A GNOSE "TRADICIONALISTA" DO PROFESSOR BORELLA
As infiltrações subversivas no Cristianismo não são algo novo, nem extraordinário. Elas constituem todo o objeto de estudo da Sociedade Augustin Barruel, são sua única razão de ser: isto quer dizer que, nesta matéria, o espanto não nos vem facilmente.
Certamente não estamos apáticos — o assunto não o permite —, mas estamos, de fato, tão habituados à sutileza dos subversivos e à ingenuidade de tantos ortodoxos que nossa faculdade de assombro se desgastou um pouco com o tempo.
Mas agora o cálice transbordou. A manobra em curso, hoje, exigiu para se estabelecer tais cumplicidades, especialmente eclesiásticas, que convém falar sem rodeios: gostaríamos de esperar que estas cumplicidades tenham sido inconscientes, em todos os sentidos da palavra, e gostaríamos de receber a prova disso, caso possa ser fornecida.
Há alguns anos, numerosos testemunhos já nos haviam sinalizado casos estranhos em diversos grupos tradicionais nos quatro cantos do Hexágono [França]; tratava-se, contudo, na maioria das vezes, apenas da presença passiva de elementos subversivos, simples assistência à Missa de São Pio V, o que era difícil de evitar.
Na maioria das vezes, mas nem sempre: pois, em diversas ocasiões, e isto é de notoriedade pública, viram-se os "Arautos da Nova Direita" roçarem de perto demais certas batinas e certos hábitos de burel.
Doravante, trata-se de algo bem diferente, infinitamente mais grave: encontramo-nos confrontados com uma infiltração subversiva no topo, não mais na base; elementos de alto nível universitário que pretendem ensinar ao conjunto do meio tradicional e que conseguem fazê-lo graças a proteções eclesiásticas inacreditáveis e, no entanto, reais.
É preciso, portanto, sem demora, abrir esta chaga, caso contrário a infecção poderá ganhar o corpo inteiro; um certo mal já foi feito e não é certo que não restem sequelas, o que nos dá mais uma razão para nela aplicar o ferro com energia.
Terminemos este breve preâmbulo com um desejo, ou melhor, uma dupla e insistente prece dirigida aos nossos leitores. A matéria deste estudo, por vezes complexa, requer séria atenção, e pedimos àqueles que lerem estas linhas que lhe dediquem um cuidado particular; e depois, quando tiverem compreendido toda a sua importância, que se empenhem em difundir rapidamente esta informação junto aos seus amigos, especialmente junto aos padres, que são os primeiros visados por esta manobra subversiva.
S. A. B.
O professor Jean BORELLA leciona na Universidade de Nancy II. Tornou-se conhecido, desde 1979, por um livro intitulado "A Caridade Profanada" (La Charité profanée), publicado pelas Éditions du Cèdre, e por artigos cada vez mais frequentes na revista "La Pensée catholique".
Visto que escolheu estes dois órgãos de difusão, é manifesto que este escritor deseja dirigir-se a um público tradicionalista. Como, por outro lado, ele é um recém-chegado, é lógico que procuremos conhecer sua personalidade e compreender sua doutrina.
A doutrina do professor BORELLA foi feita para agradar aos católicos tradicionalistas. Mas isso ocorre sobretudo em sua PARTE CRÍTICA. Ele combate as teses fundamentais sobre as quais o mundo moderno está edificado, particularmente o socialismo e o freudismo. O próprio título de sua obra resume sua tese essencial: a virtude teologal da Caridade foi PROFANADA pelos modernistas no sentido de que foi desvinculada de Deus; foi rebaixada ao nível de uma simples FILANTROPIA. Eles a "dessacralizaram" ao escamotear seu primeiro preceito, a saber, que o homem deve amar a Deus ANTES de amar o seu próximo.
Esta crítica da caridade profanada pelos modernistas, o Professor BORELLA a completa com considerações gerais situadas na mesma lógica e que reforçam sua demonstração. Ele estabelece a primazia da qualidade sobre a quantidade, a superioridade da contemplação sobre o raciocínio discursivo, a proeminência da escolástica sobre a filosofia racionalista, a primazia da tradição sobre a revolução.
Estas considerações gerais, abundantemente expostas em seu livro e artigos, granjearam-lhe certa simpatia entre os tradicionalistas e fazem dele um dos pensadores atuais desta família de espíritos. Esta simpatia fundamenta-se sobretudo na parte crítica de sua doutrina. É incontestável que o Professor BORELLA e os católicos tradicionalistas têm um INIMIGO COMUM, que é a civilização materialista.
Contudo, eis o ponto!!! A doutrina do Professor BORELLA não possui unicamente uma parte crítica. Ela se vincula também a um SISTEMA de REFERÊNCIAS que pertence a uma escola totalmente diferente. É útil investigar que outra escola seria esta, antes mesmo de abrir o livro "A Caridade Profanada". Vamos, portanto, tentar identificar quais são as FREQUENTAÇÕES INTELECTUAIS do Professor BORELLA. Compreenderemos melhor seus desenvolvimentos quando abrirmos sua obra, que é complexa e difícil.
UM PREFÁCIO REVELADOR
Um primeiro sintoma de pertencimento nos é fornecido por um PREFÁCIO que o Professor BORELLA escreveu para um livro publicado por François Chénique na editora Dervy-Livres, intitulado: "Introdução ao Esoterismo Cristão". Não se prefacia um livro a menos que se o aprecie, ao menos em suas linhas gerais. Examinemos, pois, primeiramente, qual é o ambiente intelectual desta editora.
A Dervy-Livres publica "Coleções" onde as obras são reunidas por grandes temas. Eis as principais coleções desta casa:
- Coleção "Arquitetura e Símbolos Sagrados": na qual notamos o livro "Princípios e Métodos da Arte Sagrada", de Titus Burckhardt, ao qual o professor BORELLA fará, como veremos adiante, frequentes alusões.
- Coleção "A Roda Celeste": reservada a trabalhos concernentes à astrologia.
- Coleção "História e Tradição": entre as quais encontramos "A Cruz Universal" (trabalho feito em colaboração por vários eruditos) e, sobretudo, diversas obras de Yves Marsaudon e de Paul Naudon, que expõem importantes frações da doutrina maçônica e que são, eles próprios, maçons.
- Coleção "Místicas e Religiões": onde destacamos três autores: Frithjof Schuon, que publicou ali várias de suas obras; Jean Tourniac, com "Luz do Oriente"; e Charles Andruzac, com seu "René Guénon: a Contemplação Metafísica e a Expressão Mística".
E ainda quatro coleções cujos títulos são igualmente muito evocativos da mesma família de espíritos: "A Obra Secreta" — "Os Peregrinos da Luz" — "Os Conhecimentos Supranormais" — "Filosofia Espiritualista".
São, ao todo, 187 obras sobre temas esotéricos, ocultistas e orientalistas, das quais reencontraremos um bom número nas referências doutrinárias do Professor BORELLA. Por isso, não foi inútil conhecer a orientação geral das Éditions Dervy-Livres.
Passemos agora ao prefácio da "Introdução ao Esoterismo Cristão". Este livro é uma compilação, feita por François Chénique, dos escritos deixados por um certo Padre STEPHANE. Quem é este personagem? Eis precisamente o que o prefácio do Professor BORELLA nos ensina:
"O Padre Henri Stéphane era um padre da Igreja Católica. Viveu ignorado por todos, salvo por alguns amigos para os quais representou uma espécie de MESTRE do PENSAMENTO. O Padre entrou nas Ordens após ter seguido estudos científicos que o levaram ao mais alto grau de competência neste domínio.
"Foi levado a ler 'O Simbolismo da Cruz' de René Guénon. A força e a amplitude das perspectivas guenonianas o engajaram em um estudo atento de toda a obra. O que lhe interessava essencialmente nesta obra era a METAFÍSICA, o SIMBOLISMO e a CRÍTICA do MUNDO MODERNO.
"A esta leitura, ele juntou a de Frithjof Schuon, cuja autoridade não lhe pareceu menor...
"O Padre Henri Stéphane interessara-se igualmente pela Maçonaria e por suas relações com o Cristianismo, particularmente pela obra de Jean PALOU e pela de Jean TOURNIAC."
Tais são as sucintas, porém preciosas indicações que o Professor BORELLA nos fornece sobre o Padre Stéphane, o qual exerceu, portanto, uma influência considerável sobre uma minoria de homens de valor. O Padre Stéphane nada publicou, mas muito escreveu. Se nada publicou, foi por considerar que a publicação do que escrevera era prematura enquanto vivesse. Mas designou, para levar a cabo a publicação póstuma de seus pequenos "tratados", um de seus ouvintes habituais, François Chénique, que já era autor de um livro intitulado: "O Yoga Espiritual de São Francisco de Assis". E foi, portanto, o professor BORELLA quem escreveu o prefácio desta compilação póstuma.
Visto que aprendemos que o Padre Stéphane, "Mestre do Pensamento" de toda uma escola, atribuía importância a Jean Tourniac, é bom enumerar os principais livros deste escritor. Já notamos: "Luz do Oriente", encontrado na Coleção "Místicas e Religiões" da Dervy. Ele escreveu também: "O Simbolismo Maçônico e a Tradição Cristã" — "Princípios e Problemas do Rito Escocês" — "Diálogos sobre René Guénon" — "O Traçado de Luz" — "Vida e Perspectivas da Maçonaria Tradicional".
Em seu prefácio, o Professor BORELLA parabeniza François Chénique por ter realizado esta coletânea de escritos e agradece às Éditions Dervy por se lançarem em tal publicação. Consequentemente, não resta dúvida de que não se trata de um prefácio de cortesia. Ele próprio se vincula explicitamente a toda esta família de espíritos, da qual já podemos enumerar alguns personagens: René Guénon, Frithjof Schuon, François Chénique, Padre H. Stéphane, Jean Palou, Paul Naudon, Jean Tourniac.
UMA TEOLOGIA METAFÍSICA
O Professor BORELLA é um grande admirador da pessoa e da doutrina do Padre Stéphane. Por isso, é interessante reproduzir o que ele diz a respeito:
"Padre católico profundamente fiel à sua missa e ao seu breviário cotidianos, o Padre Stéphane praticou, preferencialmente, uma OUTRA VIA, talvez mais 'vertical'. Esta via esforça-se por reconhecer a DIMENSÃO GNÓSTICA pela qual cada forma tradicional se une ao ABSOLUTO".
O Professor BORELLA nos revela, portanto, que, embora continuasse a praticar o catolicismo, o Padre Stéphane trilhava preferencialmente "uma outra via"; podemos esquematizar assim as características dessa outra via:
- Trata-se de uma via que é comum às diversas "formas tradicionais" (ele entende por isso as diversas religiões);
- É uma via "mais vertical", ou seja, que permite atingir o objetivo mais diretamente;
- É uma via de tipo "gnóstica";
- Ela conduz ao ABSOLUTO, mas não se nos diz se este "absoluto" é Deus ou se é uma entidade complementar a Deus.
O Professor BORELLA subscreve visivelmente a esta "outra via", a esta "dimensão gnóstica" e a este "Absoluto". Não podemos, evidentemente, analisar todo o conjunto do livro do Padre Stéphane. Retenhamos apenas o resumo de sua teologia que figura no início da obra, sob a forma de um esquema, cuja reprodução é a seguinte:
Este esquema teológico exige, de imediato, pelo menos três observações:
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Primeiramente, vê-se que Deus, que é o Ser, ocupa um lugar intermediário entre, por um lado, os polos ativo e passivo que estão situados acima dele e, por outro lado, um Sobre-ser chamado HIPERTHEOS, sede dos arquétipos, das essências e dos números, que o domina; parece, portanto, que Deus depende deste Sobre-ser para sua metafísica, sua lógica e suas matemáticas.
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O "Princípio passivo", que pertence ao Incriado, define-se como substância primordial ou MATERIA PRIMA indiferenciada; esta disposição torna impreciso o limite entre o Incriado e o criado, e até mesmo o faz desaparecer; mas o desaparecimento deste limite não aparece nitidamente pelo fato de a natureza do "Princípio passivo" ser explicada em nota ao pé do quadro.
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O Incriado assim definido é repartido em três graus hierarquicamente escalonados e não tem quase nada em comum com a TRINDADE cristã, da qual, aliás, nada faz recordar. O "Deus" de que se fala aqui só tem o nome, pois não é nem a sede nem o senhor dos princípios essenciais.
Não é necessário ser um grande teólogo para constatar o parentesco existente entre este quadro-resumo da teologia do Padre Stéphane e a teologia bramânica tal como é exposta no livro de René Guénon e, em particular, em sua "Introdução ao Estudo das Doutrinas Hindus".
Apenas a terminologia difere. A entidade que é chamada de "Hipertheos" no Padre Stéphane é chamada de "Princípio Supremo" em Guénon. Os dois polos ativo e passivo da construção "stefânica" nada mais são do que PURUSHA e PRAKRITI da construção hinduísta.
Quanto à MANIFESTAÇÃO, não se teme chamá-la da mesma maneira nos dois sistemas! Sem dúvida, era preciso evitar a todo custo a palavra "Criação", que evoca diretamente a operação "EX NIHILO" da teologia cristã.
Não resta dúvida de que o Professor BORELLA adere à teologia que chamaremos de "stefano-guenoniana", já que é preciso dar-lhe um nome, ainda que provisório. Veremos em breve que ela constitui verdadeiramente o ponto de partida do grande raciocínio desenvolvido na obra "A Caridade Profanada".
Esta teologia é, na realidade, uma METAFÍSICA, pois seu "Princípio Supremo" não é mais o Deus vivo de Abraão, de Isaac e de Jacó, que é o da religião cristã, mas uma entidade totalmente abstrata.
Um novo sintoma de pertencimento do Professor BORELLA à ESCOLA ORIENTALISTA oriunda de René Guénon nos é, portanto, fornecido pelo prefácio revelador que ele escreveu para o livro "Introdução ao Esoterismo Cristão", de François Chénique.
UMA FILIAÇÃO INEGÁVEL
Encontramos no Professor BORELLA outra presunção de pertencimento a essa mesma escola nas "Notas de rodapé", que são tão interessantes no alentado livro "A Caridade Profanada".
Essas notas revelam as FONTES onde ele bebe sua inspiração. E vê-se imediatamente que essa inspiração é dupla e que o vincula simultaneamente a duas famílias de espírito:
1° Notam-se, primeiramente, referências remetendo à Escritura Sagrada — aliás, sempre muito estritas —, aos Padres e Doutores da Igreja, como São Dionísio Areopagita, Santo Agostinho, São Tomás; aos Escolásticos, bem como aos escritores místicos da escola de São Vítor; enfim, a certos escritores modernos totalmente insuspeitos de heterodoxia.
Esta primeira categoria de referências refere-se à parte católica e tradicionalista da doutrina do Professor BORELLA. Elas delimitam a ZONA na qual ele opera, mas não necessariamente o TRABALHO que ele deseja realizar nessa zona. Seja como for, denotam uma cultura sem par.
2° Mas notam-se também, e até sobretudo, referências que remetem àquela família de espírito que encontramos nas Éditions Dervy-Livres e na esfera de influência do Padre Stéphane.
Passemos rapidamente em revista os nomes de autores que retornam com mais frequência entre as referências citadas na "Caridade Profanada", e cuja doutrina o professor BORELLA nos apresenta como sendo próxima da sua e como lhe trazendo confirmações.
Frithjof SCHUON
Inúmeras notas recomendam seu livro "Regards sur les Mondes anciens" (Olhares sobre os Mundos Antigos); somos também remetidos ao importante artigo de Schuon intitulado "O Mandamento Supremo", publicado na revista Les Études traditionnelles (antiga Le Voile d'Isis), em setembro de 1965. Schuon é igualmente o autor de "A Unidade Transcendente das Religiões".(1) Há uma expressão de Schuon que o professor BORELLA gosta de repetir: "O intelecto designa uma faculdade de conhecimento NATURALMENTE SOBRENATURAL". Esta locução lhe agrada muito porque lhe permite transpor o abismo entre a natureza e a Graça e, consequentemente, aplicar à Graça, tal como à natureza, o mesmo raciocínio "metafísico".
O professor BORELLA refere-se ainda ao livro de Schuon "As Estações da Sabedoria" (1958), do qual retém esta frase: "A criação é, ao mesmo tempo, necessária e gratuita". Aqui, novamente, apressemo-nos a recordar, para não nos deixarmos extraviar por esta frase equívoca, a doutrina da Igreja: o ato criador de Deus é GRATUITO e não necessário; Deus dispõe, evidentemente, da potência criadora, mas nenhum determinismo, nem extrínseco nem intrínseco, O obriga a utilizá-la.
René GUÉNON
É citado raramente em nota pelo Professor BORELLA, mas o é frequentemente no próprio texto. Isso provavelmente decorre do fato de que Guénon não é, para ele, um inspirador episódico, mas o chefe de escola, o próprio Mestre. A doutrina de "A Caridade Profanada" está impregnada de guenonismo, com a particularidade de que BORELLA expressa com muito mais clareza o que Guénon havia dito de maneira um tanto enigmática e velada.
Léon SCHAYA
Pode-se ler uma nota elogiosa sobre seu livro "O Homem e o Absoluto segundo a Cabala" (pelas Éditions Dervy-Livres). Este autor deve ser notado porque foge um pouco à regra: de fato, no conjunto, a doutrina de Borella está mais voltada para o Orientalismo do que para o Esoterismo judeu da Cabala.
Lanza del VASTO
Curiosamente, o professor BORELLA não se refere explicitamente ao "Peregrinação às Fontes", mas apenas ao livro "A Ascensão das Almas Vivas", que parece tê-lo impressionado muito, pois a ele retorna com frequência.
Raymond RUYER
BORELLA menciona sobretudo sua obra "O Neofinalismo" (pela PUF – 1952), pois inspirou-se na cosmologia elaborada por Ruyer nesse livro. Reencontra-se neste autor uma noção bastante comum, a de CONSCIÊNCIA CÓSMICA, que BORELLA também retoma. Cita também, de Ruyer: "O Animal, o Homem e a Função Simbólica". Lembremos igualmente, do mesmo autor: "A Gnose de Princeton" e "A Religião dos Próximos Cem Séculos". É sabido que Ruyer é um homem próximo aos círculos da Nouvelle Droite (Nova Direita) e do GRECE.
Titus BURCKHARDT
BORELLA toma-lhe emprestado algumas passagens de seu livro "Alquimia" (1974) e assume como sua uma expressão deste escritor: "A Serpente simboliza a vibração sutil". Vê-lo-emos utilizar esta expressão quando expuser sua teoria cosmológica dos três mundos. É interessante notar que um livro de Michel Random, recentemente editado pela Sud-Éditions, "MAWLANA ou a dança mística dos Sufis", contém uma introdução de Burckhardt e um posfácio de Maurice Béjart, o célebre dançarino que é um sufi de obediência iraniana.
François CHÉNIQUE
É citado em nota pelas duas obras que já conhecemos dele: "O Ioga Espiritual de São Francisco de Assis" e "Introdução ao Esoterismo Cristão", mas também por uma terceira: "A Sarça Ardente" (em 1972, pelas Éditions de la Pensée Universelle).
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Concluímos a enumeração dos autores citados em sentido favorável nas referências de rodapé do livro "A Caridade Profanada". Naturalmente, não incluímos autores antigos como Mestre Eckhart. O que era necessário, de imediato, era determinar a ESCOLA CONTEMPORÂNEA, a família de espírito à qual o professor BORELLA se vincula hoje.
Este trabalho, um tanto fastidioso, era todavia necessário antes de examinarmos a doutrina de "A Caridade Profanada", para distinguirmos desde logo as duas fontes de inspiração do autor. Pois, finalmente, constatamos que ele pertence a DUAS ESCOLAS que lhe parecem COMPATÍVEIS e até aptas a serem reunidas:
1° A de sua CLIENTELA, isto é, a dos tradicionalistas católicos clássicos, dos bons praticantes medianamente instruídos em sua religião; é a clientela para a qual ele escreve, o que explica por que não publicou, como todos os seus amigos, na Dervy-Livres, mas nas Éditions du Cèdre.
2° A escola de sua INSPIRAÇÃO PROFUNDA, que chamamos de "stefano-guenoniana", à falta de nome melhor por enquanto. Mas é preciso observar bem que ele não expressa em seu livro a totalidade das ideias de sua escola profunda, mas apenas uma versão atenuada, adaptada à sua clientela.
Tendo assim situado o autor em seus fundamentos e influências, passaremos a examinar a doutrina que ele expõe em sua alentada obra de 436 páginas, "A Caridade Profanada".
RIQUEZA E COMPLICAÇÃO
"A Caridade Profanada" é um livro muito bem escrito; seu estilo é cintilante, nunca entediante. Um LIRISMO religioso banha todas as páginas e, no entanto, não se percebe nelas um verdadeiro fervor. O drama filosófico da caridade dessacralizada — que agora é preciso exaltar para recolocá-la "in divinis" — não carece, contudo, de grandeza.
O VOCABULÁRIO é extremamente rico. A terminologia clássica da teologia latina é, decerto, utilizada fielmente, via de regra. Mas ela é amplamente complementada por expressões que, sem serem errôneas, não nos são habituais. É assim que as pessoas da Santíssima Trindade são chamadas de "RELAÇÕES SUBSISTENTES" ou mesmo de "HIPÓSTASES", o que é ainda mais excepcional na linguagem corrente, mas o que parece ter, para o professor BORELLA, a vantagem de substituir os termos antropomórficos habituais por expressões de aparência metafísica.
O autor introduz também, por vezes, em seus desenvolvimentos, palavras oriundas da teologia grega: por exemplo, o Espírito Santo será chamado de DIVINO PNEUMA.
Quanto aos neologismos, forjados pelo próprio professor BORELLA ou tomados de empréstimo de seus autores favoritos, eles são numerosíssimos. Ele exprime, preferencialmente, as coisas de Deus em termos filosóficos, para conferir-lhes um tom menos devocional e, portanto, mais crível.
Dar-se-á ao Verbo Encarnado o nome de CENTRO SUPREMO, o que permitirá fazê-lo entrar em raciocínios de tipo geométrico. É assim igualmente que, acima do Deus existente, falar-se-á de um ABSOLUTO que receberá o nome de HYPERTHEOS ou mesmo de METACOSMOS.
Essa riqueza de vocabulário é exuberante e luxuriante? De modo algum. É uma riqueza calculada e controlada. Par a par com essa riqueza nos termos, notar-se-á no professor BORELLA o talento de repetir as mesmas noções com um número incrível de variantes. Mas percebe-se rapidamente que, agindo assim, ele COMPLICA questões que eram simples antes de ele se apoderar delas, e que acaba por torná-las incertas e obscuras.
Ele põe assim em questão dogmas que já foram definidos há muito tempo. E pergunta-se invencivelmente se ele não deseja, em última análise, que sejam doravante definidos de modo diverso do que são hoje.
A abundância controlada do vocabulário, a extrema variedade de facetas sob as quais o raciocínio é apresentado, servem de meios para uma manobra muito bem engendrada. É-se logo atingido por uma ALTERNÂNCIA existente entre dois tipos de parágrafos:
1º Parágrafos claros e que exprimem uma doutrina segura, à qual não se tem nenhuma crítica a fazer;
2º Parágrafos obscuros, misteriosos, onde as noções se atropelam com uma densidade extraordinária e onde se percebem indubitavelmente subentendidos e uma vontade surda de desvirtuamento.
Mas, refletindo bem, essa alternância se explica perfeitamente. Ocorre que o professor BORELLA encontra-se em uma posição muito difícil. Ele quer fazer admitir pela clientela que escolheu uma teologia gnóstica e hinduísta da qual essa mesma clientela aprendeu precisamente, há gerações, a desconfiar.
É preciso, portanto, que ele atenue o máximo possível as diferenças entre a doutrina penetrante e a doutrina penetrada. É preciso que ele encontre GNOSE no âmago do catolicismo, e é preciso que encontre catolicismo no âmago das doutrinas hindus.
Pois bem! A experiência do professor BORELLA prova justamente que isso não é tão simples e que é, inclusive, laborioso.
É verdade que ele não é o primeiro a realizar esse trabalho. Toda a escola de pensamento maçônico já aprofundou muito esse problema, e a escola guenoniana em particular. Reconheçamos, porém, que, nesse tipo de empreendimento onde houve precursores de destaque, o professor BORELLA é um MESTRE.
Parece que se pode validamente compará-lo a Teilhard de Chardin, do qual possui, aliás, o estilo encantador. Mas enquanto Teilhard destinava-se a uma clientela PROGRESSISTA, devido às suas teorias da evolução (portanto, da revolução), para favorecer a criação da Democracia Cristã na França, BORELLA — a quem uma celebridade análoga é verossimilmente prometida — é feito para um público tradicionalista e para uma manobra pseudo-reacionária.
Aliás, o exame de "A Caridade Profanada", ao qual chegamos, confirmará essa impressão de uma doutrina que se tem a vontade deliberada e insistente de SOBREPOR ao catolicismo romano, como sendo a sua QUINTESSÊNCIA esotérica.
Não teremos meios de seguir, de uma ponta a outra, ao longo das 436 páginas do livro, as etapas da dessacralização e, depois, da ressacralização da Caridade. Devemos contentar-nos em apreender os TEMAS MAIORES do professor BORELLA e compará-los com os temas correspondentes da Fé católica. Examinaremos aqui quatro desses temas maiores: a Tripartição, o Absoluto metafísico, a Divinização final e a Gnose do professor BORELLA.
Mas restariam muitos outros temas sugestivos a estudar, o que deverá ser feito mais tarde, como por exemplo: a Alquimia espiritual, a Materia prima, o Andrógino, etc.
A TRIPARTIÇÃO
A Tripartição é a teoria segundo a qual existiriam TRÊS MUNDOS. É uma doutrina muito antiga que o professor BORELLA retoma e defende em "A Caridade Profanada", mas que não lhe é exclusiva.
Antes de expor esta teoria, convém recordar o dogma da Fé católica concernente à composição geral do Universo. Ele está resumido e formulado no Símbolo de Niceia-Constantinopla, cantado na Missa dominical: "Credo COELI et TERRAE, VISIBILIUM OMNIUM et INVISIBILIUM". O Céu e as coisas invisíveis constituem o mundo dos ESPÍRITOS, enquanto a Terra e as coisas visíveis constituem o mundo dos CORPOS.
Esta é uma "verdade de fé". Sabemos, além disso, que estes dois mundos se correspondem e que possuem entre si uma ANALOGIA. O mundo dos corpos é a imagem do mundo dos espíritos. Diz-se que é o seu SÍMBOLO. Lê-se por vezes esta expressão muito justa: "O que está embaixo é como o que está em cima". Mas não se cogita, na doutrina da Igreja, um TERCEIRO MUNDO. Existem apenas dois; por isso diz-se que a Igreja ensina uma cosmologia DUALISTA.
O professor BORELLA não se contenta com esta cosmologia dualista. Ele crê na existência de TRÊS MUNDOS, aos quais chama: o mundo espiritual, o mundo sutil e o mundo corporal.
O "mundo espiritual" compreende DEUS, os ANJOS e os espíritos humanos. O homem, de fato, possui um SPIRITUS, isto é, um intelecto (em grego: Noûs).
O "mundo sutil" compreende as forças CÓSMICAS SUTIS, os DEMÔNIOS e as almas humanas. O homem possui, além do seu "spiritus", uma ANIMA (em grego: Psyché).
O "mundo dos corpos" compreende as coisas materiais e os corpos humanos (em grego, o corpo humano é o "soma").
Nesta doutrina, o homem é, portanto, constituído de três elementos que não pertencem ao mesmo mundo, visto que seu "SPIRITUS" pertence ao mundo espiritual, sua "ANIMA" pertence ao mundo sutil e seu "SOMA" pertence ao mundo dos corpos.
A Tripartição do Universo reflete-se, assim, na constituição do homem. Ela é resumida no livro "A Caridade Profanada" por um gráfico que contém: uma ESFERA representando o mundo espiritual, um disco equatorial representando o mundo sutil e um diâmetro representando o mundo corporal.
Vê-se que o "mundo sutil", assim figurado por um "plano circular" (ou disco), possui uma face superior, que representa o mundo sutil superior, e uma face inferior, que representa o mundo sutil inferior.
Indica-se, na legenda do esquema, que os DEMÔNIOS e as FORÇAS DIABÓLICAS pertencem ao MUNDO SUTIL INFERIOR e são representados pela parte inferior do disco.
A Tripartição defendida pelo professor BORELLA e o dualismo, que é a doutrina da Igreja, acarretarão evidentemente consequências distintas no que concerne ao lugar da alma no composto humano e ao estatuto respectivo dos anjos e dos demônios.
I — O composto humano é constituído, na tripartição, por três partes: corpo, alma e espírito; no dualismo, por apenas duas partes: alma e corpo.
Contudo, é preciso saber que a distinção entre SPIRITUS e ANIMA é perfeitamente conhecida na Igreja, mas nela é definida de modo diverso do da tripartição. O mais célebre dos textos que impõem esta distinção é o "Magnificat": "Magnificat ANIMA mea Dominum, et exultavit SPIRITUS meus in Deo salutari meo".
Este é o mais célebre desses textos, mas não o único. Ora, apesar da existência destas duas palavras diferentes, o que inclinaria a pensar que ela distingue também duas substâncias diferentes, a Igreja sempre decidiu a favor do DUALISMO, ensinando que o homem é composto de um corpo mortal e de uma alma imortal, designando "spiritus" e "anima" não como duas substâncias distintas pertencentes a dois mundos distintos, mas como duas FUNÇÕES diferentes de uma SÓ e MESMA SUBSTÂNCIA ESPIRITUAL.
Ocorre, porém, que uma circunstância confundiu as coisas. Na linguagem corrente, tomou-se a parte pelo todo: o conjunto da substância espiritual única ("anima" + "spiritus") é designado pelo mesmo nome de uma de suas partes e chama-se "alma"; é um fenômeno frequente na linguística: assim como "humanidade" designa simultaneamente homens e mulheres, não havendo um nome genérico para designar o conjunto dos dois.
II — O Estatuto dos Anjos e dos Demônios. A DEMONOLOGIA será muito diferente no dualismo católico e no sistema da tripartição.
A — Na Demonologia da Igreja Católica, os anjos e os demônios são todos puros espíritos que pertencem à MESMA NATUREZA ANGÉLICA. Os demônios nada mais são do que anjos expulsos do Céu após uma prova, uma prevaricação, um julgamento e uma exclusão. Foram confinados nas "trevas exteriores" não em razão de uma suposta natureza mais grosseira, mas em razão de sua culpabilidade!
Nenhum dos nove coros dos anjos foi poupado pela contagiante rebelião luciferiana, de sorte que se encontram, entre os demônios, grandes serafins e grandes querubins de uma inteligência prodigiosa. A linha que separa os anjos bons dos maus desce VERTICALMENTE e divide as hierarquias angélicas em dois campos inimigos, tão "espirituais" um quanto o outro. Um anjo caído é tão "espiritual" quanto um anjo fiel, pois sua queda não modificou sua natureza.
E para onde os anjos réprobos atraem o homem? Atraem-no para o estado em que eles próprios se encontram, isto é, o estado de ETERNA REPROVAÇÃO. Tais são as realidades INVISÍVEIS do mundo dos espíritos. Os cristãos conhecem estas realidades graças ao magistério da Igreja, que goza da inspiração e da assistência do Espírito Santo.
B — Na Demonologia da Tripartição, adotada pelo professor BORELLA e haurida dos gnósticos e hinduístas, conhece-se evidentemente a existência dos espíritos auxiliares e dos espíritos nefastos, porque uns e outros se manifestam esporadicamente desde o começo do mundo e não se pode ignorar estas duas classes de espíritos mencionadas por todas as tradições. Mas, sendo uma doutrina estranha à Igreja, não é iluminada sobre as realidades invisíveis do mundo dos espíritos, que só podem ser conhecidas por uma autêntica revelação.
Na tripartição, os anjos e os demônios não pertencem ao mesmo mundo, não são da mesma NATUREZA.
Todos os anjos fazem parte do mundo "espiritual"; ora, tudo o que é espiritual é reputado bom, pois atrai para o alto. Os demônios, ao contrário, fazem parte do mundo "sutil", isto é, semimaterial, visto que nele também se encontram energias cósmicas sutis. Ora, tudo o que é material é reputado mau para o homem, pois atrai para baixo.
Assim, a linha entre os anjos e os demônios corre horizontalmente, deixando no topo os anjos bons do mundo espiritual e localizando embaixo os demônios, maus por serem semimateriais.
E para onde os demônios, assim definidos, atraem os humanos? Atraem-nos para o estado em que eles próprios se encontram, ou seja, para o estado semimaterial, portanto baixo e mau. Mas é um estado que supostamente permanece NATURAL e que não é, portanto, apresentado como ETERNO. Diz-se estar submetido ao ritmo geral e aos ciclos da natureza universal.
Naturalmente, esta doutrina da Tripartição nada altera na verdadeira composição e na verdadeira natureza do mundo angélico e do mundo infernal. Simplesmente não os descreve como são na realidade. E arrastará em seu irrealismo aqueles que organizarem VIAS CONTEMPLATIVAS a partir de seus postulados.
Ora, qual é o papel das vias contemplativas senão colocar em contato com o mundo dos espíritos? Vias contemplativas reguladas segundo as doutrinas da tripartição certamente alertarão o homem contra os demônios definidos como seres sutis, semimateriais, capazes de estimular neles a "psyché". O professor BORELLA gosta de repetir que "a serpente simboliza as vibrações do mundo sutil". Neste ponto, há, pois, certa semelhança entre as duas doutrinas que comparamos.
Mas estes métodos de meditação orientarão o homem para o mundo espiritual sem qualquer reserva, sem qualquer desconfiança, em virtude do princípio de que tudo o que é espiritual atrai para o polo benéfico da "Manifestação". Ignorarão que existem grandes demônios raciocinadores e LOGÍSTICOS IMPLACÁVEIS que atraem para os mais altos cumes do espírito, mas do espírito de revolta, e que estes logísticos são hábeis em provocar o diálogo. O que se pode esperar de vias contemplativas reguladas com base em tal ignorância?
O professor BORELLA apresenta a Tripartição como uma doutrina correntemente admitida pelos autores eclesiásticos antigos e modernos. E ele consegue, de fato, dar essa impressão; mas como o faz? Escreve como se esta questão nunca tivesse sido resolvida e como se ainda estivesse em discussão, o que lhe permite expor as opiniões divergentes de apologistas e dos Padres: é, aliás, um procedimento que ele utiliza com frequência.
O ABSOLUTO METAFÍSICO
O professor BORELLA dedica numerosas páginas ao tratamento da Trindade divina, no seio da qual ele coloca, com razão, aliás, a origem primeira da caridade. É bem exato, com efeito, que o amor do homem por Deus e pelo próximo é o reflexo do amor de Deus por Si mesmo.
Mas ele fala da Trindade de uma maneira que não nos é habitual. Ele utiliza sobretudo termos ABSTRATOS, o que corresponde, de sua parte, a um espírito de sistema; pois, colocando a metafísica acima da Religião, sua tendência é expor a Religião em termos metafísicos.
Ele abandona, portanto, o quanto possível, o vocabulário tradicional da teologia, que é de inspiração antropomórfica (Pai, Filho, Pessoa, Geração, Adoção, Realeza, Resgate, Concepção...) para adotar expressões NEUTRAS e ABSTRATAS, que lhe parecem de um alcance mais geral.
Para designar Deus, ele escreverá preferencialmente: a Divindade, a Deidade, o Princípio ou, melhor ainda, o ABSOLUTO. E dirá, por exemplo:
"Podemos representar o PRINCÍPIO tanto por um ponto, CENTRO TRANSCENDENTE da esfera cósmica, quanto por uma ESFERA INFINITA que envolve por todos os lados o ponto cósmico". (Página 353)
Notemos de passagem estas duas imagens invertidas: na primeira imagem, o ponto central representa o "Princípio" e a esfera representa o Universo; na segunda imagem, ocorre o contrário. Concluímos naturalmente que, se se pode inverter a imagem dessa forma, é porque a posição relativa do Princípio e do Universo são intercambiáveis e, portanto, eles se confundem. Trata-se de um ponto doutrinário que merecerá ser estudado separadamente. Fá-lo-emos quando examinarmos a IMANÊNCIA nas teses do professor BORELLA.
Em "A Caridade Profanada", a vida interior da Trindade é descrita como um MECANISMO METAFÍSICO. Disso resulta uma impressão de grande lógica, mas, ao mesmo tempo, a impressão de um IMPLACÁVEL DETERMINISMO. A teologia trinitária, ou melhor, a metafísica trinitária do professor BORELLA deverá ser objeto de um estudo aprofundado quanto às suas fontes e consequências, estudo este que ultrapassa o âmbito deste trabalho.
O que é preciso pôr imediatamente em evidência é a noção de um ALÉM DE DEUS. Esta noção retorna com muita frequência sob sua pena, sob diversas formas. Existe, para ele, "UM ABSOLUTO de DEUS, ALÉM mesmo das Realidades trinitárias".
Uma questão se impõe então inevitavelmente ao espírito: como se pode ir "além das Realidades trinitárias", sobretudo tratando-se de encontrar o ABSOLUTO?
Mas quem faz esta pergunta prova que não compreendeu bem a teologia do professor BORELLA, do padre Stéphane e de René Guénon. Recordemos, com efeito, que no esquema do padre Stéphane, acima de Deus, que é o SER por excelência, reside o HYPERTHEOS, que é a ESSÊNCIA ABSOLUTA.
Este "hypertheos" não é uma pessoa viva; é um conjunto de entidades, um conjunto de princípios, de arquétipos, de ideias e de números. E é este conjunto que nos é apresentado como constituindo um ABSOLUTO, como o ABSOLUTO; e, em relação a este absoluto metafísico, o Deus trinitário é apenas RELATIVO, visto que é diferenciado.
Ora, no professor BORELLA, o hypertheos metafísico não é um tema meramente lírico ou episódico. É um princípio inteiramente essencial que domina toda a sua obra. Eis, por exemplo, uma passagem onde o Universo é descrito como uma imensa corte celeste:
"Eis, portanto, a Terra e o Céu convidados a celebrar o esplendor do Pai. Eis a imensidão cósmica dos homens e das coisas, abraçada no círculo infinito do Espírito Santo, reunida em torno do Cordeiro místico. Eis os exércitos celestes em torno da Virgem coroada. Eis o TRISÁGION eterno que sobe em direção à TEARQUIA SOBRE-ESSENCIAL". (página 364) (2)
Tentamos compreender esta última frase. O "Triságion" é, evidentemente, o "Três vezes Santo", segundo a expressão da Igreja grega, isto é, a Trindade. Ora, eis que esta Trindade, não se bastando mais a si mesma, sobe em direção a algo mais alto que ela. E para onde ela sobe? Para a "Tearquia sobre-essencial", isto é, para essa superdivindade que está acima do SER e que se encontra no domínio da pura ESSÊNCIA.
Esta "Tearquia sobre-essencial" é, portanto, a mesma coisa que o Hypertheos do padre Stéphane e que o "Princípio supremo" de René Guénon. Tal é o ABSOLUTO metafísico do professor BORELLA, que não está contido em Deus, mas situado "ALÉM DE DEUS".
Em suma, esvaziou-se o INFINITO para fora da Trindade. E não se deixa subsistir na Trindade senão o RELATIVO — um relativo sobre-eminente, por certo, mas ainda assim um relativo, já que, para encontrar o ABSOLUTO, a Trindade é obrigada a sair de si mesma.
A DIVINIZAÇÃO FINAL
A doutrina dos "novíssimos" (ou fins últimos) no professor BORELLA também mereceria um estudo muito aprofundado. Hoje, notaremos apenas alguns pontos essenciais que nos colocarão no rastro das fontes em que ele bebe e de suas intenções transformadoras.
Observaremos, no conjunto de sua exposição, aquela RIQUEZA de expressão de que já falamos e que aqui é particularmente sensível. Riqueza que acaba por complicar as coisas simples e torná-las obscuras.
Notaremos, em seguida, que em "A Caridade Profanada" nunca se ouve falar nem de juízo, nem de danação. A reprovação eterna não é cogitada e, por essa AUSÊNCIA de REPROVAÇÃO, a doutrina do professor BORELLA assemelha-se às concepções orientais dos CICLOS CÓSMICOS.
As concepções cíclicas fundamentam-se na ideia de que o Universo está sujeito a recomeços regulares e indefinidos. Excluem, portanto, qualquer noção de recompensas eternas e de castigos eternos. O homem só escapa da "RODA das COISAS" se conseguir dissolver-se no Princípio Supremo, porque o Princípio Supremo é INDIFERENCIADO e, portanto, imutável.
O livro do professor BORELLA vai nos sugerir que, afinal, a VISÃO BEATÍFICA da doutrina católica nada mais é do que a imersão da alma na "Suprema Deidade". Mas ele no-lo sugere com muitas precauções, de modo que sua doutrina dos NOVÍSSIMOS não sobressai nitidamente e, em todo caso, não aparece em uma leitura superficial.
Seu raciocínio começa de maneira clássica. A caridade, quando não profanada, mas ressacralizada, conduz o homem "in divinis", onde ele goza da VISÃO BEATÍFICA. E ele no-lo diz em conformidade com a doutrina católica mais autêntica. A expressão "visão beatífica" é repetida várias vezes, em um sentido perfeitamente ortodoxo. Pode-se pensar, portanto, em uma leitura rápida, que o professor BORELLA adere sem reservas à doutrina católica dos fins últimos.
Infelizmente, o livro não contém apenas passagens ortodoxas; o que tomávamos no início pela "Visão Beatífica" clássica dá lugar, pouco a pouco, a um processo de divinização, a uma "eterna passagem do relativo ao Absoluto", a uma IDENTIFICAÇÃO SUPREMA que nos cabe agora examinar.
Mas, antes de descrever esse processo, recordaremos a doutrina católica sobre esta questão, a fim de manter presente no espírito a doutrina exata. Sabe-se que a Visão Beatífica é a recompensa dos eleitos. Consiste em ver a DEUS FACE A FACE, ver a Deus TAL COMO ELE É e não mais apenas "através de um espelho", como a fé nos permite entrever na Terra.
A Visão Beatífica é também uma PARTICIPAÇÃO na VIDA DIVINA. O homem passa a um estado de maior proximidade com Deus. A transformação que ele sofre chama-se GLORIFICAÇÃO.
Em todos os tempos, colocou-se a questão de saber se, nesse novo estado, a frágil personalidade humana não desapareceria, como que queimada pela incandescência divina. A "participação" beatífica não seria uma DIVINIZAÇÃO total?
Por vezes expressou-se essa questão da seguinte maneira: "A visão beatífica é um fenômeno CRIADO ou INCRIADO?". E São Tomás resumiu a opinião comum dos Doutores e do Magistério respondendo a essa pergunta:
"A visão beatífica é INCRIADA em seu objeto, que é Deus, mas é CRIADA em seu sujeito, que é o homem criado".
São Tomás deixa, portanto, subsistir a DUALIDADE do objeto divino e do sujeito humano. O eleito "participa" da vida divina, mas não recebe a Deus em Sua totalidade. Ele não se confunde com Deus. Uma excelente fórmula para descrever a visão beatífica é a de FUSÃO SEM CONFUSÃO. Há "fusão" porque a luz divina, ou antes, a presença divina, penetra a pessoa do eleito, que tem a sensação de "PERDER-SE EM DEUS". Mas não há "confusão", pois a pessoa do eleito conserva sua coesão. Há sempre uma imensidade de Deus na qual o eleito não poderá penetrar e que lhe permanecerá misteriosa. "Deus não dá a Sua glória".
Um dos argumentos que se apresentam a favor da manutenção desta DUALIDADE é a conservação da caridade no Céu; as outras duas virtudes teologais desaparecem por falta de objeto. A virtude da FÉ não tem mais razão de ser exercida, pois vemos "face a face". E a virtude da ESPERANÇA também não tem mais objeto, visto que possuímos o que esperávamos.
Se a Caridade permanece, como diz São Paulo, é precisamente porque o seu objeto divino e o seu sujeito humano também permanecem. Tal é, resumida em linguagem corrente, a teologia da Igreja referente à visão beatífica.
O professor BORELLA não se satisfaz com esta teologia. Naturalmente, ele a admite no ponto de partida, mas vai transformá-la, e essa transformação ocorre em dois planos:
1° A PARTICIPAÇÃO na vida divina, que constitui a felicidade dos eleitos, tornar-se-á aos poucos uma verdadeira DIVINIZAÇÃO. Ele começa, portanto, citando São Tomás: "A visão beatífica é CRIADA quanto ao seu sujeito, que é o homem criado". Mas a essa citação de São Tomás, ele acrescenta imediatamente esta retificação: "Esta criação da Beatitude DEIFICANTE no homem é uma nova criação". Nota-se a acentuação no sentido da "Deificação". Mais adiante, ele especifica que essa Deificação põe fim à ILUSÃO SEPARATIVA.
Ele pensa, de fato, que no estado de natureza o homem vive na ilusão de sua separação de Deus. É uma ilusão porque, na realidade, ele não está separado de Deus, que lhe é imanente. E quando a Caridade o tiver finalmente conduzido para junto de Deus, e uma criação nova o tiver divinizado, a ilusão separativa será abolida.
Vê-se que, aqui também, o professor BORELLA empenha-se em reduzir, e até suprimir, a distância existente entre o homem e Deus, entre a criatura e o Criador.
2° A divinização do homem, na visão beatífica, incidirá ainda em um plano mais elevado. São Tomás, ali também, está no ponto de partida de seu raciocínio, mas já não está no ponto de chegada.
São Tomás especifica que a visão beatífica, operação da Graça, comunica-nos a vida divina em um grau muito mais intenso do que ela se nos comunica na terra pelo simples amor ao Criador; e ele diz o seguinte:
"A Graça abre-nos à Natureza divina tal como ela é em si NO SEIO da insondável Trindade". (Dicionário de Espiritualidade).
E o professor BORELLA comenta imediatamente esta proposição tomista, modificando-a notavelmente. Ele escreve: "E, portanto, ela (a Graça) abre-nos ao ABSOLUTO de Deus ALÉM mesmo das Relações trinitárias". (página 444). Ele faz, assim, a frase que cita sofrer duas modificações:
- A expressão "A Natureza divina" é substituída por "o Absoluto de Deus", o que introduz uma distinção, em Deus, entre o relativo e o absoluto.
- A fórmula "NO SEIO da insondável Trindade" é substituída pela fórmula "ALÉM mesmo das relações trinitárias", o que reintroduz a noção de um ALÉM de DEUS, que já havíamos encontrado anteriormente. Noção esta que ele confirma e até acentua num parágrafo seguinte, quando, explicando-nos que é a Caridade que opera este mistério da deificação, especifica: "A Caridade que é a substância deste mistério em todos os graus... até a aspiração de amor que sopra eternamente entre o Pai e o Filho e pela qual a RELATIVIDADE das hipóstases trinitárias floresce e se unifica no seio mesmo do ABSOLUTO". (página 149)
Tomando, portanto, como ponto de partida uma fórmula tomista que mantém, na participação beatífica na vida divina, a DISTINÇÃO entre o OBJETO divino e o SUJEITO humano, o professor BORELLA, após pequenas e insensíveis transformações, faz-nos assistir a "imersões" simultâneas: a IMERSÃO do eleito na Trindade pela beatitude DEIFICANTE e a IMERSÃO da Trindade no ABSOLUTO pela reabsorção das Relações trinitárias.
Em suma, o eleito é arrastado para o Absoluto pelo próprio movimento das Relações trinitárias (isto é, das pessoas divinas) que tendem a unificar-se. Mas este Absoluto não é interior a Deus, pois nos repetem que ele está ALÉM de Deus (o que a noção de HYPERTHEOS já nos havia ensinado).
Esta conclusão é, pois, muito distante da doutrina católica, e compreende-se que o professor seja obrigado a exprimir-se com muitos matizes, muita ciência e até que envolva suas expressões em certa obscuridade. Pois ele chega aqui a um ponto em que não pode mais evitar a censura de preparar o eleito para um verdadeiro NIRVANA.
E, aliás, ele não ignora esta objeção, pois responde a ela. Mas responde sem pronunciar a palavra "NIRVANA", cuja mera sonoridade seria infeliz e despertaria aproximações precisas demais. Ele se sente, aliás, bastante à vontade para responder a essa objeção, pois ele próprio não crê "que a criatura seja inteiramente reabsorvida na homogeneidade de um ABSOLUTO MACIÇO" (página 149). Ele não crê na "identificação MACIÇA", que chama também de "identificação MONISTA" (pois tal é o fim último nas doutrinas que fazem do Criador e da criatura uma só e mesma substância).
E não crê nela porque não é "monista". Para ele, o eleito que goza da visão beatífica não se "identifica" com o DEUS-COSMOS. Por isso pode dizer que não admite a "identificação MACIÇA", ou seja, o afogamento no Grande TODO.
Mas então, qual é, após todas essas circunlocuções, sua doutrina positiva? O que ele preconiza é, antes que uma "imersão", uma SUBLIMAÇÃO naquela zona ideal que transcende todas as determinações criadas e que ele chama de O HYPERTHEOS. Tal é, de resto, estritamente, a doutrina de René Guénon, o chefe da escola, que também não se sente panteísta no sentido corrente da palavra e se defende disso vigorosamente.
Como o professor BORELLA fará para que seus leitores católicos tradicionais aceitem esta SUBLIMAÇÃO? É preciso reconhecer que as explicações do professor BORELLA sobre este ponto são obscuras. É apenas por meio de um trabalho de aprofundamento que se consegue compreender o que ele diz, e como seu pensamento profundo é coerente, acaba-se por captá-lo.
Para permanecer crível diante dos católicos, ele não deve abandonar completamente o DUALISMO. Esta é uma precaução essencial. Assim, após ter sustentado, na página 406, que "o intelecto, nesta visão (beatífica), é transformado no próprio Deus", ele declara-se, na página 419, hostil a todas as teorias "que negam a IRREDUTÍVEL DUALIDADE do Criador e da criatura".
Ele vai, portanto, debater-se para tentar conciliar os dois pontos de vista. Sem manter a DUALIDADE em si mesma, ele contudo não a destruirá. Como? Ele irá apenas TRANSCENDÊ-LA. Diz ele: "NEM DISTINÇÃO DUALISTA, NEM IDENTIFICAÇÃO MACIÇA" (página 408).
Tal é a posição "transcendente" que ele adota e, no último parágrafo do livro, especifica seu pensamento da seguinte forma: "Há a verdade da SUPREMA DEIDADE que, estando ALÉM da dualidade como da unidade, as contém e as concebe em si de maneira IMACULADA, de sorte que apenas nela o relativo e o criado são o que devem ser". (página 419).
Resta-nos compreender o que significa a expressão "de maneira imaculada". Para isso, precisamos remontar muito mais atrás no livro, onde o professor BORELLA deu o seu sentido: "imaculado" significa "indiferenciado", pois toda diferenciação é uma falha, diz ele. E a Virgem Maria é "imaculada" porque provém do mais profundo do Absoluto divino, onde nada é diferenciado. (3)
Se, portanto, na frase que acabamos de citar, substituirmos "imaculada" por "indiferenciada", obtemos isto: "A Suprema Deidade concebe a DUALIDADE e a UNIDADE de uma maneira INDIFERENCIADA". Concluímos imediatamente que, nesta Deidade, "o relativo e o criado não são o que devem ser" senão quando desapareceram. Com efeito, se são contidos e conquistados de uma maneira "indiferenciada", é que desapareceram como tais e se dissolveram no Absoluto. O mesmo ocorre com o infeliz eleito.
Mas então, quando lemos atentamente o texto denso e complexo do Professor BORELLA, que diferença encontramos entre a IDENTIFICAÇÃO MACIÇA que ele rejeita e a IDENTIFICAÇÃO IMACULADA que ele ensina?
Há, talvez, uma diferença nas modalidades, mas não a há no resultado, que é o mesmo:
- A identificação maciça das doutrinas monistas e panteístas é um AFOGAMENTO no Grande Tudo: há identificação "à Massa";
- Enquanto a identificação "imaculada" é uma EVAPORAÇÃO na Suprema Deidade (o "Princípio Supremo" de René Guénon).
Nos dois casos, a divindade torna-se um monstro que devora seus filhos sob o pretexto de exaltá-los.
Somos forçados a constatar que, ao ouvir o professor BORELLA falar dos Novíssimos, encontramo-nos muito distantes da "Casa do Pai" e do "Reino dos Céus", cuja "Boa Nova" o Evangelho nos anunciava.
A GNOSE DO PROFESSOR BORELLA
A palavra "GNOSIS" é um termo grego que significa "CIÊNCIA". Encontramo-la frequentemente na Sagrada Escritura e, sobretudo, no Novo Testamento, cujos livros foram quase todos escritos em grego. Também é encontrada correntemente nas obras doutrinárias dos Padres Gregos, o que é compreensível, visto que não possuíam outra palavra além de "gnose" para dizer "ciência".
Existe, de fato, uma CIÊNCIA DA FÉ. Esta ciência religiosa é o exercício legítimo da razão aplicada às coisas da Religião. É uma necessidade do espírito esclarecer e coordenar, na linguagem humana, as grandes noções fornecidas pela Revelação na linguagem misteriosa dos "Escritores Sagrados". Esta ciência religiosa é a PHILOSOPHIA KATA KRISTOS, a "Filosofia segundo o Cristo", que os Padres Gregos chamam igualmente de "gnosis" e que nada mais é do que o estudo aprofundado da Escritura e dos Dogmas.
Mas é preciso recordar hoje que a palavra GNOSIS jamais passou para os latinos nem para a língua latina. Não a encontramos nem nas traduções da Sagrada Escritura, nem nos textos doutrinários.
Nos textos da Escritura, ela foi sempre traduzida por SCIENTIA. É assim que São Jerônimo, logo nos primeiros versículos da Vulgata, escreve: "Lignum scientiae boni et mali" (a Árvore da Ciência do bem e do mal). No Novo Testamento, ele dirá, por exemplo: "O Verbo é a Ciência (SCIENTIA) eterna do Pai". Ou ainda, esta reflexão de Nosso Senhor: "Vós tomastes a chave da ciência (SCIENTIA, no texto); vós mesmos não entrastes e impedistes os outros de entrar". Poder-se-ia multiplicar os exemplos. Jamais se encontra "gnosis" na Escritura traduzida para o latim.
Nos tratados doutrinários, ocorre o mesmo. Encontram-se, conforme os autores, SCIENTIA e PHILOSOPHIA, como acabamos de ver, mas também COGNITIO, que significa "conhecimento". Outra palavra é, por vezes, empregada no mesmo sentido: SAPIENTIA, que significa "Sabedoria", mas que é mais frequentemente reservada a uma das perfeições do Pensamento divino. Em resumo: não há "gnosis" entre os latinos. A "ciência religiosa" é designada por outro termo.
Entretanto, ocorreu um fenômeno histórico que veio turvar o sentido inicial do termo "gnosis". Ao lado da ciência religiosa ortodoxa, criou-se, durante os séculos II e III, uma ciência religiosa HETERODOXA que se separou da Fé para realizar um amálgama das doutrinas do mundo antigo — doutrinas judaicas e pagãs —, aglutinadas com dogmas recentemente oriundos da Revelação evangélica.
Os artífices e adeptos desta ciência religiosa heterodoxa faziam-se chamar de "os Sábios", isto é, os "Gnósticos". Pois, "sábios", eles certamente o eram em certos aspectos. Por que "os gnósticos"? Porque essa famosa ciência heterodoxa grassou primeiro em terras de língua grega e, sobretudo, em Alexandria, de modo que a ciência desses sábios chamou-se, naturalmente, a "GNOSE".
Homens da Igreja como São Clemente de Alexandria e Orígenes, ambos alexandrinos e de língua grega, tiveram de lutar contra essa falsa ciência, opondo-lhe a verdadeira ciência religiosa cristã que, em sua língua grega, não podiam nomear de outra forma senão a VERDADEIRA GNOSE.
De sorte que a Igreja Grega não pôde escapar da rivalidade de DUAS GNOSES: a verdadeira e a falsa.
Isto é algo que não aconteceu na Igreja Latina, onde as duas ciências rivais portaram imediatamente NOMES DIFERENTES. Pois, certamente, o território latino não escapou ao contágio e a falsa ciência ali também se espalhou, combatendo a "scientia" da ortodoxia. Mas ela foi, desde o início e definitivamente, designada por seu nome grego e inicial de GNOSE, que conservou desde então, sendo seus adeptos chamados de "gnósticos". Tal foi a situação na Igreja Latina.
E tal ainda é a situação hoje na Igreja Latina. Mas talvez não por muito tempo. Pois a escola maçônica jamais abandonou nem a palavra gnose, nem a coisa em si. E ela gostaria de obter da Igreja a REABILITAÇÃO do espírito gnóstico, como acaba de obter a REABILITAÇÃO do espírito protestante, desembocando assim no ecumenismo. Mas é preciso reconhecer que, até o presente, seus esforços foram vãos e que o simples termo "gnose" ainda dispara um salutar reflexo de temor entre os católicos tradicionalistas.
É possível que o professor BORELLA tenha sucesso, graças ao seu talento e aos seus apoios, onde a Maçonaria falhou até agora. O que ele pretende, de fato? Ele gostaria que se desse doravante, à Gnose histórica dos séculos II e III, o nome de GNOSTICISMO, a fim de liberar a palavra "gnose" para designar a "ciência religiosa" em geral, como ocorre na Igreja Grega. Ele próprio dá o exemplo de uma ampla utilização, como veremos nesta passagem de "A Caridade Profanada":
"... Os dois textos de São Paulo mais essenciais sobre a caridade terminam precisamente com a afirmação da GNOSE DIVINA. Sem dúvida, há uma GNOSE que envaidece, mas pela caridade obteremos a GNOSE do PLEROMA divino e, pela caridade, conhecerei como sou conhecido, isto é, a GNOSE que terei de Deus será a GNOSE mesma que Deus tem de mim (página 240)."
Depois, na página 241, ele continua:
"Significa isto que tal é a GNOSE divina à qual o amor nos conduz? Saber que Deus é Amor? Certamente. Mas é preciso dizer mais. Se a caridade é a porta da GNOSE, é porque no próprio Deus o amor é a porta da GNOSE, ou ainda, é porque Deus não se revela e não se conhece senão através do Seu Amor. Ele se conhece no Filho, GNOSE SUPREMA, pelo Espírito Santo, Supremo Ágape" (página 241).
É necessário agora investigar qual é a DEFINIÇÃO que o professor BORELLA dá a esta palavra. Ouçamos esta definição:
"Hoje, se se tem o direito de ser mil vezes marxista, não se tem o direito de ser uma única vez gnóstico".
"A palavra GNOSE, decalque do grego 'gnosis', significa conhecimento. Se é útil empregá-la, é porque não se trata de um conhecimento comum, mas de um CONHECIMENTO SAGRADO. E ela é sagrada não apenas em seu OBJETO, que é a divina ESSÊNCIA, mas também em seu MODO, que é uma participação no conhecimento que Deus tem de Si mesmo" (página 387).
A gnose do professor BORELLA é, portanto, um conhecimento obtido pela via mística. Ele não faz mistério disso e até insiste:
"Como se recusa hoje todo conhecimento místico de Deus, reduz-se a teologia a um conhecimento puramente RACIONAL... que não se distingue da especulação filosófica..."
"ESQUECEU-SE que existe outro conhecimento, que não é raciocínio, mas REALIZAÇÃO; é um 'conhecer' que é também um 'ser', a saber, a Gnose que o Espírito Santo atualiza em nós e que é o fundamento interno da Santa Teologia".
O professor BORELLA queixa-se, portanto, de que a teologia se reduza atualmente a uma especulação racional. Queixa-se de que se tenha esquecido o conhecimento direto, intuitivo e místico de Deus — conhecimento que deve ser chamado de "gnose" e do qual ele pede que volte a ser o fundamento da teologia.
A posição assim assumida exige três tipos de reflexões:
1° Que exista um conhecimento místico de Deus é absolutamente indiscutível. A TEOLOGIA MÍSTICA estuda precisamente esse conhecimento, suas modalidades e seus limites. É uma disciplina rica em documentos, obras, tratados didáticos, dicionários, etc. São João da Cruz foi proclamado Doutor da Igreja em 1926, por Pio XI. Deram-lhe o título de DOUTOR MÍSTICO porque escreveu sobre estas questões mui delicadas e importantes com grande experiência pessoal e autoridade definitiva. Não se pode dizer que a Igreja, mesmo a moderna, tenha ESQUECIDO o conhecimento místico, mas esse conhecimento jamais foi chamado de "gnose".
2° O professor BORELLA gostaria que "este conhecer, que é também um ser e que o Espírito Santo atualiza em nós, se tornasse o fundamento interno da Santa Teologia". Isso seria uma inovação total; jamais foi assim no passado. A teologia, que é a ciência religiosa, leva em conta, evidentemente, o conhecimento místico dentro dos limites reconhecidos, mas não se contenta com dados dessa espécie. Ela é uma ciência que raciocina, com a assistência do Espírito Santo, sobre os textos da REVELAÇÃO PÚBLICA (isto é, a Escritura e a Tradição) e, em particular, sobre os RELATOS EVANGÉLICOS, que são relatos objetivos e nada possuem de místicos. O que o professor BORELLA propõe é totalmente desproporcional ao verdadeiro valor da mística, que permanece um modo de conhecimento acessório e, sobretudo, um modo de conhecimento "pessoal".
3° As modalidades do "conhecimento gnóstico" proposto não são aqui suficientemente explicitadas para que se possa julgá-lo adequadamente. Mas somos obrigados a nos questionar, pois o pouco que se nos diz não é muito tranquilizador. Como essa gnose é definida?
- Ela situa-se "além da linguagem e, no entanto, o intelecto a percebe NUM RELÂMPAGO" (página 419).
- Ela é "um conhecer que é também um ser".
- Ou ainda: "Ela não é raciocínio, mas REALIZAÇÃO".
Ora, esta palavra REALIZAÇÃO é precisamente a que René Guénon e seus discípulos utilizam para designar o resultado, no espírito humano, da ILUMINAÇÃO, seja ela iniciática ou espontânea. É assim, por exemplo, que o estado de "realização" é o ápice das vias contemplativas hinduístas.
É evidente que um católico medianamente instruído pedirá explicações. Ora, nenhum capítulo de "A Caridade Profanada" é dedicado às modalidades desta "gnose contemplativa", desta mística gnóstica que o professor BORELLA deseja difundir nos meios católicos tradicionais. Como ele resolve, em particular, a questão tão importante na mística do DISCERNIMENTO dos ESPÍRITOS? Ele não fala disso. Por outro lado, o que é certo é que sua demonologia e a da Igreja não coincidem. Elas não situam no mesmo lugar a fronteira entre os anjos bons e os maus. Pior ainda: não dão a mesma definição para ambos.
Deste modo, o que ele chama de demônios? E o que ele chama de anjos? Nestes pontos, é certo que ele está em desacordo com a Igreja. Consequentemente, qual é o GRAU de SEGURANÇA da mística gnóstica? E não se tem o direito de temer que esta mística gnóstica do professor BORELLA seja, simplesmente, uma FALSA MÍSTICA? Seria, portanto, uma "falsa mística" que se tornaria "o fundamento interno da santa Teologia" (páginas 387 e segs.).
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Mas, então, o que corre o risco de acontecer agora? É provável que, dada a sua notoriedade, seu talento e seus apoios, o professor BORELLA seja ouvido e imitado. Farão o que ele pede, e a palavra GNOSE se espalhará na terminologia católica corrente.
É fácil prever o resultado desta aclimatação; a palavra produzirá dois tipos de estragos: devastações devidas à aceitação e ao impulso MÍSTICO que o professor BORELLA lhe comunica, e devastações devidas ao sentido HISTÓRICO do qual ela está irremediavelmente carregada.
DEVASTAÇÕES MÍSTICAS — A "Ciência" religiosa, SCIENTIA, tornar-se-á "GNOSIS", visto que é isto o que se deseja. Ela será assimilada e confundida com o "conhecimento gnóstico". E o conteúdo nocional desta gnose — em outras palavras, os DADOS desta mística — serão fornecidos como FUNDAMENTOS INTERNOS à teologia, como matéria de trabalho para a teologia futura. O resultado deste enriquecimento far-se-á sentir a longo e a curto prazo no futuro, mas também com efeito retroativo no passado.
No futuro, recolher-se-ão os dados do "conhecimento" ILUMINATIVO de Deus, depois do "conhecimento INICIÁTICO" de Deus — ou, ao menos, do que pode se chamar "Deus" nesse tipo de conhecimento: será o Absoluto, a Suprema Deidade, o Metacosmos, o Princípio Supremo, ou até mesmo o Andrógino, visto ser ele o arquétipo primordial. São, portanto, entidades que só existem no espírito humano ou que provêm de um não se sabe qual "mundo sutil" ou "mundo espiritual". Isto suscitará problemas insolúveis no estado atual do episcopado, do clero e dos fiéis, por causa da falta geral de instrução nestas matérias. As noções mais estranhas à Religião Católica infiltrar-se-ão por este canal. É a evidência mesma. É algo tão garantido de antemão que se pergunta se não é este, simplesmente, o objetivo visado.
No passado, admitir-se-ão como "teológicos" — porque "gnósticos" — e isso com efeito retroativo, os dados provenientes dos falsos místicos que a Igreja quis, até agora, manter afastados. Pensa-se sobretudo em Mestre ECKHART. Depois será a vez de Jacob BOEHME, depois de SWEDENBORG e de todos os outros teósofos. Tantos escritores aos quais se recorrerá para buscar a "Santa Teologia", como se fossem verdadeiros doutores da fé. A ciência da fé mudaria então de rosto e de conteúdo.
Ater-se apenas à definição de ordem mística do professor BORELLA fará a palavra GNOSE entrar no vocabulário católico portando uma carga considerável de dinamite.
DEVASTAÇÕES por força da HISTÓRIA — Não se pronunciará correntemente a palavra "Gnose" sem disparar os REFLEXOS CONDICIONADOS que a ela se ligam infalivelmente. E quais são os reflexos "gnósticos"? São reflexos de AMÁLGAMA, pois todos sabem que a gnose é o paganismo e o cristianismo vivendo em harmonia. É Jesus e Belial abraçando-se, em vez de se combaterem.
O que passará, junto com a palavra, é o entusiasmo pela RELIGIOSIDADE UNIVERSAL, com todas as confissões confundidas. O que retornará com a palavra são todas as noções falsas ou ambíguas das quais a Igreja se havia cuidadosamente desfeito. Reabilitar a Gnose é REABILITAR o DEPÓSITO DE LIXO. É ir buscar suprimentos no VAZADOURO.
Seria positivamente uma LOUCURA querer introduzir a palavra "gnose" na terminologia católica, na qual ela jamais figurou. Ela só pode provocar danos incalculáveis. Mais uma vez, aplicar-se-á o velho provérbio maçônico:
"Façam-nos engolir a palavra, e eles acabarão por engolir a coisa".
J. V.
ÀS FONTES da GNOSE "TRADICIONALISTA"
Visto que o artigo acima estuda uma obra publicada há três anos pelas Éditions du Cèdre, a situação que ele descreve destaca-se, antes de tudo, por sua atualidade, sendo provável que estejamos vendo apenas as suas etapas iniciais.
Contudo, seria ingênuo acreditar em uma geração espontânea, em um nascimento ex nihilo que, aliás, não existe na história humana. Inúmeras páginas deste artigo fazem, pelo contrário, referência ao meio em que está imersa a obra em questão, trate-se das relações e amizades intelectuais do autor ou, de modo mais amplo e remoto, da corrente milenar na qual se insere a ideologia gnóstica.
Diversos estudos deste Boletim já iniciaram a exposição dos princípios gnósticos (4), e ainda haveria muito a fazer neste campo (o que virá a seu tempo, conforme o programa previsto), mas a atualidade leva-nos a "queimar etapas": com efeito, é o meio dos neognósticos modernos e contemporâneos que convém iluminar agora; e é sobre aquele que foi o mestre desta nova escola entre 1910 e 1950, e que assim permanece em larga medida, René GUÉNON, que se deve focar a luz.
Nosso trabalho a seu respeito estava pronto e redigido para figurar no Boletim nº 10, quando uma obra de altíssimo mérito foi lançada nas livrarias no início deste ano (5).
Acadêmica canadense que trabalhou na França, Marie-France JAMES realizou uma suma cujo talento é duplo: sem revolucionar propriamente uma questão que já era certa em suas linhas gerais, ela contribui para fundamentá-la com minuciosa erudição e, talvez ainda mais, com uma perfeita lucidez de análise.
Depois dela, não é mais possível — agindo-se de boa-fé, obviamente — ignorar René Guénon. Em particular, quanto ao ponto que nos preocupa — a infiltração neognóstica nos meios católicos tradicionais —, a intenção de Guénon é evidente, tanto em seu fundo intelectual anticristão quanto em sua prática de frequentação assídua dos meios cristãos.
Da mesma forma, o trabalho de Marie-France JAMES parece-nos lançar plena luz sobre o fato de que esta primeira tentativa de infiltração do Cristianismo pelo Guenonismo só fracassou graças à vigilância de alguns homens: a de Maritain, após um período inicial de fraqueza involuntária, e sobretudo a vigilância constante e esclarecida dos colaboradores da Revue internationale des Sociétés secrètes (RISS), de Monsenhor JOUIN.
Parece, aliás, que se Guénon partiu definitivamente para o Egito muçulmano em 1930, após quinze anos de tentativas infrutíferas na França, isso não ocorreu sem certa responsabilidade daqueles que expuseram o seu jogo: desesperando provisoriamente do Cristianismo, não estaria ele então orientando seus discípulos para as duas únicas vias que considerava possíveis, a Maçonaria e o Islã?...
P. R.
(1) Esclareçamos imediatamente, para não deixar dúvidas sobre este ponto, que a expressão "Unidade transcendente das Religiões" é uma abstração mental. Esta magnífica expressão possui apenas a aparência de profundidade. Na realidade histórica, o que se pode notar, ao contrário, é a DUALIDADE TRANSCENDENTE das RELIGIÕES. Há neste mundo, fundamentalmente, apenas duas religiões: a religião do Cristo e a religião do Anticristo. Todavia, o que mascara esta dualidade essencial e faz crer em uma grande multiplicidade de religiões é o fato de que, se a religião do Cristo é ÚNICA, a religião do Anticristo é MÚLTIPLA, assim como o erro é múltiplo.
(2) Aproveitamos o caráter místico acentuado deste texto para observar como as expressões utilizadas podem ser enganosas, especialmente a alusão à Virgem coroada, que nada mais é do que a Sophia dos Gnósticos. Esta utilização "escorregadia", fraudulenta, levanta um problema muito geral que examinaremos um dia. Ver também, na página 19, a palavra "imaculado".
(3) Ver a nota (2), página 15.
(4) "A gnose, tumor no seio da Igreja", no nº 3. "A gnose, de ontem a hoje", no nº 5. "A gnose hoje", no nº 6.
(5) Marie-France JAMES: "Ésotérisme et Christianisme autour de René Guénon" e "Ésotérisme, Occultisme, Franc-Maçonnerie et Christianisme, aux XIXe et XXe siècles" — Dois volumes — N. E. L. 4º trimestre de 1981.

