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INTRODUÇÃO HISTÓRICA AO ESTUDO DO ECUMENISMO - 1

DAS ORIGENS AO SÉCULO XIX

Parece difícil iniciar um estudo sobre o ecumenismo sem tentar previamente definir o sentido desta palavra, mas, ao mesmo tempo, dificilmente se pode esperar atingir esse resultado sem recorrer ao que será o conteúdo próprio do estudo a seguir.

Tudo o que se pode dizer de imediato é que o vocábulo é novo — digamos, bastante recente, pois só apareceu há cerca de sessenta anos, por volta de 1920. Muitos acreditam erroneamente que ele é mais antigo, ou mesmo muito antigo, e esse erro provém de duas causas: a primeira resulta do bombardeio incessante dos meios de comunicação de massa, que confere às coisas, mesmo às mais novas, uma presença e uma pátina notáveis; a segunda vem do fato de que esta palavra se assemelha a outra que é muito antiga, "ecumênico", de modo que o deslizamento de uma para a outra ocorre facilmente.

A oikouméné era, para os Antigos, o mundo conhecido: em linhas gerais, a bacia do Mediterrâneo, depois o restante da Europa e o Oriente Próximo; por extensão, era o mundo inteiro, a universalidade das terras e dos homens.

Quando a Igreja se desenvolveu, a palavra passou a designar o conjunto dos fiéis e das comunidades locais e, quando os bispos começaram a se reunir, suas reuniões — seus concílios — foram qualificados ou como provinciais, se apenas uma região estivesse envolvida, ou como ecumênicos, se todas as regiões estivessem interessadas, isto é, se, ao menos em direito, todos os bispos da Igreja fossem convocados.

Os grandes concílios dos séculos IV, V e VI — Niceia, Calcedônia, Constantinopla, etc. — são, assim, concílios ecumênicos; e foram justamente esses grandes concílios que definiram os principais dogmas e que, por via de consequência, lançaram nas trevas exteriores, para fora da oikouméné católica (se ousamos este pleonasmo), aqueles que desviavam a doutrina das vias cristãs, tratasse-se dos arianos, dos monotelitas ou dos monofisitas.

Percebe-se bem, por aí, que "ecumênico" e "ecumenismo" podem ser muito diferentes e até opostos: o primeiro designando um estado de fato, um dado prévio; e o segundo, um objetivo que se visa, uma certa forma de ideal futuro — aliás, muito pouco católico, por sinal!

Para nos protegermos contra essas confusões, tomaremos as coisas pela base, isto é, partiremos das heresias e dos cismas que rasgaram a túnica sem costura da Igreja de Cristo, e remontaremos pouco a pouco até as numerosas, longas e tortuosas tratativas que conduziram a esse fenômeno moderno que se chama "ecumenismo", o que exigirá vários artigos seguidos em diversos sumários deste Boletim.

Começaremos, portanto, por recordar os numerosos cismas e heresias ocorridos ao longo dos tempos, insistindo naqueles que deixaram cicatrizes. Em seguida, mencionaremos os esforços despendidos ao longo dos séculos para reintegrar ao seio da Igreja os filhos pródigos, as tentativas de união com os Ortodoxos nos séculos XIII e XV, e as controvérsias com os Protestantes nos séculos XVI e XVII, sem esquecer os grandes projetos ecumênico-maçônicos do final do século XVIII e início do XIX.

Antes de nos debruçarmos sobre os tempos modernos, teremos de dedicar um estudo rápido ao inacreditável esfarelamento das seitas protestantes desde o século XVI, mas sobretudo nos séculos XVII e XVIII, bem como à enorme eflorescência das seitas neoprotestantes no século XIX, pois é a soma dessa infinita multidão que constitui o terreno onde florescerá o ecumenismo.

Com os tempos modernos, abordaremos, a partir de meados do século XIX, as fontes distantes mas reais do ecumenismo contemporâneo, ou seja, o Movimento de Oxford na Inglaterra e seu prolongamento, as Conversações de Malines na Bélgica, por volta de 1925.

Examinaremos em seguida o nascimento e o crescimento do ecumenismo protestante ao longo do século XX e, depois, debruçar-nos-emos sobre o ecumenismo surgido em meio católico desde o pontificado de Pio XI até o Segundo Concílio do Vaticano.

As pessoas desejosas de estudar seriamente a questão encontrarão, assim, o terreno desobstruído e as principais vias reconhecidas: esperamos que elas queiram nos beneficiar com seus trabalhos, que teremos prazer em transmitir aos nossos leitores; a matéria é vastíssima e, em uma centena de páginas, não podemos ter outra ambição senão a de traçar um mapa pontilhado dessas terras desconhecidas.

OS CISMAS E AS HERESIAS AO LONGO DOS SÉCULOS

Distinguimos aqui os dois elementos mais por uma questão de precisão do que por necessidade real, pois, embora na doutrina essas expressões designem realidades diferentes (1), na prática as duas situações estão geralmente mescladas: é raro que exista um cisma sem heresia e que a heresia não desemboque em um cisma; e, neste segundo caso, ela não deixa rastro na Igreja no plano que nos cabe analisar.

O primeiro conflito opôs os Judaizantes — isto é, aqueles que queriam prender a Igreja nova ao Judaísmo, especialmente no plano das práticas rituais — e aqueles que queriam, ao contrário, libertá-la dele. Estes últimos eram movidos pela preocupação da ação junto aos Gentios, como São Paulo, mas, em profundidade, essa oposição implicava também questões doutrinárias.

A ruína de Israel em 70 d.C. não permitiu que esse problema ganhasse demasiada importância, e o tempo, bem como a conversão maciça dos Gentios, retiraram-lhe toda a realidade posteriormente.

O segundo conflito, muito diferente em sua cronologia e natureza, é o gnosticismo, espécie de mistura, de sincretismo, entre o Cristianismo em vias de definir seus dogmas e todo um conjunto de doutrinas antecedentes e fortemente heteróclitas: gregas, persas, egípcias e judias (judeu-cabalísticas).

Ao contrário do anterior, o conflito gnóstico só ganhou fôlego após a ruína de Jerusalém, embora existissem gnósticos antes (cf. Simão, o Mago, que quis comprar os poderes de São Pedro), e deveria constituir um risco importante durante vários séculos, do II ao VI, sem jamais desaparecer completamente: comunidades e, ao menos, redes cristão-gnósticas subsistiram na Europa Central durante toda a Alta Idade Média e fizeram um reaparecimento estrondoso na Itália e na França nos séculos XII e XIII.

Não parece que ainda existam tais comunidades, ao menos às claras e reivindicando seu lugar no concerto das seitas; a questão foi levantada em relação aos Valdenses, seita nascida em Lyon na época dos Cátaros, mas não se tem certeza sobre esse ponto, e os valdenses atuais — alguns milhares em ambas as vertentes dos Alpes — não parecem gnósticos.

A título de curiosidade, deve-se, contudo, assinalar a Igreja Gnóstica, grupúsculo paramaçônico surgido no início do século XIX, que reúne mais bispos do que fiéis e cuja importância seria nula se alguns de seus membros não inundassem a França com suas obras anticristãs...

O terceiro conflito foi, na realidade, uma sucessão de choques, enredados de forma inextricável, respondendo e provocando uns aos outros ao longo de vários séculos, e cujo tema único era a personalidade de Cristo, Homem-Deus: ou homem, ou Deus, possuindo uma ou duas naturezas, uma ou duas vontades, etc.

O mero relato dessas lutas, que começaram no limiar do século IV, antes mesmo da paz de Constantino, e se estenderam por vários séculos, preencheria facilmente um boletim inteiro; portanto, não é o lugar para abordá-las em detalhe. Basta-nos saber que algumas dessas polêmicas deixaram rastros e deram origem a cismas ainda existentes: é preciso recordar também, de passagem, que extraordinária fraqueza resultou disso para a parte oriental da Igreja, que pagaria tragicamente no momento da expansão muçulmana em direção à Palestina e à Síria no século VII, ao Egito no VIII, e depois para o restante do Império do Oriente, que se fragmentou pouco a pouco para finalmente desmoronar sob os golpes do Islã em meados do século XV, abrindo a porta da Europa Central e quase da Europa Ocidental: os muçulmanos em Viena e em Lepanto, em 1570.

Esses cismas estão na origem da proliferação de seitas no Oriente Médio: uma cidade como Alepo, na Síria, conta com 9 bispos cristãos, e ainda assim os cristãos são minoria nessa cidade muçulmana.

As principais comunidades atuais resultantes dos cismas dessa época são ou nestorianas ou monofisitas:

  • Os nestorianos são os descendentes dos partidários de Nestório, que negava a unidade de pessoa em Jesus Cristo; refugiados no século V na Mesopotâmia e na Pérsia — de onde vem o nome de Caldeus sob o qual são designados hoje —, foram repelidos pela invasão muçulmana no século VII e espalharam-se por todos os países do leste da Ásia, onde alguns estabeleceram contatos com as religiões locais, o Hinduísmo e o Budismo. Sob a pressão da invasão mongol no século XIII, a principal comunidade nestoriana refugiou-se no Curdistão, onde permanece até hoje.

  • Os monofisitas, descendentes dos partidários de Eutiques, que negava a dualidade de naturezas em Jesus Cristo e foi condenado no Concílio de Calcedônia em 451, são mais numerosos e divididos em vários ramos:
  • A Igreja Gregoriana Armênia, nomeada após Gregório, o Iluminador, que converteu o país no século III e fez dele o primeiro estado católico antes de Roma. Tendo passado ao cisma monofisita e depois sido perseguidos tanto pelos muçulmanos turcos quanto pelos ortodoxos russos, foram massacrados em grande número em várias ocasiões; a maioria dos armênios permaneceu ligada a essa fé tanto por patriotismo quanto por convicção. Note-se que esta Igreja conta com numerosas comunidades na França.

  • A Igreja Síria Jacobita, deve seu nome ao monge Tiago Baradeu (Baradaï) que, graças ao apoio da Imperatriz Teodora, esposa de Justiniano, pôde implantar definitivamente o cisma na Síria em meados do século VI. Foi nomeadamente entre esses sírios jacobitas que o Islã encontrou grandes cumplicidades durante sua expansão no século VII; não apenas lhe abriram as portas, mas forneceram-lhe quadros intelectuais e administrativos de valor, que foram um reforço determinante naquele momento.

Não se podem esquecer os Melquitas ortodoxos: trata-se daqueles raros sírios que permaneceram fiéis à verdadeira fé, recusando seguir Eutiques em seu cisma após o Concílio de 451, mas cujos descendentes, infelizmente, adotaram mais tarde a atitude cismática de Constantinopla em relação a Roma.

A título de anedota, deve-se também indicar que esta Igreja Síria Jacobita deu origem, há um século, à Igreja Céltica, grupúsculo esotérico que atua na Inglaterra e na Bretanha: este é um dos dois canais pelos quais se transmitiu o sacerdócio e o episcopado a diversas seitas pseudocatólicas tradicionais na França atual, o que permite aos clérigos desses agrupamentos intitularem-se "padres de São Pedro de Antioquia"...

  • A Igreja Copta do Egito reúne os monofisitas do Egito que sofreram muito com os invasores muçulmanos durante séculos; desde o século XIX, sua posição e seu número não pararam de melhorar, e parece inclusive que seu clero recuperou, há alguns anos, um certo nível de qualidade. Sua situação diante do Islã foi frequentemente complexa pois, por um lado, eram oprimidos e, por outro, forneceram constantemente ao governo muçulmano quadros médicos e jurídicos indispensáveis.

Um ramo vizinho e dependente é o da Igreja Copta da Abissínia (Etiópia), cuja característica rara é compreender a maioria dos habitantes daquele país.

O quarto conflito, contemporâneo do anterior (séculos V e VI), mas restrito ao Ocidente, tratou da Graça; colocou em jogo as noções de liberdade e vontade humanas e a da graça de Deus, bem como suas relações. Opôs um grande número de teólogos cujos campeões adversários foram Santo Agostinho e Pelágio. Muito grave no momento, extinguiu-se sem deixar traços importantes, mas voltaria a inflamar-se onze séculos mais tarde para dar origem ao Jansenismo (cf. o Augustinus), movimento que perturbou muito a cristandade ocidental nos séculos XVII e XVIII e foi uma das raízes da Revolução.

O quinto conflito limitou-se, de fato, ao Oriente, mas não foi menos grave e interessante por seus fundamentos doutrinários: é a querela iconoclasta, ocorrida no século VII, provocada, por um lado, pelos excessos monásticos e uma certa idolatria das imagens, mas também, por outro lado, por uma fobia da representação que aproximava esse movimento do Judaísmo e, sobretudo, do Islã, então em plena expansão. Que saibamos, esta querela iconoclasta não deixou um seguimento organizado em comunidade dissidente, mas apenas uma tendência que viria a se reencontrar nas seitas protestantes.

O sexto conflito, ocorrido no século IX, não conheceu grande extensão e limitou-se a alguns teólogos; mas o questionamento da Eucaristia por Berengário de Tours anunciava, com sete séculos de antecedência, os erros protestantes.

O sétimo conflito, o mais importante de todos os ocorridos até então, eclodiu no século XI [o texto diz original diz "4e siècle", provavelmente erro de digitação do autor, referindo-se ao Grande Cisma de 1054, ou às sementes plantadas no século IV], mas ocorreu após um longo amadurecimento, de cerca de três séculos, e já estava em germe desde o século IV.

Recordemos brevemente os seus elementos: a Igreja primitiva conheceu muito cedo três centros predominantes: Antioquia, depois Roma — quando São Pedro para lá transferiu sua sé — e Alexandria, sé de São Marcos. Quando o Império Romano se viu cindido em duas partes e uma nova capital foi criada, Constantinopla, esta — ou ao menos seus chefes religiosos — ambicionou tornar-se igual, e até um pouco mais, às outras três cidades: o que foi inicialmente recusado pelo conjunto da Igreja, e depois aceito devido ao peso do Imperador.

A partir desse dia, a nova capital do Império não cessou de querer tornar-se a nova capital da Igreja; o cesaropapismo bizantino é demasiado conhecido para que se insista nele. Quando qualquer aparência de Império desapareceu em Roma, em 481, essa ambição tornou-se crescente e afirmou-se de forma cada vez mais aberta a partir do século VIII, tendo um primeiro episódio cismático ocorrido com Fócio, no século IX: os três séculos seguintes foram uma sucessão de desavenças e reconciliações. Após séculos de fraqueza, e até de quase nulidade no século X, o Papado recuperou-se no século XI: o conflito não poderia deixar de eclodir definitivamente, o que ocorreu em 1054. Assim, encontrava-se fora da Igreja uma cristandade oriental que, há vários séculos, se desenvolvia de forma amplamente autônoma e possuía seus próprios princípios em matéria de doutrina e eclesiologia.

O oitavo conflito espalhou-se pela Europa no século seguinte, o século XII: de origens numerosas e diversas, o movimento conheceu múltiplos ramos — Petrobrusianos, Henricianos, etc., conforme os nomes dos diversos chefes de seitas —, mas o mais conhecido é o catarismo no sul da França. Todos se manifestavam por um apelo à pobreza e também por uma rejeição das estruturas da Igreja, dos Sacramentos e, de modo mais geral, da teologia cristã, substituída por um panteísmo gnóstico. Esse movimento surgiu em um grande número de cidades da Itália e depois da França, mostrando que correspondia a uma certa inclinação das multidões medievais; contudo, só pôde prosperar onde teve o apoio do poder secular, como foi o caso no Languedoc. Graças à oposição dos príncipes no Norte e à Cruzada no Sul, a onda foi detida sem que se constituísse uma dissidência séria, no máximo redes clandestinas como os Irmãos do Livre Espírito. O século XIII foi o de São Tomás e de São Luís, e conheceu uma grande calmaria, ao menos no que diz respeito ao nosso tema.

O nono conflito teve raízes distantes; já no século XIV, elementos de crise aparecem novamente na Europa: Wycliffe e os Lollardos na Inglaterra, Huss e os Hussitas na Hungria, místicos como Eckhart na Alemanha, Bélgica e Holanda. Todo um setor do futuro protestantismo estava sendo estabelecido ali, com dois séculos de antecedência, precisamente onde a Reforma penetraria mais profundamente. Um segundo elemento preparatório foi o Grande Cisma do Ocidente, que abalou toda a sociedade por vários séculos, lançando a confusão nas estruturas da Igreja e também nas relações entre o temporal e o espiritual: doravante, estavam postos os princípios que as revoluções espirituais e políticas dos séculos seguintes desenvolveriam. No século XV, o Renascimento neopagão traria o terceiro elemento complementar: o descrédito do cristianismo e a afirmação do paganismo, inclusive na própria Roma. O conjunto resultaria na Reforma, mas esta é apenas uma etiqueta global que agrupa, de fato, uma grande diversidade de tendências, das mais conservadoras às mais liberais.

Primeiro, o Luteranismo que, além das inovações teológicas, mantém certa semelhança com o catolicismo (episcopado, ritual, etc.), ao mesmo tempo em que se apoia totalmente no poder temporal, que se torna, na realidade, o chefe do espiritual, realizando assim a velha ideia gibelina. Uma variante é o Anglicanismo, cisma nascido de um capricho real, decerto, mas fortemente preparado há dois séculos pelo pensamento de Wycliffe e que evoluiria muito rápido num sentido luterano, especialmente no plano das formas.

Em segundo lugar, o Calvinismo, que não apenas acentua a dureza teológica luterana, mas despoja-se de todas as formas da piedade católica e pretende ser totalmente independente dos príncipes, tornando-se assim o ancestral dos sistemas democráticos — a menos que absorva o temporal no espiritual e se torne uma ditadura, como na Genebra de Calvino. Muito rapidamente desenhou-se uma terceira corrente, radicalmente "evangélica", isto é, levando ao extremo os princípios calvinistas e repudiando progressivamente todo dogma e toda estrutura; essa tendência manifestou-se em diversos lugares e tempos, dando origem a uma multidão de movimentos aparentados, mas independentes: anabatistas, irmãos morávios, menonitas, puritanos, quacres, etc.

Posteriormente, diante da decadência religiosa das nações protestantes, sobretudo as luteranas (devido ao caráter estatal da religião), ocorreu toda uma série de "despertares" que produziram novas seitas, como o metodismo de Wesley no século XVIII, e outras no século XIX, nomeadamente nos EUA. Mais tarde, no início do século XX, um despertar semelhante deu origem ao Pentecostalismo, que avançou sobre diversas seitas protestantes antes de brotar, muito recentemente, em meio católico — de forma bastante lógica, diríamos, pois se dirige a esferas católicas que já foram, elas mesmas, protestantizadas.

O décimo conflito já foi citado, pois foi um retorno do velho problema da Graça, problema que era também um dos elementos principais do protestantismo, a ponto de se poder dizer que o Jansenismo era a forma sutil que o Protestantismo assumira para se introduzir no meio católico. A França esteve a dois passos do cisma no início do século XVIII, e pesadas sequelas marcariam por muito tempo a Igreja galicana, especialmente na liturgia e na espiritualidade, mas apenas a Holanda foi até o fim e rompeu com Roma. Esse cisma teve o apoio do poder secular e provocou o desaparecimento da Igreja Católica holandesa. Reduzida a pouca coisa no século XIX, e ainda mais enfraquecida pelo restabelecimento da hierarquia católica em 1850, a Igreja jansenista da Holanda recuperou vigor com o Concílio Vaticano I: de fato, após 1870, os cismáticos antipontifícios da Alemanha e da Suíça, os "Velhos Católicos", federaram-se a ela para obter o episcopado; esse conglomerado formou uma comunidade denominada União de Utrecht, irradiando-se pela Holanda, Alemanha, Suíça, Áustria, Polônia e EUA, e cujo pequeno ramo francês mantém sua existência sem grande desenvolvimento.

O décimo primeiro conflito foi muito diferente e representa o caso raro de um cisma sem heresia subjacente: é o conhecido pelo nome de Petite-Église (Pequena Igreja). As circunstâncias são simples, mas dramáticas, e repletas de ensinamentos para quem deseja meditá-las. Com as estruturas católicas em ruínas sob os golpes da Revolução, para grande pesar dos fiéis, o Papa pensou ser desejável entender-se com o novo senhor da França, Napoleão, para restaurar o que fosse possível. O Imperador, por sua vez, tinha o seu projeto: dar um pouco para obter muito, isto é, a adesão dos católicos à Revolução conservadora encarnada em sua pessoa. O acordo concretizou-se pela renúncia de todos os antigos bispos e sua substituição por candidatos imperiais, e sobretudo pela transformação dos bispos em funcionários, o que foi muito prejudicial à sua autoridade moral e foi uma das fontes do anticlericalismo do século XIX. Um certo número de bispos, padres e fiéis recusou-se a entrar nesse arranjo que, por certos aspectos, foi um negócio enganoso, e um cisma constituiu-se, desenvolvido principalmente em Poitou-Vendée e na região de Lyon. Mas como não houve sagração nem ordenação, o último bispo desapareceu em 1830 e o último padre em 1860; essa comunidade original conta apenas com leigos há 120 anos. Roma tentou recuperá-la na esteira do último Concílio, mas era realmente bater à porta errada falar de ecumenismo aos descendentes daqueles que haviam recusado a "primeira Adesão" (Ralliement); era até um humor negro! Incluímo-la nesta lista apenas para sermos exaustivos, sabendo bem que ela não está nem um pouco interessada no ecumenismo.

O décimo segundo conflito ocorreu no momento do Concílio Vaticano I, ao qual já aludimos acima, e deu origem ao movimento dos Velhos Católicos, que se federou com a Igreja jansenista da Holanda para formar a União de Utrecht. Ele nos interessa igualmente, sob um ponto de vista particular à França, pois em seu prolongamento surgiram, no início do século XX, uma multidão de seitas, as Igrejas galicanas, que se tornaram atualmente uma fonte de episcopado e sacerdócio fáceis e de validade mais ou menos discutível para todas as seitas pseudotradicionais.

O décimo terceiro e último conflito foi o da crise modernista, no início do século XX; muito rico doutrinariamente, a ponto de ser necessário pelo menos um volume como este para simplesmente traçar seus contornos (o que faremos um dia), esse movimento não desembocou em um cisma e, acrescentaríamos, é uma pena! Na realidade, algumas raras cabeças foram condenadas por São Pio X, enquanto a imensa maioria dos modernizantes contentou-se em recolher-se provisoriamente, ou simplesmente em esconder as garras; uma vez desaparecido o santo Pontífice, a partir de 1914, o movimento redistribuiu progressivamente sua força e, em menos de 50 anos, impôs a reviravolta que todos conhecem agora visualmente, realizando assim, pela primeira vez em toda a Igreja, a própria fórmula de Tartufo: "A casa é minha, cabe a vós sair dela".

***

Este panorama dos conflitos que dilaceraram a Igreja ao longo dos séculos é extremamente resumido: não apenas nos aprofundamos pouco nas doutrinas, como praticamente nada dissemos sobre a dispersão dos grupos oriundos da Reforma.

Examinaremos esta questão com mais detalhes quando nos debruçarmos sobre o ecumenismo surgido em meio protestante no início do século XX, cuja necessidade foi vivamente sentida justamente em razão da proliferação das seitas.

TRATATIVAS E CONTROVÉRSIAS ENTRE A IGREJA E AS COMUNIDADES CISMÁTICAS

A Igreja jamais se conformou com o afastamento de alguns de seus filhos e, sem cessar, preocupou-se com o retorno dessas ovelhas ao aprisco.

Esses esforços foram frequentemente muito perturbados pelas condições históricas, e aqueles que se tornam censores de Roma esquecem as mil e uma contrariedades devidas à dificuldade dos tempos e das comunicações. Um bom exemplo disso nos é fornecido pelos Maronitas que, durante vários séculos, tentaram estabelecer contato com Roma sem sucesso, em decorrência das guerras e dos naufrágios, conseguindo-o finalmente para tornarem-se Uniatas, conforme seus desejos, no século XV.

Estudaremos primeiro o caso dos Ortodoxos nos séculos XIII e XV, e depois o dos Protestantes nos séculos XVI, XVII e XVIII.


AS TENTATIVAS UNIONISTAS COM OS ORTODOXOS

Como já recordamos, o cisma ortodoxo tem sua origem primeira na fundação de Constantinopla e no reconhecimento desta cidade como sede patriarcal no Concílio de Calcedônia, em 451.

A situação de crise que perdurou do século VIII ao XI culminou finalmente na excomunhão do Patriarca Miguel Cerulário pelo Cardeal-legado HUMBERTO em 1054. As tentativas de reconciliação empreendidas por Roma conheceram dois momentos fortes que veremos sucessivamente, nos séculos XIII e XV.

Um belo sucesso... abortado: O Concílio de Lyon em 1274

A fundação do Império Latino do Oriente e a tomada de Constantinopla pelos Cruzados em 1204, que encerraram a quarta Cruzada, cavaram ainda mais o fosso entre gregos e latinos.

Mas quando, sessenta anos mais tarde, os gregos reconquistaram Constantinopla em 1261, o Papa Gregório X pôde colocar de pé um projeto de reconciliação; dando esperanças ao Imperador Miguel VIII Paleólogo quanto à interrupção das hostilidades e das ambições de Carlos de Anjou no Oriente, convenceu-o a enviar uma delegação ao Concílio reunido em Lyon (em cujo caminho viria a falecer São Tomás de Aquino).

Os cinco representantes orientais assistiram, em 29 de junho, à missa celebrada pelo Papa, sendo o Credo de Niceia cantado com o Filioque; em seguida, em 6 de julho, a União foi proclamada e os orientais assinaram uma profissão de fé reconhecendo a primazia de Roma, o Filioque, o Purgatório e os sete sacramentos.

Infelizmente, o Papa não pôde fornecer aos gregos a ajuda necessária contra o Islã, pois os ocidentais relutavam diante da Cruzada, e a reconciliação fracassou; o Imperador Miguel Paleólogo viu-se entre dois fogos: enquanto o Papa o excomungava, seus súditos se afastavam dele, chegando a negar-lhe funerais dignos, e seu sucessor Andrônico II assumiu a liderança do movimento antilatino, o que lhe valeu ser igualmente excomungado em 1307.

A unidade reencontrada... por 45 anos: O Concílio de Basileia - Ferrara - Florença, 1431-1445

As mesmas razões, a pressão do Islã contra a cristandade, muito agravadas desta vez, levaram a uma segunda tentativa de união com os Ortodoxos no século XV.

A derrota do Imperador Sigismundo diante dos turcos em Nicópolis, em 1396, e o avanço destes em direção a Bizâncio, à Sérvia, à Bulgária e à Hungria, encorajaram novamente a retomada das negociações com os gregos sob a direção do Papa Martinho V.

Por sua vez, o Imperador grego João VIII Paleólogo, ameaçado por todos os lados, via claramente que nada poderia salvar sem a ajuda do Ocidente e concordou em participar do Concílio reunido em Basileia desde 1431.

Preferindo os gregos uma cidade italiana, o Papa transferiu o Concílio para Ferrara, o que provocou a ira dos Padres conciliares, cuja maioria se recusou a se deslocar; o Papa forneceu uma frota aos gregos, que vieram em número de setecentos, incluindo o Imperador, o Patriarca de Constantinopla, bem como representantes dos outros três patriarcados.

As discussões começaram em junho de 1438, sem grandes resultados; então, em janeiro de 1439, o Concílio foi transferido para Florença por razões financeiras, e as discussões dogmáticas foram retomadas de fevereiro a junho de 1439.

Finalmente, os gregos aceitaram o Filioque e, após uma série de crises que quase fizeram as tratativas fracassarem, chegou-se a um acordo sobre o Purgatório e a Eucaristia. Por fim, em último lugar, definiu-se que: "A Santa Sé Apostólica e o Pontífice Romano detêm o poder espiritual sobre todo o universo; o Pontífice Romano, em sua qualidade de sucessor de São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, é o verdadeiro Vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja, pastor e doutor de todos os cristãos. A ele foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo o pleno poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal, como se pode ver nos atos dos concílios ecumênicos e nos sagrados cânones".

O decreto de União foi assinado em 6 de julho de 1439 por todos os gregos presentes (exceto dois), pelo Papa e pelos prelados latinos.

No embalo, o Papa Eugênio IV prosseguiu sua tarefa de união com outras comunidades separadas: em 22 de novembro de 1439, união com a Igreja Armênia; depois, em 4 de fevereiro de 1442, união com os Coptas do Egito. Após a transferência do Concílio para Roma, união com a Igreja Siríaca em 1443, com os Caldeus e os Maronitas em 1445.

Poder-se-ia crer que a questão estava resolvida; mas um dos dois oponentes, o bispo Marcos de Éfeso, deixando o Concílio antes da assinatura, retornou a Constantinopla, onde incitou o clero, especialmente os monges, e o povo. Quando o Imperador regressou, por sua vez, não ousou intervir, e os anti-unionistas encorajaram-se ainda mais. Por outro lado, como os reforços ocidentais prometidos pouco chegavam, a posição do Imperador tornou-se difícil sob todos os pontos de vista, tanto político quanto religioso.

Seu sucessor, Constantino XI, permaneceu, no entanto, fiel à União, mas o ódio aos latinos no seio do povo era mais forte. Quando a cidade caiu em 1453 e tornou-se a capital do Império Otomano, um novo patriarca, adversário ferrenho da União, foi instalado pelo vencedor muçulmano, e a União proclamada no Concílio de Florença em 6 de julho de 1439 foi oficialmente denunciada em um sínodo realizado em Constantinopla em 1484.

No momento da queda de Constantinopla, um grande número de intelectuais gregos refugiou-se na Itália, e sua influência nefasta não foi estranha ao desenvolvimento do Quattrocento italiano, nomeadamente pelo renascimento da influência neoplatônica. E, aliás, esses católicos de data recente — menos de quinze anos haviam se passado desde a reunião de 1439 — não seriam, de fato, de mentalidade ortodoxa? O que há de surpreendente, então, no fato de terem colaborado no nascimento de uma situação de onde surgiria a Reforma?

DA REFORMA AO IMPÉRIO: COLÓQUIOS, MISSÕES E ABORDAGENS ECUMENISTAS

Na Alemanha no século XVI

Antes mesmo que a Reforma desembocasse numa ruptura completa, numerosas discussões ocorreram, seja por meio de libelos interpostos, seja em colóquios, as "Disputas", como se dizia então. Assim, em 1518, uma grande e solene reunião dos Agostinianos (ordem de Lutero) realizou-se em Heidelberg; também em 1518, deu-se uma entrevista de Lutero com o cardeal Caetano e, depois, em 1519, com o Camareiro do Papa, Carlos de Miltz.

No mesmo ano de 1519, realizou-se a "Disputa de Leipzig" entre o dominicano João Eck e Lutero, acompanhado de seu amigo Carlostadt (27 de junho a 16 de julho de 1519): foi a ocasião para que eles levassem seu pensamento até as últimas consequências e rejeitassem toda autoridade, mesmo a conciliar; as atas dessa discussão foram enviadas às Universidades de Paris, Lovaina e Colônia, que condenaram Lutero então.

Posteriormente, tendo a Reforma se implantado, Carlos V, tornado Imperador, acreditou poder trabalhar pela reconciliação e propôs reunir, em 1530, em Augsburgo, uma dieta onde se daria "ouvidos caridosos à opinião de cada um"; Melâncton representou Lutero e leu a "Confissão de Augsburgo", uma exposição atenuada dos novos dogmas luteranos; após seis semanas de tratativas e exame, os teólogos católicos recusaram-se a aderir a ela.

Dez anos mais tarde, com a pressão dos turcos e a necessidade absoluta de paz interna no Império, Carlos V, mal aconselhado, pensou em resolver as dificuldades religiosas por meio de conferências: em 1540, ocorreram os Colóquios de Haguenau e de Worms que resultaram, durante a Dieta de Ratisbona em 1541, na redação de um formulário meio católico, meio protestante, que não satisfez a ninguém.

Alguns anos depois, tendo Carlos feito as pazes com Francisco I e o caso de bigamia de Filipe de Hesse tendo enfraquecido a união dos príncipes protestantes, a guerra estourou em 1546, no momento da morte de Lutero. Os príncipes vencidos tiveram de aceitar o Interim de Augsburgo, confissão de fé mista, três quartos católica, que não contentou ninguém.

Decidiu-se então por uma nova dieta que se reuniu em Augsburgo em 1555 e que consagrou oficialmente o sistema das Igrejas de Estado, "cujus regio, ejus religio". Apesar de todos os colóquios ou, antes, em parte graças a eles, a Reforma impusera-se.

Na França no século XVI

Em 1560, Catarina de Médici assumiu a regência com a morte de seu filho, Francisco II, tendo Carlos IX apenas dez anos na época.

Ela confiou o cargo de Chanceler a Michel de l'Hospital e, com ele, adotou uma linha abertamente pró-protestante: devolveu aos protestantes uma grande importância política e pretendeu realizar a união inclusive no plano religioso, segundo a fórmula do Chanceler: "... retiremos estas palavras diabólicas... luteranos, huguenotes, papistas: não mudemos [o] nome de cristãos".

Com essa intenção foi convocado, em 1561, um sínodo nacional conhecido como o Colóquio de Poissy, reunindo do lado católico seis cardeais, trinta e seis bispos e arcebispos e um grande número de doutores e, do lado protestante, doze ministros e vinte e dois cavalheiros delegados pelas principais comunidades reformadas da França.

O porta-voz reformado, Teodoro de Beza, enviado de Genebra por Calvino, expôs a doutrina protestante: o principal embate deu-se sobre o tema da Presença Real, que de Beza negou, provocando assim a interpelação do Rei e da Rainha pelo cardeal de Tournon.

Na semana seguinte, o cardeal de Lorena respondeu ponto por ponto; seguiram-se conferências durante dois meses, cujo único interesse foi estabelecer claramente a total incompatibilidade das duas concepções. A divisão saiu reforçada, enquanto, encorajado pelas concessões reais, o partido protestante fazia grandes e rápidos progressos no país; novas concessões levariam, no ano seguinte, ao seu quase reconhecimento oficial: as guerras de religião não poderiam mais estar longe.

No final do século XVI, Henrique IV, prestes a se converter, convocou uma conferência entre teólogos católicos e protestantes que se realizou em Mantes, em 1593, e que viu o cardeal Du Perron, convertido do calvinismo, prevalecer sobre seus adversários.

Em 1600, diante de certas dificuldades impostas pelos protestantes à aplicação do Edito de Nantes, ocorreu outra conferência em Fontainebleau, onde se expressaram nomeadamente Du Perron, pelos católicos, e Duplessis-Mornay, pelos protestantes.

As missões na Europa após o Concílio de Trento

Após o Concílio de Trento, as diversas ordens religiosas, especialmente as mais recentes, como os Jesuítas, Capuchinhos, Lazaristas e Eudistas, cobriram a França com inúmeras missões. O movimento intensificou-se no século XVII e deu frequentemente resultados apreciáveis, realizando conversões tão numerosas que regiões inteiras evitaram, assim, passar globalmente para a heresia.

Pode-se citar o caso do Padre Auger, falecido em 1591, que converteu sozinho mais de 40.000 hereges no Sudoeste. Sobretudo São Francisco Régis, o apóstolo das Cevenas, percorrendo as cidades e os campos e pregando frequentemente perante auditórios de vários milhares de pessoas.

Os Capuchinhos percorreram o Oeste onde, chamados por Richelieu, bispo de Luçon, reconduziram 50.000 hereges à fé, bem como o Languedoc, o Delfinado, o Franco-Condado e a Champagne.

Os Lazaristas pregaram na Corte, mas também na Auvérnia e no Meio-Dia, na Lozère, no Cantal e, depois, no Oeste.

Fora da França, uma atividade semelhante obteve alguns resultados. Recordemos primeiro o caso do Chablais, quase inteiramente calvinista e que São Francisco de Sales reconduziu à fé entre 1594 e 1598.

Tendo os bernenses protestantes conquistado o Chablais (região de Thonon) em 1535, este passou em grande parte para a heresia. Quando voltou a ser saboiardo em 1590, o bispo de Genebra, em residência em Annecy, enviou para lá Francisco de Sales em 1594; suas primeiras pregações foram cobertas de injúrias pelos protestantes: desesperando de se fazer ouvir, o Santo mudou de método e redigiu panfletos que afixava na cidade e que viriam a fornecer a matéria para sua futura obra "Controvérsias"; ao cabo de dois anos, essa forma de agir deu frutos e um certo número de chefes protestantes se converteu: São Francisco propôs então uma conferência pública com o mais reputado dos teólogos calvinistas de Genebra, o ministro La Faye; a discussão durou três horas e pendeu a favor do Santo. Pouco a pouco, as conversões multiplicaram-se e, por volta de 1600, a grande maioria dos habitantes do Chablais havia retornado à fé católica.

O cardeal Du Perron dizia, falando dos calvinistas: "Se se trata de convencê-los, eu basto; mas se se trata de convertê-los, levai-os ao Bispo de Genebra" (São Francisco de Sales tornara-se bispo em 1602).

A Alemanha, berço da Reforma, foi um dos primeiros alvos da nascente Companhia de Jesus, que ali abriu inúmeros colégios e universidades. No momento da paz de Augsburgo (1555), uma grande parte da Alemanha havia passado para o protestantismo e, mesmo nas regiões que permaneceram politicamente católicas, como a Áustria, a Baviera, Colônia, Mogúncia e Tréveris, uma forte minoria aderia à heresia. 50 anos mais tarde, no final do século XVI, não apenas a Reforma foi detida em seu progresso, mas parte de seu território foi reconquistado para a ortodoxia, como a Cítia, a Caríntia e o Tirol.

Na Holanda, totalmente calvinista no final do século XVI, as missões dos Jesuítas, Dominicanos e Franciscanos conseguiram recuperar parte do terreno; mas esse movimento foi interrompido pela chegada dos imigrantes protestantes franceses após a revogação do Edito de Nantes, em 1685, bem como pelas querelas jansenistas que culminaram no cisma de Utrecht e na proibição do catolicismo, que só voltaria a ganhar vida no século XIX.

Entre os Ortodoxos, a Rutênia, que retornara ao aprisco católico em 1439 no Concílio de Florença, separara-se novamente em 1520; em 1595, em decorrência de diversas influências, o metropolita de Kiev e seus sete bispos sufragâneos reintegraram-se a Roma, que lhes permitiu manter seu rito litúrgico oriental; esta união duraria dois séculos, até a czarina Catarina II.

As controvérsias no século XVII

A ação dos Jesuítas em seus colégios na Alemanha permitira inúmeras conversões nas altas esferas da sociedade germânica, o que confirmava a existência de uma certa abertura nos meios protestantes, sempre mais divididos, e permitia vislumbrar a retomada das discussões.

Foi assim que o arcebispo de Mogúncia, Christian de Schönborn, promoveu conferências entre seus cônegos e os professores protestantes da Universidade de Helmstadt, em 1661-62.

Pouco depois, o bispo espanhol Rojas de Spinola entrou em tratativas com o padre [conforme instrução] protestante de Lockum, Molanus, e diversos outros teólogos protestantes; inicialmente muito encorajada pelo Imperador, pelo núncio e pelo Papa Inocêncio XI, a ação de Spinola resultou em um programa de união em 1683, mas Roma percebeu claramente o sincretismo que fundamentava tal empreitada e opôs-se a ela.

Durante quase vinte anos, entre 1674 e 1693, Spinola empenhou-se em converter os príncipes, mas, apesar do apoio da Corte de Hanôver, cujo Príncipe João se tornara católico, obteve poucos resultados, estando o temporal e o espiritual estreitamente ligados, como viria a confirmar a empreitada contemporânea e paralela de Bossuet.

Toda a sua vida, Bossuet preocupou-se com o retorno à Unidade, preferindo ver nos protestantes, segundo o espírito de São Vicente de Paulo, mais irmãos a serem reconduzidos do que inimigos a serem combatidos.

Por isso, envidou grandes esforços nesse sentido e manteve inúmeras relações com ministros helvéticos, os quais, por sua vez, guardavam certa esperança de entendimento com uma igreja galicana que alguns acreditavam estar prestes a romper com Roma.

Para evitar qualquer mal-entendido inicial, Bossuet começou por publicar, em 1671, uma "Exposição da doutrina da Igreja Católica". Depois, cerca de dez anos mais tarde, em 1682, a pedido de uma futura convertida, a Srta. de Duras, uma conferência colocou-o frente a frente com o ministro Claude de Charenton; o relato foi finalmente publicado por ambos os lados e precisou a concepção de cada um sobre a natureza da Igreja. Quando o Edito de Nantes foi revogado, em 1685, Bossuet foi um ardoroso partidário da decisão, embora desejasse fazer dela uma aplicação comedida.

Alguns anos depois, em 1688, Bossuet publicou sua "História das Variações" (das seitas protestantes); aliás, muitos ministros protestantes estavam eles mesmos aterrorizados com o inacreditável esfarelamento das seitas, que é um dos maiores fenômenos do século XVII nos países anglo-saxões.

Nesse ínterim, em 1679, Bossuet aceitara entrar em relação com um sábio protestante alemão, Leibniz, que sofria com a dispersão das seitas; suas relações estenderam-se por quase vinte anos, com altos e baixos, e suas discussões têm o grande interesse de mostrar a concepção protestante de ecumenismo, que é, contudo, expressa aqui por um protestante razoável e realmente zeloso pelo entendimento.

O liberalismo subjacente a todo esse intercâmbio de trezentos anos atrás basta para revelar quão enganador é todo ecumenismo, e, portanto, o de hoje. Em poucas palavras, a tese de Leibniz é que os protestantes devem unir-se a Roma primeiro e discutir depois; naturalmente, Bossuet é de opinião contrária. Em seguida, Leibniz aceita que a Igreja Romana guarde para si o Concílio de Trento, mas não vê por que ela haveria de impô-lo aos protestantes como condição prévia para a união.

Chega-se assim ao cerne do problema: o pluralismo das doutrinas, base falaciosa de uma pseudounião que torna impossível a unidade.

Iniciada em 1679, a discussão fracassou em 1693; foi retomada, porém, em 1698, tendo a corte de Hanôver, que apoiava Leibniz, empreendido paralelamente uma ação diplomática no mesmo sentido. Mas o Rei da Inglaterra e diversos príncipes protestantes alemães amedrontaram-se e obrigaram Hanôver a interromper tudo, em 1699, para grande pesar de Leibniz.

Os longos esforços de Bossuet pela Unidade tiveram, na falta de sucesso, o mérito de colocar ordem e luz em uma questão espinhosa e que corria o risco de se perder nos meandros da polêmica.

Após ele, se todos estão convencidos da necessidade da união, cada um pode apreciar melhor os obstáculos intransponíveis que resultam do caráter próprio da Reforma. Doravante, está claro para todos que só poderá haver união se os católicos se tornarem protestantes, o que estava fora de questão naquele momento: eis aí um resultado que não é desprezível.

Uma tentativa unionista no século XVIII

Outra tentativa unionista ocorreu no início do século XVIII entre franceses e ingleses, mais precisamente entre galicanos e anglicanos. Do lado inglês, o promotor da iniciativa era o arcebispo de Cantuária, Guilherme Wake, e, do lado francês, os jansenistas Ellies du Pin, de 1718 a 1719, e Le Courayer, de 1723 a 1732.

As principais questões evocadas foram: a validade das ordenações anglicanas, a Presença Real e as relações da Igreja da França com Roma. Embora a discussão tenha mantido um tom acadêmico e não violento, o desacordo não foi menos nítido, e o projeto de entendimento estava paralisado há vários anos quando Wake morreu em 1737.

O ponto mais cômico da questão é a apreciação emitida pela Rainha da Inglaterra a propósito de Le Courayer: "Temo muito que ele não seja nada mais do que um excelente deísta, o que é o caso da maioria dos sábios que deixam de ser papistas"papistas".

De fato, o deísmo já havia causado muitos estragos nesse final do século XVII e início do XVIII (cf. a obra de Paul Hazard, "A Crise da Consciência Europeia"Europeia") e sua influência não pararia de crescer ao longo do século XVIII, desembocando na Filosofia das Luzes e na Revolução, e abalando não apenas a França, mas a Europa inteira.

O desenvolvimento dessa mentalidade ruinosa para a religião tornava mais sensível e lamentável a divisão dos cristãos e levou muitos espíritos a desejarem o retorno da união; ao longo do tempo, as motivações foram diversas: no final do século XVIII, muitos deístas inquietos com o progresso dos materialistas puros pregaram a união dos crentes para salvar um mínimo de religião, enquanto, mais tarde, as ruínas da Revolução incitaram alguns a buscar a união dos cristãos para reconstruir a Sociedade.

Contrarrevolução, Maçonaria e Ecumenismo: Joseph de Maistre

Um caso interessante sob vários aspectos é o de Joseph de Maistre, Josephus a Floribus em Loja. Sem querer nos estender aqui sobre a questão de seu pertencimento maçônico, recordemos apenas sua posição ecumenista (2), particularmente curiosa no teórico do ultramontanismo.

Em 1781, o duque de Brunswick, grão-mestre da Ordem Escocesa, desejoso de estabelecer harmonia entre as lojas divididas em diversas correntes (do materialismo ao espiritualismo, do político ao misticismo e ao ocultismo), convocou um convento geral e, previamente, enviou um questionário a todas as lojas.

Como maçom de alto grau, Maistre deu uma resposta distinta daquela de sua loja: atribuindo à maçonaria origens cristãs, ele lhe atribuía como objetivo principal... a reunião das Igrejas.

Essa questão não parou de preocupá-lo e ele a retomou mais tarde em suas "Considerações", persuadido de que a emigração do clero francês, ao operar uma mistura interconfessional, pudera favorecer uma aproximação entre os representantes das diversas Igrejas.

Vinte anos após o Memorial ao duque de Brunswick, Maistre, embaixador do Piemonte em Moscou, encontrou-se em posição de desempenhar um papel nesse sentido. Líder da comunidade católica russa (composta por seis milhões de membros, não se deve esquecer), ele estava também intimamente ligado ao Príncipe Galitzine, ministro dos Cultos, procurador do Santo Sínodo ortodoxo... e fiel adepto das lojas martinistas, como, aliás, boa parte dos representantes da alta aristocracia russa (3).

Sua ação resultou em uma maior tolerância do poder ortodoxo em relação aos católicos e na conversão de algumas grandes damas; mas a instabilidade de suas relações com o Czar, do qual era ora o confidente, ora o rejeitado, acabou por não lhe permitir esperar grandes resultados em matéria ecumenista.

Os projetos ecumenistas sob o Diretório e o Império

Na França, durante o mesmo período, a Revolução havia destruído cuidadosamente as estruturas religiosas por meio da Constituição Civil do Clero, pelas prisões, deportações e massacres. Sobre as ruínas acumuladas, um certo número de tentativas tomou corpo; seu interesse não reside em seus resultados — quase nulos e há muito extintos —, mas em seus fundamentos doutrinários e no projeto em si.

Na Holanda, viu-se primeiramente constituir-se, em 1794, uma Sociedade Deísta Internacional, destinada a "reunir os esforços de todos os homens esclarecidos para fazer desaparecer a superstição da face da terra"terra".

Em 1796, surgiu outra Sociedade de caráter mais nitidamente religioso, chamada Christo-Sacrum, que mandou construir uma igreja em Delft para ali "reunir calvinistas, luteranos, menonitas, católicos e, em geral, seguidores de todas as religiões"es". Não havia padres,padres, mas dois oradores que asseguravam um culto de caráter nitidamente filosófico, com uma espécie de Ceia protestante seis vezes ao ano.

O padre de Boulogne, jornalista e futuro bispo concordatário de Troyes, comentava assim o anúncio desta criação: "Cada século teve suas doenças, suas crises, seus acessos: a doença atual é a mania das religiões reunidas, isto é, confundidas, aniquiladas...".

Na França, a Sociedade Teofiliantrópica, fundada por membros do Diretório, tinha um objetivo semelhante, com elementos contraditórios e, no entanto, lógicos: uma filosofia antirreligiosa visando recolher as migalhas das religiões destruídas pela perseguição, uma luta antirreligiosa com uma coloração ecumenista.

Entre 1796 e 1798, o padre Grégoire lançou, em um relatório ao Instituto, a ideia de uma Associação Geral de sábios, homens de letras e artistas — espíritos esclarecidos, em suma — para "lutar contra todas as formas do despotismo clerical"clerical"; mas, curiosamente, convidava a nela participar "os teólogos das diversas crenças"as" para estabelecer a harmonia entre o cristianismo e uma sã política.

A colaboração entre pessoas tão diversas exigia muitos sacrifícios, e o calvinista Blachon, de Bordéus, escreveu em 1797: "A estes princípios de indulgência, cada um em sua comunhão, juntemos os de uma sábia tolerância respectiva para com nossos irmãos separados. Até inimigos que naufragaram juntos se reconciliam sem dificuldade, sobretudo se ainda têm de enfrentar em comum os mesmos perigos. E não é esta uma imagem exata da nossa posição?...".

Por sua vez, o luterano Frederico Munter, professor de teologia em Copenhague, respondeu a Grégoire que: "não se trata agora dos pontos de dogmas controvertidos, trata-se da causa comum do cristianismo, cujos inimigos estão espalhados em todas as comunhões; e é preciso que os amigos da religião se entendam para deixar de lado as disputas que os dividem, a fim de manter a doutrina e os princípios do Evangelho comuns a todos"todos".


O final desta citação mostra, por si só, toda a ambiguidade da situação: da união contra os inimigos da religião, passa-se à afirmação de uma fé reducionista, fingindo-se acreditar que as "disputas" são estranhas à doutrina e ao Evangelho.

Encontramos já aí o que constitui o cerne do ecumenismo, o qual consiste em crer que a questão está resolvida por uma simples afirmação; ora, as questões que seria necessário deixar de lado para realizar a união são precisamente aquelas que provocaram a saída dos hereges da Igreja: passá-las em silêncio não é suprimi-las, mas, muito pelo contrário, supô-las admitidas por todos, o que é assegurar com maior certeza o triunfo da heresia em toda a Igreja.

É por isso que as diversas tentativas unionistas esbarraram na oposição dos verdadeiros católicos, que podiam aceitar, no máximo, uma aliança passageira, como se viu na Suíça, em 1800, onde a manutenção do reconhecimento do Cristianismo na Constituição prevaleceu sobre uma profissão de fé deísta, graças à ação conjunta de católicos e protestantes.

Este último exemplo sublinha suficientemente que o problema não era apenas religioso, mas político, ou mais precisamente misto: o sonho era então substituir o universalismo da revolução — fundado na laicidade dos costumes e das instituições e no deísmo filosófico — por outro universalismo, cristão, que reconciliaria a república e o Evangelho à margem de quaisquer disputas dogmáticas.

Obviamente, não há nada de católico nesta alternativa, mas a forma como é colocada é habilidosa e será encontrada subjacente durante todo o século XIX; de outro modo, é esta mesma alternativa que fundamentará o desvio do catolicismo liberal, e é interessante encontrá-la aqui em seu nascimento.

Um sinal suplementar da perturbação desta época reside no fato de que estas estranhas conciliações não eram apenas fruto de espíritos heterodoxos, mas eram também partilhadas por pensadores contrarrevolucionários; vimo-lo em Maistre, e o mesmo vale para Chateaubriand e Bonald: este último escreve, de fato, em 1804, no Mercure de France:

"A sã política não poderia ser indiferente à grande questão da unidade religiosa; esta unidade é o único meio que os chefes dos impérios têm para salvar a religião e a civilização contra a guerra que o ateísmo especulativo e prático faz à sociedade... A religião e a política devem estar indissoluvelmente unidas para proporcionar o acordo entre todas as Comunhões cristãs, não aquele que provém de uma indiferença geral, mas o que vem da unidade de crença, o único que as pode defender de um flagelo que ameaça a todos", e, precisando seu pensamento, Bonald conclui: "os ministros protestantes pregam hoje a moral que nos é comum muito mais do que os dogmas que lhes são particulares".

O tempo haveria de fazer esses três homens, e muitos outros, perderem suas ilusões, mas não é desprezível que eles tenham sido penetrados por tais ideias, e compreendemos melhor por aí o quanto elas estavam difundidas de modo geral. Sob o Consulado e o Império, a posição do problema foi um pouco diferente, pois esta federação dos diversos ramos cristãos pensou ter encontrado seu eventual federador, Bonaparte, depois Napoleão, e numerosas tratativas elaboraram-se a partir deste elemento novo.

Claude Le Coz, antigo bispo constitucional de Ille-et-Vilaine, tornado arcebispo concordatário de Besançon, entrou em negociações com o Consistório protestante do Sena, do qual vários membros estavam muito orientados ao ecumenismo, e propôs-lhes prestar a Napoleão a homenagem de sua reunião.

E, sobretudo, apareceu em 1806 um projeto de reunião de todas as Comunhões cristãs apresentado a Sua Majestade imperial e real, atribuído a um certo de Beaufort, mas onde se acreditou ver a influência do próprio Napoleão. O autor, precisando que a simples tolerância dos cultos é perigosa para o futuro da religião, afirma que convém estabelecer uma religião nacional única pela fusão das Igrejas; sendo a Igreja Católica julgada dogmática demais para fornecer um ponto de união, defende-se a Confissão de fé de Augsburgo (de 1530).

Mas as posições protestantes de então mostram que esta esperança é quimérica e que as diversas seitas não possuem de modo algum a mesma dogmática, nem mesmo os calvinistas entre si ou os luteranos entre si. Muitas vezes, aliás, eles mal têm preocupações nesse plano, como atesta uma obra publicada em 1806 sobre os diversos projetos de reunião de todas as comunhões cristãs, na qual um pastor célebre, Rabaut-Duyui, escreve:

"...as ideias literárias substituíram as ideias abstratas (isto é, as ideias puramente filosóficas despojaram as verdades dogmáticas de todo interesse religioso) e os cristãos de todas as comunhões celebram em comum o culto divino, sem se ocuparem do foro íntimo de cada um".

O ano de 1807 viu, contudo, os ânimos se exaltarem em torno do projeto Beaufort e, segundo a mania neorromana da época, falou-se em atribuir a Napoleão a dupla qualidade de Imperador e Pontífice, o que, aliás, teria sido bastante condizente com a prática reformada, ao menos a dos luteranos ou anglicanos. Graças a Deus, os bispos católicos reagiram e lembraram ao governo o respeito à Concordata; e, em 1808, o sequestro do Papa pelo Imperador faria desaparecer para sempre esses projetos: há males que vêm para bem.


Todas estas tentativas, como em seu tempo os trabalhos de Bossuet, tiveram o mérito de esclarecer a situação e de precisar seus elementos, neste início do século XIX:

  • de um lado, as divisões dos protestantes e o desenvolvimento da teologia liberal que explodirá no meio do século; (4)
  • de outro lado, a sensação muito geral do caráter absoluto da Revolução, política e religiosa, sensação que atordoa muitos espíritos a ponto de lançá-los em soluções não católicas;
  • enfim, na maioria das vezes, e nomeadamente entre os membros do episcopado, a permanência das noções católicas elementares, baluarte sobre o qual vem quebrar-se o fluxo instável dos projetos e das pressões: a Igreja Católica, mãe da verdade, mãe dos dogmas, via de salvação, norma fixa em relação à qual se apreciam e se efetuam os cismas e as heresias.

Quaisquer que fossem a boa vontade e o abrandamento das expressões (falava-se em reunião em vez de conversão, chamavam-se os protestantes de irmãos errantes ou separados), a realidade permanecia percebida em sua intangibilidade e, graças a Deus, as mentes católicas não estavam teologicamente maduras para o ecumenismo: este só poderá nascer e se desenvolver quando surgir outra concepção, simbolizada por esta pequena e simples expressão, a "reunião das Igrejas", subentendendo que existem várias Igrejas em partes iguais, em um mesmo pé, cada uma expressando uma variante lícita de uma fé comum.

Tal concepção ainda não existe em 1810, nem mesmo na maioria dos protestantes que ainda são muito fechados: será a obra do século XIX fazer nascer este novo espírito em meio protestante, e a do século XX levá-lo à prática e espalhá-lo, em seguida, no meio católico.

P. R.


(1) Heresia vem de uma palavra grega que significa escolher e designa, portanto, uma ideia particular em matéria de doutrina que tal fiel, ou mais frequentemente tal teólogo, prefere à doutrina comum e reconhecida pela Igreja.

Cisma vem de outra palavra grega que significa cortar, e designa, portanto, um corte, um rasgo na estrutura unitária da Igreja. O cisma pode ser a sequência lógica de uma heresia, mas pode ser também a consequência de uma querela de pessoas, como ocorreu frequentemente em eleições pontifícias ou episcopais. Na verdade, as querelas de pessoas raramente se apresentam nuas: ou são desde o início a expressão de uma divergência doutrinária, ou se sobrecarregam muito rapidamente com um revestimento ideológico. É, portanto, muitas vezes difícil ver com total clareza as origens desses fenômenos.

(2) Ecumenista: este vocábulo um tanto neológico (já é notável que não seja corrente) impõe-se, no entanto, e é por isso que o empregamos em diversas ocasiões neste texto: primeiramente, porque é o qualificativo normalmente oriundo do substantivo ecumenismo e, sobretudo, porque permite, por si só, evitar essa confusão temível que mencionamos desde a primeira página deste estudo, e que os arautos da união das religiões gostam de manter.

Ecumênico qualifica a Igreja enquanto ela é universal, ao passo que ecumenista designa uma pessoa ou uma ação orientada para o ecumenismo, isto é, o projeto de uma reunião dos diversos ramos cristãos colocados em pé de igualdade, o que é exatamente o contrário.

(3) A Maçonaria russa era da Escola de Lyon e de Chambéry, ou seja, fortemente tingida de iluminismo místico. Galitzine tinha uma certa autoridade sobre o Czar, ele próprio muito inclinado ao misticismo, e ambos mantinham longas conversas durante as quais buscavam nos livros sagrados os segredos do futuro. Essa mentalidade foi uma tradição constante na corte da Rússia, até o fim, poder-se-ia dizer.

(4) O leitor que desejar ter uma breve visão desta questão pode consultar outro artigo deste mesmo sumário, "As Fontes Protestantes do Modernismo", onde encontrará menção aos principais mestres do pensamento protestante liberal.