A PROPÓSITO de KANT e de HEGEL
A obscuridade da filosofia alemã é conhecida de todos: alguns viram nela a marca do gênio; outros, um simples meio para avançar mascarado.
Eis a opinião de alguns bons autores que lhes entregamos sem maiores delongas.
Após cem anos de traduções, interpretações e conclusões em sentido contrário, ainda se está, quanto à Filosofia de Emmanuel KANT, na carta datada de 14 de agosto de 1801 escrita por um delicado pensador, o Sr. JOUBERT, que possuía o gênio claro e caloroso:
"Imaginem um latim alemão, duro como pedras, um homem que dá à luz suas ideias sobre o papel e que nunca põe nada de límpido, de pronto e de bem acabado; ovos de avestruz que é preciso quebrar com a própria cabeça e onde, na maioria das vezes, não se encontra nada... É preciso que haja entre o espírito alemão e o espírito francês, em suas operações intelectuais, a mesma diferença que se encontrou, durante toda a guerra, entre os movimentos dos soldados das duas nações. Ouvi dizer, e os senhores sabem, que um soldado francês se movia vinte vezes no tempo necessário para um soldado alemão se mover uma única vez: eis o nosso homem. Um espírito francês diria, em uma linha e em uma palavra, o que ele mal diz em um tomo: um criador de sombras opacas que, seduzido e seduzindo os outros por essa mesma opacidade, crê e faz crer que há, em suas abstrações tenebrosas, uma solidez que, certamente, não está lá; vislumbres, algumas clareiras, todavia; sentido, espírito às vezes; quimeras de lógica que preenchem e destroem razoavelmente bem os nadas que a última escola estava tão orgulhosa de ter estabelecido e que dava como plenitude com uma intrepidez fluida e um amor-próprio tão contínuo... Ele não é claro: é um fantasma, um Monte Atos talhado em filósofo".
Essa opacidade que o Sr. JOUBERT denunciava em Emmanuel KANT, esse invólucro coriáceo e duro que é preciso perfurar antes de atingir, se for possível, o pensamento, é o traço dominante, a marca de fabricação de todos esses sistemas que, gerando-se e devorando-se uns aos outros, projetam sua sombra sobre a límpida luz do Cristianismo.
No tempo em que o Sr. Victor COUSIN — que era em filosofia não um criador potente, mas um vulgarizador eloquente — empreendia fazer na Sorbonne um triunfo para as elucubrações de HEGEL, sua correspondência íntima prova que, no fundo, ele não enxergava nada. Ele se dirigia ao próprio mestre para conjurá-lo a não ser excessivamente ininteligível:
"Desça um pouco de suas alturas, meu caro, e dê-me a mão".
Ele implorava comicamente, se não por sua própria fraqueza, ao menos pela de seus ouvintes do Quartier Latin, aos quais gostaria de transmitir a boa pastagem filosófica:
"Eu
medirei"medirei",
dizia-lhe ele,
"a força do vento pela do pobre cordeiro; mas quanto a mim, que já não sou propriamente um cordeiro, peço que o vento sopre com toda a sua força. Sinto minhas costas firmes o suficiente para suportá-lo; peço clemência apenas pela França. HEGEL, diga-me a verdade: passarei ao meu país o que ele for capaz de compreender". (Carta de COUSIN a HEGEL, 1º de agosto de 1826).
Henri de LACOTE (Science et Christianisme, in "Le Correspondant"Correspondant", de 10 de dez. 1906)