INTRODUÇÃO HISTÓRICA ao ESTUDO do ECUMENISMO - 2
Este artigo, como muitos outros neste Boletim, não deve ser lido isoladamente: faz parte de um conjunto, como indica o algarismo "2" junto ao título, e só tem interesse se for estudado na sequência do artigo "1", publicado no Boletim nº 7, que apresentava o plano geral.
Este panorama das múltiplas seitas protestantes não poderá, aliás, ser realizado em um único artigo, sendo distribuído por dois sumários sucessivos.
O LEQUE das SEITAS PROTESTANTES da REFORMA à REVOLUÇÃO
"As seitas protestantes são as mil portas abertas para sair do cristianismo" – Edgar Quinet
Uma piada eclesiástica afirma que Deus, embora onisciente, ignora três coisas, sendo a mais incognoscível o número de congregações religiosas femininas! (1). Na mesma linha, poder-se-ia sentir a tentação de acrescentar um quarto exemplo a essas eventuais "ignorâncias divinas": a variedade das seitas protestantes, quase inumeráveis e desenhando todo o leque de posições doutrinárias.
Gostaríamos de tentar, no estudo abaixo, pintar os traços principais dessa coleção, cientes de que a infinidade de detalhes nos escaparia inevitavelmente em poucas páginas; o essencial é evocar as linhas mestras, podendo cada um preencher por si mesmo as lacunas sem risco de erro, pois, nesta matéria, quase tudo o que é possível foi realizado em um momento ou outro.
Se é clássico situar o início da Reforma em 31 de outubro de 1517, dia em que o monge agostiniano Martinho LUTERO afixou suas 95 teses na porta da capela do castelo de Wittenberg, também não resta dúvida para ninguém de que esse ato de revolta foi, tanto um ponto de partida quanto um ponto de chegada: o ápice da evolução pessoal de LUTERO e da evolução de um certo número de homens ao seu redor, em seu meio e em seu tempo; e também a realização de inúmeros esboços feitos nos séculos anteriores.
É por isso que nos parece justificado incluir em nosso leque não apenas os prolongamentos da Reforma do século XVII ao XX, mas também as preliminares da Idade Média: o quadro será, assim, mais fiel e evocativo.
O primeiro exemplo de comunidades onde se podem encontrar certos traços que seriam mais tarde os dos grupos reformados situa-se na Ásia Menor, entre as atuais Armênia e Iraque, no século IV. Uma multidão de pequenas seitas autônomas, embora ligadas entre si, recusando qualquer vínculo com a Igreja oficial, mais ou menos montanistas (2), mais ou menos maniqueístas (3), aceitavam apenas convertidos adultos e enfatizavam a pobreza, enquanto missionários itinerantes asseguravam a ligação entre elas: são as seitas paulicianas.
Inimigos das imagens por definição e acima de tudo, os paulicianos foram alvo do Império Bizantino durante a querela iconoclasta no século VII; depois, a chegada do Islã no século VIII concluiu sua dispersão. Devido a migrações mais ou menos voluntárias ou forçadas, muitos de seus elementos estabeleceram-se na região de Constantinopla e, depois, na Europa, na Trácia e na Bulgária: tomaram então o nome de bogomilos (amigos de Deus) ou búlgaros, ou até mesmo bougres; continuaram, naturalmente, a ser perseguidos por Bizâncio e, depois, pelo Islã tornado europeu, o que provocou seu desaparecimento, ao menos aparente, por volta do século XV.
Foram missionários desses grupos que espalharam o catarismo no norte da Itália e no sul da França no século XII: a tendência gnóstica e maniqueísta apareceu então em plena luz, resultando na distinção entre Perfeitos e simples fiéis, o que nos afasta, apesar de tudo, da concepção protestante.
No século seguinte, o XII, a multidão de grupos que surgem no norte da França sob a influência de pessoas como Arnaldo de Bréscia, Pedro de Bruys e Henrique de Lausanne também são marcados pelo pensamento gnóstico, e desembocam mais frequentemente em uma erótica sagrada do que no ascetismo.
Nos valdenses, por outro lado, discípulos de Pedro Valdo, ou "pobres de Lyon", encontra-se tudo o que constituirá a estrutura do pensamento reformado, sem traços de gnosticismo: primazia da Escritura sem a Tradição, recusa da Missa e da Presença Real, do purgatório e do culto às imagens e aos santos, do juramento e do serviço militar. Excomungados em 1184 e expulsos, espalharam-se por toda a Europa e retiraram-se finalmente para os altos vales dos Alpes.
No norte da Europa, surgiram tendências comparáveis que conseguiram, no entanto, manter-se no seio da Igreja: são os beguinários na Flandres, os Amigos de Deus na Alsácia e na Suíça, e os Irmãos da Vida Comum na Holanda. Apenas o teólogo mais proeminente dessa corrente, o dominicano chamado pelo nome revelador de "Mestre Eckhart", não pôde evitar ser condenado, enquanto a maioria de seus discípulos passou pelas malhas da rede e espalhou seu pensamento no seio da Igreja sob uma forma atenuada.
Na Inglaterra, foi Wycliffe, padre secular e universitário (1324-1384), quem lançou o movimento antirromano e anticatólico, denunciando a doutrina da Transubstanciação, dos méritos e das obras. Seus discípulos, sob o nome de lollards, apesar de inúmeras condenações, continuaram sua obra e mantiveram a Inglaterra em um espírito de pré-reforma.
Na Boêmia, em Praga, Jan Hus (1369-1415) introduziu as ideias de Wycliffe que conhecera em Oxford; seguiram-se distúrbios e depois uma verdadeira guerra civil, mergulhando o país em fogo e sangue durante anos. Tendo a ortodoxia católica finalmente vencido, o núcleo dos irredutíveis formou o grupo chamado de "unidade dos irmãos" ou "irmãos morávios", que reencontraremos mais tarde no emaranhado das seitas protestantes.
Não fazendo aqui a história das origens da Reforma, mas buscando apenas identificar os grupos preexistentes, passaremos sem nos deter sobre o vasto problema do humanismo e da influência judaica, abordando diretamente as primeiras etapas da Reforma.
ooOoo
Alguns historiadores propuseram o emprego da palavra "Reforma" no plural, pois o hábito do singular que prevaleceu — e que expressa, aliás, um fundo unitário muito real — apresenta o inconveniente de mascarar uma diversidade igualmente certa, que se deve tanto aos princípios quanto às origens, tanto de pessoas quanto de lugares.
Ao contrário do que se poderia imaginar, a diversidade não se desenvolveu apenas com o tempo e com a incompreensão de herdeiros infiéis: as divergências estavam, pelo contrário, incluídas nas próprias fontes da Reforma, que surge como uma explosão disparando em todas as direções ao mesmo tempo.
LUTERO e CARLSTADT
O primeiro exemplo é quase anterior à própria Reforma. Três anos e meio após a afixação das 95 teses em Wittenberg — anos de confrontos, debates, colóquios e polêmicas —, Lutero é finalmente banido do Império por Carlos V, graças ao Édito de Worms em maio de 1521. Seu amigo e protetor, o Eleitor Frederico da Saxônia, mandou sequestrá-lo e o escondeu em seu castelo de Wartburg, onde ele passou dez meses trabalhando em segurança.
Enquanto isso, em Wittenberg, o movimento da Reforma desenvolvia-se... sem Lutero. A liderança havia escapado de Melâncton — discípulo fiel, mas um intelectual jovem e tímido — e fora ocupada por Carlstadt, enérgico e radical. Em poucos meses, este introduziu reformas determinantes: em outubro de 1521, deu a comunhão sob as duas espécies; no Natal de 1521, iniciou a missa alemã; em janeiro de 1522, esvaziou as igrejas de todas as suas imagens e editou um regulamento despojando o culto de todos os seus elementos católicos. De uma forma mais geral, influenciado por dois amigos tecelões de Zwickau, Carlstadt inclinava-se então para o "iluminismo espiritual": tendia a seguir os "movimentos interiores do Espírito" em vez da "autoridade da Bíblia" e, em fevereiro de 1522, reivindicava para o povo cristão o direito de se autogovernar.
A reforma luterana assumia assim um aspecto curioso logo em seu nascimento; por isso, Lutero pouco hesitou e, apesar do risco de cair nas mãos do Imperador, deixou seu retiro e voltou a Wittenberg em março de 1522. Através de uma série de sermões muito firmes, retomou o controle sobre os habitantes da cidade e restabeleceu prontamente o culto em latim, os paramentos litúrgicos e a comunhão sob uma única espécie; foi somente em 1526 que ele, por sua vez, começou a introduzir novamente modificações no culto.
LUTERO e ZWINGLIO
A segunda divergência, certamente uma das mais fundamentais, opôs a reforma alemã e a reforma suíça na questão da Eucaristia.
Teólogo e pároco de Glaris, Zuínglio evoluiu para a Reforma entre 1515 e 1520 e, em 1522, casou-se com a viúva de um rico zuriquense; em agosto de 1522, publicou uma obra refutando o mandamento episcopal que tendia a reagir contra as primeiras desordens reformistas e afirmou reconhecer apenas a autoridade da Escritura.
Em janeiro de 1523, o conselho municipal convocou uma disputa teológica: nesta ocasião, Zuínglio redigiu suas 67 teses, que foram adotadas pelo referido Conselho, bem como o programa prático que delas decorreu — isto apesar da oposição do bispo de Zurique. Em seguida, Zuínglio acrescentou seu comentário às 67 teses, no qual foi até o fim de seu pensamento: empreendeu então a reforma da liturgia zuriquense, suprimindo o latim e atribuindo um papel de simples memorial à Eucaristia, da qual negava qualquer caráter sacrificial. Posteriormente, ele retornou várias vezes a esta questão em diversas obras, em 1526 e 1527.
Essas visões eram igualmente compartilhadas pelo reformador de Basileia, Escolampádio; pelo de Estrasburgo, Martinho Bucero; e por muitos outros, mas não por Lutero e seus amigos: a Reforma encontrava-se, assim, dividida e, portanto, enfraquecida, cinco anos após o impacto de Wittenberg.
Após a segunda Dieta de Espira, Carlos V, que tinha então as mãos livres na Europa, tornou-se novamente um perigo para os príncipes protestantes minoritários: desejoso de unir as forças reformadas, o conde Filipe de Hesse promoveu em 1529, em Marburgo, um encontro entre os teólogos protestantes da Alemanha e da Suíça.
As duas teses confrontaram-se duramente e tornaram-se inconciliáveis: enquanto Lutero, embora negasse a transubstanciação católica, afirmava que Cristo estava presente na Ceia, Zuínglio não se contentava em negar a transubstanciação, mas afirmava ainda que as palavras da instituição, "Isto é o meu corpo", deveriam ser compreendidas apenas de forma simbólica. Um texto foi finalmente assinado detalhando os pontos de acordo e, sobretudo, de desacordo.
ZWINGLIO e os ANABATISTAS
A terceira divergência, à primeira vista talvez menos importante, foi na realidade muito grave e bastante complexa de expressar, pois comporta muitos graus e matizes; tomamos aqui o caso de Zurique, mas houve muitos outros.
Já em 1523, formou-se entre os reformados de Zurique um foco de oposição que reunia pessoas que achavam que os Reformadores não iam nem suficientemente rápido, nem suficientemente longe. Esses radicais censuravam Zuínglio, especialmente, por vincular as reformas religiosas às decisões do poder temporal — ora o poder dos príncipes, ora o poder dos conselhos das cidades livres, como em Zurique —, enquanto eles próprios questionavam a autoridade do Conselho: recusando qualquer juramento, bem como o uso de armas, reivindicavam o direito de nomear seus próprios pastores e rejeitavam o batismo de crianças (daí o nome de anabatistas, pois batizavam novamente os adultos).
Zuínglio respondeu primeiro com escritos sobre o Estado cristão e sobre o batismo de crianças, depois com disputas públicas; como a onda contestatória aumentava, o Conselho temeu e mandou prender os líderes anabatistas e, finalmente, considerando que um deles, Manz (Mauz), culpado pela água (do batismo), deveria perecer pela água, mandou afogá-lo no lago. O movimento batista extinguiu-se então em Zurique, mas estendeu-se pela Alemanha, Áustria e Morávia.
Os ANABATISTAS
É preciso ter consciência de que, sob esta etiqueta comum, escondem-se de fato tendências bastante diversas e redes humanas que não parecem mais ligadas a um território determinado, mas que se federam individualmente em torno de um homem de talento, um líder mais ou menos carismático.
O primeiro grupo a praticar a separação entre Igreja e Estado foi constituído em 21 de janeiro de 1525, em Zurique, entre os discípulos (dissidentes) de Zuínglio, tendo como líderes Conrad Grebel e Felix Manz; não aceitando como membros senão adultos, cristãos que professavam e praticavam a não conformidade com o mundo, o movimento chamado dos "Irmãos de Zurique" foi perseguido pelo Estado zuriquense devido ao seu radicalismo, mas estendeu-se rapidamente a outras cidades e, em 1527, uma confissão de fé chamada de "Schleitheim" definiu suas posições doutrinárias.
Outro ramo foi fundado por Gaspar de Schwenkfeld; conselheiro do duque da Silésia (oeste da atual Polônia), ele adotou as ideias de Lutero em 1519 e começou a pregar nesse sentido. Em 1525, foi a Wittenberg ver Lutero, mas não tardou a afastar-se dele e, em 1527, estabeleceu sua própria concepção de Igreja na linha anabatista, o que resultou em perseguição por parte dos luteranos. Em 1529, foi para Estrasburgo, onde suas concepções o aproximaram de Bucero, mas, em 1534, rompeu com este e retomou suas peregrinações no Leste e no Sul da Alemanha, constituindo comunidades cujos membros se reuniam para rezar e cantar, lendo e comentando a Bíblia, sem praticar um culto que lembrasse a Missa católica ou mesmo a Ceia protestante.
Para ele, não apenas o batismo de crianças estava excluído, mas o batismo de adultos também não tinha muita importância e, sem ser suprimido, possuía apenas um valor simbólico e facultativo.
Seus discípulos multiplicaram-se a partir de 1540, nomeadamente em Württemberg, onde uma comunidade próspera foi criada nas terras de Justingen, cujo senhor se aliara à seita. Por volta de 1544, encontram-se comunidades na Suábia e nos Grisões. Após a morte de Schwenkfeld, em 1561, em Ulm, seus discípulos foram atacados tanto pela Igreja Católica quanto pelos luteranos, resultando em uma situação difícil; mais tarde, Zinzendorf acolheu-os em suas terras e uma grande parte da comunidade partiu para os EUA, na Pensilvânia.
Mas o mais célebre desses líderes anabatistas é, sem dúvida, Menno Simons; nascido em Witmarsum, na Frísia, em 1496, e ordenado padre católico em 1524, em Utrecht. Deixou a Igreja em 1536, casou-se e juntou-se ao movimento anabatista, do qual se tornou um dos principais animadores; exerceu um ministério muito conturbado na Frísia, na Holanda e no noroeste da Alemanha; depois, expulso dessas regiões, dirigiu-se para Holstein e para o Báltico, falecendo em 31 de janeiro de 1565.
Ele rejeitava o batismo das crianças de crentes — que era o sinal da Aliança da Graça segundo a doutrina reformada — e ensinava que o batismo só pode ser dado a crentes adultos e decididos a levar uma vida de discípulos de Cristo; não admitia, portanto, em seu grupo senão cristãos professos. Por fim, enfatizava que o princípio do amor fraterno e da não violência deve ser aplicado em todas as circunstâncias da vida.
Essas concepções foram rapidamente consideradas perigosas pelos outros reformados, que não aceitavam o princípio de uma separação entre Igreja e Estado, e foi somente muito mais tarde que as Igrejas de tradição calvinista retomariam este ponto de vista.
Por outro lado, Menno Simons não tinha pontos em comum com os teocratas milenaristas, os antitrinitários e os agitadores sociais que frequentemente são designados sob a etiqueta global de anabatistas, como os de Münster.
Menno Simons pode, assim, ser considerado um dos principais doutores das seitas que hoje portam o nome de igrejas menonitas e, de forma mais geral, das igrejas batistas espalhadas sobretudo nos países anglo-saxões, embora nem todos os seus herdeiros espirituais tenham mantido suas posições não violentas.
A ORGANIZAÇÃO REFORMADA
Acabamos de abordar um problema de múltiplos aspectos que não deixará de dividir infinitamente os reformados ao longo dos séculos e em todos os países, de modo que convém nos determos um pouco nele e examiná-lo em seu conjunto, tal como se apresenta por volta de 1530.
Este problema da organização a ser dada às comunidades reformadas não envolve apenas dificuldades práticas, mas também, e primordialmente, graves questões teóricas: de um lado, as relações entre o Espiritual e o Temporal, entre a Igreja e o Estado; de outro, o critério de recrutamento dos fiéis, que seriam ou todos os batizados — bons, medíocres e maus — ou apenas os "convertidos".
Não era, certamente, uma questão nova: Deus sabe o quanto a Igreja a conhecera, mas, até então, o peso da instituição a orientara no sentido da unidade, enquanto no âmbito da Reforma, e sob o efeito da tempestade doutrinária, é praticamente sempre a multiplicidade que prevalecerá.
Tanto quanto os pontos de teologia pura, temos aqui um dos principais fatores de fragmentação da Reforma: no fundo, não há razão para separar verdadeiramente as questões de organização dos aspectos doutrinários, pois trata-se, de fato, das diversas facetas de um único problema.
Retomemo-lo aqui em seu nascimento, antes de vê-lo se desenvolver e se singularizar nos séculos seguintes.
A palavra "Reforma" constitui, aliás, a primeira ambiguidade que deve ser desfeita, pois faz crer em um movimento que teria desejado reformar a Igreja, isto é, despojá-la de suas escórias para devolvê-la a si mesma, o que, de fato, foi realizado cem vezes em uma multidão de concílios. Ora, o projeto da Reforma era bastante diferente: como escreveu o historiador Lucien FEBVRE a propósito de Guilherme Farel, "o que ele censurava no padre não era o viver mal, mas o crer mal". O verdadeiro objetivo era, portanto, implodir a instituição eclesial para transformar os meios de salvação e, finalmente, operar uma mutação na Fé.
A partir desta base comum — e única comum —, as opiniões dos Reformadores divergiram; opiniões teóricas e práticas, ambas profundamente imbricadas pela natureza das coisas e, por vezes, mais do que os próprios reformadores teriam desejado.
Já vimos a posição de Zuínglio em Zurique; examinemos a de Lutero na Alemanha. Desde o início, como mencionamos acima, Lutero enfrentou uma tentativa de superação radical e o controle das operações quase lhe escapou. Pouco depois, teve de tomar partido diante da revolta dos cavaleiros e, depois, da revolta dos camponeses, ainda mais dramática. Por convicção e por necessidade (as circunstâncias mal lhe deixavam escolha), Lutero tomou o partido dos Príncipes e avalizou os massacres de camponeses: viu-se então ligado aos Príncipes de maneira definitiva e, com ele, a causa da Reforma germânica.
No rescaldo da guerra dos camponeses, em 1526, os Príncipes unidos na Liga de Torgau empreenderam a organização da difusão da Reforma. Em outubro de 1526, o Príncipe Filipe de Hesse, auxiliado pelo teólogo e ex-franciscano François Lambert, elaborou um projeto de constituição que previa a criação de comunidades de crentes dotadas de um regime sinodal: em cada local, a autoridade seria detida pela assembleia dos fiéis presidida pelo pastor, sendo a ligação assegurada regionalmente por um sínodo anual.
Lutero foi hostil a este projeto e fez adotar, em seu lugar, o sistema das "inspeções": cada Príncipe designava uma comissão de teólogos que inspecionaria as comunidades e examinaria a fé e os costumes dos pastores. Nas cidades livres, foi o Conselho que nomeou esta comissão; assim, a autoridade civil via-se investida, ao menos indiretamente, da autoridade espiritual, traço que se reforçaria nas regiões luteranas.
Vejamos agora a situação em Estrasburgo, cidade livre situada na confluência da França, da Suíça e da Alemanha.
O reformador de Estrasburgo, o ex-dominicano Martinho Bucero (1491-1551), fora inicialmente um discípulo de Lutero; mas, influenciado pelo ex-beneditino Escolampádio, reformador de Basileia, elaborou aos poucos uma eclesiologia diferente, defendendo uma igreja dos redimidos e não mais uma igreja da multidão; sua concepção era, portanto, próxima à dos anabatistas.
Mas os excessos (notadamente sociais) de certos anabatistas e a oposição tanto do Conselho da Cidade quanto da maioria dos pastores fizeram fracassar os esforços de Bucero, que desejava "uma segunda reforma" para reunir a "comunhão dos santos" no meio dos fiéis, ou seja, segundo sua expressão, constituir uma "ecclesiola in ecclesia".
Uma tentativa foi feita nesse sentido por volta de 1525, mas diante das hostilidades do Conselho de Estrasburgo contra ele, Bucero retirou-se em 1549 [o texto original diz 1526, provavelmente erro histórico da fonte] e seus discípulos foram então dispersos.
O caso de Bucero é particularmente interessante por nos mostrar um homem no cruzamento das tendências que dividiam os reformados desde aquele momento. Começou sendo luterano, depois foi atraído por Zuínglio; afastando-se ainda de Lutero e mesmo de Zuínglio, inclinou-se para uma igreja de professantes, aproximando-se assim dos anabatistas: mas recusava-se a levar a fórmula até o fim como eles, buscando apenas reunir uma rede de convertidos no seio da igreja de fiéis comuns, permanecendo sob o controle do poder civil.
De fato, os poucos princípios básicos subjacentes a todas essas situações concretas tão complicadas são muito simples e podem ser reduzidos a três: a natureza da Igreja, o Batismo e a Eucaristia; e foram as circunstâncias, frequentemente políticas, bem como o caráter dos homens, que conduziram ao imbróglio que é a história da Reforma.
O último quadro desta visão nos é fornecido pela concepção calvinista. Nascido em 1509, Calvino não pertence à primeira geração dos reformados, e sua ação determinante em Genebra situou-se após 1540; ele pôde, portanto, conhecer as diversas soluções empregadas antes dele, bem como seus inconvenientes, tanto mais que peregrinou por diversos lugares após sua partida da França: Basileia, Genebra (em sua primeira fase) e Estrasburgo, onde cuidou dos refugiados franceses.
Ao retornar a Genebra, instaurou a ditadura que é conhecida por todos; aboliu o episcopado e, mais ainda que Lutero, diminuiu a distância que separava o clero dos fiéis. Do ponto de vista da estrutura, sua solução é original: uma comissão, três quartos leiga e um quarto eclesiástica, o Consistório, dirige a igreja e lhe assegura independência em relação à sociedade civil; mas, ao contrário da concepção dos anabatistas, o Estado deve proteção à Igreja e não deve tolerar grupo religioso rival: deve banir os católicos e os heréticos e, se o Estado não cumprir seu papel religioso, são os notáveis e, sobretudo, a aristocracia que devem agir pelas armas, se necessário.
A EXPANSÃO DAS REFORMAS
A partir desta breve análise, compreende-se melhor a forma assumida pela expansão da Reforma nas diversas regiões da Europa.
Nos países germânicos e monárquicos, instalou-se o luteranismo, frequentemente imposto pelo Príncipe: assim, na Prússia, o Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos secularizou-se e passou para o protestantismo com todo o seu território; o mesmo ocorreu na Livônia, com a Ordem dos Cavaleiros Porta-Espada.
O mesmo fenômeno produziu-se na Suécia com o Rei Gustavo Vasa e, na Dinamarca, com o Rei Cristiano III.
Nas cidades livres da Suíça e da Alsácia, ao contrário, impôs-se desde logo a fórmula zuingliana e, depois, a calvinista.
Na França, os primeiros protestantes eram de tendência luterana e é provável que, se o Rei tivesse aderido à Reforma — como todo um partido, incluindo sua irmã, o incitava —, o luteranismo teria dominado; mas o rei permaneceu católico por diversas razões, entre elas a Concordata de 1516, e a Reforma desenvolveu-se na França contra o Estado e adotou o calvinismo: contava com dois mil centros em 1559.
Na Escócia, John KNOX, exilado e convertido ao calvinismo em Genebra, ao retornar ao seu país, converteu a nobreza e, em 1560, instalou um calvinismo de Estado, o que é um caso um tanto particular.
Um elemento que complica muito as coisas é o fato de que, especialmente após a morte dos grandes fundadores — Zuínglio, Lutero —, os grupos protestantes evoluíram incessantemente: assim, na Suíça alemã, os zuinglianos passaram ao calvinismo; o mesmo ocorreu com o Hesse e o Palatinado que, de luteranos, tornaram-se calvinistas, enquanto as outras regiões da Alemanha permaneceram luteranas. Na Hungria, a influência do Islã, politicamente dominante e hostil ao culto das imagens, permitiu um desenvolvimento do calvinismo mais rápido que o do luteranismo. Na Polônia, a situação também foi muito mesclada: os luteranos recrutavam na população sob influência germânica, e o calvinismo entre aqueles que rejeitavam essa influência, sem esquecer o papel determinante da aristocracia nem a contribuição dos Irmãos Tchecos vizinhos.
Chegou-se assim, no espaço de um século, em cada país, a um formidável emaranhado de seitas, mais ou menos próximas e fortemente opostas.
Essas divisões e a fragmentação da doutrina e da prática cristãs que delas resultou provocaram um grande empobrecimento da fé nas massas europeias, seguindo-se uma forte descristianização a partir da segunda metade do século XVII.
Numerosas reações tentaram enfrentá-la no século XVIII, fosse o pietismo nos países germânicos ou o metodismo nos países anglo-saxões. Mas, ao mesmo tempo, a lógica própria do protestantismo produzia seus frutos extremos: o deísmo na Inglaterra, o racionalismo na Alemanha e o filosofismo na França.
Assim, o fim do século XVIII e o início do XIX são marcados pelo racionalismo e pela indiferença.
A tormenta revolucionária, ápice da manobra racionalista, provocaria tal abalo nas populações europeias que um despertar religioso — por sinal, bastante ambíguo — marcaria o século XIX, em paralelo com o movimento romântico.
Impossibilitados de fazer um balanço detalhado para cada nação, deter-nos-emos um pouco no caso exemplar da Inglaterra, que evoluiu ao longo de um extenso período e frequentemente chegou aos extremos.
A REFORMA na INGLATERRA
O terreno anticatólico fora preparado de longa data, tanto pela ação de Wycliffe e dos Lollardos (ainda denunciados em 1523 pelo bispo de Londres) quanto pelo humanismo universitário (tradução do Novo Testamento por Tyndale, em 1525).
A ruptura instaurada em 1531 por Henrique VIII por razões de conveniência pessoal aparentemente nada mudou na hostilidade do Rei em relação aos protestantes, mas, nas profundezas, a nova hierarquia nacional estava infestada de luteranos; e o príncipe herdeiro, educado por protestantes, recorreu a eles assim que se tornou Eduardo VI.
A nova tendência era calvinista, mas mesclada ao luteranismo com a manutenção do episcopado e da liturgia: o que não nos surpreende, pois já observamos que geralmente é assim quando a Reforma ocorre de cima para baixo — pelo Poder e não pelo povo.
Muito rapidamente criaram-se grupos independentes da nova igreja nacional; em 1555, já se assinalavam numerosas "congregações" fundadas apenas na Escritura e, em 1585, assembleias batistas, que batizavam unicamente adultos. Robert Browne foi um dos principais animadores desses grupos, aos quais deu seu nome, e dois propagandistas, difusores de seus livros, foram enforcados em 1583.
Ao final de seu reinado, Elizabeth deixou de aprisionar os opositores da igreja anglicana, contentando-se em exilá-los, de modo que muitos desses anabatistas refugiaram-se na Holanda, onde fundaram uma seita importante em 1596. Posteriormente, Jaime I retomou as perseguições para uniformizar e consolidar o anglicanismo, e a emigração continuou com força no início do século XVII.
Mas na própria Holanda as tendências eram múltiplas e as congregações independentes estavam perpetuamente dilaceradas; já no fim do século XVII, a querela arminiana dividira os calvinistas entre os predestinacionistas estritos e os discípulos de Jacó Armínio, para quem a teoria de Calvino parecia desumana.
Por volta de 1610, o grupo de Amsterdã dividiu-se quanto à questão do batismo de adultos; uma parte fixou-se em Leyde, outra estabeleceu-se em Londres, em 1612, e, finalmente, uma terceira parte emigrou em companhia do grupo inglês do Mayflower, em 1620, para a América, onde fundaria um grupo muito rigorista e intolerante — um entre a multidão de grupos americanos.
A fragmentação do anglicanismo estava em pleno curso e, em 1641, um relatório ao Parlamento inglês já mencionava 80 espécies diferentes de "sectários".
Durante a revolução inglesa, por volta de 1650, os puritanos antirrealistas e rigidamente calvinistas tentaram impor o regime presbiteriano tanto contra a hierarquia anglicana quanto contra as seitas; mas, finalmente, o exército de Cromwell, onde os sectários abundavam, conseguiu estabelecer a república e também a liberdade religiosa para todos, exceto para os católicos.
Após 1653, os Independentes multiplicaram-se prodigiosamente, e entre eles os batistas; enquanto John Fox, insatisfeito com anglicanos, puritanos e até mesmo com os independentes (batistas ou não), fundava o movimento Quaker, que atingiu o ápice do despojamento: nenhuma direção, nem eclesiástica nem leiga, nenhum culto, nenhuma cerimônia, nem mesmo reunião de oração — apenas uma meditação silenciosa.
Todavia, surge aqui um novo elemento que não tardaria a desaparecer: os Quakers são "tremedores" (trembleurs); a mística manifesta-se, doravante, por um transe físico.
A América do Norte, colônia inglesa, viu chegar em diversas ocasiões os trânsfugas da metrópole, representantes das múltiplas confissões cristãs; apenas no Leste dos futuros Estados Unidos, única região então povoada por europeus, era possível encontrar:
- Católicos: na Flórida espanhola e no Canadá francês e, a partir de 1632, em Maryland, onde Lord Baltimore fundou uma colônia com católicos ingleses emigrados;
- Anglicanos: notadamente na Virgínia;
- Reformados calvinistas: no Nordeste, tendo a Nova Amsterdã (atualmente Nova York) sido fundada em 1614 por holandeses;
- Independentes: perseguidos na Inglaterra, refugiados e infelizes na Holanda, partiram em 1620 a bordo do Mayflower para se estabelecer na América; ali fundaram uma congregação puritana, muito rigorista e intolerante;
- Batistas: quando um pastor anglicano emigrado da Inglaterra, Roger Williams, uniu-se aos Independentes, não pôde concordar com eles e partiu para fundar outra colônia em 1639, a de Rhode Island, onde uma total liberdade religiosa era garantida aos adeptos de qualquer religião; esta foi a primeira igreja batista dos Estados Unidos;
- Por volta do fim do século XVII, William Penn comprou um vasto território dos indígenas; ali fundou a cidade de Filadélfia, capital do Estado da Pensilvânia, onde organizou uma comunidade segundo os princípios quakers.
Com a morte de Cromwell em 1658, o Rei Carlos II restabeleceu o anglicanismo como reação contra os dissidentes e puritanos: uma onda de irreligião submergiu então a Inglaterra por volta de 1670. Jaime II tentou, em seguida, reintroduzir o catolicismo em 1685, mas foi deposto, e seu sucessor Guilherme III de Orange concedeu ampla tolerância a todos os grupos religiosos (exceto aos católicos) assim que assumiu o trono, em 1689, o que fora, aliás, um dos motivos de sua ascensão.
A série de ataques dos deístas começou pouco depois, traduzindo a evolução das mentalidades. O primeiro, John LOCKE (1632-1704), publicou em 1695 "O Cristianismo Razoável", defendendo uma religião natural, negando a Trindade e os milagres, rejeitando a Bíblia e acusando a Igreja primitiva de ter deformado a verdade. Ele foi seguido e imitado por Lord SHAFTESBURY (1671-1713), que defendia uma moral independente da Revelação; por BOLINGBROKE (1678-1751), fortemente elogiado por Voltaire; e por Matthew Tindale (1656-1733), autor de "O Cristianismo tão antigo quanto a Criação".
O fruto de tudo isso foi uma extensão incrível do mundanismo e da incredulidade, que atingiram um ápice europeu.
OS DESPERTARES nos SÉCULOS XVII e XVIII
A doutrina da justificação apenas pela fé, por um lado, e os ataques dos deístas ingleses, dos racionalistas alemães e dos filósofos franceses, por outro, causaram devastações consideráveis nos meios protestantes europeus, nos quais toda questão de doutrina ruiu.
As consequências religiosas e morais foram tais entre as populações que muitos protestantes sentiram a necessidade de uma reação, e um poderoso movimento ocorreu primeiro na Alemanha e depois na Inglaterra, a partir de alguns homens fervorosos: são os "Despertares" (Réveils).
Entre os precursores, evocaremos rapidamente um homem que atuou na França, na Suíça e, sobretudo, na Holanda: Jean de LABADIE (1610-1674). Aluno dos Jesuítas, foi ordenado padre em 1635, mas uma longa e grave enfermidade o levou a deixar a Companhia, à qual já estava parcialmente ligado.
Ensinou por algum tempo em Bordeaux, depois em Paris e Amiens. Como sua doutrina pareceu curiosa, teve de voltar a esconder-se em diversos castelos de amigos e protetores na Guiana; ali conheceu muitas famílias reformadas e aderiu à Reforma em 1650, mas, percebendo rapidamente a fraqueza da disciplina e da espiritualidade dos Reformados, chegou à ideia de reformar não mais apenas a Igreja Romana, mas a própria Reforma.
Atuou sucessivamente em Montauban, em Orange e depois em Genebra, em 1659, onde chegou no momento em que a morte de Calvino causara um relaxamento inevitável após tal ditadura.
Chegou finalmente à Holanda em 1661, convidado pelos responsáveis da Universidade de Franecker, cidadela da espiritualidade protestante nos Países Baixos. Muito rapidamente, tornou-se evidente que suas concepções diferiam grandemente das de seus anfitriões e que suas eclesiologias eram inconciliáveis.
A igreja reformada holandesa adotara, como os calvinistas, o sistema presbiteriano, no qual sínodos se reuniam duas vezes ao ano e para os quais cada comunidade enviava dois delegados que, ao retornar, transmitiam as decisões sinodais; além disso, as funções e a formação dos pastores eram consideradas muito importantes e ocorriam sob a direção dos sínodos.
Labadie, ao contrário, inclinava-se para o sistema dos Independentes, praticado especialmente na Inglaterra, no qual nenhuma função pastoral é reconhecida como instituída por Deus; para eles, a Igreja é uma congregação de crentes cuja fé é a única base de reunião e ensino.
Alguns pensavam até que a Igreja, por ter falhado totalmente em sua missão, não existia mais no mundo e que a única coisa a fazer, consequentemente, era esperar o retorno de Cristo.
Tal pregação, mesmo mitigada, provocou muito cedo uma oposição das autoridades religiosas protestantes e, durante o Sínodo de Amsterdã em 1667, Labadie foi intimado a assinar a confissão de fé Valona, o que ele se recusou a fazer, inaugurando assim uma carreira de sectário cujos sucessos e fracassos alternaram-se durante os sete anos que lhe restavam de vida: foram anos extremamente intensos aos quais dedicaremos outro artigo mais tarde, pois a experiência de Jean de Labadie nos parece tão típica da posição desses "espirituais" do século XVII face à igreja reformada estruturada que vale a pena estudá-la por si mesma.
O primeiro movimento de despertar ocorreu em pleno século XVII e teve como iniciador o alsaciano Spener (1635-1705), que exerceu seu ministério em diversas cidades da Alemanha e fundou os "Collegia pietatis" em Frankfurt e depois em Halle, por volta de 1670. Pregava uma piedade que viesse do coração, fundada na experiência do arrependimento e do perdão, daí o nome de "Pietismo" dado ao movimento.
Por meio de leituras bíblicas, pregações e meditações frequentes, Spener queria estabelecer, no seio das grandes seitas protestantes, pequenas comunidades fervorosas que fossem fermentos de renovação. Segundo a fórmula buceriana da "ecclesiola in ecclesia", convidava seus convertidos a não deixar sua confissão de origem e a organizar-se nela em conventículos.
Seu discípulo Francke (1668-1727) imitou-o em Leipzig, organizando inúmeras escolas e orfanatos — uma característica do movimento pietista — e fundou uma sociedade para a difusão da Bíblia, bem como uma sociedade missionária, que talvez seja a primeira empresa missionária protestante.
Enfrentaram inicialmente a hostilidade dos protestantes ortodoxos, e Spener teve de refugiar-se na Prússia. Contudo, o pietismo conheceu uma extensão considerável, embora dificilmente quantificável, pois, devido à sua própria fórmula, diversos meios foram atingidos: notadamente a Universidade de Halle tornou-se o centro do movimento, onde muitos quadros foram formados antes de se espalharem pela Europa.
O Pietismo realizou um certo aquecimento da fé, ao mesmo tempo que desenvolveu a tendência a uma piedade triste (imagem que dele restou nos dias de hoje), enfatizando sobretudo o coração e não a doutrina: por conta disso, alimentou a indiferença em relação às doutrinas e não constituiu uma barreira contra a invasão do racionalismo.
Afastou-se em inúmeros pontos da fé protestante original, opondo notadamente à fé justificadora a ideia de conformidade progressiva a Cristo e dando um papel muito grande ao sentimento, sendo o dogma fortemente diminuído. A porta estava, assim, aberta para numerosas derivações e, de fato, o pietismo deu origem a uma multidão de seitas aberrantes, negando a Igreja, os sacramentos, o matrimônio, inclusive a Bíblia e todo dogma cristão, chegando até à negação da fé em Deus. Algumas mergulharam no milenarismo, enquanto em outras os fiéis tinham a garantia de atingir em um instante a justificação e a perfeição.
Entre os prolongamentos normais do movimento pietista, o principal é o do Conde de Zinzendorf (1700-1760). Antigo aluno do colégio pietista de Halle, Zinzendorf acolheu em suas terras um grupo de irmãos morávios expulsos de seus lares; proclamou-se bispo deles e fundou uma comunidade original: oficialmente luterana, mas dando grande importância aos leigos no culto, especialmente através de corais que a tornaram célebre.
O movimento morávio espalhou-se rapidamente, ora infiltrando-se no interior da Igreja estabelecida, como na Saxônia, ora fundando comunidades novas e independentes, como na Prússia e na Inglaterra.
Uma tendência comparável desenvolveu-se na Inglaterra um pouco mais tarde que na Alemanha, cerca de cinquenta anos depois.
O primeiro artífice foi o pastor Jonathan Edwards (1703-1758), nomeado em 1727 para uma paróquia frívola e relaxada; em 1734, começou a pregar o julgamento de Deus e a graça soberana: algumas pessoas converteram-se, depois um grande número, durante reuniões onde as pessoas soltavam gritos de terror e depois de alegria, chegando a desmaiar. Esse movimento prolongou-se por vários anos e estendeu-se por toda a Nova Inglaterra, com a colaboração de Whitefield.
Mas é com Wesley que o movimento inglês atingiria seu ápice. John Wesley (1703-1791), estudante em Oxford, fundou com alguns amigos um grupo religioso que se esforçava para atingir a salvação por diversos meios ascéticos e místicos, daí o rótulo "metodista" que lhe foi dado.
Depois, Wesley partiu para a Geórgia para evangelizar os negros; desencorajado, voltou à Inglaterra e frequentou as reuniões dos irmãos morávios de Londres.
Ali conheceu Whitefield e converteu-se em 1738; então, auxiliado por seu irmão Charles, começou a pregar ao ar livre; os três reuniram multidões de milhares de pessoas que acabavam por cair ao chão e implorar a salvação aos gritos. Em seguida, os convertidos, sem deixar suas igrejas de origem, reuniam-se durante a semana para encontros de edificação mútua.
Wesley percorreu assim a Inglaterra durante cinquenta anos, pregando cerca de 40.000 sermões, em meio a muitos excessos e dificuldades, fosse com seus amigos ou com o clero; separou-se de Whitefield que, calvinista rígido, dava grande importância à predestinação e que fundou posteriormente igrejas metodistas calvinistas no País de Gales.
Aos poucos, as sociedades metodistas tornaram-se cada vez mais autônomas em relação à Igreja anglicana estabelecida e, em 1784, o próprio Wesley organizou na América uma igreja episcopal independente, enquanto na Inglaterra a Conferência das Sociedades Metodistas adotava uma constituição legal. Após a morte de Wesley, a evolução acentuou-se e o metodismo tornou-se uma igreja totalmente independente do Anglicanismo.
Cindiu-se depois em numerosos grupos autônomos: wesleyanos, metodistas livres, metodistas episcopais, sem contar inúmeras pequenas seitas dissidentes das quais algumas rejeitavam o matrimônio e outras, os "Tremedores" (Tremblotants), eram célebres por suas danças religiosas.
No fundo, o metodismo assemelha-se ao pietismo pelo apelo à religião do coração: como este, constituiu uma reação à aridez racionalista, mas, como este também, foi uma barreira frágil. E somos forçados a constatar que, com esses dois elementos — indiferença doutrinária e sentimentalismo religioso —, reúnem-se as bases do que será, mais tarde, o Modernismo.
O ILUMINISMO e as SEITAS MÍSTICAS
A desilusão em relação à Reforma em seus diversos ramos, o desinteresse pelas querelas doutrinárias entre cristãos e um certo renascimento da mística são os três principais elementos que caracterizam a segunda metade do século XVIII no que diz respeito ao nosso tema.
Esse clima explica o sucesso crescente, sobretudo entre a aristocracia, da maçonaria espiritualista, que se manifestou em uma infinidade de correntes, organizações e mestres com um gosto pronunciado pelo mistério.
Não é possível revisá-los todos aqui — uma simples enumeração ocuparia um artigo que, aliás, faremos um dia —, mas tentaremos dar alguns exemplos dos tipos principais.
Antes, devemos lembrar que essa efervescência não surgiu do nada; pelo contrário, foi preparada por inúmeros elementos surgidos desde o século XVII: o Jansenismo, que estabeleceu uma crítica feroz contra a hierarquia, e sobretudo o Quietismo de Mme. Guyon, de Fénelon e de uma multidão de epígonos.
Esse Quietismo é, por si só, o ressurgimento de muitas correntes: sem remontar à fonte, que é certamente a Índia e o Islã sufista, citemos os Hesicastas ortodoxos, os Irmãos do Livre Espírito e os Beghardos do século XIII, no meio católico; enfim, no século XVII, numerosos grupos na Itália e na Espanha, cujo representante célebre é Molinos.
O Quietismo pregava uma religião interior, despojada das práticas externas, onde a alma se abandona a Deus, acabando por se unir a Ele, por se fundir nEle "como o rio no mar".
Mme. Guyon causou devastações não apenas no meio católico, graças às suas relações na alta aristocracia, mas também nos meios oriundos do protestantismo, nomeadamente entre os Pietistas alemães.
O terceiro elemento que deve ser citado é a influência de Jacob Boehme, o sapateiro de Görlitz, que completa as tendências contemplativas com o aspecto visionário e mágico.
Os dois principais mestres neste final do século XVIII são Swedenborg e Martinez de Pasqually, dos quais se originariam a maioria das seitas importantes.
Emmanuel SWEDENBORG (1688-1772), sueco, filho de um bispo luterano, era muito versado nas ciências naturais e pertencia a múltiplas academias. A partir de 1736, foi submetido a uma série de sonhos simbólicos e pavorosos; finalmente, em 1745, Cristo lhe apareceu. Desde então, suas alucinações formaram um corpo coerente (se assim se pode dizer!) e, como um novo Maomé, fundou uma religião nova, atacando tanto católicos quanto protestantes e negando a Trindade divina. Em 1757, ele teria assistido ao julgamento universal dos anjos e demônios: doravante, deveria constituir a Nova Jerusalém sobre as ruínas das antigas igrejas.
O que mais apaixona seus discípulos são suas visões extremamente numerosas e detalhadas, das quais decorrem uma doutrina emanatista e uma espiritualidade quietista. E, apesar de inverossimilhanças gigantescas, a seita espalhou-se por toda a Europa entre a melhor sociedade.
Em Estocolmo, os diversos grupos de discípulos formaram, em 1787, a Sociedade Exegética e Filantrópica, enquanto em 1787, igualmente, surgiu em Moscou uma Sociedade dos Filhos da Nova Jerusalém; em Londres, os grupos swedenborgianos que existiam desde pelo menos 1783 abriram um templo.
Ainda em Londres, entre a colônia francesa, Chastanier, convertido em 1766, criou em 1783 o Journal Novi-Jérusalémite. Na própria França, foi o marquês de Thomé quem iniciou a pregação em 1773: pouco a pouco, grupos foram fundados em diversos lugares, inclusive durante a Revolução, como em Rouen, em 1791.
O caso do Martinismo é um pouco mais complicado, pois é preciso distinguir duas etapas diferentes: a primeira, unitária, durante a vida do mestre, falecido em 1774; e a segunda, após sua morte, onde os diversos ramos das principais cidades evoluíram livremente em torno de mestres como Saint-Martin e Willermoz.
Vindo de onde não se sabe — seria judeu ou católico? Português ou de Grenoble? Formado por quem não se sabe —, Martinez de Pasqually conseguiu rapidamente implantar ramos de sua ordem maçônica, o rito dos Eleitos Cohens: em 1754 em Montpellier, em 1760 em Bordeaux (cujo arcebispo, príncipe de Rohan, era seu protetor), depois em Paris e Lyon. Faleceu de uma febre maligna em 1774, em Santo Domingo: rapidamente, seus discípulos se dispersaram e sua ordem extinguiu-se, mas sua doutrina, ao contrário, sobreviveu e difundiu-se amplamente, ainda que ao preço das deformações que seus continuadores lhe impuseram.
Martinez prometia aos seus fiéis torná-los tão sábios quanto ele nas coisas sobrenaturais, torná-los profetas e, por meio de uma liturgia especial, a teurgia, colocá-los em contato com o além; muitas descrições fazem pensar irresistivelmente no ioga e no tantrismo tibetano, nos quais Martinez certamente se inspirara.
A partir de 1780, proliferaram na Europa uma multidão de seitas místicas de diversos tipos, algumas mais contemplativas e quietistas, outras mais voltadas para os prodígios e a magia, a meio caminho entre a missa negra e a alquimia.
Todos esses grupos combatem-se e disputam influência, tentando impor sua hegemonia, seja por múltiplas afiliações ou em grandes reuniões como o convento de Wilhelmsbad.
Encontramo-nos aqui no ponto extremo da destruição do cristianismo operada pelas seitas heterodoxas, onde a mística desviada une igualmente católicos e protestantes que buscavam no iluminismo aquele "suplemento de alma" que sua ortodoxia perdida já não lhes assegurava.
Não é muito surpreendente que nesse meio — misto, no mínimo, e até um pouco mais que isso — tenha germinado o grande sonho da união das seitas cristãs, no qual Joseph de Maistre pensava encontrar a verdadeira finalidade da Maçonaria.
O triunfo político da Maçonaria racionalista varreria essas ilusões, enquanto o protestantismo continuaria sua fragmentação através da proliferação de seitas ao longo do século XIX, como veremos em um próximo artigo.
O Catolicismo, por sua vez, pôde recompor-se após o expurgo revolucionário e dar a impressão de poder superar a prova, mas o peso da Revolução sobre o Temporal e sobre o Espiritual foi tal durante o século XIX que os fatores de decomposição prevaleceram novamente; doravante, e já há bastante tempo, o ecumenismo está em voga entre os católicos: veremos isso mais tarde.
P. R.
(1) A primeira dessas ignorâncias seria: "O que pensa um Jesuíta", e a segunda: "O que vai dizer um Capuchinho quando sobe ao púlpito". Para tranquilizar as almas sensíveis, esclareçamos que esta "piada" nos foi contada há dez anos por um venerável religioso capuchinho, cujo riso ainda ressoa em nossos ouvidos.
(2) MONTANO, nascido por volta de 150, na Frígia, destacou-se em 172 por êxtases e oráculos atribuídos ao Espírito Santo: a nova revelação visava completar a doutrina cristã para obter um cristianismo mais puro. Na prática, o montanismo privilegiava a inspiração profética do Paráclito e tendia ao desaparecimento da hierarquia, ao mesmo tempo em que anunciava a Parusia próxima e pregava, em vista desta, uma moral extremamente rigorosa; acabava, assim, por distinguir os verdadeiros fiéis, os "pneumáticos", dos simples católicos, chamados "psíquicos".
A seita fez rápidos progressos na Ásia Menor e depois no Ocidente, onde foi encontrada em Roma e na Gália (em Lyon), em 177. Na África, Tertuliano passou para o montanismo em 213, e foi apenas no final do século IV que Santo Agostinho pôde reintegrar os últimos tertulianistas. No Oriente, diversos teólogos e, posteriormente, Concílios condenaram a heresia montanista, cujas estruturas só desapareceram no século VI.
(3) MANI (214-277), nascido perto de Ctesifonte (próximo a Bagdá, no atual Iraque), de uma família de magos; converteu-se ao cristianismo, mas, por volta de 240, na sequência de revelações, apresentou-se como o reformador da antiga religião zoroastriana; obrigado a exilar-se, partiu para a Índia, onde entrou em contato com o Budismo e, ao retornar à Pérsia para ensinar sua doutrina, foi perseguido e morto pelo Rei por volta de 277.
Seu princípio essencial é o da separação dos dois reinos: o reino de Deus, da luz e da alma, e o reino de Satã, das trevas e da matéria. Para o homem, a salvação consiste em libertar a luz das trevas e a alma da matéria; para alcançá-lo, deve seguir os ensinamentos dos verdadeiros profetas: Zoroastro, Buda, Jesus e Mani, o Paráclito. Disso decorre uma moral de um ascetismo muito severo, de tal forma que apenas os perfeitos, os eleitos, podem praticá-la, e não os simples fiéis.
O maniqueísmo espalhou-se por todo o Oriente e Extremo Oriente — Pérsia, Tibete, Índia e China — e por toda a Bacia Mediterrânea, da Síria e Palestina à Espanha, passando pelo Norte da África, visto que se sabe que Santo Agostinho foi maniqueísta de 374 a 384, entre os seus vinte e trinta anos. Embora tenha sido perseguido desde 290 pelos imperadores romanos e, depois, pela hierarquia eclesiástica, o maniqueísmo nunca desapareceu totalmente; apenas ocultou-se, penetrou em quase todos os lugares, nomeadamente no Islã esotérico, e ressurgiu na Europa no século XI.