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LIÇÃO 5 - A Relação da Essência com a Coisa na Predicação Essencial e Acidental

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 6: 1031a 15-1032a 11

588. Além disso, é necessário investigar se cada coisa e sua essência são a mesma ou diferentes; pois isso é uma espécie de preâmbulo para a investigação sobre a substância.

589. Pois cada coisa parece não ser diferente de sua própria substância, e a essência é dita ser a substância de cada coisa.

590. Ora, no caso das predicações acidentais, cada coisa pareceria ser diferente de sua essência, assim como um homem branco pareceria ser diferente do ser de um homem branco. Pois, se fosse o mesmo, então o ser de um homem e o de um homem branco seriam o mesmo; pois um homem e um homem branco são o mesmo, como se diz, e, portanto, o ser de um homem branco é o mesmo que o de um homem. Ou [talvez] não seja necessário que todas essas coisas que são predicadas acidentalmente sejam as mesmas. Pois os termos extremos de um silogismo não se tornam os mesmos em sentido absoluto. Mas talvez possa parecer que se segue que termos extremos, que são acidentais, se tornam os mesmos, como o ser de branco e o ser de músico. No entanto, isso não parece ser o caso.

591. Mas no caso das predicações essenciais, uma coisa e sua essência devem ser sempre a mesma. E isso deve ser o caso se existem substâncias que não têm outras substâncias ou naturezas anteriores a elas, como alguns afirmam que as Ideias são. Pois, se o ser do bem difere do bem-em-si, e o ser de animal do animal-em-si, e o ser de ente do ente-em-si, haverá certas substâncias e naturezas e Ideias além daquelas mencionadas, e estas serão anteriores à substância, se a essência pertence à substância.

592. E se elas são separadas umas das outras, não haverá entendimento delas, e elas não serão entes. Ora, por separadas quer-se dizer, se o ser do bem não está presente no bem-em-si, e ser bom não pertence a este. Pois há entendimento de cada coisa pelo fato de que seu ser é conhecido; e o mesmo se aplica ao bem e a outras coisas. Logo, se o ser do bem não é bom, nem o ser de ente é ente, nem o ser de um é um. Ora, todas as essências são semelhantes ou nenhuma delas o é. Logo, se a essência de ente não é ente, também não será assim no caso de outras coisas. Além disso, qualquer coisa em que o ser do bem não seja encontrado não é boa.

593. É necessário, então, que o bem seja uno com o ser do bem, e que o amigável seja uno com o ser do amigável, e o mesmo é verdadeiro para todas aquelas coisas que não são predicadas de outra coisa, mas são predicadas primária e essencialmente. Pois é suficiente que seja assim, mesmo que não sejam Formas separadas; e talvez até mais se o forem. Fica também evidente ao mesmo tempo que, se as Ideias são como alguns afirmam, seu sujeito não será substância; pois as Ideias devem ser substâncias, mas não devem ser predicáveis de um sujeito; pois, se o fossem, existiriam apenas por participação nele. Fica claro por esses argumentos, então, que cada coisa é una e a mesma que sua essência, mas não de modo acidental; e que conhecer cada uma dessas coisas é conhecer sua essência. Logo, de acordo com esta exposição, ambos devem ser uma só coisa.

594. Mas não é verdade dizer que um termo predicado acidentalmente, como "músico" ou "branco", é o mesmo que sua essência, considerando seu duplo significado; pois tanto o sujeito ao qual o acidente pertence quanto o próprio acidente são brancos. Logo, em certo sentido, um acidente e sua essência são o mesmo, e em outro sentido, não são; pois a essência do branco não é a mesma que a essência do homem branco, mas é a mesma que o atributo branco.

595. Ora, o absurdo se tornará evidente se um nome for dado à essência de cada um destes; pois haverá também outra essência além da essência original; por exemplo, além da essência de cavalo, haverá outra essência de cavalo. E o que impedirá que algumas coisas já sejam as mesmas que sua essência, se a essência de uma coisa é sua substância? De fato, elas não são apenas uma, mas sua estrutura inteligível também é a mesma, como fica claro pelo que foi dito; pois a unidade da essência do uno e do uno não é acidental.

596. Além disso, se são diferentes, haverá um regresso infinito; pois o uno será a essência do ser do uno, mas o outro será o próprio uno. Logo, o mesmo raciocínio se aplicará no caso de outras coisas. Fica claro, então, que, no caso das predicações que são primárias e essenciais, cada coisa e seu ser são idênticos.

597. Ademais, é evidente que os argumentos sofísticos levantados contra esta posição, e a questão de saber se Sócrates e o ser de Sócrates são o mesmo, são respondidos da mesma forma; pois não há diferença nem nas coisas a partir das quais se formula a questão, nem naquelas a partir das quais se a resolve. Portanto, já foi exposto como a essência de cada coisa é a mesma que essa coisa, e como não é.

COMENTÁRIO

1356. Estabelecido o que é a essência e a quais coisas ela pertence, o Filósofo investiga, em seguida, como a essência se relaciona com a coisa da qual é essência, ou seja, se é a mesma que essa coisa ou diferente; e, quanto a isso, faz três coisas. Primeiro (588:C 1356), apresenta o problema. Segundo (589:C 1357), dá sua solução ("Pois cada coisa"). Terceiro (597:C 1377), mostra que os argumentos sofísticos que surgem a respeito dessas questões podem ser enfrentados usando a solução acima ("Ademais, é evidente").

Ele diz, então, primeiro (588), que é necessário investigar se a essência de cada coisa e a coisa da qual ela é essência são a mesma ou diferentes, por exemplo, se a essência de um homem e um homem são a mesma ou diferentes; e o mesmo se aplica a outras coisas. Pois investigar isso e torná-lo evidente é um "preâmbulo para", ou seja, um requisito básico para, "a investigação sobre a substância", que pretendemos fazer nas discussões seguintes. Com efeito, seu objetivo é investigar adiante se os universais são as substâncias das coisas e se as partes das coisas definidas entram em sua definição; e esta investigação, que ele agora se propõe a fazer, é útil para resolver esse problema.

1357. Pois cada coisa (589).

Em seguida, ele dá a solução para o problema levantado; e, quanto a isso, faz três coisas. Primeiro (589), dá a solução para este problema. Segundo (591:C 1362), prova-a ("Mas no caso"). Terceiro (595:C 1373), mostra que o oposto da solução dada acima é absurdo e impossível ("Ora, o absurdo").

Quanto à primeira, ele faz duas coisas. Primeiro (589:C 1357), indica o que parece ser verdadeiro à primeira vista em relação ao problema proposto. Segundo (590:C 1358), mostra o que segue do contrário deste problema ("Ora, no caso").

Ele diz, então, primeiro (589), que parece necessário dizer, à primeira vista, ou seja, de imediato, que não há caso em que uma coisa particular difira de sua própria substância; e a razão é que a essência de uma coisa é a substância da própria coisa da qual é essência. Logo, de acordo com este argumento, parece à primeira vista que a essência de uma coisa é a mesma que a própria coisa e que uma não difere da outra.

1358. Ora, no caso (590).

Em seguida, ele indica as coisas às quais a premissa acima não se aplica. Ele diz que, na medida em que a essência de uma coisa não parece diferir da coisa da qual é essência, uma vez que é sua substância, então no caso de predicações acidentais, que não expressam a substância de seu sujeito, a essência do predicado parece diferir do sujeito. Pois "o ser de um homem branco", ou seja, a essência de um homem branco, difere de um homem branco.

1359. Isso parece ser o caso porque, quando alguém diz "homem branco", o homem é pressuposto, pois um homem e um homem branco são o mesmo, como se diz. Pois se o branco tivesse um ser diferente de seu sujeito, algo poderia ser predicado do composto por meio do conceito de branco, ou poderia ser predicado do composto porque não se opunha ao conceito de branco. Pois tudo o que é predicado de um homem branco só o é porque é predicado de um homem; pois um acidente é sujeito apenas em razão de uma substância. Logo, na medida em que o homem é compreendido no que é branco, homem e branco são o mesmo; e na medida em que são o mesmo, então tudo o que constitui o ser de um homem branco também constituirá o ser de um homem. Portanto, se a essência de um homem branco é a mesma que um homem branco, também será a mesma que um homem. Mas não é a mesma que um homem; e assim a essência de um homem branco não é a mesma que um homem branco. Portanto, no caso das coisas que são acidentais, a essência de uma coisa e a própria coisa não são o mesmo.

1360. Ora, é evidente que a essência de um homem branco não é a mesma que um homem, porque nem tudo o que é predicado acidentalmente de um sujeito é necessariamente o mesmo que esse sujeito. Pois um sujeito é, em certo sentido, um meio-termo entre dois acidentes que lhe são predicados, na medida em que esses dois acidentes são um só apenas porque seu sujeito é um; por exemplo, branco e músico são um porque o homem do qual são predicados é um. Portanto, o homem é um meio-termo, e branco e músico são extremos. Ora, se o branco fosse essencialmente o mesmo que o homem, então, pelo mesmo argumento, o músico também seria o mesmo que o homem. Assim, os dois extremos, branco e músico, seriam essencialmente o mesmo, porque duas coisas que são idênticas a uma terceira são elas mesmas idênticas. Mas é falso que esses dois termos extremos sejam essencialmente o mesmo, embora talvez possa parecer verdade que sejam acidentalmente o mesmo. Ora, é certo que branco e músico são acidentalmente o mesmo.

1361. No entanto, segundo isso, alguém poderia pensar que, assim como o branco e o músico são acidentalmente idênticos, de modo semelhante "o ser do branco" e "o ser do músico", ou seja, as essências de ambos, são acidentalmente idênticos. Mas isso não parece ser verdade; pois o branco e o músico são acidentalmente idênticos porque cada um é acidentalmente idêntico a um homem. Ora, o ser do branco e o ser do músico não são o mesmo que o ser do homem. Portanto, o ser do branco e o ser do músico não são acidentalmente idênticos, mas apenas o branco e o músico.

1362. Mas, no caso (590).

Em seguida, ele explica a solução proposta; e, quanto a isso, faz duas coisas. Primeiro (590), ele explica a solução com referência às predicações essenciais; e segundo (594:C 1372), com referência às predicações acidentais ("Mas não é verdade").

Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro, explica a solução proposta com referência às predicações essenciais; e segundo (593:C 1367), tira a conclusão a que visa ("É necessário").

Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro, mostra que, no caso das predicações essenciais, a essência de uma coisa não difere da coisa da qual é essência; e segundo (592:C 1363), que não está separada dela ("E se").

Ele diz, portanto, primeiro (591), que, no caso das predicações essenciais, a essência de uma coisa e a própria coisa devem ser sempre a mesma coisa. Isso se torna claro se considerarmos que existem substâncias que são separadas dessas substâncias sensíveis e não têm outras substâncias ou naturezas separadas anteriores a elas; pois os platônicos dizem que as ideias abstratas são substâncias desse tipo. Pois, se a essência de uma coisa difere da própria coisa, isso terá que ser verdade para todas as coisas que têm uma essência. Ora, toda substância tem uma essência. Portanto, a essência de toda substância diferirá daquela substância. Assim, a essência de uma substância ideal também diferirá daquela substância. Portanto, "se o bem em si", i.e., a Ideia de bem, difere de "o ser do bem", i.e., da essência desta Ideia, e se o animal em si também difere do ser de um animal e se o ser em si difere do ser do ser, e assim por diante no caso das outras Ideias, segue-se que, assim como se considera que existem Ideias além das substâncias sensíveis, de modo semelhante também haverá outras substâncias e naturezas e Ideias além daquelas mencionadas pelos platônicos. E essas outras substâncias constituirão a essência dessas Ideias e serão anteriores a elas. Ora, digo que isso se segue "se a essência pertence à substância", i.e., se cada substância tem uma essência, como foi dito; ou [em outras palavras] se essa essência pertence à substância da coisa; pois aquilo de que uma substância depende é anterior a ela.

1363. E se (592).

Ele mostra que a essência de uma coisa não está separada da coisa da qual é a essência. Ele diz: "E se estão separadas umas das outras", i.e., se a essência de uma coisa e a própria coisa não são apenas diferentes, mas também separadas uma da outra, dois absurdos se seguem. O primeiro é que não haverá entendimento daquelas coisas cuja essência está separada delas; e o segundo é que essas mesmas coisas não serão entes.

1364. Ele também explica o que quer dizer com "separadas", a saber, que "o ser do bem", i.e., a essência do bem, que os platônicos postulam, "não está presente no bem em si", i.e., na Ideia de bem; e novamente que "ser bom", i.e., a quididade do bem, não está presente neste bem; como se dissesse que a separação mencionada deve ser entendida como a separação da quididade do bem tanto da Ideia de bem quanto de um bem particular, que é chamado tal por participação na Ideia de bem. Ou, segundo outro texto, "E ser bom não pertence a isto", i.e., esta essência não é própria do ser do bem de tal modo que a essência do bem possa ser separada do bem, e vice-versa.

1365. É evidente que as conclusões insustentáveis mencionadas acima decorrem da posição descrita, porque o entendimento de cada coisa consiste num conhecimento de sua essência; e isso se aplica da mesma forma tanto ao bem quanto a todas as outras coisas. Portanto, segue-se que, se o bem não está presente em "o ser do bem", i.e., sua essência, tampouco o ser está presente em "o ser do ser", i.e., a essência do ser, nem, similarmente, a unidade está presente no ser do uno, porque ou todos são igualmente idênticos às suas quididades, ou nenhum o é. Se, no entanto, em razão da separação acima mencionada, o bem não está presente no ser do bem, então, de modo oposto, o ser do bem também não está presente no bem. Portanto, também nem a essência do ser será idêntica ao ser, nem quaisquer outras coisas terão em si mesmas uma única quididade. Assim, se cada coisa é entendida por meio de sua quididade, segue-se que nada pode ser conhecido. Este foi o primeiro absurdo mencionado.

1366. É também evidente que "o segundo absurdo se segue" — que nada será um ente, um bem, um animal ou algo desse tipo; porque aquilo em que "o ser do bem", i.e., a quididade do bem, não está presente não pode ser bom. Portanto, se a quididade do bem está separada do bem, e a quididade do ser está separada do ser, segue-se que as coisas que são ditas ser boas e ser entes não são nem boas nem entes. Este foi o segundo absurdo mencionado.

1367. É necessário (593).

O Filósofo agora tira a conclusão na qual está principalmente interessado. Ele diz que, uma vez que, como resultado da diferença e separação da essência das coisas, segue-se que as coisas não são entendidas e não são entes, e isso é absurdo, "é necessário que o amigável seja uno com o ser do amigável", ou a quididade do amigável, "e que o bem seja uno com o ser do bem", i.e., a quididade do bem. Ele dá esses dois exemplos: o amigável, relativo aos bens particulares, que os platônicos diziam ser bons por participação; e o bem, relativo à Ideia de bem. E é semelhante no caso de todas as outras predicações que são essenciais e primárias e que não envolvem que uma coisa seja predicada de algo mais, i.e., predicações acidentais; pois este último tipo de predicação é de natureza diferente, como foi dito (579:C 1313). Pois, para que as coisas tanto sejam entendidas quanto sejam entes, é suficiente "se é assim", i.e., se isso é verdade, a saber, que a quididade de uma coisa é idêntica à própria coisa, mesmo que as Formas Ideais que os platônicos postularam não existam.

1368. Ora, os platônicos afirmavam que existem Formas separadas apenas por esta razão: que se pudesse ter um conhecimento certo das coisas sensíveis por meio dessas Formas, na medida em que as coisas sensíveis existiriam por participar delas. Mas talvez seja suficiente para a posição anterior que a quididade de uma coisa seja idêntica à própria coisa, em vez da Forma, mesmo que seja verdade que existem Formas, porque as Formas existem separadas das coisas. Além disso, uma coisa é entendida e tem ser por meio de algo que está conectado a ela e é idêntico a si mesma, em vez de por meio de algo que está separado dela.

1369. E a partir dessa consideração, o Filósofo quer que entendamos que as Formas separadas são destruídas. Pois, se as Formas são defendidas meramente para explicar o nosso entendimento das coisas e o seu ser, e outra posição explica isso suficientemente quando é sustentada e a posição platônica não é, segue-se que é inútil postular Formas separadas.

1370. De modo semelhante, o mesmo ponto da inexistência de Formas separadas é evidente a partir de outra consideração. Se existem Ideias, segue-se que a coisa que é seu sujeito, ou seja, esta coisa sensível particular, não é uma substância. Pois os platônicos adotaram a posição de que as Ideias devem ser substâncias e, portanto, não pertencer a nenhum sujeito; pois é próprio de uma substância não inerir em um sujeito. Mas se os sujeitos aqui, ou seja, as coisas sensíveis ao nosso redor, são substâncias, elas devem sê-lo por participarem dessas Formas separadas. Portanto, essas Formas inerirão em um sujeito.

1371. A partir desses argumentos, então, é evidente que cada coisa e sua quididade são uma e a mesma, não de modo acidental; e, similarmente, que no ato de entender, conhecer uma coisa particular é o mesmo que conhecer sua essência. "Portanto, de acordo com esta exposição", na medida em que se diz que aquelas coisas são uma, que são uma tanto do ponto de vista do ser quanto do ponto de vista do ser entendido, é necessário que ambos, ou seja, uma coisa e sua essência, sejam um.

1372. Mas não é verdade (594).

Ele explica a solução anterior com referência às predicações acidentais. Ele diz que, no caso de predicações acidentais, não é verdadeiro dizer que a essência de uma coisa e a coisa da qual ela é a essência são a mesma. Isso se deve ao duplo significado do termo; pois quando se diz que um homem é branco, algo pode ser atribuído ao sujeito ou em razão do sujeito ou em razão do acidente. Portanto, se disséssemos que a quididade de um homem branco é a mesma que um homem branco, duas coisas poderiam ser significadas: que é a mesma que um homem ou a mesma que branco; pois pode designar tanto o sujeito "ao qual pertence o acidente branco" quanto o próprio acidente." Portanto, fica claro que, em um sentido, a quididade de um homem branco é a mesma que um homem branco, e em outro, não. Pois não é a mesma que um homem, nem mesmo a mesma que um homem branco no que diz respeito ao sujeito, mas é a mesma que "o atributo", ou seja, branco; pois a essência do branco e o próprio branco são a mesma coisa. No entanto, não se pode dizer que é a mesma que um homem branco, para que não se entenda que é a mesma que o sujeito.

1373. Agora, o absurdo (595).

Ele mostra que o oposto da solução mencionada é absurdo; e isso foi necessário porque ele havia provado que a solução dada acima é verdadeira quando Formas separadas são postuladas; posição que ele posteriormente destruiu. Portanto, ele teve que repetir sua prova, mostrando que o que ele havia provado sobre as Formas também se aplica à essência de uma coisa. Com relação a isso, ele apresenta dois argumentos.

1374. No primeiro desses argumentos, ele diz que afirmar que a essência de uma coisa e a própria coisa são diferentes parecerá absurdo se alguém der um nome à essência de cada uma delas; pois pelo mesmo argumento, tanto a coisa quanto sua essência serão então diferentes de sua essência; por exemplo, um cavalo é algo que tem a essência de um cavalo. Ora, se isso difere de um cavalo, terá um nome diferente, e vamos chamá-lo de A. Portanto, já que A é uma coisa, terá uma essência diferente de si mesma, assim como o cavalo tem. Assim, esta coisa que constitui o ser de um cavalo terá uma essência diferente. Mas isso é claramente falso. Ora, este argumento procede da mesma maneira com relação à quididade que o primeiro argumento procedeu com relação às Ideias. E se alguém dissesse que a essência de um cavalo é a própria substância, que é a quididade de um cavalo, o que nos impediria de dizer agora, logo no início, que algumas coisas são sua própria essência? Com isso, ele implica a resposta: "Nada".

1375. Mas deve-se entender que uma coisa e sua essência são uma em todos os aspectos, mesmo em sua estrutura inteligível, como pode ser esclarecido a partir do que foi dito. Pois o uno e a essência do uno são um, não de modo acidental, mas essencialmente; e assim são um em sua estrutura inteligível.

1376. Além disso, se são (596).

Em seguida, ele apresenta o segundo argumento, que é o seguinte: se a essência de uma coisa e a própria coisa são diferentes, haverá um regresso ao infinito; pois devemos dizer que há duas coisas, uma das quais é o uno, e a outra a essência do uno; e pelo mesmo argumento, haverá uma terceira coisa, que seria a essência da essência do uno, e assim por diante ao infinito. Ora, como um regresso ao infinito é impossível, é evidente que, no caso de predicações que são primárias e essenciais, e não acidentais, cada coisa e seu ser são uma e a mesma.

1377. Além disso, é evidente (597).

Ele diz que os argumentos sofísticos que são levantados contra esta posição para mostrar que a essência de uma coisa e a própria coisa não são a mesma são claramente respondidos por meio da mesma solução que foi dada ao primeiro problema. Por exemplo, os Sofistas perguntam se Sócrates e o ser de Sócrates são a mesma coisa, e mostram que não são, dizendo que, se Sócrates e o ser de Sócrates são a mesma coisa, e Sócrates é branco, segue-se que branco e o ser de Sócrates, e assim por diante, são a mesma coisa. Ora, a solução é clara a partir do que foi dito acima. "Pois não há diferença nem nas coisas a partir das quais se faz a pergunta, nem naquelas a partir das quais se a resolve", ou seja, não faz diferença a partir de quais coisas se procede para argumentar, ou a quais perguntas se adapta a resposta, na medida em que a solução é basicamente a mesma. Portanto, a partir do que foi dito, é evidente quando a essência de cada coisa é a mesma que cada coisa e quando não é; pois é a mesma no caso de predicações essenciais, mas não no caso de predicações acidentais.

Distinção entre essência abstrata e concreta

1378. Em apoio às afirmações que ele fez, deve-se também notar que a quididade de uma coisa é o que seu significado de definição. Portanto, quando uma definição é predicada da coisa definida, a quididade dessa coisa também deve ser predicada dela. Portanto, (~) humanidade, que não é predicada de homem, não é a quididade do homem, mas (+) animal racional mortal é; pois a palavra humanidade não responde à pergunta: "O que é o homem?" Mas animal racional mortal sim.

No entanto, a humanidade é tomada como o princípio formal da essência, assim como a animalidade é tomada como (+) o princípio do gênero e não como () o gênero, e como a racionalidade é tomada como (+) o princípio da diferença e não como () a diferença.

1379. Até este ponto, a humanidade não é absolutamente o mesmo que o homem, porque implica apenas os princípios essenciais do homem e exclui todos os acidentes. Pois a humanidade é aquilo pelo qual o homem é homem. Mas nenhum dos acidentes de um homem é aquilo pelo qual ele é homem. Portanto, todos os acidentes do homem são excluídos do significado de humanidade.

Ora, é a coisa particular em si, ou seja, um homem, que contém os princípios essenciais e é aquilo em que os acidentes podem inerir. Assim, embora os acidentes de um homem não estejam contidos em sua expressão inteligível, ainda assim o homem não significa algo apartado de seus acidentes. Portanto, o homem significa como um todo e a humanidade como uma parte.

1380. Além disso, se há alguma coisa na qual nenhum acidente está presente, então essa coisa abstrata não deve diferir em nada da concreta. Isso é mais evidente no caso de Deus. [N.B.]