípio

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 1: 1012b 34-1013a 23

403. Em um sentido, o termo princípio [início ou ponto de partida] significa aquilo a partir do qual alguém move algo primeiro; por exemplo, no caso de uma linha ou de uma jornada, se o movimento é a partir daqui, este é o princípio, mas se o movimento é na direção oposta, isto é algo diferente. Em outro sentido, princípio significa aquilo a partir do qual uma coisa melhor vem a ser, como o ponto de partida do ensino; pois algumas vezes não é a partir do que é primeiro ou do ponto de partida da coisa que se deve começar, mas a partir daquilo a partir do qual se aprende mais prontamente. Novamente, princípio significa aquela coisa primeira inerente a partir da qual algo é trazido à existência, como a quilha de um navio e o fundamento de uma casa, e como alguns supõem que o coração seja o princípio nos animais, e outros o cérebro, e outros qualquer outra coisa do tipo. Em outro sentido, significa aquela coisa primeira não inerente a partir da qual algo vem a ser; e aquilo a partir do qual o movimento e a mudança naturalmente primeiro começam, como uma criança vem de seu pai e mãe, e uma briga de linguagem abusiva. Em outro sentido, princípio significa aquilo segundo cuja vontade as coisas móveis são movidas e as coisas mutáveis são mudadas; nos estados, por exemplo, o poder principesco, magistral, imperial ou tirânico são todos princípios. E assim também as artes, especialmente as artes arquitetônicas, são chamadas de princípios. E aquilo a partir do qual uma coisa pode ser primeiramente conhecida também é chamado de princípio daquela coisa, como os postulados das demonstrações. E as causas também são faladas no mesmo número de sentidos, pois todas as causas são princípios.

404. Portanto, é comum a todos os princípios serem a primeira coisa a partir da qual uma coisa ou é, ou vem a ser, ou é conhecida. E destes, alguns são intrínsecos e outros extrínsecos. E por esta razão a natureza é um princípio, e também o é um elemento, e a mente, o propósito, a substância e a causa final; pois o bem e o mal são os princípios tanto do conhecimento quanto do movimento de muitas coisas.

COMENTÁRIO

Princípio

751. Agora deve-se notar que, embora um princípio e uma causa sejam o mesmo em sujeito, eles diferem em significado; pois o termo princípio implica uma ordem ou sequência, enquanto o termo causa implica alguma influência sobre o ser da coisa causada. Ora, uma ordem de prioridade e posterioridade é encontrada em coisas diferentes; mas de acordo com o que é primeiro conhecido por nós, a ordem é encontrada no movimento local, porque esse tipo de movimento é mais evidente aos sentidos. Além disso, a ordem é encontrada em três classes de coisas, uma das quais está naturalmente associada à outra, i.e., quantidade contínua, movimento e tempo. Pois na medida em que há prioridade e posterioridade na quantidade contínua, há prioridade e posterioridade no movimento; e na medida em que há prioridade e posterioridade no movimento, há prioridade e posterioridade no tempo, como é afirmado no Livro IV da Física. Portanto, porque um princípio é dito ser o que é primeiro em qualquer ordem, e a ordem que é considerada segundo prioridade e posterioridade na quantidade contínua é primeiro conhecida por nós (e as coisas são nomeadas por nós na medida em que são conhecidas por nós), por esta razão o termo princípio, propriamente considerado, designa o que é primeiro em uma quantidade contínua sobre a qual o movimento passa. Daí ele diz que um princípio é dito ser "aquilo a partir do qual alguém move algo primeiro", i.e., qualquer parte de uma quantidade contínua a partir da qual o movimento local começa. Ou, segundo outra leitura, "Alguma parte de uma coisa a partir da qual o movimento primeiro começará"; i.e., alguma parte de uma coisa a partir da qual ela primeiro começa a ser movida; por exemplo, no caso de uma linha e no de qualquer tipo de jornada, o princípio é o ponto a partir do qual o movimento começa. Mas o ponto oposto ou contrário é "algo diferente ou outro", i.e., o fim ou termo. Deve-se notar também que um princípio de movimento e um princípio de tempo pertencem a esta classe pela razão já dada.

752. Mas porque o movimento nem sempre começa do ponto de partida de uma quantidade contínua, mas daquela parte a partir da qual o movimento de cada coisa começa mais prontamente, ele dá, portanto, um segundo significado de princípio, dizendo que falamos de um princípio de movimento de outra maneira "como aquilo a partir do qual uma coisa melhor vem a ser", i.e., o ponto a partir do qual cada coisa começa a ser movida mais facilmente. Ele torna isso claro por um exemplo; pois nas disciplinas não se começa sempre a aprender a partir de algo que é um começo em sentido absoluto e por natureza, mas a partir daquilo a partir do qual se "é capaz de aprender" mais prontamente, i.e., a partir daquelas coisas que são mais bem conhecidas por nós, embora às vezes sejam mais remotas por sua natureza.

753. Ora, este sentido de princípio difere do primeiro. Pois no primeiro sentido, um princípio de movimento recebe seu nome do ponto de partida de uma quantidade contínua, enquanto aqui o princípio de quantidade contínua recebe seu nome do ponto de partida do movimento. Daí, no caso daqueles movimentos que são sobre quantidades contínuas circulares e não têm ponto de partida, o princípio é também considerado o ponto a partir do qual o corpo móvel é melhor ou mais adequadamente movido segundo sua natureza. Por exemplo, no caso da primeira coisa movida [a primeira esfera], o ponto de partida está no leste. O mesmo é verdade no caso de nossos próprios movimentos; pois um homem nem sempre começa a se mover do início de uma estrada, mas às vezes do meio ou de qualquer termo a partir do qual lhe seja conveniente começar a se mover.

754. Ora, da ordem considerada no movimento local, chegamos a conhecer a ordem em outros movimentos. E por esta razão temos os sentidos de princípio baseados no princípio da geração ou vir a ser das coisas. Mas isso é tomado de duas maneiras; pois é ou "inerente", i.e., intrínseco, ou "não inerente", i.e., extrínseco.

755. De primeiro modo, então, um princípio significa aquela parte de uma coisa que é primeiro gerada e a partir da qual a geração da coisa começa; por exemplo, no caso de um navio, a primeira coisa a vir a ser é a base ou quilha, que é em certo sentido o fundamento sobre o qual toda a superestrutura do navio é erguida. E, similarmente, no caso de uma casa, a primeira coisa que vem a ser é o fundamento. E no caso de um animal, a primeira coisa que vem a ser, segundo alguns, é o coração, e segundo outros, o cérebro ou algum outro membro do corpo. Pois um animal é distinguido de um não animal pela razão da sensação e do movimento. Ora, o princípio do movimento parece estar no coração, e as operações sensoriais são mais evidentes no cérebro. Daí aqueles que consideravam um animal do ponto de vista do movimento sustentavam que o coração é o princípio na geração de um animal. Mas aqueles que consideravam um animal apenas do ponto de vista dos sentidos sustentavam que o cérebro é este princípio; contudo, o primeiro princípio da sensação também está no coração, mesmo que as operações dos sentidos sejam completadas no cérebro. E aqueles que consideravam um animal do ponto de vista da operação, ou segundo algumas de suas atividades, sustentavam que o órgão que está naturalmente disposto para aquela operação, como o fígado ou alguma outra parte semelhante, é a primeira parte que é gerada em um animal. Mas segundo a visão do Filósofo, a primeira parte é o coração porque todos os poderes da alma são difundidos por todo o corpo por meio do coração.

756. De um segundo modo, chama-se princípio aquilo a partir do qual se inicia o processo de geração de uma coisa, mas que está fora dela. Isso fica claro no caso de três classes de coisas. A primeira é a dos entes naturais, nos quais se diz que o princípio de geração é aquilo a partir do qual o movimento naturalmente se inicia nas coisas que ocorrem por meio do movimento (como aquelas que ocorrem por alteração ou por algum tipo semelhante de movimento; por exemplo, diz-se que um homem se torna grande ou branco); ou aquilo a partir do qual uma mudança completa se inicia (como no caso das coisas que não resultam de movimento, mas que vêm a ser apenas por mutação). Isso é evidente no caso da geração substancial; por exemplo, uma criança vem de seu pai e de sua mãe, que são seus princípios, e uma briga, de palavras insultuosas, que incitam as almas dos homens à discórdia.

757. A segunda classe em que isso se torna claro é a dos atos humanos, sejam éticos ou políticos, nos quais se chama princípio aquilo por cuja vontade ou intenção outros são movidos ou mudados. Assim, aqueles que detêm poder civil, imperial ou mesmo tirânico nos Estados são ditos ocupar os lugares principiais; pois é por sua vontade que todas as coisas ocorrem ou são postas em movimento nos Estados. Diz-se que têm poder civil aqueles que são colocados no comando de ofícios particulares nos Estados, como juízes e pessoas desse tipo. Diz-se que têm poder imperial aqueles que governam a todos sem exceção, como os reis. E detêm poder tirânico aqueles que, pela violência e desrespeito à lei, mantêm o poder real em suas mãos para seu próprio benefício.

758. Ele apresenta como terceira classe as coisas feitas pela arte; pois também as artes, de modo semelhante, são chamadas princípios das coisas artificiais, porque o movimento necessário para produzir um artefato se origina da arte. E dessas artes, as arquitetônicas, que "derivam seu nome" da palavra princípio, ou seja, as chamadas artes principais, são ditas princípios em grau máximo. Pois por artes arquitetônicas entendemos aquelas que governam as artes subordinadas, como a arte do navegador governa a arte da construção naval, e a arte militar governa a arte da equitação.

759. Novamente, à semelhança da ordem considerada nos movimentos externos, uma certa ordem pode também ser observada em nossas apreensões das coisas, e especialmente na medida em que nosso ato de entender, ao proceder dos princípios às conclusões, guarda certa semelhança com o movimento. Portanto, de outro modo, chama-se princípio aquilo a partir do qual uma coisa é primeiramente conhecida; por exemplo, dizemos que "postulados", i.e., axiomas e suposições, são princípios das demonstrações.

760. As causas também são ditas princípios nesses modos, "pois todas as causas são princípios". Pois o movimento que termina no ser de uma coisa começa a partir de alguma causa, embora não seja designada causa e princípio sob o mesmo ponto de vista, como foi apontado acima (750).

761. Portanto, é (404).

Em seguida, ele reduz todos os sentidos mencionados de princípio a um que é comum. Diz que todos os sentidos anteriores têm algo em comum, na medida em que se chama princípio aquilo que vem primeiro (1) ou em relação ao ser de uma coisa (como a primeira parte de uma coisa é dita princípio) ou (2) em relação ao seu vir a ser (como o primeiro motor é dito princípio) ou em relação ao seu conhecimento.

762. Mas, enquanto todos os princípios concordam no aspecto mencionado, eles diferem, no entanto, porque alguns são intrínsecos e outros extrínsecos, como fica claro acima. Portanto, a natureza e o elemento, que são intrínsecos, podem ser princípios — a natureza como aquilo a partir do qual o movimento se inicia, e o elemento como a primeira parte na geração de uma coisa. "E mente", i.e., intelecto, e "propósito", i.e., a intenção de um homem, são ditos princípios como extrínsecos. Novamente, "a substância de uma coisa", i.e., sua forma, que é seu princípio de ser, é chamada princípio intrínseco, já que uma coisa tem ser por sua forma. Novamente, de acordo com o que foi dito, aquilo em vista do que algo vem a ser é dito um de seus princípios. Pois o bem, que tem o caráter de fim no caso da busca, e o mal, no caso da fuga, são princípios do conhecimento e do movimento de muitas coisas; isto é, todas aquelas que são feitas em vista de algum fim. Pois no âmbito da natureza, no dos atos morais e no dos artefatos, as demonstrações fazem uso especial da causa final.