A Gnose nos diz respeito!
O gnosticismo se liga ao movimento geral de sincretismo que quer fundir os diversos sistemas filosóficos ou religiosos; de inspiração neoplatônica, a Gnose desenvolveu-se ao mesmo tempo que o Cristianismo, desde o primeiro século: é uma doutrina de libertação pelo conhecimento e, portanto, reservada aos únicos iniciados. De modo geral, o mundo espiritual emana de um princípio primeiro por uma série de degradações; o mundo material, obra de um mau demiurgo, é identificado ao mal. Os adeptos aspiram a uma iluminação interior que libertaria da matéria a parte divina de seu ser e permitiria seu retorno à unidade do ser absoluto. Partindo da fé na Revelação, transformam-na num « conhecimento » filosófico capaz de unir realmente o homem a Deus. Essa gnose, que toma os textos do cristianismo para esvaziá-los de seu conteúdo, permanece essencialmente distinta do cristianismo, no qual a Revelação não é privilégio de alguns, mas se oferece a todos, onde a salvação não consiste somente no conhecimento, mas no esforço moral sob o impulso da graça; sem falar de numerosas incompatibilidades dogmáticas a respeito da Encarnação, da Ressurreição, da união da alma e do corpo... Ora, um dia, o Sr. Vaquié descobre A Caridade Profanada, de Jean Borella, e, sob o disfarce místico, sob as numerosas referências tomistas, reconhece a Gnose... Funda então, com o Sr. Étienne Couvert, a Sociedade Augustin Barruel para lutar contra essa desfiguração do Catolicismo tal como a Igreja sempre o ensinou, aquele que defendemos. Interrogamos para vós o Sr. Couvert, pois... « a Gnose nos diz respeito ».
A gnose aparece frequentemente como pertencendo exclusivamente ao século II: por que se é gnóstico em nossos dias?
Tenho ao meu redor exemplos significativos. Amigos, antigos colegas de estudo, membros de minha família chegaram aos cinquenta ou sessenta anos. Durante toda a vida trabalharam em empresa, como quadros; trabalho absorvente, extenuante, noite e dia, durante trinta ou quarenta anos. Sua vida intelectual ficou em pousio; falta de tempo, de liberdade de espírito. Eis que se aposentam ou se pré-aposentam: enfim desocupados e com o espírito vazio, entram na primeira livraria que encontram. Que veem logo? Livros esotérico-ocultistas na vitrine, nas primeiras prateleiras à direita depois da porta. Quilômetros de uma literatura abominável e atraente: os mistérios da grande Pirâmide, da ilha de Páscoa, da Atlântida, depois o Graal, o simbolismo... Lançam-se sobre essas obras, leem-nas avidamente, apaixonam-se. É um jogo intelectual, como outros jogam bridge ou xadrez. Mas o demônio está presente; a fé cristã, enfraquecida pela falta de prática e de estudo, não pode resistir por muito tempo a essas leituras enfeitiçantes.
Mas é claro que a gnose declarada é satânica; no entanto a Sociedade Augustin Barruel, que o senhor dirige agora, se deu por tarefa lutar contra sua infiltração em nossos meios. Um católico tradicionalista é, então, permeável a esse gênero de fantasmagoria?
Há primeiro uma confusão entre a Tradição católica e a « grande tradição » esotérica reservada aos « iniciados » de todas as religiões. Jogando com a palavra, os neognósticos de pretensão cristã « trabalharam » com perseverança o meio tradicionalista, com um sucesso certo, é o mínimo que se pode dizer. Sua penetração encontrou resistências, é claro, e eles reconheceram esse fracasso; por exemplo, o Sel de la Terre ¹ citou recentemente um texto de Jean Hani, totalmente explícito: « Os meios que deveriam ser os mais atentos à mensagem de Guénon são justamente os que lhe são mais fechados e, quando o conhecem, os mais hostis... À medida que a obra de Guénon ganha audiência, é alvo de críticas cada vez mais violentas desses meios. Violentas e, digamo-lo claramente, injustas e por vezes odiosas... o que lemos desse gênero é ao mesmo tempo aflitivo e revoltante... » Esse texto é interessante porque o senhor nota que o Sr. Jean Hani nem sequer se pergunta se essa revolta contra os neognósticos não é a reação de uma fé cristã, refratária por natureza a tal penetração e totalmente legítima. É por isso que o Sr. Vaquié e eu lutamos com todas as nossas forças contra essa invasão, e a confissão do Sr. Hani soa a nossos ouvidos como um canto de vitória; vitória toda relativa, aliás; veja o sucesso do livro de Éric Vatré nos meios parisienses: sua « Droite du Père » ² era, no entanto, uma tentativa renovada de instilar nos espíritos uma retomada dos temas gnósticos, infelizmente! Quanto a nós, evidentemente, « não havíamos compreendido nada », e o Sr. Hani continua: « Os autores parecem bem não ter compreendido nada da obra de Guénon e fazer continuamente contrassensos na interpretação do que ele escreve. » Eu mesmo examinei com lupa a obra de Jean Borella e dissequei um pensamento obscuro, fugidio, verboso (esse estilo é muito característico), destinado a fazer passar sub-repticiamente as teses gnósticas deixando crer que se permanece na fé católica. Meu livro é, portanto, « um libelo infamante e fanático », segundo a expressão de Jean Hani, mas ele mesmo e seu amigo tiveram o cuidado de não rebater meus argumentos em A Gnose entre nós, de meu segundo livro ³.
No Boletim « Esoterismo Cristão », vê-se que a adaptação cristã do esoterismo contemporâneo é sobretudo obra de um sacerdote, o Abade Stéphane. Como é possível que um sacerdote se deixe assim fascinar pela gnose?
O caso dos eclesiásticos é mais grave, é claro. Há aí um orgulho insensato. O demônio se encarniça sobre os sacerdotes mais que sobre os leigos. Procura desencaminhá-los, o que vemos muito bem quando estudamos as origens das seitas gnósticas: sempre sacerdotes. Durante o Renascimento, foi o Abade Trithemius quem insuflou a Cabala (esoterismo judaico) entre os humanistas do norte. No século XIX, foi o cônego Rocca; que há de espantoso em que, para os gnósticos guenonianos, seja o Abade Stéphane, um professor de matemática, diga-se de passagem. Soube recentemente que as elucubrações do Sr. Crombette foram introduzidas na França por um Abade Heyraud, da diocese de Valence. Ele havia anunciado o fim do mundo em 1984, aliás, e teve a boa ideia de morrer a tempo.
Oh! poder-se-ia dizer outro tanto dos visionários, do tipo Maria de Ágreda ou Catherine Emmerich, que pretendem ter visto o Cristo partir em viagem para a ilha de Chipre, para a Caldeia, para junto dos Magos etc. etc. E há boas almas para ler essas imposturas... e receber uma excelente pré-formação ao esoterismo! (Primeiro, o senhor « sabe coisas » que os simples leitores do Evangelho ignoram; depois, se lhe afirmam que existe lá longe uma tradição cristã desconhecida...)
A expressão « Esoterismo Cristão » soa estranha; mas em que ela é uma contradição nos termos?
Há entre o ensinamento cristão e o ensinamento gnóstico uma antítese fundamental. O primeiro ensinamento visa transmitir a vida; o segundo, transmitir a morte. Jesus Cristo nos chama à ressurreição e à vida (sobrenatural), numa plenitude de perfeição. Os gnósticos nos chamam ao aniquilamento, à absorção no grande Todo, ao Nirvana, à queda no abismo, à fusão no Cosmos, todas formas de uma atitude suicida e mórbida. A sociedade moderna, impregnada de esoterismo maçônico, difunde, como se diz, « uma cultura de morte ».
A oposição radical « gnose-catolicismo » se assemelha muito à oposição « Platão-Aristóteles », e o senhor assinala, num capítulo intitulado Gnose e Platonismo, que os ressurgimentos platônicos coincidem com os renovos gnósticos. Pode-se dizer que Platão era « gnóstico »?
Todos os gnósticos, ao longo dos séculos, sempre fizeram referência a Platão; o que não quer dizer que Platão fosse gnóstico, mas que se podiam encontrar em seu sistema de pensamento elementos capazes de ser reinterpretados e incluídos numa cosmologia panteísta: o Mito da Caverna, a reencarnação, o demiurgo, a reminiscência etc. Os gnósticos fizeram, portanto, uma releitura de Platão.
No fim da vida, em suas Retratações, Santo Agostinho afirma de Platão e dos neoplatônicos que « eram homens ímpios, que não se devia louvar tanto por causa dos grandes erros em que caíram ». Que pensa o senhor disso?
Não era possível fazer uma leitura cristã de Platão. Os Padres da Igreja tentaram-no e foi um fracasso completo. O pensamento de Platão está em manifesta contradição com a fé cristã. Digamos que esses Padres da Igreja justapuseram o ensinamento da fé e o pensamento neoplatônico, justaposição cheia de incoerências, o que se percebe bem na leitura do pseudo-Dionísio, por exemplo. E essa justaposição indevida está na origem de todas as heresias na Igreja, desde sempre. O senhor constatará que as referências neoplatônicas são a base de todos os desenvolvimentos entre os neognósticos de hoje, como os Senhores Borella, Jean Hani e os outros. Conhecem bem os bons autores e esforçam-se por dar-lhes uma coloração pseudocristã para enganar os ingênuos.
Para nós, que somos estudantes de Filosofia tomista, poderia dizer-nos o que distingue radicalmente o verdadeiro gnóstico do verdadeiro tomista?
Sempre afirmei que o antídoto fundamental ao pensamento gnóstico era a filosofia de São Tomás de Aquino, essencialmente porque ela é uma atitude do espírito que se submete humildemente ao real; o realismo de São Tomás é uma forma de humildade, pois nossas ideias são recebidas e não produzidas por nós mesmos. E essa recepção dos conhecimentos em nosso espírito é um dom de Deus, que nos aperfeiçoa pela observação do mundo criado, sua obra. O homem não tem de construir as coisas, mas de agradecer a Deus por no-las ter posto à disposição para fazermos bom uso delas. Ao contrário, o gnóstico esforça-se por magnificar o orgulho humano: eu faço a verdade, sou senhor de mim, não devo nada a ninguém; difunde um ceticismo divinizante. E, a partir daí, não é mais possível guardar a fé cristã. Devo dizer que a filosofia tomista exige reflexão, um esforço difícil de estudo. Mas exige sobretudo um domínio da sensibilidade e um freio às fantasias imaginativas, virtudes todas adquiridas por uma verdadeira ascese intelectual à qual nossos contemporâneos repugnam.
L.D.
Artigo extraído de:
Enthousiasmes — Jornal trimestral do ateliê Léon de Corte do Instituto Universitário São Pio X, 21, rue du Cherche-Midi - 75006 Paris
¹ — Estudo notável Qui a inspiré René Guénon ? [Quem inspirou René Guénon?], por Antoine de Motreff, publicado no Sel de la Terre n.º 13, p. 33.
² — Vatré, Éric, La Droite du Père, enquête sur la Tradition catholique d'aujourd'hui [A Direita do Pai, inquérito sobre a Tradição católica de hoje], amálgama de gnósticos notórios (Jean Borella, Jean Hani etc., e de personalidades da Tradição como o Sr. Abade Laguérie ou Mons. Tissier de Mallerais...
³ — A Gnose Contra a Fé, pelas Edições Chiré, onde se encontra uma recensão atenta da obra La Charité Profanée [A Caridade Profanada], do Sr. Borella, no capítulo A Gnose entre nós. Se o senhor só devesse ler um único livro do Sr. Étienne Couvert, e, desse livro, só esse capítulo, é o mais urgente!