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UM TESTEMUNHO SOBRE AS ORIGENS DA REVOLUÇÃO LITÚRGICA

O caráter um tanto particular deste artigo exige algumas explicações preliminares que permitirão situá-lo melhor e evitar qualquer equívoco.

Ressaltemos, primeiramente, que não se trata de esgotar as origens da revolução litúrgica — um volume volumoso não seria suficiente para tanto —, mas apenas de lançar luz sobre um período determinado: o primeiro quartil do século XX.

Essa luz nos será fornecida por um testemunho de cerca de quinze anos atrás; um testemunho involuntário, decerto, mas público, que comentaremos para destacar seus bastidores.

Nosso ponto de partida é uma carta enviada por um monge beneditino, Dom Damase WINZEN — alemão de origem e formação, mas fundador e padre [conforme instrução] de um mosteiro americano, a Abadia do Mount Saviour — aos seus amigos e benfeitores, por ocasião do Natal de 1963.

Nesta carta, escrita pouco tempo após a ascensão do Cardeal Montini ao Sumo Pontificado, Dom WINZEN relata suas memórias durante e depois da guerra de 1914-18, nomeadamente seu encontro com os movimentos de juventude católica e, posteriormente em Roma, sua introdução no universo dos jovens monsignori (monsenhores) ao qual pertencia Giovanni-Battista Montini.

Apesar de algumas passagens longas, ao menos do ponto de vista que nos interessa, optamos por reproduzir este texto integralmente, contentando-nos em interrompê-lo com alguns comentários. O testemunho será, assim, inteiro, menos contestável e mais significativo.


Queridos amigos do Mount Saviour,

No início do Advento, dirigimo-nos a vós mais uma vez, esperando que, quando esta crônica vos chegar, seja o período de Natal e o momento oportuno de desejar a todos vós uma alegre festa do nascimento do Messias. Como sempre, estamos profundamente conscientes de nossa dívida para convosco e, este ano em particular, nesta estação de luz e presentes, sentimo-nos obrigados para com todos aqueles que tomam parte ativa em nosso programa de construção. A Missa do Galo será nossa Ação de Graças solene oferecida ao Pai em lembrança agradecida de toda a vossa bondade.

Quando aludimos ao fato de estarmos no tempo do Advento de 1963, percebemos que um ano inteiro se passou desde a última crônica. Tantas coisas ocorreram que seria perfeitamente inútil tentar enfrentar todas. Entre os eventos que se desenrolaram fora dos confins do Mount Saviour, os que nos tocaram mais profundamente foram a morte do Papa João XXIII, a ascensão do Papa Paulo VI e, muito recentemente, o assassinato do Presidente Kennedy. O mundo inteiro chorou a morte do Papa João XXIII da mesma maneira que um homem choraria a morte de seu pai.

De forma única e inimitável para a humanidade inteira, ele era o representante da bondade de "nosso Pai que está nos céus, que faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos" (Mateus V, 45).

O Presidente Kennedy era mais como um irmão mais velho para os cidadãos desta nação, e é por isso que a bala que o atingiu feriu a todos nós profundamente. Nestes dois casos, a transmissão de poder daqueles que detinham as chaves revela a dignidade superior de sua função e, portanto, nossas orações acompanham o Presidente Johnson e o Papa Paulo VI. Gostaríamos de dedicar esta crônica a este último, como um sinal do vínculo particular que existe entre ele e o Mount Saviour.

Para descrever a natureza deste vínculo e colocá-lo sob sua verdadeira luz, de tal sorte que se torne, para vós também, uma coisa viva, devo remontar aos dias distantes de minha juventude. Em uma visão retrospectiva, posso dizer que duas experiências no nível cultural influenciaram grandemente minha forma de pensar. A primeira foi o contato com o chamado "movimento da juventude". Esse movimento já havia se desenvolvido na Alemanha, antes da Primeira Guerra Mundial, sob a influência dos escritos de Nietzsche, como um protesto da geração jovem contra a autossuficiência, a falta de autenticidade cultural e de sinceridade da era vitoriana.


O autor aborda aqui uma questão das mais importantes e que mereceria um estudo por si só; destacaremos apenas o argumento essencial.

A hipocrisia censurada no século XIX, muitas vezes real, devia-se a um conjunto de fatos contraditórios, resultantes do status ambíguo da religião produzido pela Revolução em curso.

A fé real, profunda, estava extinta — e até considerada indigna — entre muitos membros dos meios socialmente influentes, políticos, financeiros e intelectuais; mas uma aparência de religião ainda fazia parte do decorum, do prestígio social, e isso, aliás, só desapareceu muito recentemente.

Por outro lado, a influência jansenizante havia frequentemente suprimido a espontaneidade e o calor verdadeiro da prática religiosa; a sensibilidade assim insatisfeita abandonava as vias regulares da oração litúrgica católica para criar uma multidão de sucedâneos no espírito romântico e sulpiciano.

Nietzsche tinha, portanto, toda a facilidade para criticar uma prática vazia e empolada, e censurar os cristãos por seu semblante triste e sem vida, indigno de um Cristo que teria ressuscitado.

Mas se é preciso saber reconhecer os elementos reais sobre os quais ele se apoiava, é necessário também, e ao mesmo tempo, considerar a falsidade global de seu raciocínio, pois, de fato, se ele se aproveitava das rugas do século XIX, era contra o próprio cristianismo que ele se voltava: para ele, Deus está morto, e o homem deve tornar-se o além-homem, o futuro e único verdadeiro Deus; se ele brincava de ser melhor cristão que os próprios cristãos — o que não é muito difícil no papel —, era apenas para melhor torpedear por dentro o próprio equilíbrio da fé que, por sua vez, nunca separa a Sexta-Feira Santa da Páscoa, a morte de Cristo de Sua Ressurreição, estando as duas coisas ligadas a ponto de não terem nenhum sentido se tomadas isoladamente.

Apreendemos ali, em sua fonte, um dos muitos desvios da nova religião que fez desta crítica nietzschiana um de seus temas favoritos. Se o século XIX se comportava, de fato, às vezes como se esquecesse um pouco a Ressurreição para pensar apenas na morte, o progressismo no século XX colocou uma ênfase unilateral na Ressurreição: considerada assim, isoladamente, esta afasta do cristianismo, inaugura uma nova religiosidade para-nietzschiana e prepara uma mentalidade pró-panteísta que conduzirá um dia a negar a própria Ressurreição: nós chegamos a esse ponto.


Entre os jovens, havia uma tendência crescente de se retirar do "aparelho" do meio cultural dominante, e a maneira mais simples de fazê-lo era fugir das cidades durante os fins de semana e, depois, durante as férias, fazer turismo a pé — não para se divertir, mas para viver uma vida nova na simplicidade, na austeridade e na caridade, perto da natureza e perto das pessoas. Cantos e danças folclóricas, contos e mistérios substituíram as formas de entretenimento que existiam nas cidades ou as rodadas de cerveja ordinariamente em voga entre os estudantes universitários da velha escola.

As formas convencionais das relações sociais foram desprezadas. Fugir do que era artificial, fugir do falso, retornar à verdade, ao amor sincero, à verdadeira beleza, à alegria franca, foram o grito de guerra da nova geração! Após a Primeira Guerra Mundial, o "Segundo Império" de Guilherme II foi despedaçado; esse movimento atingiu então proporções maiores e se espalhou nos meios católicos por intermédio do "Quickborn" (a fonte de vida) e do "Neudeutschland".

Revestiu-se de outro caráter. Tomou a extensão de uma renovação religiosa porque, para a juventude católica, retornar à verdade e fugir do falso tinham inevitavelmente o significado de tornar-se "sincero" na prática da religião; não apenas tornar-se um "católico praticante", mas retornar às fontes autênticas da vida espiritual, da palavra de Deus e da Liturgia.

O "Círculo Bíblico" e a "Missa Comunitária" tornaram-se características indispensáveis da nova vida que a jovem geração católica tentou desenvolver em seus diferentes grupos. Na liturgia foram encontradas a verdadeira comunidade, a beleza real e a verdadeira alegria, todas as coisas que a juventude buscara. Aqui, a eterna juventude da Igreja manifestava-se aos corações dos jovens. A beleza, a grandeza, a profundidade deviam ser descobertas nas formas autênticas do culto público da Igreja.

Tudo isso parecia a descoberta de um novo mundo para os jovens que se entediaram com as lições de catecismo, acharam uma monotonia mortal nos exercícios piedosos e que tiveram um comportamento mantido constantemente na defensiva nos campos da apologética e da moral.


O autor faz aqui alusão a esse movimento de retorno às tradições católicas que foi um dos componentes importantes do catolicismo do final do século XIX. Sob diversas influências, desviou-se então do Renascimento e da Era Barroca — acusados, muitas vezes com razão, de uma certa contaminação pelo neopaganismo — para se vincular às formas e ao espírito cristão medieval: simplicidade, naturalidade, alegria, liturgia e Sagrada Escritura.

Infelizmente, essa tendência deveria degenerar rapidamente: equilibrada em Dom Guéranger e seus primeiros discípulos, ela tornou-se vítima de si mesma, caindo no idealismo e no otimismo beato e desprezando, pouco a pouco, o ensinamento positivo (catequese), bem como o homem real (moral) e as circunstâncias revolucionárias (apologética).

Assim libertado dos laços do real, esse movimento só poderia correr em direção à sua autodeterminação e preparar, através das evoluções do período entre-guerras, as reviravoltas do pós-guerra e do Concílio.

As alusões de Dom WINZEN nos fazem tocar com o dedo três dos elementos primordiais do desenvolvimento da crise há cerca de sessenta anos: o desvio apoia-se em uma fraqueza do corpo cristão, insinua-se em um impulso de restauração vital e utiliza as organizações de juventude.

Essas três constantes que apreendemos aqui em matéria litúrgica podem ser encontradas em numerosos domínios, e teremos a oportunidade de voltar a elas.


Meu primeiro contato com o movimento da juventude ocorreu durante a Guerra, mas a única coisa de que me lembro é um episódio um tanto embaraçoso. Durante uma de nossas caminhadas, fui designado cozinheiro. Naquela época de racionamento muito estrito, não era fácil encontrar algo para colocar na grande panela que eu carregava dentro de uma enorme mochila. Por isso, ficamos muito felizes por ter farinha de aveia, leite, margarina e até cacau. Na etapa de descanso, acendeu-se um fogo e a cozinha começou. Eu planejara cozinhar a farinha de aveia com leite, misturar isso ao cacau, depois colocar margarina na panela e transformar essa mistura em galetes assadas no fogo aberto. Tudo correu bem até que segurei a panela, com seu conteúdo de margarina e a mistura de farinha de aveia, sobre o fogo; de repente, as chamas invadiram a panela, assustei-me e deixei cair tudo no fogo. O efeito sobre o grupo foi esmagador; foi o fim da minha carreira de cozinheiro. Aconselharam-me a ater-me ao aspecto intelectual das coisas. O que fiz.


Este trecho um pouco cômico é, no entanto, interessante como testemunho de uma mentalidade e, em seu gênero, explica muitas coisas.

Muitos intelectuais, e também eclesiásticos, habituados a viver na torre de marfim das coisas do espírito ou da religião, quase não têm experiência da vida concreta; e muitos são aqueles cuja cabeça girou quando a experiência brutal da vida real atingiu e chocou fortemente sua sensibilidade: passaram então de uma religião fria a um ativismo borbulhante e sem freio, e compreende-se perfeitamente que alguns se tenham perdido nele.

Encontramos, finalmente, o mesmo problema do parágrafo anterior, visto desta vez sob o ângulo da experiência individual.


Ao final da guerra, fui estudar em Göttingen e ali encontrei o outro fator que deveria desempenhar um papel tão importante em minha vida: Roma e tudo o que a Cidade Eterna significa.

Tal como está situada no coração da Europa, a Alemanha é o lugar de encontro dos três grupos étnicos que compõem a Europa: os eslavos, a Leste e Sudeste; as nações germânicas ao Norte; e as nações latinas a Oeste e Sudoeste. Naturalmente, isso provoca algumas complicações.

Onde eu vivia, nos arredores de Hanôver e Göttingen, as pessoas consideravam geralmente o Estado eslavo como a sede das emoções fortes e profundas, que não podem ser previstas e que são sem restrições, mas que se combinam a um sentido misterioso de comunidade. Tolstói e Dostoiévski exerciam ali uma imensa atração. A parte alemã do Norte, representada principalmente por Shakespeare, Kierkegaard e Kant, não tinha nada de ameaçador, mas era considerada a coisa real: realista, audaciosa, profunda, livre, corajosa, sincera e heroica. O Oeste era a região das trevas, o domínio da "grande inimiga", a França, irremediavelmente corrompida, enquanto ao sul dos Alpes viviam os italianos, pobres e preguiçosos, totalmente inconstantes e extremamente desonestos.


É interessante notar, de passagem, as fontes do pensamento médio dos católicos da Alemanha do Norte neste início do século XX: vemo-los atraídos ao mesmo tempo pelo racionalismo germânico (Kant) e pelo misticismo desordenado — seja ele inquieto e germânico (Kierkegaard), desesperado e satanizante (Dostoiévski) ou panteísta-oriental (Tolstói) — e repelidos pela latinidade, na qual suspeitavam, com razão e apesar de suas feridas, um resto de equilíbrio e de acordo entre a Fé e a Razão.


Aceitei tudo isso sem questionar até que o Prior de Maria Laach apareceu em toda a cena de nossa Alemanha, um monge beneditino da margem oeste do Reno. Evidentemente, ele não era nem corrompido, nem preguiçoso, nem desonesto. Ele abria nossos olhos para o esplendor da liturgia romana, enfatizando propositalmente o "romano". Nossa primeira conversa girou muito rapidamente em torno desse tema, porque ele tinha receios quanto à minha base cultural da Alemanha do Norte e sobre como eu poderia me harmonizar com uma comunidade e um Padre que estava profundamente empenhado em difundir o espírito da liturgia romana como o antídoto do "subjetivismo" alemão.


Vemos surgir esta abadia de Maria Laach, cuja influência na Revolução litúrgica foi tão profunda; ora, essa aparição ocorre sob uma luz favorável, já que a liturgia ali é apresentada como o antídoto do subjetivismo germânico — o que é inteiramente verdadeiro, inclusive para os subjetivismos não germânicos!

E, no entanto, esse Prior, de quem o autor da carta nos fala pouco, embora lhe tenha causado uma forte impressão, é um homem de primeira importância na gênese da Revolução litúrgica.

Dom CASEL revela-se um dos principais pensadores do movimento litúrgico alemão antes de 1939 e, portanto, do movimento francês a partir de 1943, nomeadamente por sua obra intitulada "O Mistério do Culto", na qual compara a liturgia aos Mistérios antigos.

O fato é duplamente significativo: por um lado, Dom CASEL trazia um aprofundamento teológico da liturgia, um lembrete de seu fundo, insistindo menos no aspecto de cerimônia e decoro do que no aspecto invisível de atualização e dispensação da Redenção: a Liturgia recupera assim sua verdadeira natureza, que é fazer o homem participar da vida divina, imergi-lo no divino.

E não era esse um lembrete inútil, pois é uma tentação frequente esmerar-se nas formas esquecendo seu fim; isso tem, aliás, um nome: é o ritualismo, que exagera tanto mais a minúcia dos detalhes quanto mais limita ali o seu horizonte.

Por outro lado, é preciso ver também que Dom CASEL preparava — evidentemente sem o querer, mas de forma real — a naturalização da liturgia à qual as décadas seguintes haveriam de conduzir. Isso pode parecer inaudito, mas é o que ocorre, como podemos julgar a posteriori, estando o mal já feito.

Como isso pôde acontecer? A abordagem de Dom CASEL, e na sua esteira a de muitos outros, consistia nomeadamente em recordar o fundo natural, humano, pré-cristão do sacrifício e da liturgia em geral, e especialmente seu aspecto iniciático, de propedêutica sagrada; são coisas verdadeiras que nunca deveriam ter sido esquecidas, mas que, sublinhadas naquele momento, ao sair da crise modernista (se é que algum dia se saiu dela...), não deixariam de silenciar o outro aspecto: a originalidade intrínseca da liturgia cristã, como se viu posteriormente.

É interessante reencontrar aqui, mais uma vez, a ambiguidade das melhores intenções quando sua realização não é regida por uma visão de conjunto da situação. Mais uma vez, como na maioria das vezes, o mal não veio no início da afirmação de um erro, mas da acentuação defeituosa de um aspecto da verdade em detrimento dos outros aspectos, o que leva os epígonos a caírem em erros francos: do desejo de não reduzir a Liturgia ao Sacrifício — o que a amputaria grandemente — chegou-se a suprimir o Sacrifício na Liturgia! Como se, para favorecer o caule de uma planta, se lhe cortasse a raiz.

É importante distinguir estas duas etapas no movimento doutrinal, sob pena de nada compreender do que constitui um drama imenso: como, dessas gerações de sacerdotes e leigos ansiosos pelo retorno ao Verdadeiro, pôde sair, passo a passo, a abominação do Vaticano II, do novo rito e da nova religião em geral.

Há ali um movimento dialético que é preciso captar e que exigiria, aliás, ser detalhado, pois o reencontramos quase idêntico em diversos domínios, para explicar como passamos, em menos de um século — talvez cinquenta anos — de um movimento de restauração a um movimento de revolução.


Ele teve mais apreensão quando percebeu minhas relações com o movimento da juventude. Devo confessar que havia, de fato, uma dificuldade. Ela se apresentava a mim sob a etiqueta de "A vida e a forma". Durante todo o meu noviciado, trabalhei em uma "grande obra" sobre esse tema, sem nunca tê-la terminado. Naturalmente, porque uma única vida humana não basta para trazer uma conclusão satisfatória a uma obra tão importante.

O fato de eu estar às voltas com esse problema chegou ao conhecimento do meu Padre, Ildefonso Herwegen, e ele decidiu que a melhor coisa para mim era ir estudar em Roma, com a esperança de que a atmosfera da Cidade Eterna trouxesse mais forma à minha vida. O Prior não estava entusiasmado com esse ponto de vista. Ele pensava que meus instintos da Alemanha do Norte não reagiriam favoravelmente à atmosfera romana, como a prova já fora feita, uma vez, por um de meus compatriotas, Martinho Lutero, de Eisleben na Turíngia.


As preocupações e ocupações deste jovem noviço beneditino são efetivamente bastante estranhas, mas conformes, é verdade, ao gosto germânico facilmente "extrator de quintessência".

Mais clássicas são as reações do Padre e do Prior: o primeiro acredita na influência benéfica da "romanidade", no duplo sentido de universalidade e de duração, senão de eternidade; o segundo, mais sensível às falhas do sistema, teme que os meandros da administração vaticana pareçam pouco espirituais ao jovem monge e lhe façam perder o gosto pelas formas em vez de desenvolvê-lo nele.

A alusão a Lutero, por outro lado, é um pouco forçada: a Roma de Pio XI não era mais a da Renascença, e os mesmos espetáculos não eram mais de se temer. Os perigos da hora em Roma, em 1923, não menos graves, eram, contudo, mais discretos e abafados: a nova adesão ao Mundo — não mais ao paganismo do século XV, mas ao do século XX, que deveria se afirmar três anos mais tarde pela condenação dos contrarrevolucionários — operava-se insidiosamente.

De resto, o que se pensava disso em Maria Laach, onde não se podia realmente ignorar o que se tramava em torno da Praça de São Pedro? É bastante provável que se felicitassem por isso, como muitos então, esquecendo o passado, cegando-se sobre o presente e não querendo ver nessa adesão senão a abertura para uma nova conquista do mundo para Cristo! Sabemos muito bem hoje, infelizmente, aonde esses sonhos nos conduziram.


A decisão do Padre prevaleceu sobre as hesitações do Prior e logo eu estava a caminho da Cidade Eterna. Jamais esquecerei o momento em que vi pela primeira vez a placa indicadora ROMA e em que ouvi os ferroviários gritarem "ROMA TERMINI"!

Eu, o jovem de Hanôver, agora monge de Maria Laach, eis-me nesta cidade que, segundo as diretrizes do meu Padre e do meu Mestre de Noviços, devo considerar como a potência formadora na tradição viva da Cristandade ocidental, como o sinal da ordem e o farol; cidade dotada de aptidões particulares para um governo universal.

Mas, já no trajeto de táxi até Santo Anselmo, notavam-se as complicações da época. Fazia apenas um ano que Mussolini tomara posse de Roma. Ele se esforçara para fazer renascer o espírito de Roma como capital de império. Centenas de cartazes proclamavam sua última mensagem: "É melhor viver um ano como um leão do que séculos como ovelhas!". Isso ressoava como se estivessem brincando de peles-vermelhas.

A Roma que tínhamos em mente era a Roma da Igreja, a Roma de Pio XI, e essa Roma causava-me uma grande impressão. As inquietações do meu Prior não eram justificadas. Os cantos mal interpretados pelos cônegos em São Pedro não me incomodaram. Eram afogados nas ondas de entusiasmo que acolhiam a pessoa venerável do Vigário de Cristo quando ele avançava lentamente na "sedia gestatoria", pairando sobre a multidão que preenchia a imensidade de São Pedro. Pio XI impressionava por seu porte solene e contido. Seu rosto mantinha sempre, por hábito, uma seriedade e uma majestade impassível.

Quando, certa vez, em meu entusiasmo juvenil, ousei dizer-lhe, durante uma audiência, que éramos um grupo de beneditinos recentemente ordenados que faziam estudos em Santo Anselmo, encontrei um silêncio glacial de mármore. Só mais tarde percebi que minha atitude havia infringido o protocolo. Não apenas a "arraia-miúda", mas os próprios Cardeais tremiam quando deviam apresentar-se diante do Papa Pio XI. A autoridade papal, em seu próprio distanciamento, irradiava uma atmosfera de firmeza e solidez indiscutível. O Papa e a Cúria apresentavam-se verdadeiramente como a "rocha" sobre a qual a Igreja fora edificada.


Que forte expressão da romanidade! Como se seria tentado a crer na solidez desse pontífice de aspecto tão terrível que faz tremer não apenas os pequenos monges, mas até os Cardeais! E, no entanto, a prova do contrário não tardará a vir.


Embora possuíssemos o sentimento de segurança que nos inspirava a autoridade da Santa Sé, não podíamos evitar o choque com certas dificuldades que surgiam dessa mesma condição. Havia agitação no ar que não nos deixava insensíveis. A pesquisa histórica fizera progressos rápidos no domínio litúrgico. A maior parte dessa pesquisa fora efetuada sob os auspícios dos beneditinos, e nós éramos os primeiros informados.

A conclusão não era meramente de caráter teórico. Ela dizia respeito à celebração da liturgia e ao seu papel formador na vida do cristão. Não podíamos deixar de notar que não havia muita presença do espírito da Liturgia Romana na própria Cidade Eterna, nem nas paróquias nem na administração. A rigidez geral do sistema também não dava muita esperança de uma mudança. A "Forma" parecia ser mais forte que a "Vida".


Chegamos ao ponto em que o testemunho de Dom WINZEN se torna particularmente precioso e exige também mais nuances do que nunca. Recordemos alguns elementos para melhor apreciá-lo.

Desde a restauração da vida beneditina e a fundação de Solesmes em 1833, a ordem beneditina dedicara-se, como é natural, à liturgia, à sua prática e ao seu conhecimento teórico e histórico. Muito havia a ser feito, ao contrário do que se poderia pensar à primeira vista: tendo os séculos da Renascença e da Era Barroca privilegiado certos aspectos em detrimento de outros, convinha restabelecer um equilíbrio vivo e mais conforme ao espírito católico: para resumir em uma linha, tratava-se de retornar de um "espetáculo" ao qual se assiste para uma "ação" da qual se participa.

Mas isso colocava, de fato, uma multidão de problemas dos quais muitos promotores do movimento litúrgico estavam então inconscientes, e que deveriam produzir mais de uma surpresa, sendo o menor dos desvios o desenvolvimento de uma certa tendência à novidade pela novidade, como veremos.


Tornávamo-nos, ao longo dos anos, mais conscientes da situação e empreendíamos pequenas "escapadas", tanto no domínio litúrgico quanto no domínio filosófico e teológico. Começávamos a ler coisas que não estavam inteiramente na linha da ortodoxia tomista. Rousselot, Maritain, Max Scheler, Erik Peterson perfilavam-se no horizonte. Aqui e ali, celebrávamos a Missa segundo as novas ideias, nas vizinhanças de Santa Sabina ou nas catacumbas. Mas coisas como essas eram decididamente de vanguarda!


De uma sã consciência das necessidades litúrgicas às escapadas fora da ortodoxia em seus diversos domínios, o passo é dado. Encontramo-nos aqui precisamente sobre a linha de fratura que divide o movimento de restauração do movimento de revolução; e essa linha vimo-la lavrada, dilacerada por uma série de pensadores, dos quais alguns nomes são citados e quantos outros silenciados.

Liturgias mais ou menos clandestinas, de vanguarda, nas "ideias novas", por volta de 1926 em Roma! Que símbolo da Revolução então duplamente triunfante no centro mesmo da Cristandade.


Nesse contexto, por volta do fim da minha estada em Santo Anselmo, aconteceu que um dia o Padre Primaz, Fidelis v. Stotzingen — que fora Padre de Maria Laach antes de sua eleição como Padre Primaz — disse-me que havia um jovem Monsenhor da Secretaria de Estado que estava desejoso de aprender alemão e pediu-me para lhe dar lições.

Habitualmente, os estudantes de Santo Anselmo não tinham grandes oportunidades de entrar em contato mais estreito com o clero italiano. Os únicos que eu conhecia bem eram Mons. Giulio Belvederi, reitor do Instituto Pontifício de Arqueologia Cristã, e Mons. Angelo Grazioli, Cônego da Catedral de Verona. Desde então, ambos foram chamados à recompensa celeste. Eram sacerdotes cheios de zelo e apóstolos entusiasmados do Movimento Litúrgico na Itália.


Eis uma breve luz sobre os fundamentos do movimento litúrgico, e é interessante ver citados dois homens, dos quais o primeiro sobretudo é importante, e que provam que, longe de ser apanágio de alguns jovens clérigos excitados, a questão podia contar com inúmeros homens bem posicionados. Quem os colocara onde os encontramos, o que faziam quinze ou vinte anos antes? Eis duas perguntas cujas respostas certamente não careceriam de interesse.


Dom Grazioli viera várias vezes a Maria Laach; era um grande amigo do Padre Ildefonso, bem como do Prior Albert. Ele era bem visto pelos noviços de Laach, pois gostava de nos acompanhar em nossos passeios de barco no lago e participava ativamente das nossas batalhas navais acirradas que costumávamos travar em tais ocasiões.

Com seus cabelos loiros, seus olhos azuis e seu rosto corado, ele não se parecia em nada, aos nossos olhos, com um italiano, e não ficamos surpresos ao saber que era um alpinista apaixonado. Após a Segunda Guerra Mundial, quando o visitei em Verona, ele me mostrou uma foto de si mesmo e de Monsenhor Montini, tirada durante uma caminhada na montanha; aquele que estava mais próximo dele era Monsenhor Montini, a quem ele amava e admirava muito. Ele viveu o tempo suficiente para ver seu amigo elevado à sé de Milão e, em sua última carta, escreveu-me estas palavras proféticas: "Monsenhor Montini, Arcebispo, Cardeal, Papa!". Ele se alegra, agora, no céu, com a realização de seu sonho.

Não demorei a descobrir que o jovem Monsenhor da Secretaria de Estado e eu mesmo, monge de Maria Laach, tínhamos muitos pontos em comum. Foi seu amor pela Liturgia e pelo Canto Gregoriano que trouxera Monsenhor Montini a Santo Anselmo. Mais tarde, ele visitou Maria Laach e outras abadias beneditinas. Como leitor apaixonado, conhecia bem a literatura litúrgica, incluindo as obras do Padre Ildefonso, a quem tinha em alta estima.

Além disso, tínhamos em comum o mesmo amor pelos jovens. Esse amor pelos jovens fez com que ele voltasse sua solicitude de sacerdote para os estudantes da Universidade de Roma. Foi capelão dos "fucini" — membros da Federação Católica Italiana de Estudantes Universitários —, iniciando-os em suas homilias nas riquezas da liturgia e na Palavra de Deus. "Aproximar-me-ei do altar de Deus, de Deus, a alegria da minha juventude!". Essas palavras da oração ao pé do altar, desde os primeiros dias da minha conversão à vida monástica, produziram em mim uma impressão indelével. Elas expressavam a afinidade interior entre o que havia de melhor no movimento da juventude e a Cristandade. Agora, eu sabia que o mesmo espírito preenchia o coração de Monsenhor Montini.


À primeira leitura deste texto, sente-se o coração derreter diante de tanta bondade, gentileza e dedicação a essa bela juventude. E então, quando se recupera a lucidez, percebe-se que esses "fucini", ponta de lança da Ação Católica italiana, tornaram-se a espinha dorsal da Democracia Cristã — sendo Aldo Moro o melhor exemplo.

Então, estremece-se ao ver, mais uma vez, efetuada diante de nossos olhos essa amálgama tão metódica da religião e da revolução. Por fim, compreende-se melhor que longo e minucioso treinamento moldara Paulo VI quando ele assumiu as rédeas da Igreja para realizar o mesmo trabalho em escala mundial.


Dedicado, como era, à juventude, não era um revolucionário. Com uma grande abertura às necessidades do nosso tempo, com seu desejo apaixonado de fazer seus estudantes compartilharem a vitalidade espiritual da Igreja, ele aliava uma terna veneração à tradição, à precisão de pensamento e a uma prudência delicada na ação. Em outras palavras, era um "romano" no melhor sentido da palavra, um homem de ordem e equilíbrio. Agora, podeis ver o que esse encontro significou para mim. Na pessoa de Monsenhor Montini, encontrei a resposta para o meu problema sobre a relação entre a "Vida" e a "Forma". Era um romano em quem Roma era novamente jovem, cheia de esperança no futuro e, ao mesmo tempo, profundamente enraizada no depósito da fé que recebera.


Dom WINZEN resume perfeitamente o que foi a ilusão de tantas boas pessoas, clérigos e leigos: acreditar que o molde romano, o estilo romano, era uma garantia suficiente para se engajar no diálogo com a Revolução e dele extrair a renovação da Igreja. Uma segunda ilusão, correlata à primeira, era acreditar que, por ser "romano", Monsenhor Montini não poderia ser "revolucionário": se assim fosse, como explicar que, em 1945, a camarilha modernista do Príncipe Rampolla tenha feito dele o seu campeão rumo às mais altas funções eclesiásticas?


Como essa renovação cristã era diferente desse renascimento da Roma pagã que a arrogância de Mussolini tentava realizar ao mesmo tempo! O Duce desempenhava o papel de César, enquanto a Roma cristã não podia senão realizar uma reunião no espírito do Salvador glorificado, cuja imagem acolhia o povo de Deus do alto das absides de tantas basílicas romanas, na majestade da verdade e na bondade do Bom Pastor. "Povo de Sião, vê, o Senhor vai vir para salvar as nações; o Senhor vai fazer ressoar a majestade da sua voz, para a alegria do vosso coração".

Este Introito do segundo Domingo do Advento exprime admiravelmente a nova vida que, de uma maneira ainda oculta e mal perceptível, começava a despontar na Igreja de Roma. Sua origem não era o leão, mas o Cordeiro de Deus. Essa nova vida não eclodiu em grandes campanhas ou organizações. Começou nas catacumbas com um pequeno grupo de sacerdotes e leigos, conhecidos pelo nome de "Cultores martyrum" (veneradores de mártires). No meu tempo, o seu chefe era o Mestre de Cerimônias do Papa, Monsenhor RESPIGHI.


Certamente, o contraste é bem marcado e pode inclinar o leitor a aceitar como verdade absoluta uma oposição tão manifesta. Infelizmente, a verdade é outra, e a distância não é tão grande entre essas duas formas revolucionárias; a História se encarregaria, aliás, de mostrar que o mais perigoso no caso não era o neopagão assumido, nem as grandes organizações, mas sim as pequenas redes ocultas que se preparavam — e já se treinavam — para fazer explodir a liturgia tradicional sob o pretexto de renová-la. É, enfim, bastante curioso e carregado de sentido ver o Mestre de Cerimônias do Papa à frente de tal grupo; em seu gênero, esse traço ilustra o que se tornou uma constante desde o Vaticano II: os ataques contra a Tradição e a Autoridade fazem-se sob o impulso dos próprios representantes da Autoridade — é a Revolução pelo alto, avatar religioso do princípio sinárquico.


Muitas vezes, nas catacumbas de Roma, uma mulher é representada com as mãos levantadas em atitude de oração. É a imagem dos defuntos vivendo na paz de Cristo e, ao mesmo tempo, a da Igreja intercedendo pelos defuntos. Esse quadro da "Ecclesia Orans" (a Igreja em oração), como é denominado, indicava da melhor forma o cerne da renovação litúrgica.

Menciono isso porque nos ajuda a compreender o que está no mais profundo do coração do nosso Santo Padre. Falei do equilíbrio entre a Vida e a Forma, entre o "novo" e o "antigo", o passado e o futuro, o que tanto me atraiu em Monsenhor Montini. Mas é essencial observar que esse equilíbrio não é meramente uma questão de disciplina ou de espírito local. Ele tem suas raízes na oração. Brota da boa ordem entre a contemplação e a ação. Sob sua pressa em servir às almas e em compreender a época presente, um profundo amor pela vida monástica, pela solidão, pela quietude e pelo recolhimento habitava o coração de Monsenhor Montini.

Mais tarde, quando se tornou Arcebispo de Milão, encontrou-se à frente da diocese mais progressista da Itália, desenvolvendo-se muito rapidamente. Mas, enquanto empenhava todos os seus recursos para enfrentar o desafio do desenvolvimento, manteve sempre em primeiro plano em sua mente a ideia de criar, em meio a toda a sua vida ativa, um fluxo reservado à adoração, onde o coração se elevaria e se refrescaria no Senhor.

É por essa razão que ele teve tanto interesse na fundação do Mount Saviour e na vida beneditina em geral. Reconhecia o esforço constante que se fazia de diferentes maneiras para combinar a contemplação e a ação, a vida monástica e a vida apostólica. Quando, pela primeira vez, lhe falei da ideia do Mount Saviour, seu conselho foi de "manter as grades abertas". Ele desejava que a vida monástica irradiasse na vida da fé.


Estes poucos parágrafos estão carregados de ambiguidades e podem perturbar um leitor apressado ou aquele cujo espírito seja tentado por um certo maniqueísmo. Aqui, particularmente, seria falsa e cegante a concepção que vislumbrasse, de um lado, a Tradição, toda pura, toda espiritual, toda orante, e, de outro lado, a Revolução grosseiramente materialista, carregada de escórias vis e ocupada unicamente com a satisfação de baixas paixões.

Se as coisas se apresentassem assim, tudo seria muito simples, não haveria ambiguidades... e este Boletim jamais teria existido.

Mas as coisas não são assim, e as formas revolucionárias são sutis, tanto quanto as artimanhas do demônio. Muito mais podem servir a uma causa objetivamente revolucionária pessoas que não o são em si mesmas — ao menos no início — e que se apresentam revestidas de aparências cristãs: esse caso está longe de ser raro e foi, por muito tempo, uma legião; é o caso dos católicos liberais.

Se quisermos aprofundar a questão, é preciso distinguir vários graus entre esses liberais — o que fizemos em um artigo do Boletim nº 1 — não para separar um bom de um mau liberalismo, pois, em certo sentido, o melhor é o pior (ou seja, o mais enganador, portanto o mais perigoso), mas para compreender a atitude das pessoas concretas, mais complexa do que o simples jogo das doutrinas.

Assim, o caso de um católico zeloso da vida interior no meio da vida ativa, ao mesmo tempo que deseja abrir a Igreja ao mundo ou mesmo batizar a Revolução, não é extraordinário. É-o tanto menos quanto, no limite, tal necessidade é sentida mesmo em um simples plano natural: não é essa necessidade insatisfeita que lança hoje milhões de ocidentais em direção ao Yoga ou ao Zen?


Queridos amigos do Mount Saviour, nesta crônica de Natal, tentamos fazer-vos partilhar o vínculo particular que nos une ao nosso Santo Padre, o Papa Paulo VI. Sejamos seus fiéis discípulos. Respondamos às profundas aspirações de seu coração. Sejamos sua coroa e sua alegria. Seguindo seu exemplo, mantenhamos, nesta época de renovação na Igreja, o justo equilíbrio entre a "Vida" e a "Forma", entre o "novo" e o "antigo", entre a contemplação e a ação. Sejamos romanos no sentido católico do termo.

Vedes por que via maravilhosa a Divina Providência guiou a Igreja, se lançardes um olhar para trás, para o caminho que percorremos desde os nossos 20 anos. Quem teria jamais pensado que seria Monsenhor Montini quem, como Paulo VI, promulgaria os primeiros decretos do Segundo Concílio do Vaticano e que esses decretos trariam a renovação dessa mesma vida litúrgica da Igreja que ele passara a amar tão profundamente e que estava na fonte de toda a sua atividade de sacerdote.

É tempo agora de dar vida a esses decretos, entrando deliberada e calorosamente no espírito que está por trás deles. É o espírito dessa proclamação celeste que acompanhava o Verbo que se fazia carne para habitar entre nós: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que são amigos de Deus".

Padre Damase WINZEN, O.S.B.

Não se pode ler estas linhas sem experimentar um sentimento de indignação que se transforma em dor numa segunda leitura. Diante do cataclismo e do desastre, não apenas litúrgico mas eclesial, que acompanhou e seguiu o aggiornamento do Vaticano II — o Concílio de João XXIII e de Paulo VI —, tal otimismo só pode parecer irrisório.

Mais ainda: ele leva a questionar legitimamente a lucidez intelectual e espiritual de seu autor, um Padre fundador! Mas, afinal, já temos a resposta, acabamos de lê-la: tal cegueira é fruto da formação recebida durante quarenta anos; ora, esse caso não foi único, foi até generalizado: não é ela que explica a atitude de tantos Padres conciliares, inconcebível à primeira vista?

É por esse motivo que a carta de Dom WINZEN nos pareceu digna de interesse e que a comentamos rapidamente. Por seus diversos aspectos, tanto no que tem de bom quanto no que tem de mau, pode-se dizer, ela nos descreve, melhor do que qualquer pessoa de fora poderia fazer, a paisagem mental e espiritual de um "homem do Concílio".

De fato, o autor não é um daqueles funcionários eclesiásticos que se pode facilmente suspeitar de ter passado para o lado do inimigo, "à moda romana", sub-repticiamente, entre portas, mas, muito pelo contrário, é um homem de oração, um monge, cujo testemunho é credível e, por isso mesmo, tanto mais precioso.

Quatro traços parecem-nos resumir a lição que dele podemos tirar:

  1. Quando se desenvolveu a agressão multiforme da Revolução contra a Igreja, no decorrer do século XIX, os alicerces do Cristianismo já pareciam fortemente corroídos; em particular, aqui, no plano litúrgico, a prática geral trazia a pesada marca dos séculos passados e a liturgia já não constituía mais, sobretudo para os leigos, o veículo privilegiado da catequese e da espiritualidade: com demasiada frequência, era apenas uma formalidade, no duplo sentido de obrigação mal sentida e de forma sem vida, em vez de ser o canal essencial da vida cristã.

  2. Nessas condições, é lógico que a restauração litúrgica tenha sido sentida como uma urgência necessária, uma condição prévia à restauração do corpo cristão para torná-lo forte diante de seus agressores. E, de fato, os diferentes mestres dessa empreitada, tanto o Padre Julien Aymard quanto Dom Guéranger, eram contrarrevolucionários conscientes e decididos.

  3. A partir de 1890, tendo a linha de "Adesão" (Ralliement) à Revolução prevalecido pouco a pouco e desembocado, nomeadamente, na crise modernista, a obra de restauração tornou-se mais ambígua, ao menos entre alguns de seus promotores. Quando, 50 anos mais tarde, a Adesão foi definitivamente alcançada, o equívoco pôde assegurar suas posições e desenvolver-se; o período descrito por Dom Winzen é típico dessa mistura insidiosa de "retorno à Tradição" e "passagem para a Revolução", que permitia a cada um sentir-se satisfeito, vendo o que lhe conviesse.

  4. Arrastados nesse movimento, nessa dinâmica, um grande número de homens — não medíocres, mas homens de valor como Dom Winzen — foram cegados e "tomaram alhos por bugalhos". Posteriormente, eles arrastaram a multidão de seus discípulos, cheios de admiração por mestres que eram, efetivamente, admiráveis sob muitos aspectos.

Essa cegueira, tanto dos mestres quanto dos discípulos, encontra, na verdade, sua origem e sua explicação última (se não total) nessa atitude de não-resistência à Revolução que constitui a essência da Adesão (Ralliement) e, para a maioria também, em um desconhecimento profundo da Revolução, que não é o mistério menos importante de toda esta questão.

Essa miopia, anulando tesouros de dedicação e de boa vontade, fez daqueles que dela foram vítimas os melhores agentes da Revolução — tanto melhores precisamente por serem inconscientes, pois a esse exército de cegos não faltaram os guias da mentira descarada, a serviço direto do Adversário para cumprir sua tarefa.

A reunião desses elementos confirma o que todos puderam constatar: a aceitação ou a recusa da Revolução litúrgica tornaram-se o principal critério da aceitação ou da recusa da penetração da Revolução no Cristianismo. Certamente, a tomada de consciência é tardia, mas o essencial é que ela tenha ocorrido e que possa conduzir, finalmente, à verdadeira restauração litúrgica que se impõe há muito tempo e que ainda está por realizar.

P. R.