"O CASO DOS ESSÊNIOS"
Os meios empregados na luta anticristã são diversos e, por vezes, aparentemente opostos: é assim que à crítica racional, que grassava desde o Renascimento e sobretudo desde o século XVII, somou-se, no século XIX, uma nova forma de crítica oriunda da influência das religiões comparadas, nascida naquela época.
Nesta ótica, o Cristianismo viu-se acusado ora de ser uma religião diferente das outras e contrária à religiosidade natural do homem, ora, inversamente, de ser uma simples cópia de formas preexistentes: esta foi, entre outras, a tese de Renan — uma tese sem fundamentos, carente de provas.
Ora, precisamente a descoberta, em 1947, em Qumran, às margens do Mar Morto, de uma massa de documentos datando do primeiro século depois de Jesus Cristo, pôde dar a entender que essas provas haviam sido finalmente fornecidas. Toda uma escola de historiadores e exegetas encarregou-se, então, de fazer crer que o caso estava encerrado, embora os textos mostrem com evidência que não é nada disso.
Erro escusável... ou manobra de má-fé sobre um fundo de desonestidade intelectual, assim se apresenta "o caso dos essênios", que será tratado em dois artigos sucessivos deste boletim.
Quando se começou a publicar e comentar os primeiros manuscritos do Mar Morto, múltiplas hipóteses foram propostas. Uma única foi, enfim, aceita e imposta a todos: a biblioteca essênia escondida em 70 d.C., no momento da tomada de Jerusalém por Tito; reforçava-se assim a afirmação de Renan em sua "História do Povo de Israel".
O Sr. DUPONT-SOMMER remete explicitamente a ela em seus "Aperçus préliminaires" (Esboços Preliminares). Ele escreve: "Já eminentes historiadores haviam reconhecido no Essenismo um antegosto do Cristianismo; esta fórmula é de Renan, assim como esta outra: o Cristianismo é um Essenismo que obteve largo sucesso... O velho mestre hesitava em afirmar entre o Essenismo e o Cristianismo um intercâmbio direto... Tudo na antiga aliança judaica anuncia e prepara a nova Aliança cristã... O Mestre galileu aparece, sob muitos aspectos, como uma espantosa reencarnação do Mestre da Justiça. Como ele, pregou, etc...". "Todas essas semelhanças constituem um conjunto quase alucinante..." e segue esta afirmação peremptória de uma hipótese sem fundamento: "Onde quer que a semelhança convide a pensar em um empréstimo, o empréstimo foi feito pelo Cristianismo".
Eis o que está claro. A escolha desta hipótese essênia destina-se perfeitamente a confirmar Renan e a destruir a originalidade do Cristianismo.
Alguns religiosos manifestaram, então, preocupações legítimas, embora tímidas: "afirmações massivas", declara o Pe. BONSIRVEN; "asserções desconcertantes", diz o Pe. DANIELOU, que acrescenta: "considerações um tanto revolucionárias que se tem o prazer de ver atenuadas em seu novo livro".
De fato, em seus "Nouveaux Aperçus" (Novos Esboços), o Sr. DUPONT-SOMMER mostra-se mais prudente na expressão de seu pensamento. Sem dúvida; mas o pensamento permanece o mesmo, e é bem verdade que, se a tese do Mestre da Justiça for mantida, o Cristo parecerá sempre essa "espantosa reencarnação" de que se fala.
Pode-se atenuar a expressão de um pensamento sem modificar a impressão que restará no espírito ao exame da hipótese mantida.
Segundo a tese oficial, tal como exposta por DUPONT-SOMMER, teria existido, entre o início do século I a.C. e a queda de Jerusalém em 70 d.C., uma comunidade judaica, dita dos Essênios, comunidade monástica com sua casa-mãe em Qumran e seus "priorados" dispersos na Palestina ou em outros lugares, praticando um culto não sangrento, recusando o culto do Templo em Jerusalém, perseguida pelo Sumo Sacerdote e pelos judeus ortodoxos, fundada no início do século I a.C. por um judeu piedoso, chamado "Mestre da Justiça", e depois dispersada pelos romanos no momento da tomada de Jerusalém em 70, tendo tido tempo, antes desta dispersão, de esconder sua biblioteca em grutas.
Eis a tese. Ora, ela realmente faz os manuscritos descobertos em Qumran dizerem toda uma história que eles não contêm.
Diante desta tese, coloquemos os textos. Isso se resume a pouca coisa: um texto de Filo de Alexandria, dois textos de Flávio Josefo e uma compilação de Plínio, o Velho. É tudo quanto aos Essênios. Somam-se os manuscritos do Deserto de Judá e uma letra do patriarca Timóteo do século VII.
a) Filo de Alexandria: Sabemos pouco sobre sua vida. Ele participou de uma delegação judaica enviada ao imperador Calígula para defender a comunidade judaica. Os membros da comunidade que ele apresenta chamam-se entre si "os Santos". Ele achou conveniente, diz ele, traduzir para o grego "Eόδαλοι" ou "Eόννοι", de onde vem a expressão "os Essênios". Descreve com simpatia seus costumes e enumera suas virtudes. Ele os conhece apenas por ouvir dizer; seu testemunho é de segunda mão. Não fala de mosteiro, nem de monges vivendo em grutas, nem de Mestre da Justiça. Descreve uma comunidade existente em seu tempo, por volta de meados do século I d.C. E ponto final. É pouco. Deve-se reter o nome que dão a si mesmos: "Os Santos".
b) O testemunho de Flávio Josefo é infinitamente mais preciso. Ele não apenas ouviu falar da comunidade, mas pôs-se à escola de um essênio, Banus; foi um neófito durante um ano. Conheceu-os, portanto, de perto. Sua experiência da comunidade é mais precisa. No entanto, nunca foi admitido à refeição ritual e deixou Banus. O que ele nos ensina? Dá-se ao neófito que pede adesão à comunidade uma machadinha (voltaremos a este ponto), um cinto e uma veste de linho branco. Esta veste é reservada para a cerimônia da refeição, "ως ζεπας", diz ele, como uma túnica sagrada que é retirada ao sair. Trata-se, portanto, de uma cerimônia litúrgica e não de uma refeição conventual, como se pretende dizer. Os neófitos não são admitidos nela e, antes de participarem plenamente da vida da comunidade, devem prestar um juramento de manter em segredo os ritos da cerimônia. Os neófitos, diz ele, são impedidos de se aproximarem dos "objetos do culto" (τό δουλιν); em caso algum recebem o alimento com os antigos. Antes de participar da refeição comum, devem jurar venerar a Deus, nunca odiar nem o injusto nem o adversário, mas rezar por eles, assistir todos os crentes, etc. O próprio Josefo não prestou este juramento e descreve de forma vaga uma cerimônia sagrada da qual não participou.
c) Os manuscritos do Deserto de Judá: Se aceitarmos a tese de que são os manuais da Comunidade descrita por Filo e Flávio Josefo, eles nos dão informações de primeira ordem, que não estão em contradição com as anteriores, mas que as completam muito felizmente.
Aprendemos por eles que os membros da Comunidade chamam-se sempre "Santos" ou "homens de Santidade", mas também os "Eleitos", os "pobres" (Ebionim) — a expressão encontra-se tanto no comentário de Habacuc quanto nos outros manuscritos — e sobretudo os "filhos do Justo" (hene sedec). Eles são os discípulos de um Mestre justo (more sedec) em quem devem ter fé e cuja palavra devem escutar se quiserem obter o perdão de seus pecados e, portanto, a salvação. Este Mestre justo é também o Ungido de Deus; não é profeta, mas "interpreta" (?) todos os profetas. Sabemos também que foi perseguido pelo Sumo Sacerdote, que queria matá-lo, que foi retirado do meio de seus discípulos, etc. A descrição da cerimônia da refeição corresponde à de Flávio Josefo, quase palavra por palavra.
d) O texto de Plínio, o Velho, é uma compilação qualquer que apenas especifica a localização de uma comunidade essênia ao norte de Engaddi. Mas é preciso colocar este texto em seu devido lugar: as outras fontes não falam de um mosteiro e de fiéis, mas de pequenas comunidades dispersas por toda a Palestina e outros lugares, em grande número. (1)
e) A localização de Khirbet Qumran compreende um cemitério de cerca de mil túmulos e um conjunto de edifícios de dimensões relativamente modestas. É difícil ver ali a disposição de um mosteiro cujos monges teriam vivido nas grutas da encosta vizinha. Del Medico, Serrouya e outros defendem a ideia de que essas grutas eram "genizoth" (depósitos), onde se colocavam manuscritos sagrados com rasuras ou tornados impuros por uma série de defeitos. Sabemos que esses manuscritos foram depositados no decorrer do século I d.C., em jarras comuns, da forma daquelas que eram de uso corrente naquela época, segundo o Pe. de Vaux, corrigindo uma primeira afirmação errônea na qual afirmava que o depósito era anterior em um século. (2)
Como se explica, então, que, a partir de tais documentos, se tenha chegado a esta tese oficial, tal como é apresentada hoje pela maioria dos autores que se debruçaram sobre o problema? Para aceitá-la, é preciso colocar entre parênteses e manter na sombra as questões mais fundamentais. São estas questões que tentaremos elucidar. Em seguida, esforçar-nos-emos para atrair a atenção dos pesquisadores para alguns pontos interessantes que permaneceram até agora na obscuridade.
1° Tudo o que sabemos desta "seita" (?) aplica-se a uma comunidade existente por volta de meados do primeiro século depois de Jesus Cristo, e nada mais. Nada, absolutamente nada, nas informações que possuímos, permite supor a existência de essênios fundados um século antes de Jesus Cristo por um Mestre da Justiça que teria vivido na época macabeia.
O Padre Michel escreveu uma obra volumosa sobre o "Mestre da Justiça". Ele parte, portanto, à sua procura. As informações que ele nos fornece são totalmente incapazes de nos apresentar o "mora sedec" de que tratam os manuscritos. Após eliminar várias hipóteses, ele retém a de Onias III, sumo sacerdote expulso por um usurpador e assassinado. Ele supõe que este personagem estaria na origem dos "essédis" ou "assideus" (os piedosos); mas esta suposição permanece muito incerta e ele não conhece vínculos necessários entre o homem e a seita.
Ora, sabemos que os assideus foram judeus piedosos que abandonaram Jerusalém para permanecerem fiéis à lei de Moisés no momento em que os selêucidas queriam impor ali seus cultos pagãos; sabemos que Matatias e os Macabeus surgiram do meio desses judeus piedosos; sabemos que eles são os precursores dos fariseus, estritos observadores da lei. Sobre Onias III, não sabemos muita coisa. Tudo isso é singularmente inadequado à questão posta. Um espírito exigente não pode se satisfazer com considerações tão hesitantes.
2° Há entre os manuscritos de Qumran e os relatos de Filo e de Josefo uma diferença considerável:
Filo e Josefo descrevem os "essênios" como uma seita judaica entre outras, entre os fariseus e os saduceus. Ora, os manuscritos nos apresentam algo totalmente diferente. Os fariseus e os saduceus são judeus fiéis à lei de Moisés, membros do Povo de Israel, participando plenamente da vida da comunidade e distinguindo-se do comum do povo por pretensões intelectuais, por ênfases dadas a certos caracteres da religião judaica — uns mais estritos na observação da lei, outros mais liberais —, mas vivendo juntos e constituindo um único povo, o Povo de Israel.
Os membros da Comunidade de Qumran constituem um povo à parte, completamente separado de Israel, recusando o culto do Templo, a autoridade do Sumo Sacerdote, bem como a do Sinédrio, recusando o contato com os outros judeus declarados "infiéis", vivendo em comunidades separadas do resto do povo, frequentemente longe dos grandes centros.
Eles assinaram uma "Nova Aliança", portanto uma aliança distinta da de Moisés; vivem "na terra de Damasco", ou seja, no exílio, por vezes "no deserto", isto é, longe do povo judeu. Dispõem de suas próprias leis, seus juízes, seus tribunais. Eis o que Filo não podia saber e o que Josefo pressente.
Não se notou o suficiente, de fato, que o povo judeu vive sob um regime teocrático, que a autoridade política e judiciária é exercida pela autoridade religiosa, e que o ocupante romano respeitou essa autoridade e recusou-se a substituí-la. Não se compreendeu que uma Comunidade judaica, ao recusar a autoridade religiosa, privava-se ao mesmo tempo de toda organização social, judiciária e política, escapando, portanto, a todo direito público. Era-lhe necessário, então, reconstituir um código de leis, tribunais, sanções, etc. Enfim, organizar-se politicamente. Ora, é isso que o "Manual de Disciplina" nos apresenta: disse-se que esses "seccionários" (?) eram estritos observadores da lei de Moisés, rígidos cumpridores das observâncias legais, etc. No entanto, a verdade é bem outra: em termos de respeito à lei mosaica, eles agem com liberdade; rejeitam os sacrifícios de sangue, o culto do templo, utilizam seu próprio calendário litúrgico, praticam o celibato em larga escala e a comunidade de bens. Tudo isso os obrigava a redigir novas leis adaptadas ao seu novo modo de vida, a constituir uma nova autoridade política e judiciária, distinta da autoridade religiosa, a dos "mebeqqer" ou "vigilantes", ao lado da dos "sacerdotes".
E esta nova estrutura social, provocada pelas necessidades de uma dissidência religiosa, deu origem a um fenômeno bem observado por Flávio Josefo. O membro da comunidade, rejeitado por uma excomunhão, encontra-se completamente isolado, privado de qualquer direito. "O rejeitado (ἀποληγμένος) caminha para uma morte espantosa". Evidentemente, ele não pode recorrer a ninguém para reclamar seu direito, certamente não à antiga autoridade judaica, que o considera um renegado e que ele próprio rejeitou. Nem, tampouco, à autoridade romana, que se recusava a intervir. Veja-se a resposta do procônsul Galião a São Paulo: "Se se tratasse de uma injustiça ou de um grave crime, eu vos ouviria; mas se é um litígio doutrinário sobre palavras e sobre vossa lei, isso é convosco; eu me recuso a julgar esta matéria". Da mesma forma, o tribuno Lísias ao governador Félix: "Quis saber exatamente do que o acusavam (São Paulo) e o fiz comparecer diante do Grande Conselho (= o Sinédrio). Descobri que o incriminavam por questões relativas à lei deles, mas sem nenhuma acusação que merecesse a morte ou a prisão".
É necessário, portanto, encontrar nos textos da época, além desses, a existência de tal comunidade, judaica por suas origens, mas constituindo um Povo novo. Ninguém apresentou tais textos.
3° Não se notou suficientemente — aliás, rejeitou-se com desdém — esta objeção que me parece considerável:
A existência dos essênios é passada sob um silêncio total pelos Evangelhos, pelos Atos dos Apóstolos, pelas Epístolas, enfim, por todo o Novo Testamento. Mais ainda, não há qualquer menção a eles entre todos os escritores eclesiásticos durante os primeiros séculos da vida da Igreja. O primeiro Padre da Igreja que os menciona é São Jerônimo, que apresenta os Terapeutas de Filo como monges cristãos, e depois os essênios como uma seita herética. Ora, estas são menções muito tardias e distantes demais dos acontecimentos narrados para serem absolutamente seguras.
Quanto ao silêncio da primeira geração cristã, ele é propriamente inconcebível. Como assim? Teria existido, ao lado dos primeiros discípulos de Cristo, outros judeus piedosos, empregando quase a mesma linguagem, ensinando a mesma doutrina, utilizando até "expressões idênticas" — como aquelas que o Padre Daniélou enumerou e explicou longamente — e eles nada teriam sabido disso? Não teria havido entre uns e outros controvérsias, pedidos de explicação, como houve entre os discípulos de Cristo e os de João Batista? "Mestre, dizeis que... Mas o 'Mestre da Justiça' diz que... ou disse que... Sois vós um novo profeta?... Sois o Mestre da Justiça que voltou entre nós? etc." Após a morte de Cristo, os apóstolos deveriam alertar os outros fiéis contra seitas cujo ensino era muito próximo ao seu, mas que poderia conter, aos seus olhos, erros dos quais era preciso preveni-los. No entanto, eles nunca o fizeram. Mais ainda: quando judeus pediam o batismo, deveriam manifestar que rejeitavam os erros dos fariseus e dos saduceus, mas não se falava dos essênios.
Este silêncio total dos textos cristãos encontra uma explicação muito simples, se admitirmos que estes "essênios", estes "Santos", estes "Pobres" de Deus, estes "Filhos do Justo", são eles próprios os primeiros cristãos. É a única explicação verdadeiramente adequada à dificuldade. Ela a resolve perfeitamente. Veja-se, aliás, a sua própria linguagem: Jesus Cristo é o "Justo". São Pedro o diz no templo: "Vós negastes o Santo e o Justo". Santo Estêvão: "Eles mataram aqueles que prediziam a vinda do Justo, a quem vós, agora, traístes e assassinastes". Os fiéis do Justo são os "Santos". Ananias responde ao Senhor: "Senhor, ouvi de muita gente todo o mal que este homem (= Saulo) fez aos Santos de Jerusalém"; e voltando-se para Saulo: "O Deus de nossos pais te predestinou a conhecer a sua vontade, a ver o Justo...". São Pedro, em Lida, desce também à casa dos "Santos"; e nas Epístolas de São Paulo, os "Santos" designam habitualmente os fiéis da comunidade de Jerusalém, que fizeram voto de pobreza — são também os "pobres" (ebionim) — e para os quais é necessário fazer coletas nas outras igrejas.
Se se recusa esta identificação, será preciso explicar adequadamente o silêncio de todo o "Novo Testamento" sobre os essênios.
4° J. L. Teicher defendeu a identificação entre Essênios e Ebionitas. Esta solução não foi aceita pela maioria dos estudiosos. Existem, contudo, fatos no mínimo perturbadores.
a) A descoberta, em 1878, de um manuscrito do Deuteronômio por um antiquário de Jerusalém, W. Shapira, em outra gruta situada na margem oriental do Mar Morto. Na época, esse manuscrito foi declarado falso. No entanto, Teicher pôde constatar que sua escrita é inteiramente semelhante à dos fragmentos de Qumran.
Melhor ainda! O texto desse Deuteronômio contém acréscimos e omissões; nele encontram-se frases inspiradas nos Evangelhos. Isso só pode ser obra de um judeu-cristão. Esta descoberta corrobora a carta do Patriarca Timóteo: "Eles encontraram os livros do Antigo Testamento e outros livros em escrita hebraica. E como aquele que falava comigo era um conhecedor da Escritura e um douto, interroguei-o sobre várias passagens que, no Novo Testamento, são dadas como tiradas do Antigo, mas que não se encontram em lugar algum no Antigo, nem entre nós, cristãos, nem entre os judeus". Ele me disse: "Eles existem e estão nos livros lá encontrados"... "Então, escrevi sobre isso ao nobre Gabriel e também ao Metropolita de Damasco para que examinassem esses livros e vissem se em algum lugar nos Profetas se encontra o texto: 'Ele os chamou de Nazarenos...' Este hebreu me disse: 'Encontramos nesses livros mais de duzentos salmos de Davi'. Escrevi, pois, a eles a esse respeito..."
A história do manuscrito Shapira lança dúvidas sobre a tese de uma biblioteca essênia enterrada para escapar ao massacre e ao saque dos romanos em 70. Assim sendo, existiam documentos semelhantes aos de Qumran, encontrados em outras grutas, além do Mar Morto, na Pereia ou nos Montes de Moabe. Ora, sabemos que após a morte de Santo Estêvão, os judeus-cristãos, apavorados pelos primórdios de um massacre geral, fugiram para essas regiões, perseguidos, aliás, pelos homens do Sinédrio. Essas grutas poderiam muito bem ser locais de refúgio momentâneo durante as perseguições do Sinédrio. Ali eles depositavam seus textos sagrados. Não é necessário, portanto, imaginar uma estada habitual em locais tão inóspitos, muito menos uma prática religiosa resultante de um voto ou de uma regra monástica (que desconhecemos).
b) Santo Epifânio declara em certo ponto que os "Essênios", antes de portarem esse nome, chamavam-se "Nazarenos". Daí se vê que eram judeus-cristãos. Mas Santo Epifânio quer fazer deles uma seita herética. É aqui que se deve precisar um ponto no qual o Padre Daniélou insistiu: a mesma comunidade pôde portar simultânea ou sucessivamente várias denominações. Por outro lado, é fácil para um heresiologista classificar os heréticos e colocar neles etiquetas. Nos primeiros tempos da Igreja, era mais difícil discernir bem o sentido de tal ou qual expressão tirada do ensinamento de Cristo, e divergências podiam aparecer sem que, por isso, se fosse infiel a esse ensinamento.
c) Entre os salmos de ação de graças descobertos em Qumran, encontram-se fórmulas propriamente cristãs: "Tu conheces meus pensamentos e em minhas angústias me consolaste. É, pois, pelo perdão que me tornarei solícito e me apiedarei daquele que pecou primeiro... Pois Tu, melhor que meu pai, me conheceste e desde o seio de minha mãe me protegeste... Até a velhice, Tu, provê ao meu sustento. Pois meu pai não me conheceu e minha mãe me abandonou a Ti. Pois Tu és o Pai para todos os... e Te regozijas com eles. Como um misericordioso para com uma criança e como um nutridor para com aquele que segura no colo, Tu dás o alimento a todas as criaturas". Recontram-se aqui os pedidos do "Pai Nosso". O Padre Carmignac observava que a expressão "Nosso Pai" é propriamente cristã quando se dirige a Deus. Os judeus da Antiga Aliança aplicavam-na a Abraão e não podiam conhecer a filiação adotiva ensinada por Jesus.
d) Sob a tradução dada por Carmignac, encontram-se notas curiosas a respeito da expressão "ebionim", que retorna várias vezes no texto; uma nota assinala que existiam também "ebionitas" na primeira comunidade cristã. É dizer muito pouco e rejeitar apressadamente uma identidade possível.
A respeito da expressão "fé no Mestre da Justiça", a nota declara que não se deve atribuir a essa palavra o sentido da teologia católica, porque sabemos, por outro lado, que o Mestre da Justiça não é Jesus Cristo. Perdão! Por outro lado, nada sabemos de preciso, e a identificação Jesus-Mestre da Justiça é uma hipótese possível entre outras.
e) Costuma-se estabelecer um paralelo entre o ensinamento de Jesus e o do Mestre da Justiça para manifestar suas diferenças substanciais, após notar a identidade de certas fórmulas. Ora, esse jogo parece-me vão. De fato, se conhecemos bem o ensinamento de Jesus, ignoramos quase tudo sobre o do Mestre da Justiça, visto que não está exposto metodicamente em lugar algum e que seria preciso ter estudado o livro do Hegou para conhecê-lo. Parece muito mais sensato atribuir uma importância extrema à precisão ou à identidade das expressões do que comparar a substância de um ensinamento que nos escapa em grande parte ou cujas interpretações podem variar consideravelmente de um para outro.
As oposições apontadas entre Jesus e o Mestre da Justiça parecem-me muito artificiais e pouco seguras. "Jesus era galileu", diz o Sr. DUPONT-SOMMER, "o Mestre da Justiça era judeu". Como ele sabe disso? "Jesus era de linhagem real ('filho de Davi'), o Mestre da Justiça era sacerdote". Sem dúvida; mas é justamente essa a dificuldade com que se depararam os ebionitas judeus-cristãos, e foi necessária a Epístola aos Hebreus para explicar-lhes que Jesus, já rei enquanto Filho de Davi, era também sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (o rei justo).
"O ensinamento de Jesus era oral, o Mestre da Justiça compôs Hinos e Comentários". Afirmação gratuita: em lugar algum se diz nos textos de Qumran que o Mestre da Justiça tenha deixado um ensinamento escrito.
As oposições observadas pelo Padre DANIELOU são mais sérias:
a) Cristo rompia com as observâncias legais, ensinava a pureza interior do coração e não apenas a submissão à regra. Os discípulos do Mestre da Justiça são muito estritos quanto às observâncias. É verdade: mas essa era também a atitude dos ebionitas, que interpretaram o ensinamento de Jesus num sentido rigorista e por vezes se viram em oposição aos pagãos-cristãos: daí a querela sobre as observâncias mosaicas no primeiro concílio de Jerusalém.
b) Jesus buscava o contato com os pobres, os pecadores, os publicanos, pelos quais demonstrava uma preferência constante, sem desprezar, aliás, os justos que o cercavam. Os discípulos do Mestre da Justiça têm um horror profundo pelo contato com homens impuros, pecadores. Retiram-se para um meio íntegro, protegido contra o mundo exterior corrompido. Interpretam a pureza de maneira muito concreta, através de banhos e ritos purificadores. É também verdade; mas encontramos a mesma atitude entre os ebionitas e os judeus-cristãos da primeira igreja de Jerusalém: veja-se a indignação deles quando souberam que Simão Pedro fora jantar na casa de um gentio, comera carne proibida, etc., e os prodígios de diplomacia que o Chefe da Igreja teve de utilizar para evitar uma ruptura no interior da Igreja. Seria preciso precisar também que uma Comunidade ascética (tanto os ebionitas quanto o povo de Qumran) é, por vocação própria, dedicada ao afastamento do mundo, à solidão na oração, e que um "manual de disciplina" é, por definição, um conjunto de regras a serem observadas.
c) Não se poderia dizer que o Mestre da Justiça é Jesus Cristo visto pelos ebionitas, com deformações próprias à vida ascética e à mentalidade rigorista de judeus que permaneceram fiéis à lei de Moisés?
5° O problema da Ascia:
Sabemos que a Igreja de Lyon foi fundada diretamente por discípulos de São João Evangelista, vindos da Ásia Menor, em particular de Esmirna. É, portanto, uma Igreja apostólica, não ligada diretamente a Roma nem à evangelização de São Paulo, mas sim a uma comunidade judaico-cristã. Já sabemos que se encontra na obra de São João Evangelista uma multidão de fórmulas tipicamente qumranianas, como demonstrou o Padre Daniélou. Seria curioso encontrar nos usos culturais lioneses alguns vestígios de tal origem. Vejamos.
Flávio Josefo explica que se dava ao neófito uma machadinha (diminutivo de ascia, de onde vem hache em francês), um cinto e uma veste de linho branco. Mais adiante, em uma passagem um pouco complicada, ele declara que o essênio devia cavar o solo com uma picareta para ali enterrar seus excrementos, e que essa picareta não era outra senão a machadinha; sem perceber que um machado não é uma picareta e que é impróprio para cavar o solo. O fato é que este detalhe não pôde ter sido inventado, pois é afirmado com tal precisão por um homem que o observou pessoalmente, sem compreender o seu significado. Sabemos que ele permaneceu apenas um ano entre os essênios, e que eram necessários dois anos — como ele nos diz e como afirmam os manuscritos de Qumran — para ser verdadeiramente iniciado e admitido na comunidade.
Ora, precisamente na Igreja de Lyon, difundiu-se ao longo do segundo século depois de Jesus Cristo o uso das estelas funerárias com a "ascia", a machadinha em questão. O Sr. Carcopino dedicou a este símbolo cristão um estudo muito aprofundado: o uso da ascia é propriamente lionesês. Encontram-se algumas em Roma, em túmulos comprovadamente cristãos, um certo número na Gália, mas em grande abundância em Lyon. A propósito deste símbolo cristão, o Sr. Carcopino cita dois textos: São Lucas, em seu Evangelho, cita estas palavras de São João Batista, interpelando com vigor os judeus que o seguiam: "Eis que o machado já está posto à raiz das árvores". Assim sendo, aquele que deve vir cortará a árvore que não produz bons frutos. Vós, judeus, acreditais que estais salvos pela filiação de Abraão; doravante, será preciso fazer penitência, receber o batismo. Não podereis mais vos vangloriar de vosso nascimento. Este machado é Jesus, o Messias, que deve vir.
Da mesma forma, os essênios, embora permanecessem fiéis às prescrições da lei mosaica (e nem sempre), declaravam que era necessária uma Nova Aliança e um novo juramento, uma nova iniciação, para obter a salvação. Portanto, a filiação de Abraão não bastava mais.
Santo Ireneu, em seu "Adversus haereses", explica, citando o texto de São Lucas, que o Verbo de Deus assemelha-se à ascia, que a ascia se assemelha mais à cruz do que o arado e que, de resto, tal como o arado, a ascia mostrava o ferro unido à madeira do Verbo, de sorte que, semelhante a ela, o Verbo de Deus "emundavit silvestrem terram", limpou a terra selvagem.
Eis o que é claro: a ascia é um símbolo da cruz. Carcopino publica a foto de uma estela onde se vê o falecido, esculpido de corpo inteiro, segurando sua ascia sobre o peito como uma cruz.
Ora, Carcopino pretende que o uso da ascia nos túmulos tenha sido retomado dos pagãos. Ele fornece para isso dois exemplos que não são decisivos. A primeira estela com ascia conhecida é a de um soldado, Cornélio, na Ilíria, morto por volta dos anos 40 ou 50 d.C. Carcopino sustenta que o Evangelho ainda não havia penetrado naquela província nessa data, porque São Paulo ainda não havia passado por lá. Além do fato de que os soldados das legiões da Ilíria vinham da Ásia Menor, é perfeitamente possível que uma evangelização judaico-cristã tenha precedido São Paulo em suas viagens. Sabemos, por outro lado, que o centurião Cornélio havia se convertido com toda a sua "gens" e seus clientes.
O outro exemplo que ele fornece, com fotos de apoio, é um túmulo neopitagórico de Ravena, do século III da nossa era. Ele sustenta que a ascia seja um símbolo pitagórico; mas não diz de que símbolo se trata e não considera que uma cristã possa ter passado ao pitagorismo conservando alguns motivos decorativos cujo significado teria perdido.
À parte esses dois casos, a ascia é atestada como símbolo do Cristo, e os túmulos com ascia são certamente cristãos, como Carcopino demonstrou. Eles se multiplicaram na região de Lyon em pleno período de perseguição. Encontram-se em Roma, em túmulos judeus ou judaico-cristãos. Não são encontrados na Ásia Menor, nem no Oriente, mas apenas no Ocidente, onde os falecidos portam nomes em geral orientais, gregos ou semitas. É, portanto, um símbolo do Cristo, ao qual permaneceram ligadas comunidades cristãs do Oriente, transplantadas, pelo acaso das circunstâncias, para o Ocidente.
Mais ainda! Foram encontrados no manuscrito de Isaías e no do Comentário de Habacuc, à margem do texto, diversos sinais, em particular cruzes, especialmente diante das passagens propriamente messiânicas.
Teicher pretendia que fossem "X" gregos, iniciais do Cristo, o que parece improvável para homens tão apegados a um culto especificamente hebreu; outros quiseram ver ali uma cruz, o que é ainda mais improvável numa época em que o próprio culto cristão não a utilizava. Mas não se pensou na ascia. O sinal é traçado rapidamente; as duas barras não são nem retas, nem iguais. Ao examinar de perto certas pranchas do manuscrito de Isaías publicadas por Burrows, encontra-se várias vezes um sinal que se aproxima mais da ascia do que da cruz († ‡ ‡) (prancha V da edição de 1950).
Em conclusão, vê-se aqui uma singular convergência de sinais: o machado distribuído ao jovem neófito essênio; o texto de São Lucas, atribuído a São João Batista, sobre o machado como sinal do Cristo; os túmulos com ascia numa comunidade cristã de origem oriental; os sinais inscritos à margem de vários manuscritos de Qumran...
6° Jesus, o Essênio?
Poder-se-ia pensar que esta tese de um essenismo pré-cristão tivesse surgido, como que naturalmente, de um exame objetivo dos manuscritos do Deserto de Judá. Pois bem: nada disso! Esta tese é defendida há mais de um século; primeiro esboçada por Voltaire, desenvolvida por Renan, encontrou sua expressão acabada em "Os Grandes Iniciados", de Édouard Schuré. (3) Ela foi rejeitada, com justiça, por todos os historiadores e exegetas sérios, como uma lenda romanceada sem qualquer base sólida. Estava, portanto, enterrada, quando a descoberta de Qumran pareceu uma oportunidade maravilhosa para ressuscitá-la com todo o aparato da erudição.
Édouard Schuré coloca a questão-chave, aquela que não pode, de modo algum, ficar sem resposta: "Por que o silêncio guardado por Cristo e pelos seus sobre esta seita? Por que ele, que ataca com uma liberdade sem igual todos os partidos religiosos de seu tempo, nunca nomeia os essênios? Por que os apóstolos e os evangelistas também não falam deles?"
Eis aí, não é verdade, uma questão temível, à qual os teóricos de um essenismo pré-cristão não sabem o que responder. Eis a resposta de Édouard Schuré: "Evidentemente porque consideram os essênios como sendo dos seus, que estão ligados a eles pelo juramento dos Mistérios, e que a seita se fundiu com a dos cristãos".
E, para apoiar seus ditos, ele acrescenta que José e Maria eram essênios que escondiam seu voto de celibato sob o casamento — instituição imposta pela lei de Moisés —; que os essênios eram compostos por monges celibatários e por sectários casados constituindo uma "Ordem Terceira"; que Jesus retirou-se ao "deserto", ou seja, a Engaddi, onde recebeu o ensinamento dos Mestres da seita; que ele se submeteu à cerimônia de iniciação em uma gruta acima do Mar Morto, pelas mãos do chefe da ordem, o "Ancião" (obviamente Schuré não conhecia nem Qumran, nem o Mestre da Justiça; detinha-se no relato de Plínio, o Velho) com todo um aparato romântico ou wagneriano. Sua "retirada ao deserto" consistiria em uma estada em uma gruta em "ninho de águia", com "vários rolos dos profetas, figos secos, um fio de água e aromáticos fortificantes".
Essas considerações e outras foram prejudicadas pelas descobertas dos manuscritos, e o exame destes últimos foi empreendido à luz da teoria; o que comprometeu consideravelmente a objetividade do cientista. Por mais que se empregassem fórmulas dubitativas e o modo condicional, afirmou-se categoricamente a existência desse Ancião, o Mestre da Justiça, do mosteiro ao norte de Engaddi (portanto, em Qumran), da "Ordem Terceira" dispersa na Palestina, da "retirada ao deserto" (portanto, em Qumran), etc.
Ora, esta tese não se sustenta. Ela acumula as inverossimilhanças e as dificuldades mais insolúveis. Jesus teria recebido um ensinamento secreto, uma iniciação de uma seita preexistente e teria se contentado em apenas "adaptá-la" à multidão de pessoas simples que o cercavam na Palestina. Disse-se: "Jesus, um essênio que obteve sucesso", "o Cristianismo, um essenismo popularizado, etc.". Percebe-se, aliás, a intenção: retirar de Cristo a originalidade de seu ensinamento, a autoridade divina de suas afirmações ("... eu, porém, vos digo"), reduzir a fundação de sua Igreja à simples restauração de uma Igreja anterior, à difusão de uma "religião universal" transmitida por uma tradição esotérica, ou seja, a apenas mais uma fórmula de comunidade religiosa entre outras.
Mas, para que Jesus e seus discípulos pudessem ter guardado segredo sobre essa origem essênia de seu ensinamento, seria necessário que a própria seita essênia fosse secreta. Caso contrário, Jesus seria confrontado pelas perguntas de um ou outro de seus ouvintes: "Mas isso que o senhor nos diz, nós já ouvimos!!! Um Mestre da Justiça já o ensinara outrora... etc."
Ele teria sido confrontado ainda mais pelas acusações do Sumo Sacerdote e do Sinédrio durante seu processo: "Não sabes — teriam dito eles — que já condenamos à morte o Mestre da Justiça por ter dado, como tu, um ensinamento não conforme ao de Moisés?... De onde tiras tua doutrina? Ela já foi julgada por nós e rejeitada... Aqueles que a escutaram foram excluídos do reino de Israel, etc."
Ora, esta tese é incompatível com o que os documentos conhecidos dizem sobre os essênios: era uma comunidade numerosa, reputada inclusive fora da Palestina por sua santidade e prática das virtudes... Mas também os mesmos documentos falam de uma comunidade existente no século I depois de Jesus Cristo, e não antes dele. Sua assimilação à Igreja judaico-cristã de Jerusalém é uma tese possível: creio nela como provável, e nada mais. Ela deixa um certo número de dificuldades sem solução. Mas uma pesquisa nesta direção poderia, talvez, encontrar várias dessas soluções esperadas.
Por exemplo: em vez de dizer que Jesus se "retirou ao deserto", ou seja, a Qumran, entre os essênios, poder-se-ia, com igual ou maior verossimilhança, dizer o seguinte: os discípulos de Jesus, após sua fuga de Jerusalém e sua dispersão, buscaram os locais de estada de Cristo para ali estabelecer um centro de peregrinação, um cemitério, um retiro para a oração ou meditação, à imitação de seu mestre, etc.
Eis em que direção seria necessário buscar: não o que Jesus teria tomado emprestado de uma seita essênia, mas o que esta comunidade pôde reter, conservar e, talvez, deformar do ensinamento do "Mestre". É o que abordaremos em um próximo artigo.
E. C.
(1) É curioso notar os esforços desesperados empreendidos pelo Sr. DUPONT-SOMMER para traduzir a expressão "acima de Engaddi" por "ao norte de Engaddi". Ele quer, assim, fazer coincidir a estada dos essênios com a localização de Qumran. Sendo que os textos sobre as comunidades essênias as apresentam como dispersas na Palestina e, sobretudo, nos Montes de Judá entre Jerusalém, Hebron e Engaddi, onde foram encontradas inúmeras grutas de solitários e onde se instalaram posteriormente os monges cristãos de "Mar Saba". A necessidade de expor uma tese prematura resulta, assim, em falsear a tradução de um texto sem real necessidade.
(2) "Eu me enganei ao atribuir as jarras dos manuscritos à época pré-romana. Elas são um bom século mais tardias. Enganei-me também ao dizer que essas jarras haviam sido fabricadas especialmente para o depósito dos manuscritos: elas eram um modelo comum da olaria doméstica. Por fim, os fragmentos de marmita, de jarra e de lâmpadas encontrados na gruta são da mesma época que as jarras. Isso não prejulga a data dos manuscritos, que podem ser mais antigos, mas é decisivo para a data do depósito: ele foi feito no decorrer do primeiro século de nossa era." (Pe. de Vaux). Eis um belo exemplo de humilde franqueza.
(3) Em 1889 [o original diz 1927, possivelmente um erro de data da fonte], Édouard Schuré publicou uma obra que causou sensação: "Os Grandes Iniciados — esboço da história secreta das religiões: Rama, Krishna, Hermes, Moisés, Orfeu, Pitágoras, Platão, Jesus", na qual explicava que uma Revelação secreta teria sido transmitida desde a Índia até Jesus Cristo, e onde reencontramos todas as teses clássicas da Gnose, sendo Jesus Cristo o último e o maior dos Iniciados. Ao fazê-lo, difundia para o grande público as teorias teosóficas e antroposóficas em voga há muito tempo nos círculos de iniciados.