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LIÇÃO 5 - Por que as Definições e as Matérias são Unidades. A União da Matéria e da Forma

TEXTO DE ARISTÓTELES — Livro VIII, Capítulo 6: 1045a 7–1045b 23

733. Parece que devemos discutir a seguir o problema que foi mencionado a respeito das definições e dos números: o que é que os faz serem unos. Pois todas as coisas que têm várias partes, e das quais o todo não é uma espécie de amontoado, mas é algo além das partes, têm alguma causa que as faz unas. Pois, em alguns corpos, o contato é a causa de sua unidade, e, em outros, a viscosidade ou alguma outra qualidade desse tipo. Mas uma definição é uma estrutura inteligível una, não pela conexão de suas partes, como a Ilíada, mas por ser uma coisa una. Que é, então, que faz o homem ser uno; e por que ele é uma coisa una e não muitas, por exemplo, animal e bípede?

734. E se, de um modo diferente, como alguns afirmam, há um animal-em-si e um bípede-em-si, por que o homem não é essas duas coisas? E, se fosse esse o caso, os homens não seriam tais por participarem no homem, isto é, por participarem em uma coisa una, mas em duas, a saber, em animal e bípede. Daí, em geral, o homem não será uma coisa una, mas muitas, a saber, animal e bípede.

735. É evidente, então, que aqueles que aceitam essa posição e discutem e definem as coisas do modo como estão acostumados a fazer não podem encontrar uma resposta ou solução para este problema. Mas, se (como dizemos) uma parte é como matéria e a outra como forma, ou uma está em potência e a outra em ato, o problema com o qual estamos lidando não mais parecerá ser uma dificuldade.

736. Pois este problema é exatamente o mesmo que teríamos se a definição de manto fosse bronze redondo. Ora, suponhamos que este termo é o sinal dessa definição. Então, quando alguém pergunta o que faz o redondo e o bronze serem uma coisa una, não haverá mais um problema, porque um é como matéria e o outro como forma. Que é, então, à parte da causa eficiente, que faz o que está em potência tornar-se em ato no caso das coisas que são geradas? Pois não há outra causa de a esfera em potência ser uma esfera em ato; mas esta era a essência de cada uma.

737. Ademais, alguma matéria é inteligível e alguma é sensível. E uma parte de uma definição é sempre como matéria e a outra como atualidade; por exemplo, um círculo é uma figura plana.

738. Mas cada uma daquelas coisas que não têm matéria, seja inteligível, seja sensível, é imediatamente uma coisa una, assim como é um ente: uma coisa particular, uma qualidade ou uma quantidade; e, por esta razão, nem o ente nem a unidade são expressos em suas definições. E sua essência é imediatamente uma coisa una, assim como é também um ente. Por esta razão, não há alguma outra causa de cada uma delas ser una ou de ser algo; pois cada uma é imediatamente um ente e uma unidade, não como pertencendo à classe do ente ou da unidade, nem porque essas distinções existam separadamente das coisas singulares.

739. E é por causa desta dificuldade que alguns homens falam de participação e levantam a questão sobre o que causa a participação e o que é participar. Pois alguns falam da coexistência da alma, como Licofron, que diz que o conhecimento é a coexistência do ato de conhecer e da alma; e outros dizem que a vida é a composição ou conexão da alma com o corpo.

740. O mesmo argumento se aplica em todos os casos. Pois o ser sadio será ou a coexistência, ou a conjunção, ou a composição da alma e da saúde; e o ser um triângulo de bronze será a composição de bronze e triângulo; e o ser branco será a composição de superfície e brancura.

741. Ora, a razão desta posição é que esses pensadores estão procurando algum princípio unificador e diferença entre a potencialidade e a atualidade. Mas, como já assinalamos (736), tanto a matéria última como a forma são o mesmo, uma potencialmente e a outra atualmente. Daí, perguntar qual é a causa de sua unidade é o mesmo que perguntar o que as faz unas; pois cada coisa particular é uma unidade, e o que é potencial e o que é atual são, em certo sentido, uma coisa una. Daí, não há outra causa exceto aquela que causa o movimento da potencialidade à atualidade. E todas aquelas coisas que não têm matéria são simplesmente unas.

COMENTÁRIO

1755. Tendo tratado dos princípios material e formal, Aristóteles pretende agora resolver a questão sobre o modo pelo qual eles estão unidos entre si; e, com respeito a isso, ele faz três coisas. Primeiro (733:C 1755), ele levanta a questão. Segundo (735:C 1758), ele a responde («É evidente»). Terceiro (739:C 1765), ele rejeita as opiniões falsas sobre esta questão («E é por causa»).

Com respeito à primeira, ele dá duas razões para dizer que esta questão envolve uma dificuldade. Ele diz (733) que, com respeito à questão que foi tocada acima sobre as definições e os números, quanto ao que faz cada um deles ser uno, deve-se notar que todas as coisas que têm várias partes (e cujo todo não é meramente um amontoado de partes, mas é algo constituído de partes e está além das próprias partes) têm algo que as faz unas. Pois, em alguns corpos que têm unidade deste modo, o contato é a causa de sua unidade, e, em outros, a viscosidade ou algo mais desse tipo.

1756. Ora, é evidente que, embora um conceito definidor seja uma coisa una composta de muitas partes, não é uma coisa una meramente pela adição de suas partes, «como a Ilíada», isto é, o poema escrito sobre a história dos troianos, que é uma coisa una apenas por modo de agregação. Mas uma definição é uma coisa una em sentido absoluto, pois significa uma coisa una. É razoável, então, perguntar o que faz tanto a definição de homem ser uma coisa una, como também o próprio homem, cuja estrutura inteligível é a definição. Pois, uma vez que o homem é animal e bípede, e estes parecem ser duas coisas, é razoável perguntar por que o homem é uma coisa una e não muitas.

1757. E se, de um modo diferente (734).

Depois, ele dá a razão pela qual esta questão é um problema. Pois, se o que alguns homens afirmam é verdadeiro, isto é, se o próprio animal é uma coisa particular que existe por si mesma e é separada, e o mesmo é verdadeiro quanto ao bípede, como os platônicos sustentavam, então é razoável perguntar por que o homem não é essas duas coisas conectadas entre si, de modo que os homens particulares são tais somente por participarem no homem, e não por participarem em uma coisa una, mas em duas, animal e bípede. E, segundo isso, o homem não será uma coisa una, mas duas, a saber, animal e bípede.

1758. É evidente (735).

Ele resolve o problema acima; e, com respeito a isso, faz duas coisas. Primeiro, oferece uma explicação que parece fornecer uma solução ao problema. Ele diz que, se alguns homens aceitam as coisas que foram ditas sobre a posição de Platão e mudam as naturezas das coisas desse modo porque sustentam que os universais são separados, como os platônicos estavam acostumados a definir e a falar deles, será evidentemente impossível dar a causa da unidade de um homem ou resolver o problema precedente. Mas, se, como se afirmou acima (706:C 1700), alguém sustenta que, nas definições, uma parte é como matéria e a outra como forma, isto é, uma como potencialidade e a outra como atualidade, então será fácil resolver a questão, porque não parece haver um problema.

1759. Pois este problema (736).

Segundo, ele resolve este problema do modo supracitado. Primeiro, resolve-o no caso das substâncias naturais que são geradas e corrompidas. Ele diz que este problema seria o mesmo que se perguntássemos por que o bronze é redondo. Pois suponhamos que a definição do termo manto é bronze redondo, e que este termo significa essa definição. Então, quando alguém pergunta por que a definição bronze redondo é una, não parece haver problema algum, porque o bronze é como matéria e o redondo como forma. Pois não há outra causa de estes serem unos exceto aquela que faz o que está em potência tornar-se em ato. E, em tudo aquilo em que há geração, este é o agente. Daí, uma vez que isto (o que está em potencialidade para tornar-se em ato) é a essência significada pela definição, então, no caso das coisas sujeitas à geração e à corrupção, é evidentemente o agente que faz a definição da essência ser una.

1760. Ademais, alguma matéria (737).

Depois, ele resolve o problema acima com respeito aos objetos da matemática. Ele diz que a matéria é de dois tipos, sensível e inteligível.

A matéria sensível é o que pertence às qualidades sensíveis, quente e frio, raro e denso e coisas semelhantes; e com esta matéria os corpos naturais são concretados. Ora, os objetos da matemática abstraem deste tipo de matéria.

Mas a matéria inteligível significa o que é entendido sem qualidades sensíveis ou diferenças, por exemplo, o que é contínuo. E os objetos da matemática não abstraem deste tipo de matéria.

1761. Daí, seja no caso das coisas sensíveis, seja no dos objetos da matemática, suas definições devem sempre conter algo como matéria e algo como forma; por exemplo, na definição de um círculo matemático, um círculo é uma figura plana: plano é como matéria e figura como forma. Pois uma definição matemática e uma definição natural são cada uma coisa una pelos mesmos fundamentos (ainda que não haja agente no reino das entidades matemáticas como há no reino das entidades naturais), porque em ambos os casos uma parte da definição é como matéria e a outra como forma.

1762. Ele resolve o problema acima com respeito às coisas que são totalmente separadas da matéria. Ele diz que, no caso de todas aquelas coisas que não têm matéria inteligível, como os objetos da matemática têm, ou matéria sensível, como os corpos naturais têm, isto é, no caso das substâncias separadas, cada uma delas é imediatamente uma coisa una [individuada pela forma].

Pois cada uma daquelas coisas que têm matéria não é imediatamente uma coisa una, mas são unas porque a unidade advém à sua matéria. Mas, se há algo que é apenas uma forma, é imediatamente uma coisa una, porque é impossível pôr nela algo anterior em qualquer ordem que seja, que deva aguardar a unidade de uma forma.

1763. Ele dá este exemplo: as dez categorias não derivam o ser por acrescentar algo ao ente, do modo como as espécies são estabelecidas acrescentando diferenças aos gêneros, mas cada uma é ela mesma um ente. E, como isso é verdadeiro, é evidente que o ente não aguarda que algo lhe seja acrescentado para que se torne uma destas, isto é, ou substância, ou quantidade, ou qualidade; mas cada uma destas, desde o princípio, é imediatamente ou uma substância, ou uma quantidade, ou uma qualidade.

Esta é a razão pela qual nem a unidade nem o ente são dados como gênero nas definições, porque a unidade e o ente teriam de se relacionar como matéria com as diferenças, pela adição das quais o ente se tornaria ou substância, ou qualidade.

1764. Similarmente, aquilo que é totalmente separado da matéria e é sua própria essência, como se afirmou acima (1708), é imediatamente uma coisa una, assim como é um ente; pois não contém matéria que aguarde uma forma da qual derivará o ser e a unidade. No caso de tais coisas, então, não há causa que as faça unas por meio do movimento.

No entanto, algumas delas têm uma causa que sustenta suas substâncias sem que suas substâncias sejam movidas [as substâncias simples separadas dependem de Deus para a existência], e não como no caso das coisas sujeitas à geração, que vêm a ser por meio do movimento. Pois cada uma delas é imediatamente um ente particular e uma unidade, mas não de modo que o ente e a unidade sejam certos gêneros ou que existam como indivíduos à parte das coisas singulares, como os platônicos sustentavam.

1765. E é por causa (739).

Depois, ele rejeita a opinião falsa que alguns homens sustentaram sobre esta questão; e, com respeito a isso, ele faz três coisas.

Primeiro, ele enuncia a posição deles. Ele diz que é por causa deste problema que alguns, a saber, os platônicos, puseram a participação, pela qual os entes inferiores participam nos superiores; por exemplo, este homem particular participa no homem, e o homem no animal e no bípede. E eles perguntaram qual é a causa da participação e o que é participar, a fim de que lhes pudesse ficar claro por que esta coisa que chamo de animal bípede é uma coisa una. E outros sustentaram que a causa da unidade de um homem é uma certa consubstancialidade ou coexistência da alma com o corpo, como se o ser da alma com o corpo fosse significado em abstrato; como se falássemos de animação, como Licofron disse que o conhecimento é um meio entre a alma e o ato de conhecer; e outros disseram que a própria vida é o meio pelo qual a alma está unida ao corpo.

1766. O mesmo argumento (740).

Ele rejeita essas posições. Ele diz que, se a afirmação feita sobre a alma e o corpo é correta, isto é, que há algum meio que os une, o mesmo argumento se aplicará em todas as coisas que se relacionam como forma e matéria. Pois, segundo isso, o ser sadio será um meio como uma espécie de consubstancialidade ou uma espécie de conexão ou vínculo entre a alma, pela qual o animal subsiste, e a saúde. E o ser um triângulo será um meio que combina figura e triângulo. E o ser branco será um meio pelo qual a brancura está ligada à superfície. Isto é obviamente falso. Daí será falso que a animação seja um meio pelo qual a alma está unida ao corpo, uma vez que animação significa meramente ser animado.

1767. Ora, a razão (740).

Ele dá as razões do erro nas posições acima. Ele diz que a razão pela qual esses pensadores sustentaram tais opiniões é que eles buscavam algum princípio que tornasse a potencialidade e a atualidade uma coisa una, e procuravam as diferenças destas como se fosse necessário que fossem unidas por algum meio único, como coisas que são atuais e diversas. Mas, como se afirmou, tanto a matéria última, que é apropriada a uma forma, como a própria forma são o mesmo; pois uma delas é como potencialidade e a outra como atualidade. Daí, perguntar o que causa uma coisa é o mesmo que perguntar o que a faz ser una, porque cada coisa é una na medida em que é um ente. E a potencialidade e a atualidade são também unas em certo aspecto, pois é o potencial que se torna atual; e, assim, não é necessário que sejam unidas por algum vínculo, como aquelas coisas que são completamente diferentes. Daí, não há outra causa que produza a unidade das coisas que são compostas de matéria e forma, exceto aquela causa que move as coisas da potencialidade à atualidade. Mas aquelas coisas que simplesmente não têm matéria são, por si mesmas, alguma coisa una, assim como são algo existente. Estas explicações serão suficientes para o Livro VIII.