A VIDA E AS OBRAS DO PADRE AUGUSTIN BARRUEL
A Sociedade Augustin BARRUEL sente-se no dever de apresentar, na medida do possível, um relato da vida e uma nomenclatura das obras do escritor cujo nome tomou emprestado.
Ao cumprirmos esta tarefa, servimo-nos da biografia universal de Michaut (tomo 3), do Dicionário de biografia francesa de Prévost e Roman d'Aurat e, sobretudo, de três notas biográficas:
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a de DUSSAULT, bibliotecário de Sainte-Geneviève, escrita em 1823;
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a do Padre MOLLIER, no "Ensaio histórico sobre Villeneuve-de-Berg", escrito em 1866. Villeneuve-de-Berg é a terra natal do Padre BARRUEL, e o Padre MOLLIER dedicou-lhe seis páginas de seu ensaio;
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a do cônego FILLET, pároco de Alex, escrita em 1896 e intitulada: "Nota biográfica, literária e crítica sobre o R. P. Augustin de BARRUEL".
Devemos mencionar também um artigo do periódico "L'Ordre français", de fevereiro de 1966.
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As três notas citadas anteriormente não utilizam o nome Padre BARRUEL, mas designam-no como Padre de BARRUEL. De fato, sua família possuía uma partícula nobiliárquica. Sabe-se que a partícula nem sempre é sinal de nobreza; pode, por exemplo, indicar um país de origem ou derivar do der alemão. No caso da família de BARRUEL, a nobreza é incontestável, existindo duas teses sobre sua origem: a primeira, apoiada em genealogistas, fá-la remontar a um passado distante, indo além da Guerra dos Cem Anos. Naquela época, o reino da Escócia era aliado do rei da França. Os escoceses desempenhavam um papel importante no exército de Carlos VII e muitos gascões combatiam nas fileiras dos ingleses. Remotamente, representantes de uma família da Escócia que possuíram o título de duque e as prerrogativas da fidalguia combatiam a serviço do rei da França; seu nome era BARWEL. Um ramo dessa família permaneceu definitivamente na França e instalou-se no Vivarais; outro permaneceu na Escócia e um de seus membros, Lord BARWEL, vindo a Paris em 1780, reconheceu os de BARRUEL do Vivarais como fazendo parte de sua família e estabelecidos na França há vários séculos. O nome primitivo BARWEL teria se transformado em BARRUEL.
Segundo uma segunda tese, os BARRUEL descendiam de camponeses do Delfinado (Dauphiné). De acordo com a publicação Lecture et Tradition, nº 54, de maio-junho de 1975, os BARRUEL são mencionados pela primeira vez entre 1095 e 1105 na Carta do Capitulário da Reitoria de Oulx, no alto Briançonnais.
Entre a origem escocesa e a origem delfinesa, não sabemos qual é a verdadeira. O que é certo, por outro lado, é que a nobreza da família de BARRUEL é indubitável.
Suas armas eram antigamente barradas de ouro e prata; foram, posteriormente, de ouro com banda de azul, carregada de três estrelas de prata. Seu grito de guerra era: VIVAT REX; sua divisa: VIRTUTE SIDERIS.
Os de BARRUEL ocuparam altos cargos no exército e na magistratura, tendo contraído alianças com os de La Rochefoucauld, os de Sévigné e os de Grignan.
O pai de Augustin BARRUEL, titular de vários senhorios, foi Tenente-general do Rei no bailiado de Villeneuve de Berg; casara-se, em 11 de julho de 1730, com Madeleine de Monnier, que lhe deu doze filhos. Não se sabe a ordem exata de Augustin entre essa dúzia. Sabe-se apenas que três filhos nasceram antes dele, entre os quais Louis-Antoine, que se tornou, por sua vez, Tenente-general do Rei, e Louis-François, que foi Tenente-coronel da artilharia e admitido mais tarde na assembleia da nobreza da província de Bresse. Entre seus irmãos e irmãs mais novos, contam-se Camille de BARRUEL, que foi prior da Abadia dos Beneditinos de Charlieu em Bresse, e Marie-Gabrielle, que foi superiora da Visitação de Valence. Ela deixou renome de alta piedade e de muito saber.
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Augustin nasceu em Villeneuve de Berg, antiga capital do Vivarais, em 2 de outubro de 1740. Villeneuve de Berg é conhecida sobretudo como a pátria de Olivier de Serres, mas, além do Padre BARRUEL, outros escritores mais ou menos célebres ali nasceram na mesma época: o R. P. Dumazel, jesuíta; Antoine Court, pastor calvinista e historiador de Cevenas e das guerras dos Camisardos; o filho de Antoine Court, também ele escritor; e o Padre Geneston, autor de uma coleção de sermões. Nenhum teve, nem de longe, o valor ou a erudição de Augustin BARRUEL.
Nada se pode dizer sobre os anos de infância de Augustin passados em Villeneuve de Berg. Ele fez seus estudos no colégio dos Jesuítas de Tournon. Em 15 de outubro de 1756, entrou no noviciado dessa Sociedade com a intenção de fazer parte dela. Foi inicialmente designado para o ensino e lecionou humanidades em Toulouse, mas, em novembro de 1764, um édito de Luís XV suprimiu a Sociedade dos Jesuítas na França: "Queremos e nos apraz que, no futuro, a Sociedade dos Jesuítas não mais tenha lugar em nosso reino, países, terras e senhorios sob nossa obediência".
Por esta razão, Augustin deixou a França e professou seus votos na Alemanha. Lecionou sucessivamente em Commateau, na Boêmia; em Hradisch, na Morávia; e em Viena, na Áustria, no colégio teresiano, onde ocupou a cátedra de retórica. Em 7 de agosto de 1773, o Papa Clemente XIV pronunciou a abolição total da Ordem dos Jesuítas. Nessa data, Augustin de BARRUEL deixou de ser religioso para tornar-se padre secular. Pode-se notar que, no século seguinte, mas por outras razões, dois de seus futuros continuadores — o Padre Barbier, autor da "História do Catolicismo Liberal", e o cônego Gaudeau, autor do "Perigo Interior da Igreja" — seguiriam a mesma evolução da Companhia de Jesus para o clero secular. Note-se, contudo, que, segundo seus biógrafos, Augustin de BARRUEL permaneceu jesuíta pelo espírito durante toda a sua vida.
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Nessa época, ele foi encarregado da educação do filho de um grande senhor; conduziu seu discípulo à Itália, aprendeu o italiano e visitou Roma.
Certamente havia retornado à França no início de 1774. Sua primeira obra é em verso: uma ode por ocasião da ascensão de Luís XVI, intitulada "Ode sobre a gloriosa ascensão de Luís Augusto", para a qual obteve a licença de impressão em 29 de maio de 1774. Vendeu, ao que parece, doze mil exemplares. Os jesuítas escreviam muitos versos naquela época. Esta Ode é em versos de sete pés, o que lhe confere um estilo ágil. Eis dois de seus quartetos:
Ao ver sobre o próprio trono
Seu ardor e seus trabalhos
Parece do diadema
Ter tomado apenas os fardos.*************************************
Que o amor, príncipe, inflame
O coração de todos os franceses.
Gravou em nossa alma
Teu nome com teus benefícios.
Mas o futuro não viria a confirmar as esperanças que o padre BARRUEL depositava, não no rei, mas nos sentimentos dos franceses em relação a ele.
Em 1779, BARRUEL traduziu ainda em versos um poema italiano sobre os eclipses; em seguida, colaborou com o Année littéraire, dirigido por Fréron.
Em julho de 1774, o príncipe Xavier de Saxe tomou-o como preceptor de seus filhos; em 1777, foi nomeado esmoler da princesa de Conti, título que manteve até a Revolução.
Publicou em 1778 a "Física reduzida a quadros fundamentados" (Physique réduite en tableaux raisonnés).
De 1781 a 1788, escreveu as Helvienses ou "Cartas provinciais filosóficas", que tiveram um sucesso retumbante. Com elas começa sua carreira de polemista. As Helvienses foram escritas em forma de cartas, como as Provinciais de Pascal. O primeiro volume é dedicado à física; o segundo e o terceiro à metafísica; o quarto trata das contradições. O objetivo das Helvienses era denunciar os erros dos filósofos. O nome enigmático de helviennes provém dos Helvícios que, no tempo dos romanos, era a denominação dos povos do Vivarais. A primeira metade do trabalho apareceu em 1784; a segunda em 1788.
Essas cartas, exposição das bizarrias, das incoerências e das contradições dos filósofos, foram atacadas. BARRUEL defendeu-as na "Resposta do autor das helviennes a uma carta anônima e sem data", que apareceu no Année littéraire de 1784. À página 185 dessa resposta, escreveu: "O censor de nossas cartas helvienses precisou de toda a sua firmeza para manter os direitos dele e os nossos ao permitir a publicação desta obra que os sofistas queriam suprimir".
Em suas cartas helvienses, o padre BARRUEL criticara particularmente um padre Soulavie, originário de Largentière, no Vivarais, tentando ridicularizar seu sistema de geologia. Continuou sua polêmica em "A Gênese segundo o Sr. Soulavie".
Soulavie moveu um processo por difamação contra o padre BARRUEL.
A história não diz quem ganhou e quem perdeu esse processo. Parece que o perdedor foi o padre BARRUEL, pois "A Gênese segundo o Sr. Soulavie" foi destruída por ordem do Guardião dos Selos. Nenhum exemplar é conhecido. A obra deve ser considerada perdida.
Em janeiro de 1788, o padre BARRUEL assumiu a direção do "Jornal Eclesiástico" (Journal ecclésiastique) ou "Biblioteca fundamentada das ciências eclesiásticas". Publicou o último número em julho de 1792.
Com a Revolução, suas obras multiplicaram-se; pode-se julgar pela seguinte nomenclatura:
- "O Patriota Verdadeiro" (Le Patriote véridique) ou "Discurso sobre as verdadeiras causas da revolução atual", em 132 páginas, onde afirma a responsabilidade dos filósofos nos males da França.
- "Carta sobre o Divórcio a um deputado da Assembleia Nacional", em 42 páginas. Era a refutação de uma obra sobre o divórcio. A propósito desta carta, BARRUEL diria: "Vossa Paternidade não acreditaria se eu dissesse que ela foi escrita em oito dias".
- "Prédica de um bom pároco sobre o juramento cívico exigido dos bispos e dos párocos", opúsculo frequentemente reimpresso em 1790.
- "Os verdadeiros princípios sobre o matrimônio, opostos ao relatório de Durand de Maillane", 1790, 43 páginas.
- "Discurso a ser pronunciado por um dos membros dos Estados Gerais pelo retorno dos Jesuítas".
- "Da conduta dos párocos nas circunstâncias presentes, carta de um pároco de aldeia ao seu colega, deputado na Assembleia Geral".
- "Desenvolvimento do juramento dos sacerdotes em função pela Assembleia Nacional", 1790.
- "Desenvolvimento do segundo juramento chamado cívico, decretado em 16 e 29 de novembro de 1791".
- "O plágio do Comitê dito eclesiástico da Assembleia Nacional ou decreto de Juliano, o Apóstata, formando as bases da Constituição Civil do Clero francês, seguido das representações de São Gregório de Nazianzo", 1790.
- "Preconceitos legítimos sobre a Constituição Civil do Clero e sobre o juramento exigido dos funcionários públicos".
- "Questão decisiva sobre os poderes ou a jurisdição dos novos pastores", 1791.
- "Questão nacional sobre a autoridade e os direitos do povo no governo", 1791.
Naturalmente, a atividade de BARRUEL não se limitou à redação de obras; ele insistiu junto ao arcebispo constitucional de Paris, Gobel, para obter a retratação de seu juramento. O arcebispo hesitou, mas julgou mais prudente não o fazer, o que não o impediu de morrer no cadafalso sob a acusação de ateísmo.
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Após os massacres de setembro, o padre BARRUEL, que se escondera por algum tempo, embarcou para a Inglaterra. Lá permaneceria por dez anos, de 1792 a 1802. Em Londres, foi acolhido por Burke e por Lord Clifford. Lord Clifford ajudou-o a prosseguir seus trabalhos literários. Escreveu: "A História do Clero durante a Revolução Francesa". Esta história parou em 1792. A obra, que contém 379 páginas, apareceu em 1797, foi reeditada e traduzida em várias línguas. O dicionário de biografia francesa alega que, por falta de memória e redigida com base em informações não verificadas, ela contém erros e incertezas. Evidentemente, estando na Inglaterra, BARRUEL não teria mais os documentos à mão.
De 1797 a 1798, publicou em quatro volumes sua obra mais célebre: "Memórias para servir à História do Jacobinismo" (Mémoires pour servir à l'Histoire du Jacobinisme).
Nela, demonstra o papel decisivo dos filósofos, dos maçons e dos iluminados na preparação da revolução.
A publicação destas memórias foi um verdadeiro acontecimento. Foram traduzidas para um grande número de línguas, nomeadamente duas vezes para o polonês. Mais tarde, o padre BARRUEL publicou um resumo em dois volumes. Surgiram enormes contestações, o que não é surpreendente. Mounier publicou um ensaio de refutação: "Da influência atribuída aos filósofos, aos maçons e aos iluminados sobre a revolução na França". Charpy de Saint-Étienne escreveu outro: "A maçonaria justificada de todas as calúnias espalhadas contra ela, ou refutação do livro do padre BARRUEL".
Em uma nota de 1823, Dussault faz uma distinção entre o que BARRUEL diz dos filósofos e o que concerne aos maçons e aos iluminados. Sobre os filósofos, Dussault pensa que tudo é claro e palpável, mas sobre os maçons e os iluminados da Baviera, estima que BARRUEL supõe, conjectura, imagina. Chega a dizer: "Ele parece compor o romance do Jacobinismo muito mais do que a sua história".
Michaut, em sua biografia, estima que estas memórias "estão desfiguradas por um exagero e uma crítica acerba". A obra foi comparada às dos padres Fiard e Wurtz, que alegaram que a Revolução era obra de feiticeiros e demonólatras.
BARRUEL havia precisado as razões que o levaram a escrever seu livro:
"Vimos homens cegarem-se sobre as causas da Revolução Francesa. Ao ignorar as causas, reconhece-se a gravidade dos eventos, mas coloca-se na impossibilidade de remediar os males que deles decorrem".
"É um preconceito dos mais perigosos pensar que a Revolução Francesa é um vulcão que se abriu sem que se possa conhecer o foco onde se preparou; somos levados a pensar que ele se esgotará por si mesmo junto com seu combustível".
O autor indica que o motivo que o levou a escrever estas memórias é o desejo de colocar os homens a salvo do perigo que os ameaça, mostrando esse perigo à luz do dia, à luz irrecusável dos fatos mais evidentes.
Provavelmente foi também na Inglaterra que o padre BARRUEL escreveu as cartas sobre a pintura, as pesquisas sobre a pintura e as pesquisas sobre os obstáculos ao progresso das artes.
Sobre sua estada na Inglaterra, temos duas anedotas:
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O arcebispo anglicano de Cantuária anunciou um dia ao padre BARRUEL que a verdade se transmite na Igreja Romana e que Jesus Cristo prometera a Pedro que sua fé não desfaleceria. Em consequência, o padre BARRUEL declarou-lhe que ele deveria, logicamente, abjurar o erro. O arcebispo respondeu-lhe que as vinte e cinco mil libras esterlinas que seu arcebispado rendia eram necessárias para sustentar sua família. O padre BARRUEL retrucou: "Então, o senhor vende sua alma ao diabo por vinte e cinco mil libras esterlinas".
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Chateaubriand, que também estava refugiado na Inglaterra, queria ter a opinião de BARRUEL sobre "O Gênio do Cristianismo" e confiou-lhe seu manuscrito. O padre BARRUEL começou o exame e parou na quinquagésima página, após ter escrito na margem o salmo XLIX, 17: "Deus diz ao pecador: cabe a vós contar as minhas justiças e anunciar a minha aliança?". O padre BARRUEL estimava, sem dúvida, que Chateaubriand combatia mais por sua glória pessoal do que pela causa que pretendia defender.
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Quando o Consulado sucedeu ao Diretório, uma questão se colocou aos eclesiásticos emigrados: deveriam eles regressar à França para tentar cumprir a tarefa para a qual haviam sido ordenados padres, ou permanecer no exílio para não servir a um governo ilegítimo?
O padre BARRUEL pronunciou-se claramente pela primeira solução. Em 8 de julho de 1800, ele recomendou a submissão às leis em dois opúsculos: "Detalhamento das razões peremptórias que determinaram o clero de Paris e de outras dioceses a fazer a promessa de fidelidade" e "O Evangelho e o clero francês sobre a submissão dos pastores nas revoluções dos impérios". Neles, expunha que os padres, sendo encarregados da salvação das almas, deveriam acima de tudo trabalhar por ela, e que apenas a impossibilidade de exercer suas funções poderia servir-lhes de escusa.
Um Padre Lambert, antigo secretário do arcebispo de Paris, atacou essa doutrina; os bispos refugiados na Inglaterra julgaram a atitude do padre BARRUEL, no mínimo, imprudente. No entanto, ao que parece, quatro mil sacerdotes regressaram à França após a leitura dos dois opúsculos. Em 20 de setembro de 1801, o padre BARRUEL lançava um panfleto: "As duas páginas", endereçado aos bispos franceses que, apesar do pedido do Papa, não haviam renunciado após a Concordata. O panfleto causou tanto barulho que teve de ser retirado das livrarias.
Em setembro de 1802, o padre BARRUEL obteve permissão para retornar à França. Ao seu regresso, o arcebispo de Paris, de Belloy, e o Primeiro Cônsul nomearam-no cônego honorário de Notre-Dame de Paris. Ele parece ter renunciado à partícula nobiliárquica. Numa lista dos cônegos honorários de Notre-Dame, constante num almanaque publicado em 1813, ele aparece em terceiro lugar sob a simples denominação: BARRUEL. Ora, outros cônegos, entre os quarenta e um enumerados em 1813, mantinham a partícula.
Em 1803, o padre BARRUEL escreveu, em dois volumes: "Do Papa e de seus direitos religiosos por ocasião da Concordata".
Como objetivo desta obra, ele indicou: "Temos de demonstrar aqui a legitimidade desta Igreja restabelecida na França por essas convenções firmadas sob o nome de Concordata entre o Papa Pio VII e o Governo francês. Temos de vingar, ao mesmo tempo, esta Igreja, seus pastores e o príncipe dos pastores que no-los deu. Temos de tranquilizar o povo francês sobre o poder do pontífice que lhe dá seus sacerdotes e suas sedes episcopais, e sobre a santidade e o uso que ele faz de seu poder".
BARRUEL faz todo um histórico que destaca os poderes dos sucessores de São Pedro. Remonta ao Concílio de Sárdica de 347 a respeito dos bispos depostos que apelam a Roma. Cita Cirilo de Alexandria que, no Concílio de Éfeso, recusa-se a julgar Dióscoro antes de saber o que o Papa havia prescrito.
Nesta obra, BARRUEL ataca novamente os bispos que recusam a Pio VII a renúncia exigida após a Concordata. No entanto, no mesmo livro, ele é bastante indulgente em relação à declaração galicana de 1682, que atribui a Luís XIV mais do que ao clero da França. A dureza para com a Petite Église (Pequena Igreja) e a falta de severidade em relação ao Galicanismo de 1682 conciliam-se dificilmente; provavelmente pensava ele que a primeira era um cisma e a segunda apenas uma manifestação de opinião.
A atitude do padre BARRUEL em relação ao regime consular também coloca um problema: teria ele agido por conveniência ou não compreendeu que a influência maçônica que tão bem denunciara na revolução continuava a exercer-se, embora de outra maneira, sob o Consulado? A questão não está resolvida. Acreditamos, no entanto, que o padre BARRUEL não se iludira; seu comportamento baseava-se na necessidade primordial da salvação das almas. Para compreendê-lo, deve-se certamente levar em conta também sua formação na Companhia de Jesus, que impõe a obediência incondicional ao papa, "perinde ac cadaver". O papa havia tratado com o Consulado; era preciso seguir o papa.
Seja como for, não lhe faltaram dificuldades. Malquistara-se, por um lado, com os sacerdotes juramentados e, por outro, com os sacerdotes anticoncordatários. Doravante, teria inimigos em ambos os campos. Sua apologia do papa foi atacada pelo padre Blanchard, que publicou em Londres três refutações sucessivas sob o título de "Controvérsia pacífica".
Mesmo sob o Primeiro Império, quando Pio VII foi internado em Savona, sua postura incondicional em relação ao papa trouxe-lhe problemas. BARRUEL, que como antigo emigrado estava sob vigilância policial, foi preso em 1811. Suspeitava-se que ele tivesse difundido o breve do papa contra o Cardeal Maury. No lugar do Cardeal de Belloy, falecido em 1802, Bonaparte nomeara arcebispo de Paris o Cardeal Fesch; depois, indisposto com este último, substituíra-o pelo Cardeal Maury em 1810. Maury informou o papa e assumiu a administração do arcebispado.
Por um breve assinado em Savona, Pio VII ordenou a Maury que deixasse imediatamente o arcebispado de Paris. Foi um grande escândalo. O aprisionamento de BARRUEL, acusado de apoiar Pio VII contra o Cardeal Maury, foi de curta duração, ao que parece, embora não saibamos nada de preciso a esse respeito.
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Em 1813, a influência do padre BARRUEL foi benéfica para obter uma retratação de Soulavie. Soulavie era aquele padre com quem, outrora, ele estivera em processo a propósito das Helviennes, muito antes da Revolução. Desde então, o padre SOULAVIE havia prestado juramento à Constituição Civil do Clero e fora nomeado residente da República Francesa em Genebra. BARRUEL, em suas "Memórias para servir à História do Jacobinismo", acusara-o de ter contribuído para a revolução naquela cidade. O padre Soulavie casara-se quatro vezes — o que não quer dizer que tivera quatro esposas, mas que fizera celebrar quatro vezes o seu casamento com a mesma pessoa. Pio VII o havia devolvido à vida secular.
Ao final de sua vida, em 1813, ele entregou a BARRUEL a seguinte retratação, escrita, assinada e datada de próprio punho: "Senhor, desejando viver no seio da Igreja Católica, Apostólica e Romana, peço-vos que constateis, pela inserção da minha presente declaração em vossas obras, meu arrependimento por ter publicado nas minhas erros contra a religião. Condeno-os. Não é notório que as desgraças de nossa pátria e os crimes da revolução provêm do esquecimento da religião? Qual é, pois, o cristão que não geme pelos erros desta natureza quando vê os seus resultados?". Este texto de retratação é autêntico. O autor do artigo sobre Soulavie no Dicionário de Biografia Francesa declara que teve o manuscrito diante dos olhos.
Em 1814, o padre BARRUEL depositou pouca confiança na Restauração. Escreveu a um membro de sua família: "Não vos fieis na nova ordem de coisas. Luís XVIII será em breve derrubado do trono e expulso da França". Essa predição realizou-se muito rápido. Durante os Cem Dias, o padre BARRUEL retirou-se para junto de sua família, provavelmente no Vivarais.
Em 14 de outubro de 1815, ele regressa à Companhia de Jesus, então reconstituída.
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Um dia, ele foi recebido em audiência por Luís XVIII. Seu irmão, Louis-François de BARRUEL, então Tenente de artilharia, também fora apresentado outrora em Coblença, em 1791, ao futuro Luís XVIII, que na época era apenas o Conde de Provença.
Augustin BARRUEL propôs a Luís XVIII um meio de expurgar o país da maçonaria: "Sire, aqui estão os nomes de trinta principais chefes, aqui estão os endereços. Mande prendê-los todos no mesmo dia, imponha à sociedade uma pesada contribuição, insista na santificação do domingo e na observância das outras leis que os infelizes visam, sobretudo, aniquilar. Assim, privada de seus chefes, empobrecida e reprimida, a seita, se não for aniquilada, ao menos não terá, por muito tempo, os meios de prejudicar". Mas o rei não aderiu a um plano que, aliás, era demasiado simplista. Não se pode pôr fim apenas com medidas policiais a uma intoxicação profunda e penetrante dos espíritos.
Luís XVIII quisera nomear o padre BARRUEL como bispo; este, sempre desinteressado, recusou. Ninguém jamais negou sua total ausência de ambição. A recusa ao episcopado era frequente nos primeiros séculos do cristianismo. A dignidade de bispo conferia um grande poder e responsabilidades extensas. Frequentemente, aqueles a quem uma sede episcopal era proposta temiam pela salvação de sua alma e preferiam não incorrer em graves perigos. As motivações do padre BARRUEL nada têm a ver com as daquela época.
Duas explicações diferentes foram dadas pelo padre Mollier, por um lado, e pelo cônego Fillet, por outro. Para este último, era contrário às regras da Companhia de Jesus aceitar uma dignidade eclesiástica sem uma ordem expressa do papa; segundo o padre Mollier, BARRUEL teria respondido a Luís XVIII: "Permiti-me, Sire, recusar este favor: se eu o aceitasse, não poderia mais servir-vos tão utilmente".
É que BARRUEL queria continuar a escrever; as funções de bispo, demasiado absorventes, tê-lo-iam impedido. Em 1814, ele ainda publicara um tratado: "Do princípio e da obstinação dos Jacobinos em resposta ao Senador Grégoire", que levantara tempestades, e uma "Réplica pacífica aos três advogados do Senhor Senador Grégoire". Em 1815, posicionou-se ainda contra a Petite Église. O nome exato desta última obra publicada não é mencionado.
Seus últimos anos foram consagrados a escrever uma história das sociedades secretas na Idade Média, uma dissertação sobre a Cruzada contra os Albigenses e uma refutação do sistema de Kant. O padre BARRUEL, de fato, preocupara-se muito com Kant; teria dito a esse respeito: "Que malícia há nesse homem! Mas eu o apanhei e o desmascararei diante do mundo".
Infelizmente, essas três obras não foram terminadas. O padre A. BARRUEL faleceu em 5 de outubro de 1820, aos setenta e nove anos. Está sepultado no cemitério de Montparnasse, em Paris. Seus manuscritos inacabados sobre Kant foram queimados, ao que parece. É uma perda das mais lamentáveis.
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A obra escrita deste poeta, filósofo, historiador e polemista não deixa de ser considerável. É um contraveneno dos mais úteis contra uma subversão que não fez senão estender-se e crescer.
Um dia, Pio IX concedeu uma audiência a Alfred de Barruel, sobrinho-neto do padre Augustin. O Papa falou-lhe do grande escritor, do defensor da Igreja.
O cônego Fillet, em 1894, concluíra seu opúsculo observando que era bastante estranho que não o tivessem incluído entre os escritores de primeira ordem de sua época. "Perguntamo-nos francamente", diz ele, "se ele não é superior a La Harpe, a Maury, a Chateaubriand, a Frayssinous". Por volta de 1935, o grão-rabino de Paris, Lieber, reconhecera: "Barruel tem toda a razão. Suas afirmações e suas teses são exatas".
O Cônego Fillet lamentara que suas obras não fossem reimpressas. A editora Diffusion de la pensée française começou a satisfazer esse desejo em 1974, republicando as "Memórias para servir à história do Jacobinismo", em dois volumes.
A sociedade A. BARRUEL, ao adotar seu nome, quis colocar em evidência um escritor superabundante cujos ensinamentos, cento e sessenta anos após sua morte, continuam sendo salutares. Seria um erro ver no padre BARRUEL apenas um denunciador de complôs. Nenhum complô pode ser eficaz sem um terreno já preparado. BARRUEL quis remontar até as origens do mal. Seus trabalhos sobre os Albigenses e sobre o sistema de Kant, infelizmente perdidos, mostram-no bem. Não se poderia fazer uma ideia justa do padre BARRUEL sem levar isso em conta.
Também não se deve permitir que a antiguidade deste autor lance uma nota pessimista, ao sublinhar que, após tanto tempo decorrido, a subversão parece mais forte do que nunca. Pelo contrário, o padre BARRUEL deve ensinar-nos que, se é preciso conhecer as sociedades perversas e denunciar sua influência e seu mecanismo, não se deve ter medo delas. Depois do padre BARRUEL, e como ele, podemos repetir e tomar como regra de conduta estes versos da primeira cena de Athalie, que ele adotara como divisa:
"Aquele que põe freio à fúria das vagas
Sabe também dos maus deter as tramas.
Submisso com respeito à Sua vontade santa,
Temo a Deus, caro Abner, e não tenho outro temor".
G. L.