LIÇÃO 7 - A Metafísica Difere de Todas as Outras Ciências
TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 7: 1063b 36-1064b 14
956. Toda ciência busca certos princípios e causas de cada um dos objetos cognoscíveis que caem sob seu escopo; por exemplo, a medicina e a ginástica fazem isso, e assim também faz cada uma das outras ciências, tanto produtivas quanto doutrinais. Pois cada uma delas delimita para si alguma classe de coisas e ocupa-se com isso como algo que é real e um ente, embora não como ente; mas existe uma certa outra ciência distinta destas que faz isso.
957. E cada uma das ciências mencionadas, de algum modo, assume a quididade em alguma classe de coisas e tenta provar o restante, com maior ou menor certeza. Algumas derivam a quididade da percepção sensível, e outras, assumindo-a de alguma outra ciência. Portanto, a partir de tal processo de indução, torna-se evidente que não há demonstração da substância e de sua quididade.
958. Ora, uma vez que existe uma ciência da natureza, é evidente que ela deve diferir tanto da ciência prática quanto da produtiva. Pois, no caso de uma ciência produtiva, a fonte do movimento está no artífice e não na coisa feita, e é ou a arte ou algum tipo de potência. E, de modo semelhante, no caso de uma ciência prática, o movimento não está na coisa feita, mas sim nos agentes. Mas a ciência do filósofo da natureza lida com coisas que têm em si mesmas uma fonte de movimento. Fica evidente, portanto, a partir dessas considerações, que a filosofia da natureza não deve ser nem prática nem produtiva, mas especulativa; pois ela deve se enquadrar em uma dessas classes.
959. E, uma vez que é necessário que cada uma das ciências tenha algum conhecimento da quididade e a utilize como ponto de partida, não devemos deixar de considerar como a filosofia da natureza deve definir as coisas e como deve considerar a estrutura inteligível da substância: se da mesma forma que o termo "chato" ou antes como o termo "côncavo". Pois, destes, a noção de "chato" inclui a matéria do objeto, mas a de "côncavo" é expressa sem matéria. Pois a chatice surge em um nariz, e por essa razão sua estrutura inteligível inclui a matéria; pois "chato" é um nariz côncavo. É evidente, então, que a estrutura inteligível da carne, do olho e das outras partes do corpo deve sempre ser dada juntamente com a matéria.
960. E, uma vez que existe uma ciência do ser enquanto ser e enquanto separável, deve-se considerar se essa ciência deve ser considerada a mesma que a filosofia da natureza ou antes uma ciência distinta dela. A filosofia da natureza lida com coisas que têm em si mesmas um princípio de movimento, e a matemática é especulativa e lida com coisas que são permanentes, mas não são separáveis. Portanto, existe uma ciência distinta de ambas, que trata do que é separável e imóvel; isto é, se existe alguma substância desse tipo, e quero dizer uma que seja separável e imóvel, como tentaremos provar (1055-76). E, se existe alguma natureza desse tipo entre as coisas existentes, ela existirá em algum lugar e será divina, e será o princípio primeiro e mais elevado. É evidente, então, que há três classes de ciência especulativa: a filosofia da natureza, a matemática e a teologia.
961. A classe das ciências especulativas, então, é a mais elevada, e destas, a última mencionada é a mais elevada de todas. Pois ela lida com o mais nobre dos seres, e cada ciência é dita ser mais elevada ou mais baixa em razão de seu objeto próprio.
962. No entanto, poder-se-ia levantar a questão se a ciência do ser enquanto ser é universal ou não. Pois cada uma das ciências matemáticas lida com alguma classe determinada de coisas, mas uma ciência universal é comum a todas. Se, então, as substâncias naturais são os seres primários, a filosofia da natureza deve ser a ciência primária. Mas se existe outra natureza e substância que é separável e imóvel, a ciência que trata dela deve ser diferente da filosofia da natureza e anterior a ela, e deve ser universal por ser anterior (902).
COMENTÁRIO
2247. Tendo mostrado com quais coisas esta ciência lida, aqui o Filósofo compara esta ciência com as outras. A este respeito, ele faz três coisas. Primeiro (956:C 2247), indica o que é próprio das ciências particulares. Segundo (958:C 2252), mostra como as ciências particulares diferem umas das outras ("Ora, uma vez que"). Terceiro (960:C 2259), compara esta ciência com as outras ("E, uma vez que existe").
Ao tratar do primeiro membro desta divisão, ele faz duas coisas, na medida em que há duas características que ele diz pertencerem às ciências particulares. Ele diz, então, primeiro (956), que toda ciência particular busca certos princípios e causas do objeto próprio de conhecimento que está dentro de seu escopo. Ele diz certos princípios e causas porque nem toda ciência considera toda classe de causa.
2248. Ele dá como exemplo a ciência da medicina, cujo objeto é a saúde, e a arte da ginástica, cujo objeto é o exercício físico direcionado ao bem-estar do corpo. O mesmo vale para qualquer uma das outras ciências, sejam elas "produtivas", i.e., práticas, ou "doutrinais", i.e., teóricas; porque cada uma dessas ciências particulares delimita e toma como sua alguma classe determinada de ser, na medida em que se confina a essa classe e lida apenas com ela. Pois ela lida com essa classe de ser como um certo tipo de ser, embora não como ser. Mas considerar isto, ou seja, o ser enquanto ser, pertence a uma ciência que difere de todas as ciências particulares.
2249. E cada uma (957).
Em segundo lugar, ele dá outra característica das ciências particulares. Ele diz que cada uma das ciências particulares acima mencionadas, de algum modo, assume a quididade em qualquer classe de coisas considerada. Daí foi afirmado no início dos Segundos Analíticos que é necessário assumir tanto a existência quanto a quididade do sujeito. E, tendo assumido isto, i.e., a quididade, que toda ciência usa como termo médio para demonstrar certas coisas, tais como propriedades e afins, ela tenta demonstrá-las com maior ou menor certeza; porque algumas ciências têm um método de demonstrar mais certo, como as ciências matemáticas, e outras um menos certo, como as ciências naturais.
2250. E, uma vez que ele dissera que outras ciências, de algum modo, assumem a quididade, ele acrescenta que algumas ciências derivam a quididade da percepção sensível, na medida em que adquirem um conhecimento da essência de uma coisa a partir de acidentes sensíveis, e que outras derivam a quididade assumindo-a de outras ciências, como as ciências particulares das universais.
2251. Assim, fica evidente que nas ciências particulares não há demonstração da substância ou da quididade de uma coisa. Portanto, ambas as coisas com as quais as ciências particulares não se preocupam, i.e., uma consideração da substância ou do ser e sua quididade, pertencem a uma ciência universal.
2252. Ora, uma vez que (958).
Em seguida, ele mostra como as ciências particulares diferem entre si. Primeiro (958:C 2252), mostra como a filosofia da natureza difere das ciências produtivas; e segundo (959:C 2256), como as ciências matemáticas diferem da filosofia da natureza ("E, visto que é necessário").
Ele diz, portanto, primeiro (958), que, já que existe uma ciência particular da natureza, ela deve ser diferente "da prática", i.e., das ciências que governam a atividade e daquelas que governam a produção; pois toda ciência prática é ou uma ciência da ação ou uma ciência da produção.
2253. Para entender essa diferença, devemos considerar uma distinção feita anteriormente no Livro IX (790:C 1864), a saber, que agir e fazer diferem; pois agir é dito propriamente de uma operação que permanece no agente e não passa para alguma matéria externa, por exemplo, entender e perceber e assim por diante. Mas fazer ou produzir é dito de uma operação que passa para alguma matéria externa que é mudada, por exemplo, aquecer e cortar e coisas semelhantes. Daí existe uma ciência da atividade pela qual somos instruídos sobre como realizar corretamente aquelas operações chamadas ações; e a ciência moral é tal. Mas a ciência pela qual fazemos algo corretamente é uma ciência produtiva. A arte da carpintaria e similares pertencem a essa classe.
2254. Ora, a filosofia da natureza difere de cada uma dessas ciências que governam operações; pois as ciências produtivas não têm um princípio de movimento na coisa feita, mas no fazedor, e esse princípio é ou a arte, que é um princípio diretivo, ou alguma potência que é o princípio executando o trabalho. Similarmente, "as ciências práticas", i.e., aquelas que governam a atividade, não têm um princípio de movimento naquilo sobre o qual a atividade é exercida, mas antes nos agentes.
2255. Mas aquelas coisas que pertencem à consideração da filosofia da natureza têm seus princípios de movimento em si mesmas, já que a natureza é um princípio de movimento na coisa em que existe. É evidente, então, que a filosofia da natureza não é uma ciência nem da ação nem da produção, mas é especulativa. Pois a filosofia da natureza deve cair em uma dessas classes, i.e., ciência ativa, produtiva ou especulativa. Daí, se não é uma ciência nem da ação nem da produção, segue-se que deve ser especulativa.
2256. E, visto que (959).
Em seguida, ele mostra como as ciências matemáticas diferem da filosofia da natureza. Ele diz que, já que cada uma das ciências deve de alguma forma conhecer a quididade e deve usar isso como ponto de partida com vistas a demonstrar, as ciências devem ser distinguidas com base em um método diferente de definir. Daí, para entender como a filosofia da natureza difere das outras ciências, não devemos negligenciar considerar o método que a filosofia da natureza usa ao definir as coisas, e como a definição deve ser considerada na filosofia da natureza; isto é, se uma coisa deve ser definida do modo como "chato" é ou do modo como "côncavo" é.
2257. Ora, a definição de "chato" inclui matéria sensível, mas a de "côncavo" não; pois, já que a chatice é encontrada apenas em uma matéria sensível definida, porque é encontrada apenas em um nariz, a estrutura inteligível de "chato" deve, portanto, incluir matéria sensível; pois "chato" é definido assim: chato é um nariz côncavo. Matéria sensível, no entanto, não está incluída na definição de côncavo ou curvo. Daí, assim como a matéria sensível está incluída na definição de "chato", também deve estar incluída na definição de carne e de olho e das outras partes do corpo. O mesmo vale para outros seres naturais.
2258. A diferença entre a filosofia da natureza e a matemática é tirada disso, porque a filosofia da natureza lida com aquelas coisas cujas definições incluem matéria sensível, enquanto a matemática lida com aquelas coisas cujas definições não incluem matéria sensível, embora tenham ser na matéria sensível.
2259. E, visto que há (960).
Em seguida, ele compara esta ciência com as outras ciências particulares; e a respeito disso ele faz três coisas. Primeiro (960:C 2259), ele compara esta ciência com as diferentes ciências particulares em referência ao modo como seus objetos são separados da matéria. Segundo (961:C 2265), ele as compara do ponto de vista da nobreza ("A classe das ciências especulativas"). Terceiro (962:C 2265), ele as compara do ponto de vista da universalidade ("Contudo, uma").
Ele diz, portanto, primeiro (960), que há uma ciência do ser enquanto é separável; pois é função desta ciência não apenas estabelecer a verdade sobre o ser em comum (e isso é estabelecer a verdade sobre o ser enquanto ser) mas também estabelecer a verdade sobre as coisas que são separadas da matéria no ser. Daí é necessário considerar se esta ciência, cuja função é considerar essas duas coisas, é a mesma que a filosofia da natureza ou difere dela.
2260. Que ela difere da filosofia da natureza, ele esclarece como se segue: a filosofia da natureza diz respeito a coisas que têm um princípio de movimento em si mesmas; portanto, as coisas naturais devem ter uma matéria definida, porque apenas aquilo que tem matéria é movido. Mas a matemática estuda coisas imóveis; pois aquelas coisas cuja estrutura inteligível não inclui matéria sensível devem igualmente não ter movimento em sua estrutura inteligível, já que o movimento é encontrado apenas em coisas sensíveis.
2261. Mas aquelas coisas que a matemática considera não são separáveis da matéria e do movimento no ser, mas apenas em sua estrutura inteligível. Daí, a ciência que trata desse tipo de ser que é separável da matéria e do movimento e é imóvel em todos os aspectos deve ser uma que difere tanto da matemática quanto da filosofia da natureza.
2262. Ele diz aqui, "se existe alguma tal substância" além das substâncias sensíveis que é imóvel em todos os aspectos. Ele diz isso porque a existência de alguma tal substância ainda não foi provada, embora ele pretenda provar isso.
2263. E se existe alguma natureza desse tipo entre as coisas existentes, isto é, uma que seja separável e imóvel, é necessário que “tal natureza exista em algum lugar”, ou seja, que seja atribuída a alguma substância. E tudo o que possui essa natureza deve ser algo divino e o mais elevado de todos; porque quanto mais simples e mais atual um ser é, mais nobre ele é e mais é anterior e causa das outras coisas. Assim, é evidente que a ciência que considera os seres separados desse tipo deve ser chamada de ciência divina e de ciência dos primeiros princípios.
2264. A partir disso, ele conclui novamente que há três classes de ciência especulativa: a filosofia da natureza, que considera as coisas que são móveis e têm matéria sensível em sua definição; a matemática, que considera coisas imóveis que não têm matéria sensível em sua definição, mas existem em matéria sensível; e a teologia, que considera seres que são inteiramente separados da matéria.
2265. A classe (961).
Em seguida, ele compara esta ciência com as outras do ponto de vista da nobreza. Ele diz que as ciências especulativas são as mais nobres, porque, de todas as ciências, as especulativas buscam o conhecimento pelo próprio conhecimento, enquanto as práticas buscam o conhecimento em função de alguma obra. E entre as ciências especulativas, há uma que é a mais elevada, a saber, a teologia, pois uma ciência que lida com seres mais nobres é ela mesma mais nobre; pois uma ciência é mais nobre na proporção da maior nobreza de seu objeto.
2266. No entanto, alguém poderia (962).
Então ele compara esta ciência com as outras do ponto de vista da universalidade. Ele diz que alguém poderia levantar a questão se a ciência que lida com seres separados deve ou não ser considerada uma ciência universal do ser enquanto ser; e que ela deve ser tal, ele mostra por um processo de eliminação.
2267. Pois é evidente que as ciências anteriores que lidam com operações não são ciências universais, e ele, portanto, as omite. No caso das ciências especulativas, é evidente que toda ciência matemática está preocupada com alguma classe determinada de coisas. Mas uma ciência universal lida com todas as coisas em comum. Nenhuma ciência matemática, então, pode ser aquela que trata todos os seres em comum. Quanto à filosofia da natureza, é evidente que, se as substâncias naturais, que são perceptíveis e móveis, são os seres primários, a filosofia da natureza deve ser a ciência primária; porque a ordem das ciências corresponde à ordem de seus sujeitos, como já foi dito (961:C 2265). Mas se existe uma natureza e substância diferente acima das substâncias naturais, que é separável e imóvel, deve haver uma ciência que difere da filosofia da natureza e é anterior a ela. E porque é primeira, deve ser universal; pois é a mesma ciência que trata dos seres primários e do que é universal, já que os seres primários são os princípios dos outros.