As CONDIÇÕES GERAIS DO PODER E DA RELIGIÃO DOS DEMÔNIOS
Não há dúvida de que os demônios aspiram a receber a adoração dos homens e que o conseguem em parte; certas religiões lhes estão inteiramente submetidas, por exemplo o politeísmo, mas não apenas ele. Eles aspiram também a governar as sociedades humanas e o conseguem parcialmente e em certas circunstâncias.
Gostaríamos de examinar qual é a origem desses poderes religiosos e civis dos demônios; quais são a sua extensão e as suas modalidades.
Não se espere um tratado completo de demonologia. Definiremos apenas alguns pontos de referência que permitirão, posteriormente, sobretudo no estudo das heresias, das seitas e das revoluções, discernir a ação — superficial ou profunda, conforme o caso — dos demônios nas situações religiosas e civis que a história e a atualidade podem apresentar.
I - UMA ESTATÍSTICA PRELIMINAR
Sabe-se que o demônio figura, na Sagrada Escritura, sob denominações muito diversas. Um dicionário de concordâncias permite conhecer, para cada uma, o número de menções que lhe são feitas no texto do Antigo e do Novo Testamentos. Eis um quadro resumido. Contudo, as locuções compostas, tais como "os espíritos de malícia" ou "as potências das trevas", impossíveis de listar, não foram contabilizadas.
Ver-se-á que uma parte importante da Sagrada Escritura é consagrada à revelação do inferno, dos demônios e da BESTA.
| Antigo Testamento | Novo Testamento | |
|---|---|---|
| DIABOLUS (Diabo) | 6 | 34 |
| SATANAS (Satanás) | 13 | 33 |
| DRACO (Dragão) | 36 | 12 |
| SERPENS (Serpente) | 26 | 16 |
| LUCIFER (Lúcifer) | 1 | 0 |
| LEVIATHAN (Leviatã) | 6 | 0 |
| BEHEMOOTH (Beemote) | 1 | 0 |
| BELLAL (Belial) | 12 | 1 |
| BAAL | 46 | 1 |
| BEELZEBUTH (Belzebu) | 4 | 7 |
| BEELPHEGOR (Belfegor) | 6 | 0 |
| MAMMON (Mamon) | 0 | 4 |
| MALUS - MALUM (Mal) | 651 | 44 |
| TOTAL | 808 | 152 |
II - A NATUREZA DA PROVAÇÃO
Menciona-se frequentemente uma tradição cristã, que se diz encontrar-se também entre os judeus, segundo a qual os demônios prevaricaram nas seguintes circunstâncias:
Os anjos conheciam, desde a origem, a precariedade de sua situação bem-aventurada. Deus os havia criado em um estado que não deveria durar eternamente. Eles permaneciam como que suspensos sobre o nada de onde haviam sido tirados. Para serem confirmados em sua beatitude presente, deviam adquirir uma participação na Vida do Eterno. Estavam, portanto, na expectativa de uma misteriosa divinização.
Foi nessa situação de expectativa que Deus lhes mostrou, por antecipação, a imagem Daquele que deveria trazer-lhes, sobrenaturalmente — isto é, milagrosa e misericordiosamente — essa vida divina: era o HOMEM-DEUS, o Verbo Encarnado.
Assim, para participar da vida divina, os anjos teriam doravante que reconhecer a preeminência de um mediador entre Deus e a criatura, de um distribuidor universal da ajuda gratuita sem a qual a elevação à vida de Deus não é, obviamente, possível.
Ora, o Homem-Deus não era um puro espírito como os anjos. Lúcifer, o mais belo de todos, não quis consentir nesse reconhecimento de soberania porque, estando ele próprio no topo da hierarquia angélica, estimava, em sua lógica puramente natural, que a união hipostática (isto é, a união descendente de Deus com a criatura) lhe era devida, a ele, o mais fervoroso dos adoradores de Deus.
Já que era preciso divinizar-se para sair da precariedade, Lúcifer saberia muito bem divinizar-se a si mesmo, superar-se apenas com os meios da natureza angélica. E ei-lo percorrendo os nove coros dos anjos para ali constituir um partido: "Eu serei como Deus"Deus", dizia-lhes. São Miguel opôs-lhe a divisa que conhecemos: "Quis ut Deus?", "Quem como Deus?".
Por inveja em relação ao HOMEM-DEUS, eis que ele se intitula a si mesmo ANJO-DEUS: "Invidia autem diaboli mors introivit in orbem terrarum"terrarum". É pela inveja do diabo que a morte entrou no orbe das terras (Sab. II - 24).
Os anjos fiéis, ao contrário, não apenas aceitaram a soberania do Verbo Encarnado, mas a desejaram: "...donec veniret desiderium collium aeternorum"aeternorum" (Gên. XLIX - 26). O "DESEJO das colinas eternas"eternas" é Nosso Senhor. E as colinas eternas são os anjos.
Os demônios foram lançados no abismo infernal. Mas o Apocalipse fala também de sua precipitação sobre a terra: "E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, aquele que é chamado diabo e Satanás, o sedutor de toda a terra; ele foi PRECIPITADO SOBRE A TERRA, e seus anjos foram precipitados com ele"ele" (Apoc. XII - 9).
Devemos, portanto, esperar encontrar o ódio à Encarnação nas manifestações terrestres dos demônios, isto é, nas heresias, nas seitas e, geralmente, em todas as doutrinas inspiradas mais ou menos diretamente pelos demônios.
III - O ABANDONO DAS MORADAS
Conhecemos, pela Epístola Católica de São JUDAS, uma das modalidades da revolta dos anjos. Ela é importante de se notar porque encontramos as suas consequências no comportamento dos demônios sobre a terra.
Eis o texto de São JUDAS: "Quero lembrar-vos o que outrora aprendestes, que Jesus... reservou para o julgamento do grande dia, presos em cadeias eternas, no seio das trevas, os anjos que não conservaram o seu principado, mas que abandonaram a sua própria morada"morada" (Judas I, 5-6).
Os anjos rebeldes abandonaram, portanto, a sua morada, isto é, o coro ao qual pertenciam. Colocaram-se em estado de não-residência.
Mas eles também abandonaram o seu principado, ou seja, as funções, as prerrogativas e os poderes que decorrem do pertencimento a um coro. Conservaram apenas a potência que é inerente à natureza angélica.
Excluíram-se, assim, da hierarquia angélica e constituíram um partido; mas permanecendo ainda no céu, uma vez que a batalha, que se situa antes da sentença de expulsão, ocorreu forçosamente no céu. Em linguagem humana, poderíamos dizer que eles invadiram os átrios celestiais para se entregarem a uma verdadeira manifestação de desobediência.
"E houve um combate no céu: Miguel e os seus anjos batiam-se contra o dragão; e o dragão e os seus anjos combatiam; mas não puderam vencer, e o seu lugar não se encontrou mais no céu"u" (Apoc. XII, 7-8).
Em que este abandono de morada e de função nos interessa? Esta modalidade da revolta permite-nos compreender como os espíritos rebeldes se tornaram ASTROS ERRANTES. Eles terão, portanto, tendência a comunicar aos homens que inspiram o seu gosto pela ubiquidade, a sua necessidade febril de estar em todo o lado ao mesmo tempo: "E o Senhor disse a Satanás: 'Donde vens?'. Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: 'De dar a volta ao mundo e de nele passear'passear'" (Jó I, 7).
O Sábio da Escritura, ao contrário, "mantém-se sob a sua figueira"figueira". Ele não aspira a uma ubiquidade para a qual a alma humana não foi feita.
IV - O REINO DIVIDIDO CONTRA SI MESMO
Não existem anjos neutros, isto é, anjos que, no combate celeste, não tivessem tomado partido nem por Deus, nem por Lúcifer, e que tivessem conservado desde então essa posição intermédia.
Por outro lado, no Céu vivem apenas os bons anjos e nos infernos apenas os maus. Mas na terra, os bons e os maus não estão separados; eles se entrecruzam. O homem encontra tanto uns quanto outros. É por isso que, nos estados místicos, é preciso entregar-se ao DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS. Pois, assim que a alma se eleva ao mundo espiritual, pode encontrar-se na presença de anjos fiéis, como também de anjos rebeldes.
Ora, é uma obra difícil determinar a quais espíritos pertencem as inspirações, as palavras ouvidas e as diversas visões. Inversamente, iludir-se-ia quem pensasse que esse trabalho de discriminação não é necessário e que todo espírito vem de Deus: "Não creiais em qualquer espírito; mas vede pela prova se os espíritos são de Deus"Deus" (I João IV, 1-2).
Os anjos estão repartidos em três hierarquias. Cada uma das três hierarquias compreende três coros de anjos, o que perfaz ao todo nove coros. À hierarquia mais elevada pertencem os coros dos SERAFINS, dos QUERUBINS e dos TRONOS. À hierarquia intermédia pertencem os coros das DOMINAÇÕES, das VIRTUDES e das POTESTADES. A hierarquia inferior compreende os coros dos PRINCIPADOS, dos ARCANJOS e dos ANJOS.
Ora, sabemos que anjos dos nove coros prevaricaram. Nenhum dos nove coros foi poupado pelo contágio da revolta. Encontram-se, portanto, no inferno grandes serafins, poderosas virtudes, bem como simples anjos.
A hierarquia dos nove coros foi conservada? Nada se lê sobre o assunto na Escritura. Nosso Senhor diz apenas que "o Reino de Satanás está dividido contra si mesmo"mesmo". É, pois, verosímil que ali se desdobrem formidáveis ambições. Satanás, no meio, governa pela DIVISÃO dos MEMBROS, porque não tem outro recurso. Enquanto Nosso Senhor governa pela harmonia dos membros.
Esta divisão dos membros não é verdadeira apenas para o reino infernal de Satanás. É-o também para o seu reino terrestre, que é o centro de prodigiosas tensões internas e de discórdias por vezes multisseculares. E tal situação é causa de graves erros para o homem. Pois o inimigo de um demônio não é necessariamente um anjo. O inimigo de uma má tradição não é necessariamente o fiel da boa; pode ser que ele seja o adepto de uma tradição ainda pior.
Em suma, observam-se na terra BATALHAS de DEMÔNIOS. E pode-se pensar que a mais antiga dessas batalhas é aquela que travam entre si, há milênios, os demônios "mentirosos" (isto é, aqueles que têm o poder e a permissão de se travestirem em "anjos de luz") e os "demônios homicidas", que não se travestem e são obrigados a mostrar-se tais como são.
Esta antiga rivalidade não aproveita, infelizmente, aos homens; pelo contrário. Pois ela serve apenas para uma coisa: dirigir para os anjos mentirosos as pobres almas que estão aterrorizadas pelos anjos homicidas. E não se imagine que esta rivalidade permanece teórica. Encontram-se casos de aplicação na rivalidade de certas seitas. Mas este seria um tema amplo.
Não se sabe qual foi a proporção de anjos prevaricadores em relação àqueles que permaneceram fiéis. Sabe-se apenas que, em valor absoluto, foram extremamente numerosos: "Legião é o meu nome"nome" (Marcos V, 9).
V - A NATUREZA ANGÉLICA
Os demônios continuam, pois, a ser anjos. Três traços particularmente importantes da sua psicologia decorrerão desta natureza angélica: a lógica no raciocínio, o endurecimento e a pressa no comportamento.
A LÓGICA DEMONÍACA — O demônio é mentiroso, mas é também um lógico: os seus raciocínios, que são fundamentalmente sofismas, apresentam-se com um rigor implacável. Eles conseguem impor-se ao espírito do homem com uma força constrangedora. É preciso desconfiar muito deles. Não se deve acreditar ser melhor lógico do que ele.
Ou bem ele fará derivar consequências irrepreensíveis de um postulado que será falso, mas brilhante; ou bem partirá de uma premissa exata, mas fá-la-á sofrer uma série de deformações imperceptíveis e aceitáveis que a transformarão gradualmente.
Em ambos os casos, chegará a conclusões falsas, mas cuja falsidade será difícil de demonstrar se aceitarmos entrar no labirinto das suas demonstrações.
É de fora que se deve combatê-las. É pelos seus "frutos", isto é, pelas suas conclusões, que os raciocínios de Satanás, e daqueles que se lhe assemelham, revelam a sua origem. Não se deve entrar em discussão com eles.
O ENDURECIMENTO DEMONÍACO — Um demônio nunca se arrepende. Nunca confessa o seu erro. Por que isso? A natureza angélica é dotada de uma faculdade de conhecimento imediato. O anjo apreende num só olhar as consequências dos seus atos e das suas decisões.
Uma vez escolhida a sua orientação, os demônios nunca voltaram atrás. Tinham previsto tudo no momento da decisão. Não podem, portanto, alegar ignorância. A obstinação está na natureza do anjo decaído: "Perseverare diabolicum".
Tudo o que o demônio faz volta-se contra ele. Ele sabe-o e, apesar disso, a sua atividade não desespera, de modo que agrava incessantemente o seu estado.
Na terra, o endurecimento é uma das marcas do pertencimento ao mau espírito. Ao contrário, o arrependimento, que é uma forma de amor à verdade, é a marca do bom espírito.
A PRESSA DEMONÍACA — Certamente, o demônio é prudente. Mas não pode sê-lo até o fim. Pois a sua prudência não tem outra razão de ser senão a sua pressa fundamental de atingir os seus fins. E essa pressa provém de duas causas.
Vem, em parte, do fato de o demônio estar pressionado pelo tempo. Ele "sabe que lhe resta pouco tempo"tempo". Provém também da sua inveja em relação ao seu adversário: a tendência de Satanás é ANTEPOR-SE ao plano de Deus. Ele quer fazer antes de Jesus o que Jesus se dispõe a fazer. Quer imitá-lo antecipando-se a Ele.
Na terra, não deve surpreender-nos ver as empresas do demônio precederem as de Deus. O exemplo mais típico desta antecipação é o do Anticristo, que chegará imediatamente antes do Cristo glorioso, como para imitá-lo por antecipação.
Muitos teólogos escrevem "Anti-Christ"Christ", como em latim no texto da Vulgata. Anti quer dizer "contra". Esta ortografia não é, decerto, faltosa. Mas a que prevaleceu no francês corrente foi "antéchrist" [antecristo]. Ora, ante quer dizer "antes". Ela também é boa, pois marca bem esta ideia de antecipação que é tão real no comportamento terrestre do demônio.
VI - O NATURALISMO DOS ANJOS DECAÍDOS
Todos os anjos, como vimos, estavam destinados a participar da Vida divina. Essa participação foi proporcionada aos anjos fiéis pela ajuda da graça do VerbeVerbo Encarnado. Os anjos revoltados recusaram essa ajuda sobrenatural, escolhendo atingir sua finalidade apenas pelos meios da natureza angélica. É o que chamamos de "naturalismo" dos anjos decaídos.
Mas, então, não se trata mais, para eles, de participar da Vida divina. Sendo sua finalidade normal doravante impossível de alcançar, eles estão reduzidos a uma contrafação de divinização. Divinizar-se-ão a si mesmos. Proclamar-se-ão iguais a Deus. Far-se-ão proclamar Deus pelas criaturas. Mas, tendo sido expulsos do Céu, não podem mais contar senão com os homens para se tornarem adeptos de sua religião.
Não há melhor descrição da ambição desmedida do demônio do que aquela dada por Isaías: "Como caíste do céu, astro brilhante, filho da aurora? Como foste lançado por terra, tu que destruías as nações? Tu que dizias em teu coração: 'Subirei aos céus. Acima das estrelas de Deus, elevarei o meu trono. Sentar-me-ei no monte da Aliança, nas profundezas do Aquilão. Subirei sobre o topo das nuvens. Serei semelhante ao Altíssimo'. E eis que foste precipitado no Sheol, nas profundezas do abismo!" (Isaías XIV, 12-15).
Este texto de Isaías é memorável e resume todo o plano do demônio em relação a Deus e aos homens. Tornar-se o deus da religião humana: tal é a ardente ambição do "filho da aurora".
Ora, os homens são constituídos em vista da Religião de Nosso Senhor. Possuem, nas propensões de sua natureza, as faculdades que os levam ao Homem-Deus. É o que se chama de RELIGIOSIDADE NATURAL.
O demônio é, portanto, levado a substituir a Deus nos mecanismos dessa religiosidade natural. Ele trabalhará para fazer-se adorar pelos homens no lugar de Deus. Jamais essa ambição religiosa foi expressa de forma mais clara pelo demônio do que no momento da "Tentação no Deserto": "Dar-te-ei tudo isso se, prostrando-te, ME ADORARES"ADORARES". O texto latim diz claramente: "Tu ergo si ADORAVERIS coram me..." (Lucas IV, 6).
A religião pagã consistia precisamente num culto prestado aos demônios. Tal é a verdadeira natureza do paganismo. O ensinamento de São Paulo é absolutamente formal a esse respeito: "Digo que o que os pagãos oferecem em sacrifício, imolam-no a demônios. Ora, eu não quero que estejais em comunhão com o demônio"nio" (I Cor. X, 20).
Este era, aliás, o ensinamento constante do Antigo Testamento: "Sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios"nios" (Sl. CV, 37). O culto aos ídolos é, indubitavelmente, uma das formas da religião demoníaca.
Uma das formas apenas, pois havia outra. O politeísmo dos ídolos possuía, para os mais instruídos, uma infraestrutura panteísta da qual o demônio certamente também não estava ausente. A religião do cosmos era também a dele pelo simples fato de não ser a Religião revelada do Deus pessoal e criador. Ele se escondia muito bem por trás dos arcanos das cosmogonias panteístas.
Essa dupla religião perpetuou-se até a Vinda de Nosso Senhor de maneira pacífica. Sem dúvida, o demônio não era adorado abertamente como tal, pois isso seria exigir demais da religiosidade natural; ela se rebelaria. Mas ele não tinha adversário terrestre. Gozava de sua religião numa espécie de paz.
O regime mudou com o Advento de Jesus Cristo: "Não penseis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada"espada" (Mt. X, 34).
É agora na Igreja que o demônio terá de se infiltrar. Conhece-se o velho adágio: "Sempre que se constrói uma catedral, o diabo apressa-se a construir ali uma capela"capela". Uma capela onde se honraria um Cristo heterodoxo e disforme que não seria nada mais que Satanás sob os traços de Jesus.
Com efeito, não é mais nos mecanismos da religiosidade natural que o demônio deve imiscuir-se, mas nos da Verdadeira Religião. Não é mais por trás dos ídolos e do cosmos que ele deve ser implicitamente honrado. É como "Verdadeiro Deus" que ele deve travestir-se.
Os documentos que emanam da falsa mística fornecem com certa frequência AUTORRETRATOS do demônio que são apresentados como descrições da Divindade. É bastante comum; eis um exemplo:
Jacob BOEHME, o conhecido falso místico alemão (1575-1624), dá a descrição de Deus tal como resulta de suas "experiências": "A Divindade universal, em sua geração mais íntima e essencial, em seu núcleo, tem uma aspereza aguda e violenta onde a qualidade adstringente é uma atração excessiva, cerrada, dura, semelhante ao inverno quando faz um frio terrível e insuportável, a tal ponto que a água se transforma em gelo"gelo" (Citado por Julius Evola em "A Tradição Hermética", no capítulo IV).
É evidente que o ser assim descrito não é Deus. Quem é, então, se não o demônio?... Temos aqui o exemplo de um autorretrato do demônio fazendo-se passar por Deus.
Este é o ponto de chegada da trajetória naturalista dos anjos decaídos.
VII - MENTIROSO E HOMICIDA
A Sagrada Escritura faz-nos ainda uma revelação muito importante sobre a personalidade do demônio: "Ele foi HOMICIDA desde o princípio e não se manteve na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é MENTIROSO e pai da mentira"mentira" (João VIII, 44).
Homicida significa que ele prejudica a salvação das almas e as arrasta para o inferno. Ele mata as almas. Se, portanto, ele se mostrasse ao homem tal como é — ou seja, como homicida, como anjo das trevas —, causaria obviamente medo, seria aterrorizante. Mas, nesse caso, estaria longe da adoração que procura.
Ele vai, então, utilizar os talentos de mentiroso que formam sua própria essência para se travestir em anjo de luz. Um célebre texto de São Paulo é determinante a esse respeito: "Esses tais são falsos apóstolos, operários astutos que se disfarçam em apóstolos de Cristo. E não vos admireis, pois o próprio Satanás SE DISFARÇA EM ANJO DE LUZ. Não é, portanto, estranho que também os seus ministros se disfarcem em ministros de justiça"a" (II Cor. XI, 13-15).
O travestimento em anjo de luz é uma das condições necessárias para a existência da religião dos anjos das trevas. São os mesmos espíritos que são, ao mesmo tempo, homicidas e mentirosos. No entanto, encontramos na Terra cultos que pertencem a demônios mais especialmente homicidas. Foi o caso do culto de Tanit ou de Moloch, a quem se imolavam vítimas humanas.
Encontramos outras religiões, de longe as mais frequentadas, que pertencem a demônios mais especialmente mentirosos; estes não pedem vítimas corporais. Mais ainda: nelas cultiva-se o temor de Satanás-homicida, sem reconhecer que se venera, em última análise, Satanás-mentiroso.
Pois o temor ao demônio é um dos traços fundamentais da religiosidade natural. É necessário que esse temor seja cultivado também na religião de Satanás, já que é uma das condições da religiosidade.
VIII - O MINISTÉRIO DO DEMÔNIO
É evidente que as investidas do demônio não escapam ao governo de Deus. Deve-se reconhecer, inclusive, que "o maligno" exerce, sem o querer, um verdadeiro ministério providencial.
Façamos uma primeira constatação. Os demônios creem em Deus: "... Crês que há um só Deus, fazes bem; os demônios também o creem... e tremem"tremem" (Tiago II, 19). Acabamos de constatar que existe um "naturalismo" dos anjos decaídos. Eis, portanto, também neles, um incontestável TEÍSMO.
Constatemos agora que os demônios ainda têm AUDIÊNCIA junto a Deus; podem ser convocados; podem também vir reclamar o benefício dos direitos que adquiriram sobre os homens ao fazê-los cair. Nosso Senhor revelou a São Pedro que o demônio viera junto a Deus para reclamar seus direitos sobre os apóstolos, a fim de obter a permissão de tentá-los: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo"trigo" (Lucas XXII, 31).
E Deus, que é justo para com todas as suas criaturas, mesmo para com os demônios, permite o exercício desses direitos adquiridos; mas, obviamente, subordina-o ao Seu plano. Isto é, Ele não permite qualquer coisa, a qualquer momento. Ele permanece o Senhor.
Reler-se-á com interesse a cena descrita no 1º Livro dos Reis, capítulo XXII. Trata-se de inspirar uma decisão fatal a Acabe para que ele pereça; pois Deus decidiu fazê-lo perecer. Ora, para tomar sua decisão, Acabe cercou-se de adivinhos. Yahweh busca um mensageiro que vá enganar esses adivinhos para que deem um falso oráculo. Um espírito mau apresenta-se, então, para este ministério de engano. E o texto da Bíblia conclui: "Eis,Eis, pois, que Yahweh pôs um espírito de mentira na boca de todos os adivinhos que ali estão"o" (I Reis XXII, 23).
Se os maus espíritos escapassem ao governo de Deus, teríamos de concluir, com Zoroastro, pelo DUALISMO do bem e do mal, já que o mal teria sua independência. Mas, precisamente, ele não a tem. Os maus espíritos estão submetidos ao governo de Deus; é Ele quem os envia aos homens que o mereceram. Eis o exemplo de Saul: "O Espírito de Yahweh retirou-se de Saul e um espírito mau, vindo de Deus, lançou-se sobre ele. Os servos de Saul disseram-lhe: eis que um espírito mau de Deus se lança sobre ti"ti" (I Sam. XVI, 14-15).
"No dia seguinte, um espírito mau enviado por Deus lançou-se sobre Saul, e ele teve transportes [delírios] no meio de sua casa"casa" (I Sam. XVIII, 10). "Então, o espírito mau de Yahweh esteve sobre Saul, enquanto ele estava sentado em sua casa"casa" (I Sam. XIX, 9).
Outro exemplo bem conhecido é o de Jó. "Yahweh disse a Satanás: eis que tudo o que pertence a Jó ESTÁ EM TEU PODER; apenas não estendas a mão sobre ele"ele" (Jó I, 12).
Aos homens que se comportam como demônios — isto é, aqueles que, em vez de formarem Cristo em si, formaram o demônio —, também são confiados ministérios semelhantes. O exemplo mais surpreendente é o de Judas, a quem o próprio Nosso Senhor enviou para "executar": "Tendo, pois, molhado o bocado, tomou-o e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E após o bocado, naquele momento, Satanás entrou nele. Jesus disse-lhe: o que tens a fazer, faze-o depressa"depressa" (João XIII, 26-28).
O diabo contribui, assim, para a manutenção da Vinha do Senhor, executando as tarefas repugnantes. Há, nesta situação, uma grande ironia. É este papel de colaborador inconsciente e impotente que a sabedoria popular bem descreveu quando fala do DIABO SERVENTE (ou diabo que carrega pedras).
IX - O PRÍNCIPE DESTE MUNDO
É Nosso Senhor quem dá a Satanás o título de "Príncipe deste Mundo". Ele o faz em duas ocasiões. Quando anuncia a chegada da Paixão, indica que ela é obra do "Príncipe deste Mundo".
Será a hora do poder das trevas: "Hora est Potestas Tenebrarum". Eis o texto: "Já não falarei muito convosco, pois o Príncipe deste Mundo vem"vem" (João XIV, 30).
Mas Ele anuncia, por outro lado, que essa mesma Paixão é o primeiro ato do julgamento do Príncipe deste Mundo: "É agora o julgamento do mundo; é agora que o Príncipe deste Mundo será lançado fora. E eu, quando for elevado da terra, atrairei tudo a mim"mim" (João XII, 31-32).
Como não pode tratar-se de um título vão, já que não há redundância na Sagrada Escritura, deve-se pensar que se trata de uma função real. Tentemos, então, compreender como tal função pôde ser concedida ao demônio.
Foi no momento da Queda de Adão que o demônio adquiriu, ao menos em direito, se não de fato, a função e o título de Príncipe deste mundo. O demônio entrou nos direitos daquele a quem acabara de fazer perder o principado. Ele destronou Adão e tomou o seu lugar. Mas isso apenas em direito, pois, por misericórdia, Deus adiou o exercício efetivo desses direitos, em sua totalidade, para a época dos últimos tempos. É o Anticristo quem os exercerá plenamente.
Ora, Adão era sacerdote e rei. O Príncipe deste mundo é, portanto, por direito, sacerdote e rei. Sê-lo-á realmente no momento do Anticristo. O demônio não se esconderá mais por trás dos ídolos; ele mesmo pontificará como se fosse um ser divino. Da mesma forma, será o senhor temporal do mundo.
É, pois, o destronamento de Adão que está na origem dos poderes do Príncipe deste mundo. Até aqui, examinamos apenas suas ambições religiosas. Seus poderes temporais também não são negligenciáveis; mas seria necessário um estudo especial para expô-los. Pois, se há na história reis que exerceram o poder do demônio, há outros que exerceram os poderes de Jesus. Compreende-se que é difícil desvendar esses pertencimentos.
X - GOG e MAGOG - BEEMOTE e LEVIATÃ
Fala-se de GOG e MAGOG em Ezequiel (capítulos 30 e 31) e no Apocalipse (capítulo 20). Estes dois nomes designam forças terrestres que agem por conta do demônio; são forças terrestres do mal: "... Satanás será solto da sua prisão e sairá para seduzir as nações que estão nas quatro extremidades da terra, Gog e Magog, a fim de as reunir para o combate.combate..." (Apoc. XX, 7).
GOG tem o sentido de "telhado" ou "cobertura". Significa, portanto, a força satânica dissimulada, aquela que se tem dificuldade em reconhecer; GOG tem, pois, o sentido de ASTÚCIA.
MAGOG significa "sem telhado", isto é, sem dissimulação. É a hostilidade declarada, ostensiva e cínica. MAGOG tem, portanto, o sentido de VIOLÊNCIA.
Encontra-se na terra uma perpétua alternância entre a astúcia e a violência do demônio. Ora ele age como homicida, sem dissimulação. Ora opera como mentiroso cheio de astúcia. E ele constituiu forças terrestres que respondem, mais particularmente, umas à sua astúcia, outras à sua violência.
Foi assim que ele combateu a Igreja abertamente, suscitando-lhe inimigos externos, mas também sorrateiramente, fazendo nascer inimigos em seu interior.
Da mesma forma, as nações cristãs — e, em primeiro lugar, a França, que é a primogênita dessas nações — foram combatidas pela força no exterior, mas também por uma contaminação furtiva que as descristianizou.
As forças terrestres do demônio portam ainda, na Sagrada Escritura, outros nomes. É o Livro de Jó que no-los revela, no capítulo XL: BEEMOTE e LEVIATÃ.
BEEMOTE é a besta da terra: "Ele come a erva como o boi e as montanhas produzem pasto para ele"ele". Beemote personifica a violência, visto que: "O seu Criador o proveu de uma espada"espada". No entanto, possui traços que revelam a astúcia: "Dorme à sombra, no esconderijo dos canaviais e nos lugares húmidos"midos".
O LEVIATÃ é a besta do mar, pois é com um arpão que se tenta apanhá-lo. Também ele é de uma potência prodigiosa; mas possui mais sedução que o Beemote: "Não passarei em silêncio os seus membros, a sua força, a HARMONIA da sua estrutura... Soberbas são as fileiras das suas escamas, como selos estreitamente apertados... Os seus espirros fazem brotar a LUZ. Os seus olhos são como as pálpebras da AURORA... Faz ferver o abismo como uma caldeira. Faz do mar um VASO de PERFUME. Deixa atrás de si um rastro de luz. Dir-se-ia que o abismo tem cabelos brancos"brancos".
A malícia do Leviatã é mais difícil de discernir que a do Beemote. Mas ambas as bestas são apresentadas como impossíveis de vencer apenas pelas forças humanas. A descrição que delas é feita é profética: os símbolos bíblicos designam forças e circunstâncias que existiram realmente ao longo da história.
XI - A POSTERIDADE DA SERPENTE
A tentação e a queda original resultaram na divisão do gênero humano em duas "posteridades" irreconciliáveis. O dogma do pecado original fornece a inteligência do estado real da humanidade perante Deus. Se recusarmos admiti-lo, nada compreenderemos da história do mundo: "Porei inimizades entre ti (a Serpente) e a mulher, entre a tua posteridade e a posteridade dela"dela" (Gên. III, 15).
A posteridade da serpente é, obviamente, espiritual. São os "filhos da desobediência"ncia" de que fala São Paulo: "... segundo o Príncipe do poder do ar, do espírito que agora age nos FILHOS da DESOBEDIÊNCIA"NCIA" (Efés. II, 1). Algumas traduções trazem: "os filhos da incredulidade"incredulidade".
Todo homem pecador pertence, em certa medida, à posteridade da serpente: "Aquele que comete o pecado é do diabo, porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo"diabo" (I João III, 8).
Este estado de guerra, de que já falamos, é um fato contra o qual nada podemos: é aceito por Deus. A paz não pode resultar do acordo entre as duas posteridades, mas apenas da derrota da posteridade da serpente.
"Não vos prendais a um mesmo jugo com os infiéis. Pois que união pode haver entre a justiça e a injustiça? Que comunhão entre a luz e as trevas? Que acordo entre JESUS CRISTO e BELIAL? Que sociedade entre o fiel e o infiel?" (II Cor. VI, 14-15).
E, no entanto, os "filhos da incredulidade" não cessam de convidar todos os homens ao diálogo. É uma tentação à qual não se deve sucumbir. Já o vimos a propósito da lógica de Satanás. Vimos também que ele tem na terra a sua religião, isto é, o seu "cálice" e a sua "mesa":
"Não podeis beber ao mesmo tempo o CÁLICE do Senhor e o CÁLICE dos demônios; não podeis participar da MESA do Senhor e da MESA dos demônios. Queremos provocar o ciúme do Senhor? Somos porventura mais fortes do que Ele?" (I Cor. X, 21-22).
XII - O PAGANISMO
Não é inútil retornar ao paganismo antigo, pois existe um paganismo moderno que está sendo exumado por toda parte e que se espalha rapidamente entre os nossos intelectuais e na opinião corrente.
O paganismo não consiste apenas no culto aos ídolos. O politeísmo popular era completado, para as pessoas instruídas, por um panteísmo fundamental, o qual nada altera na verdadeira natureza da religião pagã. Ela continua sendo, aos olhos de Deus, A RELIGIÃO DOS DEMÔNIOS: "Todos os deuses das nações são demônios"nios" (Sl. XCV, 5).
É evidente que a Revelação nos ensina sobre a essência do paganismo muito mais do que pode fazer a erudição moderna mais avançada, a qual não vai ao fundo das coisas.
Mesmo tingida de um vago teísmo, a religião pagã não deixa de pertencer ao demônio: "... tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; mas desvaneceram-se em seus vãos raciocínios e o seu coração insensato obscureceu-se"se" (Rom. I, 21).
O Apóstolo dos Gentios, São Paulo, está informado sobre o verdadeiro pertencimento das nações às quais é enviado: elas pertencem a Satanás, e a sua missão consiste precisamente em fazê-las passar para o poder de Deus: "... dos gentios aos quais agora te envio, para lhes abrires os olhos, a fim de que se convertam das trevas à luz, e do poder de Satanás para Deus"Deus" (Atos XXVI, 17-18).
A Escritura não distingue, entre os gentios, diversas religiões. Fora da Igreja de Nosso Senhor, não há, no fundo, senão uma única e mesma religião pagã. O teísmo ou o panteísmo subjacentes em nada alteram este fato.
Mas o paganismo infiltrou-se também em Israel. Acompanhado do seu panteísmo explicativo, que serve de elo entre os deuses, veio alterar a tradição judaica, isto é, a Cabala: "Misturaram-se com as nações e aprenderam as suas obras. Serviram os seus ídolos, que foram para eles um laço. Sacrificaram os seus filhos e as suas filhas aos demônios"nios" (Sl. 106 (Vulg. 105), 35-37).
E por qual canal o politeísmo penetrou em Israel? É sempre o mesmo: A MAGIA; é ela que serve de veículo aos demônios: "Não se ache entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem quem se dê à adivinhação ou à magia, nem quem pratique o agouro e os encantamentos, nem quem recorra a feitiços, nem quem consulte os evocadores e os adivinhos, nem quem interrogue os mortos. Pois todo o homem que faz estas coisas é objeto de abominação perante Yahweh"Yahweh" (Deut. XVIII, 10-12).
XIII - O ANTICRISTO
O Anticristo verdadeiro será o último. Ele aparecerá no fim dos tempos e será derrubado por Cristo em Seu Advento de Majestade!
Mas, antes disso, ele terá tido PREFIGURAÇÕES, isto é, precursores. Outros personagens tê-lo-ão precedido, animados pelo mesmo espírito, mas desempenhando um papel menos importante.
São João Evangelista estende de forma muito ampla a qualificação de anticristo. Atribui-a a todo homem que não reconhece Jesus como sendo o Cristo: "Assim como ouvistes que o Anticristo deve vir, também agora há muitos anticristos"anticristos" (I João II, 18).
Esta extensão é mesmo um dos traços da sua doutrina: "Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse tal é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho"Filho" (I João II, 22). Ou ainda: "... todo o espírito que não confessa esteque Jesus Cristo veio em carne não é de Deus:Deus: é o espírito do anticristo"anticristo" (I João IV, 3).
Sem dúvida, este "espírito do anticristo" está muito difundido. Mas não se deve concluir daí que o nome e a noção designem apenas um fenômeno coletivo. A vinda de um personagem encarnando esse espírito e merecendo esse título é indubitável. São Paulo dá uma descrição do Anticristo, ao qual designa pela fórmula de FILHO DA PERDIÇÃO: "Ninguém de modo algum vos engane; porque primeiro virá a apostasia e manifestar-se-á o homem do pecado, o filho da perdição, o adversário que se levantará contra tudo o que se chama Deus ou que é objeto de culto, a ponto de se assentar no santuário de Deus, apresentando-se como se fosse Deus"Deus" (II Tess. II, 3-4).
Em outra passagem, São Paulo chama-o de O ÍMPIO: "E então se descobrirá o Ímpio, a quem o Senhor exterminará com o sopro da sua boca e aniquilará com o brilho da sua Vinda. Na sua aparição, este ímpio será, pelo poder de Satanás, acompanhado de toda a sorte de milagres, sinais e prodígios mentirosos, com todas as seduções da iniquidade para aqueles que se perdem, porque não abriram o seu coração ao amor da verdade que os teria salvado"salvado" (II Tess. II, 8-10).
O ensinamento da Escritura a respeito do Anticristo é, pois, claro: o personagem principal virá por último, mas antes dele terá havido numerosas prefigurações.
Resta uma questão: pode-se falar, para o Anticristo, de um CORPO MÍSTICO? Nem a expressão, nem a noção são correntes entre os escritores religiosos. Contudo, elas não esbarram em qualquer dificuldade teórica.
Assim como Cristo possui um "Corpo Místico", que é a Igreja, da mesma forma o Anticristo possui a sua "contra-igreja", ou melhor, as suas diversas "contra-igrejas". Pois é perfeitamente compreensível que o corpo místico do Anticristo seja disforme, monstruoso, polimorfo. É igualmente gigantesco.
Pois este "Corpo Místico" nada mais é do que o "reino dividido contra si mesmo" de que fala a Escritura. É o conjunto formado por todas as falsas religiões. É o ecumenismo das falsas religiões.
É também o que elas chamam de A BESTA ou o DRAGÃO. Vimos inclusive que havia duas bestas, pois "A Besta" é dupla: Beemote, besta da terra, e Leviatã, besta do mar. O Livro de JÓ mostrou-nos o seu poder, muito superior ao do homem. E é aqui que chegamos agora. Como extirpar a besta, instrumento do falso profeta?
XIV - A EXTIRPAÇÃO DA BESTA
Extirpar "a Besta" é uma obra acima das forças do homem, pois ela não apenas possui um poder sobre-humano, mas goza de verdadeiros direitos sobre este mundo. Somente Jesus detém os poderes e os direitos necessários para abatê-la. É Sua obra pessoal. A Igreja, que é MILITANTE, participa da luta de seu Chefe, mas não a dirige. Cada cristão é, também ele, militante, isto é, soldado. Examinemos as condições gerais do combate, várias vezes milenar, no qual estamos engajados.
A condição do mundo é o dilaceramento entre dois senhores que gozam de direitos opostos sobre o mesmo patrimônio e que fazem guerra entre si. Este combate das DUAS BANDEIRAS (também chamado das "duas Cidades") é uma das grandes verdades do Cristianismo. Encontra-se frequentemente menção a ele nos atos do magistério, como, por exemplo, nas primeiras palavras da encíclica Humanum Genus de Leão XIII: "... o mundo dividiu-se em dois campos inimigos, os quais não cessam de combater...".
A batalha entre Jesus e Belial está sujeita, como todos os combates, a FLUTUAÇÕES. Nosso Senhor proporciona à Igreja e às nações cristãs períodos de triunfo. No entanto, Ele também permite que, em certas épocas, seu adversário pareça verdadeiramente vitorioso. É o caso dos nossos dias. Mas, se é necessário que o escândalo de tais vitórias aparentes ocorra, não devemos ser daqueles por quem ele ocorre. É preciso saber reconhecer as forças do mal para não ser arrastado pela correnteza. É para contribuir com esse reconhecimento que acabamos de resumir a "CIÊNCIA DO MAL". Expliquemos o fundamento dessa ciência.
Sabe-se que o homem, nas origens, consumiu o fruto da "árvore da ciência do bem e do mal" de maneira ilícita e prematura. Em vez de esperar prudentemente que a revelação lhe fosse feita em tempo oportuno, quis fazer a experiência por si mesmo. Consumação culposa, portanto.
Ainda assim, a árvore era boa, pois havia sido plantada por Deus, e eis agora o homem em posse dessa ciência, excelente em si mesma, do bem e do mal. Não está mais em seu poder ignorá-la. Ele é até obrigado a cultivá-la, já que o mal e o Maligno o cercam por todos os lados, chegando a penetrar no âmago de si mesmo.
Ora, a Escritura contém precisamente a revelação de Cristo e a do Anticristo, isto é, do bem e do mal. Ela é, portanto, a principal fonte desta ciência, a qual é dupla: conta com dois capítulos que se equilibram. Não se deve permitir que a ciência de Cristo, por mais amável e confortadora que seja, faça esquecer a ciência repulsiva e inquietante do Anticristo.
Mas a ciência do mal não se reduz à da fraqueza humana: "Pois não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas contra os PRINCIPADOS, contra as POTESTADES, contra os DOMINADORES deste mundo de trevas, contra os espíritos de malícia espalhados nos ares"ares" (Efés. VI, 12).
Nosso inimigo, portanto, não é tanto a matéria, mas o mau espírito. E é isso que não compreendem certos pensadores, cristãos ou não, que, esperando desviar seus leitores do materialismo, exaltam o que chamam de "valores espirituais". Não basta, com efeito, tender ao espírito, já que existem dois espíritos. Há uma escolha a ser feita. A revelação apostólica ensina claramente a necessidade do DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS: "Não creiais em qualquer espírito; mas vede, pela prova, se os espíritos são de Deus"Deus" (I João IV, 1-2).
Apliquemos, portanto, as regras do discernimento dos espíritos ao mundo que nos cerca. Elas nos farão reconhecer as forças terrestres que procedem dos demônios e que, por conseguinte, gozam do mesmo estatuto que eles e são animadas pelos mesmos comportamentos que resumimos neste estudo.
Constataremos, então, que essas forças adversas são gigantescas. É claro que não faremos aqui o seu recenseamento detalhado. Notemos apenas seu enorme poder, pois compreendem a maioria dos Estados temporais, todas as seitas secretas e todas as falsas religiões. A descrição global e profética delas é dada no Livro de JÓ: "Amarrarás o Leviatã para divertir tuas filhas?... Encherás a sua pele de dardos? Atravessarás a sua cabeça com o arpão?... Quem, pois, ousaria resistir-me face a face? TUDO O QUE ESTÁ DEBAIXO DO CÉU É MEU... Se o atacarem com a espada, a espada não resistirá, nem a lança, nem o dardo, nem a flecha. Ele considera o ferro como palha e o bronze como madeira carcomida"carcomida" (Jó XLI).
Diante desta hidra colossal, arrastamos um velho erro do qual temos dificuldade em nos livrar. É o do humanismo cristão, que acreditou ser possível à Igreja conquistar o mundo pelos meios do mundo.
É-nos necessária hoje uma estratégia mais lógica. A Besta só pode ser repelida, ou ao menos contida por um tempo, pelo poder próprio do Verbo Encarnado, isto é, pela GRAÇA, força de uma ordem superior à natureza.
E qual é a grande regra da ECONOMIA DA GRAÇA, de sua repartição, de sua distribuição, de sua aplicação? É esta: as graças são feitas para ser distribuídas, mas sob a condição de serem pedidas; muitas graças se perdem por não terem sido pedidas. Nosso Senhor é chamado, na Escritura: "O Desejado das colinas eternas"eternas" (Gên. XLIX, 26). Se os anjos inocentes tiveram de desejá-Lo, com muito mais razão os homens pecadores. O Verbo Encarnado não dá suas graças àqueles que não as pedem. Sem dúvida, Ele dispõe os corações para esse pedido, mas não os constrange a ele.
Encerramos aqui nossa análise para não entrar em especulações propriamente estratégicas, pois isso seria um assunto vasto e de outra natureza. Terminemos com uma conclusão de dois pontos. O primeiro é este: atacar as formidáveis instituições da "contra-igreja", entendida em sentido amplo, é uma obra radicalmente acima das forças humanas. O segundo ponto de nossa conclusão é o corolário do primeiro: a fase preliminar a toda operação estratégica efetiva é, obrigatoriamente, uma fase de contemplação, de desejo, de oração e mesmo de penitência — já que a penitência dá asas à oração —; e isso a fim de não antecipar o plano de Deus, mas, ao contrário, corresponder a ele. É precisamente esse trabalho prévio que muitos quereriam escamotear. Certamente, o "Desejado das colinas eternas", bem o sabemos, dispõe-se a salvar-nos. Seria necessário, contudo, pedir-Lhe isso com a insistência e a intensidade que tal graça requer.
J . V .