Skip to main content

Morte e ressurreição do Tomismo no século XIX

Todo o pensamento religioso, no início do século XIX, é dominado pela doutrina do Tradicionalismo, que exerceu um domínio quase total sobre o conjunto dos clérigos e dos filósofos cristãos da época. Essa ditadura do pensamento "tradicional" prolongou-se por cerca de cinquenta anos e seduziu as inteligências mais brilhantes do tempo, exercendo um prestígio moral considerável sobre os espíritos mesmo mais ponderados.

Fenômeno desconcertante. Essa teoria nos aparece hoje como marcada por uma cascata de incoerências e de contradições cuja falsidade já não precisa ser demonstrada. (1)

É preciso buscar, antes de tudo, a explicação desse Tradicionalismo na reação violenta que os bons espíritos tiveram de sustentar contra os excessos do racionalismo filosófico do século precedente. A razão humana, exaltada pelos enciclopedistas, travara um combate encarniçado contra a Revelação cristã, batizada de "superstição". Ultrapassando todos os seus direitos, ela se havia deificado e erguido sobre os altares da Revolução em 1793. Pusera a França inteira a ferro e fogo durante anos. Era preciso, portanto, como dizia tão bem Lamennais, "ir direto a ela, apanhá-la em seu trono e forçá-la, sob pena de morte, a prostrar-se diante da razão de Deus" (numa carta de 2 de janeiro de 1821).

Para um filósofo católico, era bem necessário partir em guerra contra essa razão desvirtuada, humilhá-la, derrubá-la de seu pedestal, demonstrar sua incapacidade de descobrir por suas próprias forças as verdades religiosas e morais que constituem o patrimônio indispensável de toda a humanidade. Era preciso recorrer a uma tradição ou Revelação primordial de origem humano-divina, mantida como se pôde através das deformações que o espírito humano pudera introduzir nela ao longo dos séculos.

Pensava-se assim assentar a apologética sobre uma base inabalável. Ai de nós! Como estabelecer a solidez de uma Revelação primitiva transmitida através das eras por homens que nos foram apresentados como afligidos por uma razão impotente e fonte de múltiplos erros? Apelou-se então ao consentimento unânime, à vontade geral da Humanidade. É bem um dos temas principais de Lamennais.

Mas como a totalidade somada das razões individuais falhas poderia chegar a uma verdade certa? Há aí uma incoerência de monta. Resta, enfim, a Tradição católica, transmitida pela Igreja desde Jesus Cristo. Esta, ao menos, é sólida, firme, pois é certamente de origem divina. Ai de nós! Caímos então num círculo vicioso e só podemos provar essa apologética da Verdade cristã por ela mesma, sem o socorro de uma razão natural que pudesse nos conduzir a ela. É a ruína de toda apologética.

O ENSINO RELIGIOSO NO SÉCULO XIX

Os Pais do Tradicionalismo não receberam nenhuma formação filosófica séria. Permaneceram marcados pela filosofia das Luzes do século anterior, contra a qual se esforçam por lutar, e falta-lhes essa base fundamental de uma confiança prudente e generosa na força da razão, que o estudo da escolástica poderia ter-lhes insuflado.

As incertezas e as hesitações do pensamento deles podem resumir-se bem neste diálogo ouvido um dia em La Chesnaie, a propriedade onde Lamennais eletrizava as belas almas de seus discípulos:

"Quereis, disse ele, provar ao vosso século que o Catolicismo é a única religião racional; demonstrar-lhe que, se não aceita o símbolo católico, ele se exila da sociedade dos inteligentes, põe-se fora do senso comum de todos os povos e de todos os séculos; numa palavra, que é louco.

— Mestre, replicou timidamente o padre Gerbet, o futuro bispo, não temeis irritar a razão em vez de curvá-la por um procedimento tão absoluto? Não valeria mais reconciliar a alma humana com a religião, mostrando-lhe as harmonias íntimas que existem entre seus dogmas, seus preceitos e as necessidades mais profundas da humanidade?

— Pois bem, retomou o padre Lamennais, esse ponto de vista completa o meu e não o rejeito."

Diálogo significativo! E que mostra bem as incoerências e as contradições desses bons padres. Lamennais fez-se detrator da razão; mas está impregnado de Descartes e é ainda à razão que apela para assentar sua apologética, à razão impessoal e universal do "senso comum". Em outras palavras: "Fundai vosso pensamento no pensamento universal e alcançareis a Verdade".

Parece-nos que Hegel e Marx disseram praticamente a mesma coisa. Essa "Razão universal" é, portanto, de origem divina, visto que as razões individuais são tão fracas e tão impotentes. Como não ver que Lamennais nos reconduz, apesar de si mesmo, a essa Deusa Razão, posta pelos jacobinos sobre os altares patrióticos em 1793?

Por outro lado, quais são essas "harmonias íntimas" e essas "necessidades profundas" da natureza humana que devem completar o uso da razão, segundo Lamennais? Os dogmas e os preceitos da Igreja estão em harmonia íntima com as necessidades mais profundas do homem, diz o padre Gerbet, e é uma demonstração a fazer para levar a alma rebelde a submeter-se. Como não ver, assim, que as necessidades mais profundas da alma se tornaram o critério da verdade religiosa e que a alma aceitará então submeter-se apenas àquilo que julgar em harmonia com suas necessidades. Ai de nós!

O pensamento cristão do século XIX permaneceu longamente suspenso entre um racionalismo cartesiano, envergonhado de si mesmo mas muito vivaz, e uma exaltação do sentimento religioso comum a toda a geração romântica e responsável por todas as extravagâncias do "Mal do Século".

UM "CARTESIANISMO ATENUADO"

A expressão é de Renan: "O ensino filosófico do seminário, escreve ele, era a escolástica em latim, não a escolástica do século XIII, bárbara e pueril (que desprezo!), mas o que se pode chamar a escolástica cartesiana, isto é, esse cartesianismo atenuado que foi adotado em geral pelo ensino eclesiástico do século XVIII e fixado nos três volumes conhecidos pelo nome de Filosofia de Lyon". ("Souvenirs", p. 245)

Essa "filosofia de Lyon" era obra do oratoriano Valla, autor de uma teologia colocada no índice pelo papa Pio VI em 1792. Fora imposta aos seminários da França pelo padre Emery, que havia reconstituído e dirigido em Paris o Seminário de São Sulpício.

Era um santo sacerdote, mas admirador de Descartes, que havia exaltado em seus "Pensamentos de Descartes sobre a religião e sobre a moral". Participara das negociações da Concordata. Exercia grande autoridade sobre os pensadores de seu tempo. O Sr. de Bonald nos gaba as qualidades do "sábio Sr. Emery, que fizera um estudo particular das obras de Descartes e declarara que a metafísica de Descartes era pura, isto é, isenta de erros... Não cremos, acrescenta ele, que se possa ter mais ciência e melhor juízo do que o Sr. padre Emery."

Lia-se também nos seminários as "Lições de Filosofia" do padre Flottes, que seguia em inúmeros pontos Locke, Condillac e Jean-Jacques Rousseau. Lia-se ainda a Filosofia dita de Bayeux, obra do Sr. Noget-Lacoudre, que louvava tanto Descartes quanto Bacon...

"Quando se sabe como essa filosofia (cartesiana) é refratária a toda adaptação teológica, já não nos espantamos com a decadência profunda em que havia caído a ciência sagrada em nosso país, declara o padre J. Bellamy (2)... Como, com uma filosofia tão defeituosa, a teologia poderia ter alçado voo?"

Renan notou igualmente as grandes decepções que experimentou ao chegar ao seminário de Paris. Impressionou-o o contraste entre o meio bretão que acabava de deixar e esse meio parisiense em que mergulhava:

"Sim, diz ele, um lama budista ou um faquir muçulmano, transportado num piscar de olhos da Ásia para o meio do bulevar, ficaria menos surpreso do que eu ao cair subitamente num meio tão diferente do de meus velhos padres da Bretanha. Minha vinda a Paris foi a passagem de uma religião a outra. Meu cristianismo da Bretanha não se parecia mais com o que encontrei aqui do que uma velha tela, dura como uma tábua, se parece com a percal. Não era a mesma religião. Meus velhos padres, em sua pesada capa românica, apareciam-me como magos que tinham as palavras da eternidade; agora o que me apresentavam era uma religião de chita e de calicô, uma piedade perfumada de almíscar, enfitada, uma devoção de velinhas e de vasinhos de flores, uma teologia de mocinhas, sem solidez, de um estilo indefinível, composta como o frontispício policromo de um livro de Horas de Lebel."

Mais adiante ele esclarece que seus mestres bretões de Tréguier rejeitavam os últimos rebentos da literatura religiosa: "Conhecia-se Chateaubriand, mas, com um instinto mais justo que o dos pretensos neoclássicos, cheios de ingênuas ilusões, esses bons velhos padres desconfiavam dele. Um Tertuliano alegrando sua apologética com Atala e René inspirava-lhes pouca confiança. Lamartine perturbava-os ainda mais; adivinhavam nele uma fé pouco sólida, viam suas fugas ulteriores..."

Renan mostra-se severo e até injusto para com seus mestres do seminário. Mas tem razão em notar as fraquezas do pensamento e as insuficiências da apologética. Seus bons mestres bretões tinham o senso integral da Fé e rejeitavam energicamente as apologéticas do sentimento. Exigiam uma expressão firme e rude da doutrina, sem falsas aparências. Recusavam esse oportunismo sutil que consiste em contornar o enunciado da doutrina, em buscar primeiro um assentimento implícito a uma doutrina deixada na imprecisão, de modo a fazê-la passar mais facilmente e a evitar chocar frontalmente inteligências já pervertidas pela mentalidade ambiente. Expunham a doutrina do "Catecismo de Trento", as provas históricas, sem vãos ornamentos, sem atenuações prudentes.

UMA APOLOGÉTICA DO SENTIMENTO

Ela causou furor durante toda a era romântica. Anunciada pela "Profissão de Fé do vigário saboiano", desenvolvida por Chateaubriand com uma arte sedutora, essa apologética só podia desviar as almas da verdadeira Fé e instalá-las num sentimentalismo autossuficiente, em que adquiriam o hábito de contemplar-se com complacência em sua subjetividade.

O mesmo movimento romântico desenvolvia-se nessa época na Alemanha e o novo clero deixava-se prender pelos atrativos da sensibilidade religiosa. Dois sacerdotes se destacaram nessa tentativa de "despertar" da Fé, os padres Overberg e Stolberg. Ambos foram platônicos entusiastas.

STOLBERG havia traduzido os "diálogos" de Platão para o alemão, acompanhados de notas eruditas. Publicou a "História da religião de Jesus", na qual afeta um profundo desprezo "por essa pobre razão humana, que só pode entrever, comparar, supor, a quem não é dado aprofundar o princípio da menor coisinha". Chega a dizer que "pelo próprio fato de ser humana, a razão humana não pode atingir o conhecimento das verdades divinas e que Deus reserva esse conhecimento à humildade que escuta as palavras, e somente a ela".

Nega até a capacidade que nossa razão tem de provar a verdade: "Deus não quis que nossa Fé dependesse apenas dessas provas, que nem todos os homens poderiam estar em condição de apreender e que, mesmo quando agem apenas sobre o espírito, dão bem a convicção, mas não a força de viver segundo essa convicção". O estudo da vida de Jesus "é antes de tudo uma coisa do coração".

OVERBERG também é platônico. Admira os "diálogos" de Platão e seu método dito "Maiêutico", que leva o discípulo a descobrir por si mesmo o verdadeiro. Interpela o homem natural, dirige-se à religiosidade da criança. As crenças religiosas surgem para satisfazer as necessidades sucessivas dessa religiosidade solicitada. Mas não se vê bem em que a revelação cristã poderia ser o desenvolvimento natural de uma necessidade da sensibilidade, dita religiosa. Se essas verdades saem de nosso coração e são descobertas por ele mesmo, também não se vê bem a necessidade de um ensino: "Consultemos nosso coração e nele veremos Deus". É, pois, Deus que nos revela diretamente seus mistérios. Nossa alma está toda impregnada do divino. Daí a dizer que ela é uma emanação de Deus, vai um passo logo dado, e recaímos no panteísmo e na Gnose.

Faltou aos apologistas do sentimento um conhecimento aprofundado da escolástica, que lhes teria permitido reconhecer o valor fundamental da atividade racional na busca da verdade e em sua demonstração, assim como essa distinção necessária entre a faculdade intelectual e seu exercício, pelas noções metafísicas de ato e potência.

Ai de nós! Nessa época toda a intelligentsia cristã, clérigos e leigos, mostrava profundo desprezo por essa escolástica que fizera a glória da universidade medieval.

O DESPREZO PELA ESCOLÁSTICA

A nova Universidade moderna, criada na França por Napoleão, sob a forma de monopólio de Estado, criada na Alemanha pelos príncipes protestantes, tivera o cuidado, nessa época, de pôr entre parênteses a filosofia medieval.

O mestre da universidade francesa, Victor Cousin, em seu curso de filosofia de 1818, havia declarado que nunca houvera "senão duas épocas verdadeiramente distintas na história da filosofia como na do mundo: a época antiga e a época moderna". Entre as duas, a luz do gênio grego "foi-se extinguindo pouco a pouco na noite da Idade Média... e a segunda época começa em Descartes".

Essa concepção das coisas passara até para os manuais de filosofia dos seminários. Eis o que o Sr. Noget-Lacoudre declara em sua "Filosofia de Bayeux":

"Guardemo-nos, senhores, de crer que todos os autores escolásticos haviam repudiado o uso da razão. Os nomes ilustres e venerados de Santo Anselmo, São Tomás, São Boaventura, Alberto Magno protestariam contra tal injustiça.

Cumpre confessar, no entanto, que nas escolas da Idade Média prevalece o método de autoridade. A doutrina de um filósofo é adotada por decreto da Faculdade. O papel do professor reduz-se a comentar teses que não é permitido pôr em discussão. Não lhes ocorre fazer uma experiência física, nem, no que concerne aos sistemas de metafísica, escrutar-lhes o fundamento racional.

Certamente, em matéria de teologia, o método de autoridade se impõe, pois os dados teológicos vêm de Deus e os dogmas são impenetráveis à razão. Mas em filosofia, é ao raciocínio e à experiência que cabe a última palavra. O método de autoridade foi o defeito fundamental da filosofia escolástica. Aqueles a quem coube assinalá-lo e opor-lhe o remédio foram, para a metafísica, Descartes e, para a física, Bacon, chanceler da Inglaterra."

Eis um lugar-comum de todo o pensamento moderno. O período medieval é atingido pela inércia e pela esterilidade do espírito, um mundo de barbárie e de servidão intelectual do qual Descartes enfim nos libertou.

O autor dessa diatribe marca um respeito de conveniência para com os grandes escolásticos, recomendados pela Igreja, respeito imposto pelo apego aos dogmas da Igreja, mas manifesta um profundo desconhecimento daquilo que julga tão sumariamente e não vê os perigos consideráveis da nova filosofia de Descartes, que exalta além da medida.

* * *

Todos os pensadores cristãos do século XIX, com um conjunto notável e um furor cego, denegriram violentamente a escolástica. (4) Comecemos pelo Sr. de Bonald, o mestre do pensamento religioso tradicional nessa época:

"Espíritos incultos (trata-se de Santo Alberto Magno, de São Tomás de Aquino e tutti quanti) tornaram-se sutis com Aristóteles, antes que teriam sido eloquentes com Platão. Tomou-se por metafísica uma ideologia obscura e litigiosa. Regras mecânicas da arte de raciocinar tomaram o lugar da razão e julgou-se encontrar, nos universais e nas categorias, a universalidade dos conhecimentos humanos. A dialética de Aristóteles fornece um alimento inesgotável às disputas, um arsenal aberto a todos os combates".

Mais adiante, ele cita uma observação de Leibniz que fala do "esterco" da escola.

Ora, o Sr. de Bonald é um verdadeiro cartesiano. Apela frequentemente "às únicas luzes da razão"; mas saltou quatro séculos de filosofia cristã sem ver que, antes dele, se havia buscado e encontrado a verdade pela "luz da razão, iluminada pela fé". Pretende ser o primeiro a ter achado, na revelação da linguagem por Deus, o princípio de todo conhecimento.

É contrário à definição escolástica do homem, animal racional. Indigna-se: "A definição que chama o homem de animal racional já não distingue bastante essa nobre criatura... Ela inverte a ordem de nossas faculdades ao nomear a parte que recebe o movimento antes da que o comunica. Inverte até a ordem eterna dos seres ao colocar a matéria antes do espírito". Sua definição própria é "uma inteligência servida por órgãos".

Retoma, é claro, a doutrina dos platônicos, dizendo, segundo Cícero, que o homem não é senão um espírito tendo por apêndice um corpo ("Aiebant appendicem animi esse corpus"), que a alma está unida ao corpo como o motor ao móvel, o barqueiro ao barco, o cavaleiro à montaria, etc... Não se pode ser mais cartesiano.

Na esteira do Sr. de Bonald, Maine de Biran comenta:

"Certamente, não era por vãs disputas de peripatetismo, por suas questões abstratas e ociosas, tão próprias para desviar ou dissipar o homem interior, que a verdadeira filosofia podia reerguer-se, e concordamos inteiramente com o autor das "Pesquisas" (o Sr. de Bonald), quando deplora essa época de extravio do espírito em que as regras mecânicas da arte de raciocinar tomavam o lugar da razão, em que se julgava encontrar nos universais ou nas categorias a universalidade dos conhecimentos humanos e a onisciência já pronta".

Maine de Biran, como se vê, limita-se a copiar as observações do Sr. de Bonald, sem a menor originalidade.

Na mesma época, o padre Bautain explicava que a filosofia de Aristóteles, ao substituir as ideias por abstrações, empobreceu ainda mais a filosofia de Platão, "doutrina estreita, rígida e mesquinha, filosofia pobremente tradicional que não sabe elevar o olhar para o que a domina, que pretende fazer o homem entrar em si mesmo e o detém em sua razão própria, que, nunca descendo à profundeza do ser humano, ignorará sempre o que é a alma, a consciência, a espontaneidade, a liberdade". O aristotelismo desemboca logicamente no panteísmo da razão impessoal, acrescenta. Aliás, em São Tomás "olhando de perto, as ideias são todas platônicas". Em suma, uma filosofia incapaz de subir ou descer!... E sempre a referência a Platão, o grande "Sedutor"!

O Padre Ventura também fora, desde a juventude, posto em guarda contra a escolástica. Seu professor de física, conta ele, comprazia-se em ridicularizar a profunda doutrina dos escolásticos sobre a forma substancial dos corpos. Fora discípulo entusiasta e admirador do Sr. de Bonald e de Lamennais, cujas obras traduzira para o italiano.

Mas, mais tarde, na época em que se esforçava por ressuscitar na França a escolástica de São Tomás por séries de conferências em Paris, ele notara bem o obstáculo com que esbarrava: "Encontrei o Sr. de Bonald barrando-me o caminho; tive de afastá-lo... Era um adversário temível, justamente por causa de suas qualidades. Era uma imensa pedra de tropeço para os que queriam voltar à verdadeira filosofia do Cristianismo. Citavam-mo a toda ocasião e a todo momento. Tive de combatê-lo e o fiz sem humilhá-lo, porque lhe opus um gênio que lhe é muito superior, São Tomás..." (5)

RAZÃO CARTESIANA E RAZÃO TOMISTA

Nesse desprezo pela escolástica há uma contradição maior. São os mesmos espíritos que, impregnados do pensamento cartesiano e, portanto, imbuídos de racionalismo, denunciam a impotência da razão para atingir a verdade e, simultaneamente, acusam São Tomás de Aquino de ser ele, antes de tudo, um puro racionalista. Claro, e num primeiro momento, podemos notar sua ignorância prodigiosa da filosofia escolástica, que pode explicar essa incoerência em seus juízos. Mas há mais.

Era-lhes difícil restabelecer o bom equilíbrio de seu pensamento, porque a leitura dos enciclopedistas e dos filósofos racionalistas foi sua única abertura para a metafísica e porque não podiam desprender o espírito das catástrofes e das destruições operadas durante a Revolução em nome da Deusa Razão. Estavam mergulhados num impasse prodigioso que os deixava perplexos e desarmados.

Foi então que buscaram, fora do uso natural da razão, um meio de assegurar um conhecimento infalível da verdade. Queriam encontrar uma garantia automática contra o erro. "Se não se supõe a razão humana infalível, explica Lamennais, já não há certeza possível e, para ser consequente, é preciso duvidar de tudo sem exceção". Eis um raciocínio bem cartesiano, mas a conclusão não se segue. Com nossa razão falível, vivemos de certezas muito numerosas que jamais foram objeto da menor dúvida e de incertezas ou opiniões menos seguras que procuramos reduzir depois de muitas hesitações.

Mas compreendemos bem, por Lamennais, que nossa razão só pode ser infalível com a condição de ser de natureza divina. E eis que se apresenta a seu espírito a tradição platônica, na versão "revista e corrigida" por Santo Agostinho: a iluminação divina. As fórmulas de Santo Agostinho são muito explícitas: "As ideias são formas ou razões imutáveis, incriadas e eternas, contidas na inteligência divina, onde a alma racional que é reta, sincera e pura as contempla". Em seu "De vera religione", precisa: "Deus preside às inteligências humanas sem intermediário de nenhuma natureza", o que o leva a rejeitar o uso natural da razão exercendo-se sobre os "dados" da criação. E ainda: "A alma racional só é iluminada pela própria substância de Deus".

Eis o que isso pode dar, retraduzido por Lamennais:

"Toda certeza repousa no conhecimento de Deus"...

"A certeza não é senão uma fé plena e inteira na autoridade infalível"...

"Toda certeza repousa na Fé". (Em seus "Ensaios", passim)

O uso natural da razão é posto entre parênteses. Pensamos pela autoridade de Deus. Todos os conhecimentos são reduzidos a uma fé sobrenatural. Não se poderia confundir melhor os dois domínios.

Depois Lamennais e seus discípulos procuraram onde encontrar essa iluminação divina. Numa revelação divina feita a nossos primeiros pais e transmitida pelo "senso comum", isto é, o conjunto das noções comuns a todos os povos e a todas as gerações. Maine de Biran mostrara então a incoerência e o absurdo de tal pretensão. (6)

Como, com efeito, pode-se atingir uma certeza infalível somando uma multidão de razões falíveis? Eis uma matemática que temos dificuldade em digerir.

A solução mais simples era voltar a Descartes, que os tradicionalistas rejeitavam como abominável racionalista, mas de quem não conseguiam desligar-se. Em vez de ir buscar garantias extrínsecas contra o erro, Descartes faz a verdade sair do Eu pensante. Todo o meu pensamento está contido em minha substância e a razão é a ferramenta que permite exprimi-lo, "fazê-lo sair", "como o fogo do sílex", precisou ele um dia. "No Cogito, explica Blanc de Saint-Bonnet, Descartes toma o Eu ou o pensamento como origem, centro e ponto de partida da filosofia. O mundo e Deus não tardariam a ser considerados simples prolongamentos do Eu". E precisa que o Cogito dá "passagem ao exército inteiro do panteísmo contemporâneo".

Olhando as coisas de perto, não há, aliás, diferença essencial de concepção entre a razão cartesiana, iluminada por um eu divino, as ideias iluminadas por Deus tais como as expõem os tradicionalistas e as harmonias íntimas ou as necessidades profundas da alma tornadas critérios de verdade, segundo os Românticos e os Carismáticos. Tudo isso se sustenta.

Um professor lionês, Francisque Bouillier, em seu Discurso de abertura de 1844 na Faculdade de Letras de Lyon, exclamava com convicção:

"Quando deificamos a razão, não fazemos um Deus do que não o é, não erguemos altares a um ídolo, não deificamos senão o que é divino, não fazemos senão reconhecer Deus onde ele está, Deus presente na consciência como está presente no mundo".

Conclusão toda lógica. Ao procurar em nossa alma o critério da verdade sob a forma de iluminação divina, de necessidade íntima e profunda de nossa sensibilidade, não fazemos senão buscar desajeitadamente deificar-nos, e é o professor lionês quem tem razão e quem não sabia dizer tão bem.

Essa valsa-hesitação contínua entre racionalistas cartesianos, tradicionalistas e românticos mostra bem as incertezas de um pensamento que fora então desmamado da grande filosofia escolástica. Ai de nós! Se esses pensadores cristãos tivessem se dado ao trabalho de abrir a obra de São Tomás, teriam podido enfim formar uma concepção justa do uso natural da razão.

A verdade, segundo a fórmula tomista, é "a adaequatio rei et intellectus", digamos: a conformidade de nosso pensamento com o real. Não possuímos em nós a fonte de nossas ideias, nem mesmo o critério da verdade em nossos juízos. Todos os nossos conhecimentos são recebidos e não produzidos. Nossa razão não é uma faculdade produtora, mas receptora da verdade. A verdade está nas coisas e nosso espírito se contenta em extraí-la delas e apropriar-se dela. São as coisas conhecidas que nos dizem o que são e nosso espírito deve "fazer retorno" sobre o objeto de seus conhecimentos para "confrontar" seu pensamento com a realidade e reconhecer-lhe o fundamento.

Eis o papel natural da razão. Não existe garantia automática contra o erro e, a cada juízo, devemos fazer esse esforço que chamamos de "verificação". É, portanto, bem verdade que nosso espírito, em seu próprio ato de tomar conhecimento, submete-se humildemente ao real. Ao apropriar-se da verdade das coisas conhecidas, recebe uma luz natural que não é outra coisa senão o pensamento criador incluído nos seres naturais que nos cercam.

É um ponto fundamental sobre o qual deveria insistir toda apologética. A humildade de nossa razão deve exercer-se já sobre o mundo da natureza, que é um dado primeiro, uma revelação do pensamento criador. E essa submissão de nosso espírito deve ainda reconhecer e acolher os "mistérios" da natureza. Não podemos penetrar no mais íntimo das coisas, nem percorrer o espaço e o tempo em busca do infinito. Isso também é um mistério do Deus criador, e os cientistas modernos, todos impregnados do pensamento cartesiano, quando ultrapassaram o círculo estreito de seus conhecimentos naturais, instalam-se no imaginário e forjam a seu gosto as hipóteses mais extravagantes, com a certeza de nunca mais serem contraditos por uma realidade que abandonaram.

O Universo criado por Deus é para nosso espírito uma "revelação" do pensamento divino, carregada de "mistérios". Se nosso espírito se dispôs numa atitude humilde de submissão respeitosa à ordem natural, já está predisposto a acolher, na mesma atitude, a Revelação divina transmitida por Jesus Cristo.

São Tomás precisa bem que o ato de Fé é "uma cognitio" aplicada às coisas transcendentes e, como tal, é um prolongamento, um aprofundamento do conhecimento intelectual: "Actus fidei essentialiter consistit in cognitione et ibi est perfectio". A "lumen naturalis rationis", a luz natural da razão, tal como Deus no-la deu, vem em auxílio de nosso espírito para lhe permitir receber igualmente essa Revelação divina. Para São Tomás, crer é "conhecer Deus", e a pura felicidade desfrutada no além será apenas a "perfectio Dei cognitio". A Fé é uma forma superior de conhecimento e a filosofia tomista realiza assim, entre "ratio" e "fides", uma harmonia perfeita, capaz de satisfazer para sempre, como "philosophia perennis", a necessidade natural de conhecer do crente humilde e submisso, o que a escolástica chama seu "apetite racional".

Eis, para concluir esta parte de nossa exposição, uma carta do bispo de La Rochelle, dirigida por volta de meados do século a um professor da Universidade de Lovaina, onde esses problemas eram agitados: (7)

"Não ter medo da razão, mas respeitá-la num justo limite e conduzi-la às verdades cristãs, mostrando-lhe ao mesmo tempo sua grandeza e sua fraqueza. Não conheço homens que tenham tido menos medo da razão do que os doutores da Igreja. É verdade que, em sua escola, a razão é cativa da Fé. Mas entendamo-nos sobre o valor da palavra "cativa". Ela é cativa como o olho é cativo à vista de uma bela coisa, como o ouvido é cativo de um som justo e harmonioso. Ela é cativa, mas cativa voluntária, porque é fácil fazê-la compreender que tem necessidade da Fé, que deve razoavelmente submeter-se à fé e que, à medida que se submete, é feliz, é orgulhosa, sente que essa obediência voluntária a enobrece, a fortalece.

Nada me parece mais belo nos escritos do Doutor angélico do que essas nobres evoluções da razão sob a direção da Fé. É um prazer ver como ele amansa essa bela faculdade que seus excessos haviam tornado quase indomável. Mas também com que respeito a trata, com que cuidados a aborda!... Prova-lhe que a Fé esclarecida tem um efeito certo, o de aperfeiçoar a razão, de fortalecer sua luz vacilante, de comunicar-lhe novas e superiores. "Cum fides rationem ab omnibus erroribus liberet, cumque divinarum rerum cognitione mirifica illustret, confirmet et perficiat." (Pio IX, encícl. 1846)

"Assim preparada, assim tratada com legítimo respeito e convenientemente honrada, a razão experimenta ela mesma a necessidade de exclamar com São Crisóstomo: "Crer é ato de um espírito elevado e de uma grande alma, e não crer é ato desarrazoado: credere et sublimis et magni animi et non credere irrationalis"... A razão não teria descoberto os mistérios do cristianismo e nossos dogmas não são o produto natural do desenvolvimento do espírito humano: verdade fácil e necessária de demonstrar. Mas, sendo os dogmas revelados, a razão se apresenta e, sempre esclarecida pela luz divina, estuda-os, escruta-os e a nuvem que os cobre toma a cada dia tons cada vez mais translúcidos... É, diz São Tomás, um antegosto da visão beatífica, "praelibatio quaedam illius cognitionis quae nos in futuro beatos facit".

Transponhamos essas últimas fórmulas para a ordem do conhecimento natural: a razão também não teria descoberto os mistérios da natureza e suas leis não são o produto natural do desenvolvimento do espírito humano... Mas, sendo essas leis da natureza "reveladas" através de nossas apreensões diretas do real, a razão se apresenta e, sempre esclarecida pelo pensamento criador de que elas são a expressão natural, escruta-as, procura dissipar a nuvem que as cobre e reencontrar sob as aparências sensíveis a ideia divina que realizam.

Eis a submissão de nosso espírito a uma ordem de natureza que não criamos e o humilde respeito dos mistérios que ela contém e que ultrapassam infinitamente as capacidades nativas de nosso espírito. Nossa inteligência está totalmente submetida tanto ao Deus Criador quanto ao Deus Revelador e, nos dois casos, funciona da mesma maneira. É a ela, assim constituída, que Deus apela quando nos pede um ato de Fé. Não pretende substituir uma espécie de razão divina por nosso modo natural de conhecer; pede-lhe apenas que se "abra" a uma Verdade de origem sobrenatural e, como essa "abertura" ultrapassa as forças nativas de nosso espírito, acrescenta-lhe uma "graça" que não destrói nossa natureza racional, de modo que nosso ato seria irracional, mas a aperfeiçoa e a predispõe a acolher sua Revelação.

Se os pensadores tradicionalistas dessa época tivessem se dado ao trabalho de estudar seriamente a filosofia escolástica, não teriam recorrido a um fideísmo privado de razão para explicar e justificar a adesão à Fé, apresentada como um golpe de força divino em nossa atividade espiritual e como uma ruptura no interior de nosso pensamento, quando essa adesão pode e deve produzir-se em continuidade com nossas outras intelecções.

Permaneceram prisioneiros de uma filosofia protestante, inaugurada por Lutero, retomada da tradição platônica e exposta metodicamente por Descartes. Filosofia que nega a unidade substancial do homem atribuindo-lhe uma dupla vida espiritual, uma dita "racional", boa apenas para comandar nossa atividade temporal aqui embaixo, e a outra, dita "intuitiva", reservada à nossa fé religiosa. Reencontra-se essa dicotomia da alma exposta longamente em "As duas fontes da moral e da religião" de Bergson, retomada da tradição jansenista, também ela oriunda do protestantismo e que sobrevive hoje em todos os movimentos de tipo carismático. (8)

AS REAÇÕES DA AUTORIDADE RELIGIOSA

Sabemos que é tradição na Igreja tomar seu tempo, examinar longamente as novas teorias ou doutrinas da moda e só se pronunciar após maduro exame, o que é muito honroso para uma autoridade preocupada em não precipitar nada, em respeitar as pessoas de boa vontade, mas engajadas em doutrinas fluidas e indecisas, em obter retratações honrosas e não demasiado humilhantes. Compreendemos bem esses escrúpulos do comando.

No entanto, não podemos deixar de lamentar que Roma tenha levado mais de vinte anos para compreender o perigo do tradicionalismo e do fideísmo, que se haviam tornado o pensamento comum do mundo católico, que não tenha condenado os promotores dessas doutrinas, isto é, Joseph de Maistre e o Sr. de Bonald, e que tenha se contentado, por muito tempo ainda, em pedir a uns e outros a assinatura de formulários.

O papado agiu lenta e timidamente, poder-se-ia dizer "caso a caso", cada vez que se apresentava um caso a julgar. Não deu de início um ensino completo sobre o problema doutrinal posto por esses escritores, mestres do pensamento contrarrevolucionário.

Estes últimos exerceram, pois, uma autoridade moral e intelectual incontestável e todo-poderosa sobre a geração seguinte, e as advertências de Roma chegaram tarde demais a espíritos já instalados no erro, numa idade em que se torna muito difícil corrigir todo o sistema de pensamento. Essas intervenções, aliás, permaneceram sem resultados apreciáveis.

LAMENNAIS

A primeira condenação do sistema menaisiano pela encíclica "Mirari vos", em 1832, denunciara seu liberalismo doutrinal sem atingir suas teorias filosóficas sobre o problema do conhecimento e das relações da Fé com a razão. A encíclica seguinte, "Singulari vos", de 1834, continha de fato fórmulas de condenação do "falacioso sistema de filosofia", difundido pelo "Ensaio" sobre a indiferença, "sistema de invenção recente e que, no lugar das tradições santas e apostólicas, base do ensino cristão, substitui doutrinas vagas, fúteis e incertas", mas essas fórmulas eram totalmente insuficientes para esclarecer os espíritos dos leitores perturbados pelo ensino do "Ensaio".

BAUTAIN

O caso do padre Bautain é totalmente significativo. Formado pela universidade do Estado, inspirado pela filosofia de Kant, Fichte, Hegel e Schelling, ele sofreu o ascendente da Srta. Humann, que o reconduziu à fé de sua infância. Entrou nas ordens e, depois de sua ordenação, recebeu a direção do seminário menor de Estrasburgo, em 2 de outubro de 1830. Formou à sua volta um grupo de discípulos muito notáveis. Encontravam-se ali vários judeus alsacianos convertidos, entre eles Théodore Ratisbonne, fundador dos Padres e Damas de Sião, votados à conversão de Israel, o futuro padre Gratry, professor de filosofia, e o futuro cardeal de Bonnechose. Ora, o padre Bautain estabelecia todo o edifício da Fé sobre o sentimento íntimo e a religiosidade natural.

Roma lhe pediu que assinasse esta fórmula de condenação:

"O homem, em qualquer estado em que se encontre, não possui na realidade senão um princípio de conhecimento para as verdades da religião natural, tais como a existência de Deus, a existência da lei natural, a imortalidade da alma e a existência de outra vida. Esse princípio de conhecimento não é outro senão a revelação divina manifestada ao homem pela tradição. Privada do socorro dessa tradição, a razão, inteiramente abandonada a si mesma, é absolutamente incapaz de descobrir essas verdades".

O padre assinou de boa-fé. Era um santo sacerdote e, mais tarde, num sermão pronunciado em 1855, exclamou:

"Ah! Senhores, quando vos lembro este ponto da doutrina de São Paulo e vos represento toda a sua força (9), podeis crer-me. Pois eu mesmo resisti a esse texto e, durante algum tempo, fiz o que pude para escapar dele.

Para dar um campo mais belo à palavra de Deus, eu era levado a enfraquecer o valor da razão humana e, para sufocar de um só golpe o racionalismo, cujos extravios todos eu conhecera, ameaçava a própria vida da razão, como esses médicos imprudentes que correm o risco de matar o doente ao atacar violentamente a doença. Sim, pequei então por um excesso de Fé. Mas a Igreja, sempre sábia, porque é assistida pelo Espírito divino, não aprova nenhum excesso, nem mesmo os que parecem ser-lhe proveitosos. Reconduz sempre à moderação, que é a via sábia nas coisas deste mundo e, com uma doçura pela qual lhe fiquei profundamente grato, endireitou uma má tendência que poderia tornar-se um desvario".

Retratação notável, até em suas insuficiências. É na medida em que se está impregnado de racionalismo cartesiano que se chega ao denegrimento da razão. São Tomás, ele, tinha bela confiança na razão, bem posta em seu lugar de faculdade natural criada por Deus para nos conduzir à Verdade. Não existe, nesse caso, excesso de Fé que a Igreja devesse moderar, como diz nosso bom padre, mas bel e bem uma deficiência da Fé, enfraquecida por uma inteligência falseada e que sente a necessidade de enrijecer-se para escapar às flutuações e às incertezas da religiosidade sentimental. Exaltam-se tanto mais as formas sensíveis da vida religiosa quanto menos a Fé está enraizada numa base racional. Enfim, como se pode dar "mais campo à palavra de Deus" se se começa por enfraquecer a faculdade humana encarregada de recebê-la?

BONNETTY

Na mesma época, o Sr. Bonnetty era o Diretor dos "Anais de filosofia cristã". Acusava a escolástica de ter favorecido além da medida as especulações mais ousadas e de ter conduzido os espíritos pouco a pouco ao racionalismo puro e simples. O papa Pio IX já havia pedido ao padre Bautain, em 9 de novembro de 1846, que assinasse um formulário de retratações, como assinalamos. Renovou as mesmas condenações contra o Sr. Bonnetty e lhe pediu que subscrevesse o mesmo formulário que o padre Bautain.

Teve de reprovar a seguinte proposição: "O método e os princípios empregados pelos santos doutores escolásticos já não correspondem de modo algum às necessidades de nosso tempo e ao progresso das ciências". Depois teve de subscrever, em 5 de julho de 1855, várias outras proposições, entre elas esta: "O método de que se serviram São Tomás, São Boaventura e os outros escolásticos depois deles não conduz ao racionalismo e não foi causa de que, nas escolas contemporâneas, a filosofia tenha caído no racionalismo e no panteísmo. Em consequência, não é permitido fazer crime a esses doutores e a esses mestres de se terem servido desse método, sobretudo em presença da aprovação ou ao menos do silêncio da Igreja". (Proposição contrária a diversas proposições do Sr. Bonnetty) (10)

Bonnetty assinou essa proposição, guardando para si suas ideias anteriores, e renovou mais tarde as mesmas críticas, por exemplo: "Foi desse comentário de Boécio sobre Porfírio que nasceu mais tarde a escolástica e toda a sua linguagem tão confusa e tão pouco cristã... É o mundo filosófico posto no lugar do mundo real. Jesus Cristo nos havia libertado dessa língua; eis que ela volta".

De fato, nunca se encontrou a menor conexão histórica nem lógica entre a escolástica e as filosofias racionalistas ou panteístas modernas. Melhor ainda: sabemos que todas as filosofias saídas do cartesianismo não cessaram, há três séculos, de vituperar o Tomismo, colando-lhe os rótulos mais maldosos de pensamento obscuro, tenebroso, bárbaro, denunciando as "sutilezas da Escola que só fazem espessar as trevas em torno desse primeiro mistério que é a Revelação", zombando do "tremor de cérebros teológicos", segundo a amável expressão de Montaigne.

E, se se examinam as coisas mais de perto, percebe-se facilmente que é o racionalismo cartesiano que arrastou os filósofos modernos para o panteísmo. Até Victor Cousin o reconhecia mais tarde. Em seu "Curso de filosofia" de 1828 (décima terceira lição), ousava afirmar:

"A filosofia do século dezoito é o desenvolvimento do movimento cartesiano em dois sistemas opostos que o cartesianismo continha em seu seio, sem ter desenvolvido todo o seu poder. Era preciso que essas potências ocultas tomassem todo o seu desenvolvimento para que fossem conhecidas, tanto no que tinham quanto no que não tinham. Daí o idealismo da escola alemã e o sensualismo inglês e francês." (11)


Notas

  1. Este estudo é o complemento de um trabalho sobre a "Tradição" no século XIX. (Cf. Étienne COUVERT: "A Gnose contra a Fé", cap. III). Por isso não damos aqui uma crítica desenvolvida do Tradicionalismo filosófico.
  2. Padre J. BELLAMY: "A teologia católica no século XIX" (cf. Bibliografia).
  3. (Chamada de nota (3) não localizada no texto; nenhuma nota 3 impressa.)
  4. Com a exceção que havíamos assinalado em "A Gnose contra a Fé", p. 111, de Joseph de Maistre. Seus amigos, os jesuítas de São Petersburgo, haviam-lhe posto nas mãos a "Suma" de São Tomás, que ele começou a ler sem compreender grande coisa.
  5. R.P. VENTURA DE RAULICA: "Da verdadeira e da falsa filosofia" (Cf. Bibliografia).
  6. Cf. "A Gnose contra a Fé", p. 117.
  7. Carta citada, sem outras referências, pelo Sr. DUILHE DE SAINT-PROJET em sua obra sobre "Os Estudos religiosos na França..." (Cf. Bibliografia).
  8. Tratamos desses problemas em nossos estudos sobre o Platonismo (Cf. "A Gnose contra a Fé", cap. I) e sobre Descartes (Cf. "Da Gnose ao Ecumenismo", cap. III).
  9. Trata-se da passagem da Epístola aos Romanos relativa aos filósofos pagãos que, tendo conhecido Deus por suas obras, não o glorificaram como Deus (Rm 1,19-26).
  10. Denzinger: "Enchiridion...", n.º 1508.
  11. Desenvolvemos este ponto em "Da Gnose ao Ecumenismo", cap. III.

O RETORNO DA ESCOLÁSTICA, OBRA DOS JESUÍTAS

O rápido impulso que a escolástica tomou ao longo do século XIX deveu-se essencialmente à atividade própria da Companhia de Jesus. Com efeito, esses religiosos haviam permanecido fiéis à intenção de seu fundador, Santo Inácio, que estabelecera solidamente sua formação intelectual sobre a filosofia de São Tomás de Aquino, e a "Ratio studiorum", obra de seus sucessores, havia recordado a obrigação de ensinar, nos colégios da Companhia, o pensamento tomista.

Após sua supressão por Clemente XIV, os jesuítas espanhóis e portugueses haviam se refugiado na Itália, nos Estados pontifícios, onde mantiveram como puderam um ensino da escolástica. Os jesuítas franceses haviam se refugiado na Polônia e na Rússia, onde obtiveram do papa Pio VI a permissão de continuar a viver sob a regra de Santo Inácio. Fundaram também colégios nesses países, onde se esforçavam por manter fielmente o ensino tomista. Foi sua expulsão, depois de 1808, pelo tsar Alexandre I, a pedido das sociedades bíblicas protestantes de origem inglesa, que provocou seu retorno a Roma e permitiu, em 1815, ao papa Pio VII restabelecer sua Instituição em toda a Igreja.

A cada senhor, sua honra! Comecemos pelo Padre Jean Rozaven. Era, em 1823, o assistente da França junto ao Geral dos Jesuítas. Foi igualmente o conselheiro teológico dos papas até sua morte em 1848. Era um bretão tenaz, corajoso, de grande inteligência, que acompanhou todo o movimento menaisiano na França e opôs-se a ele energicamente. Começou por redigir uma carta encíclica pela qual o Geral prescrevia a seus religiosos "abster-se de ensinar ou de combater as doutrinas novas (as de Lamennais e de seus discípulos) e manter-se, nos colégios da Companhia, na doutrina de São Tomás e de Santo Agostinho" (12). Deu vários artigos sobre o mesmo assunto ao "Amigo da religião e do rei". Quando Lamennais foi a Roma, em 1824, teve uma longa entrevista com o P. Rozaven, que se esforçou, mas em vão, por fazê-lo renunciar à sua filosofia e à sua doutrina do novo critério da razão geral.

Quando o padre Gerbet publicou, algum tempo depois, uma defesa do "Ensaio" de Lamennais, o P. Rozaven respondeu-lhe, em 1831, com a publicação de seu "Exame de um livro intitulado: Das doutrinas filosóficas sobre a certeza em suas relações com os fundamentos da Teologia, do padre Gerbet" (Paris, 1831). Foi, em 1832 e 1834, o principal autor das duas encíclicas de condenação de Lamennais. Quando o bispo de Estrasburgo, Mons. de Trévern, levou ao conhecimento de Roma a advertência oficial dada ao padre Bautain, redigiu ele mesmo a resposta do magistério, dando total apoio ao bispo. (13)

Honra ao P. Rozaven, que defendeu a filosofia escolástica, contra ventos e marés, numa época em que o conjunto do mundo eclesiástico a desprezava. Era preciso certa coragem. Ai de nós! Os manuais de filosofia ignoram seu nome e se estendem com complacência sobre as teorias dos tradicionalistas.

Outro, o P. Chastel (S.J.), publicou em 1852 um livro: "A Igreja e os sistemas de filosofia moderna", no qual manifestava seu espanto diante da persistência do tradicionalismo menaisiano. Dava uma seleção de proposições tiradas das obras e revistas católicas da época, no "L'Univers" de Louis Veuillot, no "Monde catholique" igualmente, proposições sustentadas com a ingênua boa consciência de ser fiel ao catolicismo autêntico e integral.

O P. Chastel publicou ainda, em 1854, uma segunda obra: "Do valor da razão humana", em que demonstrou a identidade de pontos de vista de Bonald e de Lamennais. Notou as fraquezas e as contradições do sistema bonaldiano, como já havia feito antes o P. Ventura. Mostrou que esse tradicionalismo havia falhado em sua missão, que era um resíduo de um jansenismo inconsciente, notadamente no desprezo repisado pela natureza humana, e que era absolutamente incompatível com o espírito do Tomismo.

Em 1857, os jesuítas fizeram aparecer uma revista que se tornou célebre sob o título: "Estudos de teologia, de filosofia e de história", publicada pelos Padres Charles Daniel e Jean Gagarin. Essa revista esforçava-se por remediar a invasão do pensamento protestante. Punha em guarda os espíritos ponderados contra um entusiasmo pelas filosofias modernas, pela boca do P. Matignon, a propósito das questões levantadas na Alemanha no Congresso de Munique, em junho de 1864, na época em que sacerdotes franceses iam buscar lá suas fontes de pensamento.

Em 1863, com efeito, Renan havia publicado sua "Vida de Jesus", cuja inspiração vinha diretamente da ciência alemã protestante. Um padre Vollet, ainda bem jovem, exclamou: "É preciso colocar-se no terreno em que nossos adversários nos arrastaram e vencê-los com suas próprias armas. Mas o que se fará na França?" (14)

Pobre infeliz! O adversário é senhor do terreno que minou e das armas que escolheu para abatê-lo! O Vigário-Geral de Mons. Darbois, em Paris, o padre Maignan, pediu a vários alunos distintos do Grande Seminário que fossem formar-se nas Universidades alemãs. Designou primeiro o padre Vollet; mas o padre d'Hulst, que ele havia sondado, recusou e foi a Roma seguir os cursos do Colégio Romano. Foi ele quem, mais tarde, na sequência da encíclica de Leão XIII sobre os estudos eclesiásticos, presidiu, como Reitor do Instituto Católico de Paris, à restauração do Tomismo, que chamava de peripatetismo cristão. (15)

Os jesuítas alemães toparam também com uma resistência igualmente considerável no mundo intelectual germânico, mesmo entre os Católicos.

Desde 1852, o programa da revista "Der Katholik", publicada em Mogúncia, era: retorno à escolástica. Era preciso rejeitar "as migalhas da filosofia alemã" de que a época se contentava e voltar "aos tesouros legados pelos ancestrais". Heinrich Hurter declarava então: "A teologia não deve destruir, mas continuar (fortbauen) o edifício da velha teologia". O "Katholik" de Mogúncia seguia com vigilância as manifestações que lhe pareciam pôr a fé em perigo.

Em 1862, exprimia a necessidade de estudar primeiro São Tomás para estudar Aristóteles de modo fecundo e inofensivo. Defendia, na mesma época, contra a ciência alemã, o que essa ciência chama de "escolástica galvanizada e ciência jesuítica". Perseguia as fórmulas indecisas que podiam abrigar em seus vagos contornos um partido tomado hábil de indocilidade; não tolerava nenhuma desenvoltura em relação à escolástica e às congregações romanas. (16)

Um jovem jesuíta alemão, Karl-Wilhelm Kleutgen (1811-1883), estudante em Munique, depois seminarista em Paderborn, veio concluir sua formação em Roma, onde sofreu, em seus começos, a benfazeja influência do P. Rozaven. Publicou primeiro, em 1853, vários volumes intitulados em alemão: "A filosofia antiga defendida pelo R.P. Kleutgen", traduzidos para o francês somente em 1868, sob o título: "A Filosofia escolástica" (4 vol. in-8) (17)

Exalta a solidez da antiga filosofia contra três espécies de adversários: os racionalistas religiosos alemães, os sacerdotes Hermes e Günther, discípulos de Descartes, os tradicionalistas bonaldianos e menaisianos, os ontologistas, cujo ensino desembocava logicamente no panteísmo. Havia publicado em 1867 um folheto contra eles intitulado: "O Ontologismo julgado pela Santa Sé", traduzido por um padre Sierp, professor de teologia no Grande Seminário de Rouen.

Querer constituir uma nova filosofia católica na Alemanha era, assegurava ele, fazer concessões ao Protestantismo. A "velha ciência católica", assim qualificava a escolástica, era a única eficaz, desde que os manuais fossem adaptados, não ao espírito do século, mas às suas necessidades reais. Era preciso voltar a São Tomás e manter-se firmemente em seu pensamento; para curar, na Alemanha, o fideísmo inconsciente das imaginações românticas e o racionalismo muito formalista dos intelectuais.

A casa de Estudos dos Jesuítas de Maria-Laach, perto de Colônia, foi o centro de difusão do pensamento tomista por todos os países de língua alemã. Editou uma coleção de manuais de filosofia, intitulada: "Philosophia Lacensis", publicados pelos P.P. Tilman, Pesch, Meyer, Hontheim, e uma "Bibliotheca scholastica" redigida pelo cardeal Franz Ahrle para pôr as fontes medievais dessa filosofia ao alcance dos eclesiásticos.

A "ciência alemã" partiu em guerra violenta contra essa invasão de Romanidade. Reinskens, professor em Breslau, declarava que o apego dos jesuítas ao Tomismo os desqualificava como professores de universidade; Franz-Xaver Dieringer (1811-1876), professor em Bonn, fazia uma crítica muito violenta ao esforço filosófico de Kleutgen. Declarava, numa "Folha de literatura teológica", entre 1866 e 1870, que a Igreja devia falar em cada época a língua dessa época e elaborar um compromisso definitivo entre a teologia medieval e a do século XIX (18), acusando o Padre Kleutgen, embora muito "superior graças à sua cultura alemã", "de recusar a salvação" fora da escolástica. Acusava-se sua posição de intemperança e de exagero excessivo.

Era corrente zombar: "Doctor Romanus, asinus Germanicus"; um doutor de Roma não passa de um asno na Alemanha, e denunciava-se vilmente o complô jesuítico. Já em 1837, o ministro prussiano Bunsen acusava, num memorial sobre as dificuldades entre a Igreja e a Prússia, os jesuítas de combater a ciência católica alemã.

As "Vozes de Maria-Laach", publicadas pelo P. Florian Riess (1823-1882), difundiam a boa filosofia tomista e recebiam em troca, bem o sabemos, os ataques violentos da "ciência alemã". O núncio em Munique, Mons. Méglia, escrevia a Roma um relatório muito sombrio sobre a situação:

"Quase todos, dizia ele, como também todos os eclesiásticos que gozam de alguma reputação de saber e de doutrina, fazem glória de formar o que chamam o grande partido dos sábios da Alemanha. Suas aspirações consistem em geral em encorajar e seguir, até em suas últimas evoluções, o progresso científico, e isso por uma liberdade, uma independência inteira, mantendo sem dúvida intacto o dogma, mas sacrificando certas doutrinas que a ele se ligam e que não são definidas pela Igreja: deixar de lado os antigos métodos da escolástica, essas velharias da Idade Média, dizem eles, incompatíveis com o progresso moderno; tornar o método científico católico o mais semelhante possível ao método científico protestante, a fim de fazer ressaltar melhor a preeminência da teologia católica sobre a teologia protestante; dar enfim aos estudos bíblicos, filológicos, históricos, um grande lugar para deixar apenas um pequeno à teologia verdadeira e positiva. O que predomina nesse partido é o orgulho. Por isso sofre com dificuldade o freio da autoridade que, segundo ele, entrava o progresso. Eleva às nuvens o sistema universitário da Alemanha sábia e o prefere ao dos seminários do estrangeiro..." (19)

Nada de novo sob o sol. Eis aonde conduz naturalmente a pretensão de bater o inimigo em seu próprio terreno tomando-lhe emprestadas as armas. É uma maneira manifesta de "passar para o inimigo", ai de nós!

Mas o inimigo não se enganou. Em 1870, Bismarck expulsou os jesuítas de Maria-Laach e instalou ali beneditinos, e essa abadia tornou-se, no início do século XX, um covil de modernistas e, depois, um dos focos da revolução litúrgica.

A ENCÍCLICA "AETERNI PATRIS"

Um padre Ackermann escrevia em 1890, nos "Anais de Filosofia cristã", estas observações de bom senso:

"Não se pode dizer, explicava ele, que o pensamento filosófico moderno, depois das ruínas que espalhou à sua volta, depois da desordem lançada nos espíritos, esteja neste momento num período de confiança. A ciência não cumpriu todas as suas promessas. O mundo é mais misterioso do que nunca. Nossas sínteses explicativas não sobrevivem ao dia que as vê nascer. O mecanismo não é para ninguém uma explicação, o evolucionismo parece a todos simples demais para ser satisfatório. Descontente e decepcionado, toma-se desgosto por uma existência que já não tem sentido inteligível, já não tem finalidade".

Desde Descartes, cada filósofo, cada homem de ciência quer dar sua síntese explicativa total do mundo, seu sistema de pensamento. Com uma ingênua presunção, cada um julga poder apresentar a explicação definitiva da origem do mundo, de sua natureza íntima e de sua finalidade. Não se hesita hoje em escrever obras que se pretendem definitivas: "Para acabar com..." E, a cada vez, é preciso moderar-se e retratar-se. A explicação que se queria definitiva fracassou: a evolução, o Big-Bang, a relatividade vieram tomar o lugar do atomismo, da mônada, da síntese hegeliana ou dos três estados de Auguste Comte... etc... etc. E depois de cada fracasso dessas fantasias imaginativas, sempre se achou um "novo filósofo" para exclamar, com ridícula ingenuidade: "Enfim achei a Chave do universo!" E seu livro se torna um best-seller da edição. Todos o disputam. Alguns anos depois, cai no esquecimento e no nada de que jamais deveria ter saído.

Foi Descartes que deu o impulso: "Dai-me a extensão e o movimento e refarei o mundo". Pretensão absurda. Para descobrir o fundo misterioso da natureza íntima das coisas, Descartes as reduz à sua abstração numérica e usa a demonstração matemática. Tudo se explica por A mais B, porque tudo foi reduzido a uma mecânica universal. Mas as demonstrações matemáticas são proposições vazias de todo conteúdo e jamais mostrarão a natureza dos seres. Reduzir a qualidade à quantidade é mutilar o real e tornar-se incapaz de apreendê-lo.

Para penetrar no íntimo da Criação, é preciso ser o próprio Criador. Para observar a Criação em seu conjunto e num único olhar, é preciso estar fora dela. É preciso poder observá-la de longe e colocá-la sob o próprio olhar, o que está totalmente excluído de nossas capacidades intelectuais. E, portanto, todos esses sistemas filosóficos são puramente imaginários, desprovidos de qualquer fundamento real.

Cada pensador se agarra apaixonadamente a seu sistema e o defende com ardor violento, depois de, no fundo, sentir-lhe a fragilidade. Precisa de uma argumentação complicada para se fazer ouvir, e o acúmulo de provas mostra sua ineficácia. Uma só seria decisiva, se fosse verdadeira; mas uma multidão de provas acrescentadas umas às outras mostra apenas a impotência de um espírito desejoso de fazer o leitor aceitar seu sistema, e só pode despertar desconfiança.

É, ai de nós! o que observamos todos os dias ainda hoje.

Em "Çà et là", Louis Veuillot conta a entrevista que teve um dia com o futuro P. Hernsheim. Este último, ainda jovem, dava uma conferência sobre a "mônada" de Leibniz, que fora o tema de sua tese:

"Falastes bem, disse-lhe ele ao final da exposição, mas para quê?

É precisamente, respondeu Hernsheim, o que eu me perguntava ao falar, e no entanto, no momento de começar, eu ainda acreditava que ia dizer-vos coisas úteis. Essa filosofia não passa de um jogo de espírito bom para divertir um pequeno número de iniciados. Ao expor-vos esse sistema, eu via dois ou três outros a construir, totalmente contrários e igualmente bons. Jamais se tirará daí uma prece, um gemido para Deus, ainda menos a conversão de um povo, que é o resultado a que se deve tender. Mas se meu discurso foi tempo perdido para vós, não o foi para mim. Deus abençoou minha intenção. A partir deste momento, apego-me ao sólido." (20)

Alguns anos depois, tornado dominicano, o P. Hernsheim ensinava a doutrina cristã do alto do púlpito de Nancy, depois de Paris.

Jamais São Tomás de Aquino pretendeu expor um sistema universal e uma explicação definitiva do mundo. Sua inteligência era toda iluminada pela Fé cristã. Remetia-se para isso à Revelação divina. O que lhe dava uma grande liberdade para escrutar pela razão natural a forma inteligível dos seres que podemos atingir e perceber por nossos sentidos.

Protegido pelas barreiras da doutrina revelada, o espírito podia mover-se livremente no interior dos dados naturais. Bastava aplicar-lhes algumas regras de bom senso, algumas distinções necessárias, que São Tomás havia retomado de Aristóteles, a matéria e a forma, o ato e a potência, a substância e os acidentes, a essência e a existência, e com as quais nossa razão podia desenvolver indefinidamente argumentações pro e contra, sem jamais sair da ortodoxia religiosa, nem pretender uma explicação exaustiva do mundo. (21)

Em 4 de agosto de 1879, Leão XIII publicava a encíclica "Aeterni Patris", dando enfim ao movimento de renascimento do Tomismo sua consagração oficial. Foi preciso esse ato de autoridade para reconduzir o mundo intelectual e eclesiástico ao verdadeiro pensamento cristão. As expressões empregadas pelo papa são, aliás, muito enérgicas: "Perfeita e íntima conexão das coisas e das causas, ordenação e disposição que lembram um exército em ordem de batalha, definições e distinções lúcidas, firmeza de argumentação e extrema sutileza de discussão, separando a luz das trevas, o verdadeiro do falso e despojando, por assim dizer, de suas vestes enganosas as mentiras da heresia, recobertas de uma infinidade de prestígios e de sofismas".

Leão XIII diz ainda de São Tomás:

"Nele nada falta, nem a abundância das questões, nem a hábil disposição das partes, nem a excelência dos procedimentos, nem a solidez dos princípios, nem a energia dos argumentos, nem a clareza e a propriedade dos termos, nem a facilidade de explicar os assuntos mais inacessíveis".

Todas qualidades que tornam "a teologia escolástica tão temível aos inimigos da verdade..." Declara São Tomás patrono das Universidades, das Academias, dos Liceus e das escolas católicas. Recomenda aos professores de filosofia que não façam "de seus talentos, de sua erudição, bem como das riquezas de suas invenções pessoais... o único ou o principal objeto de sua aplicação..." Recomendação bem necessária para pensadores cristãos mais frequentemente tentados a privilegiar suas pequenas elucubrações pessoais e a desprezar o pensamento do Doutor Comum.

Mons. d'Hulst, em 1886, precisava que era preciso imitar São Tomás e fazer hoje o que ele faria, se estivesse em nosso lugar e dispusesse de todo o patrimônio com que se enriqueceu, ao longo dos séculos, o espírito cristão; e Mons. Fuzet, arcebispo de Rouen, escrevia em sua "Carta pastoral" de 26 de novembro de 1907:

"Não é notável que em toda parte a difusão dos erros modernos tenha sido sempre acompanhada de um desprezo mais ou menos ostensivo pela teologia primeiro, depois por essa filosofia escolástica que está na base de nossas fórmulas doutrinais, a de São Tomás, a que se encontra em muitas definições de nossos concílios, a que formou o espírito da maior parte de nossos gênios católicos desde o século XIII, a que enfim parece ter estabelecido definitivamente as leis essenciais da própria razão e da qual só se assustam aqueles que a ignoram ou que querem minar os dogmas".

Com efeito, todas as filosofias modernas, desde Descartes, constituíram-se em "máquina de guerra" contra a Fé cristã e, para extingui-la mais facilmente, empenharam-se em demolir a inteligência, em falsear o sentido das palavras, em criar toda uma mecânica intelectual construída sobre o imaginário e em rejeitar o realismo do pensamento tomista, porque essa realidade, que São Tomás iluminou com seu belo gênio, era obra de Deus e era preciso levantar contra ela as almas de nossos contemporâneos numa revolta absurda e monstruosa.

E. C.

* * *

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

Um ponto de partida

  • Louis FOUCHER: "A Filosofia católica na França no século XIX antes do Renascimento tomista e em sua relação com ele". (1800-1880) (Vrin, 1955)

Livros essenciais:

  • Pierre LASSERRE: "A Juventude de Ernest Renan - História da crise religiosa no século XIX" t.I "De Tréguier a São Sulpício" (Garnier, 1925) - t.II "O drama da metafísica cristã" (Garnier, 1925), apaixonante e muito aprofundado. - t.III "A iniciação filosófica de Ernest Renan" (Calmann-Lévy, 1932). O conjunto dessas três obras constitui um estudo penetrante e notável do problema da escolástica.
  • J. BELLAMY: "A Teologia católica no século XIX" (Beauchesne, 1904), manual clássico.
  • Alfred BAUDRILLART: "O ensino católico na França contemporânea: Apologistas e mestres cristãos". (Blond, 1910, conjunto de artigos e estudos publicados no início do século que apresentam os principais pensadores cristãos do século XIX.
  • M.F. DUILHE DE SAINT PROJET: "Dos estudos religiosos na França desde o século dezessete até nossos dias" (Lecoffre-Privat, 1881), obra antiga de valor.
  • Georges GOYAU: "A Alemanha religiosa, o Catolicismo", 4 vol. (Libr. acad. Perrin, 1910-1911). O autor interessa-se particularmente pelo combate travado pelos jesuítas alemães pelo retorno à escolástica.
  • René FÜLÖP-MILLER: "Os Jesuítas e o segredo de seu poder - História da Companhia de Jesus. Seu papel na história da civilização" traduzido do alemão por Jean Gabriel GUIDAU (2 vol. Plon, 1933)
  • Padre H. GOUJON: "Os inimigos da razão, a filosofia da vontade e a apologética da imanência" (Moral, 1904)
  • R.P. VENTURA DE RAULICA: "Da verdadeira e da falsa filosofia em resposta a uma carta do Senhor Visconde Victor de Bonald" (Gaume Fr. 1852) e: "Ensaio sobre a origem das ideias e sobre o fundamento da certeza, seguido de novas observações sobre o cartesianismo". (Vaton, 1853)

Algumas monografias úteis

  • Paul DUDON: "Lamennais e a Santa Sé (1820-1834) (Libr. acad. Perrin, 1911)
  • Padre de REGNY: "O Padre Bautain, sua vida e suas obras" (Bray et Rétaux, 1884)
  • Gabriel MATON: "De Joseph de Maistre a Léon Bloy: Blanc de Saint-Bonnet, filósofo da Unidade espiritual (1815-1850) (Vitte, 1961)
  • Jean GUIRAUD: "Monsenhor Freppel" (Flammarion, 1933)

Notas

  1. Cf. CRÉTINEAU-JOLY: "História da Companhia de Jesus", 3ª ed. VI, p. 126-128.
  2. Cartas inéditas do P. Rozaven publicadas no "Bulletin critique" em 1902 pelo P. INGOLD.
  3. "Lembranças do padre Vollet" p. 320 (Carta ao padre Laroche, de maio de 1864).
  4. Prefácio de seus "Mélanges philosophiques" (Conferências dadas no Instituto católico em 1886, p. 276 a 390).
  5. Sobre tudo isso consultar Georges GOYAU: "A Alemanha religiosa, o Catolicismo" passim (Cf. bibliografia).
  6. KLEUTGEN: "Ueber die alten und die neuen Schulen", publicado desde 1846 sob o pseudônimo de J.A. Karl.
  7. Linguagem bem conhecida hoje, ai de nós! Um compromisso, bem o sabemos, nunca é definitivo, mas sempre provisório e destinado a ser substituído por outro compromisso. Até onde... até a capitulação final...
  8. Citado por Georges GOYAU em: "A Alemanha religiosa: o Catolicismo", t.IV p. 298.
  9. Louis VEUILLOT: "Çà et là", t.I, p. 145.
  10. Cf. Émile BRÉHIER: "Transformações da filosofia francesa" (Paris, 1950, p. 69).