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VISÃO GERAL SUCINTA DA DOUTRINA DO HILEMORFISMO

As pessoas que abordam pela primeira vez a leitura deste Boletim talvez fiquem surpresas ao encontrar um artigo de filosofia fundamental como este, concedendo tanto espaço à metafísica quando se esperaria História.

Os antigos assinantes já conhecem as razões disso: sabem que, na raiz da crise atual, reside um vício do pensamento moderno que é vital desmascarar: o racionalismo em suas duas facetas irmãs-inimigas, o materialismo e o idealismo.

Para compreender bem o erro, em seus diversos aspectos e em seu percurso ao longo dos séculos, é necessário recordar primeiro os elementos da verdade. É uma questão de bom método e, além disso, tornou-se indispensável em nossos dias, nos quais o erro tem tanta influência que até mesmo certos espíritos, opostos à Revolução em geral, lhe são, no entanto, submissos neste ponto — o que explica, aliás, por que argumentações contrarrevolucionárias são, de total boa-fé, construídas sobre a areia.

A ambição destas páginas é, portanto, constituir o ponto de partida da história da queda do pensamento moderno: que nossos leitores se imbuam delas com essa intenção; seu esforço será recompensado.

A MATÉRIA e a FORMA, a POTÊNCIA e o ATO

Será tão difícil compreender — sobretudo para o cristão, já familiarizado com a ideia de criação ex nihilo — que, assim como no mundo dos anjos (os espíritos puros, 'separados' da matéria), o que recebe a existência é o espírito, da mesma forma, no mundo material, é a matéria que recebe o ser? E que aquilo que faz a matéria existir em ato — o que a 'atua' e lhe confere a existência — é justamente a forma que ela reveste para poder ser e existir?

Esta forma de existência que a matéria recebe e reveste para ser, existir, conferindo assim o ser a um ser material, não é outra coisa senão o que Aristóteles e São Tomás de Aquino chamam de "forma" (1).

E a "forma", quando se trata da atuação de um vivente material, em suma, de uma matéria atuada viva, chama-se alma.

Assim, para os viventes materiais, há três gêneros de "formas" ou "almas", o que decorre de uma constatação:

  • a forma ou alma vegetativa, que dá o ser e a vida a essa existência material que é a planta;
  • a forma ou alma animal, que dá o ser e a vida vegetativa e animal a essa existência material que é o animal;
  • a forma ou alma intelectual, que dá o ser e a vida vegetativa, animal e intelectual a essa existência material, a esse "animal racional", como o chama Aristóteles, que é o homem.

Disso resulta que, diante da constatação desta hierarquia de formas ou almas nos seres materiais, é filosoficamente necessário conceber uma continuação da "escala dos seres" no mundo dos "espíritos separados" (da matéria), no mundo dos anjos. Um buraco, um vácuo entre os degraus constitutivos da hierarquia das formas ou almas naturais — em suma, dos seres naturais, materiais — e o Espírito puro que é Deus, não é admissível. Platão e Aristóteles já tinham consciência disso. São Tomás explicitará essa intuição necessária, confirmada pelo dogma católico.

Assim, negar a existência dos "espíritos separados", dos anjos, é absurdo não apenas para um católico (para quem essa existência e a hierarquia que ela implica são exigidas pela fé), mas também para todo pensador, todo filósofo. O que prova — e aqui me dirijo ao meu velho amigo — o quanto a razão individual e a fé sobrenatural, longe de se oporem como ele gostaria de crer por "desconfiança em relação à razão" (que ele confunde, como todos os "intuicionistas", com o racionalismo), são feitas, ao contrário, para se conjugarem e se explicitarem mutuamente.

Escrevemos: no mundo da matéria, uma vez que os seres nele são materiais, o que recebe a atuação, o que recebe o ser, o existir, a existência, é a matéria; e o que faz existir em ato a matéria, o que lhe dá o ser, o existir, a existência, é a forma de existência que a matéria recebe e reveste para ser, existir.

Se fomos bem compreendidos, isso significa que a matéria não tem existência por si mesma: o que lhe dá existência é a forma de existência que ela recebe e reveste.

"A forma (de existência) é o que dá o ser à matéria... A forma faz existir em ato a matéria... A forma é a existência em ato da matéria".

Estas fórmulas aristotélicas e tomistas permitem compreender quão vão é separar — distinguir não é separar — a forma de existência da matéria dessa matéria existente, já que a forma de existência lha proporciona, já que a forma de existência é a sua existência em ato, a sua atuação. Como, de fato, separar a forma de existência de uma coisa da existência dessa mesma coisa?

Isso quer dizer que a matéria e a forma, consideradas em si mesmas, não são duas coisas, duas substâncias, dois seres. Por um lado, a matéria só tem existência por e sob uma forma (de existência) que lha confere e, por outro lado, a forma só tem existência por si mesma pelo fato de ser a existência em ato da matéria.

Apenas o misto, o composto matéria-forma, possui o ser, o existir, a existência; e o misto, o composto matéria-forma, é a substância, o indivíduo particular, em suma, o ser material em ato. Dito de outro modo: há apenas uma única existência para a matéria e para a forma. Essa existência comum da matéria e da forma é a própria existência do ser material, que nada mais é do que um composto matéria-forma.

Neste composto, neste misto matéria-forma que é a substância, o ser material, o indivíduo concreto, matéria e forma não são, portanto, duas coisas justapostas, dois seres absolutos realizados cada um para si, mas sim os constituintes de um mesmo existente material.

A unidade substancial não é uma simples unidade de relações. Se a substância, se o indivíduo concreto é verdadeiramente um, deve-se convir que ele tem em si a realidade única que faz sua unidade: do contrário, essa unidade seria apenas uma palavra. Um filósofo realista deve designar no interior da matéria em ato, do ser, do indivíduo concreto, essa razão ontológica, essa causa real, esse princípio atual de unidade.

Certamente, matéria e forma são duas: suas essências são irredutíveis. A matéria é o princípio de extensão quantitativa; a forma é o princípio qualitativo: ela qualifica uma existência material. A qualidade humana, que determina em existência este ser material que é o homem, não é a qualidade equina que determina em existência este ser material que é o cavalo, nem a qualidade cristalina calcária que determina em existência este ser material que é o mármore, etc.

Dizer que a matéria e a forma se unem não explica nada. É preciso indicar em quê e como: seu encontro, pura e simplesmente, criaria apenas uma unidade de relações, portanto um todo composto, muito distante dessa unidade irredutível que pertence ao ser, ao indivíduo concreto. Matéria e forma só fazem verdadeiramente um se um mesmo elemento, absolutamente singular, rigorosamente único, estiver presente nelas, penetrando igualmente a uma e a outra. E esse elemento é a comunidade de sua existência. A matéria e a forma constituem um só ser porque, desprovidas ambas de existência própria, comungam ambas em uma existência única que as realiza simultaneamente.

Ora, como dissemos, a alma não é outra coisa senão a forma (de existência) de um vivente material: ela faz existir em ato, ela é a existência em ato de uma matéria em aptidão, em potência de vida; em suma, ela atua um ser material, um indivíduo concreto do gênero vivente.

Portanto, assim como a matéria e a forma para qualquer corpo bruto, tal como o seixo ou o átomo, não são duas coisas, duas substâncias, dois seres; o corpo e a alma, para qualquer ser material do gênero vivente, não são duas coisas, duas substâncias, dois seres: são os princípios constitutivos de todo ser material do gênero vivente, trate-se inclusive do homem. Não é o homem, como todo ser deste mundo, matéria atuada?

Parentese: Em sua essência, como a forma é ideia — ideia de existência, ideia de estatuto de existência — a matéria é um poder definido, ainda uma ideia, em comparação ao materialismo grosseiro que se imagina e ao qual Descartes não soube resistir, visto que para ele a essência da matéria é a extensão. (2)

Embora se trate aqui da "forma acidental" — aquela que não dá o ser absolutamente (simpliciter) a uma matéria, e portanto a um ser material, mas que se acrescenta (accidit) a uma matéria em ato, em suma, a um composto matéria-forma, a uma substância, a um indivíduo concreto, e que, portanto, dá o ser, o existir, a existência a um "acidente", a uma "maneira de ser" de um ser já atuado por uma "forma substancial" — tomaremos emprestado, para melhor compreendê-la, o modo de fazer próprio do homem, do qual estes conceitos de matéria e de forma são, aliás, abstraídos.

Quando o arquiteto planeja fazer uma casa, ele tem em si a ideia de casa (= forma) e a ideia de materiais (= matéria) que têm o poder definido de se revestirem do estatuto de existência, da forma de existência "casa", imaginada por ele. É tão verdade que é da escolha dos materiais que dependerá, em larga medida, sua ideia de casa.

No espírito do arquiteto, estas duas ideias são distintas não apenas porque são duas, mas também porque cada uma é extraída, abstraída de realidades concretas distintas e até separadas: a ideia de casa é abstraída dos abrigos que a Natureza nos oferece (cavernas, grutas, etc.); a ideia de casa não é em si senão a ideia de um abrigo; e a ideia de matéria é abstraída de materiais já em ato, eles também, tendo o poder definido de se revestirem da forma casa ou, se preferirmos, suscetíveis de reificar, de "coisificar" a ideia de casa.

Todos compreendem que é a combinação, a montagem, a união dessas duas ideias que permite dar o ser, o existir, a existência à casa imaginada pelo arquiteto. Assim, pois, a casa-construída é, no espírito do arquiteto, uma terceira ideia que procede da união, da montagem das duas primeiras.

Notemos bem! Até aqui tudo está no estado ideal, no estado de ideias, enquanto a casa não for produzida, construída, em suma, enquanto a ideia de casa-construída não for reificada, "coisificada" por e em uma matéria.

Ora, isto nos permitirá abordar as noções de causas, distingui-las e inventariá-las, como o fez Aristóteles.

Até aqui, encontramo-nos diante de três causas:

— Uma causa formal: a forma, a ideia da casa.

"A forma é causa da matéria", escreve São Tomás em De principiis naturae. A fórmula é própria da "forma substancial", visto que ela dá o ser à matéria.

Contudo, falando da "forma acidental", tal como a forma-casa que atua uma maneira de ser em uma matéria já em ato, podemos compreendê-lo: retirai dos materiais — da matéria já em ato — a forma-casa, e não haverá casa; não haverá mais materiais encarnando a ideia-casa. Da argila, retirai a forma-vaso, e não haverá mais vaso; não haverá mais argila "informada" na maneira de ser vaso.

Se, em vez da "forma acidental" (que apenas atua um "acidente", uma "maneira de ser" da qual a matéria em ato está em potência, isto é, suscetível de se revestir), estivermos diante da "forma substancial", a fórmula "a forma é causa da matéria" assume seu sentido absoluto, pois a forma substancial é aquilo mesmo que dá o ser à matéria. "A forma é causa da matéria no sentido de que", escreve São Tomás, "a matéria não tem existência fora da forma".

Conclusão: Do misto, do composto matéria-forma, retirai a forma e não haverá mais matéria em ato; o que equivale a dizer que não haverá mais matéria, pois a matéria só possui o ser, o existir, a existência, enquanto é atuada por e sob uma forma de existência que lhe confere o ser, o existir, a existência.

— Uma causa material: a matéria, no caso os materiais já em ato suscetíveis — em potência — de receber o estatuto de existência "casa", a "forma acidental" casa.

"A matéria é causa da forma", no sentido de que ela é aquilo de que uma coisa, um ser material, é feito. Assim, da casa-construída, retirai a matéria de que é feita e não haverá mais casa, não haverá mais forma-casa atuando os materiais. De um vaso, retirai a argila e não haverá mais vaso, não haverá mais forma-vaso atuando a argila.

Se, em vez de uma matéria já em ato submetida a uma forma acidental, tratar-se da matéria atuada pela forma substancial, compreende-se que, se retirarmos a matéria, não haverá mais forma substancial, pois a forma substancial não tem existência fora da matéria da qual ela é o ato.

Conclusão: Do misto, do composto matéria-forma, retirai a matéria e não haverá mais composto, não haverá mais forma atuando a matéria, pois a forma só tem existência enquanto atua a matéria, enquanto é a existência em ato da matéria.

— Uma causa final: a ideia da coisa, do ser material em ato; no caso, a ideia da casa-construída.

Notemos: até aqui, tudo permanece no estado ideal. É necessária, portanto, uma quarta causa para concretizar a ideia de casa-construída, em suma, para a produção da casa. É necessária:

— Uma causa eficiente: causa agente, causa obreira; no caso, a ação do pedreiro.

Observemos que, pelo que acabamos de inventariar, concebe-se imediatamente que a causa eficiente tem por fim a ideia da casa-construída.

"A causa final é causa da causa eficiente"... Efetivamente, a causa eficiente não é causa da causa final. É o inverso que é verdadeiro: a causa final é causa da causa eficiente, pois a causa eficiente só opera para atingir um alvo, um fim. A causa final desencadeia e determina a causa eficiente: ela a atua.

Sem causa final, a causa eficiente não está em operação, em ação. Retirai a causa final e não haverá mais operação, ação, movimento, mudança ou devir.

O fim — a casa construída — é causa da causalidade eficiente ou, se preferirmos, o fim é causa da eficiência da causa eficiente. O pedreiro existe, ele está em ato, mas sua eficiência só existe, só está em ato, quando o pedreiro é movido pelo fim: a casa construída.

Conclusão I: "O fim é a causa das causas, porque é causa da causalidade em todas as causas. O fim, com efeito, não é apenas causa da causalidade eficiente, porque é a razão pela qual age a causa eficiente, mas ele faz também com que a matéria seja matéria e que a forma seja forma, pois é em vista do fim que a matéria recebe uma forma e que a forma 'informa' uma matéria". (São Tomás: De Princ. nat.)

Conclusão II: A matéria e a forma são princípios correlatos, relativos um ao outro: a matéria sem a forma não tem existência própria, e a forma sem a matéria não tem existência própria. Matéria e forma são os princípios constitutivos do ser material, isto é, do composto matéria-forma. Matéria e forma são, portanto, os princípios intrínsecos do ser material.

Causa final e causa eficiente são as causas extrínsecas — externas, exteriores — ao ser material, ao composto matéria-forma. Para prosseguir com nosso exemplo: a causa eficiente é o pedreiro, ela não é a casa construída; a causa final é a ideia da casa-construída, o fim é a casa construída; a causa final está no espírito do arquiteto e no espírito do pedreiro: ela não é a casa construída, a casa em ato. (3)

Após este rápido inventário das quatro causas estabelecidas por Aristóteles, retornemos ao texto. Escrevemos: quando o arquiteto planeja fazer uma casa, ele tem em si a ideia de casa (= forma) e a ideia dos materiais (= matéria) tendo o poder definido — portanto, estando em capacidade, em aptidão, em potência — de receber e revestir a forma casa imaginada por ele; em suma, de encarnar, reificar, "coisificar" sua ideia de casa. É da montagem dessas duas ideias que procede, nele, uma terceira ideia, a saber, a ideia elaborada de casa-construída.

Quando Deus cria, Ele não tem em Si duas ideias, das quais uma seria a da matéria e a outra a da forma a ser dada a essa matéria, de sorte que a ideia da criatura material que Ele desejasse colocar na existência fosse o produto de sua montagem.

Não façamos antropomorfismo. Não atribuamos a Deus nosso modo de pensar e de fazer. Deus não retira, não extrai, não abstrai Suas ideias de realidades que lhes sejam preexistentes. E, além disso, Deus não "faz": Deus objetiva Seu pensamento quando o quer, e isso nada mais é do que dar a este o ser, o existir, a existência fora d'Ele. Não é um "fazer": é um ato conceitual.

Não concebê-lo desta forma equivaleria a transformar Deus naquilo que Ele não é, a saber, não o Ato Puro que Ele é (4), mas um ser, um sujeito em potência, portanto, em devir em relação àquilo que não é. No que nos ocupa, seria transformar o pensamento de Deus (que é o que Ele é) em um pensamento em potência, um pensamento retirado, extraído, abstraído de realidades que Lhe preexistiriam — em suma, que seriam a sua causa. Mas, nesse caso, seria essa realidade, essa causa, que seria Deus. Com efeito, como diz Aristóteles, não se pode retroceder ao infinito na série das causas, até porque o infinito não tem mais possibilidade para o ser do que para o pensamento. E isso significa que é preciso estabelecer um ponto de parada, a saber, uma causa que não seja causada, e é a isso que todos chamam Deus. A Deus só preexiste Deus!

Deus não é um oleiro, um arquiteto, um demiurgo. Deus é criador ex nihilo (do nada).

E isso quer dizer:

— Por um lado, que Deus não é a matéria daquilo que cria,

como imaginam os panteístas, por falta de distinção entre o espírito e a matéria e por sujeição, consciente ou não, à geração animal. Se fosse esse o caso, não haveria criação: haveria geração, emanação.

O panteísmo, em sua essência, é um monismo da matéria. Tudo é matéria. O espírito, a alma, Deus, são matéria mais sutil que os corpos, mas nem por isso menos matéria que eles. Deus, a alma, o espírito são da mesma natureza, da mesma "matéria" que o mundo. Deus e o mundo são uma só e mesma coisa. Deus é o mundo e o mundo é Deus. Eles têm apenas uma existência comum: seu ser é comum.

Visto que há apenas uma única coisa, uma única existência, um único ser comum a Deus e ao mundo, transforma-se essa existência, esse ser, na própria substância do todo do real, do todo do todo dos seres.

Não há mais OS seres, não há OS entes: há apenas o Ser, o Ser do todo dos entes, o Ser do todo do todo do mundo, do qual se faz o Um-Ser, o Um-Deus.

"A multiplicidade é apenas uma aparência: somente o Um é. E essa Unidade é o Deus", diz Xenófanes (570-478), de quem Parmênides será discípulo. "Ele é o Um sem Segundo... Ele é sem causa e sem efeitos, sem nada que não seja ele mesmo... Ele é a Onipresença, pois penetra com seu Nome a totalidade de sua unidade... Ele é Brahma", dizem os textos vedânticos. "Ele é o Ser, necessariamente um... sem começo e sem fim, sem nascimento e sem morte, imóvel: sem limites... perfeição suprema que, tal como uma esfera inteiramente redonda, do centro à circunferência, é em toda parte igual e semelhante... Ele é aquilo a que nada falta: caso contrário, faltar-lhe-ia tudo", escreve Parmênides.

Deus, para eles, é isso: o Um do todo do todo do mundo, o Um-Ser do todo do todo deste mundo, apreendido na unidade de seu todo, na unidade desse todo do mundo que, por si, gera perpetuamente o mesmo no mesmo, por necessidade, como a fêmea prenhe dá à luz por necessidade. A Necessidade, o Destino, o Fatum, é a lei tutelar, violenta e inflexível, interna ao todo do mundo, ao Um-Ser do todo do mundo, o qual é o Deus.

Tal é o Deus do panteísmo: um Deus-Imanente ao mundo, um Deus-Tudo, um Deus-Emanante, pois o mundo, a Natureza, está em perpétua gestação, em perpétua parturição, e porque Deus e a Natureza, Deus e o mundo, são uma só e mesma coisa, uma só e mesma substância, uma só e mesma realidade; em suma, um só e mesmo ser.

Por conseguinte, obviamente, os seres que dele emanam, precisamente porque emanam, não possuem ser próprio: eles são o mesmo no mesmo. Eles não têm ser senão do Ser do sujeito de onde emanam, o qual é o Um-Ser do todo do todo do mundo, o qual é o Um-Deus.

Ofuscado pela apreensão do ser, não se percebe que o ser — do qual se faz uma realidade, e uma realidade única, do qual se faz o Deus — é apenas a realização, a objetivação de um universal, isto é, da ideia de ser abstraída do ser, do existir, da existência do todo do mundo. Deus não é um abstrato, uma ideia, um conceito.

Compreendamos o movimento de pensamento que estabelece este monismo do ser, fundamento do panteísmo, e que Aristóteles refuta de maneira exaustiva por sua doutrina do hilemorfismo (5). Pelo fato de o ser ser comum a todos os seres, faz-se dele uma realidade, e uma realidade única. Em suma, chega-se a dizer e a pensar que o ser é um e, a partir daí, a não ver na diversidade dos seres e dos fenômenos senão puras aparências, negando-se, portanto, a realidade da experiência.

Se existe apenas uma realidade, o ser, tudo o que não é o ser não é nada. Se, por exemplo, Pedro é o homem, Paulo e Tiago não podem sê-lo; ou, se o são, Pedro é Paulo e Tiago. Da mesma forma, se Pedro é o ser, não há outro ser além de Pedro; ou, se houver, eles são Pedro, pois Pedro é o ser.

Certamente, a ideia de ser é a mais universal que existe, pois é a primeira de todas as ideias. Nada, com efeito, pode ser conhecido e pensado pela inteligência — fosse até o nada — senão sob a dependência desta ideia inicial: não se pensa "nada", pensa-se o ser.

No entanto, o que se deve dizer com Aristóteles é que a ideia de ser, dada a sua suprema universalidade, não é em si senão um simples "parêntese" que, à maneira de um receptáculo confuso, encerra e reúne todas as outras ideias; e que o ser só possui sentido definido em suas espécies, a saber, as "categorias", como as chama Aristóteles, isto é, os modos de ser. É o que se exprime ao dizer que o ser é uma noção análoga, e não unívoca, como imaginam os panteístas. (6)

Certamente, entre os antigos, esse esforço de pensar o ser é comovente sob muitos aspectos; mas não o é mais em nossos dias. O que ontem era uma elevação do pensamento torna-se hoje um retrocesso.

Ontem, buscava-se escapar do caos mental gerado por um pensamento ligado ao fenomenal e que gerava o politeísmo. Buscava-se, para além da movimentação contínua dos seres e das coisas, de seu fluxo insaisissável e do pensamento a eles vinculado, um ponto fixo onde o real e o pensamento encontrariam seu repouso. (7)

Acreditou-se atingi-lo tomando este mundo fenomenal em sua totalidade, apreendendo-o em seu "ser-um"; e desse Ser — que unia o pensamento e o objeto do pensamento em sua realidade única, ao ponto de o sujeito nele se aniquilar — fez-se o Absoluto, o Deus. Ainda não se percebia que o ser era tratado como uma "forma", isto é, como um modo de ser (no caso, a forma, o modo, o gênero de ser da totalidade do mundo); ainda não se via que o ser é transcendente a todas as formas e se realiza de maneira diferente em cada uma delas.

Em suma, não se via que se pedia o absoluto ao imanente, quando ele está no transcendente; pedia-se o absoluto ao abstrato, ao universal, quando ele está acima da distinção entre o concreto e o abstrato, ligado a eles — como mostrarão Aristóteles e São Tomás — por analogias que o preservam em sua transcendência e em seu mistério.

Certamente, a exigência de unidade, de imutabilidade, de eternidade, de identidade entre o pensamento e o ser é justificada. Ela é sentida vivamente e tem o mérito de fugir do politeísmo; mas é objetivada cedo demais.

Seria necessário esperar por Sócrates, Platão e Aristóteles — cujo pensamento foi impulsionado por uma reflexão de Anaxágoras — para não mais buscar um ponto fixo onde o real e o pensamento encontrariam seu repouso, mas, ao contrário, sua fonte: o Ser por si, Deus. Deus, fonte ao mesmo tempo do ser e da inteligibilidade de todas as coisas. É a conquista racional do monoteísmo! É Sócrates, Platão e, mais ainda, Aristóteles.

Sim, foi necessária a reflexão de Anaxágoras (500-428 a.C.) sobre a constatação de uma ordem imanente ao mundo para que o pensamento se abrisse à distinção entre o espírito e a matéria. Quem diz ordem, diz inteligência, e inteligência separada, transcendente àquilo que ordena! E esta inteligência, este Pensamento, este Espírito, é ele o Deus.

Mas quantos problemas novos! Uma vez que Deus é Espírito, Inteligência, Pensamento puro, não se pode persistir em fazer dele emanar a matéria — em suma, os seres materiais que povoam e fundamentam o nosso mundo. É então que nasce — e não pode deixar de nascer, a partir daí, entre os pensadores e filósofos — a ideia de criação, e de criação ex nihilo (do nada).

Quando, por meio dessa distinção entre o espírito e a matéria, Deus aparece como Espírito — portanto, necessariamente separado da matéria, transcendente ao mundo — o panteísmo não pode sobreviver. Este foi, decerto, um grande momento do pensamento humano em sua busca pelo absoluto, por Deus e pela verdade, mas deve ceder lugar a essa elevação última do pensamento que será o monoteísmo.

A ruptura é difícil, pois exige repensar tudo, reconstruir tudo a partir de um Princípio transcendente e ativo. Espíritos e povos inteiros não conseguirão se resolver a isso. Da mesma forma que, no advento do panteísmo, espíritos e povos não se resolveram a abandonar o politeísmo. Cada vez isso exige um novo modo de pensar, e há mentes e povos que não conseguem acessá-lo.

Se o panteísmo não pode resistir a essa distinção entre espírito e matéria, o monoteísmo não aparece de imediato em sua forma plena. A intuição necessária está presente, mas a sistematização em um corpo de doutrina é difícil de estabelecer.

É por isso que vemos suceder ao panteísmo doutrinas inicialmente dualistas, as quais seriam apenas uma espécie de retorno ao hilozoísmo se não considerássemos os princípios da dualidade como exteriores à matéria, ao cosmos, ao mundo.

De fato, cai-se em doutrinas dualistas porque, por sujeição ao passado, não se consegue analisar em si mesma a ideia de criação e suas condições racionais necessárias, de sorte que apenas se justapõem, em um só e mesmo sistema, estas duas noções que se enfrentam como contraditórias: a de emanação e a de criação. É assim que se é levado a postular dois princípios ativos e primeiros: um princípio emanante e um princípio criador, cuja irracionalidade se imagina mitigar fazendo um emanar do outro. Isso não basta para arruinar o dualismo desses sistemas.

Do Um-Deus — concebido, conforme a distinção entre espírito e matéria, como Inteligência, Pensamento e Espírito (portanto, separado da matéria e transcendente ao mundo) — conserva-se, por sujeição ao passado hilozoísta e panteísta, o modo emanador: ele é e permanece o Deus-Emanante. (8). E, para incluir a ideia de criação postulada por essa mesma distinção entre espírito e matéria, postula-se, emanado do Um-Deus primitivo, um Deus-Segundo, o qual é o criador da matéria e do mundo, como se vê no Timeu de Platão e, mais ostensivamente, nos gnósticos de ontem e de hoje — sendo os de hoje nada menos que os últimos iniciados da Maçonaria. (9)

A irracionalidade dessa doutrina dualista é patente. Por sujeição ao passado panteísta, do qual o pensamento ainda não sabe se desprender, faz-se do Deus-Segundo uma pura emanação do Primeiro, mas atribui-se a ele o poder de criação da matéria e do mundo, que se recusa ao Primeiro.

Isso não resolve o problema posto pela ideia de criação: apenas o adia. Em suma, é irracional, pois o que se atribui ao Segundo deve sê-lo ao Primeiro, visto que o Segundo, seu alter ego, emana do Primeiro e, portanto, partilha de sua natureza e qualidade: o que é predicável do Segundo deve sê-lo, a fortiori, do Primeiro. Isso quer dizer que o Segundo é superfetatório, inútil: é apenas uma manutenção, consciente ou não, do passado hilozoísta em que se assimila a gênese do mundo à gênese animal, o que leva a postular dois princípios primeiros ativos e contrários, o que é absurdo. O que equivale a dizer, se quisermos ser racionais, que é preciso postular um Deus único, criador tanto dos seres espirituais (os anjos) quanto dos seres materiais. E isso nada mais é do que a explicitação plena da ideia de criação ex nihilo. (10)

Este Deus-Segundo, para os gnósticos (maniqueus, cátaros, hegelianos), é o deus do mal (11) da religião mazdeísta, ao qual se atribui a criação da matéria — o pior dos males — e que, por ódio ao povo judeu e à sua religião, assimila-se a Javé (Yahweh) — não se afirma este o criador de todas as coisas, Pai dos homens, etc.? Pelo Deus-Segundo criador, emanado do Deus emanante, nossas almas — puras emanações do Espírito Santo emanante — estariam encerradas na matéria que ele criou e, assim, impedidas de "ser como deuses".

Este Deus-Segundo é, no Timeu de Platão, a Alma do Mundo, o Obreiro que "fabrica" o mundo sensível, material. Ele é o criador do mundo sensível. Ele é o Obreiro, o Artesão, o Demiurgo, a causa eficiente, pois é o princípio ativo da gênese do mundo. Ele age em referência total ao Um-Deus, ao Um-Bem, Modelo no qual se inspira para "fabricar" o mundo, pois foi o Um-Deus quem tudo pensou — e pensou tudo o que deve povoar e, assim, fundamentar o mundo — tendo em vista o melhor de cada coisa e de todas ao mesmo tempo. Ele, o Deus-Segundo, deus demiúrgico, apenas realiza, reifica, coisifica o mundo que o Um-Deus pensou, como um pedreiro coloca toda a sua inteligência para realizar, reificar e coisificar a ideia de casa que o arquiteto pensou; pois ele é também isso: a Inteligência imanente ao mundo que procede da Inteligência transcendente que é o Um-Deus, o "primeiro gerado" do Um-Deus, diz Platão.

Em total respeito ao pensamento do Um-Deus, ele realiza o universo sensível que o Um-Deus pensou; e o realiza não apenas multiplicando as Ideias-Formas das coisas, pensadas pelo Um-Deus, repetindo-as em uma matéria que lhes seja conveniente — como o oleiro multiplica a Ideia-Forma "vaso" repetindo-a na argila —, mas também ordenando todas as coisas segundo essa unidade, essa harmonia e essa beleza que procedem necessariamente de um pensamento uno, o próprio pensamento do Um-Deus. Tal é o Deus-Segundo, o "primeiro gerado" do Um-Deus postulado por Platão e que ele chama indiferentemente, em seu Timeu, de Alma do Mundo (pois dele é o princípio ativo e inteligente), ou de Artesão, Obreiro ou Demiurgo.

— Por outro lado, Deus não é o criador de uma matéria que preexistiria às coisas, como um tecido do qual seriam depois recortadas todas as coisas.

Se fosse esse o caso, tais coisas teriam necessariamente o mesmo gênero de ser determinado pela natureza dessa matéria original — como, por exemplo, da argila só se podem extrair coisas de argila. O que distinguiria essas coisas entre si não passaria da quantidade — diferença de quantidade utilizada por cada uma; em suma, sua configuração, sua figura. Mas "mais ou menos" de uma mesma coisa nunca fará uma "coisa diferente"! Essas coisas, de fato, não teriam ser, existir ou existência própria; teriam o ser, o existir e a existência apenas do ser, do existir e da existência dessa matéria original e única, assim como o vaso ou o prato só têm ser pelo ser da argila na qual foram moldados. Isso equivale a dizer que as coisas seriam apenas acidentes, maneiras de ser que afetam um mesmo sujeito, essa matéria original. O ser delas seria, com efeito, da mesma natureza que o ser do acidente: seria um "ser-de-um-ser" (genitivo) — como se diz o branco do papel ou o vermelho da cereja: o ser do branco do papel só tem ser pelo ser do papel; o vermelho da cereja só tem ser pelo ser da cereja.

Em suma, isso seria reduzir toda mudança apenas à mudança acidental. Ora, a Natureza nos oferece uma pluralidade e uma multiplicidade de seres, de substâncias, isto é, de compostos matéria-forma ou, se preferirmos, de seres materiais; e oferece-nos, portanto, mudanças substanciais, isto é, mudanças que afetam a totalidade do composto matéria-forma.

O que é criado, portanto o que existe, é tal ser colocado na existência: seja tal ser material, seja tal ser espiritual (anjo). Aqui, trata-se de uma matéria atual; ali, trata-se de tal espírito atuado. Nem aqui nem ali existe matéria ou espírito preexistente, nos quais seriam, de certo modo, "recortados" os seres materiais ou os seres espirituais.

Toda esta longa digressão permite compreender quão absurdo é imaginar — pois trata-se aqui de um fenômeno da imaginação, ou seja, de uma combinação de imagens — a matéria preexistindo às coisas como um tecido do qual estas seriam apenas pedaços recortados de diferentes dimensões, oferecendo, portanto, apenas "figuras" distintas.

Este é o materialismo, confesso ou não, com sua fatal explicação mecanicista da gênese do mundo. Postula-se a matéria e postula-se o movimento como coeternos e preexistentes às coisas, ao mundo. Entende-se a matéria como una, eterna e emitida seja em partículas (teoria atomista), seja em elementos pré-fabricados (teoria hilozoísta); e postula-se o movimento — movimento também eterno — que arrasta essas partículas ou elementos em sua ronda fantástica e provoca, assim, seu encontro, sua associação fortuita em agregados: esta é a fase de produção dos seres materiais que povoam e fundamentam o mundo sensível. Mas esse mesmo movimento desagrega, por sua vez, os agregados, restituindo as partículas ou elementos à sua ronda louca: esta é a fase de destruição. Restituídos à sua ronda, essas partículas ou elementos estão prontos para novos encontros e, portanto, para novas associações que formarão novos agregados.

Tudo é atribuído à Necessidade, ao Acaso...

Deixemos a infantilidade de tal concepção aos primeiros físicos gregos, trazida tão tolamente de volta à tona por Descartes e seus epígonos de ontem e de hoje — ainda que sejam Prêmios Nobel, como Jacques Monod, que não compreendeu as consequências filosóficas de sua descoberta do ADN (DNA), esse "código genético". Esta descoberta, de fato, vai contra o que ele dela deduz "filosoficamente", pois prova o predeterminacionismo de todo vivente em sua espécie, o que testemunha que a finalidade já está estabelecida. É o que Aristóteles e São Tomás chamam de "virtude formativa", que nada mais é do que uma "virtude da espécie", oriunda dos indivíduos geradores que participam eles mesmos da espécie e que a marcaram com seus caracteres — daí o predeterminacionismo do vivente futuro, daí a hereditariedade — em suma, daí o fato de que um grão de cevada jamais dará origem a um choupo ou a qualquer outra coisa que não seja uma espiga de cevada.

Esta virtude ativa, Aristóteles e São Tomás a entendiam concretizada nas propriedades de elementos complexos de uma espantosa virtualidade, visto que exprimem em seu conjunto as propriedades do vivente futuro, inclusive a de sua alma, mesmo tratando-se do homem. Ontem ainda, embora se afirmasse tratar-se de propriedades físico-químicas, perguntava-se quais eram esses elementos e quais eram suas propriedades: a descoberta de Monod mostra que se trata essencialmente das propriedades do ADN; este é o código genético do vivente futuro. Quando a matéria do novo corpo for, por esse meio, levada à disposição última que o composto matéria-forma requer para subsistir — em suma, a substância vivente em via de tornar-se —, esta receberá então sua forma, sua alma. Sim, inclusive para o homem, como veremos, e ainda que, para ele, seja necessária então — já que a matéria não pode gerar o espírito, portanto, uma alma espiritual — uma colaboração divina.

Monod, como tantos cientistas ávidos por filosofia e como tantos "filósofos" de nossa época, parte de um a priori filosófico fundamentalmente racionalista naturalista — o racionalismo universitário de nossos tempos — e não de sua própria descoberta; portanto, de fato, não parte aqui do real, o que é o cúmulo para um cientista que se gaba de ser também um filósofo.

A Matéria com letra maiúscula, da qual seria feito todo ser material, como a chamam Platão, Aristóteles e São Tomás — a "matéria primeira" (prote hyle - materia prima) — não possui existência atual, existência empírica: não existe "a" matéria, existem apenas seres materiais tão variados quanto variadas são as formas de existência, as formas substanciais que a matéria recebe e reveste para ser, existir concretamente, em suma, para estar em ato. Isso quer dizer que a matéria só existe por e sob formas de existência que lhe proporcionam a existência, que assumem seus estatutos de existência: forma est quae dat esse (a forma é o que dá o ser).

Dizer que a Matéria com letra maiúscula, a matéria primeira, não possui existência atual não significa, contudo, que ela não seja nada. A Matéria com letra maiúscula, a matéria primeira, é a matéria concebida sem nenhuma forma, visto que qualquer forma atribuída à matéria lhe imporia um estatuto de existência concreta que a impediria de receber outros: os que ela recebesse, como vimos, seriam então meras "formas acidentais" que não afetariam a identidade, o ser do sujeito. Em suma, isso equivaleria a fazer dela um ser material, um único composto matéria-forma, como uma argila original de onde os seres extrairiam seu ser por simples divisão da argila primitiva. Por isso mesmo, haveria certamente pluralidade, mas pluralidade de uma mesma coisa, e não diversidade: mais ou menos de uma mesma coisa não faz uma coisa diferente.

Ora, o menor olhar sobre a Natureza o testemunha: não existe apenas uma matéria, não existe "a" Matéria; existem seres materiais tão diversos substancialmente quanto diversas são as formas substanciais que a matéria recebe e reveste. Visto que não existe "a" Matéria, mas "matérias" determinadas, especificadas, qualificadas por um estatuto de existência que lhes é propriamente individual — em suma, que faz delas indivíduos materiais possuidores de seu ser próprio —, deve-se conceber que, em seu fundo, em sua essência, a matéria primeira não possui forma alguma, portanto, não possui existência concreta.

No entanto, se devemos conceber a matéria primeira sem forma alguma, isso não deve significar — já que a forma dá o ser à matéria — que esta possa ser entendida como um puro nada, um puro não-ser, como imaginou Platão. Se a matéria primeira fosse tal, diz Aristóteles, ela jamais poderia receber e revestir a existência: o nada não se torna ser!

A Matéria com letra maiúscula, a matéria primeira, é algo, e algo positivo — fisicamente positivo, embora não seja algo fisicamente realizado, atuado.

"Aquilo que pode existir, mas não existe, é chamado de ser em potência; e aquilo que existe é chamado de ser em ato: quoniam quoddam potest esse licet non sit, dicitur esse potentia; illud autem quod jam est, dicitur esse actu", assim começa o De principiis naturae de São Tomás. Ora, o que é a Matéria com letra maiúscula, a matéria primeira, senão precisamente o ser material em potência de ser, de existir, de existência?

A matéria primeira é exatamente isto: ela É pura capacidade, pura aptidão, pura POTÊNCIA de ser, isto é, de receber e revestir TODAS as formas de existência (substanciais) que lhe darão precisamente o ser, o existir por e sob essas formas de existência. Tantas formas de existência quantas ela recebe e reveste, tantas são as "matérias" em ato, em atualidade de existência, tantos os seres materiais: partículas, pulgas, ciprestes, gatos, cães ou homens. "A forma faz existir em ato a matéria... A forma é a existência em ato da matéria".

A matéria primeira É pura aptidão, pura potência de ser. Esta aptidão, esta capacidade, este poder, esta potência, embora não fisicamente realizados, embora não fisicamente atuados, NÃO SÃO NADA. A aptidão, a potência, para a argila, de ser vaso ou prato, não é nada; a aptidão, a potência, para o óvulo humano fecundado, não é nada. A prova disso é que a argila não está em potência de ser homem, nem o óvulo humano de ser prato ou vaso.

Escrevemos: a matéria primeira É pura aptidão, pura potência de ser. Isso simplesmente porque a matéria é o que pode existir, mas não existe. É preciso ser para ter: o que se adquire, o que se possui então — fosse a potência, a capacidade de ser outro que não o que se é — é ser sobreposto ao ser existente, ao ser em ato; é algo que lhe sobrevém (accidit), é um "acidente", uma maneira de ser que ocorre a um sujeito em potência de sofrê-la. A matéria primeira não é sujeito, visto que não existe em ato. Ela não pode, portanto, TER a potência de ser: ela É potência de ser. Ela é um puro indeterminado em potência de todas as determinações, isto é, de todas as formas.

Conclusão:

Consideradas em si mesmas, a matéria e a forma não possuem existência individual, privada: o que possui o ser, o existir, a existência, é o composto, o misto matéria-forma.

Isso significa que nem a matéria nem a forma são duas coisas justapostas, dois seres absolutos e realizados cada um por si, mas sim os constituintes intrínsecos de um mesmo existente material. E a alma não é outra coisa senão a forma que dá o ser a uma matéria em potência de vida. (12)

H. P.


(Carta de BOSSUET a um discípulo do Padre MALEBRANCHE, oratoriano e partidário entusiasta de DESCARTES, como a maioria dos membros de sua ordem nos séculos XVII e XVIII.)

"Vejo um grande combate preparar-se contra a Igreja sob o nome da filosofia cartesiana. Vejo nascer de seu seio e de seus princípios mais de uma heresia, e prevejo que as consequências que delas se extraem contra os dogmas que nossos pais sustentaram a tornarão odiosa, fazendo a Igreja perder todo o fruto que dela poderia esperar para estabelecer, no espírito dos filósofos, a divindade e a imortalidade da alma.

Desses mesmos princípios, outro inconveniente terrível ganha insensivelmente os espíritos. Pois, sob o pretexto de que não se deve admitir senão o que se compreende claramente — o que, reduzido a certos limites, é muito verdadeiro —, cada um toma para si a liberdade de dizer: 'compreendo isto e não compreendo aquilo'; e, sobre este único fundamento, aprova-se ou rejeita-se tudo o que se quer, sem considerar que, entre nossas ideias claras e distintas, existem outras, confusas e gerais, que nem por isso deixam de encerrar verdades tão essenciais que tudo se subverteria ao negá-las.

Introduz-se, sob este pretexto, uma liberdade de julgar que faz com que, sem consideração pela Tradição, se avance temerariamente tudo o que se pensa. E jamais esse excesso pareceu maior do que no novo sistema, pois nele encontro, ao mesmo tempo, os inconvenientes de todas as seitas...

O sucesso de que parecíeis tão satisfeito me amedronta; pois, quando se tem sucesso em matéria de teologia, há motivo para louvar a Deus pela bênção que Ele concede aos trabalhos que nos inspira. Mas, quando alguém se afasta dos sentimentos da Igreja e da Teologia que nela se encontrou universalmente recebida, o sucesso só pode advir do atrativo da novidade, e toda alma cristã deve tremer diante disso.

Este é o sucesso que tiveram os heréticos. Como vós, eles se deram um ar de piedade, nomeando muito a Jesus Cristo e adornando-se com Sua Escritura. Como vós, muitas vezes se gabaram de propor meios para reconduzir os errantes à fé da Igreja. Citar frequentemente a Escritura e dela alegar apenas o que de nada serve à matéria é ainda um dos artifícios de que o erro se serve para atrair os piedosos...

Não acrediteis que, ao comparar-vos aos heréticos, eu queira acusar-vos de ter a indocilidade deles, nem aquilo que enfim os levou à revolta contra a Igreja — Deus me livre! —; mas sei que se chega a isso por graus. Começa-se pela novidade, prossegue-se pela obstinação. É de temer que a revolta aberta sobrevenha futuramente, quando a matéria desenvolvida atrair os anátemas da Igreja, e após, talvez, ela ter se calado por muito tempo para não dar reputação ao erro."


(1) Aqui, a palavra "forma" tem, portanto, um sentido diferente do sentido óbvio, o sentido aceito pela generalidade dos nossos contemporâneos. Para estes, a palavra assume o significado de "figura", de "configuração", do "conjunto dos contornos de uma coisa" — assim se fala da "forma de um rosto". Ela traduz, por aí, uma noção de limite, de traçado de uma superfície, de uma extensão: pertence, assim, à ordem da quantidade. Para que a matéria manifeste seu caráter quantitativo, que é exclusivamente de sua ordem, é de toda necessidade que ela tenha sido atuada, qualificada, determinada por e sob uma forma (de existência). A "forma", no sentido aristotélico e tomista, é exatamente isto: ela dá o ser, o existir, a existência à matéria; ela a determina, qualifica-a como tal ou qual. Ela confere o que é à matéria, a saber, um estatuto de existência. E isso quer dizer, simplesmente, que, atuando esta ou aquela matéria, ela atua este ou aquele ser material.

A "Figura", a "configuração", não dá o ser à matéria, portanto, a um ser material. Ela é, em si mesma, apenas uma maneira de ser que basta, que sobrevém (accidit) a uma matéria já atuada, em suma, a um ser já subsistente, a um sujeito. "O ser do sujeito", diz São Tomás, "não provém de algo que lhe sobrevém (accidit)"; aquilo que lhe sobrevém é um "acidente", uma "maneira de ser". Não é o fato de ser grande ou pequeno, gordo ou magro, cabeludo ou careca, maneta ou coxo que dá o ser ao homem! No sentido aristotélico e tomista, a "forma" dá o ser, o existir, a existência: forma dat esse. Chama-se:

  • "forma substancial": aquela que dá o ser, o existir absolutamente (simpliciter). Chamamo-la, para abreviar, de "forma de existência", pois ela atua, atualiza a matéria. Ela lhe confere, de fato, o que ela é por essência: um estatuto de existência. Ela não pertence, portanto, à ordem material; é de ordem imaterial, da ordem da ideia: ideia de um estatuto de existência determinado.

  • "forma acidental" (da qual a "figura" é apenas uma espécie): aquela que dá existência a um "acidente", a uma "maneira de ser", a uma matéria já atuada, a um ser material já subsistente (= substância), a um sujeito do qual ele tem a capacidade, a potência: um seixo, de fato, não tem a capacidade, a aptidão, a possibilidade de ser careca ou cabeludo, maneta ou coxo, ao passo que o homem a tem.

(2) A propósito da matéria, Descartes, em O Mundo, escreve: "Concebo sua extensão, ou a propriedade que ela tem de ocupar o espaço, não como um acidente (= uma maneira de ser, que lhe é própria), mas como sua verdadeira forma e sua essência". Descartes faz, portanto, da matéria uma substância, um ser. Leibniz, de quem se pretende, no entanto, que corrija Descartes, faz o mesmo, com a diferença de que, se Descartes faz da matéria uma substância inerte, Leibniz faz dela uma "substância atuante", uma "força ativa". É tudo a mesma coisa — e igualmente absurdo!

(3) Aconselhamos a leitura do pequeno opúsculo escrito por São Tomás para o "irmão Silvestre", para lhe ensinar os rudimentos do que se deve saber sobre as "quatro causas", intitulado De principiis naturae, traduzido [para o francês] por Jean Madiran sob o título Les principes de la réalité naturelle (Nouvelles Éditions Latines, Paris). Aconselhamos também, de Marcel Clément, sua obra La Soif de la Sagesse [A Sede da Sabedoria], cujo primeiro volume é uma boa introdução à filosofia grega até Aristóteles inclusive.

(4) O estado de Ato Puro, atribuído a Deus por Aristóteles, nada mais é do que a formulação filosófica da definição fulgurante que Deus Se outorga na Bíblia: "Ego sum qui sum: Eu sou Aquele que sou".

(5) Aristóteles, tanto em sua Filosofia da Natureza (Física) quanto em sua Metafísica, mostra que a multiplicidade e a unidade se encontram nos seres individuais, os quais são unos pela forma de existência (a forma substancial) idêntica em todos, mas múltiplos pela matéria que os individualiza e os diversifica. Pedro, Paulo e Tiago são unos pela forma "homem", mas são distintos e diferentes, portanto múltiplos, pela matéria que os individualiza e os diversifica. Dito de outro modo: eles são unos por sua participação em uma mesma forma, uma mesma essência, mas são distintos e diferentes entre si pela matéria que os individualiza. Esta é a doutrina hilemórfica.

(6) O que é unívoco é aquilo que é participado por vários segundo uma concepção objetiva idêntica, o que é participado ex aequo (em igual grau). Por exemplo, a palavra "animal" tem um sentido unívoco quando aplicada à pulga, à galinha, ao cão e ao homem. Todos participam ex aequo do conceito de animal, pois todos, individualmente considerados, são uma "substância material animada" — definição mesma de animal —; em suma, respondem ao mesmo conceito.

O que é análogo é aquilo que é participado por vários em uma mesma relação, mas cada um à sua maneira. A analogia é uma noção realmente comum, que responde a relações reais entre o que ela reúne, sem que essas relações participem dela da mesma maneira, ou seja, ex aequo.

Assim, é porque existe uma certa semelhança no modo de agir do "ariete" (máquina de guerra), ou do "carneiro hidráulico" (instrumento), com o "carneiro" (macho da ovelha), que a palavra é, aqui, um termo análogo, fundado na unidade de analogia. O adjetivo "bom" é participado por uma bebida, um prato, um instrumento, um vivente, etc.; é assim que se fala de um bom vinho, de uma boa sopa, de um bom fuzil ou de um bom automóvel, e de um bom cão; mas nenhum deles participa ex aequo da noção de bondade.

A unidade do ser é desse gênero, é uma unidade de analogia: tudo o que pode ser designado sendo "ente", apresenta como tal propriedades comuns e relações reguladas, mas sem formar, por isso, sob o laço que os une, uma unidade real.

Se atribuirmos à palavra "ser" uma unidade unívoca e não análoga, trataremos o ser como um conceito de gênero: nós o realizamos, determinamos, significamos, definimos e fazemos dele "um" ser, "tal" ser; portanto, tudo o que não for esse ser, tudo o que não entrar na definição desse ser, não "é", ou, se "é", "é" esse mesmo ser.

O ser não admite definição: defini-lo é reduzi-lo a um conceito de ser. É transformá-lo em um conceito e, ainda por cima, em um conceito de gênero. É verdade que o Ser por si, que é Deus, é indefinível. O que não quer dizer que seja incognoscível: nós o conhecemos na qualidade de Causa Primeira.

(7) É este mesmo fenômeno psicológico que conduz tantos de nossos contemporâneos ao panteísmo, hinduísta ou não. Porque tudo lhes parece arrastado em um fluxo insaisissável, como em uma roda que tudo tritura, inclusive o próprio "eu", eles buscam então um ponto fixo onde o pensamento e o real encontrariam repouso; e, desse ponto fixo, fazem o Absoluto, sem ver que este não tem existência em si, que é, no fundo, apenas uma objetivação, uma divinização da nostalgia de um ponto de repouso.

(8) O modo emanador é, de fato, abstraído do pensamento fisicista, que faz proceder a constituição dos elementos naturais (fogo, ar, água, terra) — isto é, as qualidades da matéria: ígnea, aeriforme, líquida e sólida — por uma transformação, uma mutação sucessiva de um elemento primordial e eterno; emanando, portanto, desse elemento, como se vê nos pensadores fisicistas chineses ou gregos. É ainda pela sujeição a essa ideia de mutação dos elementos fundamentais a partir de um elemento de base que nascerá, sob a luz da moral natural, a doutrina da metempsicose.

(9) Este mesmo fenômeno psicológico está na origem da Gnose, oriunda do masdeísmo fundado pelo medo Zoroastro ou Zaratustra (660-583 a.C.). Para compreendê-lo, deve-se recordar que a Babilônia foi um centro de confluência de todas as correntes de pensamento, tanto profanas quanto religiosas, provenientes dos quatro pontos do horizonte, e que as religiões que ali se formam, geralmente pela justaposição dessas correntes, são marcadas pelo caráter guerreiro dos povos que ali se sucederam, de sorte que "bom" é o seu deus e "mau" o do inimigo.

Certamente, como todas as religiões naturais minimamente elaboradas, essas religiões de tipo babilônico são apenas a apropriação, por uma mentalidade religiosa, de teorias estabelecidas por um pensamento profano e fisicista — no caso, ao que parece, o hilozoísmo chinês.

É assim que os elementos-princípios, considerados constitutivos de tudo o que povoa o cosmos por meio de sua montagem, e entendidos como uma mutação (conforme a ação de um elemento-princípio ativo sobre um elemento-princípio primordial de natureza contrária — velha reminiscência da assimilação da gênese do mundo à gênese animal), tornam-se ali as novas e principais divindades.

Do elemento ativo, assimilado ao Céu, ao Fogo do céu, ao Sol, etc., faz-se o deus criador do universo e da humanidade: ele é o deus do Alto que deve submeter a si o universo e a humanidade. Do elemento contrário, assimilado às Águas primordiais, à Lua, faz-se o deus tenebroso, infernal: ele é o deus do Baixo que reina sob a Terra — sendo esta, na cosmologia antiga, entendida como o "império do meio". Do elemento intermediário, frequentemente compreendido como o produto dos outros dois e assimilado à Terra, faz-se a divindade Terra-Mãe. Produto ou síntese dos outros dois, ela tem um caráter duplo, instável.

O masdeísmo acentua esse caráter dualista. Dois princípios contrários combatem-se continuamente: um bom, Ahura Mazda ou Ormuzd; o outro mau, Angra Mainyu ou Arimã. O Império do Meio — a Terra e a humanidade — é tanto o joguete quanto o objeto desta luta, especialmente desde que Arimã conseguiu perturbar a ordem da criação de Ormuzd ao seduzir a Mulher e, por meio dela, a humanidade da qual ela é a genitora.

Os Gnósticos acusam ainda mais esse caráter dualista, ao sabor do confronto entre a ideia de criação (própria da tradição babilônica) e a ideia de emanação (trazida pelo panteísmo indiano), por um lado, e, por outro, da distinção entre espírito e matéria (contida na tradição judaica e sistematizada pelo pensamento grego com Platão).

Aqui, o Deus Supremo e bom não é mais o deus criador do universo e da humanidade; ele é o Deus-Emanante. É o seu princípio contrário e seu alter ego emanado dele que é o deus mau e criador, criador da matéria, e que, por ódio ao povo judeu e à sua religião, é assimilado a Javé, o qual afirma ser ele mesmo o criador de todas as coisas e Pai dos homens. É ele quem, por intermédio da Mulher, genitora da humanidade, encerra e aprisiona na matéria que cria as almas humanas — puras emanações do Deus-Emanante — proibindo-as, por isso mesmo, de viver segundo sua natureza divina. Ele é o deus do mal; o inimigo do Deus supremo e emanante e dos homens.

O maniqueísmo, fundado segundo uma tradição por Manés, nascido na Babilônia em 215, é anticristão e anticatólico. O Deus-Segundo, o deus mau porque criador da matéria, é Javé: é ele o deus do mal, pois é ele quem encerra e mantém prisioneiras as almas humanas (puras emanações do Deus-Espírito e emanante) na matéria que criou e, assim, proíbe-as de viver segundo sua natureza divina. A humanidade só pode ser libertada pelo conhecimento (= gnose) da verdadeira Ciência, do verdadeiro "Saber", como o chamam Nietzsche e Hegel. A difusão deste Saber constitui a obra da Redenção, iniciada pelos verdadeiros Profetas, dos quais Cristo é apenas o maior: ele é "filho de Deus" porque é emanado do Deus-Emanante e Supremo, obrigado no entanto, para se fazer ouvir pelos homens, a passar pela Mulher, isto é, a fazer-se homem; mas ele não é o filho de Javé. Javé é o inimigo do Deus-Emanante e dos homens, pois, por ele, os homens estão encerrados na matéria e impedidos de viver "como deuses"; o que eles são, no entanto, por natureza, já que são puras emanações do "verdadeiro" deus. A Igreja de Cristo traiu o Cristo, filho do Deus-Emanante e não do Deus-criador. Por sujeição à Sinagoga — a qual, contudo, compreendeu o perigo trazido por Cristo, já que o assassinou — a Igreja de Cristo traiu o sentido mesmo da missão redentora de Cristo, que veio libertar a humanidade das trevas em que Javé, deus dos judeus, a mergulhou.

(10) Pela análise do judaico-cristianismo, o filósofo deve convir em sua racionalidade: um só Deus, criador tanto dos seres espirituais quanto dos seres materiais.

Um só Deus em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. "Jesus Cristo, Filho unigênito do Pai, gerado, não criado, consubstancial ao Pai, e por quem todas as coisas foram criadas... O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho", diz o Símbolo de Niceia. (Na tradição grego-oriental, influenciada pelo platonismo, há uma "processão em linha reta": o Espírito Santo procede do Filho, como o Filho procede do Pai). Em suma, aqui não há três deuses; há um Deus em três Pessoas, três Pessoas que partilham, a títulos diversos, uma só e mesma existência, a qual é a existência de Deus, a qual é Deus. É o que permite ao dogma católico afirmar que existe um só Deus.

A Trindade revelada pelo Cristianismo não pode ser confundida com os três deuses postulados pela inteligência humana por sujeição a uma busca de explicação da matéria e do mundo sensível (fisicista, naturalista, hilozoísta), onde a gênese do mundo é assimilada à gênese animal. A Trindade revelada não é uma espécie de redução dos "três deuses" propostos pelas religiões naturais: estes não se prestam a isso, pois são todos princípios primeiros ativos e contrários — o que é, por si só, irracional. O cristianismo é racional, racional com a racionalidade de Deus: há apenas um princípio primeiro, há apenas uma existência, há apenas um Deus.

Pela revelação das três Pessoas, Deus nos manifesta o quanto é um foco intenso de vida: foco único de relação de vida e de amor das três Pessoas; é o "divino conselho", segundo a expressão de São Paulo. Certamente, Deus não deixa de ser, para a nossa inteligência, um mistério insondável; mas os mistérios cristãos não são abismos de obscuridade propostos à nossa inteligência para que ela neles se afogue e se feche; o mistério cristão é luz — luz ofuscante, decerto, mas não aniquiladora. Ocorre aqui, por analogia, como com o sol: ele nos ofusca, mas não nos destrói. A Inteligência divina, que é Deus, ultrapassa infinitamente a nossa, mas não poderia convidá-la a fechar-se, isto é, a aniquilar-se, uma vez que é ela quem a coloca na existência.

(11) O mal não é um ente. Não perceber isso é próprio de espíritos fracos, faz parte dessa incapacidade de analisar o ente enquanto ente e suas propriedades — propriedades estas que chamamos de transcendentes porque convêm a todos os entes, não apenas no que têm de comum, mas também no que têm de próprio. Essas propriedades são a unidade, a verdade, a bondade ou o bem.

A unidade é a propriedade daquilo que é um — não "único", mas indiviso. Dividi o ente, e o ente não será mais um ente. Reduzi uma casa a pedaços, e não haverá mais casa. A unidade e o ente são, portanto, conversíveis, análogos. O ente é verdadeiro: ele é verdadeiramente o que é; se não o fosse, não seria. O ente e o verdadeiro são, portanto, conversíveis, análogos. O ente é o bom, o bem. O bom, o bem do carvalho, por exemplo, é ser carvalho. Se não fosse para o bem do carvalho, ele não seria carvalho; não seria nada. O ente e o bem são, portanto, conversíveis, análogos. E, a partir daí, compreende-se que o mal não é ente, não é um ente: não é uma noção conversível, análoga à noção de ente. O mal para um carvalho seria não ser "bem" um carvalho; mas a partir do momento em que não fosse um carvalho, ele não seria. O mal é, portanto, um não-ente.

O mal não é um ente e, a fortiori, não é um deus. Não que não exista mal, mas o mal é uma limitação do ente e não um ente. O mal não existe em si: é uma privação de bem, como o nada é uma privação de ser.

O mal não é, portanto, um ente. O mal não é, portanto, um deus. O mal não pode ser predicado de Deus, pois Deus é o Ente por excelência, o Ente absoluto.

(12) Trataremos em um próximo artigo sobre a mudança substancial e a alma humana.