A GNOSE HOJE
O homem moderno é um "gnóstico sem o saber". Como se surpreender com isso? A sociedade de hoje está quase inteiramente impregnada dos ideais maçônicos. Os modos de pensar atuais são oriundos das lojas por meio de uma multidão de sociedades, clubes e grupos de pressão emanados delas. A própria Igreja já quase não se defende contra esta nova invasão bárbara, mais destruidora que a anterior, visto que se empenha em demolir o que ainda resta da civilização cristã.
Não é nossa intenção realizar uma obra de erudição, até porque isso já foi feito. Não queremos descrever minuciosamente as formas assumidas atualmente pelas gnoses modernas: isso perturbaria o leitor e confundiria os espíritos. Queremos, ao contrário, "decantar" essas gnoses e nelas reencontrar as fórmulas primitivas; melhor ainda, esforçamo-nos por reencontrar, sob o emaranhado das mitologias modernas, as grandes direções de pensamento que se mantêm e se desenvolvem ao longo dos séculos. De fato, existe uma progressão no erro, como na verdade. Certos espíritos, atraídos pela aparência de verdade que princípios falsos podem conter, não veem de imediato todas as consequências de suas afirmações; mas as gerações seguintes nelas se lançarão necessariamente, pois essas consequências estão contidas implicitamente nas premissas. Assim, veremos que Freud, Jung, Hegel e Marx não deixaram de desenvolver a gnose na linha da mais profunda subversão; que a Psicanálise ou o Marxismo são verdadeiras religiões, mas completamente invertidas: não se pode impunemente substituir o culto de Jesus Cristo pelo de Satanás; a subversão de toda a ordem cristã é "fecunda" em catástrofes apocalípticas: Satanás permanece "homicida" e "mentiroso" até a consumação dos séculos.
Poderíamos também ter prosseguido e "rastreado" a Gnose em Nietzsche e no neonazismo: ficará para uma outra vez.
I - ALGUNS DISFARCES MODERNOS DA GNOSE
A Maçonaria é a herdeira e a verdadeira detentora da Gnose. Vimos, no Ritual do Rosa-Cruz (18º grau), que ela pratica o Amor à Humanidade, que ensina a Roda Universal das Coisas e a Evolução do Grande Todo. É do seio das lojas que nasceram os grandes movimentos contemporâneos que se esforçam por divulgar, em uma sociedade descristianizada, as fórmulas e as práticas gnósticas.
1° A PSICANÁLISE
Freud participou regularmente das atividades da loja maçônica B'nai B'rith ("Filhos da Aliança") de Viena. Foi inicialmente atraído pela "Naturphilosophie", espécie de misticismo panteísta extraído particularmente dos escritos maçônicos de Goethe — também ele membro dessa mesma loja B'nai B'rith. Seguiu as ideias de Jacob Frank. Este último ensinava que "tudo doravante era santo", que existe de fato uma raiz do mal em Deus, mas que esse mal resultava apenas da dispersão das "Centelhas Sagradas" (as Almas) e que os homens deviam entregar-se ao mal para reuni-las. O pecado, diz ele, é Santo, é preciso lançar-se nele: é o Novo Messias. A ideia fundamental de Freud é que é preciso livrar-se de todas as leis religiosas, principalmente da Torá. Ele retira suas conclusões da Cabala, que é a forma essencialmente judaica da Gnose.
Diz-se no "Zohar" (Livro do Esplendor): "Com esta Árvore (a do conhecimento), Deus criou o Mundo; come, pois, deste fruto e serás semelhante a Deus, conhecendo o Bem e o Mal; pois é por este conhecimento que Ele é Deus. Come, pois, e serás criador de mundos. Deus sabe tudo isso e é por isso que vos proibiu de comer deste fruto; pois Ele é um Artesão ('um Demiurgo') e um Artesão detesta sempre os companheiros que exercem o mesmo ofício que ele".
Reconhecemos aqui as teses clássicas da Gnose, mas com um novo desenvolvimento. Com efeito, se o mal tem sua fonte em Deus, ele ali coexiste com o Bem, que é de essência divina. Portanto, em Deus (o Grande Todo-Pleroma), o Mal e o Bem são intercambiáveis. Se o Homem come do Fruto da Árvore da Gnose, ele conhece o Bem e o Mal; torna-se o seu Mestre; é ele quem definirá um e outro e dará a si mesmo a sua própria Lei. De repente, ei-lo Criador! E Adão e Eva não quiseram tirar as consequências de tal Presente!
Dissemos que a Psicanálise era a maior tentativa empreendida pelo mundo moderno para desculpabilizar o homem, para retirar-lhe a responsabilidade de seus atos, "libertá-lo" de seus escrúpulos de consciência e permitir-lhe entregar-se sem remorsos aos seus impulsos instintivos.
Deus, diz Freud, é a imagem que produz o sentimento de culpa. A doença do neurótico vem daí. É preciso encontrar uma Contra-Imagem: será Satanás, que permite que todos os impulsos da "Psiquê" se abram, tornem-se acessíveis à consciência e, portanto, sejam aceitos como libertadores. Satanás toma o lugar de Deus; ele venceu essa imagem sufocante do Pai; deu ao neurótico o alívio que este esperava; acalmou assim a sua angústia. Tal é o tema essencial de "A Interpretação dos Sonhos".
Jung acrescentará a essa empreitada de "Libertação" a noção de "Inconsciente Coletivo": o eu, diz ele, é inerente a um Si (Self) superior, que seria o centro de uma Personalidade psíquica total; ilimitada e indefinível "...". "Há apenas", diz ele, "uma Humanidade dotada de uma só Alma". Estamos em pleno Panteísmo. Essa grande Alma ilimitada e indefinível é o Pleroma de nossos gnósticos, que contém todas as Centelhas dispersas nos corpos dos homens e que será preciso reunir pela prática do "Santo Pecado", como dizia Jacob Frank.
A NOÇÃO DE INCONSCIENTE
A palavra e o conceito de inconsciente aparecem pela primeira vez em Fichte e Hegel. A psicanálise fez dele um uso delirante. A necessidade do inconsciente surgiu entre os filósofos idealistas ou subjetivistas para explicar o surgimento das ideias na alma.
Nos filósofos realistas — por exemplo, São Tomás de Aquino —, a percepção do objeto desperta em nossa alma uma faculdade intelectual que, ao se aplicar a esse objeto, extrai dele a ideia inteligível (São Tomás diz: "a forma"). Assim, a ideia é o resultado de uma abstração. O conhecimento é precedido pura e simplesmente pela ignorância (ignorar é não conhecer).
Nos filósofos idealistas, a ideia já está na alma antes da percepção do objeto. Quando o objeto aparece, ele é a ocasião, a circunstância que desperta na alma a ideia que ela continha anteriormente. Nossa alma estaria, portanto, antes de qualquer conhecimento devido a uma percepção, cheia das ideias das coisas que iria perceber ao longo da existência; mas essas ideias estariam em estado de sono, portanto, inconscientes. A percepção do objeto atua como um choque iluminador. A alma reconhece no objeto a ideia que já possuía sem conhecê-la bem. Chama-se a isso "Inatismo" (nossas ideias já estão em nossa alma no momento do nascimento).
Trata-se de um Inconsciente cheio de Ideias, de uma alma repleta de conhecimentos ainda desconhecidos.
Para os gnósticos, de fato, as almas humanas são centelhas divinas caídas do céu em corpos por uma queda catastrófica. Seu novo estado é contra a natureza e violenta sua aspiração fundamental: o retorno ao divino. Mas seu estado anterior era divino, logo, onisciente. Para onde foram os conhecimentos anteriores? É preciso encontrar-lhes um lugar em algum lugar: será o Inconsciente.
Jung acrescenta que as centelhas divinas são parcelas de uma Única Alma universal; as ideias humanas são, portanto, parcelas de uma Ideia universal; dispersas nas almas, elas pertencem a uma Coletividade, a Divindade original encarregada de "coletar" as almas para reconstituir o Grande Todo. Daí a ideia de Inconsciente Coletivo, que supõe a preexistência das almas antes da concepção e que permitirá conceber a noção de reencarnação ensinada na Metempsicose.
Já os grandes gnósticos ensinavam esses dois últimos pontos. A Psicanálise apenas extraiu as consequências: nossas ideias não nos são pessoais, são comuns — não porque o objeto conhecido seja o mesmo para todos que o percebem (o que é o bom senso natural), mas porque nossa alma possui apenas parcelas de uma mesma ideia coletiva inconsciente. É fundindo nossas ideias na corrente do Pensamento coletivo que poderemos nos preparar para o retorno ao Grande Todo original divino. Como se vê, de Jung a Marx, há apenas um passo a ser dado.
Precisemos ainda que as sessões de psicanálise são assimiladas a ritos de iniciação, desvendamento dos Mistérios do Inconsciente, vestidos com uma mitologia pitoresca: complexos de Édipo, de Electra, de Diana. Deus, a Mãe, o Menino divino são, na boca do psicanalista, Arquétipos, ou seja, símbolos religiosos e não seres reais.
Jung toma emprestado da Gnose e da Astrologia alguns termos importantes de seu ensinamento. Assim, a expressão da Perfeição ou da Totalidade é o Quadrado, a Tétrade ou "Tetractys" (a Tetractys é o nome composto pelas quatro letras que, em hebraico, significam Deus). A Trindade divina é, na realidade, uma "quaternidade inacabada". É preciso acrescentar-lhe o Mal ou Satanás para atingir a Perfeição da Essência divina. Em Jung, também o Mal está em Deus; mas Deus e o Si (Self) são idênticos. O "Si" é sagrado: "Observamos que ambos, Deus e o Si, são expressos por Símbolos idênticos".
Jung acrescenta: "Não podemos comparar o interesse despertado pela Psicanálise de Freud senão à eflorescência do Pensamento gnóstico. As correntes espirituais atuais têm, de fato, uma afinidade profunda com o Gnosticismo... A Teosofia, com sua irmã continental, a antroposofia, são Puro Gnosticismo sob um disfarce hindu... O que é surpreendente nos sistemas gnósticos é que eles são baseados exclusivamente nas manifestações do Inconsciente e que seus ensinamentos morais não recuam diante dos lados sombrios da vida (entre parênteses, este inconsciente é a psiquê dos gnósticos, sede das paixões e das agitações do corpo). Não creio ir longe demais ao declarar que o homem moderno, ao contrário de seu irmão do século XIX, volta-se para a psiquê com grandes esperanças e sem se referir a qualquer crença tradicional, mas antes no sentido de uma experiência religiosa gnóstica". (Problema da Alma Moderna).
Não se poderia dizer melhor. A Gnose fez, por meio da Psicanálise, um retorno triunfal em um mundo descristianizado. Mas a Psicanálise apresenta uma novidade notável. Com efeito, a Gnose esbarrava em incoerências e contradições que tinha dificuldade em resolver. A Psicanálise brinca com essas dificuldades. Exemplo: o problema do Mal.
Os gnósticos não sabiam como conciliar o Bem e o Mal na Divindade. Pois bem! Não há diferença alguma entre o Bem e o Mal, dizem os psicanalistas. Melhor ainda, em Deus, o Mal é a Perfeição do Bem, o coroamento da Divindade. O próprio Satanás faz parte integrante de Deus. Ele é aquele ser divino que ensinou aos homens que eram senhores de si mesmos, capazes de discernir o Bem e o Mal.
Os gnósticos afirmavam que nossa alma, centelha divina, devia permanecer indiferente, impassível diante das agitações e impulsos da Psiquê. Os psicanalistas afirmam, ao contrário, que o homem deve dar livre curso a esses impulsos, deve até mergulhar neles na satisfação de seus prazeres, como em uma orgia sagrada, já que os movimentos da Psiquê são também símbolos da Perfeição divina. O que, outrora, era reservado a alguns iniciados durante uma cerimônia sagrada, será praticado correntemente hoje por todos. A prática da ascese nos Gnósticos Perfeitos, Puros, Cátaros, era outrora não um meio de atingir a divindade, mas o Sinal de que ela já havia sido atingida, de que o Homem havia realizado em si a Unidade perfeita. A prática da devassidão no gnóstico moderno será, portanto, o Sinal de que o Homem ultrapassou as categorias do Bem e do Mal, que chegou finalmente ao Domínio total de si mesmo, capaz de dar a si mesmo a lei de seu prazer sem ter de prestar contas a ninguém: a liberdade total sem a menor responsabilidade.
Como Subversão de toda a Ordem natural e divina, não se poderia encontrar nada melhor; e, no entanto, veremos que os Marxistas levarão ainda as teses gnósticas até as suas consequências extremas. Com eles, cairemos no último grau do Ódio satânico contra a Ordem do Criador.
2° O HINDUÍSMO OCIDENTALIZADO
Nos tempos modernos, a Gnose despojou-se de toda uma linguagem obscura e complicada com a qual disfarçava o seu ensinamento verdadeiro. Foi-lhe necessário renovar o seu vocabulário e as suas fórmulas para atingir um novo público. Foi, portanto, buscar nas Índias as novidades capazes de devolver um certo prestígio ao seu ensinamento. Lançou uma moda nova, inteiramente realçada pelo atrativo dos países exóticos.
Será preciso salientar que, se o formulário foi renovado, o conteúdo permanece inalterado? A Gnose continua sendo, por definição, a antítese da Fé cristã, mesmo quando se apresenta cheia de benevolência para com a Igreja e de aparente respeito pelo seu ensinamento. Respeito e benevolência de pura conveniência. Não se vai, de pronto, atacar as convicções daqueles que se espera atrair. Ao contrário, mostrar-se-lhes-á que o novo ensinamento não faz senão aperfeiçoar, coroar, explicitar a sua fé cristã. Esse será o objetivo da "Nova Direita": apresentar esse ensinamento como a perfeição da Doutrina cristã, retomando assim o procedimento dos gnósticos de outrora, que se apresentavam aos seus futuros discípulos com todas as aparências da ortodoxia, afirmando até terem compreendido melhor o ensinamento do Cristo do que os chefes da Igreja.
a) A Teosofia
Sabe-se, pela história de Mme. Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, que a sua formação é de origem inteiramente maçônica. Já em 1856, ela aderia aos carbonários da "Jovem Europa"; em 1857, adere a uma sociedade de Rosa-Cruzes na América e apenas em 1878 parte para as Índias, onde pretende descobrir uma reencarnação de Pitágoras (?). Funda revistas: "Ísis sem Véu" (L'Isis dévoilée) – "Lúcifer", e depois "O Lótus Azul". Em 1907, M. Oltramare publicava nos "Anais do Museu Guimet" um esclarecimento muito enérgico: "Sabe-se como os apóstolos do novo evangelho ocultista afetaram pedir à Índia a solução dos problemas da vida e da morte... Não é da Índia, mas da tradição antiga, do Judaísmo e do Renascimento que vêm, no que têm de essencial, as concepções teosóficas modernas. Em busca de autoridades que parecessem decisivas, o que os nossos teosofistas pediram à Índia foi a confirmação de teorias que eles já possuíam. É verdade que lhe tomaram emprestada também uma grande parte da sua nomenclatura". A Teosofia é inteiramente extraída da Gnose, da Cabala e do Neopitagorismo. Ela encontra-se exposta em "O Livro dos Espíritos" de Allan Kardec, publicado em 1857, onde se encontram enumeradas as doutrinas da emanação e do retorno final ao Todo original, tal como foram ensinadas outrora pelos Gnósticos, sem a menor referência ao Hinduísmo.
b) René GUÉNON
René GUÉNON é também um exemplo notável do gnóstico moderno que possui a arte de se apresentar como um cristão, colaborando em revistas católicas, oferecendo ao mundo moderno ateu uma crítica muito particular que enganou mais de um sobre as suas verdadeiras intenções. A sua conversão ao Islã acabou por abrir os olhos à maioria daqueles que foram atraídos por ele. Mas, na realidade, ele recebeu toda a sua formação nos meios maçônicos, e era preciso sabê-lo. Aderiu desde 1906 a Sociedades iniciáticas: Ordem Martinista, Rito de Memphis, Igreja Gnostica, Grande Loja da França, etc. Criou a revista "A Gnose" (La Gnose) e, depois, os "Estudos Tradicionais" (Les Études Traditionnelles). Primeiramente, despreza o Budismo, vendo nele apenas uma heresia protestante do Hinduísmo. Depois, retrata-se, interessa-se vivamente pelas Índias, estuda o Bramanismo.
Vejamos a sua doutrina. Ela é dita inteiramente extraída do "Vedanta" na sua forma tradicional e ortodoxa. O Mundo é a manifestação de um princípio supremo "não manifestado": Brahma. Este é o Universal, o Todo absoluto, o Infinito. Só se pode falar dele por negação. O mundo, a sua manifestação universal, não se distingue de Brahma. "Brahma modifica-se diversamente... Todas as coisas não existem senão como as suas modificações" (O Homem e o seu Devir). O movimento da existência é uma expansão do Princípio imutável. René Guénon, embora se defenda, não escapa, com tais fórmulas, à acusação de Panteísmo.
O Ser humano comporta um princípio universal, o Si (Soi), idêntico a Brahma; modalidades mediadoras entre o Si e as modalidades inferiores, "sutis ou psíquicas" e "grosseiras ou corpóreas". O Si está "sepultado como um grão de arroz" nas modalidades inferiores. A libertação consiste em passar por graus diversos de Retorno a Brahma: "descida aos Infernos" — isto é, desenvolvimento da individualidade corpórea —, depois acesso progressivo aos estados superiores do Ser: realização dos estados angélicos, até atingir a Identidade suprema, a unidade com Brahma... "A ressurreição dos corpos é a transposição para fora da forma e das outras condições da existência individual", portanto, o retorno ao grande Todo.
Visto que o Homem possui no centro de si mesmo o "Si" idêntico a Brahma, depende apenas dele reunir as suas forças concentrando-as no Si. É preciso primeiro receber uma "influência espiritual", um sopro do Espírito, depois praticar exercícios progressivos de "concentração", passar pelo estado de sonho e, em seguida, por estados "supraindividuais". Chega um momento em que o ser, que "já não pode ser dito humano, está doravante fora da corrente das formas". É a libertação, a União com o Absoluto; o Yoga tornou-se Yogi, identificação suprema, definitiva, eterna. Mais feliz que Adão, tornou-se Homem Universal, Rei do Mundo.
É então que se pode falar do Ser que é para si mesmo a sua própria lei, porque é plenamente idêntico à sua razão suficiente, que é ao mesmo tempo a sua origem e o seu destino final (Estados Múltiplos do Ser). Ele percebe diretamente os estados superiores do seu ser, espécie de êxtase ou hipnose; depois atinge "a restauração do estado primordial", prerrogativa que era natural nas primeiras eras da Humanidade e que foi perdida por Adão e Eva. É necessário agora um "alto grau de iniciação" para tornar-se o êmulo do primeiro Adão e triunfar onde ele falhou.
A Igreja Católica possui em si mesma uma força latente, oculta, da qual deve tomar consciência para estar em posse do "Catolicismo integral". Basta "restituir à doutrina desta, sem nada mudar na forma religiosa sob a qual se apresenta exteriormente, o sentido profundo que ela tem em si mesma, mas do qual os seus representantes atuais parecem já não ter consciência, tal como da sua unidade essencial com as outras formas tradicionais...". A Tradição subsiste na Igreja "em modo de expressão simbólica". O Cristo é o "Homem universal", o maior dos Iniciados, o Símbolo da Identificação suprema do Homem com Deus".
Retranscrevamos tudo isto em grego: Brahma é o Pleroma; o Si é o "Pneuma"; depois vêm as modalidades mediadoras: a "Psyche", modalidade sutil, e o "Soma", modalidade grosseira. O grão de arroz que sepulta o Si é a matéria que mantém prisioneira a centelha divina. A subida para os estados superiores é a passagem através dos Éons dos Gnósticos. Reencontra-se em Guénon o Panteísmo e o Emanatismo próprios de toda gnose. Nada há ali de muito original. Estamos em um mundo já bem conhecido.
Para se deixarem atrair por tais elucubrações, é preciso que os cristãos de hoje tenham verdadeiramente perdido, junto com todo o bom senso, o essencial da doutrina cristã. Já não encontram no ensinamento da Igreja os pontos de apoio necessários para resistir a essa invasão gnóstica disfarçada de Hinduísmo. Daí o sucesso atual da prática do Yoga, das sessões de expressão corporal, do "Retorno às Fontes" de um Lanza del Vasto, etc.
2° DA GNOSE ao MARXISMO ou "dos PROGRESSOS do ESPÍRITO HUMANO NA HERESIA"
Se, no dizer de Tertuliano, Adão e Eva foram apenas noviços em matéria de heresia, deve-se confessar que os Gnósticos haviam aperfeiçoado o seu sistema. A inspiração satânica tem isto de notável: esforça--se por introduzir uma lógica rigorosa na inversão do Real, o que é uma proeza. A partir de um Princípio falso — a confusão entre Deus e o Mundo —, era necessária uma inteligência sutil para imaginar uma construção na qual todas as partes estivessem bem ajustadas, apresentando um Edifício acabado, atraindo os olhares e as inteligências. Conhecemos o poder de Satanás na Arte da Mentira. É necessário que a mentira tenha as aparências da Verdade para obter o assentimento dos homens. Ela não pode extrair essa aparência do seu ponto de partida, já que este é falso, por definição; extraí-la-á, portanto, da coesão interna das proposições pelas quais o Mentiroso expõe o seu ensinamento.
Ora, os primeiros Gnósticos viram-se enredados nas suas distinções entre o Bem e o Mal, sem poderem resolver essa antinomia. Vimos os psicanalistas varrerem com um traço de pena tal distinção: não há nem Bem nem Mal. Para um Ser divino, tudo é bom. Resta uma dificuldade suprema: entre o Grande Todo imutável e eterno e as suas manifestações múltiplas e mutáveis, tais como aparecem ao olhar de qualquer um, há ainda uma antinomia: como conciliar, no interior da Única Divindade total, a Imutabilidade e a mudança, a Eternidade e o Tempo, a Unidade e a multiplicidade dos Seres?
Com efeito, o Panteísmo obriga aqueles que o professam a introduzir e a fazer coabitar em Deus a Eternidade e o Tempo, o Imóvel e a Evolução, em suma, o Ser e o Nada. Singular dificuldade! Ela não escapou aos Gnósticos.
a) Os escritos herméticos
Eis como M. Vacherot, na sua "História Crítica da Escola de Alexandria", resume o ensinamento de Hermes Trismegisto sobre a divindade: "Deus é o Bem, como o Bem é Deus. Ele é o Não-Ser enquanto é superior ao Ser. Deus produz tudo o que é e contém tudo o que ainda não é... Deus é a vida universal, o todo do qual os seres individuais são apenas as partes... Deus é Tudo, Tudo está cheio de Deus; não há nada no Universo que não seja Deus. Todos os nomes Lhe convêm como ao Pai do Universo, mas porque Ele é o Pai de Todas as Coisas, nenhum nome é o Seu próprio nome. O um é o todo, o todo é o um..." "Deus, o Pai, o Bem, o que é? senão a existência daquilo que ainda não é?"
Eis ainda outras fórmulas de Hermes Trismegisto: "Eu sou o Ser e o Nada... Eu sou o Gerador de todas as coisas; de mim o Universo se desenvolve. Eu sou o Começo, o Meio e o Fim". "O Eterno não foi gerado por outro; Ele cria-Se a Si mesmo eternamente. Se o Criador não é outro senão aquele que cria, Ele cria-Se necessariamente a Si mesmo, pois é ao criar que Se torna criador. Ele é o que é e o que não é" (subentendido: o que ainda não é, mas que será mais tarde).
Pode-se resumir tudo isso em algumas proposições simples:
- O Emanatismo: tudo emana de Deus, já que Ele gera a partir de Si mesmo e não cria. O Universo é o seu próprio desenvolvimento, uma extensão do seu ser.
- A autocriação: por esta geração, Deus não coloca seres fora de Si, nem mesmo sob a Sua dependência; Ele cria-Se a Si mesmo pela expansão da Sua própria substância. Não é, portanto, criador de um Mundo distinto de Si. Será preciso prestar atenção a este novo sentido da palavra "Criação" nos textos que se seguirão, particularmente em Hegel.
- A Evolução: Deus, gerando perpetuamente um Universo em constante expansão, é Ele próprio a Evolução. Digamos ainda melhor: a Evolução é Deus desenvolvendo-Se, produzindo a multiplicidade dos Seres por uma geração interna. Ele é, portanto, em cada instante do Seu desenvolvimento, o Ser daquilo que já é e o nada daquilo que ainda não existe e que existirá ulteriormente.
Há, portanto, n’Ele um movimento perpétuo do Nada ao Ser, uma gestação dolorosa e difícil para fazer passar ao Ser o Nada que resiste. Eis a fonte da Dialética hegeliana.
b) Hegel em sua "Filosofia da História"
"Na origem", diz ele, "Deus não passava de uma solidão sem vida", portanto, um ser não-ser, um Nada Universal, uma Consciência universal inconsciente (vê-se aonde levam tais pressupostos). Esta é a asserção fundamental do Panteísmo: a posição da tese. Mas a necessidade de se manifestar para se contemplar como num espelho, ou ainda para se tornar Consciência, levará esse "Todo divino abstrato" a desdobrar-se e a projetar diante de si uma fração de si mesmo: a Natureza concreta. Eis a antítese.
Não se trata de uma criação, embora Hegel utilize o termo; trata-se de uma geração, de um processo de desdobramento. Do "Nada superextencial" é gerado um mundo concreto, a Natureza. É uma autocriação interna. Com efeito, Hegel acrescenta: "A Essência divina é a mesma coisa que a Natureza em toda a sua amplitude". A Essência divina, a princípio "sombra incriada", não-ser, puro abstrato, eleva-se ao estado de existência exterior.
Não há queda, embora Hegel utilize a expressão "pecado original cósmico" (veremos, de fato, que ele aprecia fórmulas emprestadas da linguagem cristã, mas para subverter-lhes o sentido); há, na realidade, um desenvolvimento do Ser divino por desdobramento, como um ser vivo se desenvolve pelo desdobramento de suas células. Esse processo de exteriorização de Deus permite à Consciência inconsciente tornar-se manifesta, "finita", delimitada, cognoscível e, portanto, "consciente". Mas, ao fazê-lo, ela se manifesta como dividida. Eis uma dualidade introduzida em Deus.
O Homem não é divino como o restante da Natureza; ele o é de maneira supereminente, pois somente ele possui o privilégio de ser consciente de sua existência. Ele é a fração da Consciência universal que chegou a esse saber. Somente o Homem é espírito; ele é a Consciência divina concretizada. Ele é gerado de Deus, portanto, Filho de Deus. Ele é o Verbo de Deus, pois é ele quem dá consciência e palavra ao Espírito divino universal inconsciente. (Vê-se, aqui, a utilização blasfema dos atributos de Cristo). Ele é, no processo da própria Gênese de Deus, o momento crucial, o advento de um estado superior da Divindade. Mas esse Advento do Homem é um parto doloroso e trágico, uma provação divina. Com efeito, a lei universal da Evolução provoca assim, em Deus, reviravoltas, metamorfoses qualitativas internas.
O Homem é um Espírito-Consciência, mas sendo uma fração da Divindade, ele se conhece, porém como submetido à Consciência universal primitiva (e Inconsciente). É um Espírito limitado, "finito". Ele quer igualar-se à Consciência universal. Não aceita ser apenas uma fração dela. É o gesto de revolta de Adão, o início de um movimento para uma "legítima recuperação" da Divindade total. "Adão inaugurou os trabalhos gigantescos de sua ascensão ao Espírito". Ele falha e perde o Paraíso, que lhe é retirado pela jalousie [ciúme/inveja] do Deus inconsciente primitivo: "Eis que Adão se tornou como um de nós, conhecendo o Bem e o Mal", diz este último, confirmando assim as palavras da Serpente: "Se comerdes deste fruto, sereis como deuses" (Eritis sicut dei).
Ora, em Deus, Satanás é o Motor da Evolução, a força interna do Devir, a potência evolutiva da Consciência. É ele quem gera o Deus final perfeito, quem faz a História. Ao inspirar a revolta do Homem, ele prepara o advento da Divindade perfeita, ele completa o Mundo. Sua promessa feita a Adão está em devir.
A Encarnação de Cristo marcará uma nova fase dessa recuperação divina, dessa subida progressiva rumo à perfeição em devir. Com efeito, privados de sua parte celeste, a Natureza e o Homem tornaram-se fragmentos insatisfeitos de Deus. O Cristo, ou essa parte celeste da Divindade tornando-se progressivamente consciente, atinge assim uma perfeição supereminente, a de uma Consciência que se conhece. Por meio disso, Deus reconhece essa igualdade que havia recusado a Adão. A Encarnação é a Elevação da divindade primitiva cega à realidade concreta e consciente da Pessoa humana. É igualmente uma queda: é a "Morte de Deus em Jesus Cristo". "Ao tornar-se Homem", diz Hegel, "Deus morreu enquanto Deus", isto é, o Cristo matou em si a divindade primitiva inconsciente e fez-se Homem consciente, Homem incomparável. É um grande passo em direção à Unidade divina; mas para que a "renovação do divino e do humano em Deus" seja completa, é preciso ainda que o Cristo morra enquanto Homem. Então, não subsistirá mais nenhum privilégio, nem na terra, nem no céu; a Fusão será total, a Unidade alcançada. O homem sozinho será Deus: ele é o Espírito finito que se metamorfoseia em Espírito infinito. Mas, para isso, o homem deve "matar" o Cristo, Deus feito homem.
A humanidade futura será a Igreja, a "Consciência coletiva" que terá reencontrado sua Unidade interna. Então o Homem terá a "Intuição de si do divino". A Gênese de Deus estará terminada. O Deus primitivo e zeloso ter-se-á apagado diante do homem. "Somente o homem é divino". A síntese estará concluída. Eis o verdadeiro sentido da História.
Resta apenas comparar Hegel aos primeiros gnósticos. Que progresso!
O aparecimento do Mundo material não é mais considerado uma catástrofe, mas um desenvolvimento biológico, segundo a Evolução de um Ser em Devir — desenvolvimento doloroso, decerto, como todo parto, mas segundo um processo regular, o de um ser em expansão, e não como uma ruptura (a expressão Pecado Original cósmico, retomada da fórmula cristã, destina-se a marcar que, para o Homem ainda não chegado à Perfeição divina, essa Evolução resulta numa fratura de sua consciência em uma multidão de individualidades, do mesmo modo que as células de um ser vivo se cindem em duas para assegurar o desenvolvimento de todo o organismo). Assim, a Matéria não pode mais ser dita má. Ela é apenas um momento (no sentido de fase) imperfeito em uma Evolução.
A alma humana não é mais uma parcela divina caída, decaída, encerrada na matéria pela vontade de um Ser malfaisante; ela é, pelo contrário, a eflorescência da Natureza divina que passa de um estado inconsciente ao estado consciente que é o Pensamento humano. O Espírito sai da Matéria por uma emanação natural. Ele é a Matéria tornada pensante, consciente de si mesma: é um processo de Conscientização.
A revolta de Adão contra uma Divindade zelosa, a Encarnação de Cristo rejeitando sua Divindade primitiva para elevar-se à Consciência humana — estas são as etapas (Hegel diz os "momentos") sucessivas e capitais do divino rumo ao seu Coroamento. Com efeito, como todo ser vivo que cresce rejeita os resíduos inúteis, as velhas vestes pequenas demais para adquirir novas dimensões e acréscimo de ser (é a própria lei de toda Evolução biológica), assim uma perfeição nova no processo de divinização torna caducas as formas anteriores: o que pode fazer um Deus inconsciente, mas começando a conhecer, diante da Ciência de Adão? Senão retardar o momento em que essa ciência o dominará. O que pode fazer um Cristo tornado Homem, senão despojar-se de uma Divindade tornada ilusória em presença da Perfeição do Espírito humano? etc.
Enfim, as distinções entre Bem e Mal não têm mais sentido algum. A Evolução do Todo no Panteísmo só deixa lugar para duas noções: as forças que propulsionam o movimento (e sabemos que Satanás é o seu Mestre) e as forças que freiam o processo de autodivinização — e já sabemos que estas serão esmagadas pela velocidade adquirida pelo próprio movimento.
Da mesma forma, não há mais necessidade de Iniciação, de Segredo reservado aos que vão realizar sua Unidade perfeita e atingir esse Pleroma, e recusado aos outros, condenados a permanecer encerrados, cegos, em seu corpo material. Pelo contrário, todos os homens são arrastados no Movimento, queiram ou não: os que se atrasam são esmagados, e os eventos da História nada mais são que os solavancos provocados pelas variações de velocidade entre os seres múltiplos que se deixam empurrar com maior ou menor facilidade rumo à Unidade do Grande Todo.
O que permanece imutável, eterno nesta Evolução, é a Lei do Movimento, lei absoluta da qual nenhum ser escapa. As resistências de alguns não passam de sobressaltos sem consequências. Um empurrão mais forte dado pelo Mestre da Evolução recoloca cada um em posição na "Roda universal das coisas".
c) Algumas consequências na Doutrina marxista-leninista
O Marxismo é um esforço gigantesco para passar à prática o tema da morte de Deus e da Divindade do Mundo:
"Tomar consciência da inexistência de Deus e não tomar consciência ao mesmo tempo da própria divindade é um absurdo", faz Dostoievski dizer a um de seus heróis. Em outras palavras, não há outra alternativa ao Teísmo senão o Panteísmo, permanecendo o Ateísmo uma noção puramente negativa. O homem deve apropriar-se da potência criadora outrora atribuída a Deus. A promessa de Satanás: "Sereis como deuses" deve ser realizada pelo Homem: será a Deificação do Homem pelo Homem, com o Homem e no Homem". Veja a Inversão blasfema da fórmula litúrgica do "Per ipsum"!
Os atributos de Deus passarão doravante ao Mundo e ao Homem.
O Culto do Trabalho: Karl Marx escreve: "Toda a História universal não é outra coisa senão a procriação do Homem pelo Trabalho humano. O Homem possui assim a prova visível e irrecusável de seu nascimento por si mesmo, do processo de sua criação". O Homem é o produto do trabalho humano. O Trabalho é potência criadora e libertadora.
Vimos os Gnósticos afirmarem a autocriação de Deus por si mesmo. Ao criar, Deus cria-se a si mesmo, visto que os seres que gera não são ainda senão um desenvolvimento no interior de sua divindade. O Homem é Deus, diz Hegel, e o é supereminentemente, pois é o Deus-Consciência. Ele procria-se a si mesmo por sua ação. O Trabalho que transforma a natureza transforma-o e conduz-no ao coroamento de sua "Autodivinização". O Trabalho é, portanto, obrigatório: "Quem não trabalha, não come", pois "sem o trabalho que transforma o mundo objetivo, o homem não pode transformar-se a si mesmo", disse Marx. Vê-se bem que não é possível apenas resistir ao Movimento da História, mas tampouco cruzar os braços para assisti-lo como espectador indiferente: a Roda universal esmaga também os que param à beira do caminho".
Satanás é o Grande Tentador. Sua mentira tem verdadeiramente as aparências de uma Verdade total. É por isso que atrai tantas almas em suas armadilhas. É muito difícil resistir-lhe se não se estiver armado por um sólido conhecimento da verdadeira Fé. É na medida em que os espíritos são privados do ensinamento da Igreja que eles se precipitam nas seitas "gnósticas" modernas ou no marxismo, que lhes propõem um Conhecimento perfeito e uma eficácia temporal que conduz a um "Sucesso" assegurado neste Mundo divino. Como resistir a tal atrativo?
E.C.