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O PADRE PROYART, ÊMULO E CONTEMPORÂNEO DE BARRUEL

Numerosos autores praticamente nunca são lidos, seu nome é apenas vagamente conhecido, sua obra é ignorada ou desdenhada. Para outros, a conspiração do silêncio estendeu-se até mesmo ao seu nome. Mesmo entre aqueles que acreditam ter se emancipado da onipotência dos meios de comunicação de massa, quem já ouviu falar do Padre PROYART?

Trata-se de um padre, contemporâneo do Padre BARRUEL, que também estudou as causas da penetração da subversão no cristianismo; e a Sociedade Augustin BARRUEL não poderia, sem faltar à sua vocação, deixar de prestar homenagem a este eclesiástico, historiador competente e judicioso. Ao cumprir esta tarefa, ela não apenas reparará um esquecimento injusto, mas porá em luz um ensinamento que em nada perdeu sua atualidade.

Sobre sua vida, podemos dizer apenas o que sabemos, isto é, pouca coisa; por outro lado, tentaremos resumir e condensar o essencial de seu pensamento.

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Liévrain-Bonaventure PROYART nasceu por volta de 1743, em Artois; após estudos no seminário Saint-Louis, em Paris, foi ordenado padre e resolveu consagrar-se ao ensino: exerceu-o primeiro, durante muito tempo, no colégio Louis-le-Grand, e depois foi encarregado de organizar o colégio de Puy que, segundo o Dicionário de Michaud, tornou-se sob sua direção uma das escolas mais prósperas do reino.

Após ter escrito algumas obras — uma história de Loango, Kakongo e outros reinos da África; uma vida do Delfim, pai de Luís XVI; uma história de Estanislau, rei da Polônia, duque da Lorena e de Bar; uma vida de Maria Leczinska, rainha da França, para cuja impressão encontrou múltiplas dificuldades por parte da censura —, foi designado para a catedral de Arras.

Retornava assim à sua terra natal, mas lá permaneceu pouco tempo. Tendo-se recusado a prestar o juramento exigido de todo padre pela Revolução, teve de emigrar para os Países Baixos e foi em seguida acolhido na Francônia pelo príncipe de Hohenlohe-Bartenstein, que o nomeou seu conselheiro eclesiástico e o encarregou da distribuição de auxílios aos soldados franceses prisioneiros.

Em 1800, publicou em Londres "Louis XVI détroné avant d'être roi" (Luís XVI destronado antes de ser rei), cuja edição original continha 532 páginas. O Padre PROYART voltou à França após a Concordata e estabeleceu-se em Saint-Germain, mas só conseguira obter seu retorno sob a condição de fazer cortes em seu livro. Foi então, e dessa forma, que apareceu em Paris a edição de 1803.

Escreveu em seguida "Louis XVI et ses vertus aux prises avec la perversité de son siècle" (Luís XVI e suas virtudes em luta com a perversidade de seu século) e, embora tivesse tomado a precaução de enviar o primeiro exemplar ao Imperador, a obra foi apreendida pela polícia em 17 de fevereiro de 1808, ao mesmo tempo que o livro anterior, apesar das supressões efetuadas.

O Padre PROYART, encarcerado em Bicêtre, careceu de tudo durante um inverno rigoroso e foi acometido por uma "hidropisia de peito". Seus amigos obtiveram, à custa de muitos esforços, que ele fosse transferido para o seminário de Arras para receber cuidados. Foi conduzido a Arras sob a guarda de um gendarme, mas, como a carruagem só chegou à noite, foi deixado na casa de uma parenta. Morreu ali alguns dias depois, em 22 de março de 1808.

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Suas obras completas foram publicadas em Paris sob a Restauração, em 1822. Ele teria escrito também uma história de Robespierre que permaneceu inédita.

É de sua principal obra, "Luís XVI destronado antes de ser rei", que tentaremos destacar as grandes linhas. A leitura é um tanto difícil devido à ausência de capítulos, mas acreditamos na justeza quase absoluta de um pensamento que nos parece sem falhas. Mencionemos também o aviso do editor Méquignon, filho mais velho, datado de 1819: "Proyart estabeleceu fatos do mais alto interesse e que fora necessário omitir na edição de 1803, o que não impediu que ela fosse apreendida pela polícia de Bonaparte em 17 de fevereiro de 1808".

Apresentamos aqui, enumeradas sob a forma de princípios, algumas ideias gerais que extraímos ao longo da leitura da obra. Naturalmente, esta enumeração não figura desta forma no livro, e só a adotamos para facilitar a compreensão.

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/ 1º princípio /

Todo poder vem de Deus e Lhe pertence como um domínio inalienável. Nenhuma criatura pode, sem impiedade, arrogar-se autoridade sobre outras criaturas a não ser na ordem e na dependência do Criador.

Violada esta ordem eterna, eis a causa primeira e o motor determinante das revoluções e da instabilidade dos impérios. No abismo imenso de tantos erros diversos, um contribuiu mais que outros para destronar Luís XVI: o sofisma que coloca na multidão a fonte de toda soberania.

/ 2º princípio /

Não qualificar as causas das desgraças como acaso ou fatalidade. O Padre PROYART vê nas subversões e revoluções castigos desejados pela Providência: "Vemos a cólera do céu caminhar sobre a França e, na própria natureza do flagelo com que a aflige, pressagiar-lhe outros flagelos ainda reservados para outros tempos. Contudo, Deus demora a punir, ora dispondo ao Seu redor os instrumentos de Sua vingança, ora fazendo brilhar ao longe os relâmpagos de Sua ira; e foi necessário um século inteiro de prevaricações para arrancar-Lhe o raio e determinar, enfim, a catástrofe que deveria envolver todo um grande povo maduro para o castigo".

Esta ideia da permissão da Providência, causa primeira das desgraças, aproxima-se do ensinamento de Santo Afonso de Ligório em "A Conduta Admirável da Providência" e antecipa Joseph de Maistre, que escreverá no segundo colóquio de São Petersburgo: "Sendo todo mal um castigo, segue-se que nenhum mal poderia ser considerado como necessário; e não sendo nenhum mal necessário, segue-se que todo mal pode ser prevenido, ou pela supressão do crime que o teria tornado necessário, ou pela oração, que tem a força de prevenir o castigo ou de mitigá-lo". De Maistre escreveu, por outro lado, um opúsculo sobre os atrasos da justiça divina.

Ignoramos se Joseph de Maistre teve conhecimento dos escritos do Padre PROYART ou se estamos apenas diante de dois pensamentos que se encontram em virtude de sua lógica interna.

/ 3º princípio /

Os tão aclamados direitos da humanidade e da razão não podem passar de direitos quiméricos se não forem garantidos pela Divindade: o Padre PROYART denuncia, assim, a hipocrisia dos direitos do homem.

/ 4º princípio /

Uma religião que tem consciência de sua origem celeste não pode se prestar a acomodações com as invenções humanas. Se o erro pode transigir com o erro, e a mentira acolher a mentira, esta religião — sempre incorruptível — deve perpetuar-se una e imutável sobre a terra, tal como Deus a estabeleceu.

De todos os meios empregados pela perfídia filosófica para irritar e multiplicar os inimigos da religião de nossos pais, nenhum obteve mais êxito do que a acusação de intolerância. Esta palavra, constantemente sob a pena e na boca dos ímpios, possuía uma espécie de virtude mágica. Pois não se viu — ou, ao menos, fingiu-se não ver — que transformar a intolerância do catolicismo em crime era contestar à religião verdadeira o seu mais glorioso título; era censurar ao único astro estabelecido para dispensar a luz o seu horror invencível pelas trevas.

Vê-se que o Padre PROYART, embora não utilize a palavra liberalismo, afirma categoricamente que apenas a religião católica possui direitos.

/ 5º princípio /

O ateísmo é o objetivo supremo daqueles que preconizam a liberdade. O Padre PROYART insiste nesta frase de Diderot: "O ateísmo é o único sistema que pode conduzir o homem à liberdade". Disso resulta que é em vão que os católicos reivindicam para sua religião apenas a liberdade sem qualquer privilégio. Eles acreditam, assim, conciliar-se com os adversários da religião. Trata-se de um erro capital: é de um regime político ateu, e não de um regime político neutro, que os adversários esperam o que chamam de liberdade.

No século seguinte, LAMENNAIS, MONTALEMBERT e os fanáticos da liberdade nada terão inventado; apenas repetirão os bordões dos filósofos do século XVIII. O Padre PROYART os refutou antecipadamente, ao mostrar que nem por isso eles seriam aceitos pelos subversivos.

/ 6º princípio /

É por motivos religiosos e por consciência que um católico é inabalável em sua fidelidade ao governo regular de seu país. O conhecido axioma: "É melhor obedecer a Deus do que aos homens", que fez milhares de mártires, não fez um único conspirador, nem um único rebelde.

/ 7º princípio /

Toda concessão no plano doutrinário é inútil. Assim que se coloca o dedo na engrenagem das concessões, vai-se até o fim. Se o Padre PROYART se levantou com vigor contra a dissolução dos Jesuítas, não foi apenas para justificar essa ordem religiosa em si, mas porque haviam rompido uma barragem. Com efeito, o golpe que atingiu os Jesuítas foi mortal para todas as ordens monásticas. A proscrição dos Jesuítas foi decidida no Conselho dos Conspiradores como preliminar indispensável para se chegar à subversão dos impérios e dos altares católicos.

O comportamento que consiste em adular o adversário para atrair sua benevolência nunca conduziu senão a decepções. Podemos citar outros exemplos do século XVIII além dos Jesuítas: por três vezes, Dom de la POYBE, bispo de Poitiers, deu 24 horas ao pregador Luís Maria GRIGNION de MONTFORT para deixar sua diocese. Não que Dom de la POYBE fosse partidário do erro; de modo algum. Mas ele tinha de lidar com pessoas que desejava poupar. Aqueles a quem chamam de pessoas sensatas, inimigos do erro, querem que se o trate com polidez e consideração. Eles sempre acham que os partidários da verdade a defendem com aspereza excessiva.

/ 8º princípio /

A subversão deve-se muito menos à imbecilidade do século XVIII do que à sua corrupção. O objetivo da subversão é: 1º atacar o Estado; 2º atacar a Religião. É o que o Padre PROYART chama de "subversão dos altares".

Para encontrar as primeiras fontes que começaram a cavar o abismo, é preciso remontar aos últimos anos do reinado de Luís, o Grande (Luís XIV). Por essa datação, o Padre PROYART aproxima-se de Joseph de MAISTRE, que escreveria no "Ensaio sobre os princípios geradores das Constituições políticas": "Embora sempre tenha havido ímpios, jamais houvera antes do século XVIII e no seio do cristianismo uma insurreição contra Deus. Jamais, sobretudo, vira-se uma conjuração sacrílega de todos os talentos. Não foi, portanto, senão na primeira metade do século XVIII que a impiedade tornou-se realmente uma potência".

O Padre PROYART explica extensamente que a subversão manifestou-se através da filosofia e da Maçonaria. Aqui cessa o paralelo com Joseph de MAISTRE que, como se sabe, foi recebido maçom na Loja dos 3 Morcegos, ligada à Grande Loja da Inglaterra. Isso ocorre, sem dúvida, porque Joseph de MAISTRE e o Padre PROYART não consideravam a Maçonaria sob o mesmo ângulo. O Padre PROYART considerava sobretudo a incredulidade, enquanto Joseph de MAISTRE considerava o iluminismo que, segundo ele, poderia ser útil em certos países precisamente contra a incredulidade.

Eis o essencial do que o Padre PROYART nos diz sobre a Maçonaria: "Era sobre a alegoria do templo de Salomão — construído por ordem de Deus, destruído depois pelos assírios e, em seguida, restabelecido por CIRO — que os maçons disfarçavam seu plano de conjuração. Eles convencionaram entender pelo templo de Salomão a liberdade e a igualdade natural que o homem recebeu de Deus; pelos assírios, as duas potências do sacerdócio e do império, que supostamente estabeleceram sua dominação sobre as ruínas da igualdade e da liberdade dos outros homens. É em decorrência dessa alegoria que se autodenominam maçons e se cercam em sua loja de diversos instrumentos em uso na alvenaria. Embora todo maçom seja chamado a vingar os direitos do homem pela destruição dos assírios, essa vocação é, todavia, um enigma cujo verdadeiro significado não deve ser revelado pelos chefes senão aos irmãos julgados dignos de ouvi-lo. Eles são persuadidos de que, à primeira indiscrição sobre o grande segredo, os punhais vingadores atingiriam suas cabeças perjuras com a prontidão de um raio, em qualquer lugar que estivessem.

Para melhor se habituarem a golpear um traidor ou a combater os assírios, o maçom julgado digno dos altos graus só os atingia após ter se distinguido por sua intrepidez. Eles terminavam por apunhalar figuras humanas representando o Papa, o rei da França e o Grão-Mestre de Malta. O 'irmão' FOUCHET, bispo constitucional do Calvados, prestava juramento nas mãos de seus irmãos e amigos de Caen: 'Juro um ódio implacável ao trono e ao sacerdócio e consinto, se violar este juramento, que mil punhais sejam mergulhados em meu peito perjuro'".

A propósito da Maçonaria, o Padre PROYART elogiou o Padre BARRUEL: "As memórias sobre o Jacobinismo são uma obra a ser consultada por qualquer pessoa que queira ter uma ideia justa dos meios astuciosos, das artimanhas deliberadas e das combinações que o filosofismo maçônico empregava para escapar a todo tipo de vigilância".

Se o Padre PROYART faz o mal remontar aos últimos anos do reinado de Luís, o Grande, ele distingue bem como esse mal foi, de certa forma, favorecido e oficializado. O poder temporal e o poder espiritual podem muito, tanto para o bem quanto para o mal. Os dois grandes responsáveis por essa oficialização foram, segundo o Padre PROYART: o ministro CHOISEUL, pelo poder temporal, e o cardeal GANGANELLI, tornado o Papa Clemente XIV, pelo poder espiritual.

"Foi sob o ministério de CHOISEUL, em 1760, que a seita se transformou em uma corporação imponente, à qual era tão honroso pertencer que os príncipes de sangue não desdenhavam de tornar-se seus protetores e grão-mestres. Os nomes do Padre príncipe de CLERMONT e do príncipe de CONTI não deixavam de consagrar, por assim dizer, a Maçonaria e dar-lhe sua maior voga entre nós.

Ela logo se recrutou na corte entre a nobreza e a alta finança, a ponto de suas lojas não serem mais suficientes para a pressa dos prosélitos; surgiram novas em todos os bairros da capital e, por imitação, em todas as cidades do reino; via-se um grande número de magistrados maçons, uma multidão de maçons literatos, advogados, negociantes e até monges maçons. Mas a epidemia não fez em parte alguma progressos tão rápidos quanto nos exércitos. Havia lojas em todas as guarnições, quase todo o Corpo de Engenharia era maçom e muitos de seus membros eram iniciados no grande segredo".

Um livro publicado em 1981, de Pierre ORDONI, "O poder militar na França desde Carlos VII", corrobora a observação do Padre PROYART. Para este autor contemporâneo, os oficiais de origem estrangeira a serviço de Luís XV introduziram os ritos maçônicos em torno dos acampamentos: "A Maçonaria infiltrou-se no exército; em menos de vinte anos, fará dele o instrumento de seu poder".

O Padre PROYART continua dizendo: "Foi sob o ministério de CHOISEUL que a Maçonaria se confundiu de tal modo com a filosofia da época que não parecia mais formar com ela senão uma única e mesma seita".

A segunda etapa da oficialização da subversão foi a ascensão ao trono de São Pedro do cardeal GANGANELLI. O reinado de seu predecessor, Clemente XIII, o piedoso REZZONICO, fora cruelmente agitado. Este pontífice unia a uma doçura inalterável uma firmeza de alma que foi, durante dez anos, o desespero do filosofismo em meio aos seus triunfos. Para se vingar dele, a seita causou-lhe dissabores. Ele fizera a apologia completa dos Jesuítas na Bula Apostolicum. REZZONICO morreu com as armas na mão contra o filosofismo e combateu pelos reis contra os ministros dos reis.

Com sua morte, motivo de triunfo para a incredulidade, os sofistas e os sectários — que apenas Roma ainda detinha na rapidez das conquistas — apressaram-se em concentrar suas manobras na escolha do pontífice de que precisavam para levar ao último ponto de maturação seu projeto tão avançado de subversão universal e, sobretudo, o projeto de destruição absoluta dos Jesuítas.

Mal o Conclave fora formado, percebeu-se que o filosofismo lançara o pensamento da discórdia na augusta assembleia. Ela dividiu-se em duas partes: uma que queria conservar os Jesuítas ameaçados e outra que queria consumar sua destruição.

Durante os debates vivos e prolongados causados por pretensões inconciliáveis, os ministros envolvidos concertam-se para produzir, em nome de seus senhores, listas de exclusão que atingem os candidatos mais recomendáveis e, particularmente, aqueles que gozavam da confiança de REZZONICO. Essas proscrições escandalosas chegam ao ponto de reduzir os cardeais elegíveis a um número muito pequeno de sujeitos. A maioria do Conclave queixa-se, reclama contra a opressão e o abuso gritante. Foi então que, munido das instruções de CHOISEUL, um homem habilidoso em manejar os espíritos, o cardeal de BERNIS, apresenta-se como pacificador, faz belos discursos, e o resultado foi a eleição de GANGANELLI. Os ministros das principais potências, especialmente MOÑINO, o da Espanha, fizeram da inteira destruição dos Jesuítas uma condição tácita da eleição. Vê-se o quanto os quadros das diversas monarquias haviam passado para a subversão. Isso merecerá um estudo no futuro.

GANGANELLI quis primeiro despistar; dizia aos cardeais bem-intencionados: "Não posso condenar uma Ordem célebre sem ter razões que me justifiquem aos olhos de Deus e da posteridade". — "Não posso censurar nem executar um Instituto louvado e confirmado por dezenove de meus predecessores, e menos ainda posso fazê-lo visto que foi confirmado pelo santo Concílio de TRENTO e que, segundo as máximas francesas, o Concílio Geral está acima do Papa".

"O futuro Papa não deve pensar mais em destruir os Jesuítas do que em demolir a cúpula de São Pedro".

Depois, veio o dia 21 de julho de 1773. Nessa data, GANGANELLI condenou os Jesuítas e suprimiu sua Sociedade. Foi apenas em 6 de agosto seguinte que ele exigiu uma comissão para informar sobre fatos imputados aos Jesuítas. Qualificou como "extorquida" a Bula Apostolicum de seu predecessor. Proibiu a todos os fiéis não apenas ousarem criticar, mas — o que é inacreditável — ousarem aprovar sua operação contra os Jesuítas, ou sequer ousarem abrir a boca sobre o assunto. "Ne audiant vel etiam loqui de hujusmodi suppressione, deque ejus causis et motivis" (Que não ouçam nem falem de tal supressão, nem de suas causas e motivos). Não se tinha o direito de falar, nem bem, nem mal.

Os Jesuítas de Roma haviam sido autorizados a continuar a vida comum com seu Geral. De repente, durante uma noite, uma tropa armada dirigiu-se à sua casa e cercou-a por todos os lados. Ao primeiro pedido, as portas são abertas e, instantaneamente, o edifício é inundado por uma multidão de militares. O guia dos espoliadores fez com que lhe entregassem o tesouro, quebrou os relicários e jogou em cestos os depósitos que continham.

Que não se espante que a espoliação dos Jesuítas, embora emanada de um Papa, tenha sido acolhida com tanto entusiasmo pelos sofistas e sectários. Os refugiados holandeses celebraram a queda dos Jesuítas com uma festa pública; jansenistas mandaram cunhar uma medalha em honra de GANGANELLI.

O Padre PROYART observa que nenhum pontificado foi mais poupado, e até mais celebrado, pelos sofistas do que o de GANGANELLI, e essa predisposição pelo destruidor dos Jesuítas é comum aos ingleses e aos protestantes da Alemanha e da Holanda. O Padre PROYART sabe disso por ter vivido entre eles. O autor de "Luís XVI destronado antes de ser rei" estende-se longamente sobre as circunstâncias que precederam a morte de CLEMENTE XIV. Ele nos conta que, tendo o Papa se levantado contra os profetas do infortúnio, uma camponesa de Valentano, Bernardina RENZI, censurou-lhe pelo seu Breve contra os Jesuítas e anunciou sua morte para o equinócio de setembro de 1774; ele publicaria a Bula do JUBILEU de 1775, mas não o veria. Clemente XIV mandou prendê-la no Mosteiro de MONTEFIASCONE, mas ele morreu subitamente em 22 de setembro de 1774, conforme a previsão. As profecias de infortúnio podem ser verdadeiras ou falsas, mas são sempre condicionais e não se poderia condená-las como tais. O Papa recebera os últimos sacramentos — diz-se inclusive que Santo Afonso viera em bilocação à sua cabeceira —, mas ele não retratou o escândalo da destruição dos Jesuítas, nem o escândalo ainda mais revoltante de sua perseverança em deixar atormentar em uma prisão os membros mais veneráveis dessa Ordem.

Tentamos resumir em oito princípios o pensamento do Padre PROYART tal como ele o expôs em sua obra principal. Ao insistir longamente no caso de CHOISEUL e de CLEMENTE XIV, não gostaríamos de deixar a impressão de que este padre foi um panfletário ou um detrator. Se ele teve a clarividência de denunciar os perigos e aqueles que arrastavam seu país e a Igreja para as catástrofes, não soube menos distribuir elogios quando era necessário.

Já dissemos o que pensava do Padre BARRUEL; a isso acrescentamos o nome de duas pessoas que ele louvou abundantemente: um leigo e um eclesiástico. O leigo é Luís, delfim, filho de Luís XV e pai de Luís XVI, morto prematuramente em 20 de dezembro de 1765, de quem o Padre PROYART escreveu a vida e de quem pensava ser provavelmente o mais sábio dos príncipes de seu século.

Esta aprovação calorosa nada tem de espantoso se soubermos que a ideia essencial do Padre PROYART é que a ordem eterna violada é a causa primeira e o motor determinante das revoluções e da instabilidade dos reinos. Desse princípio, o delfim, pai de Luís XVI, estava tão penetrado que quis que um tratado completo o gravasse na memória de seus filhos: "Os Deveres do Príncipe lembrados a um só príncipe". A história do mundo ensinara ao delfim que o maior perigo para os governos e o maior responsável pelos grandes castigos era a injustiça das nações para com Deus.

Sobre o eclesiástico louvado pelo Padre PROYART, infelizmente nada sabemos, salvo que vivia ao tempo de CHOISEUL: trata-se do Padre de CAVEYRAC. Um único de seus escritos, citado pelo Padre PROYART, basta para nos fazer compreender o grau de clarividência de seu autor, se lembrarmos que data de cerca de 1760. O Padre de CAVEYRAC escreveu: "Sim, a revolução de que falo já está muito avançada; uma torrente de escritos incendeia o reino e não se lhe opõe nenhuma barreira. O inimigo já está às nossas portas e ninguém percebe; ele tem inteligências [espiões/cumplicidade] dentro da praça e todos adormecem. Qual será vossa surpresa, pontífices e magistrados, quando, ao vosso despertar, encontrardes a revolução feita?".

G. L.