O JANSENISMO, DA HERESIA À TERCEIRA VIA.
A crise atual na Igreja nos mostra três tendências em conflito: os progressistas, os tradicionalistas e, entre ambos, um vasto pântano cujos elementos diversos têm em comum a recusa em tomar partido, como se fosse possível não escolher entre a verdade e o erro...
Essa atitude surpreendente, pois fundamentalmente impossível, não é nova e frequentemente teve adeptos que regularmente serviram ao erro, alguns por duplicidade, outros de boa-fé, pensando evitar o pior exatamente pela atitude que o assegurava.
Quando tal posição se torna obra de membros dirigentes da Igreja, até mesmo de bispos, a Revolução está próxima de triunfar, pois a luta contra o erro se torna apenas uma confusão onde a maioria não consegue se orientar.
Esta situação confusa que vivemos intensamente em 1987 foi suportada muitas vezes na história da Igreja, especialmente neste período do século XVIII, que viu os assaltos decisivos contra a Igreja e contra a Sociedade civil se articularem. O caso jansenista é muito instrutivo a esse respeito: teve, em seus primórdios, uma aparência de reforma, de reajuste de pensamentos e ações, e muitos de seus membros sempre o viveram como tal, e acabou por se tornar uma das quatro ou cinco maiores maquinações que a Igreja teve que suportar em vinte séculos.
Propomos abaixo um excelente estudo publicado recentemente pela revista italiana "Sodalitium" (que agradecemos pela compreensão) - A tradução foi feita por nós.
Como se sabe, a Revolução Francesa foi o resultado de uma preparação ideológica profunda que, desde o Renascimento e o protestantismo, passando pelo deísmo e o iluminismo, chegou à impiedade completa, expressa com toda clareza nas realizações políticas e religiosas da insurreição republicana de 1792.
A HERESIA JANSENISTA, QUINTA COLUNA NA IGREJA:
Num primeiro exame, a luta do final do século XVIII pareceria circunscrever-se a limites muito nítidos: de um lado, a Igreja; do lado oposto, o conjunto de correntes e seitas que se proclamavam abertamente ímpias – protestantismo, filosofismo, iluminismo, etc. – que se poderiam chamar de contra-Igreja. Na realidade, o panorama era muito mais complexo. Todos os partidários da contra-Igreja não estavam situados nos clãs heterodoxos; na verdade, ela encontrara o meio de dispor seus elementos em grande número dentro das próprias fileiras católicas. Esses elementos não estavam isolados uns dos outros e não agiam separadamente. Constituíam toda uma rede de atividades executadas com pleno conhecimento, que visavam fazer, dentro da Igreja, o jogo de seus adversários; em suma, o que hoje se chamaria "uma quinta coluna".
O objetivo desta quinta coluna era minar a reação católica. Para tanto, tinha uma dupla missão. Em primeiro lugar, a de propagar, sob o pretexto de autêntico catolicismo, sistemas teológicos e morais errôneos, que levariam os fiéis a tendências ímpias e os afastariam dos ensinamentos de Roma. Em segundo lugar, a de se introduzir, na medida do possível, em cargos-chave: cátedras universitárias, direção espiritual de seminários e comunidades religiosas, tronos e governantes, paróquias importantes e, acima de tudo, as sedes episcopais. Foi assim que a heresia buscava infiltrar-se o mais profundamente possível no seio da própria Igreja e das monarquias cristãs, obtendo o resultado de desorientar e perder os fiéis, ensinando-lhes, quase com a autoridade da própria Igreja, os erros que esta condenava.
Tal foi o Jansenismo, nefasta heresia que, por meio de cínicos subterfúgios, zombava das diversas condenações lançadas contra ela pelo Magistério infalível, e sempre buscou manter-se no seio do Catolicismo para corromper suas fontes vitais.
NATUREZA DO JANSENISMO
A obediência e a docilidade ao Santo Padre, a fidelidade à Escolástica — essa admirável síntese da filosofia e da Revelação —, o fervor dos fiéis, a assiduidade à confissão e à mesa eucarística, a devoção à Virgem, asseguram na Igreja a conservação daquela energia que a torna a pedra viva contra a qual se quebram as armas do inferno.
Os jansenistas, inimigos da Igreja, tentam permanecer aparentemente em seu seio para acabar com tudo isso. Seu rigorismo farisaico afasta os fiéis dos sacramentos. A crítica sofista à qual submetiam as decisões pontificais deu origem ao "opinionismo", ao "liberalismo católico", à liberdade para cada um pensar o que quer, já que se trata apenas de opiniões que podem ser verdadeiras ou falsas; a exaltação da Patrística e da Igreja primitiva, abalando a confiança na escolástica — teologia mais clara, mais precisa, mais definida — deu origem às incertezas da inteligência a trabalhar em um campo ainda nebuloso, e confirma profundamente os espíritos na convicção de que se trata sempre de opiniões igualmente respeitáveis.
Tais são os objetivos do jansenismo, conforme se pode deduzir de sua história. Na realidade, apresentava-se como defensor da teologia de Santo Agostinho, interpretada num sentido protestantizado, como se o Doutor da Graça tivesse admitido a dupla predestinação como fruto necessário da graça divina ou de sua ausência. De fato, para os jansenistas, existem preceitos divinos para cujo cumprimento faltam ao homem as energias necessárias; e se ele recebe essas energias, ou seja, a graça de Deus, então não é mais livre para praticar as boas obras: o auxílio divino move necessariamente sua vontade.
A QUINTA COLUNA JANSENISTA DESMASCARADA
Compreende-se facilmente que esta seita herética teria realizado seu empreendimento infernal se tivesse conseguido permanecer completamente oculta no interior dos meios católicos. Mas não foi assim. Vigorosamente combatida por teólogos e polemistas de valor, foi forçada a se defender. E ao se impor à luz do dia, colocou em evidência não apenas suas garras, mas todos os seus músculos. Seu objetivo essencial foi, portanto, assim, ao menos em parte, fracassado. Roma, posta em guarda, condenara o sistema. Os fiéis estavam, portanto, prevenidos. Os jansenistas, que se diziam católicos, já não podiam mais agir nas sombras, como uma quinta coluna.
Restava-lhes, manifestando a aparência do catolicismo, edificar uma espécie de "igreja dentro da Igreja", reunindo os espíritos mais orgulhosos, mais temerários, mais dissipados, para combater sem trégua os filhos da luz numa guerrilha incessante de argúcias e sofismas contra os católicos autênticos. Desse modo, era mais fácil tramar a conspiração dos filhos das trevas fora do campo da Igreja.
A TERCEIRA FORÇA: ENTRE JANSENISTAS E ORTODOXOS
Na revista Annales — atualmente, sabe-se, um dos melhores órgãos especializados em história —, Emile Appolis publica um artigo de valor e de grande interesse no qual, reunindo fatos já conhecidos e novos documentos por ele mesmo coletados, consegue demonstrar, com impressionante clareza, que o jansenismo, descoberto, condenado, perseguido, mas sempre enraizado nos meios católicos, gerou por sua vez uma espécie de terceira força — um terceiro partido, diz Appolis — constituído de eclesiásticos de diversos escalões, que assumiram a tarefa muito delicada de fornecer aos jansenistas condições de existência aceitáveis no seio da Igreja, apesar das pressões contrárias. Em primeiro lugar, esses eclesiásticos não se declaravam jansenistas. Ao contrário, como regra geral, suas maneiras de agir davam a impressão de que estavam de acordo com Roma. Contudo, na realidade, não combatiam o jansenismo; sustentavam a tese de que este desapareceria tranquilamente se os antijansenistas cessassem toda campanha contra ele e se a Santa Sé se abstivesse de toda medida de rigor de caráter pessoal.
Esta posição, do ponto de vista doutrinal, não era a dos jansenistas, nem a dos antijansenistas militantes; era favoravelmente recebida por numerosos espíritos eminentes, desejosos de empregar toda sua influência para enfraquecer a luta contra a heresia.
A partir do momento em que essa tática insidiosa triunfa, três atitudes se manifestam nas fileiras católicas: a dos jansenistas em luta aberta contra os partidários de Roma; a da terceira força, também ela oposta aos partidários de Roma, a quem acusava de exagero, de intransigência, de fomentar oposições, de serem inimigos da caridade; finalmente, a dos partidários de Roma, isolados, incompreendidos, desencorajados porque contra eles se voltavam não apenas os jansenistas, mas também numerosas personagens ilustres pelos cargos que assumiam, dignas por sua piedade e pela austeridade de sua vida, alistadas na terceira força.
O grande mérito do estudo de Appolis é pôr em relevo o fato de que os homens da terceira força, sob o pretexto de neutralidade, eram agentes dedicados da causa jansenista e prestavam à seita os mais preciosos serviços.
Esse ponto importante da história eclesiástica recebe assim uma nova luz. Nossa revista, em cujo programa se insere o estímulo ao interesse pela história da Igreja, oferece a seus leitores as principais passagens do estudo de Emile Appolis... Será inútil recordar às pessoas instruídas que a grande interferência, então em uso, do poder temporal na nomeação dos bispos prejudicava gravemente a liberdade de movimento da Santa Sé, bem como a escolha de Pastores autenticamente imbuídos do espírito de fidelidade integral a Roma.
Appolis tem como objeto de estudo a França do século XVIII. O Jansenismo, enquanto seita, estava em sua fase final de existência (posteriormente, ele sobrevive a si mesmo no espírito liberal que ainda hoje infecta muitas mentalidades de movimentos católicos). Naquela época, seu grande líder era Pasquier Quesnel, cuja obra "Reflexões Morais sobre o Novo Testamento" foi, após muitas vicissitudes, fulminada pela bula UNIGENITUS de Clemente XI, datada de 8 de setembro de 1713. Mas o jansenismo, graças à negligência do poder secular, já havia fortalecido suas raízes na França. Assim, embora registrada pelo parlamento e acolhida pela Assembleia do clero, esta bula papal não obteve a obediência pacífica de todo o país; diante dela, os bispos franceses se dividiram em três grupos: uma parte acolheu plenamente a palavra de Roma e aplicou com ardor as disposições da bula; Appolis os chama de "Constitucionais", em virtude de sua perfeita adesão à constituição apostólica. Outra parte, soberbamente jansenista, recusou-se a submeter-se à decisão da Santa Sé e apelou ao futuro concílio geral: são os "apelantes" que, em 1717, eram quatro, depois chegaram a vinte. Uma terceira parte escolheu uma posição intermediária, subscreveu a bula, mas nada fez para aplicá-la: são aqueles que Appolis nomeia como a terceira força.
O PRINCÍPIO DA TERCEIRA FORÇA: SALVAR A UNIDADE
A razão invocada por este último grupo de prelados é a manutenção da paz entre os fiéis e da caridade para com todos. Assim, eles não tomam partido e não se preocupam em saber se há jansenistas em sua diocese. Tal foi Monsenhor Pierre Clément, bispo de Périgueux, que, em sua morte, mereceu este elogio: "Monsenhor o bispo havia, até sua morte, contribuído para nossa paz; ninguém havia tomado partido (a favor ou contra a bula) e absolutamente nada nos foi exigido".
Idêntica foi a atitude de vários outros prelados: do sucessor de Monsenhor Clément em Périgueux; de Monsenhor Denis-Alexandre Le Blanc, da diocese de Sarlat; de Monsenhor Louis-Charles des Alrys de Rousset, que durante quarenta anos conservou em sua diocese uma calma inexistente nos bispados vizinhos; de Monsenhor J.A. Phélypeaux, bispo de Lodève, absolutamente indiferente às bulas e às declarações reais. Quando uma destas últimas, em junho de 1722, impôs a aceitação das fórmulas antijansenistas por todos aqueles que recebessem as ordens sacras ou benefícios eclesiásticos, Monsenhor Phélypeaux não hesitou em conferir ordens a vários de seus subordinados que haviam recusado subscrever o formulário, assim como em conceder prebendas eclesiásticas sem exigir dessas pessoas que cumprissem essa formalidade preliminar.
Mas não são esses indivíduos que constituem a terceira força propriamente dita. Por sua falta de zelo e uma coloração de espírito cético, eles constituem um grupo pouco digno dos cargos que ocupam. Os homens da terceira parte têm uma atitude análoga, mas não são movidos pela negligência, e sim por uma questão de doutrina, pelo princípio de que a paz é um valor supremo e que é, portanto, desejável conservá-la a todo custo, mesmo quando, agindo assim, se enfraquecem as forças dos defensores da verdade e se abre a porta aos propagadores do erro.
Mantendo entre si relações muito cordiais, diz Appolis, eles formam um autêntico partido intermediário entre os "apelantes" e seus adversários. Sem recorrer a um futuro concílio e sempre afirmando sua submissão à bula de Clemente XI, esses prelados recusam, apesar de tudo, alinhar-se com os "constitucionais", integralmente dóceis a Roma. Como os jansenistas, também eles esperam o fim das discussões por "amor à paz" e "ódio ao cisma". Eles não querem considerar os "apelantes" como suspeitos de heresia, desde que estes queiram condenar as cinco proposições do jansenismo e sustentar a doutrina de Santo Agostinho sobre a graça, teses pelas quais também professam grande veneração. Dessa forma, esses bispos querem simplesmente enterrar o problema. "Os partidários deste terceiro partido – conclui Appolis – aspiram, portanto, a restaurar a unidade da Igreja, não pela retratação dos jansenistas, mas pela instauração de uma tolerância da qual estes últimos seriam os beneficiários."
Com esse objetivo, em sua carta pastoral de 8 de fevereiro de 1715, Monsenhor Honoré de Quiqueran de Beaujeu, bispo de Castres, após fazer uma declaração de deferência à Santa Sé e após falar em termos emocionantes "do respeito da submissão que devemos a 'Cefas'", declara que pretende conservar uma posição equilibrada entre os dois grupos adversos: "Prelados respeitáveis por seu saber e por sua piedade consideraram dever apelar ao futuro concílio... Outros prelados, para os quais somos obrigados a igual respeito, condenaram este apelo e o declararam cismático". Por amor à paz, Monsenhor de Beaujeu se mantém fora das discussões e dá a seus diocesanos ordens de acordo com esse fim. Em sua diocese, ele deseja apenas a paz e a caridade: "... deixemos a outros o cuidado de esclarecer e defender a verdade obscurecida ou abalada pelas discussões que lesam a caridade, na qual somente queremos permanecer firmes e a vós firmar Conosco".
Sua caridade é particularmente transbordante para com os "apelantes". "É para nós um grande peso ver nossos irmãos – e que irmãos, ó Deus! – é para nós um grande peso vê-los acusados de rebelião, é-nos duro vê-los tratados de cismáticos e sabemos que abominam o cisma como o maior dos delitos. É-nos duro vê-los acusados de 'heresia', pois sabemos que condenam as cinco proposições de Jansênio e sustentam sobre a questão da graça, nem mais nem menos, a doutrina de Santo Tomás e de Santo Agostinho..."
Não é, portanto, surpreendente que os bispos "apelantes" mantenham relações de grande cordialidade com os homens do partido intermediário.
O CARDEAL FLEURY APOIA A TERCEIRA FORÇA
Quando o Cardeal Fleury foi chamado a exercer o cargo de ministro de Luís XV (1726) e teve a responsabilidade de prover os benefícios eclesiásticos, ele se alegrou com a existência do terceiro partido. Nele, o ministro via os homens da paz, que evitariam toda perturbação no reino. Assim, embora desejasse a submissão a Roma, considerava mais urgente preservar a tranquilidade pública. Essa preocupação orientou toda a política eclesiástica do Cardeal Fleury. Os "constitucionais" não lhe agradavam. Ele também não apoiava abertamente os "apelantes". Suas preferências iam para os da terceira força, embora reconhecesse neles simpatias e tendências jansenistas. O Cardeal Fleury recrutou os candidatos ao episcopado nas fileiras da terceira força e, com a prudência necessária, substituiu gradualmente, no governo das dioceses, os "constitucionais" por elementos do grupo intermediário. Em Carcassonne, no posto de Monsenhor L.-J. de Châteauneuf de Rochebonne, que havia confiado seu seminário aos Jesuítas, o Cardeal Fleury colocou Monsenhor Bazin de Bezons; em Châlons-sur-Marne, a Monsenhor Tavannes, que havia proibido as ursulinas jansenistas de receber os sacramentos, sucede Monsenhor Choiseul-Beaupré; em Mirepoix, Monsenhor Ch.-Jo. de Quinqueran de Beaujeu, sobrinho do outro Quinqueran de Beaujeu, então considerado criptojansenista, substitui o teatino Monsenhor Boyes, ardente "constitucional" chamado a tornar-se preceptor do Delfim; em Soissons, Monsenhor Fitz-James é o segundo sucessor de Monsenhor Languet de Gergy, outro partidário ardente da Unigenitus.
Para avaliar o grau de ortodoxia desses elementos – eles não foram os únicos, estes são apenas alguns exemplos – basta lembrar que o Cardeal de Fleury teve que vencer escrúpulos (de consciência) no caso de algumas dessas nomeações, como a de Monsenhor Souillac, bispo de Lodève, por exemplo, sobre quem pesavam suspeitas, não sem fundamento, de heresia.
É muito possível que esses rumores negativos sobre a ortodoxia dos partidários da paz a qualquer preço tenham sido uma das razões que lhes exigiu o apoio do Cardeal ministro. O Cardeal Fleury estava certo de que, em qualquer eventualidade, eles recorreriam a ele, o que lhe daria praticamente a direção de toda a Igreja da França. Assim foi. Quando o Jansenismo desviou para fatos milagrosos, ou mirabolantes, transes, curas, etc., todos esses bispos sufocaram os fatos, evitando qualquer rumor e seguindo docilmente as instruções de calma absoluta do Cardeal.
A terceira força teve um movimento de pânico quando, com a morte do Cardeal Fleury (1743), ele foi substituído, no cargo de propor à Santa Sé, em nome do rei, os candidatos ao episcopado, pelo próprio Monsenhor Boyes, afastado de Mirepoix por suas ideias ardentemente favoráveis à bula Unigenitus.Unigenitus. Se Monsenhor Boyes não tivesse morrido em 1755, em pouco tempo a Igreja da França teria sido libertada dos "apelantes" e dos intermediários, com um episcopado inteiramente dócil às instruções de Roma. Infelizmente, seus dois sucessores, primeiro o Cardeal de la Rochefoucauld, morto em 1757, depois Monsenhor Jarente de la Bruyère, bispo de Orléans, retomaram a política de Fleury e carregam a responsabilidade pela nomeação de numerosos prelados da terceira força.
AS VIRTUDES DOS CRIPTOJANSENISTAS
Quão útil este partido intermediário foi para a causa jansenista é evidente para quem considera as possibilidades excepcionais de que dispunham os prelados que a ele aderiam para difundir uma mentalidade de inação diante do erro e da heresia, possibilidades reforçadas pelo modo de vida de seus bispos, de aparência austera, zelosos e piedosos, o que os tornava ainda mais recomendáveis.
Na verdade, todos apresentam características mais ou menos comuns. Se nem todos são oratorianos (a congregação do Oratório, do Cardeal de Bérulle, foi um grande baluarte do jansenismo), quase todos estudaram em institutos confiados aos Oratorianos. Alguns são ex-alunos dos Doutrinários.
Essas origens, que poderiam torná-los suspeitos, eram contrabalançadas por outras qualidades capazes de influenciar poderosamente o espírito do povo. Em geral, eles tinham uma concepção elevada de seus deveres como bispos. Observadores escrupulosos da lei de residência, assíduos e incansáveis em suas visitas pastorais, nunca negligenciavam instruir o povo por meio de sermões e catequese. Monsenhor Souillac, em 20 de novembro de 1735, permaneceu duas horas e quinze minutos no púlpito para encerrar a missão de Lodève.
Outro aspecto capaz de fortalecer a veneração do povo consiste nas práticas de caridade. Monsenhor La Châtre, Monsenhor Souillac, Monsenhor Beauteville e Monsenhor Bazin de Bezons instituíram os hospitais de suas respectivas sedes episcopais como herdeiros de seus bens.
Em matéria de dinheiro, mostraram-se absolutamente desinteressados. Renunciam a outros benefícios para se contentar exclusivamente com as receitas de sua própria cúria. Severos consigo mesmos, também o são com o povo. Appolis os acusa de serem rigoristas. O capítulo da catedral de Alès, anunciando aos fiéis a morte de Monsenhor de Beauteville, destaca que "ele tinha uma opinião muito severa sobre os deveres dos homens para com Deus e pensava que o caminho do céu era estreito e difícil.cil." Monsenhor Souillac, durante seus primeiros quatro anos de episcopado, recusou-se a conferir as ordens sacras por medo de errar na escolha dos candidatos. Monsenhor Bazin de Bézons preparava-se para as ordenações com jejuns, mortificações e orações contínuas. Esse mesmo prelado é o terror de seu clero pela excessiva rigidez em suas visitas pastorais. Nos bispos da corrente intermediária, essa severidade é geral. Eles também se levantam contra os desregramentos de Luís XV, até mesmo nas publicações destinadas à divulgação, como as instruções pastorais.
Coberto pela inércia dos bispos da terceira força, não é surpreendente que o surto do jansenismo tenha sido enorme. Em meados do século XVIII, as condições eram tais que Luís XV concluiu com Bento XIV, não a revogação da bula Unigenitus, como querem alguns, mas uma atenuação do rigor na aplicação das penas que ela havia estabelecido.
A TÁTICA DA TERCEIRA FORÇA PARA FAVORECER A HERESIA
É necessário salientar que os prelados do terceiro partido não apoiavam o jansenismo apenas por sua atitude pacifista, não fazendo nada que fosse no sentido de reprimir a seita ou de seguir as medidas impostas pela Santa Sé e pelas ordens do Rei; eles eram soldados preciosos da heresia por todo o seu modo de ação.
Eles não aceitavam os erros do jansenismo, condenavam as cinco proposições, aceitavam a bula Unigenitus, mas apoiavam tudo o que manifestava simpatia pela seita e propagava seu espírito.
Um dos princípios táticos do jansenismo consistia no exagero do espírito paroquial: Missa e sacramento unicamente na igreja matriz. O conciliábulo de Pistóia deu forte ênfase a essa tendência jansenista, que se concretizaria no futuro por uma autêntica campanha contra as igrejas das Ordens e Congregações. Consequentemente, todos esses bispos são "paroquialistas" em excesso. Monsenhor Bazin de Bezons e Monsenhor Tourouvre perseguem os fiéis que, no domingo, não assistem à Missa na igreja paroquial. Monsenhor Tourouvre, desde sua primeira visita pastoral, fecha uma capela e proíbe a celebração do Santo Sacrifício em várias outras. Monsenhor Souillac excomunga os fiéis que não assistem à Missa na igreja paroquial por três domingos consecutivos. Monsenhor Bazin de Bezons, por um ato de 3 de dezembro de 1753, condena um professor de teologia – jesuíta – porque ensinava que a Missa na paróquia não é nem preceito nem obrigação. Monsenhor Tourouvre só admite neoconversos ao casamento sob a condição de terem provado catolicidade assistindo assiduamente, durante um mês, à Missa, às instruções e aos outros ofícios paroquiais.
Outra característica do jansenismo era sua luta feroz contra os Jesuítas. Nessa ofensiva, os homens da terceira força são seus aliados. Vimos como se comportou Monsenhor Bazin de Bezons com o Jesuíta, professor de seu Seminário. Ao mesmo tempo que ele, os bispos Fitz-James, Rastignac e Souillac entram em luta contra o livro do jesuíta Pichon, que defende a comunhão frequente. Fitz-James e Montazet levantam-se por escrito contra a "História do Povo de Deus"Deus" do Jesuíta Berruyer. Essa fobia em relação aos Padres da Companhia de Jesus lhes vale, por parte da Corte, condenações análogas às que haviam sido dirigidas contra os "apelantes". Na parte que dedica ao espírito jansenista, Appolis observa que os prelados da terceira força adotam publicamente, nas liturgias diocesanas, os princípios característicos da seita.
Mas, sobretudo, no ensino do catecismo, vê-se claramente que esses bispos eram favoráveis à heresia. Nenhuma arma é tão eficaz para a difusão do erro quanto esses pequenos livros colocados nas mãos ingênuas das crianças. Nos catecismos das dioceses dirigidas por adeptos da terceira força, encontramos, mais diluído e, portanto, mais perigoso, o vírus jansenista. Souillac adota em sua diocese o catecismo do jansenista Colbert. Mas, enquanto este destaca o mistério da dupla predestinação, sustentado pelos hereges, Souillac o insinua no final de uma frase. Colbert diz:
"- Deus dá as mesmas graças a todos os homens?
- Não. Deus dá mais graças aos cristãos do que aos outros homens; e entre os cristãos, alguns recebem mais graças do que outros.
- Por que Deus age assim?
- Isto é para nós um mistério impenetrável. Sabemos apenas que Ele faz misericórdia a alguns e justiça a outros."
Souillac suprime a segunda resposta, na qual o pensamento jansenista aparece claramente. No entanto, ele apenas a desloca, insinuando-a no final da resposta à pergunta anterior, que está redigida da seguinte forma:
"- Não. Deus dá mais graças aos cristãos do que aos outros homens; e entre os cristãos, alguns recebem mais graças do que outros, por efeito de sua misericórdia e de sua justiça."
Não é de surpreender, portanto, que os "apelantes" tenham expressado os mais vivos elogios aos estudos realizados no mesmo sentido por Souillac e Rastignac: Conferências de Lodève e instruções pastorais sobre a justiça cristã.
"Não há nenhum apelante"apelante", diz o jansenista Fourquevaux, "que não reconheça nesses escritos sua forma de pensar.pensar."
O AUTÊNTICO PENSAMENTO DOS CRIPTO-JANSENISTAS
A sinceridade desses prelados da terceira força na aceitação da bula Unigenitus também pode ser posta em dúvida.
É certo que todos a acolheram e a fizeram aceitar por seu clero e pelo povo. Houve, inclusive, entre eles alguns que, para isso, usaram de meios violentos. Contentaram-se, no entanto, com a assinatura do documento. Não foram além. Tratava-se de uma obediência "pura e simplesmente formal".
O espírito e a sinceridade dessa obediência transparecem em mais de um escrito. Dom Souillac, em seu testamento, explica a razão pela qual aceitou a bula Unigenitus:
"Aceitei sinceramente a bula, desde que me pareceu ser geralmente promulgada e aceita pelo corpo episcopal unido ao Papa, chefe visível da Igreja e primeiro vigário de Jesus Cristo."
Nessas palavras, insinua-se que o exercício do pontificado supremo está submetido à aceitação dos bispos, exatamente como pensavam os "apelantes".
Mais explícito, Dom Beauteville – que durante toda a sua vida nunca se levantou contra a bula – tira a máscara e confia ao seu testamento esta afirmação textual:
"Estou muito longe de considerar a constituição 'Unigenitus', publicada sob o nome do papa Clemente XI, como uma decisão da Igreja. Declaro, ao contrário, aderir de todo o coração ao apelo ao futuro concílio, interposto pelos bispos de Mirepoix, de Senez, de Montpellier e de Boulogne..."
Explicando por que, pessoal e formalmente, não havia feito publicamente apelo ao concílio, ele diz:
"Considerei a lei do silêncio como uma reprovação autêntica e legal da constituição
Unigenitus,Unigenitus, que retira desta o caráter de julgamento da Igreja, suspende os efeitos que em vão se tentou dar-lhes e torna, por conseguinte, inútil, ou pelo menos não necessária e indispensável, uma apelação que, de outra forma, teria sido de rigor e dever absoluto, como quando foi levantada, no momento em que se impunha a execução da bula".
Ele termina esclarecendo seu pensamento de que, durante todo o tempo em que permaneceu em função, fez observar religiosamente a lei do silêncio sobre a Unigenitus.
Isso pode ser considerado um caso limite. Em geral, os partidários da posição intermediária deixavam transparecer sua maneira de considerar a obediência devida ao Papa, através da negligência na aplicação das ordens, tanto reais quanto pontifícias.
Dom Montazet não se preocupa em exigir dos candidatos à ordenação que subscrevam o formulário antijansenista de Alexandre VII e ordena padre François Jacquemont, que mais tarde seria o famoso cura jansenista de Saint-Médard, no Forez. Outros têm o mesmo comportamento que ele. Dom Souillac, por exemplo, usa de diversos artifícios: umas vezes cala-se a respeito do formulário; outras, afirma que o candidato já subscreveu; outras, declara que o fará mais tarde. Assim, confere a jansenistas benefícios vacantes. Em suma, esses bispos praticam, para fazer o mal, essas sutilezas que a seita imputa aos jesuítas, que têm o bem em vista.
As suspeitas sobre a lealdade desses prelados para com Roma nascem, além disso, das explicações reiteradas que se sentem obrigados a fornecer. Dom Souillac declara ao Cardeal Fleury: "Não recebi uma alma tão vil para representar o papel de que querem me fazer suspeitar." Fitz-James escreve a Bento XIV: "Nunca, graças a Deus, dissimulei minha maneira de pensar, e ouso dizer que nunca tive na sociedade a reputação de um homem dissimulado.dissimulado." Numa carta ao mesmo pontífice, repete a velha lamentação jansenista, a saber, que a Santa Sé está mal informada: "Todos os que conhecem este país e julgam as coisas sem paixão estão absolutamente persuadidos de que não há heresia nem hereges.hereges." Em consequência, dá uma interpretação tendenciosa da bula Unigenitus: sob pretexto de que esta não comportava pena, com a maior leviandade admite os jansenistas à recepção dos sacramentos. Como se o documento pontifício tivesse condenado alguém, mas entre outro povo e em outros países.
Em 1755, na Assembleia do clero, a terceira força aparece ao lado daqueles que julgam leve a desobediência dos jansenistas, e em 1765, quatro bispos desse partido, os Srs. Montazet, Bezin de Bezons, Beauteville e Noé recusam sua adesão aos atos da assembleia do clero que declaram os jansenistas indignos de receber os sacramentos.
OS GRANDES RESPONSÁVEIS PELA DIFUSÃO DO JANSENISMO
Todos esses fatos justificam a conclusão de Appolis: "(...) devido à sua (dos bispos do terceiro partido) tolerante simpatia pelos adversários da bula, um grande número desses prelados tem uma considerável parcela de responsabilidade no desenvolvimento do jansenismo dentro de suas dioceses. Para nos limitarmos a alguns exemplos, a diocese de Lyon teria contado, por ocasião da morte de Monsenhor Montazet, sessenta padres "apelantes". O próprio vigário-geral de Monsenhor Bazin de Bezons, o jansenista Guillaume Besaucèle, será tão popular entre os inimigos da Igreja que será eleito, na época da revolução, bispo constitucional do Aude. Com esse terceiro partido, muito mais do que com os jansenistas propriamente ditos, é preciso aproximar, no final do Antigo Regime, os reformadores do concílio de Pistoia - pelo menos em sua grande maioria; a esse mesmo partido pertencerá também o Padre Grégoire, o famoso bispo revolucionário que nunca se levantará contra a bula e o formulário, apesar de sua reputação de port-royalista.
Como observou bem o autor jansenista Grazier, "ele será jansenista apenas à maneira de Rastignac, de Fitz-James, de Montazet."
RETIFICAÇÃO NECESSÁRIA
Por seu estudo, Appolis contribuiu muito para esclarecer a situação religiosa da França no século XVIII.
No entanto, em seu estudo, uma passagem nos parece exigir uma explicação de nossa parte. Appolis, ao querer demonstrar, à luz dos documentos, a evolução da questão jansenista após a bula UNIGENITUS, evolução num sentido liberal para uma tolerância sempre maior em relação ao erro, sustenta que os próprios papas Bento XIII e Bento XIV teriam se deixado levar pela corrente intermediária.
Eles teriam sido, eles próprios, ilustres representantes da terceira força.
Ora, embora ambos tenham sido homens inclinados às concessões, embora em graus diferentes, nem um nem outro chegou ao ponto de transigir com a heresia, como dá a entender, sem contudo afirmar, Appolis em seu estudo (1).
Bento XIII, fervoroso dominicano (mesmo tendo se tornado Papa, beijava as mãos do geral de sua Ordem), sustentou, sem dúvida alguma, a posição teológica dos dominicanos. Não, no entanto, em detrimento das outras doutrinas com iguais direitos de cidadania na Santa Igreja. O breve DEMISSAS PRECES de 6 de novembro de 1724, solicitado pelo Geral dos Dominicanos, ao qual é endereçado, contém uma exortação para não dar importância, por magnanimidade, às calúnias dirigidas contra suas opiniões doutrinais, especialmente a respeito da graça eficaz por si mesma, e da predestinação anterior à previsão dos méritos.
Contudo, ele não declara nem que a posição de Molina deva ser condenada, nem que os autores das calúnias contra os Dominicanos sejam os molinistas. O breve deixa entrever suficientemente que os caluniadores da Ordem aos quais se refere são os jansenistas. Não se pode, portanto, apelar para este breve como implicando uma condenação dos molinistas.
Quanto ao elogio da doutrina de Santo Agostinho e São Tomás sobre a graça, é oportuno notar que o Papa distinguia bem a doutrina tradicional da Igreja que, desde Bonifácio II, vê em Santo Agostinho o Doutor da graça, e as deformações do Augustinus do Jansenismo que os "Port-Royalistas" faziam passar pela doutrina do Santo Bispo de Hipona. Talvez seja também essa a razão pela qual o breve de Bento XIII contém um elogio da bula UNIGENITUS, que ele qualifica como uma sentença extremamente salutar e sábia de Clemente XI.
Bento XIV, também, acolhe, como medida disciplinar, as exigências da Corte da França, de suavizar a aplicação das penas incorridas por aqueles que desobedeciam à bula UNIGENITUS. Por importantes que tenham sido, no entanto, as concessões do Papa, elas não cederam às instâncias do Rei, a ponto de proclamar que a bula UNIGENITUS não deveria ser considerada como "regra de fé". E, de fato, na circular endereçada pelo Papa à Assembleia do Clero, mesmo que não se encontre a expressão "regra de fé", a mesma ideia é apresentada em outros termos. Diz-se ali que a autoridade da dita bula é tão grande, que exige um respeito, uma aceitação e uma obediência de uma sinceridade tal que nenhum fiel pode lhe negar uma submissão obrigatória e se opor a ela, de qualquer maneira que seja, sem perigo para sua salvação eterna. Segue-se a punição contra as pessoas notoriamente desobedientes à bula UNIGENITUS.
Luís XV não concluiu nada mais com Bento XIV. É verdade que no próprio decreto real, sobre a circular de Bento XIV, o Rei, motu proprio, declarava que a bula UNIGENITUS não era "regra de fé". Isso foi feito, no entanto, sem o consentimento do Papa, e contra sua intenção, como se pode concluir das negociações entre a Corte da França e a Corte Pontifícia. Não se pode, portanto, deduzir que o Papa pretendesse sustentar a terceira força, ou mesmo a heresia, uma vez que Appolis demonstra muito bem que a terceira força era cripto-jansenista.
E se alguém observasse que o Pontífice se calou após um comportamento tão desleal do monarca, é necessário lembrar que Bento XIV estava doente, e que provavelmente não foi informado da maneira pouco régia com que Luís XV havia agido. Também é possível que ele tenha julgado melhor não reavivar toda uma questão que ele só poderia ter conduzido muito dificilmente até seu termo, no estado extremo em que se encontrava.
FRACASSO DA CONCILIAÇÃO A TODO CUSTO
Essas observações demonstram quão nefastas são as consequências de uma política de "paz de pântano". A paz só é real quando é alimentada pela seiva da verdade. No caso contrário, é uma fina camada de verniz sob a qual a divisão das inteligências alimenta e reaviva convulsões por vezes vulcânicas. Para manter a paz na França, Fleury evitou o máximo possível o triunfo da verdade sobre o erro, por uma política de pseudo-equilíbrio entre uma e outra. Pouco mais de vinte anos depois, a situação era tal que não pareceu mais possível ao Rei e ao Papa aplicar pura e simplesmente os ensinamentos pontifícios. De fato, havia nascido o liberalismo em matéria de religião. Fleury havia alimentado no seio da França a víbora que deveria envenená-la em 1789.
A. C. M.
(1) "Parece que ele prossegue de bom grado a política de concessões que Bento XIII, ao que parece, havia antes suportado." (Histoire Générale de l'Eglise, Ancien Régime. Paris 1920, pp. 127-128).