GNOSE E HUMANISMO 2
Os temas gnósticos na literatura
Finalmente, os gnósticos entenderam bem que para penetrar na sociedade cristã e perturbar toda a sua mentalidade, eles não poderiam dispensar os homens de letras, principalmente os poetas. Eles assediaram estes últimos, eles os educaram, instruíram em todas as ciências ocultas, na alquimia, na Cabala, na filosofia platônica, sobretudo. Em seguida, eles lhes explicaram que eles eram os verdadeiros sacerdotes de uma nova religião, que sua poesia deveria aparecer como uma revelação divina, já que a inspiração vem diretamente da Divindade. Não será, portanto, surpresa encontrar nos poemas do Renascimento todas as ideias desenvolvidas nas páginas anteriores.
Joachim du Bellay deixou sonetos impregnados do idealismo platônico, repousando sobre uma concepção nova do amor e da beleza. O amor pela beleza terrestre, diz ele, traduz a aspiração sublime da alma, prisioneira aqui na terra, em direção à Beleza divina ideal. Este deve ser um amor casto e puro, na verdade um amor estéril, desviado de sua finalidade própria, a procriação. É até mesmo um amor que exalta a Morte, que a chama, que a provoca até.
Já, antes dele, Clément Marot havia apresentado esse amor pela beleza como um chamado ao suicídio:
“A alma é o fogo, o corpo é o tição,
A alma é do alto, e o corpo inútil
Não é outro caso senão uma baixa prisão
Em que definha a alma nobre e gentil.
De tal prisão, tenho a chave sutil;
É o meu dardo, à alma gracioso,
Pois ele a tira de sua prisão vil,
Para aqui embaixo a enviar aos céus.”
A morte é boa, é preciso desejá-la, é fácil se dar a ela, pois ela é libertadora. Encontra-se a mesma concepção da morte libertadora neste poema de Joachim du Bellay, intitulado
A IDEIA“Se nossa vida é menos do que um dia
No Eterno, se o ano que faz a volta
Expulsa nossos dias sem esperança de retorno,
Se perecível é toda coisa nascida,
O que pensas, minha alma aprisionada?
Por que te agrada a obscuridade de nossos dias,
Se, para voar para uma morada mais clara,
Tens nas costas a asa bem empenada?
Ali está o bem que todo espírito deseja,
Ali o repouso para o qual todo mundo aspira,
Ali está o amor, ali o prazer ainda.
Ali, ó minha alma, ao mais alto céu guiada,
Poderás reconhecer a Ideia
Da beleza que neste mundo adoro.”
Nota-se, no final, que a Beleza tomou o lugar de Deus, que o amor é sinônimo de prazer e de liberdade, que a alma levada pela asa empenada é angelical. Finalmente, como “voar para a morada mais clara” sem se dar a morte? Este poema é, portanto, também um chamado ao suicídio. Não se deve igualmente iludir sobre a qualidade cristã de tal amor. Jamais o Cristianismo ensinou que o amor deveria ser estéril, o que é a consequência de um amor dito “casto e puro”: é uma invenção da Serpente, “homicida e mentirosa”. Nós a reencontraremos em toda a poesia romântica. Essa impaciência de escapar da “prisão” terrestre, essa aspiração em direção a um absoluto de Beleza, que não é Deus, anuncia todas as extravagâncias românticas…
Mas ouçamos Ronsard .
Ele estabelece primeiro o dogma do sacerdócio dos poetas:
“Deus está em nós e por nós faz milagre,
De modo que os versos de um poeta escrevendo
São dos deuses os segredos e oráculos
Que por sua boca eles impulsionam adiante.”
“Por que, então, vocês fazem padres?” perguntará mais tarde Victor Hugo. O poeta é o verdadeiro sacerdote da religião gnóstica. Ronsard se quer e se diz cristão, mas todo o seu pensamento é panteísta. O próprio Deus, segundo ele, é a energia vital que circula no universo, geradora dos seres que o povoam. Ele é a víscera central, o foco do ardor do mundo, a Alma do Mundo que o envolve e da qual todas as criaturas são os acidentes. Ouçamos essa Gnose:
“Deus está em todo lugar, em todo lugar Deus se mistura,
Começo, o fim e o meio
Do que vive e cuja alma está encerrada
Em todos os lugares e mantém em vigor todas as coisas...
Dos elementos dessa alma infusa
Nós nascemos. O corpo mortal, que se desgasta
Pelo passar do tempo, é feito de elementos;
De Deus vem a alma, e como ele é perfeito,
A alma é perfeita, intocável, imortal,
Como vindo de uma essência eterna:
A Alma não tem, portanto, começo nem fim,
Pois a parte sempre segue o todo.
Pela virtude dessa alma misturada
Gira o céu até a abóbada estrelada.
O mar ondula e a terra produz
Pelas estações, ervas, folhas e frutos.
Pérolas, safiras, têm daí sua essência,
E por tal alma, elas têm força e potência,
Mais ou menos, conforme elas estão cheias,
O mesmo acontece conosco, pobres humanos...”
Eis um bom resumo da cosmologia gnóstica: Deus é identificado à Alma do mundo que dá vida e força a todos os seres. Ele é o começo, o meio e o fimfim[1]1. Essa expressão é tirada de Hermes Trismegisto. A Alma humana é um elemento da alma divina infusa na natureza. Trata-se, portanto, de uma emanação. Ela é eterna, não teve começo, como Deus, já que “a parte segue o todo”. A Alma divina percorre o mundo e passa de um ser a outro, como o elã vital de Bergson. Ela é o princípio animador de tudo, até mesmo dos seres não animados, como as pérolas e as safiras. Assim, todos os reinos, vegetal, animal, mineral, são animados pelo mesmo sopro.
Esse animismo universal é comum a todos os poetas do Renascimento. Até mesmo o austero calvinista, Agrippa d'Aubigné, parafraseia antecipadamente o “Tudo vive, tudo está cheio de almas.” de Victor Hugo. Ele descreve assim a ressurreição:
“Aqui uma árvore sente dos braços de sua raiz
Agitar-se um chefe vivo, sair um peito
Lá, a água turva borbulha e depois, se espalhando
Sente em si cabelos e um chefe despertando…”
Ronsard , em uma de suas mais célebres “Elegias”, resume bem o problema:
“Ó deuses, como é verdadeira a filosofia
Que diz que tudo no fim perecerá,
E que ao mudar de forma outra vestirá!
…
A matéria permanece e a forma se perde.”
A matéria, aqui, no pensamento do poeta, é divinizada, já que ela carrega em si mesma em potência todas as formas possíveis e produz a variedade. Essa matéria é, portanto, a Alma do mundo. Os seres não são senão manifestações provisórias e sucessivas de um mesmo princípio vital “encerrado, infuso” na Natureza.
Finalmente, Ronsard , como todo bom gnóstico, pratica o culto do demônio. Ele estudou as ciências ocultas e praticou a demonologia. Ele empresta sua história dos devaneios neoplatônicos de Jâmblico, do cronista bizantino Psellos, dos grimórios dos ocultistas.
Ele publicou o “Hino dos Daimons”, dedicado ao bispo de Riez, Lancelot de Carle, grande apreciador da filosofia secreta, com a intenção, aliás, de escapar aos raios da Inquisição abrigando-se por trás de um prelado. Esse poema se conecta às mais exatas tradições das ciências ocultas da época.
Nesse poema, Ronsard relata que os daimons foram concebidos pelas mulheres da terra pelos Anjos (“Vejam que potência tem a beleza das mulheres”) e que Deus, tendo castigado os culpados, perdoou os filhos inocentes:
“Que, não sendo culpados pelo ato de seus pais,
Tendo mais da parte do pai do que da mãe,
Voaram para o ar como coisa leve”.
Eis uma torção um pouco forte no dogma do pecado original. Esses daimons animaram os diversos planetas que governam por eles os atos e os caracteres dos mortais:
“Segundo o astro do céu sob o qual nasceram,
Os de Saturno fazem o amor melancólico,
Os de Marte, coléricos, os de Vênus, luxuriosos…
Os do sol, amados, felizes, os jovianos…”
Por onde se vê ainda que a Astrologia é uma ciência demoníaca, pois pretende determinar os atos humanos por uma influência astral que lhes tira toda a liberdade.
Compreende-se também que esses “daimons” não são outra coisa senão os Arcontes dos gnósticos ou os Sefirots dos cabalistas; eles são bem as perfeitas emanações do Grande Todo que comandam a marcha do Universo e controlam as vontades humanas. Vê-se ainda aparecer em filigrana através deste poema a reabilitação de Satanás, tornado Lúcifer e mestre do céu, como os Românticos em breve o exaltarão.
Alguns humanistas
Cornélio Agripa
Cornélio Agripa von Mettersheim (nascido em Colônia em 1486, morto em Grenoble em 1533) é um bom exemplo de humanista. Ele foi iniciado na Cabala e no Ocultismo pelo padre Jean Tritêmio (Johann Trithémius). Este último é o tipo perfeito do padre “modernista” antes da letra. Ele havia reunido em torno de si seus discípulos em Wurzburgo. Ele foi o mestre de Paracelso, a quem havia iniciado na Magia.
Cornélio Agripa compôs aos 25 anos um livro sobre a filosofia oculta, impregnado de Cabala judaica. Ele ensinava a alta teologia, anunciando aos eleitos o segredo do Evangelho. Seguindo o exemplo de Tritêmio, ele atacava violentamente os monges. Em 1509, ele foi para Dole, onde foi aceito como membro da Academia e onde deu lições públicas sobre o tratado de Reuchlin, De Verbo mirifico. Reuchlin reunia as doutrinas da Cabala e de Pitágoras.
Ao ir para Dole, no Franco-Condado da Borgonha, ele esperava ganhar a benevolência de Margarida da Áustria. Ele escreveu com esse objetivo um discurso sobre “A Nobreza e Excelência do sexo feminino” e o dedicou a ela. Foi impresso em 1529:
“O homem, escreve ele, é Adão, é a Natureza, a carne, a matéria. A mulher, é Eva, é a Vida, a Alma, é o misterioso tetragrama da inefável onipotência divina. A mulher teve como berço o Paraíso, o Homem recebeu o dia no meio dos brutos. A mulher é superior ao Homem, pelo espírito tanto quanto pela Beleza, esse reflexo da divindade, esse raio da luz celestial, mais ainda, a Mulher, é o próprio Deus…”
Reconhece-se sob essas enormes e absurdas bajulações, algumas noções bem gnósticas, o “tetragrama sagrado” em particular e a ideia da Sofia, sabedoria feminina do divino, a ideia também do “eterno feminino”, bem conhecido dos Teilhardianos.
Este discurso não agradou Margarida da Áustria, pois o provincial dos Franciscanos, Jean Catelinet, pregando a Quaresma em 1510, diante da governanta dos Países Baixos, denunciou Cornélio Agripa como “um herege judaizante”.
Mas sempre impulsionado por Trithème, ele [Cornélio Agripa] explicou que todas as doutrinas sobre a Magia, a Astrologia e a Alquimia deveriam ser compreendidas segundo um sentido místico. Ele se deu bem. Em 1512, ele se tornou conselheiro imperial do imperador Maximiliano. Em 1515, ele deu aulas sobre Hermes Trismegisto em Pavia, casou-se, foi recebido como doutor em direito e em medicina. Ele se tornou respeitável, honrado, acarinhado. Em seguida, em 1529, Margarida da Áustria o nomeia seu conselheiro, seu indicário e seu historiador. Resultado de uma hábil ascensão progressiva, fruto de uma longa paciência e coroamento de uma carreira. Doravante, ele poderá escrever com toda segurança, protegido por tão altos patrocínios contra os tribunais eclesiásticos.
Vejamos seu ensinamento. Em seu tratado De incertitudine et vanitate scientium, ele entra em guerra contra a razão humana, professa um ceticismo generalizado sobre o qual constrói sua mística. Ele ensina a união mística de nosso espírito com a Natureza e com Deus. Ele ataca Aristóteles e sua lógica, é claro. Ele acha ridículo que esta queira nos ensinar a concluir:
“Pensa-se”, escreve ele, “que nossos conhecimentos devem partir dos sentidos, mas os sentidos são enganadores, eles não podem conhecer as causas, onde, no entanto, é preciso buscar todos os nossos conhecimentos.”
Daí a conclusão de que cada homem deve se convencer de que a verdade só pode ser apreendida pela livre adesão da Fé:
“A bondade do homem não repousa senão sobre o livre-arbítrio, que se prova pela fé, na qual nos voltamos para Deus, fonte de toda a verdade. Não é a língua, mas o coração que é a sede de toda a verdade. Não é a razão, é a vontade que nos une a Deus.”
Eis uma bela definição do Fideísmo, com um culto da vontade, privada de sua norma, a razão, e colocada na fonte do conhecimento. É Modernismo…
Cornélio edifica a Teologia sobre a Sagrada Escritura e ele se ressente muito dos teólogos por terem privado o povo desta única fonte da religião. Mas não é preciso compreender a Escritura literalmente. Ela só revela seu verdadeiro sentido pela Iluminação divina do Espírito Santo. Somente Deus é verdadeiro, os homens são todos mentirosos. Pela nossa razão que especula a torto e a direito, não podemos compreender o sentido místico da Palavra revelada:
“Nossa fé,” diz ele, “deve ser dirigida por Deus. Somente Deus é verdadeiro, é com ele que estamos conectados pela Fé. Ele nos revela tudo, ele nos faz ver tudo nele.”
Evidentemente, se a alma humana é uma parcela divina, centelha luminosa mergulhada em um corpo, não há necessidade de um instrumento natural, como o é a razão, para atingir penosamente, com muito esforço e riscos de erros, uma Verdade que já possuímos em nós mesmos, já que nossa alma já está cheia de todos os conhecimentos, que ela é a própria fonte de todas as ideias, que ela está em conexão com a Natureza de Deus. Daí esse desprezo pela razão, que é comum a toda a Gnose desde sempre e que reencontraremos em Lutero, assim como nos Românticos e nos tradicionalistas do século passado.
Em sua obra De occulta philosophia, Cornélio Agripa retoma o ensinamento dos neoplatônicos. À maneira dos humanistas do século XVI, que expusemos anteriormente, ele fala dos deuses, afirma que os pecadores e os pagãos foram tomados pelo Espírito, angélico ou divino:
“Além disso,” diz ele, “todas as religiões são boas, ainda que a cristã seja a melhor.” “A religião”, escreve ele ainda, “purifica o espírito e o torna divino; por meio dela também aumenta as forças da natureza…” “Uma força universal anima o mundo e se revela nele, mas tudo deve ser reconduzido às ideias de Deus, que são umas nele mas múltiplas na Alma do mundo; esta as verte nas coisas inferiores por meio dos astros, na matéria elas só existem como sombras. Elas também estão em nosso espírito, são inatas a nós, como ensina Platão. As coisas materiais são ocupadas por forças ocultas. Os elementos estão cheios de vida e de alma. Um espírito os põe em movimento. Daí a necessidade de uma fonte universal de vida, ou seja, da Alma do mundo, seguindo Platão.”
Vê-se por estes trechos de sua Filosofia Oculta que Cornélio Agripa era profundamente panteísta. Todos esses temas são comuns, de fato, tanto a Platão quanto à Gnose. Não se pergunta mais como ele pôde escapar aos raios da Igreja, agora que se conhece seus poderosos protetores.
O ecumenismo segundo Thomas More
Thomas More ou Morus (1485-1535), grande chanceler da Inglaterra sob o rei Henrique VIII, foi decapitado por ordem do rei, em 6 de julho de 1535, por ter se recusado a renegar sua fé católica. Ele foi, portanto, realmente mártir. O relato de seu cativeiro e de sua morte é admirável. A Igreja romana o canonizou muito justamente em 1935. Mas isso não deve nos iludir. Ele foi, por toda a sua vida, um humanista profundamente paganizado e amigo íntimo de Erasmo, de quem falaremos em breve. Sua conversão final permanece o fruto da graça divina e da liberdade humana.
Não se pode encontrar uma explicação simplesmente humana e nada em sua vida passada nem em sua atividade intelectual poderia deixar prever tal conversão.
Seu livro célebre Utopia, inspirado na República de Platão, é uma obra verdadeiramente subversiva da fé cristã. Já mostramos que o ideal de vida expresso em todas as páginas do livro é totalmente pagão, que não há lugar em Utopia para nenhuma religião, já que os utopianos são belos, bons, perfeitos, plenamente felizes na satisfação de todos os seus instintos e na exaltação de seus prazeres.
A ilha de Utopia tem a forma oval: terra bem protegida por rochas bordeadas por águas mornas e tranquilas, fértil e acolhedora. Sua capital Amarante, no deságue do rio, tem a posição exata do embrião no seio materno. Utopia é previdente, nutridora, maternal. Ela é o ovo primitivo de onde saíram todos os mundos que povoam o universo, ela é a célula original, a matriz do mundo. Ela é Deus espalhado por emanação em todos os seres. A inspiração do livro é claramente panteísta.
Mas continuemos nossa exploração através da ilha de Utopia. Como na República de Platão, como no Estado soviético, tudo ali é regulamentado com precisão de relojoeiro. Todas as atividades privadas e públicas são minuciosamente reguladas. Não há lugar para a menor espontaneidade, para um equilíbrio pessoal e social, deixado ao livre jogo das iniciativas pessoais. Uma única liberdade foi proclamada no início pelo rei Utopus: a liberdade religiosa. Isso poderia ser a confissão de que a religião é sem importância na vida da Cidade, enquanto todas as outras atividades são reguladas porque necessárias e fundamentais.
Mas o motivo invocado pelo rei Utopus é notável:
“Ele não visava apenas a manutenção da paz, recentemente perturbada por combates incessantes e ódios implacáveis, ele pensava também que o interesse da religião exigia essa medida. Jamais ele ousou legislar em matéria de Fé, não sabendo se Deus não inspirava ele mesmo nos homens crenças diversas a fim de provar essa multiplicidade de cultos. Além disso, uma intuição providencial o levava a crer que, se todas as religiões fossem falsas, à exceção de uma única, chegaria um tempo em que, com a ajuda da brandura e da razão, a verdade se revelaria por si mesma, como um caminho luminoso em meio a uma noite de erros entrelaçados. Mas, enquanto isso, quem poderia dizer se Deus não se comprazeria nessa multiplicidade colorida de homenagens, nesse jogo sincero e aplicado de crianças que vão em sua busca?”
Isso é admirável. A multiplicidade das religiões é uma homenagem colorida e um jogo sincero, ela é, além disso, inspirada por Deus. A Verdade se revela por si mesma pelo livre pensamento dos homens. É claro, já que a alma é uma “centelha divina”, que ela possui em si mesma a Verdade, que ela a faz brotar de seu próprio fundo. Ela não precisa de um apoio externo, como de uma revelação. Estamos aqui na lógica da Gnose.
Como então explicar essa multiplicidade que parece, a nós, pobres humanos comuns, uma contradição insolúvel? A resposta é bem simples. Todas as religiões são verdadeiras, mas de uma verdade relativa e complementar, todas são formas particulares e respeitáveis de uma Única Religião Universal, aquela que foi ensinada pela Serpente a nossos primeiros pais: é o Ecumenismo, e é uma revelação satânica: Eritis sicut dei”.
Quando o rei Utopus nos diz: “Se todas as religiões fossem falsas”, nós entendemos bem que essa condição era irreal, já que é Deus quem inspirou a diversidade de crenças.
Ora, nós sabemos bem que nossa alma não é divina, nossa razão é simplesmente natural. Ela está orientada em si para a Verdade, mas, desde a falta original, ela só pode atingi-la por um esforço sustentado e difícil. Os riscos de erro são múltiplos. É por isso que se precisa de autoridades naturais, a do Pai, a do Príncipe, a do Padre. Ora, os humanistas proclamaram a rejeição de todas as autoridades. Em seu Momus, escrito em 1443, Leone Baptista Alberti se elevava contra o princípio de autoridade em matéria de pensamento e terminava por este aforismo do qual se podem tirar as mais graves consequências: “Nada repele mais a Verdade na sombra do que a Autoridade.”
Além disso, a Felicidade já está instalada em Utopia. Um dia, no entanto, um dos discípulos de Hythlodée chegou a Amarante, a capital. Ele exaltou incontinente a religião cristã, a existência de um Salvador, em algum lugar. Para salvar quem, meu Deus, já que tudo vai muito bem no reino de Utopia? Ele chegou até mesmo a ter a audácia de vociferar contra os sectários dos mistérios pagãos, tratando-os de ímpios e de condenados. Evidentemente, ele foi expulso imediatamente. Em Utopia, como no regime soviético, todas as religiões são autorizadas, exceto a de Jesus Cristo. Ali proclamou-se primeiro a liberdade religiosa, depois a liberdade de propaganda antirreligiosa, mas não a propaganda religiosa, o que é lógico. Por que reivindicar a liberdade religiosa, em um Estado cristão onde o conjunto da população permaneceu fiel à sua Fé? Não se quer por isso reivindicar o direito de adorar o verdadeiro Deus, já que ele já está assegurado. Só se pode, portanto, reivindicar o direito de recusar essa adoração.
E a sequência da história da Inglaterra nos demonstra. Uma vez dono do poder político, a Serpente manda passear “a ajuda da brandura e da razão” e organiza a perseguição mais violenta contra tudo o que se quer católico, a pilhagem e a destruição dos monastérios, o massacre em massa das populações revoltadas e dois séculos de violências sanguinárias na Inglaterra e na Irlanda contra os padres da Igreja católica e seus fiéis. São páginas de história que nossos escritores protestantes tiveram o cuidado de colocar entre parênteses.
No entanto, estamos aqui em plena hipocrisia. Proclamar um igual respeito por todas as religiões é mostrar com isso mesmo que se despreza todas igualmente. Pois, de fato, na Cidade de Utopia, existe uma religião oficial e obrigatória. Construiu-se um templo no centro da Cidade onde tudo é calculado para favorecer o recolhimento. Todos os utopianos se dirigem a ele regularmente e dirigem um culto “ecumênico” a uma única divindade “eterna, imensa, incompreensível” que eles chamam de MitraMitrA[2]2 e cuja natureza se espalha por todo o universo. Assim, os utopianos se adoram a si mesmos no espelho de seu Mitra. Não se pode ser mais panteísta. Thomas More não se contentou em expor seu pensamento sobre a sociedade ideal, em Utopia. Ele tentou, como chanceler da Inglaterra, colocar em prática seu ensinamento:
“Se os turcos, os sarracenos e os pagãos”, explica seu porta-voz em Utopia, “permitissem que a fé católica fosse pregada pacificamente entre eles, e se nós, cristãos, aceitássemos que em nossa cidade todas as seitas pregassem entre nós, toda violência deixada de lado e de comum acordo, não duvido em absoluto que a fé em Cristo, longe de sofrer uma diminuição, dela retiraria um imenso proveito.”
E para pôr em acordo seu pensamento e seus atos, ele se tornou o cúmplice ativo dos hereges. Ele nos explicou isso, perto do fim de sua carreira de chanceler:
“Quanto ao herege, eu odeio seu erro e não sua pessoa, gostaria de bom grado que um fosse exterminado e o outro salvo. Esses “irmãos” benditos, professores e pregadores de heresia, podem gritar em voz alta suas mentiras, não tenho outra conduta para com eles. E se soubessem de quanta indulgência e piedade dei provas, eu juro que ninguém me contradiria."
Isso define um estado de espírito humanista.
Quando More foi nomeado chanceler, a Inglaterra praticava uma mesma regra de Fé. Ora, ao mesmo tempo, a heresia estava em plena expansão, os hereges luteranos multiplicavam os panfletos por todo o país. Mas a polícia do chanceler fechava os olhos. Não se falava de tribunais, nem da fogueira em Smithfield. Quando ele recebe alguns desordeiros, ele os ouve, ele os questiona, ele tenta suscitar neles um movimento de conversão ou de remorso. Ele lhes pede para renunciar a difundir sua doutrina. Enfim, ele se mostra cheio de piedade e indulgência para com eles, como ele mesmo diz. Ponto, é tudo! Erasmo, seu amigo íntimo, pôde escrever ao bispo de Viena que, durante a passagem de More pela chancelaria, nenhuma execução havia ocorrido. Sabe-se a sequência e como “a fé em Cristo retirou um imenso proveito”!
Um padre “modernista”: Erasmo
Erasmo nasceu em 28 de outubro de 1467 em Rotterdam. Seu pai, Geart Praet, era eclesiástico e não pôde legitimar seu filho. Ele se chamou “Geert Geerts”, ou seja, “Geraldo, filho de Geraldo”, Ele tomou, como escritor, o pseudônimo de Desiderius erasmus (do grego ερασµιος, amável). Ele foi ordenado padre em 25 de fevereiro de 1492 pelo bispo de Cambrai, Henri de Bergues, que foi para ele um fiel protetor. Ele viveu muito tempo em Londres, na casa de Thomas More, depois, em 1521, se instalou em Basileia.
A última palavra de toda a sua filosofia é a Liberdade. Ele apoia eficazmente os esforços de Lutero para reformar a Igreja. Em 1519, em resposta a uma carta afetuosa deste último, ele lhe precisa:
“Sua carta respira uma alma cristã… Parece-me que se avança mais por uma doce moderação do que por importunação; não foi assim que Cristo trouxe o mundo sob sua lei?”
Eis um conselho que não poderia moderar o ardor impetuoso e violento do Reformador.
Erasmo quer mostrar a seus amigos protestantes que os libelos e caricaturas espalhadas por eles na Europa só podem prejudicar sua causa:
“Vocês creem que por tais meios abrem caminho para o Evangelho? Temo, antes, que tola malícia e maliciosa tolice, ao derrubar os homens letrados e o Evangelho mesmo se isso fosse possível, não os façam cair vocês mesmos em descrédito.”
Em seguida, ele se volta para a corte de Roma, ele suplica ao papa Adriano IV que se mostre tolerante:
“O mal é muito profundo”, explica ele, “para poder ser curado pelo ferro e pelo fogo. Concessões mútuas são necessárias, a doutrina sobre a qual repousa a fé permanece intacta. Seria preciso, além disso, oferecer ao mundo a esperança de ver mudar certas coisas que dão lugar a queixas legítimas. Ao doce nome de Liberdade, os corações se abrirão.” “No coração de Lutero, acrescenta ele, brilham centelhas da verdadeira doutrina evangélica, mas em vez de colocá-lo em guarda, de lhe apresentar a verdade com doçura e bondade, os teólogos que não o compreendem, que frequentemente não o leram, o denunciam ao povo com clamores insensatos, o ferem com ataques violentos, não têm na boca senão as palavras heresia, heresiarca, cisma e anticristo. Condena-se em Lutero, como heresia, o que se encontra ortodoxo em São Bernardo de Claraval e em Santo Agostinho. Muitos se espalham em injúrias contra Lutero, que não acreditam eles mesmos na imortalidade da alma.”
Ele escreveu, em 1º de novembro de 1519, ao arcebispo de Mainz:
“Teólogos aos quais a mansidão conviria acima de tudo, parecem não respirar senão sangue humano, tanto eles aspiram à prisão de Lutero e à sua perda.”
Finalmente, quando a bula de excomunhão foi publicada:
“Essa bula,” escreveu ele, “que cheira a crueldade, em vez de ao pensamento doce e benevolente de nosso Leão X.”
Mas vejamos as “coisas que é preciso mudar, porque elas dão lugar a queixas legítimas”. Erasmo critica o jejum, as indulgências, os dias de festa, o culto das imagens, os votos monásticos e a confissão auricular. Ele se pronuncia pela dissolução do casamento. Ele zomba da Imaculada Conceição da Virgem, ele defende a causa do Arianismo; emite dúvidas sobre a divindade de Cristo, sobre a Santíssima Trindade. Ele nega a eternidade das penas. Ele quer que as crianças, ao atingir a idade da razão, ratifiquem os compromissos do batismo. Ele pede ao papa para conceder o cálice aos leigos e o casamento aos padres. É tudo? É mais até do que o programa implementado pela reforma luterana. Muitas dessas reivindicações tiveram de esperar o Concílio Vaticano II. Vemos hoje o afinco com o qual nossos modernos reformadores se esforçam para demolir o que resta da fé cristã, ao implementar as reclamações de Erasmo. O “modernismo” permaneceu o mesmo desde o Renascimento.
Um controvertista dos mais célebres, Josse Clichtove de Nieuport, publicou em 1519 um escrito intitulado Propugnaculum fidei, onde ele reprovava Erasmo por rejeitar a lei canônica que impunha a continência ao clero. Erasmo lhe deu uma curta e rápida resposta onde sustentou que a Igreja podia permitir o casamento àqueles dos eclesiásticos aos quais não fosse possível viver no celibato. Os teólogos de Lovaina o trataram de porta-estandarte da facção luterana, de livre-pensador que fazia o mesmo caso da batina de um monge que do manto de um velhaco, que teria dado toda a escolástica por um único tratado de Cícero e que teve dificuldade em não dizer: “São Sócrates, rogai por nós”!
Erasmo faleceu em Basileia na noite de 11 para 12 de julho de 1536, aos sessenta e nove anos. Ele morreu sem a assistência de um padre e na recusa dos últimos sacramentos. Conclusão lógica de uma vida toda consagrada à demolição da fé cristã.
Do humanismo à Reforma
É sabida a aversão ferrenha dos humanistas em relação à Filosofia escolástica. Eles criticavam, sobretudo, seu apelo à razão natural para assentar as verdades da Fé sobre bases inabaláveis. Erasmo partiu para a guerra contra os teólogos da Idade Média:
“Todo o seu esforço”, escreve ele no Elogio da Loucura, “consiste em interrogar, dividir, distinguir, definir. Uma parte é dividida em três, a primeira das três em quatro e cada uma das quatro novamente em três. O que há de mais distante do estilo dos profetas, de Cristo e dos apóstolos?”
Mas sua ironia se perde e se engana. O que ele denuncia ali com tanta veemência é o uso natural de nossa inteligência. Ela é comum a todos aqueles que querem se dar ao trabalho de refletir. Ela não pretende se substituir à palavra e ao estilo de Jesus ou dos profetas, ela pretende apenas compreender o seu mérito e a razão de ser.
Ora, os Protestantes vão acentuar esse ódio da razão e de seu uso na filosofia escolástica, que receberam dos humanistas. Eles proclamaram a necessidade de ler a Bíblia no texto, sem nenhum comentário, já que a alma do leitor está em contato direto com a divindade que o inspira. É preciso, portanto, desenvolver os estudos linguísticos, estudar o hebraico e o grego, mas rejeitar a Teologia. Daí o desprezo manifestado contra a Sorbonne, “mestra do erro”, e o entusiasmo pelos colégios reais onde podiam se dar livre curso as novas modas intelectuais, sem riscos de condenação, já que esses colégios eram protegidos pelo rei.
Em 1535, em uma “Epístola ao rei no tempo de seu exílio em Ferrara”, dirigida a Francisco I , Clément Marot escreve:
“Assim como eles, sem causa que seja boa,
Me quer mal a ignorante Sorbonne,
Bem ignorante ela é de ser inimiga
Da trilíngue e nobre Academia
Que criaste. É manifesto
Que ali dentro, contra tua vontade celeste,
É proibido que se veja alegando
Hebraico, nem grego, nem latim elegante,
Dizendo que é língua de hereges.
Ó pobres pessoas de saber tão éticas,
Bem fazem ver este provérbio corrente:
A ciência não tem inimigo senão o ignorante..”
O humanista Ramus, professor no Colégio Real, futuro Collège de France, criticava na Universidade seu imobilismo, o status quo de seus métodos. Ele era a favor das humanidades, do grego, do hebraico e, portanto, do protestantismo, contra a Sorbonne, contra a escolástica, no fundo da qual se encontrava, no entanto, a ortodoxia.
A Renascença humanista preparou o caminho para o Protestantismo, permitindo o exercício do livre exame na leitura dos textos bíblicos, sem referência a um ensinamento autorizado da Teologia. Em seu Praemium reformandae academiae parisiensis, Ramus pretendia impor o hebraico, como base necessária de toda teologia. Ele foi também a alma do Colégio Real, cujos professores em sua maioria passaram para o Protestantismo: o próprio Ramus, Vatable, Mercier, Palma Cayet, que ocupava a cátedra de hebraico…
Quando Inácio de Loyola veio a Paris, com seus futuros companheiros, para se preparar para a Teologia, ele foi para a Sorbonne; ele desaconselhou seus amigos a frequentar os cursos de línguas antigas, ministrados pelos leitores reais, origens do Collège de France, que o rei havia acabado de instituir em 1530. Seu companheiro, Bobadilla, escreve que
“a heresia luterana começava a se espalhar em Paris; naquela época se queimavam muitos na praça Maubert e aqueles que “greizavam” “luteranizavam” (“qui graecisabant lutheranisabant”).
Seu outro companheiro, Xavier, em uma carta ao seu irmão, em 1535, diz que tem grande reconhecimento a Inácio, a quem deve ter se desprendido das “más companhias” que sua pouca experiência não lhe permitia reconhecer como tais:
“Agora que as heresias se desencadearam em Paris, eu não quereria de forma alguma ter relações com essas pessoas.”
E mais adiante ele acrescenta que esses homens dos quais Inácio o afastou “exteriormente pareciam bons, mas interiormente estavam cheios de erros, como o seguimento deixou claro”.
Com base nas palavras dos humanistas e, sobretudo, de Erasmo, continuou-se a afirmar em todos os manuais de história, que a Sorbonne estava em plena decadência, que a Escolástica estava ultrapassada, que era necessária uma grande reforma do ensino. Essa não era a opinião de Inácio de Loyola, que encontrou, ao contrário, nessa velha Sorbonne, tão criticada pelos humanistas, o ponto de apoio fundamental de toda a sua formação intelectual e espiritual.
Ele fez da Escolástica aristotélica e tomista a base de todo o ensino dos Jesuítas. Em suas Constituições da Companhia de Jesus, ele recomenda a doutrina de São Tomás de Aquino, até que apareça “uma outra teologia mais adaptada aos tempos modernos” e mais útil, mas na continuidade daquela de São Tomás. Em sua Ratio studiorum, ele especifica que é preciso ensinar filosofia e física “não apenas em conformidade com a verdade, mas também no sentido de Aristóteles e de seu espírito”, com proibição “de jamais se afastar de Aristóteles, quando se trata de pontos de alguma importância”. Não se deve jamais utilizar, a não ser com extrema prudência, comentários não cristãos e “se houver algo de bom a ser tirado de suas obras”, pelo menos é preciso citá-los “sem fazer elogios”. No apêndice de seus Exercícios espirituais, Inácio recomenda “ter em alta estima a teologia positiva e a teologia escolástica”, pois “é o dever dos teólogos escolásticos denunciar, combater e refutar os erros religiosos, os falsos raciocínios e as opiniões perigosas de sua época”. Isso é claro. São Inácio de Loyola havia compreendido muito bem que o Humanismo platonizante de sua época conduzia necessariamente à heresia protestante e lutou toda a sua vida contra esse movimento em direção à heresia, e a Sociedade de Jesus em seu seguimento.
Como se opera essa passagem do Platonismo dos humanistas para a heresia protestante? É o que nos resta demonstrar.
Os gnósticos sempre afirmaram que a alma humana era “uma centelha divina”, parcela da Alma do Mundo, que nada mais é que o Deus imanente no Universo. Essa doutrina foi retomada pelos místicos alemães a partir do século XV e passou através de Mestre Eckhart para o pensamento dos Reformadores. Eles viram nisso a prova de que nossa alma estava em contato imediato e permanente com Deus, eles compreenderam que em cada consciência residia uma “certeza”, que a voz da consciência era a voz de Deus residindo em nós mesmos.
Nossa alma não é, portanto, em nós senão um instrumento passivo nas mãos de Deus, cuja influência irresistível a arrasta em todas as direções. O homem é, de fato, segundo a expressão dos Reformadores, “um bloco de madeira ou de pedra”, ele sofre uma força universal e única que se substitui à sua própria ação. A individualidade é fundida em uma totalidade animada por um movimento perpétuo e divino. É Deus quem, em nós, é o princípio de causalidade em todos os nossos atos, é Deus quem opera em nós tanto o Bem quanto o Mal.
Zwingli, mais ousado e mais lógico do que Lutero, tira as conclusões, em 1530, em seu tratado da Providência:
“Uma força criada”, escreve ele, “não é outra coisa senão a força universal que se manifesta em um novo sujeito e sob uma nova forma.” “O ser de Deus”, acrescenta ele, “é o próprio ser de todas as coisas, etc.”
Eis as fórmulas em latim:
« Omnium esse numinis Esse. --- Certum est quod, quantum ad Esse et Existere attinet, nibil sit quod numen sit, id enim est verum universarum Esse. --- Jam constat, extra infinitum hoc Esse nullum Esse posse. --- Creata virtus dicitur, eo quod in novo subjecto et nova specie universalis aut generalis ista virtus exhibitur. »
Encontramos nessas expressões todo Spinoza e todo Hegel. De uma só vez, a Reforma leva ao panteísmo pela absorção da atividade humana na operação divina e a negação do livre-arbítrio.
Kant é o filósofo dos Reformadores. Para ele, precisamente, como para Platão, como para Mestre Eckhart, a consciência é “a participação” imediata do homem na Ideia do Bem e, por meio disso, a garantia de sua autonomia moral. É por isso que, em sua Religião dentro dos limites da simples razão, lemos, no início do capítulo intitulado: “Do fio condutor da consciência nos assuntos da fé”:
“A questão não é saber como a consciência deve ser dirigida, pois ela não quer fio condutor; basta ter uma consciência. A consciência moral é uma consciência psicológica, que se obriga a si mesma. Portanto, se a consciência psicológica me diz que uma ação que quero empreender é justa, sua palavra é um imperativo absoluto.”
Em outras palavras: minha consciência, sendo a própria voz do Absoluto que reside em mim, é totalmente autônoma e não tem direção a receber de uma regra de moralidade heterônoma, ou seja, de uma lei divina se impondo a mim de fora. É a consciência divinizada, porque participa de uma única consciência universal. Não há mais lugar para uma livre escolha, diante de uma regra recebida. Não há mais, portanto, nem bem nem mal, já que é justo tudo o que minha consciência me diz para empreender.
Conclusão
Por um movimento contínuo de vaivém, percorremos a Gnose, a Cabala, o Humanismo e o Protestantismo e encontramos homens apaixonados, voltados para sua deificação. Podemos, contudo, sentir, nessa busca por uma felicidade perfeita, como uma inquietação subjacente: E se todos esses esforços levassem ao inverso do objetivo buscado?!
O homem que aceita sua condição natural de criatura, que adora seu Deus, lhe presta homenagem e se submete à sua lei, possui uma felicidade, imperfeita sem dúvida, mas pacífica. Ele é livre, mas de uma liberdade de filho de Deus. Ele pode escolher entre os múltiplos bens que o criador colocou à sua disposição. É o livre-arbítrio. Ele pode também, sem dúvida, usá-lo de forma razoável ou desarrazoada, ou seja, usando-o de maneira inadequada: é a escolha possível entre um mal e um bem. É também uma responsabilidade.
O homem revoltado que rejeita Deus, recusa essa responsabilidade. De repente, ele perde seu livre-arbítrio. Não lhe resta mais do que erguer sua Humanidade sobre um pedestal, como um deus Panteísta e adorar a si mesmo. Eis que está dissolvido numa divindade “total”, perdido no Grande Todo Pleroma, do qual não é mais do que uma parcela, indeterminada, intercambiável. Ele perdeu sua livre vontade. Não há mais para ele nem bem, nem mal, já que tudo se torna determinado e necessário. A Cidade da Utopia, como a República de Platão, como o Estado soviético, é um mundo fechado, voltado para uma humanidade deificada. O homem, “centelha divina”, está inteiramente prisioneiro da Cidade até na satisfação de seus menores prazeres. A liberdade religiosa, proclamada no início, é finalmente realizada, já que não há mais religião. O homem está definitivamente “liberado” de Deus.
Tal é a revelação da Serpente. Ele havia dito a nossos primeiros pais:
“Vocês serão como deuses”, mas não havia acrescentado: “Assim, vocês se tornarão meus escravos, pois eu sou o mestre deste mundo”. Por um momento, Adão e Eva se deixaram convencer. Mas a divinização não aconteceu. A escravidão, essa sim, tornou-se a realidade quotidiana e é o Inferno.
Notas
- Sem dúvida, Deus é o começo do Universo, pois Ele é o seu criador; Ele é o fim, pois o Universo foi criado para a sua glória, mas Ele não é o meio, pois o universo não é Deus.
↩ - Sabemos que o culto de Mitra foi oposto, nos primeiros séculos cristãos, ao de Jesus Cristo. Mitra é o sol invencível (Sol invictus). Ele quase se tornou o culto oficial do Império sob Aureliano. Os humanistas do Renascimento retomaram esse culto, mas em segredo, em seus conventículos íntimos. O sistema heliocêntrico, ensinado por Copérnico e retomado por Galileu , é uma manifestação da adoração ao Sol. Copérnico escreve em De revolutionibus orbium coelestium: “In mundo vere omnium residet Sol. Quis enim in hoc pulcherrimo templo lampadem hanc in alio vel meliori loco poneret, quam unde totum simul possit illuminare. Siquidem non inepte quidam lucernam mundi, alii mentem, alii rectorem vocant. Trismegistus visibilem deum.” O sol é, portanto, segundo Copérnico, o Espírito do Mundo, o reitor dos mundos, um deus visível. A referência a Hermes Trismegisto é significativa. O Sol reside, tem sua morada, sua sede, em todas as coisas do mundo e o mundo é seu templo. Não é essa uma definição do Panteísmo? Galileu especifica: “Parece-me que na natureza existe uma substância muito volátil, muito tênue, muito rápida, que, ao se espalhar no Universo, penetra tudo sem obstáculo, aquece, dá vida e torna férteis todas as criaturas animadas. Parece que os sentidos nos mostram que o corpo do Sol é o receptáculo deste “espírito”, fora do qual se espalha sobre todo o universo uma imensa luz acompanhada deste espírito calorífico e penetrante que todos os corpos capazes de serem animados, lhes dão vida e fecundidade…” O Sol é um deus visível no centro do Universo, imóvel; ele penetra todas as criaturas. Ele é fonte de vida, ele anima tudo. É um culto solar que Copérnico e Galileu praticavam. Foi à luz desses textos que os juízes do Santo Ofício condenaram Galileu. Isso nos abre novas perspectivas sobre o “complexo Galileu ”!