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DESCARTES E A FÉ CATÓLICA

UM DESCARTES SECRETO

Na vida de Descartes, há diversos períodos durante os quais se perde o rastro de seus itinerários e de sua atividade. Uma vida em perpétua errância, amizades equívocas e mutáveis, fugas inesperadas, passagens rápidas pela França, uma preferência dada à Holanda e aos países protestantes: eis o que exige explicação.

Descartes frequentou os Rosa-cruzes, a primeira forma da Maçonaria no século XVII. Seus maiores e mais fiéis correspondentes e amigos faziam parte dela. O matemático Faulhaber, um Rosa-cruz exaltado, seu amigo Isaac Beeckman e vários pastores protestantes eram adeptos da seita.

Seu primeiro biógrafo, o padre Baillet, procurou cristianizar e idealizar sua personagem; no entanto, não pôde ocultar algumas verdades que transparecem aqui ou ali em seu relato. "Descartes", diz ele, "frequenta uma confraria de sábios na Suábia, que ali se estabelecera havia algum tempo sob o nome de Irmãos da Rosa-cruz". Eram, dizia-se, pessoas que sabiam tudo e que prometiam aos homens uma nova sabedoria, ou seja, a verdadeira ciência que ainda não havia sido descoberta... A estada de Descartes na Suábia teve como objetivo procurar esses novos sábios para conhecê-los por si mesmo e conferenciar com eles. Um de seus estatutos, diz-nos ainda Baillet, "era o de não parecer o que eram, de não se distinguirem dos outros homens nem pelo traje, nem pelas maneiras de viver, e de não se revelarem em seus discursos...". Dito de outro modo: transmitir seu ensinamento com discrição suficiente para não revelar seu pertencimento à sociedade.

E vemos Descartes observar fielmente estas regras dos Rosa-cruzes. Vive solitário, vagueia de cidade em cidade, foge da companhia dos homens e das agitações do mundo para dedicar-se ao estudo e assegurar a liberdade de seu espírito. Multiplica as cautelas, publica suas obras na Holanda após muitas hesitações, comunica seus trabalhos a amigos raros e discretos. Naturalmente, não encontramos em lugar algum sua filiação a esta Sociedade Secreta. Será sempre possível negá-la; mas sua atividade e seu ensinamento são mais eloquentes do que uma carteira de membro.

Após ter errado pelos exércitos protestantes, e depois católicos, da Alemanha, após uma longa estada na Suábia sobre a qual voltaremos a falar, em 1628, Descartes refugia-se definitivamente na Holanda. Inscreve-se em universidades protestantes: seus melhores amigos são pastores, e são estes que traduzirão suas obras para o latim. Teve uma ligação da qual nasceu uma filha, Francine, que mandou batizar por um pastor, em Deventer. O próprio Descartes deu o sentido de sua vida: "Assim como os atores (comédiens) prudentes, para que não se veja a vergonha que lhes sobe ao rosto, vestem o seu papel, da mesma forma, no momento em que vou subir ao palco do mundo, do qual fui até aqui apenas um espectador, eu caminho mascarado". É, de fato, a fórmula satânica do "Larvatus prodeo".

UM DESCARTES ILUMINADO

Acredita-se comumente que o Método cartesiano lhe foi ditado por suas longas reflexões de filósofo, que se deve a uma meditação sustentada e que lhe apareceu, enfim, com a evidência que segue uma atividade racional. Nada disso é verdade. Descartes foi, como todos os grandes subversivos, um iluminado.

Foi durante sua estada com os Rosa-cruzes na Suábia que ele teve um sonho. Em 1618, já escrevia ao seu amigo e confidente, Isaac Beeckman: "Eu dormia e você me despertou". É a fórmula clássica da Iluminação gnóstica. Sua nova doutrina, ele não a inventou: ele a recebeu.

Em 10 de novembro de 1619, ainda em seu "aposento aquecido" (poêle) na Suábia, ele sonha que um vento impetuoso o faz cambalear e o desvia da intenção de ir fazer uma oração na capela de seu colégio de La Flèche: "A malo spiritu ad templum propellebatur": eu era empurrado por um espírito mau em direção ao templo. Felizmente, fui desviado por esse vento. Depois, é atingido por um trovão que ele acredita ouvir e que o faz sobressaltar: "Era o sinal do Espírito da Verdade que descia sobre ele para possuí-lo". Em seguida, lê um verso: "Quod vitae sectabor iter?" (Que caminho seguirei na vida?) e as palavras "Est et Non", que são, diz ele, o Sim e o Não de Pitágoras, representando a Verdade e a Falsidade nos conhecimentos humanos. Por esse sonho, diz ele, "era o Espírito da Verdade que viera abrir-lhe os tesouros de todas as ciências". Foi "um brusco e súbito deslumbramento". Ele quis derrubar todos os antigos sistemas e "desnudar o próprio espírito". Não é esta a fórmula clássica de todos os subversivos?

UM DESCARTES PROMETEICO

Descartes acrescenta que foi "nessa famosa noite que lhe foi revelada a doutrina que é a pedra angular da filosofia e que pode ser resumida nesta dupla proposição: o princípio da ciência deve ser buscado em nós mesmos, visto que está em nós como o fogo no sílex, e que é preciso buscá-lo não pela razão dos filósofos, mas pela inspiração dos poetas, isto é, pela intuição". Eis a grande palavra proferida. "Intueor" quer dizer "olhar para dentro". O homem só tem de voltar o olhar para o fundo de sua alma. Ali verá a Verdade. Ele a possui em si. Ela não lhe vem do mundo exterior.

Paul Valéry ironiza com justiça: "O que há de mais impressionante do que querer que sonhos excessivamente obscuros lhe sejam testemunhos em favor das ideias claras!". E acrescenta: "Descartes pede ao céu para ser confirmado em sua ideia de um método para bem conduzir sua razão, e que esse método implica uma crença e uma confiança fundamental em si mesmo — condições que lhe são necessárias para destruir a confiança e a crença na autoridade das doutrinas tradicionais". Não se poderia dizer melhor: a subversão dos espíritos e a Grande Revolução começaram por esta Iluminação.

Descartes busca a "Ciência admirável": "mirabilis scientiae fundamenta", aquela que engloba todas as ciências particulares e dará um conhecimento total do Mundo; uma ciência inata, desdobramento do nosso pensamento. Esta revelação por um sonho é uma Embriaguez santa, um Pentecostes da razão; Ciência universal perfeitamente una, como a de Deus que tudo vê, constituída de um só golpe, por um só homem (Ele, Descartes!), sem o lento trabalho das gerações, o esforço contínuo de muitos e a autoridade magistral de alguns.

Descartes percebe que "a ciência deve ser o trabalho de um só, que deve ser uma obra composta pela mão de um único mestre, como é bem certo que o estabelecimento da Religião é obra apenas de Deus". A Ciência tornada Religião universal, Descartes tornado Deus: é a "Grande Obra", a Arte Real de nossos maçons, herdeiros dos Rosa-cruzes.

"Dai-me a extensão e o movimento e eu refarei o mundo", diz ele ainda. Que pretensão exorbitante! Enquanto o mundo lhe é dado já todo criado por Deus, Descartes o considera, portanto, malfeito. "Embora a vontade de Deus esteja unida a um poder material incomparavelmente maior que o meu, não deixa de ser verdade que ela não é espiritualmente maior que a minha, na medida em que minha vontade é o poder de fazer uma coisa ou de não a fazer, de afirmar ou negar, perseguir ou fugir...". O que quer dizer que o Homem é igual a Deus pelo seu espírito, mas que lhe falta a força material, com Deus superando o Homem apenas pela criação da Matéria (Eis um pensamento propriamente gnóstico!). O que quer dizer ainda que o Espírito é inteiramente reduzido à Vontade, e que esta Vontade é reduzida à indiferença do julgamento em relação aos bens particulares, finitos e limitados, que se apresentam ao homem... Esta definição de vontade não pode, de modo algum, aplicar-se a Deus...

Descartes não compreendeu aqui a analogia do ser, que é uma similitude (e não uma igualdade) nas relações, enquanto os termos relacionados são radicalmente heterogêneos, de outra essência; o poder criador de Deus não é de natureza material e não é comensurável ao poder fabricante do homem. Não há apenas diferença de grau entre a ação de criar e a de fabricar; há diferença de natureza. No entanto, a analogia incide sobre a relação que há entre o Criador e sua criação, por um lado, e entre o operário e sua obra, por outro. Vê-se despontar aqui já a ideia de um Deus demiurgo, o "Relojoeiro" de Voltaire. Primeira forma do Deísmo...

Mas que orgulho! Sou capaz, diz Descartes, de refazer a criação.

A RECUSA DO REAL

"Pelo nome de pensamento", diz Descartes, "compreendo tudo o que está de tal modo em nós que dele somos imediatamente conhecedores. Assim, todas as operações da vontade, do entendimento, da imaginação e dos sentidos são pensamentos".

"Pelo nome de ideias", diz ele ainda, "entendo aquela forma de cada um de nossos pensamentos pela percepção imediata da qual temos conhecimento desses mesmos pensamentos". Fórmula tautológica que se contenta em afirmar a identidade do nosso pensamento consigo mesmo.

Assim, a Verdade, que era, segundo o senso comum, o acordo do nosso pensamento com as coisas conhecidas, é aqui o acordo desse pensamento com a ideia-forma desse mesmo pensamento. Não é o que é que imprime sua forma; é a ideia inata, que se manifesta no interior do nosso espírito. "De sorte", diz Descartes, "que a luz natural me faz conhecer evidentemente que as ideias estão em mim como quadros e imagens que podem, na verdade, facilmente decair da perfeição das coisas de onde foram tiradas (Vejam só! Eis uma concessão de pura forma, aliás, ao realismo!), mas que nunca podem conter nada de maior e de mais perfeito".

Assim, portanto, as ideias são em si mesmas perfeitas, independentemente das coisas às quais correspondem. Da mesma forma, a luz não ilumina a coisa para fazê-la ser vista, mas ilumina o interior do nosso espírito para nele fazer aparecer e revelar quadros e formas que já ali estão contidos. Pouco importam as coisas em si, das quais não podemos conhecer o grau de perfeição.

A RECUSA DA TRADIÇÃO

Descartes devia rejeitar, antes de tudo, a filosofia tradicional, porque ela era um obstáculo à sua revolução nos espíritos. "Submeteu-se de tal modo a Teologia a Aristóteles", diz ele, "que é quase impossível explicar outra filosofia sem que ela pareça, de início, contra a Fé". Este será verdadeiramente o problema com o qual a Igreja se deparará no século XIX: como ensinar a Fé católica ao lado da filosofia cartesiana? Veremos que isso é impossível e que a nova filosofia é, por si mesma, destruidora da Fé.

A filosofia moderna é impotente para dar conta da metafísica. Descartes mudou o vocabulário, suprimiu e volatilizou os termos da escolástica; ao mesmo tempo, foram as próprias noções que foram levadas por essa revolução.

Um cientista moderno — físico, químico, biólogo — já não faz intervir as noções de forma, essência, substância, etc. Ele se condena, assim, a nada mais compreender do real que observa e mede com suas ferramentas matemáticas. Quando deseja, por um momento, dominar seu assunto, estender seu conhecimento ao Universal, bruscamente ele descarrila, desatina, já não sabe o que diz. Viu-se isso claramente a respeito do transformismo. O biólogo que busca a origem das espécies fala de "Evolução", deifica a matéria, faz dela o todo do ser, atribui-lhe um poder divino de criação das formas... etc.

No entanto, a Igreja continua a utilizar para o ensino de seu dogma as noções metafísicas da escolástica, que são as noções verdadeiras de toda metafísica, mas que já não são ensinadas em outros lugares. Por isso, o cristão educado nas disciplinas modernas sente-se deslocado diante dessa linguagem antiga que lhe parece ultrapassada e ininteligível. Ele está, portanto, privado da ferramenta metafísica necessária para uma inteligência profunda do real. O ensino da Fé só pode ser transmitido com o auxílio dos conceitos metafísicos do Tomismo, porque eles são a expressão elaborada do "Senso comum", sem os quais é impossível penetrar na natureza das coisas. A filosofia moderna é radicalmente impotente para tal; é nisso mesmo que ela é destruidora da Fé.

Descartes quer ainda uma razão pura, em estado de natureza, por assim dizer, privada do socorro da experiência dos homens, privada do socorro de um magistério que transmite uma tradição recebida — o ensino de uma verdade buscada e estudada por outros diante da qual a inteligência de cada um deve fazer um ato de humildade; uma razão ainda privada dos "habitus", isto é, das virtudes desenvolvidas pelo exercício e por uma "ascese" intelectual que predispõe o nosso espírito a submeter-se ao real.

O DEUS DE DESCARTES

Quando Descartes quer introduzir o "Cogito" como ponto de partida de sua filosofia, deve primeiro rejeitar todos os conhecimentos anteriores em uma dúvida metódica, como ele a chama, ou seja, artificial e sistemática. Já havia nessa pretensão exorbitante uma atitude absurda. Não se faz, por vontade própria e decisão arbitrária, o vazio no espírito.

Quando começamos a refletir, a filosofar, temos uma matéria sobre a qual o nosso espírito trabalha, dados primordiais, objetos de conhecimento sobre os quais podemos elaborar uma reflexão. Não se pensa o nada, mas alguma coisa. Essa posição da dúvida metódica pode ser dita, mas não pode ser praticada, porque nossa alma espiritual é feita para a Verdade e, portanto, para certezas; sendo a dúvida apenas uma passagem provisória entre a ignorância e a certeza, e supondo já conhecimentos certos para neles se apoiar.

Como se explica, então, que Descartes tenha sentido a necessidade de excluir desta dúvida metódica as Verdades da Fé?

Se podemos duvidar, como pretende Descartes, de todos os objetos reais que nos cercam e cuja existência percebemos ao longo do dia, como poderíamos não duvidar, com maior razão, de um mundo sobrenatural do qual não temos nenhuma percepção direta? A pretensão de Descartes é insustentável, e os cartesianos do século XIX não terão grande esforço a fazer para negar a existência desse sobrenatural: esta será, por exemplo, a atitude de Renan.

Resta que Descartes, contra toda verossimilhança, mantém as certezas religiosas fora de qualquer dúvida metódica. Disse-se que ele queria, assim, escapar aos raios do Santo Ofício. Talvez; e, de fato, após sua morte, suas obras seriam postas no Index, como veremos.

Há outra explicação. A existência de Deus e as verdades sobrenaturais conexas a essa existência não são recebidas do exterior pela percepção sensível, nem pelo ensino de um magistério — coisas todas incapazes, diz-nos Descartes, de nos permitir alcançar a certeza; são verdades evidentes por si mesmas, ideias claras e distintas, percebidas imediatamente pela inteligência em seu exercício imanente.

O "Cogito" torna-se então esta fórmula: "Penso Deus, logo Deus é". A existência de Deus está toda em meu pensamento, está suspensa ao meu pensamento. "É quase a mesma coisa conceber Deus e conceber que Ele existe", diz-nos Descartes.

O "quase" é admirável. Vê-se nele uma hesitação antes de afirmar uma fórmula tão absurda. Poder-se-ia ver nele uma precaução diante das críticas que não tardariam a surgir diante de tal pretensão. Na verdade, se é quase a mesma coisa, logo não é puramente a mesma coisa, portanto não é de modo algum a mesma coisa.

Mas Descartes prossegue em seu pensamento: "Ao voltar a examinar a ideia que eu tinha de um ser perfeito, descobria que a existência nela estava compreendida, da mesma forma que está compreendido na ideia de um triângulo que seus três ângulos são iguais a dois ângulos retos". É o chamado argumento ontológico de Santo Anselmo, acompanhado de uma comparação evidentemente matemática. Se um triângulo existe, seus três ângulos são iguais a dois retos, dirá o senso comum; mas isso não prova a existência do triângulo.

A existência não é um atributo que se possa acrescentar a outros. A definição do triângulo é sua natureza, mas não sua existência. A ideia de perfeição entra na natureza de Deus, portanto em sua essência, mas não em sua existência. Não posso acrescentar à perfeição de Deus a ideia de existência de tal sorte que, sendo a existência negada, Deus já não seria perfeito, visto que lhe faltaria algo. Com efeito, se Deus não tivesse a existência, não teria nenhuma das perfeições que se lhe poderiam atribuir: bondade, força, amor, etc. Quando se diz: "Deus é soberanamente justo", por exemplo, a existência está compreendida no verbo "ser" e não se acrescenta como complemento à Sua justiça para aperfeiçoá-la ou completá-la. Assim, portanto, a ideia de perfeição não contém a ideia de existência.

Era preciso, para Descartes, reduzir a noção de Deus a uma definição matemática: a existência está compreendida na ideia, mas isso não estabelece a existência no real, fora do meu pensamento. É uma primeira fórmula da Imanência vital que os Modernistas não terão dificuldade em desenvolver. Ela já estava contida nas afirmações do Cartesianismo pretensamente cristão.

Maxime Leroy, em sua obra intitulada "Descartes, le philosophe au masque" (Descartes, o filósofo mascarado), diz-nos que suas demonstrações religiosas são "diabolicamente cavilosas" e que ele possuía uma "alma fugidia" — expressão aplicada por São Pio X aos Modernistas.

UMA MORAL "PROVISÓRIA"

Dissemos que a posição da dúvida metódica é insustentável para uma inteligência normal; é ainda mais para um homem constrangido a agir a cada dia e, portanto, a refletir sobre sua ação de maneira a conformá-la ao Verdadeiro e ao Bem.

"A fim de que eu não permanecesse irresoluto em minhas ações, enquanto a razão me obrigasse a sê-lo em meus juízos..." Grave problema! Mas foi o próprio Descartes quem o impôs a si mesmo. Ele se vê obrigado a forjar uma moral, dita provisória: é preciso agir como se se soubesse, já que nossa inteligência não pode nos dar critérios certos e verdadeiros para nossa ação.

Descartes acrescenta: "Não seguir com menos constância as opiniões mais duvidosas, uma vez que eu nelas tivesse me determinado, do que se tivessem sido muito seguras; e é uma verdade muito certa (Vejam só! Uma verdade certa, quando tudo é duvidoso!) que, quando não está em nosso poder discernir as opiniões mais verdadeiras, devemos seguir as mais prováveis e mesmo que, embora não notemos mais probabilidade em umas do que em outras, devemos, não obstante, determinar-nos por algumas e considerá-las depois não mais como duvidosas, na medida em que se refiram à prática, mas como muito verdadeiras e muito certas, pelo fato de que a razão que nos fez determinar-nos por elas assim se encontre".

Mas como pode a razão determinar-nos a algo que não possui uma razão determinante para nos fazer agir? Não é, portanto, a razão, mergulhada em uma dúvida da qual não pode sair, que nos conduz na ação! O que é, então?

"E isto foi capaz, desde logo, de me livrar de todos os arrependimentos e remorsos que costumam agitar as consciências desses espíritos fracos e vacilantes que se deixam levar constantemente a praticar como boas as coisas que julgam ser más".

Eis onde se queria chegar! Livrar o homem do remorso e do arrependimento! Livrá-lo da obrigação de julgar antes de agir — obrigação penosa e fonte de conflitos interiores entre a razão espiritual e as paixões sensíveis, esforço da inteligência para ordenar em nós os diferentes apetites.

E que admirável conclusão! Ajamos! Ajamos! Nossas dúvidas se tornarão, assim, certezas: o que fiz é bom, porque o fiz, pela única razão de que assim o julguei. É minha ação que determina a verdade. Descartes é um "espírito forte" que não se embaraça com as contradições encontradas ao longo da existência entre nossos desejos mais ou menos desordenados e nosso conhecimento do verdadeiro. O jargão eclesiástico moderno utiliza muito a expressão "fazer a verdade". Ela já estava em Descartes.

AS PRIMEIRAS REAÇÕES CONTRA DESCARTES

Não se deve acreditar, como se disse, que Descartes tenha recebido sua formação filosófica dos Jesuítas de La Flèche. Ele a recebeu dos Rosa-cruzes da Suábia. Seu próprio professor de filosofia, o Pe. Véron, era um "liguista" apaixonado que havia composto uma obra de violenta controvérsia contra os protestantes — aqueles de quem Descartes faria seus melhores amigos.

Durante todo o Grande Século, os Jesuítas foram ardentes adversários do Cartesianismo. Um Padre de Valois escrevia então: "Os sentimentos de Descartes são opostos aos da Igreja e conformes aos de Calvino", o que não foi uma observação ruim. Durante toda a sua vida, Descartes tentará fugir da controvérsia com os Jesuítas, por medo de ser denunciado em Roma.

Em 1665, o Pe. Channerelle, jesuíta, escrevia: "Em uma palavra, a doutrina cartesiana difere da doutrina aristotélica como a poesia da realidade, como a imaginação da inteligência"... (Recordem-se: buscar o princípio da ciência não pela razão dos filósofos, mas pela inspiração dos poetas, dixit o próprio Descartes).

As obras de Descartes foram postas no Index em 1663, "donec corrigatur", especifica o decreto, "até que ela (sua filosofia) seja corrigida". Infelizmente! Não é possível corrigir o que é radicalmente errôneo, isto é, falso em sua própria raiz.

BOSSUET e DESCARTES

A atitude de Bossuet a este respeito é muito sugestiva. Acontece, às vezes, que as habilidades de linguagem e os disfarces do pensamento enganam os mais reflexivos.

Em um primeiro momento, Bossuet manifestou satisfação diante das afirmações espiritualistas de Descartes e de certas páginas sobre as provas da existência de Deus que pareciam reproduzir o ensinamento tradicional da Igreja, tal como se podia encontrar em Santo Agostinho ou São Tomás. Sabemos hoje que eram posições de prudência destinadas a afastar as acusações de impiedade ou ateísmo que nosso filósofo temia muito.

Quando Bossuet compreendeu, ao ler Malebranche, para onde conduziam necessariamente as premissas do Cartesianismo, seu instinto da Fé e seu robusto bom senso reagiram com força. Ele escreveu esta carta notável a um discípulo do Padre Malebranche, o que mostra até que ponto sua clarividência era profética:

"Vejo um grande combate preparar-se contra a Igreja sob o nome da filosofia cartesiana. Vejo nascer de seu seio e de seus princípios mais de uma heresia e prevejo que as consequências que delas se extraem contra os dogmas que nossos pais mantiveram a tornarão odiosa e farão a Igreja perder todo o fruto que dela podia esperar para estabelecer no espírito dos filósofos a divindade e a imortalidade da alma... Desses mesmos princípios, outro inconveniente terrível ganha insensivelmente os espíritos. Pois, sob o pretexto de que não se deve admitir senão o que se entende claramente — o que, reduzido a certos limites, é muito verdadeiro —, cada um se arroga a liberdade de dizer: entendo isto e não entendo aquilo, e sobre este único fundamento aprova ou rejeita tudo o que quer, sem pensar que, além de nossas ideias claras e distintas, há as confusas e gerais, que não deixam de encerrar verdades tão essenciais que se subverteria tudo ao negá-las... Introduzem, sob este pretexto, uma liberdade de julgar que faz com que, sem consideração pela Tradição, se avance temerariamente tudo o que se pensa. E jamais este excesso apareceu tanto quanto no novo sistema, pois nele encontro, ao mesmo tempo, os inconvenientes de todas as seitas...

O sucesso de que o senhor parecia tão satisfeito me causa medo; pois, quando se tem sucesso em matéria de Teologia, tem-se motivo para louvar a Deus pela bênção que dá aos trabalhos que nos inspira. Mas quando alguém se afasta dos sentimentos da Igreja e da Teologia que nela se encontrou universalmente recebida, o sucesso só pode vir do atrativo da novidade, e toda alma cristã deve tremer com isso. É o sucesso que tiveram os heréticos.

Como o senhor, eles se deram um ar de piedade ao nomearem muito a Jesus Cristo e ao se paramentarem com Sua Escritura (no duplo sentido da palavra: adornar-se e proteger-se). Como o senhor, vangloriaram-se de propor meios para reconduzir os errantes à Fé da Igreja (exemplo: as pretensões de Descartes de responder aos epicuristas, aos ateus e aos libertinos). Citar frequentemente a Escritura e dela alegar apenas o que de nada serve na matéria é ainda um dos artifícios de que o erro se serve para atrair os piedosos...

Não creia que, ao compará-lo aos heréticos, eu queira acusá-lo de ter a indocilidade deles, nem o que os levou, por fim, à revolta contra a Igreja — Deus me livre! Mas sei que se chega lá por degraus. Começa-se pela novidade, prossegue-se pela teimosia. É de temer que a revolta aberta chegue na sequência, quando a matéria desenvolvida atrair os anatemas da Igreja e após, talvez, ela ter silenciado por muito tempo para não dar reputação ao erro..."

Carta notável em todos os pontos. Ela mostra bem os caminhos do erro nos espíritos. Um princípio novo (por exemplo: a dúvida metódica, as ideias claras e distintas, o Cogito, etc.) pode não fazer aparecer imediatamente todas as consequências que nele estão implicadas; sobretudo se o autor, por habilidade tática, esforça-se por enfraquecer o seu alcance por meio de restrições, declarações de boa-fé e outros subterfúgios de que fala Bossuet.

Mas, sobretudo, Bossuet opõe às ideias claras e distintas as "confusas e gerais que encerram verdades essenciais sem subverter tudo". Distinção fundamental. O que Descartes chama de "ideias claras e distintas" — que seriam as únicas dotadas, segundo ele, do caráter de evidência — não são as formas dos objetos conhecidos, são os entes de razão, princípios ou axiomas matemáticos, números, proposições deduzidas desses princípios, moldados pela inteligência segundo as convenções necessárias do nosso espírito.

São ferramentas lógicas destinadas a permitir a medição do real, enquanto este é "extensão e movimento". São os conceitos mais universais, os mais desprovidos de conteúdo, os mais vazios. São, sem dúvida, conhecidos imediatamente, sem a passagem pela percepção sensível; e, no entanto, seu ponto de partida está, sim, no real exterior, mas apenas na medida em que este é quantificável. O número dois não se lê nas coisas. Dois nadas mais dois nadas não fazem quatro nadas; não fazem nada de nada. O que é conhecido pelo espírito com certeza não é o número, mas a coisa numerada: dois árvores mais duas árvores, estas sim, fazem quatro árvores: são as árvores que são efetivamente conhecidas.

Quando nosso espírito se aplica aos seres reais e não aos entes de razão, encontra um obstáculo de peso: a matéria, com aquilo que, nela, permanece virtual, potencial, inacabado, esfumado. Nosso espírito não pode traduzir fielmente em ideias claras e distintas o que permanece indeterminado, fluente, mutável no ser.

É o problema bem visto por São Tomás e incompreendido por Descartes das gradações contínuas do ser. Há, entre o confuso e o claro, passagens insensíveis, graduais. O "claro" não é primeiro, muito menos inato, mas é adquirido; obtém-se por uma elaboração, pelo despojamento de um confuso primitivo cheio de riquezas que nosso espírito deve empreender para "ver claro" no real que lhe é dado globalmente. E é bem evidente, como diz Bossuet, que nossas ideias confusas e gerais são uma primeira apreensão de um real rico de formas que será preciso destacar por abstração: serão verdades muito certas, reproduções em nosso espírito das ideias já contidas nas coisas.

Assim, portanto, jamais poderemos atingir o âmago da natureza íntima de Deus, de nossa alma ou das coisas. Elas nos permanecerão sempre ocultas sob esse ângulo. Contudo, nossa inteligência é apta a conhecer com certeza a forma, a ideia diretriz que é de essência espiritual como nossa alma. Isso é suficiente para afirmar a existência das coisas e a de Deus com certeza. Nosso espírito não tem de dar um salto no desconhecido, e o ceticismo universal que está contido implicitamente na filosofia de Descartes — e que seus discípulos professarão no século XIX — não tem fundamento na razão.

O ENSINO DE DESCARTES NOS COLÉGIOS ANTES DA REVOLUÇÃO

Até 1660, Descartes era praticamente ignorado em todos os lugares. Ensinava-se ainda Aristóteles e São Tomás.

Em 1661, o Padre de la Chaize ensina Descartes no Colégio da Trindade, em Lyon; o Padre Lamy, em Angers, em 1674. Ele é discutido. Denuncia-se o "Cogito", a dúvida metódica, a extensão como essência dos corpos, etc.; mas ele está presente no ensino. A partir de 1715, a maioria dos professores ensina Descartes. Em meados do século XVIII, o idealismo cartesiano é utilizado para lutar contra o materialismo, o sensualismo e o empirismo dos filósofos ateus.

Em 1690, o Padre Gabriel, jesuíta, escreve: "Quase já não se imprime Filosofia segundo o método da Escola, e quase todas as obras desta espécie que aparecem agora na França são tratados de Física que pressupõem os princípios da nova filosofia... A filosofia das classes mudou de face..."

O curso do Padre André, jesuíta, em La Flèche, em 1706, é "cartesiano e malebranchista, tão claro e bem ordenado que se espalhou pelos principais colégios da Companhia..." Ensina-se a física e a mecânica em detrimento da metafísica. Deus é considerado o mecânico supremo, o primeiro motor útil para dar o impulso inicial ao mundo, mas não mais como fonte permanente de ser e vida. Este Deus do "piparote" (chiquenaude), como o chama Pascal, é o "relojoeiro" de Voltaire. Ele é apenas causa eficiente, fabricante do mundo. Uma vez lançado em seu movimento perpétuo, o mundo pode facilmente prescindir dele, tal como o relógio pode sobreviver ao Relojoeiro e funcionar após a sua morte. Eis que Deus se tornou inútil.

Mas as Congregações Gerais dos Jesuítas em Roma intervêm energicamente contra o Cartesianismo. A 14ª Congregação Geral, em 1696-1697, publica 30 proposições proscritas contra a nova filosofia, contra a Harmonia Pré-estabelecida de Leibniz e contra a dúvida universal de Descartes. Condenações sem força e que precisarão ser renovadas — sinal evidente de sua ineficácia sobre os espíritos. A 16ª Congregação Geral, em 1730-1731, coloca em vigor as condenações anteriores e decide que se deve permanecer fiel à filosofia de Aristóteles. Em 1732, o Padre Geral dos Jesuítas prescreve dez proposições que não devem ser ensinadas, todas extraídas de Descartes e opostas à Escolástica.

Esforço perdido! Os professores de colégios estão entusiasmados com a nova filosofia e são grandes adeptos das "ideias claras e distintas". No século XVIII, todo o ensino é cartesiano.

Duas consequências importantes nos espíritos:

a) O Deísmo: é uma forma religiosa híbrida que desvia os espíritos de um Deus verdadeiro para uma ideia vaga da Divindade.

Esforçam-se, então, por afastar Deus do mundo. Ele é grande e distante demais, os homens são pequenos e insignificantes demais para que Deus possa pensar neles: "Deus é um ser que não tem de se ocupar com o bem e o mal que se fazem entre os homens". É uma blasfêmia contra a Providência. Veja-se "As Viagens de Gulliver" de Swift, "A Pluralidade dos Mundos Habitados" de Fontenelle, o "Micromegas" de Voltaire, etc.

"O Cristianismo", diz Fontenelle, "é uma fábula. Não se deve detestar as fábulas. É preciso livrar-se delas suavemente pela eficácia da razão". Eis a fórmula de todos os espíritos "esclarecidos" no século XVIII.

b) O Fideísmo: é impossível ensinar Deus pelas ideias claras e distintas. É inconcebível relegá-Lo à dúvida metódica universal. Como então ensinar o que se deve continuar a chamar de Verdades, embora não dotadas da evidência cartesiana?

O "Journal de Trévoux", redigido pelos Jesuítas, assinala bem a impotência da nova filosofia em ensinar a Fé e a passagem insensível ao Fideísmo. Escreve em junho de 1705 este texto capital: "Teme-se aprofundar com eles (as crianças) as matérias da religião. Contentam-se em dar-lhes ideias superficiais e exigir delas um apego à Fé que seria necessário persuadi-las... Como não se lançou nenhum fundamento sólido em seu espírito, as exortações à virtude com que as fatigam só causam impressão na medida em que o temor e a vigilância as tornam eficazes". Esta reflexão, ainda hoje válida e atual, tem quase dois séculos: o problema já era o mesmo outrora. Mede-se hoje apenas a extensão do desastre. Em 1706, já se podia prever que o desastre seria indefinido. E assim foi.

O ENSINO DE DESCARTES NOS SEMINÁRIOS NO SÉCULO XIX

Após a tormenta revolucionária, foi preciso reconstruir. Napoleão havia reorganizado a Universidade sob monopólio estatal. A Igreja tinha o direito de abrir apenas seminários para a formação de seu clero.

Ora, os primeiros professores desses seminários foram os sobreviventes das hecatombes revolucionárias, eles próprios formados pela nova filosofia. O Sr. Emery, cuja vida movimentada o cônego Leflon nos narrou outrora, foi o negociador discreto e eficaz da Concordata de 1801. Ele foi encarregado de reconstituir a Sociedade dos Padres de Saint-Sulpice, destinada a formar os futuros professores de seminários. Foi, portanto, seu Fundador e primeiro Superior. Infelizmente, ele era cartesiano!

O Padre J. Bellamy, em sua obra "La Théologie catholique au XIXe siècle", resume assim a situação nos seminários:

"Na França, o Cartesianismo era onipotente e, quando se sabe o quanto esta filosofia é refratária a qualquer adaptação teológica, não nos espantamos mais com a profunda decadência em que caíra a ciência sagrada em nosso país. Um dos padres mais distintos e doutos da época, o Sr. Emery, acredita prestar serviço à Teologia publicando diversos tratados de filosofia religiosa impregnados do espírito cartesiano, nomeadamente: 'Os Pensamentos de Descartes sobre a Religião e sobre a Moral'. Em todos os seminários ensinava-se o Cartesianismo, e o manual mais em voga, a 'Filosofia de Lyon', era obra do oratoriano Valla, autor de uma teologia posta no Index pelo Papa Pio VI em 1792. As 'Lições Elementares de Filosofia' do Padre Fluttes, que também se liam nos seminários, tinham em alta estima e seguiam em uma multidão de pontos Locke, Condillac e Jean-Jacques Rousseau. Como, com uma filosofia tão defeituosa, a Teologia poderia ter alçado voo?"

A Sorbonne tornara-se a senhora do pensamento universal na sociedade francesa. Não havia mais Universidade Católica livre. Os professores de seminários que quisessem obter seus graus universitários deviam submeter-se aos júris do Estado. Veem-se as consequências.

RENAN, que foi boa testemunha na matéria, diz-nos que "o ensino filosófico do seminário era a escolástica em latim, não a escolástica do século XII, bárbara e infantil (que julgamento desprezível e sem fundamento de uma filosofia que ele não estudara!); mas o que se pode chamar de escolástica cartesiana, isto é, aquele Cartesianismo mitigado que foi adotado em geral pelo ensino eclesiástico do século XVIII e fixado nos três volumes conhecidos como a Filosofia de Lyon".

Cartesianismo mitigado: isso significa uma apresentação de Descartes despojada do que parecia então incompatível com o ensino da Fé e orientada para a refutação dos ateus e libertinos. Eram gratos a Descartes por ter defendido a existência de Deus, o espiritualismo, a imortalidade da alma e várias outras verdades da Fé católica. Não se compreendia, na época, que essas verdades ele as havia idealizado, lançado para fora do real. Ele as havia esvaziado de sua substância.

Os professores da Universidade anticlerical não se enganaram. Ensinavam Descartes como o Mestre do Racionalismo, como o precursor do Livre-Pensamento (aquele despojado do Real e da Tradição), como o adversário triunfante da Escolástica, como o destruidor de preconceitos (entenda-se: da Fé católica, claro!), como o adorador da Razão tornada infalível.

Vemos assim aparecer no ensino um duplo Descartes: um, na aparência cristão e pretenso defensor da Fé; outro, mestre e precursor da nova filosofia, aquela que deitará por terra todo o edifício da Cultura cristã.

Quanto à Escolástica, dita bárbara e infantil por Ernest Renan, ela está bem morta e enterrada. Um dia, Victor Cousin, o grande mestre da filosofia oficial, percorria o cais do Sena, vasculhando alfarrabistas. Deparou-se por acaso com um livro de um certo "Aquinat" (Tomás de Aquino), onde ficou surpreso, diz ele, ao encontrar muito bom senso. Discreta oração fúnebre!

O CARTESIANISMO CONTRA A FÉ

Encontraremos na correspondência de Ernest Renan os efeitos mais marcantes da nova filosofia. Renan entrara no seminário com o entusiasmo de uma alma apaixonada pela Verdade. Infelizmente, teve de se desiludir muito rápido: ensinavam-lhe a dúvida metódica. Vejamos seus efeitos:

"Todo o efeito produzido em mim pelo que vimos até agora foi o de encontrar dificuldades em toda parte, mesmo onde antes eu não via sombra delas... Quanto ao Pirronismo, outrora eu ria dele de todo o coração, não concebia que houvesse homens suficientemente absurdos para cair em semelhantes ideias; agora, já não rio mais. Isso não quer dizer que eu seja cético... É preciso confessar que seríamos muito infelizes se fosse preciso rejeitar todos os sistemas contra os quais se podem fazer objeções..."

Nesta primeira carta, vê-se aparecer já um arrependimento, uma inquietação diante de um ensino tão negativo. A profunda necessidade de certeza que dirige toda inteligência para o verdadeiro reage aqui.

Em 1848, Renan escreve: "O próprio da filosofia é menos dar noções bem seguras do que remover uma multidão de preconceitos. Fica-se assombrado, quando se começa a dedicar-se a ela, ao ver que, até então, fomos joguete de mil erros, enraizados pela opinião, pelo costume, pela educação: é a morte do Belo Ideal. Veem-se as coisas tais como são (?) e fica-se muito surpreso ao ver os julgamentos que pareciam mais certos colocados no nível dos problemas..."

Sente-se nesta carta à sua mãe, que segue de perto a anterior, uma reação de bom senso, mas puramente provisória e que não resistirá por muito tempo a uma filosofia tão negativa:

"Imagine, minha boa mãe, que se pergunta ali seriamente: É verdade que eu existo? Não será um sonho, uma ilusão? Creio ver minha querida mamãe indignar-se: certamente que meu Ernest existe. Gostaria bem de ver alguém que se atrevesse a negá-lo. É que, veja bem, os filósofos são as pessoas mais engraçadas do mundo: duvidam de tudo. Mas não tenha medo, minha querida mãe, eu ainda não cheguei a esse ponto..."

Ele não estava longe...

A inteligência humana é ordenada à certeza do Verdadeiro. Ela não pode repousar na dúvida. A dúvida é apenas uma passagem provisória da ignorância à certeza, como dissemos.

Todo homem, desde o início da vida, recebe um ensino, ritos, hábitos enraizados em sua natureza social — Tradições, portanto. Ele é devedor de sua família e da sociedade onde cresce. Deve saber antes de compreender; deve agir antes de conhecer as razões explícitas de sua ação. Necessita para isso de uma autoridade protetora que previna seus erros possíveis, que lhe aponte o caminho a seguir, que restrinja suas fantasias, que lhe permita crescer sem grandes danos.

Da Igreja, ele recebe, antes de compreendê-la, uma Tradição que é, ao mesmo tempo, Revelação do Incognoscível e Sabedoria divina.

Eis a ordem da Natureza. Deus proveu a ela através das autoridades, também elas naturais, às quais o homem deve se submeter. Os princípios do Cartesianismo são uma Revolta contra esta Ordem.

O papel do mestre de filosofia é aplicar a inteligência de seu discípulo a este conjunto de conhecimentos mais ou menos confusos, mostrar o seu fundamento, fazer aparecer a sua ordenação, marcar seus laços lógicos e necessários: ajudar, portanto, uma inteligência ainda nova a pôr em ordem os múltiplos conhecimentos já adquiridos há muitos anos, e retificar seus desvios quando existirem. Ensinar também a esta razão que desperta que já se pensou e refletiu muito tempo antes; mostrar que os problemas que se lhe apresentam hoje já receberam no passado respostas certas e decisivas; e que cada inteligência não tem de reconstruir o mundo em pensamento, mas compreendê-lo à luz dos grandes mestres da filosofia ao longo das eras.

Infelizmente, Descartes trabalhou com afinco para dissolver a inteligência, para "encontrar dificuldades onde não as há", para "rejeitar todos os sistemas", para "remover uma multidão de preconceitos", para mostrar aos homens que são "joguete de mil erros", para ridicularizar os costumes e a educação recebida, para "matar todo ideal", para "colocar as certezas no nível dos problemas", etc.

É uma bela demolição da alma humana. Não se vê como a graça divina poderia fazer germinar a Fé sobre tal terreno.

E. C.