LIÇÃO 1 - A Primazia da Substância. Sua Prioridade sobre os Acidentes
TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulos 1 e 2: 1028a 10-1028b 32
560. O termo ser é usado em muitos sentidos, como explicamos em nossas discussões sobre os diferentes significados das palavras (435). Pois, em um sentido, significa a quididade de uma coisa e esta coisa particular; e, em outro sentido, significa de que tipo uma coisa é ou quanto é ou qualquer uma das outras coisas que são predicadas dessa maneira. Mas de todos os sentidos em que ser é usado, é evidente que o primeiro deles é a quididade de uma coisa, que indica substância.
561. Pois quando afirmamos de que tipo uma coisa é, dizemos que ela é boa ou má, e não que ela tem três côvados de comprimento ou que é um homem; mas quando afirmamos o que uma coisa é, não dizemos que ela é branca ou preta ou tem três côvados de comprimento, mas que ela é um homem ou um deus. E as outras coisas são chamadas de seres porque pertencem a tal ser; pois algumas são suas qualidades, outras quantidades, outras afecções, e assim por diante.
562. Daí alguém pode até ficar perplexo se cada um dos seguintes termos, a saber, andar, estar saudável e sentar, é um ser ou um não-ser. E é semelhante no caso de outras coisas como estas; pois nenhuma delas é, por natureza, apta a existir por si mesma ou capaz de existir separadamente da substância. Mas se algo é um ser, é antes a coisa que anda, senta e está saudável. Ora, estas parecem ser seres em maior grau porque há algum sujeito que lhes subjaz; e este é a substância e o indivíduo, que aparece em uma categoria definida; pois o termo bom ou sentar não é usado sem isto. Evidentemente, então, é por causa disto que cada uma das outras categorias é um ser. Portanto, o primeiro tipo de ser, e não um ser de um tipo especial, mas ser em sentido absoluto, será a substância.
563. Ora, há vários sentidos em que uma coisa é dita ser primeira; mas a substância é primeira em todos os aspectos: na definição, na ordem do conhecimento e no tempo; pois nenhuma das outras categorias pode existir separadamente, mas somente a substância. E ela é primeira na definição, porque na definição de cada coisa é necessário incluir a definição de substância. E pensamos que conhecemos cada coisa melhor quando sabemos o que ela é (por exemplo, o que é um homem ou o que é fogo) do que quando sabemos de que tipo ela é ou quanto é ou onde está; pois conhecemos cada uma destas coisas somente quando sabemos o que é a qualidade ou a quantidade.
564. E a questão que foi levantada outrora e é levantada agora e sempre, e que sempre causa dificuldade, é o que é o ser; e esta é a questão do que é a substância. Pois alguns dizem que é uma, e outros mais de uma; e alguns dizem que é limitada, e outros ilimitada. E por esta razão devemos investigar principalmente e primariamente e exclusivamente, por assim dizer, o que é este tipo de ser.
Capítulo 2
565. Ora, parece que a substância é encontrada mais evidentemente nos corpos. Por isso dizemos que os animais, as plantas e suas partes são substâncias, e também os corpos naturais, como fogo, água, terra e coisas particulares deste tipo, e todas as coisas que são partes destes ou compostas destes, seja de partes ou de todos, por exemplo, o céu e suas partes, como os astros, a lua e o sol. Mas se apenas estas são substâncias, ou se outras coisas também são, ou se nenhuma destas mas certas outras coisas o são, deve ser investigado.
566. Além disso, parece a alguns que os limites de um corpo, como superfície, linha, ponto e unidade, são substâncias em maior grau do que um corpo ou sólido. E alguns são de opinião que não há nada deste tipo além das substâncias sensíveis, enquanto outros pensam que existem substâncias eternas que são mais numerosas e possuem ser em maior grau. Assim, Platão afirmou que há dois tipos de substâncias: as Formas separadas e os objetos da matemática, e um terceiro tipo: as substâncias dos corpos sensíveis. E Espeusipo admitiu ainda mais tipos de substâncias, começando pela unidade; e ele estabeleceu princípios para cada tipo de substância: um para números, outro para grandezas contínuas, e ainda outro para a alma; e procedendo desta forma, ele aumenta os tipos de substância. E alguns dizem que as Formas separadas e os números têm a mesma natureza, e que outras coisas, como linhas e superfícies, dependem destas; e assim por diante até se chegar à substância dos céus e dos corpos sensíveis.
567. Sobre estas questões, então, é necessário investigar quais afirmações são verdadeiras e quais não são; e quais coisas são substâncias; e se há ou não há substâncias além das sensíveis; e como estas existem; e se há alguma substância separável (e, em caso afirmativo, por que e como), ou se não há tal substância além das sensíveis. Isto deve ser feito após termos primeiro descrito o que é a substância.
COMENTÁRIO
1245. Tendo deixado de lado tanto o ser acidental quanto o ser que significa o verdadeiro do estudo principal desta ciência, o Filósofo começa aqui a estabelecer a verdade sobre o ser essencial (ens per se), que existe fora da mente e constitui o objeto principal de estudo nesta ciência. Isso se divide em duas partes; pois esta ciência discute tanto o ser enquanto ser quanto os primeiros princípios do ser, como foi dito no Livro VI (532:C 1145). Assim, na primeira parte (560:C 1245) ele estabelece a verdade sobre o ser; e na segunda (1023:C 2-416), sobre os primeiros princípios do ser. Ele faz isso no Livro XII ("O estudo").
Mas como o ser e a unidade se acompanham e estão no âmbito do mesmo estudo, como foi dito no início do Livro IV (301:C 548), a primeira parte se divide em duas seções. Na primeira ele estabelece a verdade sobre o ser enquanto ser; e na segunda (814:C 1920), sobre a unidade e aqueles atributos que naturalmente a acompanham. Ele faz isso no Livro X ("Foi apontado").
Agora, o ser essencial, que existe fora da mente, se divide de duas maneiras, como foi dito no Livro V (437:C 889); pois se divide, primeiro, nas dez categorias, e segundo, em potência e ato. Assim, a primeira parte se divide em duas seções. Na primeira ele estabelece a verdade sobre o ser enquanto dividido nas dez categorias; e na segunda (742:C 1768), sobre o ser enquanto dividido em potência e ato. Ele faz isso no Livro IX ("Lidamos").
1246. A primeira parte se divide novamente em duas seções. Na primeira ele mostra que, para estabelecer a verdade sobre o ser enquanto dividido nas dez categorias, é necessário estabelecer a verdade sobre a substância; e na segunda (568:C 1270), ele começa a fazer isso ("O termo substância").
Quanto à primeira, ele faz duas coisas. Primeiro (560:C 1247), mostra que é necessário resolver a questão sobre a substância. Segundo (565:C 1263), indica as coisas que devem ser discutidas sobre a substância ("Agora parece").
Quanto à primeira, ele faz duas coisas. Mostra que aquele que pretende tratar do ser deve investigar as substâncias separadamente; e faz isso, primeiro, apresentando um argumento; e segundo (564:C 1260), considerando o que outros costumavam fazer ("E a questão").
Assim, na primeira parte seu objetivo é apresentar o seguinte argumento. Aquilo que é o primeiro entre os tipos de ser, já que é ser em sentido absoluto e não ser com alguma qualificação, indica claramente a natureza do ser. Mas a substância é esse tipo de ser. Portanto, para conhecer a natureza do ser, basta estabelecer a verdade sobre a substância.
Quanto à primeira, ele faz duas coisas. Primeiro, mostra que a substância é o primeiro tipo de ser; e segundo (563:C 1257), mostra de que maneira ela é dita primeira ("Agora há vários"). Quanto à primeira, ele faz duas coisas.
A Metafísica trata da substância
1247. Primeiro, ele explica sua tese. Diz que o termo ser é usado em muitos sentidos (como foi dito no Livro V (885) onde ele distinguiu os diferentes sentidos em que termos desse tipo são usados); pois (1) em um sentido ser significa (a) a quididade de uma coisa e (b) esta coisa particular, i.e., a substância, na medida em que por "a quididade de uma coisa" se entende a essência de uma substância, e por "esta coisa particular", uma substância individual; e os diferentes sentidos de substância se reduzem a esses dois, como foi dito no Livro V (440:C 898). E em outro sentido (2) significa qualidade ou quantidade ou qualquer uma das outras categorias.
E já que ser é usado em muitos sentidos, é evidente que ser no sentido primário é a quididade de uma coisa, i.e., o ser que significa substância.
1248. Pois quando afirmamos (561).
Segundo, ele prova sua tese usando o seguinte argumento: em toda classe de coisas, aquilo que existe por si mesmo e é ser em sentido absoluto é anterior àquilo que existe por causa de outra coisa e é ser em sentido qualificado. Mas a substância é ser em sentido absoluto e existe por si mesma, enquanto todas as classes de seres que não são substância são seres em sentido qualificado e existem por causa da substância. Portanto, a substância é o tipo primário de ser.
1249. Ele torna a premissa menor clara de duas maneiras. Faz isso, primeiro, considerando a maneira como falamos ou fazemos predicações. Diz que é evidente a partir disso que a substância é o tipo primário de ser, porque quando afirmamos de que tipo uma coisa é, dizemos que ela é boa ou má; pois isso significa qualidade, que difere da substância e da quantidade. Agora, três côvados de comprimento significa quantidade e homem significa substância. Portanto, quando afirmamos de que tipo uma coisa é, não dizemos que ela tem três côvados de comprimento ou é um homem. E quando afirmamos o que uma coisa é, não dizemos que ela é branca ou quente, que significam qualidade, ou três côvados de comprimento, que significa quantidade, mas dizemos que ela é um homem ou um deus, que significa substância.
1250. A partir disso, fica claro que os termos que significam substância exprimem o que uma coisa é em sentido absoluto, ao passo que aqueles que significam qualidade não exprimem o que uma coisa é em sentido absoluto, mas sim de que tipo ela é. O mesmo vale para a quantidade e os outros gêneros.
1251. A partir disso, fica claro que a própria substância é dita ser um ente por si mesma, porque os termos que simplesmente significam substância designam o que esta coisa é.
Já as outras classes de coisas são ditas entes não porque possuam uma quididade por si mesmas (como se fossem entes por si mesmas, já que não exprimem o que uma coisa é em sentido absoluto), mas porque "pertencem a tal ente", ou seja, porque têm alguma conexão com a substância, que é um ente por si mesma. Pois elas não significam a quididade, já que algumas delas são claramente qualidades de tal ente, i.e., da substância, outras são quantidades, outras afecções, ou algo do tipo significado pelos outros gêneros.
1252. Portanto, pode-se (562).
Em segundo lugar, ele prova o mesmo ponto por meio de um exemplo. Os outros tipos de entes são entes apenas na medida em que estão relacionados à substância. Logo, já que outros entes, quando significados de modo abstrato, não designam nenhuma conexão com a substância, pode surgir a questão se eles são entes ou não-entes, por exemplo, se andar, estar saudável e sentar, e qualquer uma dessas coisas que são significadas de modo abstrato, é um ente ou um não-ente. E é semelhante no caso de outras coisas como estas, que são significadas de modo abstrato, quer designem alguma atividade, como as anteriores, quer não, como é o caso da brancura e da negritude.
1253. Ora, os acidentes significados de modo abstrato parecem ser não-entes, porque nenhum deles é apto por natureza a existir por si mesmo. De fato, o ser de cada um deles consiste em existir em algo outro, e nenhum deles é capaz de existir separadamente da substância. Portanto, quando são significados de modo abstrato como se fossem entes por si mesmos e separados da substância, parecem ser não-entes. A razão é que as palavras não significam as coisas diretamente segundo o modo de ser que elas têm na realidade, mas indiretamente segundo o modo como as entendemos; pois os conceitos são semelhanças das coisas, e as palavras são semelhanças dos conceitos, como é afirmado no Livro I do Peri hermeneias.
1254. Além disso, embora o modo de ser que os acidentes possuem não seja aquele pelo qual possam existir por si mesmos, mas apenas em algo outro, ainda assim o intelecto pode entendê-los como se existissem por si mesmos; pois ele é capaz por natureza de separar coisas que estão unidas na realidade. Por isso, nomes abstratos de acidentes significam entes que inerem em algo outro, embora não os signifiquem como inerentes. E seriam significados não-entes por nomes desse tipo, caso não inerissem em algo outro.
1255. Ademais, já que esses acidentes significados de modo abstrato parecem ser não-entes, parece que são antes os nomes concretos dos acidentes que significam entes. E "se algo é um ente", parece ser antes "a coisa que anda, senta e está saudável", porque algum sujeito é determinado por eles em razão do próprio significado do termo, na medida em que designam algo conectado a um sujeito. Ora, este sujeito é a substância. Portanto, todo termo desse tipo que significa um acidente no concreto "aparece em uma categoria definida", i.e., parece envolver a categoria de substância, não de modo que a categoria de substância seja parte do significado de tais termos (pois branco, no sentido categorial, indica apenas a qualidade), mas de modo que termos desse tipo signifiquem acidentes como inerentes a uma substância. E não usamos os termos "bom ou sentado sem isto", i.e., sem a substância; pois um acidente significa algo conectado à substância.
1256. Além disso, já que os acidentes não parecem ser entes na medida em que são significados em si mesmos, mas apenas na medida em que são significados em conexão com a substância, evidentemente é por causa disso que cada um dos outros entes é um ente. E disso também aparece que a substância é "o primeiro tipo de ente e o ente em sentido absoluto, e não um ente de tipo especial", i.e., com alguma qualificação, como é o caso dos acidentes; pois ser branco não é ser em sentido absoluto, mas com alguma qualificação. Isso fica claro pelo fato de que, quando algo começa a ser branco, não dizemos que começa a ser em sentido absoluto, mas que começa a ser branco. Pois quando Sócrates começa a ser homem, diz-se que começa a ser em sentido absoluto. Portanto, é óbvio que ser homem significa ser em sentido absoluto, mas ser branco significa ser com alguma qualificação.
1257. Ora, há vários (563).
Aqui ele mostra em que aspecto a substância é dita ser primeira. Ele diz que, já que o termo primeiro é usado em vários sentidos, como foi explicado no Livro V (936), então a substância é a primeira entre todos os entes em três aspectos: na ordem (1) do conhecimento, (2) da definição e (3) do tempo.
(3) Ele prova que ela é primeira no tempo por este argumento: nenhuma das outras categorias é capaz de existir separadamente da substância, mas a substância sozinha é capaz de existir separadamente das outras; pois nenhum acidente é encontrado sem uma substância, mas alguma substância é encontrada sem um acidente. Assim, fica claro que um acidente não existe sempre que uma substância existe, mas o contrário é verdadeiro; e por essa razão a substância é anterior no tempo.
1258. (2) Também é evidente que ela é primeira na definição, porque na definição de qualquer acidente é necessário incluir a definição de substância; pois assim como nariz é dado na definição de chato, também o sujeito próprio de qualquer acidente é dado na definição desse acidente. Portanto, assim como animal é anterior a homem na definição, porque a definição de animal é dada na de homem, de modo semelhante a substância é anterior aos acidentes na definição.
1259. (1) É evidente também que a substância é primeira na ordem do conhecimento, pois é primeiro na ordem do conhecimento aquilo que é mais conhecido e explica melhor uma coisa. Ora, cada coisa é mais conhecida quando sua substância é conhecida do que quando sua qualidade ou quantidade é conhecida; pois pensamos conhecer cada coisa melhor quando sabemos o que é o homem ou o que é o fogo, do que quando sabemos de que tipo ela é, ou quanto é, ou onde está, ou quando a conhecemos segundo qualquer uma das outras categorias. Por essa razão também pensamos que conhecemos cada uma das coisas contidas nas categorias de acidentes quando sabemos o que cada uma é; por exemplo, quando sabemos o que é ser deste tipo, conhecemos a qualidade; e quando sabemos o que é ser quanto, conhecemos a quantidade. Pois, assim como as outras categorias têm ser apenas na medida em que inerem a uma substância, de modo semelhante elas só podem ser conhecidas na medida em que compartilham de algum modo do modo segundo o qual a substância é conhecida, e isto é conhecer a quididade de uma coisa.
1260. E a questão (564).
Aqui ele prova o mesmo ponto, a saber, que é necessário tratar a substância separadamente, considerando o que outros filósofos costumavam fazer. Ele diz que, quando se levanta a questão sobre o que é o ser (e esta é uma questão que sempre causou dificuldade para os filósofos, tanto "antigamente", i.e., no passado, quanto "agora", i.e., no presente), isso nada mais é do que a questão ou problema sobre o que é a substância das coisas.
1261. Pois alguns homens, como Parmênides (65:C 138) e Melisso (65:C 140), disseram que "este ser", i.e., a substância, é uno e imóvel, enquanto outros, como os antigos filósofos da natureza, que sustentavam (67:C 145) que há apenas um princípio material das coisas, disseram que ele é móvel. E eles pensavam que apenas a matéria é ser e substância. Assim, quando afirmavam que há um único ser porque há um único princípio material, obviamente entendiam por um ser, uma única substância. Outros homens sustentaram que há mais seres do que um, a saber, aqueles que postularam (67:C 145) muitos princípios materiais e, consequentemente, muitas substâncias das coisas. E alguns desse grupo sustentavam que esses princípios são limitados em número, por exemplo, Empédocles, que postulou (68:C 148) quatro elementos; e outros sustentavam que são ilimitados em número, por exemplo, Anaxágoras, que postulou (44:C 90) um número ilimitado de partes semelhantes, e Demócrito, que postulou (55:C 113) um número ilimitado de corpos indivisíveis.
1262. Se, então, os outros filósofos, ao tratarem dos seres, prestaram atenção apenas às substâncias, nós também devemos investigar "o que é este tipo de ser", i.e., o que é a própria substância. E isso devemos fazer, digo, principalmente, porque este é o nosso objetivo principal; e primariamente, porque por meio dela os outros tipos de ser são conhecidos; e unicamente, como poderíamos dizer, porque, estabelecendo o que é verdadeiro sobre a substância por si mesma, adquire-se conhecimento de todos os outros tipos de ser. Assim, em certo sentido, ele trata a substância separadamente, e em outro sentido, não. Ele indica isso quando diz "como poderíamos dizer" ou na medida em que poderíamos falar dessa maneira, como costumamos dizer sobre coisas que não são verdadeiras em todos os aspectos.
1263. Agora parece (565).
Aqui ele indica as coisas que devem ser discutidas sobre a substância; e a respeito disso, faz duas coisas. Primeiro (565:C 1263), ele apresenta as opiniões que outros homens tiveram sobre a substância. Segundo (567:C 1268), ele afirma que é necessário determinar quais de suas opiniões são verdadeiras ("A respeito dessas matérias").
Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro (565), ele indica as coisas que são evidentes sobre a substância. Ele diz que o ser substancial é encontrado mais obviamente nos corpos. Assim, dizemos que animais e plantas e suas partes são substâncias, e também corpos naturais como fogo, terra, água, "e coisas particulares desse tipo", i.e., tais corpos elementares como terra e fogo, segundo a opinião de Heráclito (42:C 87), e outras entidades intermediárias, segundo as opiniões de outros. Dizemos também que todas as partes dos elementos são substâncias, bem como os corpos compostos pelos elementos, seja por alguns dos elementos, como compostos particulares, ou "por todos os elementos", i.e., o todo dos vários elementos, como toda esta esfera dos seres ativos e passivos; e como também dizemos que "um céu", que é um corpo natural distinto dos elementos, é uma substância, e também suas partes, como as estrelas, a lua e o sol.
1264. Mas se essas substâncias sensíveis são as únicas substâncias, como afirmavam os antigos filósofos da natureza, ou se também existem algumas substâncias que diferem destas, como afirmavam os platônicos, ou se estas também não são substâncias, mas apenas certas coisas que diferem destas, deve ser investigado.
1265. Novamente, parece (566).
Segundo, ele descreve as opiniões dos filósofos sobre aquelas substâncias que não são evidentes. Ele diz que parece a alguns filósofos que os limites dos corpos são as substâncias das coisas, i.e., que superfície, linha, ponto e unidade são substâncias em maior grau do que um corpo ou sólido. E aqueles que sustentavam essa opinião diferiam em suas visões; porque alguns, os pitagóricos, pensavam que nenhum limite desse tipo é separado dos corpos sensíveis, enquanto outros pensavam que existem certos seres eternos que são separados e mais numerosos do que as coisas sensíveis e têm ser em maior grau. Digo "têm ser em maior grau" porque são incorruptíveis e imóveis, enquanto os corpos sensíveis são corruptíveis e móveis; e "mais numerosos" porque, enquanto os corpos sensíveis pertencem a apenas uma ordem, esses seres separados pertencem a duas, na medida em que "Platão afirmou que existem dois tipos de substâncias separadas", ou duas ordens de substâncias separadas, a saber, as Formas ou Ideias separadas e os objetos da matemática; e ele também postulou uma terceira ordem — as substâncias dos corpos sensíveis.
1266. Mas Espeusipo, que era sobrinho de Platão e seu sucessor, postulou muitas ordens de substâncias, e em cada ordem também começava com a unidade, que ele postulava como princípio em cada ordem de substância. Mas ele postulava um tipo de unidade como princípio dos números, que ele afirmava serem as primeiras substâncias após as Formas, e outro como princípio das grandezas contínuas, que ele afirmava serem segundas substâncias; e finalmente ele postulava a substância da alma. Assim, procedendo dessa maneira, ele estendia a ordem das substâncias até os corpos corruptíveis.
1267. Mas alguns pensadores diferiram de Platão e Espeusipo, porque não distinguiam entre as Formas e a primeira ordem dos objetos matemáticos, que é a dos números. Pois diziam que as Formas e os números têm a mesma natureza, e que "todas as outras coisas dependem destes", i.e., estão relacionadas sucessivamente aos números, a saber, linhas e superfícies, até a primeira substância dos céus e os outros corpos sensíveis que pertencem a esta última ordem.
1268. A respeito dessas matérias (567).
Aqui ele explica o que deve ser dito sobre as opiniões anteriores. Ele diz que é necessário determinar quais das opiniões acima são verdadeiras e quais não são; e o que são substâncias; e se os objetos da matemática e as Formas separadas são substâncias além das sensíveis, ou não; e se são substâncias, que modo de ser têm; e se não são substâncias além das sensíveis, se existe alguma outra substância separada, e [se sim], por que e como; ou se não há substância além das substâncias sensíveis.
1269. Pois ele resolverá esta questão abaixo e no Livro XII (1055:C 2488) desta obra. No entanto, antes que isso seja feito, é necessário primeiro postular e explicar o que constitui a substância desses corpos sensíveis nos quais a substância é claramente encontrada. Ele faz isso no presente livro (568:C 1270) e no Livro VIII (696:C 1687), que se segue.