LIÇÃO 2 - As Quatro Classes de Causas. Várias Causas do Mesmo Efeito. Causas Podem Ser Causas Umas das Outras. Contrários Têm a Mesma Causa
TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 2: 1013a 24-1013b 16
405. Em um sentido, o termo causa significa aquilo a partir do qual, como algo intrínseco, uma coisa vem a ser, como o bronze de uma estátua e a prata de uma taça, e os gêneros destes. Em outro sentido, significa a forma e o padrão de uma coisa, i.e., a expressão inteligível da quididade e seus gêneros (por exemplo, a razão de 2:1 e o número em geral são a causa de um acorde de oitava) e as partes que estão incluídas na expressão inteligível. Novamente, aquilo a partir do qual começa o primeiro começo da mudança ou do repouso é uma causa; por exemplo, um conselheiro é uma causa, e um pai é a causa de um filho, e, em geral, um fazedor é uma causa da coisa feita, e um cambiador, uma causa da coisa mudada. Além disso, uma coisa é causa na medida em que é um fim, i.e., aquilo em vista do qual algo é feito; por exemplo, a saúde é a causa de andar. Pois se somos perguntados por que alguém deu um passeio, respondemos "para estar saudável"; e ao dizer isso, pensamos ter dado a causa. E tudo o que ocorre no caminho para o fim sob o movimento de outra coisa é também uma causa. Por exemplo, a redução, a purgação, os medicamentos e os instrumentos são causas da saúde; pois todos estes existem em vista do fim, embora difiram entre si na medida em que alguns são instrumentos e outros são processos. Estes, então, são quase todos os modos como as causas são mencionadas.
406. E, como há vários sentidos em que as causas são mencionadas, acontece que há muitas causas da mesma coisa, e não de modo acidental. Por exemplo, tanto o fazedor de uma estátua quanto o bronze são causas de uma estátua não sob qualquer outro aspecto, mas na medida em que é uma estátua. Contudo, não são causas do mesmo modo, mas uma como matéria e a outra como fonte de movimento.
407. E há coisas que são causas umas das outras. A dor, por exemplo, é causa da saúde, e a saúde é causa da dor, embora não do mesmo modo, mas uma como fim e a outra como fonte de movimento.
408. Além disso, a mesma coisa é às vezes a causa de contrários; pois aquilo que, quando presente, é a causa de alguma coisa particular, isso, quando ausente, às vezes culpamos pelo contrário. Assim, a causa da perda de um navio é a ausência do piloto, cuja presença é a causa da segurança do navio. E ambos — a ausência e a presença — são causas moventes.
COMENTÁRIO
As quatro causas
763. Aqui o Filósofo distingue os vários sentidos em que o termo causa é usado; e quanto a isso, faz duas coisas. Primeiro, enumera as classes de causas. Segundo (783), expõe os modos das causas (“Agora os modos”).
Quanto à primeira parte, faz duas coisas. Primeiro, enumera as várias classes de causas. Segundo (777), reduz-lhes a quatro (“Todas as causas”).
Quanto à primeira parte, faz duas coisas. Primeiro, enumera as diferentes classes de causas. Segundo (773), esclarece certas coisas sobre as classes de causas (“E visto que”).
Diz, portanto, primeiro, que em um sentido o termo causa significa aquilo a partir do qual uma coisa vem a ser e é “algo intrínseco”, i.e., algo que existe dentro da coisa. Isso é dito para distingui-la de uma privação e também de um contrário; pois diz-se que uma coisa vem de uma privação ou de um contrário como de algo que não é intrínseco; por exemplo, o branco é dito vir do preto ou do não-branco. Mas uma estátua vem do bronze e um cálice da prata como de algo que é intrínseco; pois a natureza do bronze não é destruída quando uma estátua vem a ser, nem a natureza da prata é destruída quando um cálice vem a ser. Portanto, o bronze de uma estátua e a prata de um cálice são causas no sentido de matéria. Ele acrescenta “e os gêneros destes”, porque se a matéria é a espécie de algo, também é seu gênero. Por exemplo, se a matéria de uma estátua é bronze, sua matéria também será metal, composto e corpo. O mesmo vale para outras coisas.
764. Em outro sentido, causa significa a forma e o padrão de uma coisa, i.e., seu exemplar. Esta é a causa formal, que se relaciona com uma coisa de duas maneiras. (1) De um modo, apresenta-se como a forma intrínseca de uma coisa, e nesse aspecto é chamada de princípio formal de uma coisa. (2) De outro modo, apresenta-se como algo extrínseco a uma coisa, mas é aquilo à semelhança do qual ela é feita, e nesse aspecto um exemplar também é chamado de forma de uma coisa. É nesse sentido que Platão considerava as Ideias como formas. Além disso, porque é a partir de sua forma que cada coisa deriva sua natureza, seja de seu gênero ou de sua espécie, e a natureza de seu gênero ou de sua espécie é o que é significado pela definição, que expressa sua quididade, a forma de uma coisa é, portanto, a expressão inteligível de sua quididade, i.e., a fórmula pela qual sua quididade é conhecida. Pois, embora certas partes materiais sejam dadas na definição, ainda assim é da forma de uma coisa que provém a parte principal da definição. A razão pela qual a forma é uma causa, então, é que ela completa a expressão inteligível da quididade de uma coisa. E assim como o gênero de uma matéria particular também é matéria, de modo semelhante os gêneros das formas são as formas das coisas; por exemplo, a forma do acorde de oitava é a proporção de 2:1. Pois quando duas notas estão entre si na proporção de 2:1, o intervalo entre elas é uma oitava. Portanto, a dualidade é sua forma; pois a proporção de 2:1 deriva seu significado da dualidade. E porque o número é o gênero da dualidade, podemos, portanto, dizer de modo geral que o número também é a forma da oitava, na medida em que podemos dizer que o acorde de oitava envolve a proporção de um número para outro. E não apenas a definição inteira está relacionada com a coisa definida como sua forma, mas também as partes da definição, i.e., aquelas que são dadas diretamente na definição. Pois, assim como animal bípede capaz de andar é a forma do homem, também o são animal, capaz de andar e bípede. Mas às vezes a matéria é dada indiretamente na definição, como quando a alma é dita ser a atualidade de um corpo físico orgânico tendo vida potencialmente.
765. Em um terceiro sentido, causa significa aquilo a partir do qual provém o primeiro começo da mudança ou do repouso, i.e., uma causa motora ou eficiente. Ele diz “da mudança ou do repouso”, porque o movimento e o repouso que são naturais são remetidos à mesma causa, e o mesmo é verdadeiro para o movimento e o repouso que resultam da força. Pois aquela causa pela qual algo é movido para um lugar é a mesma pela qual é feito repousar ali. “Um conselheiro” é um exemplo desse tipo de causa, pois é como resultado de um conselheiro que o movimento começa naquele que age segundo seu conselho para salvaguardar algo. E de modo semelhante, “um pai é a causa de um filho”. Nesses dois exemplos, Aristóteles toca nos dois princípios de movimento dos quais todas as coisas vêm a ser, a saber, o propósito no caso de um conselheiro e a natureza no caso de um pai. E, em geral, todo fazedor é causa da coisa feita e todo transformador é causa da coisa transformada.
766. Além disso, deve-se notar que, segundo Avicena, há quatro modos de causa eficiente, a saber, perfectiva, dispositiva, auxiliar e consultiva.
Diz-se que uma causa eficiente é perfectiva na medida em que causa a perfeição final de uma coisa, como aquele que induz uma forma substancial nas coisas naturais ou formas artificiais nas coisas feitas pela arte, como um construtor induz a forma de uma casa.
767. Diz-se que uma causa eficiente é dispositiva se não induz a forma final que aperfeiçoa uma coisa, mas apenas prepara a matéria para essa forma, como aquele que talha madeiras e pedras é dito construir uma casa. Essa causa não é propriamente dita a causa eficiente de uma casa, porque o que ela produz é apenas potencialmente uma casa. Mas ela será mais propriamente uma causa eficiente se induzir a disposição última sobre a qual a forma segue necessariamente; por exemplo, o homem gera o homem sem causar seu intelecto, que provém de uma causa extrínseca.
768. E diz-se que uma causa eficiente é auxiliar na medida em que contribui para o efeito principal. No entanto, difere da causa eficiente principal porque a causa eficiente principal age para seu próprio fim, enquanto uma causa auxiliar age para um fim que não é seu próprio. Por exemplo, aquele que assiste um rei na guerra age para o fim do rei. E esta é a maneira pela qual uma causa secundária está disposta para uma causa primária. Pois, no caso de todas as causas eficientes que estão diretamente subordinadas umas às outras, uma causa secundária age por causa do fim de uma causa primária; por exemplo, a arte militar age por causa do fim da arte política.
769. E uma causa consultiva difere de uma causa eficiente principal na medida em que especifica o fim e a forma da atividade. Esta é a maneira pela qual o primeiro agente que age pelo intelecto se relaciona com todo agente secundário, seja ele natural ou intelectual. Pois, em todo caso, um primeiro agente intelectual dá a um agente secundário seu fim e sua forma de atividade; por exemplo, o arquiteto naval dá estas ao construtor naval, e a primeira inteligência faz o mesmo para tudo no mundo natural.
770. Além disso, a este gênero de causa reduz-se tudo o que faz algo ser de qualquer maneira, não apenas quanto ao ser substancial, mas também quanto ao ser acidental, que ocorre em todo tipo de movimento. Por isso, ele diz não apenas que o fazedor é a causa da coisa feita, mas também que o transformador é a causa da coisa transformada.
771. Em um quarto sentido, causa significa o fim de uma coisa, i.e., aquilo por causa do qual algo é feito, como a saúde é a causa do caminhar. E visto que é menos evidente que o fim é uma causa, dado que ele vem a ser por último (razão pela qual essa causa foi negligenciada pelos primeiros filósofos, como foi apontado no Livro I (1771)), ele dá, portanto, uma prova especial de que um fim é uma causa. Pois perguntar por que ou por qual razão é perguntar sobre uma causa, porque quando nos perguntam por que ou por qual razão alguém caminha, respondemos propriamente respondendo que ele o faz para ser saudável. E quando respondemos dessa maneira, pensamos que estamos declarando a causa. Portanto, é evidente que o fim é uma causa. Além disso, não apenas a razão última pela qual um agente age é dita ser um fim com respeito àquelas coisas que a precedem, mas tudo o que é intermediário entre o primeiro agente e o fim último também é dito ser um fim com respeito aos agentes precedentes. E, da mesma forma, aquelas coisas das quais o movimento surge nas coisas subsequentes são ditas ser causas. Por exemplo, entre a arte da medicina, que é a primeira causa eficiente nesta ordem, e a saúde, que é o fim último, há estes intermediários: a redução, que é a causa mais próxima da saúde naqueles que têm um excesso de humores; a purgação, por meio da qual a redução é realizada; “drogas”, i.e., medicina laxante, por meio da qual a purgação é realizada; e “instrumentos”, i.e., os instrumentos pelos quais a medicina ou as drogas são preparadas e administradas. E todas essas coisas existem por causa do fim, embora uma delas seja o fim de outra. Pois a redução é o fim da purgação, e a purgação é o fim dos purgativos. No entanto, esses intermediários diferem entre si porque (1) alguns são instrumentos, i.e., os instrumentos por meio dos quais a medicina é preparada e administrada (e a própria medicina administrada é algo que a natureza emprega como instrumento); e (2) alguns — purgação e redução — são processos, i.e., operações ou atividades.
772. Ele conclui, então, que “estas são as maneiras como as causas são mencionadas (405)”, ou seja, as quatro maneiras; e acrescenta “quase todas” por causa dos modos de causas que ele apresenta abaixo. Ou ele também acrescenta isso porque as mesmas classes de causas não são encontradas pela mesma razão em todas as coisas.
773. E uma vez que (406).
Em seguida, ele indica certos pontos que decorrem das coisas ditas acima sobre as causas, e há quatro deles. O primeiro é que, já que o termo causa é usado em muitos sentidos, pode haver várias causas de uma coisa, não acidentalmente, mas propriamente. Pois o fato de haver muitas causas de uma coisa acidentalmente não apresenta dificuldade, porque muitas coisas podem ser acidentes de algo que é a causa própria de algum efeito, e todas essas podem ser ditas causas acidentais desse efeito. Mas que haja várias causas próprias de uma coisa torna-se evidente pelo fato de que as causas são mencionadas de várias maneiras. Pois o fabricante de uma estátua é uma causa própria e não uma causa acidental de uma estátua, e o bronze também o é, mas não da mesma maneira. Pois é impossível que haja muitas causas próprias da mesma coisa dentro do mesmo gênero e na mesma ordem, embora possa haver muitas causas, desde que (1) uma seja próxima e outra remota; ou (2) nenhuma delas seja por si mesma uma causa suficiente, mas ambas juntas. Um exemplo seriam muitos homens remando um barco. Agora, no caso em questão, essas duas coisas são causas de uma estátua de maneiras diferentes: o bronze como matéria e o artista como causa eficiente.
774. E há (407).
Em seguida, ele estabelece o segundo fato que pode ser extraído da discussão anterior. Ele diz que também pode acontecer que quaisquer duas coisas sejam causa uma da outra, embora isso seja impossível na mesma classe de causa. Mas é evidente que isso pode acontecer quando as causas são mencionadas em sentidos diferentes. Por exemplo, a dor resultante de um ferimento é causa de saúde como causa eficiente ou fonte de movimento, enquanto a saúde é causa da dor como fim. Pois é impossível que uma coisa seja tanto causa quanto algo causado. Outro texto afirma isso melhor, dizendo que “o exercício é a causa da aptidão física”, ou seja, da boa disposição causada pelo exercício moderado, que promove a digestão e elimina humores supérfluos.
775. Agora, deve-se ter em mente que, embora quatro causas sejam dadas acima, duas delas estão relacionadas entre si, e o mesmo ocorre com as outras duas. (1) A causa eficiente está relacionada à causa final, e (2) a causa material está relacionada à causa formal. A causa eficiente está relacionada à causa final porque a causa eficiente é o ponto de partida do movimento e a causa final é seu término. Há uma relação semelhante entre matéria e forma. Pois a forma dá o ser, e a matéria o recebe. Portanto, a causa eficiente é causa da causa final, e a causa final é causa da causa eficiente. A causa eficiente é causa da causa final na medida em que faz a causa final ser, porque, ao causar movimento, a causa eficiente produz a causa final. Mas a causa final é causa da causa eficiente, não no sentido de que a faz ser, mas na medida em que é a razão da causalidade da causa eficiente. Pois uma causa eficiente é causa na medida em que age, e age apenas por causa da causa final. Portanto, a causa eficiente deriva sua causalidade da causa final. E forma e matéria são causas mútuas do ser: a forma é causa da matéria na medida em que dá o ser atual à matéria, e a matéria é causa da forma na medida em que sustenta a forma no ser. E digo que ambas juntas são causas do ser, seja em sentido absoluto ou com alguma qualificação. Pois a forma substancial dá o ser absolutamente à matéria, enquanto a forma acidental, na medida em que é forma, dá o ser em sentido qualificado. E a matéria às vezes não sustenta uma forma no ser em sentido absoluto, mas segundo ela é a forma desta coisa particular e tem ser nesta coisa particular. É o que acontece no caso do corpo humano em relação à alma racional.
776. Além disso, a mesma coisa (408).
Em seguida, ele dá a terceira conclusão que pode ser extraída da discussão anterior. Ele diz que a mesma coisa pode ser a causa de contrários. Isso também pareceria difícil ou impossível se estivesse relacionada a ambos da mesma maneira. Mas é a causa de cada um de maneira diferente. Pois aquilo que, quando presente, é a causa de algo particular, quando ausente “culpamos”, ou seja, responsabilizamos, “pelo contrário”. Por exemplo, é evidente que, por sua presença, o piloto é a causa da segurança de um navio, e dizemos que sua ausência é a causa da perda do navio. E para que alguém não pense que isso deve ser atribuído a diferentes classes de causas, assim como os dois anteriores, ele acrescenta, portanto, que ambos podem ser reduzidos à mesma classe de causa — a causa motriz. Pois o oposto de uma causa é a causa de um efeito oposto na mesma linha de causalidade em que a causa original era a causa de seu efeito.