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O NEOPLATONISMO E A REAÇÃO ANTICRISTÃ DOS PRIMEIROS SÉCULOS

DA DOUTRINA DE PLATÃO AO Vº SÉCULO ANTES DE JESUS-CRISTO...

É difícil expor metodicamente o pensamento de Platão, disperso numa infinidade de diálogos socráticos. Vamos, no entanto, resumir o essencial de seu ensinamento.

Platão estabelece, no princípio, dois mundos antinômicos, o mundo das Ideias, incriadas, eternas, e o mundo da Matéria. Esta última é informe, indeterminada e ininteligível; ela é apenas o receptáculo de todas as formas possíveis, capaz de recebê-las, mas não de as dar a si mesma. Diz-se, contudo, que é eterna, ingerável, incriada; ela carrega, portanto, em si mesma um caráter divino, como as ideias.

A questão é então saber qual é o deus de Platão. A resposta é obscura e indecisa. A palavra "Deus" (ό θεός) nele designa ordinariamente o Demiurgo, um "obreiro divino", um arquiteto construtor (δημιουργός, obreiro), gênio mediador, encarregado de estabelecer a ordem e a harmonia num caos primitivo. Não há, portanto, em Platão a menor ideia de criação: eis uma noção totalmente estranha ao seu pensamento.

O homem é duplo e pertence aos dois mundos. Essa dualidade é o efeito de uma queda, é uma expiação. A alma provém do mundo das Ideias, portanto preexistia ao nascimento do homem neste mundo de matéria e lhe sobreviverá após a morte do corpo. É inclusive essa preexistência das almas antes do nascimento que é usada como o principal argumento da imortalidade da alma no "Fédon". A alma está encarcerada num corpo, entre os corpos, e a lembrança das ideias se obscureceu nela.

A alma comporta três partes:

  • a) O ἐπιθύμου, apetite inferior, que reside no ventre e que a leva para o corpo e os prazeres sensuais;
  • b) O θύμος ou coração, ou apetite superior, que tem sua sede no peito e que a leva para o que é belo e bom; 
  • c) O νοῦς ou razão, que tem sua sede na cabeça e que é a faculdade de conhecer e querer a ordem inteligível sob a direção soberana do Bem.

O filósofo cuida de sua alma. Desprendendo-se do corpo tanto quanto pode, passa a vida a desligar a alma, isto é, a morrer. O corpo é um entrave para a inteligência. Ele a atrapalha na busca da verdade. Suas sensações a enganam e perturbam seus raciocínios. Quanto mais ela está desprendida dele, mais ela é ela mesma, melhor raciocina. Quem, portanto, alcançará a verdade, senão aquele que estiver livre de seu corpo? Assim, enquanto estivermos enredados num corpo, só poderemos possuir imperfeitamente a verdade, objeto de nosso amor.

O conhecimento não vem do sensível. É apenas por ocasião da percepção sensível que a alma empreende a busca da verdade, retornando a si mesma. A percepção das aparências sensíveis é para ela uma ocasião de reencontrar em si, à maneira de uma lembrança esquecida e como uma reminiscência, o conhecimento inteligível do mundo das Essências ou Ideias. As percepções são o estímulo e não a origem da Ciência. A dialética ascendente, longe de ser um movimento pelo qual o pensamento sairia da alma para ir buscar o ser, é, ao contrário, o movimento pelo qual o pensamento retorna à alma para nela reencontrar a ciência do ser, que a alma traz em si inata.

O mestre não ensina nada a seu discípulo. Ele se contenta em despertar nele o conhecimento que ele carrega em sua alma, mas como que velado, obscurecido, enegrecido pelo corpo. O mestre é um parteiro da verdade. Assim como o parteiro faz sair a criança do seio de sua mãe, assim o mestre faz sair a verdade do seio da alma. É toda a "maiêutica" de Sócrates.

Por fim, Platão, em "O Banquete", concebe o Amor unicamente como um desejo, um apetite do Bem, para si, uma démarche para adquirir ou aperfeiçoar aquilo que, em nossa alma, é deficiente em consequência de nossa queda neste mundo de matéria, um esforço para reconquistar a Beleza perfeita do mundo das Ideias. É um Amor captativo, voltado sobre si mesmo, que ignora a doação aos outros. Chama-se amor platônico.

Sempre que o platonismo irrompe em nossa civilização cristã, vê-se surgir esse Amor (ἔρως) que recusa a construção de um lar estabilizado pelo casamento, que recusa os filhos e, portanto, a Vida, um amor estéril, que se devora a si mesmo, aparentado à morte. É o mito de Isolda, é o amor cortês dos trovadores, é o amor platonizante dos humanistas, é, enfim, o amor romântico, essa doença da alma que Denis de Rougemont tão bem expôs em sua obra "O Amor e o Ocidente" e que envenenou toda a nossa literatura.

... A UMA LEITURA GNÓSTICA DO PLATONISMO NO SÉCULO II DEPOIS DE JESUS CRISTO

Por volta do século II depois de Jesus Cristo, surgiu uma nova escola filosófica, a dos neoplatônicos. A partir do ensinamento de Platão, PLOTINO, PORFÍRIO, JÂMBLICO, PROCLO, HIEROCLES e seus amigos reconstruíram um platonismo no qual introduziram os mitos de Orfeu e de Pitágoras. Com essa amalgama erudita, apresentaram Platão como o discípulo iniciado nos mistérios órficos e na seita pitagórica. "O que Orfeu promulgou por obscuras alegorias, diz Proclo, Pitágoras ensinou após ter sido iniciado nos mistérios órficos, e Platão teve pleno conhecimento disso pelos escritos órficos e pitagóricos."

Nada mais fácil! Bastava encontrar em Platão as diferentes partes da doutrina esotérica dos mistérios e descobrir as fontes onde ele bebeu. A doutrina das "Ideias arquétipas das Coisas" exposta no "Fedro" é aproximada da doutrina dos "Números sagrados" de Pitágoras. O "Timeu" dá uma exposição bastante confusa e muito emaranhada de uma cosmogonia; a doutrina da alma, de suas migrações e de sua evolução atravessa toda a obra de Platão, mas principalmente "O Banquete" e o "Fédon". Nossos filósofos neoplatônicos constituem então a Escola de Alexandria. Eles afirmam uma filiação das ideias platônicas por meio de um estudo comparado das tradições órficas e pitagóricas. "Essa filiação, diz-nos Edouard Schuré, em "Os Grandes Iniciados", mantida em segredo por séculos, só foi revelada pelos filósofos alexandrinos, porque foram os primeiros a publicar o sentido esotérico dos Mistérios."

O que acontece com o ensinamento de Platão, após essa maravilhosa amalgama?

Outrora, para os fiéis de Dionísio, a alma era aparentada ao divino e o iniciado, tomando consciência desse parentesco, entrava em êxtase, em embriaguez, em loucura divina. O Orfismo desenvolveu essa intuição divina em um "discurso sagrado" que elaborou uma sabedoria filosófica. Eis os temas retidos por nossos filósofos neoplatônicos:

  • Dualidade do homem, corpo e alma.
  • Excelência da alma, de origem divina e de natureza divina (θεῖον diz PLOTINO) feita para viver na morada dos deuses imortais, sendo a alma uma parcela da divindade.
  • Por punição de uma falta (?), a alma é aprisionada em um corpo terrestre onde sua divindade se obscureceu; mas ela pode ser libertada desse cativeiro pela iniciação nos mistérios e pela vida órfica, vida ascética e "purificadora".
  • Após a morte, ela desce ao Hades, onde é julgada (por quem?). Se é impura, permanece no Hades ou se reencarna em um corpo terrestre. É a metempsicose. Se, em consequência das reencarnações sucessivas, ela chega à vida órfica, à purificação, recupera sua divindade e reúne-se à sociedade dos deuses.

Plotino expõe essa enfermidade da alma, essa doença da alma decaída: "O tempo (isto é, nosso mundo corporal) é o fruto de uma dissociação da vida da alma." (Διάστασις οὖν ζωῆς χρόνος εἶχε). Ela deve, portanto, fugir para o Eterno: "Fujamos, diz ele, para essa querida Pátria". (Enéadas), "evadamo-nos da vida, do tempo, da história para reencontrar nossa condição divina e imutável".

Não apenas os filósofos neoplatônicos constituíram uma nova escola filosófica, a Escola de Alexandria, mas também estabeleceram uma liturgia para seus fiéis discípulos, desejosos de ascender à morada divina. Jerônimo CARCOPINO descreveu-nos recentemente essa basílica pitagórica da Porta Maggiore em Roma, onde os iniciados utilizavam os mitos religiosos do paganismo antigo como símbolos de retorno ao mundo divino. Estudaram-se até mesmo os túmulos neoplatônicos no Império Romano.

Diante dessa nova filosofia platônica, não se pode deixar de ficar impressionado com sua semelhança com a doutrina dos Gnósticos da mesma época, tal como a expusemos anteriormente. (Cf. Etienne COUVERT: "Da Gnose ao Ecumenismo" cap. I). Os temas metafísicos são os mesmos, mas despojados da extravagante mitologia dos Gnósticos e de toda referência a Jesus Cristo e ao ensinamento do Evangelho.

O que é, pois, essa ascensão da alma platônica à morada dos deuses pelo êxtase, senão o retorno à "Unidade primordial" de nossos Gnósticos? E poder-se-ia prosseguir assim o paralelo entre os dois ensinamentos.

Mas coloca-se então a questão fundamental: Essa destinação imortal no mundo divino é uma imortalidade pessoal? A alma não perde sua personalidade precisamente na hora em que alcança seu destino? Sabemos pelo ensinamento dos Gnósticos que a alma divinizada se perde no "Pleroma", no Grande Todo, retorna, portanto, ao Nada. Estamos em pleno Panteísmo.

A DITADURA INTELECTUAL DE PLATÃO

No momento da maior difusão do Cristianismo no mundo greco-romano, Platão reinava como mestre sobre as mentes. Quando filósofos e intelectuais se convertiam ao Cristianismo, introduziam nele os modos de pensamento e os pressupostos metafísicos do platonismo, sem perceber que existiam oposições fundamentais entre eles e o ensinamento de Jesus Cristo. Daí surgia uma ambiguidade em suas respostas aos ataques lançados pelos filósofos pagãos: como manifestar simultaneamente sua admiração pela filosofia pagã e seu apego ao ensino do Evangelho? Veremos que essa mistura é impossível e que, segundo a vigor de sua inteligência ou a firmeza de sua fé, uns e outros tiveram que escolher entre Platão e Jesus Cristo.

Eugène de Faye, em seu "ORÍGENES", escreve: "A partir do século II da era cristã, todos — filósofos, gnósticos, eruditos, teólogos cristãos — retornam ao Deus de Platão."

O próprio Orígenes, apesar de sua oposição às teses de Celso, adere aos ensinamentos de Platão. Ele aceita a dualidade alma-corpo, a queda da alma na matéria corporal considerada como uma prisão. Mantém grande respeito pelos Astros, considerados como seres inteligentes e capazes de agir sobre as almas (são as teses dos astrólogos). Apenas pede que não os adorem. Esforça-se desajeitadamente e de forma bastante artificial para encontrar analogias entre a linguagem de Platão e os dados bíblicos. Mas também se esforça para defender Deus da acusação de ser o autor do mal. Diz, como Celso, que o Mal é inerente à matéria (ὕλη πρόσκειται). Portanto, é constantemente constrangido em sua polêmica contra Celso, pois precisa marcar sua admiração pela filosofia pagã ao mesmo tempo que denuncia suas consequências quando estas colidiam com o ensino cristão.

"Orígenes", nos diz PORFÍRIO, "vivia como cristão e contra as leis, mas nas crenças relativas às coisas e à divindade, era grego e transportava a arte dos Gregos para as fábulas estrangeiras (isto é, para o Cristianismo). Frequentava, de fato, incessantemente Platão. As obras de Numênio, de Nicômaco, de Krônio, de Apolófanes, de Longino, de Moderato e de homens instruídos nas doutrinas pitagóricas eram seu entretenimento... Foi junto a eles que conheceu o método alegórico dos Mistérios dos Gregos. Adaptou-o em seguida às escrituras dos Judeus." Numênio de Apameia chamava Platão de "um Moisés aticizante" (Μωσῆς ἀττικίζων); para ele também a matéria era a obra má de um demiurgo.

Mesmo os filósofos neoplatônicos contra os quais lutavam gozavam de um imenso prestígio. Porfírio era admirado pelos apologistas cristãos. O próprio São Jerônimo era seu admirador na juventude. Santo Agostinho fala dele com grande respeito: "philosophus nobilis, magnus gentilium philosophus doctissimus philosophorum". Coloca-o no mesmo nível de Pitágoras e Platão.

Somente mais tarde, após madura reflexão e melhor inteligência da Fé cristã, manifestará sua inquietação e lamentará tal admiração: "Laus ipsa, qua Platonem vel platonicos seu Academicos philosophos tantum extuli quantum impios homines non opportuit, non immerito mihi diplicuit." Ou seja: "Louvei e admirei esses filósofos, embora fossem homens ímpios, e tive muita dificuldade em me desvincular deles." O que é a exata verdade. Santo Agostinho nunca se desvinculou completamente do Platonismo e, mesmo quando o rejeitava explicitamente, permanecia impregnado por ele.

A RECUPERAÇÃO E A SISTEMATIZAÇÃO DO PAGANISMO ANTIGO

Os filósofos neoplatônicos, Porfírio, Jâmblico, Hiérocles e seus discípulos, assim como os da Escola de Alexandria, esforçar-se-ão por conciliar o monoteísmo dos filósofos gregos com o politeísmo popular, para dar a este último uma aparência razoável.

Os deuses do paganismo, dizem-nos em substância, constituem uma cadeia incalculável de seres intermediários cujas perfeições decrescem na proporção de seu afastamento do princípio criador.

"No século IV de nossa era", escreve J. DENIS ("História das teorias e das ideias morais na Antiguidade"), "pode-se dizer que todos os pagãos esclarecidos, embora obstinassem em conservar deuses e demônios, não reconheciam mais senão o Ser supremo. Segundo JÂMBLICO, essa crença é um sentimento necessário, inato em nós, inseparável da essência de nossa alma, que está unida a Deus como o raio ao astro."

Assim, esses filósofos opor-se-ão fortemente a CÍCERO. Este, em seu "DA NATUREZA DOS DEUSES", esforçou-se por aplicar sua inteligência aos deuses do politeísmo e proferiu sobre a religião popular de seu tempo um juízo notavelmente esclarecido: contestou a multiplicidade dos deuses, suas imperfeições; mostrou, com algumas hesitações e incertezas sem dúvida, que Deus não poderia ser senão UM, senão PERFEITO e que as incoerências da mitologia eram indignas de uma inteligência razoável. Por isso, foi alvo das censuras dos neoplatônicos.

ARNÔBIO nos assinala que "um bom número se desvia dos livros que escreveu sobre essas questões, fogem deles e recusam qualquer audiência a uma leitura que abala seus preconceitos... Declaram que o Senado deveria baixar um decreto de aniquilamento contra essas obras, onde a religião cristã encontra confirmação e que anulam a autoridade das antigas tradições. Mas ao suprimir os escritos de Cícero, querer fazer desaparecer textos já divulgados ao público, não é defender os deuses, é temer o testemunho da Verdade!"

Finalmente, os neoplatônicos constituirão um "corpus" doutrinal de elementos heteróclitos, mas cimentados por um simbolismo sistemático, para opô-lo à doutrina cristã. Servir-se-ão dele como de uma máquina de guerra muito eficaz contra os polemistas cristãos.

J. SIMON (em sua tese sobre o comentário do Timeu de Platão por PROCULO) expõe bem seu método: "Era o objetivo confessado dos Alexandrinos mostrar nos mais antigos sistemas os germes de sua própria filosofia e apresentá-la como uma doutrina revelada pelos deuses aos Sábios dos tempos antigos e transmitida sem alteração até eles, sob as formas mais diversas. Hermes é o primeiro elo dessa corrente de ouro. Os antigos sacerdotes egípcios, os teólogos e os poetas da Grécia, os discípulos de Pitágoras e de Platão são os elos, até a Escola de Alexandria e Proclo. As mesmas doutrinas que os teólogos do Egito e da Grécia expressaram por mitos e Pitágoras por Símbolos, Platão as expõe sem véu. A escola de Alexandria, vindo por último, abraça todos os métodos ao mesmo tempo. Sua tarefa principal é fazer ressaltar a Unidade das doutrinas no meio dessa diversidade aparente e ensiná-las ao mundo com a tríplice autoridade da religião, da História e da Razão."

Isso é realmente notável. Não se deve imaginar os filósofos neoplatônicos como pensadores sedentos de verdade, perdidos na contemplação das essências eternas. Não! Foram combatentes ferrenhos de uma verdadeira guerra religiosa. Para eles, todos os argumentos e todos os meios foram empregados contra os cristãos, para destruir a nova religião, que chamavam de "doença".

Basta ler "A Reação Pagã" de Pierre de Labriolle para se convencer disso. Perceber-se-á que seu ensino segue muito de perto o dos gnósticos, mas dele se distingue por uma argumentação racional que apela à inteligência; enquanto os gnósticos pretendiam ensinar as mesmas doutrinas, mas impondo-as por meio de uma iniciação secreta e do recurso a uma Mitologia delirante que podia satisfazer o desejo de maravilhoso e de mistério de certas almas, mas que devia necessariamente repelir os espíritos preocupados com objetividade e bom senso.

OS FALSOS CRISTOS PAGÃOS

A primeira ferramenta de guerra contra o Cristianismo que os filósofos neoplatônicos usaram foi forjar, quase que por completo, falsos cristos para opor ao Verdadeiro.

Porfírio, Jâmblico, Hiérocles leram os Evangelhos. Leram-nos avidamente, poder-se-ia dizer com lupa. Buscaram neles as contradições, as incoerências ao menos aparentes para usá-las contra os apologistas cristãos. Discutiram a genealogia de Jesus, os milagres, o nascimento virginal, as trevas da Sexta-Feira Santa, a suposta Ressurreição, etc. Mas, ao mesmo tempo, compreenderam a força conquistadora do ensinamento de Jesus. Guardaram dele a beleza moral, a simplicidade benevolente, a penetração psicológica.

Concluíram que não se podia opor à nova religião apenas pela perseguição violenta ou legal, mas que era preciso recuperar as almas atraídas por ela, apresentando-lhes um equivalente quase tão digno no paganismo. Era difícil branquear os deuses pagãos e retirar-lhes a auréola de vulgaridade e grosseria, de violência e adultério. Era preciso encontrar algo melhor.

Felizmente, tinham Pitágoras, cuja vida era quase lendária e sobre quem pouco se sabia; um certo mago pouco conhecido chamado Apolônio de Tiana, sobre quem também seria possível bordar. Não se tratava de torná-los deuses, mas enviados, intermediários divinos do Ser Supremo. Melhor ainda, atribuir-lhes a maioria das ações e milagres de Jesus. Foi uma operação bem-sucedida, que ainda hoje engana alguns eruditos (Mas alguns destes não seriam, hoje, os últimos discípulos dos neoplatônicos?)

APOLÔNIO DE TIANA

A vida de Apolônio de Tiana foi escrita por FILÓSTRATO a pedido de Júlia Domna, esposa do imperador Sétimo Severo, uma síria, filha de um sacerdote do Sol. O próprio Sétimo Severo era gnóstico e venerava em seu larário Abraão, Pitágoras, Jesus, Apolônio, etc. Filóstrato conhecia os Evangelhos. Toma-lhes emprestadas cenas, retratos, fatos miraculosos. Segundo ele, Apolônio subiu ao céu depois de se fazer reconhecer por seus discípulos. Tornar-se-á, segundo a palavra de Renan: "uma reencarnação divina que ousaram comparar a Jesus". Mas Filóstrato é muito hábil. Nunca nomeia o Cristianismo. Contentar-se em dar a seu personagem ares crísticos, frequentemente sugeridos. Encontra-se em sua vida vários episódios que outros escritores atribuíram a Pitágoras. Ele será honrado como um ser divino por Sétimo Severo e Aureliano. Chegar-se-á mesmo a desenhar-lhe uma auréola de modéstia e sabedoria para opô-lo a Jesus, que pretendia orgulhosamente ser filho de Deus.

"HIÉROCLES, diz-nos LACTÂNCIO, tentava enfraquecer a importância dos milagres de Cristo, sem contudo negá-los, e quis demonstrar que Apolônio havia feito milagres semelhantes e até maiores. Admiro-me que ele tenha silenciado sobre esse APULEIO, de quem se citam comumente tantos prodígios! Mas por que, ó cabeça louca, ninguém adora Apolônio como um deus, salvo tu, talvez, bem digno de tal deus, com quem serás punido eternamente pelo Deus verdadeiro. Se Cristo era um mago, porque realizou prodígios, Apolônio mostrou-se ainda mais hábil, pois, segundo tu crês, no momento em que Domiciano se dispunha a puni-lo, ele desapareceu subitamente de seu tribunal, enquanto Cristo, ao contrário, deixou-se prender e pregar na cruz! Esse polemista (Hiérocles) quis talvez incriminar o orgulho de Cristo por se apresentar como um deus, a fim de realçar a modéstia de Apolônio que, maior taumaturgo, de modo algum reivindicou sua deificação."

Mesmo os cristãos foram atraídos por essa imagem fabricada de Apolônio e lhe reservaram simpatia. Santo Agostinho nos conta: "Quem não riria ao ver nossos contraditores pagãos comparar ou mesmo preferir a Cristo Apolônio, Apuleio e outros hábeis mágicos? É, aliás, mais tolerável que comparem a ele tais homens do que seus deuses; pois é preciso admitir, Apolônio valia mais do que aquele personagem carregado de adultério que chamam de Júpiter."

PITÁGORAS

Apolônio de Tiana teria escrito uma vida de Pitágoras, mas nada nos resta dela. Além disso, JÂMBLICO esforçou-se por introduzir na sua vida de Pitágoras um grande número de cenas evangélicas. Segundo ele, Pitágoras teria nascido de uma virgem, teria fugido para o Egito, teria constituído um grupo de doze discípulos, pescadores é claro, teria feito numerosos milagres à imitação de Cristo; enfim, ter-se-ia elevado nos ares.

"Os pitagóricos,ricos, diz Porfírio, contavam Pitágoras entre o número dos deuses e, todas as vezes que queriam revelar a outros os segredos de sua ciência, juravam pela Quaternidade, como se invocassem Pitágoras como um deus"deus". "Por veneração a seu mestre,mestre, diz também JÂMBLICO, os pitagóricos não nomeavam Pitágoras, temiam usar seu nome como o dos deuses. Citavam-no chamando-o de inventor da Quaternidade"Quaternidade". Daí vem que, quando juravam por ele, nunca o designavam, mas diziam simplesmente: Juro por ele mesmo, juro por aquele que transmitiu à nossa alma a sagrada Quaternidade. Inclinavam-se diante de seu ensinamento dizendo: "O Mestre disse"disse" ou simplesmente: "Ele disse"disse" (αὐτὸς ἔφη). "Em vida,vida, acrescenta JÂMBLICO, seus discípulos o chamavam de divino; quando ele morreu, citavam-no dizendo: esse Homem, e nunca o nomeavam pelo nome.nome". "O mestre" falava a seus noviços escondido por uma cortina.

NOTA SOBRE A SAGRADA QUATERNIDADE

Fornecemos um comentário desenvolvido sobre esta definição da divindade em "De la Gnose à l'Oecuménisme"nisme", páginas 41 e 42.

É preciso acrescentar que a Pirâmide é a representação figurada dessa quaternidade. De fato, diz HIEROCLES: "No Quaternário se vê a primeira Pirâmide; sua base triangular supõe o número três e o vértice que a termina impõe a unidade." Na Pirâmide, os triângulos são em número de quatro, de modo que, vista de lado, a pirâmide é o triângulo de nossos maçons e, vista de cima, é o quadrado dos Gnósticos. Já sabíamos que o Mal é, em Deus, a perfeição do Bem, que Satã faz parte integrante da divindade. Ele é esta parcela de divindade que ensinou aos homens que eles eram divinos.

É muito notável constatar hoje como nossos poderes maçônicos se esforçam para colocar pirâmides no topo de torres e em lugares públicos. É a marca de Satã em nosso mundo paganizado.

Os neoplatônicos também reescreveram as vidas de Sócrates, Hércules, Mitra (Maitreya na Índia), Hélio, emprestando cenas, retratos e fatos milagrosos dos Evangelhos. Se quiséssemos prosseguir nossa investigação fora do movimento neoplatônico, encontraríamos plágios semelhantes na vida lendária de Buda e Krishna (cf. Monsenhor de HARLEZ: "A Bíblia na Índia"ndia").

Para concluir esta afirmação de Gaston BOISSIER: "A partir de Marco Aurélio, o paganismo tenta se reformar no modelo da religião que o ameaça e contra a qual luta.luta."

DA ALMA SEGUNDO OS NEOPLATÔNICOS

Partimos de Platão: "É nossa alma sozinha,sozinha, diz ele nas 'Leis', que constitui o que somos. Nosso corpo é apenas uma imagem que acompanha cada um de nós... Nossa verdadeira pessoa é uma substância, imortal por sua natureza, chamada alma.alma." "Enquanto vivermos aqui embaixo,embaixo, diz ele ainda no Fédon, nos aproximaremos, creio, o mais perto possível do saber à medida que, na medida de nossos meios, não tivermos nenhuma relação nem nenhum comércio com o corpo, a não ser na absoluta necessidade, e na medida em que não permitirmos que ele nos encha de sua própria natureza, mas trabalharmos para nos purificar dele até que o próprio Deus venha nos libertar."

Estes são textos que os neoplatônicos usam abundantemente, especialmente JÂMBLICO e HIEROCLES. Ouçamo-los.

HIEROCLES, em seu comentário dos Versos de Ouro de Pitágoras, escreve: "O que te faz o que és de fato é tua alma. Teu corpo não és tu; ele é apenas teu, e as coisas exteriores são o que é teu, isto é, de teu corpo. Graças a essa distinção, nunca confundirás essas diversas naturezas, saberás descobrir qual é a essência do homem e, nunca considerando como a ti mesmo nem teu corpo nem as coisas exteriores, não te preocupando com eles como se fossem tua verdadeira pessoa, evitarás assim cair num amor demasiado grande pelo corpo e pelas riquezas.riquezas."

"O objetivo da filosofia de Pitágoras, escreve DACIER,DACIER, em sua vida de Pitágoras, era desvencilhar dos laços do corpo o espírito sem o qual é impossível ver e aprender qualquer coisa; pois, como ele disse primeiro, é o espírito sozinho que vê e ouve, todo o resto sendo surdo e cego"cego" (Vida de Pitágoras por JÂMBLICO).

Vê-se por estas citações que os neoplatônicos se contentaram em levar às últimas consequências os ensinamentos de Platão.

Mas o senso comum nos ensina, ao longo da existência, exatamente o contrário. Nosso corpo somos bem nós mesmos e nossa alma é bem o princípio de animação desse corpo. O que é uma alma que não anima um corpo? Não é mais uma alma. Não é nada.

Platão pretende que nos aproximaremos do saber renunciando ao corpo. Jâmblico nos assegura que o espírito sozinho vê e ouve.

Mas o senso comum nos diz o contrário. O pequeno homem que acaba de nascer ignora tudo. Ele toma conhecimento do mundo com seus olhos, seus ouvidos, etc. Essa tomada de conhecimento é difícil, lenta, árdua, passa por numerosos erros, tropeços. É necessário um esforço de educação muito sustentado para que a criança atinja uma visão razoável das coisas. É a experiência comum da Humanidade.

Aliás, Platão marca por alguma fórmula restritiva o absurdo de sua tese: "A não ser na absoluta necessidade"necessidade". Mas é ao longo da vida que essa necessidade se impõe. Somos um corpo animado. É bem nosso corpo que se move, age, pensa, vê, sabe, etc., porque ele tem uma forma animante, chamada alma. Não se deveria reificar essa alma e fazer dela uma substância. Uma substância é o que se coloca debaixo para sustentar o ser todo.

E são os próprios platônicos que nos dirão isso pela incoerência de suas imaginações. Afirmam que a alma existia desde toda a eternidade antes da geração. Afirmação gratuita, insustentável. Como um princípio de ser pode ser concebido sem o ser que ele anima?

Impossível, então eles vão imaginar uma aparência de corpo, algo sólido, consistente, uma substância, em suma, para sustentar essa alma antes da geração. Eles não conseguem apreender uma alma suspensa no vazio. São realistas apesar de si mesmos.

Dizem-nos: "Todas as almas, (é PROCLUS quem fala) antes de cair na geração, eram Homens anteriormente. Elas tinham um veículo em relação com sua natureza, veículo invisível, inafetável, eterno, como produto imediato de uma causa imóvel. Esse veículo não é outra coisa senão um corpo imortal, está unido à alma e a dispõe, por sua presença, a se unir mais tarde a um corpo mortal. É o intermediário que a aproxima do envoltório material que ela terá que sofrer. Também parece receber algo dele..."

Pitágoras o chama de carro espiritual, corpo luminoso, veículo da alma. É bem a prova de que a alma não é uma substância, pois precisa de um suporte, mesmo no mundo divino. E o que é esse veículo imortal que não veicula mais nada quando a alma caiu em um corpo mortal? Já não é mais um veículo, suporte tornado inútil, substância vazia...!

A fé católica nos ensina algo totalmente diferente. Nosso corpo faz parte integrante de nós mesmos, constitui a substância de nosso ser. É o homem todo, corpo e alma, que será salvo ou condenado. A Igreja ensina até a ressurreição dos corpos, "Templos do Espírito Santo", diz ela. Que escândalo! Essa podridão, essa carapaça, essa prisão, etc... também será participante da visão beatífica. Eis um Dogma da Fé católica que se opõe completamente à filosofia de Platão, de modo que não pode haver nenhuma conciliação possível entre eles.

Nossa alma, sendo princípio de animação do nosso corpo, não é um princípio intercambiável, capaz de animar qualquer corpo. Nossa alma é o que dá forma corporal ao nosso ser, ela é, portanto, a própria forma do nosso corpo, não do do nosso vizinho. Seu papel próprio é bem animar um corpo, mesmo na eternidade. É-lhe bem impossível passar de um corpo a outro, porque então ela não seria mais a mesma forma, mas uma outra forma, portanto uma outra alma. A reencarnação é um absurdo.

Por isso se vê a dificuldade que há em fazer coabitar nos espíritos as verdades da Fé católica com as teses de uma filosofia platônica: elas sempre se chocarão, e é bem o problema que envenenou os espíritos até as grandes sínteses escolásticas.

Continuemos: "Nós carregamos, diz EPICTETO, um Deus conosco e em nós e o ignoramos! Não refletimos que o profanamos por ações más e por pensamentos impuros! Não ousaríamos fazer o que fazemos diante de uma vã imagem, e é na presença do próprio Deus, é na presença do Deus que está em nossa consciência que não nos envergonhamos de fazer, de pensar as coisas mais vergonhosas. Oh! Como conhecemos mal a celeste dignidade de nossa natureza!"

Somos divinos, dizem os neoplatônicos, mas não o sabemos. Se não sabemos que carregamos em nós um Deus, como podemos afirmá-lo? É bem uma pretensão gratuita, inverificável. De onde nos vem essa ignorância?

Santo Irineu não hesita em interpelar Platão sobre esse assunto em uma época em que todos os espíritos cultos o veneravam: "Platão fez intervir a bebida do esquecimento... sem fornecer a menor prova. Declarou peremptoriamente que as almas, entrando nesta vida, são embebidas de esquecimento, antes de entrar nos corpos... Se a bebida do esquecimento basta, uma vez bebida, para apagar a lembrança, como sabes então, ó Platão, já que tua alma está presentemente em um corpo, que antes de entrar neste corpo, ela foi embebida por um demônio do remédio do esquecimento? Se te lembras do 'demônio', da bebida e da entrada, deves saber também todo o resto.

Se o ignoras, é que nem o demônio é verdadeiro, nem o resto dessa teoria relativa à bebida do esquecimento..."

Somos divinos, dizem os neoplatônicos, mas não nos comportamos segundo um modo divino: más ações, pensamentos impuros, etc. O texto de EPICTETO se quer moralizador; mas, de fato, é contraditório e absurdo. Se somos divinos, como podemos nos comportar assim? Por nossa natureza divina, a coisa é impossível; ora, ela é verdadeira: logo, não somos divinos...

Mas existe outra consequência imprevista que os Gnósticos modernos terão o maligno prazer de desenvolver.

Nós nos envergonhamos de fazer coisas vergonhosas diante das estátuas dos deuses, vãs imagens, nos diz Epicteto, e ele tem razão. Não nos envergonhamos diante do deus que está em nós, que é nós mesmos. Claro! Para se envergonhar, é preciso estar diante de alguém que nos julgue segundo seu critério de julgamento próprio ao qual aderimos, ao menos exteriormente.

Mas se Deus está em nós constituindo nossa natureza celeste, não temos mais observador exterior a nós mesmos; tornamo-nos inteiramente livres de nossos atos. É nosso próprio julgamento que é o critério supremo do Bem e do Mal. Para um ser divino, tudo é Bem. Não há mais nenhuma vergonha possível. A psicanálise moderna, ao querer nos desculpabilizar, não faz senão levar as teses de Platão às suas últimas consequências.

Essa contradição enorme entre nossa natureza supostamente divina e nosso comportamento tão medíocre continuará sendo a pedra de tropeço dos platônicos e dos gnósticos que os seguem.

QUEDA E REINTEGRAÇÃO ENTRE OS NEOPLATÔNICOS

Partimos sempre de Platão; "O ardente desejo,desejo, diz HIEROCLES, daquele que quer fugir deste prado da infelicidade é apressar-se para chegar ao prado da Verdade. Se não chega lá, a queda de suas asas o precipita num corpo terrestre e o priva da perpétua bem-aventurança. Platão concorda aqui conosco quando diz a respeito dessa descida: 'Quando a alma, impotente para seguir os deuses, não consegue chegar à contemplação e, entregando-se à infelicidade, perde suas asas e cai na terra, então uma lei divina lhe prescreve vir animar o corpo de um ser mortal' (Excerto do Fedro)."

A alma humana é um "gênio decaído" (δαίμων) que teve que descer à terra para expiar faltas cometidas. "Os antigos teólogos e videntes,videntes, escreve FILOLAU (em Clemente de Alexandria, Os Stromata), atestam que é como punição de certas faltas que a alma está ligada ao corpo e nele está sepultada como num túmulo.mulo." A vida é um castigo e a morte uma libertação. Mas como então é que nossa alma, gênio divino, transportada por um carro luminoso, um corpo espiritual, etc., pôde cometer a menor falta, não estando corrompida nem degradada pela matéria antes de ter caído nesta terra de infelicidade e nesta carapaça-prisão? Seria possível, então, que a celeste dignidade de nossa natureza divina pudesse convir a uma alma faltosa ou impura? Há aí uma incoerência de grande porte. Além disso, nossos filósofos platônicos estão bem atrapalhados para nos explicar de que falta se trata, onde foi cometida e por quê. Tudo isso é pura invenção à qual nada corresponde na realidade. E vamos ver a que consequências extravagantes tais pressupostos vão levar.

Segundo PROCLO: "A oração não é uma invocação aos Deusesdeuses para obter favores, ela é pura de toda esperança. É o impulso da alma virtuosa em direção ao divino, fonte de toda perfeição. O que procede dos deuses, embora se distinguindo deles, não está totalmente separado. Em virtude da afinidade que ainda o une ao seu princípio, tende a retornar a ele, e o ato de amor e inteligência que o leva a um deus é a oração. A essência da oração é a conversão da alma para a divindade; seu efeito imediato, uma maior virtude; seu termo supremo, a absorção em Deus. Os homens se enganam estranhamente, imaginam que Deus se afasta deles ou que se aproxima e que a força da oração é atraí-lo ou fazê-lo descer até eles. Deus está sempre presente em toda parte. Ele é íntimo às nossas almas, ou antes, nossas almas estão nele. Quando acreditamos que ele se aproxima de nós, somos nós que, pela virtude, pelo amor e pela oração, nos aproximamos dele, unindo-nos mais intimamente à sua pura essência pela parte de nossa alma que se assemelha a ele. Deus não desce até a alma, é a alma que se eleva até ele."

Eis um belo exemplo de desprezo pela Providência. A divindade é apresentada pelos neoplatônicos como uma pura essência, impassível, imóvel, sem personalidade ("o divino"). Nossas almas são parcelas suas caídas, decaídas. Mas elas são divinas e pertencem a essa essência por sua natureza. Têm, portanto, em si mesmas a força, a "virtude" de remontar à sua fonte. Não há necessidade alguma de uma força sobrenatural, enviada por Deus para "elevar" nossa natureza a uma ordem que a ultrapassa. Nossa alma se eleva sozinha, sem ajuda, sem "graça", por seu próprio movimento: é uma "reintegração", um Retorno à Unidade.

Os homens se enganam, nos diz PROCLO, quando imaginam atrair Deus e fazê-lo descer até eles pela oração. Mas esse "erro" é comum a toda a humanidade, está inscrito em nossa natureza humana. Todo homem compreende muito bem que é fraco e frequentemente impotente, atingido ao longo da vida por dificuldades, obstáculos, sofrimentos de todos os tipos, que precisa de uma ajuda.

Dizer-lhe que a divindade suprema é impassível, impessoal; portanto, indiferente à sua infelicidade, é mergulhá-lo no desespero e no suicídio. É matar nele a virtude da Esperança. Na verdade, nossa oração é sempre um apelo por socorro; ela pressupõe um Deus pessoal, capaz de se inclinar sobre nós, de condescender à nossa súplica. Eis o ensinamento da Fé católica. Ela está em oposição radical com o Platonismo.

Finalmente, o Retorno à Divindade é apresentado por nossos filósofos como uma deificação, uma Teurgia. Uma operação que nos recoloca em contato com o Ser Supremo, que nos reúne à Essência da Alma Universal, como diz PLOTINO. Era praticada em ritos secretos, mágicos, durante os quais o teurgo se sentia tornar-se Deus. Profunda ilusão! É fácil acreditar-se divino na euforia de uma cerimônia exaltante. A queda no cotidiano é bem o sinal manifesto de que essa deificação não ocorreu realmente.

UMA CENA DE TEURGIA

Como sentir em si a natureza divina de nosso ser? Não basta acreditar-se divino, é preciso ainda ter o sentimento positivo disso, se não se quer viver na ilusão.

JÂMBLICO nos dá a resposta em seu "Tratado sobre os Mistérios", Jâmblico a quem Marino de Nápoles chamava de "o divino Jâmblico", o grande taumaturgo neoplatônico do século IV. Ele descreve a possessão do ser humano pelo divino:

"O Teagogo (aquele que faz aparecer a divindade, que a torna presente entre os homens) vê o sopro descer e entrar nele e percebe sua grandeza e qualidade. Aquele que o recebe vê aparecer antes a imagem do fogo. Às vezes essa imagem é visível a todos os assistentes, na chegada e na partida do deus. A partir disso, pode-se determinar exatamente a veracidade, a potência e, sobretudo, o posto, e aqueles que conhecem essa ciência podem dizer acerca do que ele é capaz de dizer a verdade, que potência ele pode desdobrar e que atos pode realizar."

Mais adiante, Jâmblico prossegue: "O Teurgo, pela potência das coisas inefáveis, não comanda mais os seres cósmicos como um homem usando uma alma humana, mas, enquanto preeminente na hierarquia dos deuses, usa ameaças superiores à sua própria essência... Usando tais palavras, ele dá a conhecer, em sua extensão, qualidade e modo de ser, a potência que lhe dá a união com os deuses, que lhe foi proporcionada pelo conhecimento dos símbolos inefáveis..."

Estamos aqui em pleno ritual mágico, em plena ciência oculta, o que é próprio de todo esoterismo.

Eis um belo exemplo notável de conversão neoplatônica. O imperador Juliano, o Apóstata, foi aluno do gramático LIBÂNIO. Este o colocou em contato com Máximo de Éfeso e nos conta sua conversão ao neoplatonismo. Segundo ele, o jovem Juliano foi conquistado apenas pelo esplendor do Verdadeiro: "Juliano, diz ele, ficou possuído quando encontrou homens imbuídos da doutrina de Platão, quando ouviu falar dos deuses e dos demônios, quando aprendeu com eles o que é a alma, de onde vem, para onde vai, o que a faz decair, o que a eleva, o que a define, o que a exalta, o que são para ela o cativeiro e a Liberdade, como pode evitar um e alcançar a outra. Então rejeitou as tolices em que acreditara (o Cristianismo, evidentemente) até então para instalar em sua vida o esplendor da Verdade, como se num grande povo se restabelecessem estátuas dos deuses antes ultrajadas pela lama."

Isso não é totalmente falso: o próprio Máximo foi um filósofo autor de um comentário das "Categorias" de Aristóteles, mas não foi apenas isso; ele também foi um teurgo e veremos que o passo decisivo de Juliano em sua conversão reversa não teve como único motivo o amor à Verdade, mas antes e sobretudo a impaciência de se sentir divino e de receber em si mesmo uma força sobre-humana. Um de seus mestres, Eusébio, contou-lhe um dia uma sessão maravilhosa na qual apareceu Máximo, cujo prestígio e relações íntimas com os deuses então suscitavam a admiração de seus devotos:

"Fui convocado, há algum tempo, com vários amigos por Máximo ao templo de Hécate. Ele acabou reunindo muitas testemunhas contra si mesmo. Quando saudamos a deusa, Máximo exclamou: 'Sentem-se, meus amigos, observem bem o que vai acontecer e vejam se sou superior aos outros homens.' Todos nos sentamos. Então Máximo queimou um grão de incenso, cantou para si mesmo não sei que hino e levou sua exibição tão longe que, de repente, a imagem de Hécate pareceu sorrir, depois rir em voz alta. Como parecêssemos emocionados, Máximo nos disse: 'Que nenhum de vocês se perturbe. Daqui a pouco, as tochas que a deusa segura em suas mãos se acenderão.' Mal terminou de falar, o fogo já brilhava nas pontas das tochas. Retiramo-nos, momentaneamente estupefatos diante desse teatral fazedor de maravilhas, e nos perguntávamos se havíamos visto de fato aquelas belas coisas. Mas, acrescenta Eusébio, não se admirem de antemão de nenhum fato desse tipo, assim como eu mesmo não me admiro, e acreditem que só tem importância a purificação que procede da razão. Então o divino Juliano se levantou: 'Adeus, disse ele, mergulhem em seus livros; vocês acabam de me revelar o homem que eu procurava.'"

Eusébio acreditava desviar seu discípulo da magia. Ocorreu o efeito contrário; o atrativo do poder sobrenatural e divino foi mais decisivo do que os escritos filosóficos na conversão neoplatônica de Juliano.

Santo Hipólito nos conta em "Os Philosophoumena" como se procedia para persuadir espíritos ingênuos e crédulos de que o deus lhes havia verdadeiramente aparecido: "Eis como o teurgo faz aparecer a divindade em traços de fogo. Depois de desenhar na parede a silhueta que quer mostrar, ele unta secretamente a superfície com uma droga composta da seguinte mistura: púrpura lacônia e betume de Zante; então, como num delírio extático, aproxima da parede uma tocha acesa e a droga pega fogo, lançando uma grande luz."

Por fim, Juliano tornou-se imperador e o Neoplatonismo reinou sobre o Império; mas não foi por muito tempo.

A seus amigos que choravam ao redor do leito onde ele iria dar o último suspiro, ele censurou sua fraqueza: "É uma humilhação para todos nós, disse, que choreis um príncipe cuja alma logo subirá ao céu e ali se confundirá com o fogo das estrelas." O silêncio se estabeleceu ao seu redor; ele aproveitou para iniciar com Prisco e Máximo uma conversa sobre a vida futura e a nobreza infinita da alma... Foi com alegria que ele entregou sua alma ao seu deus que a havia por um tempo aprisionado num corpo mortal.

PLATÃO E SANTO AGOSTINHO

Numa exposição sobre o Neoplatonismo, é necessário terminar com um exame atento do itinerário espiritual de Santo Agostinho. De fato, um teólogo recente, Gustave BARDY, pôde escrever: "Por si mesmo, o Neoplatonismo não é necessariamente pagão e o exemplo de Santo Agostinho, que logo encontrará nos livros neoplatônicos a revelação das realidades espirituais, bem como o caminho mais seguro para o Cristianismo, basta para mostrá-lo."

Não é possível escrever uma contra-verdade tão manifesta. Por toda a exposição que precede, demonstramos a incompatibilidade radical que existe entre Platonismo e Cristianismo. Mostramos também que os filósofos neoplatônicos constituíram sua escola de pensamento como uma máquina de guerra contra o Cristianismo nascente.

Infelizmente! Santo Agostinho foi de fato atraído pelo Neoplatonismo e todo o seu itinerário mostra com evidência que ele teve que rejeitar todas as teses platônicas uma após a outra para permanecer fiel à sua fé cristã, à medida que a aprofundava.

Vejamos isso. Após uma longa estadia entre os Maniqueus, Agostinho retornou à fé cristã de sua infância e à prática religiosa sob a influência de Santo Ambrósio em Milão, cujos sermões ele ouvia atentamente e após uma conversa pessoal com esse grande bispo.

Simultaneamente, Agostinho descobriu a filosofia de Platão nos escritos neoplatônicos. Leu então os tratados de Plotino na tradução latina de Mário Vitorino, que os colocou diretamente em suas mãos. Certamente leu também Porfírio, como assinala Pierre de LABRIOLLE, embora esse autor fosse muito abertamente anticristão. Foi para ele um deslumbramento, uma espécie de nova conversão, simultânea ao seu retorno à fé cristã. Ele fala dessas obras com entusiasmo como se sua leitura tivesse sido uma graça divina. Os "livros platônicos" acenderam nele um "incrível incêndio" ("etiam mihi de meipso incredibile incendium concitarunt"). Ele pressentiu sua concordância com a fé cristã e a luz que dela esperava. "Depois de ler alguns livros de Plotino, escreve ele no 'De Beata Vita', e depois de compará-los o melhor que pude com a autoridade daqueles que nos transmitiram os divinos mistérios, me incendiei." ("sic exarsi").

No entanto, ele notou algumas hesitações: era um pecador, um "homem de um orgulho imenso" que lhe havia colocado esses livros nas mãos. Ele até manifestou uma inquietação: "Se eu tivesse sido primeiro formado em tuas Santas Letras e familiarizado com sua doçura e depois tivesse encontrado os escritos platônicos, talvez eles me tivessem arrancado do sólido fundamento da piedade, ou então, se tivesse permanecido nessa disposição de salvação, não teria acreditado que só essas obras poderiam conduzir ao mesmo ponto."

Sabemos, portanto, que Agostinho não conheceu as obras de Platão, mas que absorveu Platão através dos filósofos neoplatônicos, na sistematização que eles haviam feito para erguer um obstáculo intransponível à expansão do Cristianismo entre as mentes cultas. Agostinho chegou a ver em São Paulo visões platônicas, quando ele opõe a carne e o espírito, por exemplo...


A primeira dificuldade encontrada por Santo Agostinho no Platonismo é a condenação da matéria, da carne e do corpo, esse pessimismo sombrio, esse verdadeiro dualismo entre a alma e o corpo que os neoplatônicos sistematizaram; a doutrina cristã do pecado lhe abriu os olhos. Em "A Cidade de Deus", ele reprovará Platão e Virgílio por terem colocado a causa do pecado na carne em vez de buscá-la na alma: "Pois a corrupção do corpo, que sobrecarrega a alma, não é a causa do primeiro pecado, mas a pena; nem a carne corruptível tornou a alma pecadora, mas a alma pecadora tornou a carne corruptível."

Ele encontra também o dogma da ressurreição dos corpos, esse dogma tão pouco grego, escândalo para os platônicos, que afirma que nosso corpo, essa podridão, essa casca odiosa, será um dia participante da visão beatífica, como São Paulo disse: "a reabilitação da carne e a recapitulação de todas as coisas em Cristo." A preocupação que Plotino manifesta de evadir-se do mundo sensível e fugir para o eterno lhe parece um erro sobre a natureza do mundo sensível e manifesta um pessimismo ou mesmo um dualismo que Agostinho não compreendeu no início, mas que denunciará mais tarde, sobretudo em "A Cidade de Deus".


A segunda dificuldade encontrada por Santo Agostinho nos Platônicos é a concepção do ἔρως, do Amor platônico, um desejo do Bem para si, determinado pela busca da Felicidade para si, um Amor, portanto, voltado sobre si mesmo, que recusa o dom generoso, um amor puramente ascendente. Ele lhe opõe o ἀγάπη, amor que difunde o Bem aos seres amados, movimento em direção aos outros, renúncia a si mesmo, amor descendente, tal como o de um Pai por seus filhos. E é a essa definição do amor-dom que Santo Agostinho aplica a Liberdade: um amor que se dá pode se recusar. É essa possibilidade que entra na natureza do dom e é a realização dessa possibilidade que constitui o pecado. O Mal não está nas coisas, nem na matéria, nem no conjunto dos seres criados, mas na recusa do dom. E isto é a antítese do Platonismo.


A terceira dificuldade encontrada por Santo Agostinho foi a pretensão que os Platônicos emitiram de poder, por suas próprias forças, realizar sua divinização. De fato, para Plotino, como para Platão, a alma é de natureza divina (θεῖον), ela possui em si mesma essa divindade de origem, mas velada, obscurecida pelo corpo e pela matéria. A teurgia não é outra coisa senão essa ascensão em direção aos astros, em direção ao céu originário, é o "retorno à unidade primordial" de nossos gnósticos. Plotino propõe um êxtase realmente divino.

Essa operação de retorno ao divino é denunciada por Santo Agostinho como um "orgulho incrível": "Com uma vaidade surpreendente, quiseram ser felizes aqui em baixo e fazer eles mesmos sua felicidade." ("Nec beati esse et a seipsis beati fieri mira vanitate voluerunt"). Ele condena, nas "Confissões", a busca da "visão curiosa" da divindade, porque ela comporta uma prática de magia e, portanto, necessariamente a mediação dos demônios. ("Adduxerunt sibi per similitudinem cordis suis conspirantes et socias potestates aeris hujus, a quibus per potentias magicas deciperentur, quaerentes mediatorem per quem purgarentur").

Enfim, por uma consequência necessária, Santo Agostinho condenou nos Platônicos o Panteísmo implícito de toda sua construção intelectual. E aí suas fórmulas são impressionantes: as criaturas conduzem a Deus, não porque são divinas, mas pelo que lhes falta: "Interroguei a terra, diz Agostinho, e ela me disse: não sou eu. Interroguei os mares, os abismos, os répteis de almas viventes e eles responderam: Não somos teu Deus. Questionei o sol, a lua; as estrelas: nós também não, nós não somos o Deus que procuras." ("Interrogavi terram et dixit: non sum. - Interrogavi mare et abyssos et reptilia animarum vivarum et responderunt: non sumus Deus tuus, quaere super nos... Interrogavi caelum, solem, lunam, stellas: neque nos sumus Deus quem quaeris, inquiunt").

"Procurei, continua Agostinho, procurei meu Deus em todos os corpos, na terra e nos céus e não o encontro lá. Procurei sua substância em minha alma e também não a encontro lá e não me resta nada a tocar, senão o próprio Deus." Eis uma afirmação solene da transcendência de Deus. Em nenhum lugar Santo Agostinho marca com tanta firmeza a diferença fundamental que opõe sua fé a Plotino e a toda a filosofia platônica. Basta comparar essas afirmações, por exemplo, ao Evangelho gnóstico de Tomé: "Racha a madeira, eu estou lá, levanta a pedra e tu me encontrarás..." ou ainda a algum cântico moderno: "Ele está em cada pedra... no centro da terra, no fundo dos oceanos, faz germinar as sementes, dirige os riachos, etc...".

A ILUMINAÇÃO DIVINA SEGUNDO SANTO AGOSTINHO

Resta uma última dificuldade com a qual Santo Agostinho irá se deparar, o problema da origem do conhecimento. De onde nos vêm nossas ideias?

Claro, Santo Agostinho, por fidelidade à fé cristã, devia rejeitar a reminiscência platônica, segundo a qual nossas ideias são a lembrança de uma vida anterior no mundo divino, essa preexistência das almas da qual Sócrates se servia para explicar a imortalidade da alma no "Fédon". Devia rejeitar também essa concepção do conhecimento segundo a qual nossas ideias são inatas em nós, já que a percepção sensível se contenta em despertar uma alma adormecida, em excitar o espírito e fazer aparecer, desvelando-a, um conhecimento enterrado em nós mesmos.

Mas Santo Agostinho guardou da "revelação platônica" essa noção de uma luz eterna e divina, cara a Platão, como a Plotino, que reside no mundo das Ideias. Evidentemente para ele, esse mundo não é outra coisa senão o próprio Deus, e portanto, essa luz divina, absoluta, imutável, não pode se confundir com a de nossa alma cambiante e incerta.

Nos "livros platônicos", ele acreditou encontrar o Verbo eterno, exemplar da criação, luz da Inteligência, sem ficar outro tanto surpreso por encontrar num pagão esse termo de Verbo, que parecia implicar um certo conhecimento do mistério da Santíssima Trindade em Platão. (Ele emite a hipótese, que rejeita bem depressa, aliás, de que Platão poderia ter conhecido o profeta Jeremias no Egito!)

Assim como o eterno e o divino são fonte do ser no Platonismo, também Deus em Santo Agostinho será regra de conhecimento e norma da ação. Por esta reflexão sobre a Verdade, ele acreditou captar, seguindo os neoplatônicos, a presença e a ação iluminadora de Deus no fundo mesmo de nosso espírito.

É à ação do Verbo que ele vincula explicitamente, desde então, a iluminação do espírito e a regra da Verdade. A verdade não pode ser recebida de fora. O título de mestre é um título usurpado pelos homens. Há um único mestre, que é Jesus Cristo. Ele nos é interior e preside nossa atividade espiritual. ("Deus qui humanis mentibus nulla natura interposita praesidet"). Nenhuma natureza pode interpor-se entre Deus e nossa alma. É no santuário íntimo da alma que o homem julga e proclama a verdade. O ensino e a experiência não passam de "evocadores" do conhecimento das profundezas ocultas de nossa alma. ("Remota et retrusa quasi in caveis abditioribus").

Não recebi as ideias por intermédio de outrem, reconheci-as em meu próprio espírito e fui eu quem as sancionou como verdadeiras... Elas estavam em mim antes que as aprendesse. ("Cum ea didici non credidi alieno cordi, sed in meo recognovi et vera esse approbavi...Ibi ergo erant et antequam ea didicissem"). Compreender uma verdade é reconhecê-la e declará-la conforme nosso ideal interior, não é adquirir algo novo, é trazer à consciência clara uma ideia até então implícita. "Se minha alma permanecesse em si mesma, nada veria além de si, e vendo a si mesma, certamente não veria a Deus... Entrei em meu interior, continua ele, e vi com o olho de minha alma, por mais turvo que estivesse, acima desse mesmo olho, acima de meu entendimento, a luz imutável. Ela não estava acima de meu espírito, como o óleo se mantém acima da água, como o céu se estende acima da terra. Quem conhece a verdade, a conhece". ("Qui novit veritatem, novit eam"!).

Sob que forma se exerce essa iluminação divina em nossa alma, é o que Santo Agostinho não explica, e por boas razões...

Mas filósofos escolásticos, discípulos de Santo Agostinho, tentarão suprir o silêncio de seu mestre.

Segundo alguns, Deus, criador, é também o modelo que expressa luminosamente e representa expressivamente todas as coisas. Devemos, portanto, considerá-lo como um espelho da criação, como um livro vivo, naturalmente posto diante de nosso olhar intelectual, no qual podemos ler os primeiros princípios da ciência e da moral. Daí esta conclusão: É o próprio Deus que é o livro próprio e natural do intelecto humano. ("Creator ipse liber est naturalis et proprius intellectus humani"). A profecia confirma, diz-se, esta explicação, pois Deus é novamente representado como sentado, segurando um livro que abre na página que deseja, para nos deixar ler a linha ou mesmo a palavra que ele quer colocar sob nosso olhar.

Se supusermos que a alma possui em si o conjunto de seus conhecimentos em estado inato, recaímos fatalmente na reminiscência platônica. É preciso admitir, segundo outros, que a inteligência divina fornece aos homens as ideias, segundo a ordem de suas necessidades. Tão instantaneamente quanto Deus pode criar as coisas, ele pode produzir no homem uma virtude própria, análoga àquela de uma semente capaz de gerar subitamente raízes, caules, folhas e sementes que dela devem provir. Nossa faculdade de conhecer seria tal que, sob a menor excitação do sensível, poderia gerar instantaneamente em si as ideias das coisas exteriores, aplicando-se a elas espontaneamente por uma espécie de mimetismo análogo ao do macaco ou do camaleão. Aptidão inata à produção súbita e indivisível das ideias. Deus fertilizaria nossa alma e, assim, desempenharia esse papel de "educador", esse adjuvante exterior, segundo a fórmula de Santo Agostinho. "Deus lumen cordis mei et panis intus animae meae et virtus maritans mentem meam et sinum cogitationis meae" ("Confissões"). O que deixa frente a frente apenas Deus e uma faculdade de conhecimento impotente para agir por si mesma.

TANDEM VENIT THOMAS

Por fim, veio São Tomás de Aquino.

Sua atitude em relação a Santo Agostinho é muito interessante. Ele sempre demonstra um grande respeito por este "Pai da Igreja", referência obrigatória de toda a escolástica de seu tempo. No entanto, ele mantém toda sua liberdade de espírito. Quando se depara com uma afirmação que não pode aprovar, começa por extrair do texto incriminado tudo o que pode ser aceito como verdadeiro; em seguida, refuta o erro que o texto poderia conter se alguém pretendesse interpretá-lo de outra forma. Nesse momento, expõe sua resposta à segunda interpretação, que é, de fato, a verdadeira resposta ao erro de Santo Agostinho. Assim, o respeito devido à pessoa é preservado, mas o erro é desmascarado.

Santo Agostinho já havia rejeitado todo o Platonismo pelo qual se entusiasmara em sua juventude. Restava uma única dificuldade: o problema do conhecimento. A tese da iluminação divina era tudo o que ele podia manter, acreditava ele, do pensamento neoplatônico.

"Deus é a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo". Isso é verdadeiro, de uma verdade sobreeminente. Que nossa inteligência seja iluminada por Deus e totalmente aberta à influência divina, é evidente, pois ela é uma inteligência criada "à imagem de Deus". Mas como nossa alma pode ser iluminada, isto é, informada pelo mundo natural dos seres que nos cercam, eis a pedra de tropeço de todo o Agostinismo. É sempre a Platão que São Tomás visa quando examina uma afirmação de Santo Agostinho. Ele é o pai de todos aqueles que "rebus naturalibus proprias substrahunt actiones", que recusam às coisas naturais suas operações próprias; e São Tomás denuncia o Platonismo em Santo Agostinho: "Augustinus autem Platonem secutus quantum fides catholica patiebatur", na medida em que a fé cristã permitia, Agostinho seguiu Platão; ou seja, rejeitou Platão sempre que compreendeu sua incompatibilidade com sua Fé.

São Tomás afirma que há nos seres sensíveis, compostos de matéria, um elemento de estabilidade; e é por isso que os sentidos não se enganam quando julgam os objetos que lhes são próprios. As coisas sendo, elas são realmente inteligíveis no que são, e eficazes nas operações que realizam. Não se pode negar a cada indivíduo a inteligência que lhe é própria. Não se pode negar à alma racional o princípio ativo sem o qual essa alma não poderia realizar sua operação natural. Admitir que Deus é a única Inteligência que opera em todos os homens é supor que Deus criou uma alma racional incapaz de usar sua razão. Por isso, São Tomás conclui: "Deus ilumina nossas almas na medida em que as dotou da luz natural graças à qual conhecem, que é a do intelecto agente (isto é, a inteligência quando opera)". Deus está presente em toda operação de toda criatura e, no entanto, cada uma delas permanece a causa eficaz de sua ação. Essa onipresença de Deus não despoja as coisas naturais de suas ações próprias.

Criar seres incapazes de agir, sem o poder de transmitir uns aos outros algo de sua ação própria, privados do que os torna naturezas distintas, diminuir sua dignidade, não é tirar algo da Glória de Deus?

São Tomás não encontrou antes dele outra filosofia que ensinasse que a inteligência criada é a razão suficiente do conhecimento humano, eliminada toda iluminação divina especial. Mas essa afirmação, ele a sustentará constantemente ao longo de sua vida, e a Igreja a reconheceu como verdadeira, consagrando seu autor como "o Doutor Comum" e "o Anjo da Escola".

E. C.