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PRECURSORES ESQUECIDOS

O ANTIMAÇONISMO NO SÉCULO XIX

O Antimaçonismo nasceu na França com a História do Jacobinismo, do padre BARRUEL. Outros autores, de quem falaremos a seguir, deram-lhe suas credenciais na opinião católica. No final do século XIX, o movimento havia se desenvolvido consideravelmente e recrutava inúmeros militantes. Sua missão própria era essencialmente reunir uma documentação exigente, passada pelo crivo da mais severa crítica. Essa era a condição de sua eficácia no domínio da defesa religiosa. Infelizmente, o movimento foi logo superado por publicistas ávidos por sensacionalismo, pouco zelosos em controlar os fatos, ou que emitiam hipóteses arriscadas. As fantasmagorias ou "diabruras" imputadas às lojas conheciam um sucesso crescente entre seus leitores.

A catástrofe não estava longe. Ela ocorreu quando Léo Taxil, um impostor nato, irrompeu na imprensa católica. Fingindo-se convertido e ex-maçom (ele não havia passado do grau de aprendiz), vinha como reforço para combater a maçonaria. Precioso recruta, em verdade!

Seria necessário um volume (1) para contar essa história, e ainda assim alguns episódios não estão completamente elucidados.

Apesar da advertência de escritores, religiosos e jornalistas clarividentes, deve-se reconhecer lealmente que o mundo católico concedeu a um personagem já desacreditado uma audiência inacreditável. Diversas personalidades religiosas foram ridicularizadas e — o que é mais grave — a questão do satanismo nas sociedades secretas foi relegada ao campo das crendices. Por cinquenta anos, a eficácia da ação antimaçônica ver-se-ia singularmente comprometida.

Além disso, os jornalistas ou escritores que haviam se referido a Léo Taxil — e, portanto, comprometido-se com ele — viram sua obra sob suspeita, mesmo que seus trabalhos, em certos pontos, não carecessem de valor.

À exceção de Barruel, sobre quem teremos oportunidade de voltar, não existia, por volta de meados do século XIX, nenhum estudo de base sobre a Maçonaria encarada do ponto de vista católico. Por outro lado, durante a segunda metade do século XIX, uma série de autores deveria, pouco a pouco, realizar um trabalho documentário muito importante, apesar de condições bastante difíceis. Citemos desde já: Crétineau-Joly, Deschamps, Jannet, Dom Fava, Dom Léon Meurin, Clarin de la Rive, Jules Doinel.

Crétineau-Joly, esse êmulo de Louis Veuillot, porém mais violento e corrosivo — "um chouan da escrivaninha", dizia dele Barbey d'Aurevilly —, empreendera, por instâncias de Gregório XVI, uma História das Sociedades Secretas e de suas Consequências. O livro estava quase terminado e em parte impresso, mas Gregório XVI morrera, e Pio IX, então reinante e no período liberal de seu pontificado, fez saber ao autor que tal publicação era inoportuna. Crétineau-Joly, num gesto de despeito, lançou sua obra ao fogo. É uma grande perda pois, segundo aqueles que dela tiveram conhecimento parcial, continha revelações do mais alto interesse.

DESCHAMPS E JANNET

Foi preciso esperar até 1875 para que se pudesse ter em mãos um trabalho sério: As Sociedades Secretas ou a Filosofia da História Contemporânea. Esta obra importante, em três grandes volumes in-oitavo, era de autoria de Nicolas DESCHAMPS. Foi posteriormente completada por Claudio JANNET.

Nicolas DESCHAMPS, nascido em Villefranche-sur-Saône em 12 de dezembro de 1797, pertencia à Companhia de Jesus. Professor, pregador, autor de obras por vezes muito violentas em favor da liberdade de ensino e da liberdade das associações religiosas, foi levado, durante a Revolução de 1848, a questionar-se sobre o perigo revolucionário, a buscar sua origem e causas. Seu livro é fruto de longos anos de meditações e pesquisas. Note-se que os superiores do P. DESCHAMPS negaram-lhe o imprimatur em vida. O Padre morreu em 1873, em Aix-en-Provence, e a primeira edição de sua obra data de 1874/76. Claudio JANNET completou-a em 1880.

Estamos diante de um verdadeiro monumento, de uma "suma" que não envelheceu. É que "o mérito próprio do P. DESCHAMPS, o que lhe dá uma autoridade toda especial, é o de nunca avançar senão apoiado em provas inegáveis, colocadas sob os olhos do leitor" (F. SEGUIN).

Esse mérito aplica-se igualmente à colaboração de Claudio JANNET. Nascido em Aix-en-Provence em 1844, advogado, discípulo de Le Play, professor de economia política no Instituto Católico de Paris, ele foi alvo, por parte de Dom d'Hulst, quando de sua morte (1894), de elogios insignes. O leitor percebe a extensão de sua erudição, a imensidão de seu labor, a segurança de seu julgamento, sua autoridade reconhecida. Não estamos lidando com um vago publicista, mas com um especialista.

A edição definitiva de 1880 de As Sociedades Secretas completa, pelas pesquisas pessoais de Claudio JANNET, a obra de Nicolas DESCHAMPS.

O autor dos dois primeiros tomos estudara "as Doutrinas da Maçonaria e a Revolução" e "a Ação das Sociedades Secretas na História Moderna". O terceiro tomo, obra de Claudio JANNET, é mais especialmente dedicado à ação da Maçonaria na Europa e na América.

Muito menos sistemático que o do padre BARRUEL, o trabalho considerável de DESCHAMPS-JANNET procede de uma ótica muito mais ampla:

"Ver exclusivamente a Maçonaria nos eventos da história moderna seria ultrapassar as conclusões legítimas destes estudos; a vida dos povos é demasiado complexa para que tudo possa ser reduzido a uma causa única; mas o trabalho subterrâneo das sociedades secretas não deixou de ser, em certos momentos, um fator tão importante no grande assalto desferido contra a Igreja, que não se pode dele fazer abstração".

É impossível, em nossa opinião, abordar a história da Maçonaria sem ter lido esta obra. Poder-se-ia recuar diante do esforço (quase 2.000 páginas...), mas que enriquecimento!

DOM FAVA

Trata-se agora de evocar a forte personalidade daquele que foi, nas duas últimas décadas do século, o líder e o animador da luta antimaçônica na França, Dom Amand-Joseph FAVA, bispo de Grenoble.

Nascera em Evin-Malmaison (Pas-de-Calais) em 10 de fevereiro de 1826. Ingressou nos Padres do Espírito Santo com vocação missionária, exerceu inicialmente seu ministério na Ilha da Reunião e fundou a Missão de Zanzibar. Bispo da Martinica, totalizava 24 anos de apostolado nas colônias francesas quando foi chamado para o bispado de Grenoble, em 1875. Morreu subitamente em 1899.

Deixou a lembrança de um Cavaleiro da Idade Média, de fé ardente e zelo apostólico devorador. Um simples fato o prova: em vinte anos de episcopado em Isère, o bispo de Grenoble visitou cinco vezes todas as paróquias de sua diocese.

De suas atividades, destacaremos aqui apenas sua luta ferrenha contra a Maçonaria. Foi nas colônias, onde ela era particularmente virulenta, que ele a descobriu.

"Nós as encontramos, a essas sociedades secretas que penetram em toda parte onde um navio possa atracar, no extremo da África, nas ilhas de Madagascar, em Zanzibar e nos diversos países que evangelizamos. Elas são florescentes em nossas colônias, para cuja divisão e ruína contribuem. Vimo-las e as pegamos em flagrante nas Associações religiosas de uma diocese das Antilhas que nos fora confiada: haviam se infiltrado perfidamente entre as pessoas piedosas que as compunham". (2)

Na nomenclatura de sua obra escrita, noto sete volumes ou brochuras relativas à Maçonaria. Estando seus títulos esquecidos, apresento-os aqui:

  • Carta sobre a Maçonaria (1880),
  • O Segredo da Maçonaria (1882),
  • Novas declarações de guerra dos Maçons aos católicos (1891),
  • Estudo sobre o Convent maçônico de 1892 (1892),
  • Convent maçônico de 1893 (1893),
  • Dois Discursos maçônicos dos Irs∴ Aimable e Lemmi (1893),
  • Comentários sobre a Carta de Leão XIII ao Cardeal RAMPOLLA (a propósito das festas maçônicas de 20 de setembro de 1895) (1895).

Além disso, Dom FAVA fundou a revista La Franc-Maçonnerie démasquée (A Maçonaria Desmascarada), da qual assumiu pessoalmente a direção por nove anos antes de ser assumida pelo padre de Bessonies e, depois, pela Bonne Presse. Não se deve esquecer também que foi após uma gestão feita em Roma pelo bispo de Grenoble que Leão XIII publicou, em 20 de abril de 1884, sua encíclica HUMANUM GENUS, contra as sociedades secretas.

Não é porque, ao final de sua vida, Dom FAVA foi enganado e respingado pela impostura de Léo Taxil que se estaria autorizado a negar valor à sua obra. Durante mais de dez anos, com efeito, antes desses lamentáveis incidentes, ele construíra uma demonstração sólida sobre a nocividade da seita maçônica. Por outro lado, não se deve esquecer que o clero das colônias naquela época — muito mais que os padres do Continente — estava perpetuamente confrontado com a ação do Demônio (infestações, possessões, fenômenos variados...). Um bispo missionário tinha o hábito de viver — tal como o Cura d'Ars — num clima de "diabruras" com o qual aprendera a não se espantar. (3) Daí a relativa facilidade com que pôde ser enganado.

Esta observação será igualmente válida para Dom MEURIN.

DOM LÉON MEURIN

Mais um bispo missionário que teve desavenças com a Maçonaria em seu campo apostólico.

Alemão de origem, religioso da Companhia de Jesus, orientalista distinto, especialista em Gnose, na Cabala e no Esoterismo, Dom Léon MEURIN, arcebispo de Port-Louis (Ilha Maurício), deixou um grande volume de mais de 500 páginas: A Maçonaria, Sinagoga de Satanás (1893).

Ele buscou na história a maçonaria; na maçonaria, a ordem decaída dos Templários; nas duas juntas, a Sinagoga cabalística; nas três juntas, os antigos mistérios pagãos; e, enfim, no todo, o próprio Satanás.

Fica-se atônito diante da soma de conhecimentos a que se refere esta exposição. Um único lamento: Dom MEURIN utilizou, em alguns pontos, materiais pouco seguros, emprestados de Taxil e Cia. Sua obra deve, portanto, ser estudada com prudência e senso crítico.

A. CLARIN DE LA RIVE

Sabe-se pouco sobre o autor de A Mulher e a Criança na Maçonaria Universal. Este borgonhês, antigo oficial na Argélia, publicista, redator-chefe de La Côte d'Or e de Le Franc-Bourguignon (por volta de 1885), que colaborou em La Croix de Reims, em La France chrétienne e em Le Peuple français, deixou a importante obra de 746 páginas indicada acima e publicada em 1894.

Há de tudo nesse livro, que deve ser abordado apenas com precaução. Ele segue, ano após ano, desde 1730, a história da Maçonaria encarada em suas relações com a família. Aborda a questão das mulheres nas lojas. Sua exposição é excelente no início, mas quando encontra Léo Taxil (o qual, repitamos, embaralhou as cartas e esterilizou toda a literatura antimaçônica do fim do século), ele descarrila, pois toma por verdades certas fábulas grosseiras espalhadas pelo mestre-impostor.

Como se diz vulgarmente, "há o que aproveitar e o que descartar". Caberá aos especialistas fazer a triagem, pois este livro não carece de mérito.

JULES DOINEL

Jules DOINEL (pseudônimo: Jean KOSTKA), arquivista departamental de Loiret, fundador de uma loja em Orléans e alto dignitário maçônico, é conhecido no mundo do Ocultismo principalmente como o renovador da Gnose na França, em 1888. Tornou-se o primeiro patriarca da Igreja Gnóstica sob o nome de VALENTIM II e conseguiu agrupar altas intelectualidades. Em 1893, um sínodo foi constituído e consagrou seu título de bispo de Monségur (lembrança dos Albigenses aos quais os gnósticos afirmam se ligar).

Mas, em 1895, J. DOINEL converteu-se, e sua conversão foi sincera. Emmanuel BARBIER, em seu livro As Infiltrações Maçônicas na Igreja, traz a prova disso.

O heresiarca convertido quis reparar o mal de que fora autor e escreveu uma série de artigos reunidos em volume sob o título LÚCIFER Desmascarado (1895). Encontram-se ali numerosos detalhes sobre as seitas ocultas e, em particular, sobre a Gnose. Ele estuda também os graus maçônicos, seu ritual e seu simbolismo.

O autor não busca nenhum efeito fácil:

"Reina em seu livro", escreve o padre Emmanuel BARBIER, "um tom de fé e de arrependimento de uma nota tão justa, ao mesmo tempo tão profunda e comedida, uma reserva tão sinceramente cristã em meio a descrições abomináveis e revelações onde nada foi escrito para satisfazer a curiosidade, que é impossível não conceder um grande valor a este testemunho".

Neste final do século XIX, a luta antimaçônica — com raras exceções — mal goza de credibilidade, mas alguns publicistas, mais avisados e também mais desconfiados — "gato escaldado..." —, preparam-se para retomar o combate sobre novas bases. Seguiremos suas campanhas em um próximo artigo.

F. M. d'A.


(1) Este volume existe. É a notável exposição de Eugen WEBER, Satanás, Maçom - A Mistificação de Léo Taxil (Paris, Juilliard, 1964). (2) Annales de la Salette, maio de 1879, p. 376. (3) Conheci outro bispo missionário, falecido há alguns anos, que confirmava esses fatos estranhos em terras de missão.