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CONTRIBUIÇÃO PARA O ESTUDO DO HERMETISMO - 2

A melhor maneira de resumir nosso artigo anterior, publicado no Boletim nº 7, é enumerar seus nove parágrafos: O Secretário dos Deuses — Os Hermetica helênicos — Os Manuscritos de Nag Hammadi — Os Hermetica gnósticos — As Compilações atuais — A Mística hermética — A Inteligência soberana do Poimandres — O Título de Trimegisto — O Mosaico doutrinário dos Escritos herméticos.

Havíamos chegado, portanto, a uma primeira conclusão: a de que os escritos herméticos apresentam uma falta quase total de unidade doutrinária, e isso segundo a opinião dos hermetólogos contemporâneos mais autorizados.

Entretanto, deve-se notar de imediato que, se essa falta de unidade doutrinária nos salta aos olhos, a nós cristãos, é porque a Igreja sempre nos habituou a uma doutrina cujo um dos caracteres principais é a unidade, ou seja, a homogeneidade. Unidade adquirida de pronto, visto que São Paulo já escrevia: "Um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo".

As inteligências pagãs eram indubitavelmente menos exigentes que as nossas em matéria de lógica religiosa. Pois a religião de então era feita de elementos de procedências diversas (alguns tradicionais e mui antigos, outros filosóficos e recentes, outros místicos). Elementos díspares que nenhuma autoridade religiosa jamais havia clarificado, ordenado ou hierarquizado.

Veremos de quais elementos se compõe o amálgama doutrinário hermético. Não será difícil, aliás, datá-los à medida que os encontrarmos.

A componente mais antiga é, sem dúvida, a do POLITEÍSMO, que remonta à época dos gênios protetores das cidades. Este politeísmo subsistirá até nos hermetica gnósticos que datam dos primeiros séculos cristãos.

Em seguida, vem a noção PANTEÍSTA, de cuja origem os filósofos, construtores de sistemas, não são estranhos. Veremos também aparecer a contribuição judaica com a concepção de um PAI CRIADOR, que o hermetismo, ao menos o da terceira geração, incontestavelmente conheceu. E não nos surpreenderemos ao encontrar, por fim, A GNOSE, com seus tateios concernentes ao "Logos", ao "demiurgo", e também suas considerações cosmológicas que começam a se inserir no raciocínio teológico, anunciando assim e iniciando o hermetismo da Idade Média.

Não se deve buscar nos tratados herméticos, que não passam de fragmentos esparsos, uma teodiceia coerente. Eles constituem, antes, dissertações sobre a religião, em um estilo, aliás, muito lírico, o que não contribui para lhes conferir uma clareza particular. São dissertações em sentidos diversos, redigidas por pessoas que buscam. Elas nos espantam, a nós que gozamos, sem ter plena consciência disso, da prodigiosa clareza do dogma definido.

Para facilitar a exposição, começaremos pela noção hermética do "Pai Criador", embora não seja a mais antiga. Pois é uma noção em torno da qual os outros elementos se organizam mais comodamente.

O PAI CRIADOR dos HERMETISTAS

Causa certa surpresa encontrar uma verdadeira devoção ao "Pai Criador" em um conjunto de escritos onde o panteísmo será destilado até suas extremas consequências metafísicas. E, no entanto, essa devoção está ali incontestavelmente presente.

Eis, primeiro, uma proposição nitidamente CRACIONISTA que se encontra no livro VII do Asclépio: "Havia DEUS e havia HYLÉ: é assim que os gregos chamavam a matéria ou substância do mundo. — O espírito estava com o mundo, mas não da mesma maneira que com Deus. — Estas coisas de que se compõe o mundo NÃO SÃO DEUS. Por isso não existiam antes de seu nascimento".

No tratado V do "Corpus Hermeticum", intitulado "O Deus invisível e muito aparente", pode-se ler a seguinte passagem: "Dá antes a Deus o nome que melhor lhe convém, chama-o O PAI de todas as coisas, pois ele é o único e sua função própria é ser Pai. E, se queres que eu use uma expressão ousada, sua essência é engendrar e criar".

O tratado XIV do mesmo Corpus é um diálogo entre Hermes, o mestre, e Asclépio, o discípulo. Nele podem-se ler as duas passagens seguintes: "As criaturas são visíveis, mas ele é invisível. É preciso concebê-lo pela inteligência. Compreendê-lo é amá-lo. Quem o admira chega à beatitude pelo conhecimento de seu VERDADEIRO PAI. Pois não há nada melhor que um Pai".

"Posto que todos os seres visíveis vieram a ser, sua própria existência supõe um Criador que os fez, e que é anterior à natureza criada. Ele é o princípio e é invisível; se criou, foi justamente para ser visto através da criação. Feliz aquele que aprende, por esta visão, a conhecê-lo como Pai. — Como nomear o autor do mundo? Ele é, ao mesmo tempo, Deus, Criador e Pai". (Tratado XIV do Corpus Hermeticum).

As quatro passagens que acabamos de citar não são as únicas que convergem nesse mesmo sentido. Poderiam ser exibidas muitas outras. Os escritores herméticos (visto que são incontestavelmente vários, como vimos) deram, portanto, hospitalidade a essa noção essencialmente hebraica e cristã de "Pai Criador".

Ao menos, ela figura nos hermetica verbalmente. Mas não é explorada com total lógica. Está mergulhada em uma religiosidade panteísta que se expressa com um lirismo por vezes poderoso e com uma poesia sempre característica. É com frequência esse lirismo e essa poesia, muito reconhecíveis, que permitiram distinguir os hermetica de outros fragmentos antigos e declará-los, precisamente, herméticos.

É verossímil que a noção de "Pai Criador" figure no hermetismo apenas sob o efeito do prestígio inconsciente, mas incontestável, que a Religião de Israel, primeiro, e depois a Religião Cristã exerceram sobre ele durante seu longo período de elaboração. Os escritores herméticos, acolhedores e não polêmicos, não deixariam de lado uma noção tão geralmente aceita e tão dinâmica. Incorporaram-na às suas coletâneas de hinos.

Veremos mais adiante que os Padres da Igreja ficaram muito impressionados com essas proposições teístas e criacionistas esparsas no mosaico doutrinário de Hermes Trimegisto. Mas veremos também que a "criação", assim admitida verbalmente nessas passagens, não passa, na realidade, de uma "emanação".

AGENNETOS — O INENGENDRADO

A teologia hermética, como acabamos de nos convencer, reúne elementos muito diversos: os deuses do politeísmo antigo, o "deus-universo" dos filósofos, o Deus Criador dos judeus, o "Verbo de Deus" dos cristãos — todos esses deuses nela convivem e coabitam.

Há ali um amálgama no qual a religiosidade natural do homem encontrou matéria, não o negamos, para reflexões, para uma piedade e até para um misticismo muito intenso.

Os hermetistas antigos meditaram profundamente sobre a vida interior da divindade. E o fizeram não apenas pela via filosófica, de ordem racional e nocional, mas também, como vimos, pela via da mística natural. Não esqueçamos que a maioria dos tratados herméticos se apresenta como fruto de uma inspiração do além.

Os desenvolvimentos sobre a vida interior da divindade são bastante frequentes nos hermetica. Eis a fórmula mais comum: distinguem-se em Deus três graus concêntricos quando se caminha da interioridade mais íntima em direção à exteriorização.

No centro, reside o AGENNETOS, ou seja, o inengendrado. É a essência divina primordial, aquela que não apenas não é engendrada por ninguém, mas que nem sequer se engendra a si mesma.

Do agennetos não-engendrado, é preciso distinguir outra parte da substância divina, mais exatamente uma segunda "fase" divina: o AUTO-GENNETOS. É a parte de Deus que se engendrou a si mesma.

Afastemo-nos ainda um grau em direção ao concreto: "Aquilo que tem o poder de engendrar contém em germe tudo o que pode nascer, pois é fácil para aquilo que nasceu espontaneamente (auto-gennetos) fazer nascer, em seguida, o que produz tudo" (em "Discurso de Iniciação"). Esta nova fase divina, à qual o auto-gennetos dá origem, porta o nome de GENNETOS, isto é, o engendrado. Este terá, por sua vez, o poder de produzir tudo, conforme especificam as últimas palavras deste mesmo "discurso de iniciação": "A Natureza (matéria e espírito reunidos) possui em si mesma o poder de concepção e de produção. Ela é, portanto, sem intervenção exterior, princípio de criação". O "gennetos" é, pois, um engendrado-engendrante. E seu poder de engendrar é aquele mesmo que se encontra na Natureza.

Assim se decompõe e se organiza a vida interior da divindade segundo o misticismo hermético: no centro, o inengendrado; depois, o auto-engendrado; por fim, o engendrado. Tem-se a impressão invencível de que há ali uma cópia, uma imitação da teologia trinitária cristã. Mas uma imitação que é, ao mesmo tempo, uma deformação. Esse tipo de trindade é o lugar de um processo de degradação que vai da unidade em direção à multiplicidade e, portanto, também da espiritualidade em direção à materialidade. É, já, um processo de tipo emanatista.

O SEGUNDO DEUS

O "gennetos", aquele que é engendrado e que engendra por sua vez, vamos reencontrá-lo em outros discursos ou diálogos herméticos sob outras formas e com outros nomes. Os homens sempre estiveram muito preocupados com as modalidades da passagem do Criador à criatura.

O papel de intermediário entre Deus e o universo que o politeísmo confiava a uma pluralidade de espíritos poderosos e de deuses secundários foi, aos poucos, sendo reservado a um único e mesmo personagem, ao qual se deu ora o nome de LOGOS, ora o de DEMIURGO. Chamavam-no "logos", palavra que significa "verbo" ou "palavra", quando se queria dar preeminência às relações desse personagem com o Deus supremo, do qual ele era a voz, isto é, a exteriorização. E chamavam-no "demiurgo", palavra que quer dizer "artesão", quando se considerava sobretudo o seu papel de organizador da "materia prima" e de arquiteto do universo.

O Trimegisto, ou mais exatamente seus "secretários" póstumos que viveram no período gnóstico, recolheram essas noções de logos e de demiurgo de que falavam os filósofos, os místicos e os cristãos. Esse grande intermediário assume, nos tratados herméticos, a dimensão e até o nome de um SEGUNDO DEUS. Uma passagem do Asclépio latim fala do "Segundo Deus" em termos nitidamente inspirados no Cristianismo:

"O Senhor, autor de todas as coisas, a quem chamamos Deus, cria um Segundo Deus visível e sensível. Tendo, pois, criado este ser único, que ocupa o primeiro lugar entre as criaturas e o segundo lugar depois dele, Deus o achou belo e o amou como a seu próprio filho". (Em "Asclépio" — livro IV — Fragmento intitulado: "Discurso de Iniciação").

Um outro fragmento, intitulado "Da Regeneração e da Regra do Silêncio", contém uma passagem análoga: "Meu filho", diz Hermes, "envia ao Deus-Pai o sacrifício que lhe convém; mas acrescenta: PELO VERBO". Tais expressões não são raras nos hermetica, sobretudo naqueles da terceira geração.

A doutrina de Ário contém uma noção análoga à do "Segundo Deus". Para ele, existe não apenas um único "Verbo de Deus", mas dois. Há, portanto, dois Verbos, dos quais um se encarnou, mas o outro permanece "apud Deum" (segundo a expressão do prólogo de São João). É precisamente essa doutrina dos dois Verbos, de aparência bastante hermética, reconheçamos, que Santo Atanásio critica vitoriosamente em seu "Primeiro Sermão contra Ário".

Outros escritos herméticos vão mais longe e admitem a necessária encarnação do "Segundo Deus". Todavia, sendo seu lirismo arrastado para longe das realidades, cantam Hórus, o filho de Osíris e Ísis, como sendo o "Segundo Deus" encarnado. Desviam, assim, para os deuses do politeísmo a ideia da encarnação do Verbo que, no entanto, extraíram do cristianismo circundante. E não apenas a desviaram, mas a generalizaram no tempo, pois Hórus não é a única encarnação do "Segundo Deus"; há outras. Reencontramos, portanto, no Hermetismo, a ideia de AVATAR, que é familiar nas religiões orientais.

A OGDOADE

Até agora, examinamos no Hermetismo sobretudo a sua teogonia, isto é, o conjunto de suas concepções relativas à divindade. No entanto, ele também comporta uma COSMOGONIA que talvez seja ainda mais importante conhecer, pois é ela que está na origem da alquimia. Quando, após o longo declínio que lhe foi imposto pela vitória espiritual e intelectual dos grandes Doutores da Igreja, o hermetismo renascer por volta do fim da Idade Média, ele o deverá sobretudo à sua cosmogonia, pois é nela que os novos adeptos herméticos fundarão sua mística naturalista. Por isso, é interessante compreender bem como o Trimegisto representa a construção do universo.

A doutrina de Hermes conta com SETE PLANETAS, que enumera geralmente na chamada ordem caldeia, a saber: a Lua, Mercúrio, Vênus, o Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Vê-se imediatamente que os astros assim enumerados não correspondem ao nosso atual sistema planetário.

Estes sete planetas herméticos são governados por sete espíritos que receberam o nome de OUSIARCOS. Mas esses sete ousiarcos não governam apenas os sete planetas do céu físico. Eles governam também sete esferas espirituais, ditas "planetárias", que são sete céus concêntricos.

O que significa a palavra "ousiarco"? "Ousia", em grego, quer dizer: essência, ser, substância... E, consequentemente, "ousiarco" significa "aquele que governa a substância", ou dito de outro modo: "princípio de substância". Se ainda não são a substância material, os ousiarcos a contêm, ao menos, em germe. Eles são o seu princípio.

Os sete céus concêntricos, cujo centro é a Terra, formam um conjunto ao qual se dará o nome de HEBDÔMADA. A hebdômada nada mais é, na linguagem hermética, do que o universo material governado por seus sete ousiarcos (ou princípios de substância).

A alma contemplativa pagã, que conduz sua meditação segundo o método hermético, elevar-se-á primeiro até os confins da hebdômada material, isto é, até os limites do universo físico. Ela chegará mesmo a ultrapassar esses limites e, sendo ela própria espiritual, penetrará em uma oitava esfera — esta já não planetária — que se chama OGDOADE.

É na esfera da ogdoade que a alma hermética começará a ouvir os cantos dos anjos e das almas. A esfera ogdoádica também é chamada de ESFERA DAS FIXAS, precisamente por ser habitada por potências espirituais que têm uma natureza fixa e "imperturbável", e que não estão sujeitas ao crescimento e ao decréscimo como os habitantes da hebdômada.

A "esfera das fixas" traduz, no estilo hermético, a ideia cristã original de FIRMAMENTO. O firmamento dos cristãos é aquilo que permanece firme, acima do mundo que é precário, visto que deve desaparecer um dia.

No sistema hermético, que se reencontra em muitos gnósticos, acima da ogdoade — onde desembocam as almas contemplativas quando atingem o ápice de seu estado místico — encontra-se ainda uma nona esfera celeste que envolve todas as outras. Este nono círculo é a ENÉADA, que é a residência do Deus supremo. O termo "enéada" é frequentemente sinônimo de Deus. Como tal, ela é a sede de uma vida divina muito complexa e que, sobretudo, não é descrita da mesma forma nos diversos tratados. A enéada hermética é, portanto, uma noção de ordem teológica. É o nono céu.

Não se deve confundi-la com AS ENÉADAS, que designam as obras completas de Plotino. Os tratados escritos por esse filósofo foram reunidos por seu discípulo, Porfírio, em uma coleção que os agrupa em conjuntos de nove. Cada grupo chama-se uma enéada, ou seja, uma "novena". A coleção inteira conta com cinquenta e quatro tratados. São as famosas "Enéadas" de Plotino.

O PANTEÍSMO HERMÉTICO

Se pusemos em evidência as passagens criacionistas ou simplesmente teístas das doutrinas de Hermes, é porque os Padres da Igreja também as notaram e delas se serviram, com uma intenção proselitista, para mostrar que o paganismo continha alguns bons elementos de religiosidade natural aptos a colocar os pagãos no caminho da conversão. Mas os três parágrafos precedentes acabam de nos fazer compreender que, nestas doutrinas, a distinção não é clara entre Deus e o Universo. A passagem ocorre sem solução de continuidade entre a hebdômada, a ogdoade e a enéada, isto é, entre o cosmos e a divindade.

Esta compenetração recíproca entre Deus e o universo é objeto de numerosos desenvolvimentos panteístas, uns didáticos, outros poéticos. Não é possível citar todos. Reproduziremos apenas alguns espécimes desses textos onde se expressa a ideia de que o Criador é um só com a criatura.

"Não pode existir Criador sem criação, nem criação sem Criador. Cada um deles não pode mais abstrair-se do outro do que de si mesmo. Cada um deles perderia sua própria natureza se fosse separado do outro. Se, portanto, se reconhece a existência dos dois termos, um criado, o outro criando, A UNIÃO DELES É INDISSOLÚVEL." (No Tratado XIV do "Corpus").

Sabemos que os Doutores da Igreja primitiva rejeitaram esta ideia da necessidade da criação. O Magistério sempre ensinou que Deus, embora possuindo o poder criador, não estava obrigado a usá-lo. Ele não foi submetido a nenhuma necessidade que se lhe impusesse. Criou o mundo por um ato livre, não por obrigação, mas por bondade e para Sua glória.

Ao contrário, Hermes, cuja teologia não é tão penetrante, visto que não beneficia da inspiração divina, ensina que "não pode existir Criador sem criação". Posto que um laço de necessidade une os dois "termos", esses dois termos são um só: "Deus não pode ser movido por qualquer impulso, pois tudo está nele e ELE SÓ É TUDO." (Capítulo XI do Asclépio).

"DEUS É, AO MESMO TEMPO, CRIADOR E CRIAÇÃO. Se se separasse de sua obra, tudo desmoronaria, tudo pereceria fatalmente, pois a vida seria retirada. Mas se tudo é vivo, e se a vida é uma, Deus é, portanto, um. E se tudo é vivo, no Céu e na Terra; se em tudo há uma vida única que é Deus, tudo vem, portanto, de Deus". (No Tratado XI do "Corpus", sob o título: "A Inteligência a Hermes").

"Tudo o que existe está em Deus, produzido por ele. E não digo apenas que ele contém tudo, mas que verdadeiramente ELE É TUDO." (No Tratado intitulado "Do Pensamento e da Sensação").

"Tudo o que se faz e se diz na Terra tem sua fonte nas alturas, de onde as essências nos são dispensadas com medida e equilíbrio; e não há nada que não venha do alto e que para lá não retorne. A MUI SANTA NATUREZA colocou nos animais uma marca evidente dessas relações". (Em um fragmento sem título relatado por Louis Ménard no Livro III).

"As energias são partes de Deus. Energia material na matéria, energia corporal nos corpos, energia essencial na essência. Todo este conjunto é Deus. E NO UNIVERSO NÃO HÁ NADA QUE NÃO SEJA DEUS." (No Tratado XII intitulado: "A Inteligência comum").

Não há dúvida de que o panteísmo forma a espinha dorsal da teologia de Hermes. Compreende-se, portanto, que a contemplação do universo não se distinga da contemplação de Deus. Teogonia e cosmogonia se compenetram. O lirismo poético dos hermetica é o ponto de partida de todo um sistema de meditação mística. O discípulo de Hermes, ao contemplar "a mui santa natureza", contemplará a Deus.

OS TRINTA E SEIS DECANOS

Pois Hermes foi, de fato, um verdadeiro professor de espiritualidade. Uma real piedade mistura-se ao seu lirismo panteísta. Para qual divindade, então, orienta-se a piedade hermética? Para uma divindade que se confunde com o cosmos. Mas é também um cosmos no qual o homem reconhecerá suas próprias energias interiores. Observemos um pouco mais de perto esta cosmologia; ela nos fará compreender o mecanismo da mística hermética.

OS QUATRO ELEMENTOS são dotados de um poder semimaterial e semiespiritual. Uma fórmula de conjuração que figura em um dos manuscritos herméticos encontrados há alguns anos em Nag Hammadi, no Alto Egito, mostra-nos que eficácia mágica era atribuída aos "quatro elementos":

"Conjuro quem quer que leia este livro santo, pelo CÉU e pela TERRA e pela ÁGUA e pelo FOGO e pelos sete ousiarcas e pelo espírito demiurgo... que respeite o que disse Hermes. Sobre aqueles que transgredirem esta fórmula, a cólera de cada um dos deuses acima nomeados cairá".

Os divulgadores do segredo e os transgressores da lei hermética seriam assim punidos não apenas pelo espírito demiurgo e pelos ousiarcas guardiões dos sete planetas, mas pelos QUATRO ELEMENTOS, os quais são sagrados e temíveis. E são sagrados e temíveis porque são divinos. A divindade dos quatro elementos constitutivos do universo nos é ainda sugerida por uma passagem do Asclépio:

"Este conjunto que constitui o mundo é formado por quatro elementos: o fogo, a água, a terra e o ar. Um só mundo, uma só alma, um só Deus". (No Asclépio, livro II).

Uma discussão surgiu um dia, escreve o "cantor" hermético, entre o Deus soberano e os quatro elementos: "E Deus, preenchendo o universo com sua voz santa: ide, disse ele, aos quatro elementos, não recuseis à minha criação o vosso ministério. Enviar-vos-ei um eflúvio de mim mesmo, um ser puro, que inspecionará todos os atos, que será o juiz temível dos vivos. A justiça soberana estender-se-á até sob a terra e cada homem receberá assim a recompensa merecida. Assim falou o Deus soberano, e os quatro elementos puseram um fim às suas queixas e cada um deles retomou suas funções e seu império". (No fragmento intitulado "O Livro Sagrado").

Esta passagem mostra-nos, primeiramente, o seguinte: para o filósofo hermético, os quatro elementos são energias semimateriais e semiespirituais, pois possuem, na criação, um ministério, uma função e um império; não são inertes.

Esta mesma passagem, que é visivelmente posterior ao início da era cristã, mostra-nos também o prestígio que a pessoa de Nosso Senhor exercia sobre o escritor hermético; um "eflúvio de mim mesmo" que vem julgar os vivos e os mortos é, evidentemente, o Verbo encarnado, mas um Verbo que é introduzido em uma construção panteísta.

Os quatro elementos, os sete planetas e seus ousiarcas não são as únicas energias constitutivas da hebdômada hermética. Há muitas outras, entre as quais as mais frequentemente citadas são os TRINTA E SEIS DECANOS:

"Existe um corpo que envolve tudo; deves imaginá-lo sob a forma esférica, pois tal é a forma do universo. Sob o círculo deste corpo (isto é, no interior da esfera universal) estão colocados os trinta e seis Decanos, entre os círculos do universo e o zodíaco, no limite de um e de outro.

Os Decanos sustentam o zodíaco; servem-lhe de marcos e são arrastados com os planetas. Imaginemos os Decanos como os guardiões dos sete círculos e do círculo universal, ou antes, de tudo o que compõe o mundo; eles mantêm tudo e guardam a ordem geral do conjunto".

Qual é a natureza desses Decanos? O escritor hermético responde a esta questão: "Chamam-nos geralmente de demônios; mas os demônios não são uma classe particular; são as energias desses trinta e seis deuses".

A ação dessas trinta e seis energias divinas sobre os homens é grande: "entre os acontecimentos gerais que dependem de sua influência, citarei", diz o escritor hermético, "as revoluções dos reinos, as revoltas das cidades, as fomes, as pestes, o fluxo e o refluxo do mar, os terremotos".

O contemplativo discípulo de Hermes que eleva sua alma em direção à divindade, eleva-a ao mesmo tempo em direção à SANTA NATUREZA, pois não há distinção fundamental entre Deus e o cosmos. Começamos a compreender que os livros herméticos não são apenas tratados de teologia panteísta, mas também tratados de MÍSTICA NATURALISTA.

OS DOZE ALGOZES

Suas faculdades contemplativas são tais que o homem não pode colocá-las em prática se antes não silenciar seu psiquismo sensorial, sensitivo e, com maior razão, o sensual. É um dado primitivo da psicologia humana que nada pode mudar. A contemplação é um fenômeno espiritual que põe em movimento a parte mais incorpórea do espírito. Não há contemplação, mesmo naturalista, sem um treinamento ascético prévio.

Os escritores herméticos, como todos os místicos do paganismo, conheciam muito bem a necessidade desse "alívio" e dessa depuração do espírito. O tratado XIII do Corpus Hermeticum, que tem por título "Da Regeneração e da Regra do Silêncio", é particularmente explícito ao descrever a ASCESE HERMÉTICA.

DOZE ALGOZES estão ali, à espreita, assaltando a alma que deseja levar uma vida mística. Esses doze algozes nada mais são do que os sete pecados capitais que encontramos na moral cristã; e se Hermes conta doze, é porque desdobra os principais, talvez para mostrar seu grande zelo ascético.

Os doze vícios herméticos são chamados de algozes porque matam o espírito; impedem-no de elevar-se. Mortos os algozes, o espírito alça voo em direção às zonas aéreas e ígneas da SANTA NATUREZA, em direção a essas energias ao mesmo tempo físicas e espirituais que formam o complexo "hebdômada". Aliviado, o contemplativo poderá penetrar na "ogdoade", onde ouvirá o canto dos anjos. Depois, pode esperar elevar-se até a "enéada", ou nono céu, que é a morada do Deus supremo e que, sendo sua morada, identifica-se com Ele, pois tudo se encadeia.

A REENCARNAÇÃO e A APOTEOSE

A coletânea de escritos herméticos que o grego Estobeu mandou organizar para o ensino de seu filho contém um fragmento intitulado: "Da Encarnação e da Reencarnação". É ali que a ideia de reencarnação é desenvolvida com mais abundância. No entanto, ela é encontrada em todo o conjunto dos hermetica ("Livro Sagrado", "Discurso de Iniciação", "A Chave"). De resto, está longe de ser uma exclusividade deles; é uma noção muito difundida. No Ocidente, Pitágoras foi um dos primeiros a expressá-la sob o nome de "metempsicose", que significa: mudança de animação (de meta: mudança, e empsukosis: animação).

A Igreja não admitiu esta noção de reencarnação entre os seus dogmas definidos. Mas não precisou atingi-la com uma condenação formal, de tal modo ela é incompatível com o JUÍZO PARTICULAR da alma logo após a morte, juízo que determina sua sorte eterna. Segundo a doutrina tradicional, Deus não criou todas as almas ao mesmo tempo. Ele cria uma alma apenas quando há um corpo a ser animado. Cada alma anima apenas um corpo e aparece apenas uma vez na terra. No fim do mundo, cada alma reintegrará seu corpo, que ressuscitará sob uma forma dita "gloriosa".

Tal não é, de modo algum, a doutrina hermética, segundo a qual Deus criou, desde o princípio e de uma só vez, todas as almas destinadas a serem encarnadas. Elas viveram primeiramente no gozo da visão beatífica. Constituíam, assim, uma grande reserva de almas na qual estavam hierarquizadas em cerca de sessenta graus, sendo as almas destinadas ao comando as mais próximas de Deus e, portanto, as mais elevadas na hierarquia.

Em seguida, sua INCORPORAÇÃO lhes foi anunciada. Elas soltaram, então, gritos de desespero ao se verem condenadas a viver em corpos materiais e mortais após terem conhecido a visão de Deus.

Após uma primeira encarnação, a alma, se se comportou mal, retorna ao lugar de espera de onde desceu e se coloca em reserva para uma nova vida na terra em outro corpo.

Se a alma é julgada digna, viverá eternamente, mas sem reaver um corpo, pois os corpos não serão ressuscitados.

Quanto à alma má: "Ela não prova a imortalidade. Retorna atrás e desce em direção aos répteis. Tal é a punição da alma má". (Em "A Chave").

O Hermetismo, quando renascer ao fim da Idade Média, veiculará novamente, entre outros erros, esta noção de reencarnação, que nos retornará também pelas fontes pitagóricas. É uma ideia extremamente tenaz e que ainda perturba muitas almas cristãs.

Os escritores herméticos interessaram-se muito pelas ALMAS dos REIS, às quais atribuem uma origem particular. Vimos que as almas destinadas ao comando ocupam o posto mais elevado na hierarquia das almas à espera de encarnação. O "Livro Sagrado" fornece-nos alguns esclarecimentos:

"Pois são os próprios deuses", diz ele, "que engendram os reis que convêm à raça terrestre. O Rei é o último dos deuses e o primeiro dos homens. Enquanto está na terra, não goza de uma divindade verdadeira, mas tem algo que o distingue dos homens e o aproxima de Deus. A alma que é enviada a ele vem de uma região superior àquela de onde partem as almas dos outros homens". (No "Livro Sagrado").

Quanto àquelas que já viveram sem reproches na terra, a reencarnação em um corpo real lhes é concedida como uma última preparação para a APOTEOSE, ou seja, para a divinização.

O hermetismo, portanto, recolheu e retransmitiu esta antiqüíssima noção da apoteose. Entre os deuses mais antigos do politeísmo clássico figuram os fundadores das cidades e os homens notáveis dos "tempos fabulosos", aos quais se atribuíram, após a morte, as honras divinas. Prática que, longe de cair em desuso, manteve-se até muito tarde, visto que se procedia à apoteose dos Imperadores romanos mesmo após o início do cristianismo.

Há nisso, estimam a maioria dos hermetólogos, uma particularidade do hermetismo que o distingue das doutrinas orientais. Pensam que esta tendência à apoteose do poder real, à divinização do poder temporal, é própria do paganismo ocidental e o opõe ao do Oriente. Reencontraremos esta mesma tendência nos representantes do hermetismo contemporâneo e, em particular, em Julius EVOLA.

Assinalamos esta opinião como sendo geralmente aceita. Mas não estamos muito certos de que ela corresponda a uma verdadeira divergência entre o hermetismo ocidental e seus análogos orientais.

AS CONFRARIAS HERMÉTICAS

Sabemos que os escritos herméticos se apresentam como tendo sido "inspirados" e como constituindo revelações divinas. No entanto, é preciso precisar que as MODALIDADES desta inspiração são diversas. Pode tratar-se simplesmente do exercício de um pensamento intensamente absorvido na "divindade" e que toma seus acessos de ENTUSIASMO (visto ser esta a palavra empregada — en-theos) por inspirações divinas. E pode tratar-se também deste CONHECIMENTO que é comunicado por revelações mais explícitas e sentidas como vindas de personagens do além.

Sejam quais forem essas modalidades, devemos agora nos perguntar se tais revelações ocorriam no seio de comunidades de adeptos organizadas para esse fim, ou se eram recebidas livre e espontaneamente por individualidades independentes.

Em um artigo já antigo, publicado na "Revue archéologique" em 1922 (nº 3) e intitulado "O Túmulo de Lambindi e o Hermetismo Africano", Carcopino admite a existência de verdadeiras COMUNIDADES HERMÉTICAS. Os documentos aos quais ele se refere datam do século II d.C. Pertencem, portanto, aos hermetistas da terceira geração, isto é, do período gnóstico, durante os três primeiros séculos da era cristã.

Pode-se admitir, de fato, que nessa época tardia existisse uma COMUNIDADE do POIMANDRES (Comunidade do "Pastor de Homens"). Falou-se muito disso e encontram-se, não o negamos, nos hermetica, certos sintomas de confraria, como por exemplo o segredo:

"Pois um sermão sobre as matérias mais santas da religião seria profanado por um AUDITÓRIO MUITO NUMEROSO; é uma impiedade entregar ao conhecimento da multidão um tratado plenamente preenchido pela majestade divina".

"Quanto a vós, guardai estes divinos mistérios no segredo de vossos corações e cobri-os de silêncio". (Em "Discurso de Iniciação").

"O mundo nutre o corpo; o espírito nutre as almas; o pensamento, dom celeste que é o feliz privilégio da humanidade, nutre a inteligência. Mas apenas um PEQUENO NÚMERO possui uma inteligência capaz de receber tal benefício. Prossigamos, pois, este ensinamento, ainda que devesse aproveitar apenas a esse pequeno número, e aprendamos por que apenas ao homem Deus deu uma parte de sua inteligência e de sua ciência". (Em "Discurso de Iniciação").

"Hermes diz a seu filho Tat: aprende comigo a celebrar o silêncio da virtude, sem revelar A NINGUÉM a regeneração que te transmiti". (Em "Da Regeneração e da Regra do Silêncio").

Mas deve-se reconhecer que tal segredo dirige-se sobretudo à boa vontade do leitor. Certamente, vimos mais acima uma fórmula de conjuração que profere ameaças mágicas contra aqueles que abusassem dos conhecimentos contidos nas revelações herméticas. E a divulgação intempestiva está, evidentemente, incluída nesses abusos. Mas nunca se vê que o respeito ao segredo seja confiado a uma organização ou a uma confraria que seria sua guardiã e responsável. De fato, os hermetica circularam livremente.

O mesmo ocorre com outro sintoma de confraria: o da ILUMINAÇÃO. A aquisição da iluminação nunca é subordinada a um rito preciso. É apenas esperada do beneplácito dos deuses e da perseverança do adepto. Jean-Pierre MAHÉ, em seu "Hermès en Haute-Égypte" (Québec, 1978), discerne no discípulo hermético dois graus de iluminação:

"A iluminação ocorre em dois tempos. Primeiro, o pai e o filho recebem a visita das Potências, o que provoca neles um primeiro êxtase. Eles têm, então, a visão de toda a Ogdoade, onde as almas e os anjos cantam um hino silencioso. Todavia, como o filho é incapaz de fazer silêncio em si mesmo, não compreende as palavras deste hino silencioso.

Ele precisará, portanto, de uma segunda iluminação. Ouvirá, então, as palavras do hino e compreenderá que está na presença da Enéada". (Em J. P. Mahé, páginas 43-44).

Quanto ao terceiro sintoma de confraria, que é a INICIAÇÃO, reencontramo-lo também nos escritos de Hermes, mas segundo um ritualismo verdadeiramente rude, que deixa lugar a muita liberdade pessoal e que não supõe um real arregimentação.

"Instruídos por Hermes sobre os laços simpáticos que o Criador estabeleceu entre o céu e a terra, Osíris e Ísis instituíram as representações religiosas dos mistérios celestes. Criaram a INICIAÇÃO PROFÉTICA, para que o profeta que vai elevar suas mãos aos deuses fosse instruído sobre todas as coisas, para que a filosofia e a magia servissem de alimento à alma e a medicina curasse os sofrimentos do corpo". (No fragmento intitulado "O Livro Sagrado").

Se, portanto, existiram confrarias herméticas, isso só pode ter sido no curso dos três ou quatro primeiros séculos cristãos. É verossímil que não as tenha havido durante o período anterior, ou seja, o período que chamamos de helenístico. Além disso, elas certamente não assumiram nenhuma organização estrita, nem em matéria de segredo, nem para aceder à iluminação, nem para receber a iniciação. E sob esse aspecto da organização, não se pode deixar de estabelecer uma comparação com OS MISTÉRIOS ÓRFICOS.

Os dois fundadores, Orfeu e Hermes, são bastante semelhantes, sendo ambos tipos de profetas divinizados após a morte. Mas seus discípulos evoluíram de modo diferente. Os discípulos de Orfeu criaram organizações fortemente estruturadas, com graus, cerimônias, lugares sagrados e assembleias periódicas. (O mesmo ocorreu com os "Mistérios de Elêusis").

Enquanto isso, os discípulos de Hermes contentavam-se em fazer circular entre si escritos místicos e em compor outros no mesmo estilo, mas sem que houvesse, entre os adeptos do mesmo mestre, um verdadeiro PACTO DE FRATERNIDADE. O hermetismo sempre se dirigiu a espíritos independentes.

E quando reaparecer, após seu sono medieval, será novamente sob a mesma forma livre e individual. Compreende-se muito bem o porquê. Uma organização fortemente estruturada, como a do orfismo, teria atraído a atenção e as reações de uma Sociedade cristã bem aparelhada para se defender. Ao passo que os "ditos de Hermes" (modernizados, cristianizados e alambicados para a circunstância) puderam retomar sua circulação entre os espíritos inquietos, rebeldes à disciplina.

A OPINIÃO dos PADRES da IGREJA

O Divino Mestre preparara a Sinagoga dos judeus para receber o Messias, a quem fizera anunciar pelos Profetas. Nessa aceitação deveria resumir-se toda a história do Antigo Testamento. Mas Ele também, embora de maneira diferente, preparara o povo dos Gentios para sua nova vocação, isto é, para a recepção do Evangelho.

Primeiro, fizera deles um POVO RELIGIOSO. E São Paulo notou-o imediatamente quando chegou a Atenas: "Atenienses", disse-lhes, "em tudo vos vejo eminentemente religiosos. Pois, passando e observando os objetos de vosso culto, encontrei até um altar com esta inscrição: Ao deus desconhecido. O que vós adorais sem conhecer é o que eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe... É nele, com efeito, que temos a vida, o movimento e o ser, como o disseram também alguns de vossos poetas". (Atos XVII, 22-28).

Deus também preparara os Gentios enviando-lhes não profetas, mas FILÓSOFOS que, eles também, ensinavam a existência necessária de um Deus supremo que fosse a "causa primeira" do Universo.

É a essa dupla preparação, religiosa e filosófica, que se chamou posteriormente de PREPARAÇÃO EVANGÉLICA dos Gentios.

Os primeiros pregadores cristãos nutriam, portanto, em relação à filosofia pagã, essa mesma PRESUNÇÃO FAVORÁVEL de que São Paulo lhes dera o exemplo. — Mas essa presunção favorável estava longe de ser cega: "Enquanto Paulo esperava Silas e Timóteo em Atenas, sentia em sua alma UMA VIVA INDIGNAÇÃO diante do espetáculo da cidade repleta de ídolos". (Atos XVII, 16).

Pois bem! Os Padres da Igreja refletirão precisamente os mesmos sentimentos de São Paulo em relação ao paganismo: primeiro, uma viva indignação diante de seus falsos deuses, mas também uma presunção favorável em relação à religiosidade aguda de seus filósofos e poetas.

Ora, Hermes é justamente um desses filósofos-poetas. Ele passa por tal; invocam-no quase ao nível de Platão. Ouçamos, por exemplo, São Cipriano: "Hermes Trimegisto fala de um Deus único e o considera como incompreensível e impenetrável". (Sermão sobre a Vaidade dos Ídolos).

São Cipriano evidentemente não invoca Hermes para se perfilar atrás de toda a sua filosofia (aliás, vimos que ela era eminentemente compósita), mas para utilizar o aval de um filósofo estimado. Seu argumento é fácil de compreender: "Resta a vós, pagãos, pouco caminho a percorrer para aceitar o Deus do Evangelho, visto que Hermes e todos os vossos Sábios ensinam um Deus único, incompreensível e impenetrável, que já é, em grande parte, o dos Profetas".

Não podemos, nos limites deste artigo, fazer o levantamento completo das passagens que os Padres dedicaram a Hermes. Eles utilizam sua notoriedade, mas não subscrevem toda a sua doutrina (deveria-se dizer, até, todas as suas doutrinas). Tratam-no em pé de igualdade com Platão e Pitágoras. Após São Cipriano, um segundo exemplo nos bastará: o de LACTÂNCIO.

"Deus", escreve Lactâncio, "é, portanto, o princípio único, a única origem de todas as coisas, conforme o compreendeu PLATÃO, conforme o ensinou em seu Timeu, onde proclama a majestade deste Deus fora da inteligência e acima da palavra humana. É também o testemunho de HERMES, que Cícero nos diz ter sido colocado no nível dos deuses pelos egípcios e apelidado de Trimegisto... muito tempo antes de Platão, antes de PITÁGORAS e dos Sete Sábios". (Lactâncio, no Sermão "Da Cólera de Deus").

Se os Padres, ocasionalmente, invocam Hermes como invocam todos os filósofos que ensinaram a unidade, a soberania e a necessidade de Deus, fazem-no sem proferir a menor alusão ao resto da doutrina hermética. Parecem não ter desconfiado de tudo o que os hermetica contêm de nocivo em matéria de panteísmo.

Sem que se explique muito bem o porquê, acontece que o hermetismo, como doutrina, não deu lugar a polêmicas.

Há, entretanto, um sábio cristão do século XI que discerniu muito bem os erros e perigos dos escritos de Hermes, animado que estava por essa "viva indignação" que já sentia São Paulo em Atenas: é o bizantino PSELOS, do qual transcrevemos um trecho de seu "Diálogo sobre a operação dos demônios". Ele fala de Hermes: "Este FEITICEIRO", diz ele, "parece ter conhecido muito bem a Sagrada Escritura; é dali que partiu para expor a criação do mundo. Não temeu, por vezes, copiar as próprias expressões de Moisés, como na frase: 'Deus disse: Crescei e multiplicai', que manifestamente tomou emprestada do relato mosaico. Mas, em vez de conservar a simplicidade e a clareza verdadeiramente divinas da Escritura, lança-se no pathos enfático habitual aos Sábios do helenismo, em alegorias, divagações e monstruosidades, e afasta-se do bom caminho quando não é dele desviado por 'Poimandres'".

"Com efeito, não é difícil ver quem era o Poimandres dos gregos; é aquele que, entre nós, chamamos de Príncipe do Mundo, ou algum dos seus. Pois, diz Basílio, o diabo é ladrão, ELE SAQUEIA NOSSAS TRADIÇÕES, não para desviar os seus da impiedade, mas para colorir e embelezar sua falsa piedade com palavras e pensamentos verdadeiros, e torná-la assim verossímil e aceitável para a multidão". (Pselos, em "Diálogo sobre a Operação dos Demônios").

J. V.