CONTRIBUIÇÃO PARA O ESTUDO DO HERMETISMO
Não existe uma doutrina maçônica propriamente dita. Os maçons insistem, com razão, no ecletismo e na tolerância de seus templos. Segundo a expressão consagrada: "Eles não dogmatizam". Não ensinam uma doutrina única e homogênea. Quando têm de tratar de questões filosóficas e religiosas, empenham-se em beber de diversas fontes. Ora, quatro fontes doutrinárias lhes são particularmente familiares: a Gnose, a Cabala, o Hermetismo e a Rosa-Cruz.
A Gnose já foi estudada neste boletim. Estudaremos mais tarde a Cabala e a Rosa-Cruz. Hoje, é o Hermetismo que nos ocupará.
Vamos primeiro examinar os documentos mais antigos do Hermetismo, aqueles que circularam na antiguidade pagã e ao longo dos cinco primeiros séculos da era cristã. São chamados de LIVROS ou TRATADOS HERMÉTICOS. Faremos o seu histórico e indicaremos sob que forma chegaram até nós. Este exame será o objeto dos cinco primeiros parágrafos do presente artigo.
Depois, nos quatro parágrafos seguintes, começaremos a expor as grandes linhas da doutrina hermética, tal como se apresentava na antiguidade. Mas só poderemos concluir esta exposição num segundo artigo, a ser publicado num próximo boletim.
O SECRETÁRIO dosDOS DEUSES
O Hermetismo é um movimento de pensamento que percorreu silenciosamente um caminho desde a antiguidade egípcia até os nossos dias e que deve seu nome ao seu fundador, HERMES TRIMEGISTO. O personagem que conhecemos hoje pelo nome de Hermes Trimegisto portava originalmente outro nome. Chamava-se TOT (Thot).
Tot é uma divindade do antigo Egito. É o deus das ciências e das artes. As ciências e as artes das quais ele foi o iniciador junto aos homens, ele as havia aprendido por meio de sua convivência com os outros deuses, pois lhes servia de SECRETÁRIO, transmitindo aos homens os conhecimentos que recebia dos deuses.
Este personagem de Tot era considerado, pelos egípcios da Antiguidade, como um verdadeiro deus? Ou não seria ele, antes, um semideus — isto é, um homem divinizado após a morte na sequência do que os romanos chamariam mais tarde de apoteose, ou "elevação à divindade"?
É para esta segunda hipótese que nos inclinamos, e não somos os únicos. Pensamos, portanto, que Tot teria realmente existido e que, em vida, teria se destacado no relato escrito de suas visões místicas e de suas conversas com os habitantes do além. Foi assim que adquiriu a reputação de SECRETÁRIO dos DEUSES.
Seja qual for a identidade real de Tot, o que é certo é que circularam, já no Antigo Egito, escritos do "divino escriba". Esses escritos tratavam sobretudo de astrologia, de magia e, em geral, das chamadas ciências ocultas — isto é, de conhecimentos escondidos dos homens e que só podem ser conhecidos por revelação.
Conhecemos a existência desses primeiros escritos; ela é certa. Mas eles não chegaram até nós em sua forma primitiva e em sua língua de origem. Eram provavelmente redigidos em DEMÓTICO, que é a escrita cursiva do Antigo Egito. O demótico derivava da escrita hieroglífica, mas possuía caracteres mais expeditos.
Os escritos do "divino secretário" formaram, assim, a PRIMEIRA GERAÇÃO do que viriam a ser os Hermetica helênicos.
OsOS HERMETICA HELÊNICOS
Sabe-se que os gregos sentiam uma grande atração pela religião e, em geral, pelos conhecimentos dos egípcios. Diz-se até que Platão lhes deve parte de sua doutrina.
Os gregos traduziram para sua língua os escritos de Tot. E, nesta ocasião, transformaram também o nome do "deus-escriba". Vendo em Tot o personagem que manteve um intercâmbio entre os deuses e os homens, transmitindo aos homens a ciência dos deuses, os gregos assimilaram Tot a Hermes que é, em sua mitologia, a divindade das trocas e do comércio. Entre os latinos, Hermes chamava-se Mercúrio.
Tot tomou, portanto, o nome de HERMES e seus escritos tornaram-se os famosos HERMETICA HELÊNICOS, que nos ocuparão por um momento.
Os hermetica, assim traduzidos para o grego, representam a SEGUNDA GERAÇÃO dos escritos de Tot. Eles circularam, até o início da era cristã, sob a forma de pequenos tratados distintos, alguns muito curtos, outros mais longos. Alguns eram hinos, outros fórmulas de conjuração, mas a maioria eram diálogos, fosse entre Hermes e um de seus discípulos, ou mesmo entre os deuses aos quais Hermes-Tot servia como secretário.
O prestígio do Egito antigo era tal entre os gregos que o interesse pelos hermetica residia, em grande parte, na sua nacionalidade de origem. É assim que Platão menciona duas vezes o deus Tot, sem contudo identificá-lo com Hermes, preservando assim sua qualidade egípcia.
Encontram-se, nos hermetica escritos em grego, passagens muito curiosas onde o próprio tradutor, como que tomado por escrúpulos, deplora a existência das traduções gregas e chega a desejar que os antigos textos de Tot, tão preciosos e venerados no Egito, nunca mais fossem traduzidos. A literatura hermética, dizem eles, conserva sua força operatória e sua potência mágica enquanto permanece expressa na língua egípcia. Mas perde a virtude que lhe comunica essa língua privilegiada quando é traduzida para o grego, que não passa de uma língua de meros oradores.
A maioria dos comentaristas modernos estima que, por ocasião da tradução, os tratados herméticos se tingiram com as cores da filosofia grega. É, de fato, muito provável. De escritos mágicos que eram originalmente, tornaram-se, ao passar por mãos helênicas, escritos filosóficos.
Mas é provável, igualmente, que tenha ocorrido também outro fenômeno. Sabe-se que o DELÍRIO SAGRADO, entre os contemplativos do paganismo, era algo frequente. É provável, portanto, que muitos hermetica helênicos não sejam traduções reais dos escritos de Tot, mas produções místicas mais recentes, apresentadas como vindas do próprio antigo secretário dos deuses para lhes conferir autoridade.
Os hermetica helênicos contam, assim, tanto com traduções fiéis a partir dos textos egípcios primitivos quanto com vaticinações místicas mais recentes e de origem greca. Mas é muito difícil distingui-los uns dos outros.
Tais são os documentos que circularão durante todo o PERÍODO HELENÍSTICO, ou seja, até o início da era cristã.
OsOS MANUSCRITOS deDE NAG HAMMADI
Em 1966, foram descobertos em Nag Hammadi, no Alto Egito, documentos antigos, manifestamente herméticos. Tudo estava lá: o tema, o estilo, tudo. Dois deles foram redigidos em grego. Os outros, a maioria, estavam em copta.
Estes manuscritos foram estudados por eruditos, entre os quais se destaca Jean-Pierre Mahé, cuja obra "Hermès en Haute Égypte"gypte" (Hermes no Alto Egito), publicada no Québec em 1978, é absolutamente fascinante.
A análise desses especialistas revela que tais manuscritos foram preservados em Nag Hammadi por monges cristãos com o intuito de combater sua doutrina, que é, de fato, pouco ortodoxa. Contudo, os textos em si remontam a uma época muito mais antiga, datando de 168 ou 164 antes de Cristo.
Certas características arqueológicas permitem inclusive que J. P. Mahé escreva:
"Nosso tratado contém várias alusões explícitas a realidades propriamente egípcias... A literatura hermética vincula-se ao antigo Egito".
Os manuscritos herméticos de Nag Hammadi confirmam, portanto, a existência das duas gerações de textos das quais falamos:
- A primeira geração, egípcia;
- A segunda geração, helênica.
OsOS HERMETICA GNÓSTICOS
Chegou um tempo em que se sentiu a necessidade de transformar esses tratados dispersos em compilações homogêneas. Mas isso ocorreu apenas durante o período que abrange os três primeiros séculos da nossa era.
A mais conceituada dessas compilações é a coleção de diálogos conhecida pelo nome de CORPUS HERMETICUM. Este corpus compreende dezessete pequenos tratados, dos quais o primeiro tem por título "POIMANDRES", que significa "pastor de homens". "Poimen", em grego, quer dizer pastor; e "aner-andros" quer dizer homem.
O tratado Poimandres, pelo fato de figurar no início do corpus, serve frequentemente para designar a obra em sua totalidade. É um erro, mas é comum e deve-se estar ciente dele.
Existe também outra coletânea de escritos herméticos: aquela composta por ESTOBEU para a instrução de seu filho. João Estobeu foi um erudito grego que viveu no século V d.C., autor de várias antologias. Algumas reúnem obras de filósofos, outras, obras poéticas. As antologias de Estobeu são um tesouro inestimável, pois salvaram do esquecimento muitas obras da antiguidade que, sem elas, teriam desaparecido.
Entre as coletâneas de Estobeu, a que nos interessa aqui é o seu florilégio hermético, comumente chamado de "O Estobeu"Estobeu". Algumas das peças reunidas já figuram no Corpus Hermeticum, mas a maioria não é encontrada nele.
Essas duas coletâneas, o "Corpus" e o "Estobeu"Estobeu", reúnem a totalidade dos tratados herméticos conhecidos? Certamente não. Vários fragmentos escaparam à codificação e continuaram a circular isoladamente. São conhecidos como os DITOSDitos de HERMES.Hermes.
Existe também um tratado hermético do qual se conhece a adaptação latina: o ASCLÉPIO, por vezes chamado de "Discurso Perfeito"Perfeito" ou "Discurso de Iniciação"o". Contudo, há hoje a certeza de que esta adaptação latina foi feita a partir de um documento anterior em grego que não chegou até nós, do qual teriam restado apenas vestígios em citações.
Em suma, os textos herméticos que conhecemos hoje são de redação muito tardia. Datam do final do período gnóstico e, como veremos, trazem as marcas dessa influência.
O R. P. Festugière (O.P.), que publicou o conjunto dos documentos herméticos conhecidos, estima que o Corpus Hermeticum foi compilado para servir como um livro esotérico, amalgamando materiais que, embora todos herméticos, são "de datas e procedências diversas"diversas".
Podemos reter esta conclusão do R. P. Festugière e falar, sem forçar os fatos, dos HERMETICA GNÓSTICOS.
Conhecemos, portanto, os livros herméticos apenas sob esta forma muito tardia, que constitui a sua TERCEIRA GERAÇÃO.
A primeira geração, atribuída a Tot, o "secretário dos deuses", constitui a geração astrológica e mágica. Ela desapareceu inteiramente.A segunda geração é a das traduções gregas. Ela se traja com a veste filosófica dos "discursadores gregos" e, muito provavelmente, enriquece-se com um misticismo mais recente.
Essas duas primeiras gerações não chegaram intactas até nós. Restaram apenas fragmentos esparsos.
Só conhecemos os livros herméticos sob a forma tardia da terceira e última geração: o "Corpus Hermeticum", a antologia "Estobeu"Estobeu", a adaptação latina "Asclépio" e alguns fragmentos isolados que só foram recolhidos por eruditos modernos.
AsAS COMPILAÇÕES ATUAIS
Os livros herméticos circularam de forma restrita durante toda a Idade Média, sob esta forma eminentemente fragmentária. O "Trimegisto" certamente não era desconhecido, pois liam-se citações dele em Lactâncio e em São Cirilo de Alexandria. Conheciam-se também os tratados separados do "Poimandres"Poimandres", do "Asclépio"pio", bem como os "Ditos de Hermes"Hermes".
Entretanto, o teísmo difuso e confuso do qual esses livros esparsos estavam impregnados parecia pobre em comparação com a doutrina suntuosa e ordenada dos Padres da Igreja. De modo que eram lidos apenas por alguns intelectuais apreciadores de caminhos alternativos.
Quando chegou a época do humanismo, os eruditos onívoros, ávidos por tudo o que estivesse à margem do catolicismo ortodoxo, lançaram-se sobre os livros herméticos para divulgá-los com ardor. Foi assim que o florentino MARSÍLIO FICINO, já em 1471, reuniu e publicou todos (ou quase todos) os tratados que podiam ser atribuídos a Hermes.
Atualmente, aqueles que desejam documentar-se sobre o hermetismo dispõem de três obras de fácil acesso:
- A obra de base é a do R. P. FESTUGIÈRE, dominicano. Nela encontra-se o texto grego (latim para o Asclépio) e uma excelente tradução. Quanto aos comentários, necessários devido à obscuridade do texto, são ao mesmo tempo profundos e prudentes. É uma obra volumosa de quatro tomos, publicada na coleção Guillaume Budé. Exige, portanto, uma leitura atenta, mas está longe de ser árdua.
- Para aqueles que dispõem de menos tempo, recomendamos a obra de LOUIS MÉNARD, intitulada "Hermès Trismégiste", publicada pelas Editions de la Maisnie em 1977. Ali se pode ler, traduzida em um excelente francês, a quase totalidade dos textos herméticos atualmente catalogados.
- As Prensas da Universidade Laval, no Québec (Canadá), publicaram em 1978 uma belíssima obra de Jean-Pierre MAHÉ intitulada "Hermès en Haute Égypte". Ela reproduz, em seus textos grego e copta, os manuscritos herméticos descobertos em 1966 em Nag Hammadi. A tradução parece extremamente fiel. Esta obra constitui um excelente esclarecimento sobre as raízes egípcias do hermetismo.
Não pretendemos listar aqui os livros de autores adeptos modernos do hermetismo, pois não os consideramos trabalhos objetivos e imparciais. O mais típico desses trabalhos é "A Tradição Hermética"tica", de Julius Evola. Examinaremos todos eles quando chegarmos ao estudo do hermetismo contemporâneo.
A MÍSTICA HERMÉTICA
Os livros herméticos apresentam-se como livros inspirados, e não como obras de elaboração puramente humana. Todos os comentadores fazem questão de ressaltar esse ponto. Quando Hermes nos fala sobre a natureza do Deus supremo, sobre a dos deuses secundários e sobre o intercâmbio entre eles e os homens, ele nos transmite, evidentemente, aquilo que só pôde aprender junto aos habitantes do além, pela via mística.
Mas o mesmo ocorre quando ele expõe os princípios e as leis do universo físico. Não são resultados de observações que ele relata, mas revelações divinas que transmite. Hermes não é um cientista, mas um místico. É na qualidade de vidente que ele fala dos sete ousiarcas planetários e dos trinta e seis decanos zodiacais.
Por vezes, essa origem divina é apenas implícita. Contudo, o estilo profético empregado pelo redator a revela de forma indubitável.
Outras vezes, o texto é explicitamente apresentado como proveniente de uma revelação. É o caso da seguinte passagem:
"Uma visão inefável produziu-se em mim. Pela misericórdia de Deus, saí de mim mesmo, revesti um corpo imortal. Já não sou o mesmo, nasci em inteligência.
Tu me vês com teus olhos e pensas num corpo e numa forma visível. Mas não é com esses olhos que se me vê agora, meu filho". (Tratado XIII do Corpus Hermeticum, sob o título "Da Regeneração e da Regra do Silêncio — Sermão Secreto sobre a Montanha").
Mais características ainda são as primeiras palavras do tratado intitulado "Poimandres"Poimandres". Ele relatará uma série de visões; não há margem para dúvidas:
"Eu refletia um dia sobre os seres; meu pensamento pairava nas alturas, e todas as minhas sensações corporais estavam entorpecidas como no sono pesado que se segue à saciedade, aos excessos ou à fadiga.
Pareceu-me que um ser imenso, sem limites determinados, chamava-me pelo nome e me dizia: O que queres ouvir e ver, o que queres aprender e conhecer? — Quem és tu, afinal? — respondi.
Eu sou, disse ele, o Poimandres (o pastor de homens), a INTELIGÊNCIA SOBERANA." (Traduzido por Louis Ménard em "Hermès Trismégiste", Tratado XIII).
E todo o tratado Poimandres,Poimandres, com efeito, nada mais é do que o relato da revelação feita a Hermes pela "Inteligência Soberana".
Não há dúvida de que esse fundo revelado primitivo, resultado dos estados místicos do antigo Tot, foi preservado na tradução helênica e, posteriormente, nas adaptações gnósticas. É inclusive essa cor local arcaica e exótica que constituiu, por tanto tempo, o atrativo dos "hermetica". Se os retóricos gregos lhe impuseram seu estilo filosófico, isso não passou de uma vestimenta superficial.
A nostalgia pelos originais egípcios perdidos é expressa até em certos tratados. Eis, por exemplo, uma passagem do tratado XVI do Corpus:
"Pronunciado na língua original, este discurso conserva, em toda clareza, o sentido das palavras: e, de fato, a própria particularidade do som e a própria entonação dos vocábulos egípcios retêm em si mesmos a energia das coisas que se dizem". (Tradução Festugière, Tomo II, página 230).
É certo, portanto, que os hermetica helênicos preservaram todo o fundo do misticismo egípcio de origem, misticismo cuja tradução grega provavelmente não conseguiu reproduzir a força verbal, mas que conservou em seu conteúdo nocional.
O MISTICISMO HERMÉTICO
Mas o que é certo também é que, a esseessa primeiroprimeira mística, devida a Tot-Hermes e a seus discípulos diretos, veio somar-se outra: a dos gregos que traduziram os tratados antigos e que compuseram outros, perpetuando o estilo e a maneira do Mestre.
Em muitos desses tratados, já não é Hermes quem fala em pessoa, visto que o escritor relata precisamente as palavras de Hermes; logo, não é ele quem escreve. O discípulo grego "viu" o mestre egípcio da Antiguidade e relata suas palavras. Essa relação recíproca entre Mestre e discípulo é extremamente nítida em boa parte dos escritos ditos herméticos, e que o são, de fato, por seu estilo muito reconhecível.
Eis, por exemplo, o caso do autor do Tratado XVI do Corpus Hermeticum. Ele declara que já escreveu "livros" e relata seus diálogos com Hermes:
"Hermes, meu mestre, nos frequentes diálogos que teve comigo, costumava dizer-me que aqueles que lerem meus livros acharão sua composição muito simples e clara, quando, ao contrário, ela é velada e mantém oculto o significado das
palavras"palavras".
Até aqui, poderíamos pensar que o autor do Tratado XVI é um discípulo contemporâneo e familiar do Mestre. Infelizmente, eis que ele continua falando de um evento que só ocorreria vários séculos depois e que não seria possível prever em vida de Hermes:
"... a composição desses livros tornar-se-á inclusive totalmente obscura quando os gregos, mais tarde, resolverem traduzi-los de nossa língua para a deles, o que resultará em uma completa distorção do texto e em uma total obscuridade!"
É evidente que o personagem que pode falar das traduções gregas não pode ter conhecido pessoalmente o semideus Tot-Hermes, visto que essas traduções foram feitas muito tempo após sua apoteose. E, se o conhece, só pode ser por meio de evocações do domínio da mística — ou, mais precisamente, da falsa mística.
Pensamos que, no conjunto dos tratados ditos herméticos, deve existir uma grande proporção de HERMETICA apócrifos, que podemos chamar também de ADICIONAIS.
Pois não se trata de uma fraude real. Eles provêm, com efeito, desse mesmo misticismo pagão que já era a fonte dos escritos de Tot. Vinculam-se, portanto, à mesma linhagem espiritual. Pertencem sempre ao mesmo tipo de inspiração.
"Eis o que me disse Hermes, meu Mestre..." Quantos tratados herméticos contêm esta afirmação! Quantos discípulos se tornaram, assim, os SECRETÁRIOS do SECRETÁRIO dos DEUSES.
Mas então, em que época ocorreram essas adições? Devem ser situadas na segunda geração dos escritos herméticos, ou seja, durante o período helenístico, que sucede à tradução do egípcio para o grego e que termina ao início da era cristã?
De nossa parte, pensamos antes que a maioria dos "hermetica adicionais" pertence à terceira geração: a das adaptações gnósticas, na época em que todos esses tratados se preenchem de noções cristãs deformadas, como veremos.
A INTELIGÊNCIA SOBERANA doDO POIMANDRES
Qual é, então, essa linhagem espiritual? Qual é essa "inteligência soberana" à qual Tot deve, como vimos, a revelação do Poimandres?
Os pagãos da antiguidade não tinham uma ideia precisa nem da divindade, nem dos demônios. Foi a Igreja, na sequência dos trabalhos dos Grandes Doutores gregos e latinos, elaborando eles próprios os dados da Revelação messiânica — foi o magistério eclesiástico que pôde formular, pela primeira vez, as poderosas e fecundas definições trinitárias e cristológicas que hoje nos são familiares. Nosso pensamento habituou-se a esses sólidos fundamentos, e temos dificuldade em imaginar a desordem e as incertezas do pensamento religioso antigo.
Ora, Nosso Senhor não nos revelou apenas o Deus Verdadeiro. Ele também nos revelou o adversário do Deus Verdadeiro, o grande arcanjo caído. Esta é, inclusive, uma das revelações mais importantes do Novo Testamento.
A bem dizer, a antiguidade conhecia a existência dos demônios. Os pagãos evidentemente tinham ampla experiência com os espíritos nocivos, os espíritos malignos que é preciso conciliar por meio de um culto cruel. Esses espíritos, os pagãos os temiam porque é natural temer o mal quando ele se apresenta como sendo o mal.
Apenas, o que os pagãos não sabiam é que os espíritos das trevas podem se apresentar como anjos de luz. E é precisamente isso que o Novo Testamento revela com insistência e sem ambiguidade: "Não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus" (São Paulo).
Ora, justamente os místicos pagãos, durante séculos, "creram em todo espírito". Tudo o que vinha do além era supostamente vindo da divindade. Tudo o que era espiritual, isto é, imaterial, era considerado bom.
Assim, confiaram em espíritos de malícia, auxiliares na aparência, mas pérfidos e nocivos a longo prazo. O DELÍRIO SAGRADO dos místicos pagãos colocava-os em contato não com a divindade, mas com os maus espíritos que enganavam o mundo inteiro. (Apocalipse).
Certamente, não se pode afirmar com segurança que a INTELIGÊNCIA SOBERANA, da qual Hermes declara ter-lhe inspirado o tratado Poimandres (e os outros dezesseis tratados do Corpus Hermeticum), era Lúcifer, pois o espírito inspirador usa do engano e, consequentemente, a prova direta escapa à observação. A prova só pode resultar de um conjunto de presunções.
A continuação deste estudo nos trará algumas dessas presunções.
O TÍTULO DE TRISMEGISTO
O semideus egípcio Tot, batizado depois como Hermes pelos gregos, recebeu também o título de TRISMEGISTO.
Mégistos é uma das formas do adjetivo grego mégas, que significa grande. Trismegisto quer dizer, portanto, "três vezes grande". Os comentadores de língua francesa, e sobretudo os adeptos contemporâneos do hermetismo, traduzem frequentemente como "três vezes mestre".
Este título levanta duas questões: em que época foi atribuído ao nosso personagem? E qual é o seu significado?
Já era um hábito entre os egípcios honrar os deuses reiterando duas ou três vezes, e até com mais frequência, os qualificativos de louvor que lhes eram atribuídos. Foi assim que alguns deuses foram declarados até nove vezes santos.
Hermes beneficiou-se da mesma regra. Na inscrição da Pedra de Roseta, por exemplo, ele aparece como "grande e grande". Nos manuscritos descobertos em Nag Hammadi, que datam de 164 a 168 antes de Cristo, Hermes é chamado de "muito grande e muito grande e ainda maior" (megistou kai megistou kai megalou).
Mas o título de Trismegisto em si, como uma única palavra, é, segundo J. P. MAHÉ, provavelmente posterior à era cristã. É verossímil, de fato, que pertença à terceira geração dos livros herméticos.
A atribuição tardia deste título, em pleno período gnóstico, sugere imediatamente uma explicação. Sabe-se que os gnósticos gostavam de aclimar em suas doutrinas noções e termos tomados do cristianismo, o qual exercia sobre eles um prestígio tão incontestável quanto inconsciente. Ora, os cristãos do Oriente, desde essa época, invocavam a Trindade sob o título de TRISÁGION, que significa "três vezes santa".
Os hermetistas precisaram de apenas um passo para transformar o "megistou kai megistou kai megalou" em TRISMEGISTO. E eis Hermes colocado sob uma invocação análoga àquela que servia para designar a Trindade dos cristãos.
UM MOSAICO DOUTRINÁRIO
O que impressionou Festugière, um dos hermetólogos mais competentes da atualidade, foi a heterogeneidade da doutrina expressa nos tratados herméticos. Esses livros, diz ele, são compostos "com materiais de datas e procedências diversas". É perfeitamente exato. Não é uma doutrina, é um amálgama de doutrinas.
Jean-Pierre MAHÉ é da mesma opinião. Os livros herméticos, escreve ele, mostram "uma falta total de unidade doutrinária: de um tratado para outro, por vezes até no seio de um único tratado, Hermes professa as opiniões mais contraditórias sobre todos os assuntos de que trata". ("Hermès en Haute-Égypte", página 21).
Vimos que esses tratados circularam por muito tempo de forma isolada e que só foram reunidos em coletâneas tardiamente, no início da era cristã. Além disso, são provavelmente obra de vários pensadores, mais ou menos místicos, que se fazem passar por discípulos contemporâneos de Hermes, se não pelo próprio Hermes, e que, consequentemente, introduziram nesses tratados dispersos sua filosofia helenística primeiro, e depois gnóstica.
O único elo do conjunto é uma PIEDADE TEÍSTA incontestavelmente intensa, expressa em um lirismo muito particular e perfeitamente reconhecível. Sente-se nela uma religiosidade, talvez vaga quanto à doutrina, mas poderosa quanto aos sentimentos.
Num próximo artigo, enumeraremos alguns dos temas dessa religiosidade heteróclita. Podemos, aliás, adiantar desde já os títulos dos parágrafos que constituirão esse próximo artigo:
O Pai Criador — O Panteísmo de Hermes — O Politeísmo — O Segundo Deus — A Ogdoade — Os Quatro Elementos — Os Doze Algozes — O Esoterismo Hermético — As Confrarias Herméticas — A Opinião dos Padres — O Pastor de Hermas.
J. V.