A CRISE DA FILOSOFIA CRISTÃ NA FRANÇA DO SÉCULO XIX
Os primeiros sinais de renovação do paganismo antigo no final da Idade Média cristã manifestaram-se no campo do pensamento filosófico, e deve-se constatar que, ao término do Renascimento, no alvorecer do século XVII, a filosofia cristã está como que morta; de fato, se ainda se conserva parcialmente em certos meios religiosos, em algumas Ordens religiosas, ela é inexistente para a maioria dos pensadores: o exemplo do Cardeal de Bérulle, todo contente por encontrar um Descartes de quem esperava fazer "o filósofo cristão", e depois a rápida adesão ao cartesianismo dos Oratorianos, gradualmente imitados pela maioria dos religiosos ao longo do século XVIII, confirmam suficientemente que o pensamento racionalista vinha, na verdade, preencher um vazio real.
Esse vazio, e essa invasão pagã, explicam suficientemente os acontecimentos do século XVIII e suas consequências políticas, a Revolução de 1789 — e é necessário lembrar-se disso se quisermos entender o que se passou posteriormente, pois a situação no século XIX é diretamente tributária da do século XVIII em muitos domínios, especialmente em matéria de filosofia.
Após a tormenta revolucionária, a Igreja da França pôs-se corajosamente a reparar as ruínas, a reabrir as igrejas, a restaurar a liturgia e o catecismo. Novas ordens religiosas partiram para a conquista das populações abandonadas e paganizadas. Pôde-se assistir então a uma verdadeira renascença religiosa em todos os domínios por volta do meio do século. Apenas um permaneceu por muito tempo inculto, o da filosofia cristã. Um clero insuficiente, esmagado pela abundância de novas tarefas, não tinha lazer suficiente para se dedicar ao estudo.
Alguns pensadores isolados, leigos muitas vezes autodidatas, ergueram-se então para denunciar com eloquência e convicção os malfeitos da Revolução, seu caráter satânico e anticristão. Não tiveram dificuldade em conquistar o público culto de seu tempo, pois os horrores da Revolução ainda estavam em todas as memórias, e suas obras obtiveram imenso sucesso. Focar-nos-emos, em nossa exposição, nos mais célebres desses escritores: Joseph de Maistre, o Visconde de Bonald, o Padre de Lamennais e Blanc de Saint-Bonnet.
Eles constituíram, na história da filosofia cristã, um movimento totalmente original e que só teve um sucesso momentâneo, antes de desaparecer sem deixar traços visíveis posteriormente: o TRADICIONALISMO.
Como, então, Alain Besançon, em seu livro "A Confusão das Línguas", pôde qualificar essa escola tradicional de "primeira invasão gnosticizante"?
Ele precisa até que "em sua exaltação do Papado, da Inquisição, da autoridade espiritual sob todas as suas formas, não se imagina que eles façam passar uma mercadoria suspeita – e ela passa tanto melhor quanto seus portadores se colocam de antemão, em toda sinceridade, sob a proteção das autoridades que eles restauram; estas só se aperceberão disso com uma geração de atraso. (por volta de 1840).
Nas origens, a Humanidade recebeu com a língua não apenas um sistema de comunicação, mas um sistema de pensamento, uma doutrina. Ela forma a revelação primitiva, a TRADIÇÃO. Esta é transmitida pela Sociedade, guardiã querida por Deus da Verdade fundamental que a comunica a seus filhos e lhes revela o segredo pela língua que lhes ensina.
Era aparentar-se com os Iluministas que se vomitava por outro lado por terem preparado a Revolução, mas cujo tradicionalismo iniciático se retoma, desta vez em proveito da reação."
Eis um quadro que não corresponde em nada à ideia que sempre se fez desta escola em nossas famílias tradicionais. Veremos que este quadro é totalmente exato e, na exposição que se segue, provavelmente iremos revolucionar muitas ideias e juízos que pareciam solidamente estabelecidos.
Uma primeira dificuldade deve ser levantada inicialmente. Como homens muito piedosos e muito cristãos puderam fazer coexistir em seu espírito uma submissão profunda e sincera ao ensinamento da Igreja com ensinamentos que a Igreja sempre condenara? A primeira resposta é evidentemente a ignorância religiosa desses mestres do pensamento contrarrevolucionário. Eles foram autodidatas. Nunca haviam estudado a filosofia cristã. Seus mestres de pensamento foram esses escritores anticristãos do século anterior, ROUSSEAU, MONTESQUIEU, FENELON, "esse Renan do século XVIII"...
LACORDAIRE percebeu bem essa incoerência de um pensamento balançado entre verdades parciais e erros mal apreendidos.
"A maioria dos homens ignora seu
caminho,caminho, diz ele em sua "Carta sobreoaSanto-Santa-Sé"; eles acreditam que o universo termina no lugar onde estão cansados e que os princípios são inconsequentes como as pessoas ou não têm mais alcance do que elas têm.Mas,Mas, prossegue ele admiravelmente, embora essa porção cega e preguiçosa diminua a força do poder que lhe dá o impulso, ela o serve maravilhosamente, porque forma degraus onde param as almas e os instrumentos que não podiam ir mais longe. Se não existisse nenhuma nuance entre o erro e a verdade, poucos homens seriam fortes o suficiente para cair no erro. Eles precisam descer lentamente e familiarizar-se com as trevas. É por isso que, para julgar um poder, é preciso estabelecer seu princípio, deduzir das consequências realizadas aquelas que inevitavelmente sairão delas e, deixando de lado a multidão que nunca sabe o que faz, ver a ação de onde ela parte..."
Com efeito, podemos carregar, sem o saber, em nosso sistema de pensamento, erros parciais cujas consequências não apreendemos bem, nem mesmo as premissas que estão implicitamente contidas neles. Nós os corrigimos em nós mesmos pela experiência e pela reflexão. Mas os deixamos coexistir em nosso espírito e um dia a contradição, finalmente percebida, nos faz rejeitar para fora tudo o que não forma realmente corpo com nosso sistema geral de pensamento. Não há coesão possível entre o erro e a verdade. Um dos dois deve um dia eliminar o outro. Será, por exemplo, como veremos, o caso de LAMENNAIS lendo Joseph de MAISTRE.
O próprio Joseph de MAISTRE, que se quer católico completo, perfeitamente submisso ao ensinamento da Igreja, diz no entanto em 1816:
"Permaneci na Igreja Católica Romana, não sem ter adquirido, no convívio com os iluministas martinistas e no estudo de sua doutrina, uma infinidade de ideias das quais tirei
proveitoproveito.."
Seu biógrafo, Emile DERMENGHEN, explica-nos que o ensinamento dos iluministas desempenhou em seu espírito o papel de um fermento, enquanto a doutrina católica romana serviu de contrapeso, de regulador e de freio. Ele precisa ainda que essa amálgama de ideias contraditórias, que deveria ter provocado uma explosão, pôde se estabelecer porque MAISTRE tinha a preocupação de sustentá-las umas pelas outras. Mas sabemos que seus leitores irão, ao contrário, levar os princípios iluministas contidos em suas obras até suas consequências profundas e sofrer então as condenações romanas.
AS FONTES DESTA FILOSOFIA "TRADICIONAL"
A) O ENSINAMENTO DE DESCARTES
Já explicamos anteriormente o papel destrutivo da filosofia de DESCARTES (cf. "Da Gnose ao Ecumenismo", cap. III: Descartes e a fé católica). Por sua dúvida metódica e por seu "Cogito", Descartes destruiu nas almas toda possibilidade de alcançar qualquer verdade que seja.
É, de fato, absurdo pedir ao nosso espírito que faça o vácuo completo de todos os conhecimentos por um ato contrário à natureza, e depois pedir-lhe que reconstrua o mundo a partir do seu próprio "Eu" pensante. A ruptura com o real é profunda e definitiva; Descartes está assim na fonte do Subjetivismo e do Idealismo. Veremos ainda que ele veicula, apesar de si mesmo, todo o Panteísmo moderno. Sua filosofia desempenhou no século XIX o papel de uma lavagem cerebral.
Aliás, DESCARTES tinha plena consciência disso. Ele escreve em 1641: "Provei muito expressamente que Deus é criador de todas as coisas... São coisas às quais desejo que se preste muita atenção. Mas creio ter colocado muitas outras, e vos direi entre nós que estas seis Meditações contêm todos os fundamentos da minha Física. Mas não é preciso dizê-lo, por favor, pois aqueles que favorecem Aristóteles teriam mais dificuldade em aprová-los, e espero que aqueles que os lerem se acostumarão insensivelmente aos meus princípios e reconhecerão a verdade antes de perceberem que eles destroem os de Aristóteles." Como dizia LACORDAIRE, desce-se lentamente para o erro e é preciso habituar-se às trevas: é DESCARTES quem nos explica muito bem.
Nos Seminários dos séculos XVIII e XIX, ensinava-se o Cartesiano. O manual mais usado era a "Filosofia de Lyon", publicada em 1783 e 1784 pelo Oradoriano Joseph VALLA, a pedido de Monsenhor MONTAZET, arcebispo de Lyon, jansenista e cartesiano, que impôs ao autor que ensinasse o Inatismo sobre o problema da origem das ideias.
Quando o Padre EMERY restaurou a Companhia de São Sulpício, ele impôs o uso deste manual a todos os seminários da França. Este Padre Joseph VALLA havia visto suas "Instituições Litúrgicas" colocadas no Índex devido ao Jansenismo que nelas estava implicado. É verdade que três teólogos eminentes diziam, no prefácio das Instituições Filosóficas de Lyon, ter eliminado tudo o que pudesse inquietar a mais severa ortodoxia.
A geração de jovens padres, assustada com o espetáculo das ruínas acumuladas com o desaparecimento de toda verdade, precipitava-se então sobre todas as teorias que humilhavam a razão. A influência de ROUSSEAU permanecia profunda nos espíritos e a apologética do sentimento fez furor então.
Além de CHATEAUBRIAND, via-se o Padre MAURY, "oposto aos abusos da razão nas coisas da Fé", aplicar a dialética afetiva do Vigário Saboiano em favor da Religião natural, marcar a completa concordância da nossa natureza sensível com o Cristianismo. Estamos então em pleno pragmatismo religioso e em pleno Subjetivismo.
Veremos o ensino de DESCARTES na fonte de todos os erros da Escola "tradicionalista". O Padre NOIRET em Lyon o ensina e ele foi o mestre de BLANC DE SAINT BONNET. O Padre MARET o ensina na Sorbonne oficial. Ele impõe restrições, mas permanece cartesiano determinado. Um único padre, destinado à celebridade, mostrou-se absolutamente refratário a Descartes e aos escritores tradicionais, foi Dom GUERANGER, explicando em um artigo do "L'Univers" de 22 de novembro de 1857 ao Padre MARET que esta situação é insustentável para um filósofo e que o pensamento cristão deve se saciar noutras fontes.
B) O ILUMINISMO MAÇÔNICO
Se o ensino de DESCARTES foi negativo a ponto de provocar um vazio espiritual em todos os espíritos, outros se encarregarão com eficácia de preencher esse vazio, foram os franco-maçons. Era preciso primeiro esvaziar os espíritos da filosofia escolástica, isto é, cristã, para neles introduzir progressivamente e em dose homeopática a GNOSE luciferina, a das Lojas.
Joseph de MAISTRE, o primeiro mestre do pensamento contra-revolucionário, foi um franco-maçom convicto e apaixonado quase toda a sua vida e nunca renegou sua pertença à Seita. Esta frequência assídua às Lojas deixou em seu espírito uma impregnação gnóstica que transparece em todas as páginas de seus escritos.
Ele recebeu primeiro uma verdadeira iniciação de seu mestre WILLERMOZ, o fundador das lojas martinistas em Lyon. Este lhe envia suas Instruções em 9 de julho de 1779.
Para lê-las, diz-lhe, é preciso colocar-se "acima de todos os preconceitos adquiridos ou naturais" (cf. a dúvida metódica), ouvir a voz do seu coração "princípio da convicção interior num assunto onde o homem razoável não deve esperar nenhuma exterior" (cf. o desprezo pela razão, a recusa do real e das autoridades naturais), rejeitar todos os sistemas filosóficos que "deixam vazios que afligem e atormentam o homem" (cf. a rejeição das superstições religiosas), "não esperar nada dos homens, pois o fogo que deve nos iluminar, nos aquecer está em nós e um desejo puro, vivo e constante é o único fole que pode inflamá-lo e estendê-lo" (cf. a natureza divina e onisciente da nossa alma), saber também que "o homem assim preparado adquire por seu próprio trabalho o que permanece sua propriedade" (cf. o homem possui em si mesmo a fonte de seus conhecimentos). Eis um belo programa cartesiano de "lavagem cerebral".
Joseph DE MAISTRE leu avidamente os grandes autores maçônicos. Claude DE SAINT-MARTIN, o fundador das lojas martinistas, acabara de publicar em 1790: "O Homem de Desejo". O Homem é um desejo de Deus, explicava ele, que quer infiltrar nele uma seiva maravilhosa, e o homem deve ser um homem de desejo, por sua assiduidade em desenvolver em si suas propriedades divinas. Assim devem cair os últimos obstáculos entre suas duas naturezas semelhantes, entre os dois seres que aspiram à sua união, entre o Homem e Deus. Reconhecemos bem neste livro os temas gnósticos do Retorno à Unidade Primordial.
Thérèse de Maistre, irmã do escritor, achava esse profeta "ora sublime, ora herético, ora absurdo". Era a reação de uma alma reta e simples. Mas seu irmão lhe responde, esclarecendo que só concedia o primeiro ponto: "Esse ponto não sofre dificuldade alguma. Nego-te formalmente o segundo e comprometo-me a sustentar sua ortodoxia em todos os aspectos..."
Em suma, MAISTRE emitia em 1790 um certificado de ortodoxia para Claude de SAINT-MARTIN. Em 1797, copiando certas acusações do eudista LE FRANC contra nosso sublime profeta, acrescentava: "Nada é mais digno do riso inextinguível".
Nas lojas martinistas, MAISTRE ouvia falar (sabemos por ele mesmo) de um "Cristianismo real, ascendente" (cf. a subida através dos Éons em direção à Ogdoada dos Gnósticos), que era uma verdadeira iniciação, que havia sido "conhecido pelos cristãos primitivos" e que revelava e "podia revelar ainda grandes maravilhas e não somente desvendar os segredos da natureza, mas nos colocar em comunicação com os espíritos." (Oh! Oh!) e que talvez, em breve, unificaria as diversas comunhões sob um chefe que residiria em Jerusalém. (Oh! Oh! bis) (Obras, tomo VIII, páginas 327-328 e tomo V, página 241).
Eis algo que deveria agugar os ouvidos: Joseph de MAISTRE, ancestral de um ecumenismo presidido pelo futuro Messias judeu...
C) JOSEPH DE MAISTRE E ORÍGENES
Sua formação maçônica o levou a buscar, entre os antigos escritores eclesiásticos, aqueles que estavam impregnados de Gnose: Orígenes e Clemente de Alexandria. Em um grosso volume de Miscelâneas B, iniciado em Turim, em 25 de maio de 1797, encontramos 25 páginas de breves comentários sobre o "Tratado de Orígenes contra Celso".
Este grande homem, este "sublime teólogo", acreditava na Magia em geral, ou seja, na realidade de uma ciência que pode colocar o homem em comunicação com inteligências de uma ordem superior; ele admitia "uma Magia branca", de modo que essa ciência era boa ou má, dependendo do tipo de espíritos que se invocava". Maistre considera provado por Orígenes que "o Cristianismo, nos primeiros tempos, era uma verdadeira iniciação onde se desvelava uma verdadeira magia divina". Ele cita entre os objetos dessa iniciação, a alma dos astros e a divisão das nações.
Lemos ainda, nas Miscelâneas B (inédito, 2 de dezembro de 1797): "Santo Agostinho, na Cidade de Deus, compreendeu mal Orígenes, quando este diz que a causa da matéria não é a bondade de Deus apenas, mas que as almas, tendo pecado ao se afastar de seu criador, mereceram ser encerradas em diversos corpos como numa prisão, segundo a diversidade de seus crimes e que este é o mundo; que assim a causa da criação não foi para fazer coisas boas, mas para impedir coisas más. A opinião em questão, acrescenta DE MAISTRE, nada tem a ver com o Maniqueísmo. Pode-se observar que ela ainda hoje é a base de todas as iniciações modernas."
Eis um bom resumo dos ensinamentos gnósticos transmitidos por Orígenes. Santo Agostinho, que conhecera os Maniqueus de perto, não teve dificuldade em reencontrar suas teses em Orígenes e em denunciá-las. Joseph de MAISTRE, todo impregnado da verborragia maçônica, ao contrário, a elas adere intimamente e marca seu espanto diante da reação enérgica de Santo Agostinho (Cf. "Cidade de Deus", XI, 23-24).
Mas, há algo melhor. Encontra-se sob sua pena, anotados em suas miscelâneas, trechos completos do Evangelho Gnóstico de Tomé, aquele que foi reencontrado em Nag-Hammadi em 1947 e que permanecera desconhecido anteriormente:
"Quando dois não fizerem mais um e o que está fora for como o que está dentro, que o macho se confunda com a fêmea e que não haja nem mulher nem homem, quando tiverdes deposto a veste de vergonha e ignomínia (trata-se de nosso corpo), então virá o reino."
Esses textos, ele os encontrou em São Clemente de Alexandria, ainda um escritor eclesiástico impregnado de Gnose e que venerava em sua biblioteca pessoal o Evangelho de Tomé.
Será preciso ter muito cuidado, ao lermos "As Noites de São Petersburgo", com essa impregnação gnóstica e maçônica no pensamento maistriano.
AS GRANDES TESES DESTA FILOSOFIA "TRADICIONAL"
A) O DESPREZO PELA RAZÃO: De Lutero a Lamennais
Já conhecíamos as violentas diatribes de LUTERO contra a Razão humana. Fiel ao seu erro fundamental sobre a corrupção absoluta da natureza humana, fruto do pecado original, LUTERO ensinava "que a razão é inimiga da fé e a noiva do diabo". (Ele empregava uma palavra mais grosseira). Entre todos os perigos que cercam o homem na terra, acrescentava ele, o maior é a sua própria razão, quando se mete a falar de Deus e da alma. Tudo o que ela diz é vergonha e blasfêmia. "É mais fácil um asno falar do que a inteligência conhecer a Verdade."
Se a linguagem de nossos filósofos tradicionais é menos grosseira e menos violenta, nem por isso é menos verdade que percorre todos os seus escritos um desprezo pela razão que forma o ponto de partida sempre subjacente a todas as suas considerações metafísicas. Encontram-se fórmulas mais ou menos incisivas nos escritos de MAISTRE, de BONALD, de LAMENNAIS.
Páginas a fio, MAISTRE exalta o "sentimento interior" e a "intuição" como fonte da verdade e denuncia a razão raciocinante (como se pudesse existir uma razão não raciocinante).
LAMENNAIS tem fórmulas ainda mais contundentes: "O homem não pode, por suas forças, assegurar-se plenamente de nenhuma verdade, porque não pode, por suas próprias forças, dar-se nem conservar o ser"... Em outra passagem: "Quando a verdade se dá, o homem a recebe; é tudo o que pode; ainda é preciso que a receba de confiança e sem exigir que ela mostre seus títulos; pois nem mesmo está em condições de verificá-los."... Poderíamos continuar assim. Para quê? (Pensées diverses, página 488).
O Visconde de BONALD publica em 1802: "A Legislação Primitiva considerada nos últimos tempos pelas únicas luzes da razão". Neste livro, nosso visconde explica ao seu leitor que ele deve compreender "pelas únicas luzes de sua razão" que a razão pessoal é incapaz de alcançar qualquer verdade que seja, mas deve se submeter ao sentimento geral da Humanidade que é o único infalível.
Que ironia! Não se pode, sem rir, fazer comparecer a razão diante do tribunal de sua única razão pessoal para condená-la. E que incoerência! Se as luzes apenas da razão são capazes de me demonstrar que a razão é ineficaz, estou condenado ao ceticismo mais absoluto e mais decepcionante!!!
No fim da vida, contudo, Joseph de MAISTRE sentiu medo e escreveu esta carta em seu leito de agonia ao Padre de LAMENNAIS:
"Gostaria, Senhor Padre, de lhe dizer uma palavra essencial. O senhor quer agarrar a razão em seu trono e forçá-la a fazer uma bela reverência; mas com que mão agarraremos essa insolente? Com a de Aristóteles, sem dúvida, não conheço outra que possamos empregar. Eis-nos, pois, em Roma reduzidos ao sistema romano e a esses mesmos argumentos que já não lhe parecem nada. As demonstrações de Euclides são tão conclusivas hoje quanto o eram em seu tempo. Mas se Abadie, Pascal, Ditton, Sherlok, Bergier e companhia podem fazer hoje incrédulos, o que devemos concluir? Tome cuidado, Senhor Padre, vamos devagar, tenho medo e é tudo o que posso dizer."
Este ato supremo do pensamento religioso de MAISTRE foi um impulso de ansiedade a respeito do tradicionalismo de LAMENNAIS que, treze anos depois, Roma condenaria.
É Auguste COMTE quem vai colocar o dedo na ferida nesta página do seu "Curso de Filosofia Positiva":
"Que se analisem as verdadeiras tentações tão frequentemente renovadas ao longo de dois séculos por tantas inteligências distintas e, por vezes, superiores, para subordinar, segundo a fórmula teológica, a razão à fé, será fácil reconhecer sua constituição radicalmente contraditória, que estabelece a própria razão como juíza suprema de tal submissão, cuja intensidade e duração dependem unicamente dessas decisões verbais, raramente severas demais.
O mais eminente pensador da atual escola católica, o ilustre de MAISTRE, prestou ele mesmo um testemunho tão brilhante quanto involuntário a essa inevitável necessidade da filosofia, quando, renunciando a todo aparato teológico, esforça-se, em sua obra principal, por fundamentar o restabelecimento da supremacia papal em meros raciocínios históricos e políticos, aliás a certos respeitos admiráveis, em vez de limitar-se a comandá-lo diretamente pelo direito divino, único modo plenamente em harmonia com a natureza de uma tal doutrina e que um espírito desses, em outra época, não teria hesitado, sem dúvida, em seguir exclusivamente, se o estado geral da inteligência não o impedisse, mesmo nele, de exercer total preponderância."
É bem evidente: não se pode apelar da razão contra ela mesma sem cair no absurdo. Mas se Augusto COMTE tivesse conhecido a filosofia escolástica, saberia que jamais a Igreja propôs dogma algum sem produzir, ao mesmo tempo, seus títulos de credibilidade ao juízo da razão.
Mas então, de onde vem esse desprezo pela razão em nossos filósofos cristãos? Paradoxalmente, da filosofia de DESCARTES.
Por sua dúvida metódica, DESCARTES rejeitou para fora do nosso espírito todos os nossos conhecimentos objetivos. Ele cortou nosso espírito do Real. Declarou-o incapaz de atingir o ser mesmo das coisas conhecidas. Por seu "cogito", reconstruiu o pensamento a partir do Eu pensante. Ensinou as ideias inatas na esteira de Platão.
Se as ideias estão em mim como obra mesma do meu pensamento, se não são em mim a forma mesma das coisas conhecidas, minha razão não pode mais operar sobre o mundo real. Encontra-se condenada a operar sobre formas construídas pelo meu pensamento, no interior dele mesmo. De repente, eis-me tornado cego. Meu pensamento nada pode me dizer sobre o mundo exterior.
Onde encontrar então a certeza? Se a verdade não é o acordo do meu pensamento com as coisas, minha razão só pode mais valsar com os conceitos. Ela funciona a vazio. E posso então pensar qualquer coisa, já que não tenho mais esse contato com as coisas que deveriam conter minhas construções racionais. Eis a Razão divinizada, mas esvaziada. Posso pensar um mundo construído por mim mesmo.
Um dia quero criar esse mundo do meu pensamento. Como o mundo real se apresenta diante de mim com suas coerções e resistências, precisarei destruí-lo: será a REVOLUÇÃO, esse ódio feroz e devastador contra um mundo criado pelo Outro, que não responde ao meu desejo de felicidade e perfeição tais como os concebo em meu espírito. Para destruir, será preciso erguer essa RAZÃO-DEUSA sobre um Altar no lugar de DEUS e adorá-la.
Compreendemos então por que nossos filósofos cristãos sentiram repulsa por essa RAZÃO. Foi uma reação de bom senso, mas, ai de nós! sem prudência. Ao denunciar essa razão divinizada, eles atacaram a verdadeira razão, aquela que Deus nos deu para conhecer, julgar e amar. Eles rebaixaram o Homem; declararam-no incapaz de alcançar a Verdade com certeza. Ao fazer isso, caíram em um erro fundamental que poderia ter sido evitado graças a algumas distinções conceituais necessárias.
A teologia católica sempre ensinou que nossa razão tem o poder absoluto de conhecer por suas próprias luzes todas as verdades religiosas e morais de ordem natural. Infelizmente! podemos nos enganar e mergulhar no erro. A história da humanidade nos ensina isso amplamente. Como reduzir essa antinomia? Simplesmente distinguindo a faculdade de seu exercício.
Deus não quis enganar os homens. O próprio DESCARTES, num acesso todo provisório de franqueza, não escreveu: "Pois Deus, não podendo ser enganador, não podendo também querer que suas criaturas se enganem, não pôde dar ao homem a razão e os sentidos como meios de erro."
Sem dúvida, Deus nos dotou de inteligência e razão para conhecer e compreender o mundo criado que nos rodeia. Quando usamos esses meios em sua ordem natural e sua finalidade, não podemos nos enganar. Mas podemos não usar nossa razão ou até mesmo abusar dela. Então caímos no erro: é o privilégio da nossa liberdade. Podemos recusar-nos a pensar, porque a reflexão, a meditação são atos difíceis, que exigem um esforço. Preferimos sonhar, dormir ou gozar. O bêbado inveterado possui uma razão natural. Infelizmente! ele não a utiliza! O ambicioso, o vaidoso usam sua razão para justificar seus excessos! Eles a desviam de sua finalidade. Como vocês querem que eles não se enganem?
O Papa Pio IX, em sua encíclica de 9 de novembro de 1846, condenou as doutrinas dos "Anais de filosofia cristã" nas quais Agostinho BONNETTY ensinava que "o homem, em qualquer estado em que se encontre colocado, não possui na realidade senão UM princípio de conhecimento para as verdades da religião natural, tais como a existência de Deus, a existência da lei natural, a imortalidade da alma e a existência de uma outra vida. Esse princípio do conhecimento não é outro senão a revelação divina manifestada ao homem pela Tradição. Privada do auxílio dessa tradição, a razão, inteiramente deixada a si mesma, é absolutamente incapaz de descobrir essas verdades". Registre-se.
Coloca-se aqui o problema da Fé. Quando Deus propõe à nossa inteligência uma verdade de ordem sobrenatural que ultrapassa infinitamente as capacidades compreensivas do nosso espírito, Ele não pretende apelar para uma faculdade diferente da razão, à qual justaporia uma espécie de razão divina alojada em nossa alma. Também não pretende pedir que nossa razão se retire para substituí-la por outro modo de conhecimento que não seria mais humano, mas divino. Absolutamente não. Ele pede que nossa razão se "abra" a uma verdade mais perfeita, mais elevada. Ele lhe pede um esforço de perfeição e, como essa ordem sobrenatural ultrapassa as faculdades nativas de nossa razão, é necessário acrescentar uma graça apropriada que não destrói a razão, mas a completa e a aperfeiçoa.
Um dos raros pensadores católicos a manter, nessa época, a verdadeira doutrina da Igreja sem cair no Tradicionalismo nem no Liberalismo doutrinal que então grassavam, DOM GUÉRANGER expôs muito bem a questão em um notável artigo de "L'Univers" de 3 de junho de 1858.
Ele começa rejeitando o Tradicionalismo, sistema rebento, diz ele, do Baianismo, felizmente em vias de desaparecer. Em seguida, explica o uso legítimo da razão que se prepara para a Fé, da razão que se entrega à Fé, da razão que se exerce sob o controle da Fé. Mostra que o ato de Fé é admiravelmente razoável e plenamente voluntário, que é a coroa da Razão, como é sua prova, que germina sob a graça na alma do homem e nunca dispensa "essa gloriosa humildade que nos inclina diante do pensamento de Deus". Como poderia Deus, então, fazer germinar a Fé numa alma privada de razão?
B) O INATISMO DAS IDEIAS: De PLATÃO e DESCARTES a Joseph de MAISTRE
Se nossa inteligência dotada de razão não é capaz de produzir em nós as ideias extraídas das coisas que nos rodeiam, de onde podem então provir nossas ideias? Para os filósofos platônicos, elas já estavam em nós antes do nosso nascimento. É o Inatismo que supõe, aliás, a pré-existência das almas antes de sua queda nos corpos.
Joseph de MAISTRE encontrava em seu tempo a Filosofia do Sensualismo que ensinava que as ideias eram o produto das sensações; daí a tirá-las da matéria, havia apenas um passo, rapidamente ultrapassado. Foi o caso de CONDILLAC e de LOCKE.
Reagindo contra essa concepção, fonte do materialismo, e citando esta fórmula de Aristóteles: "Que o homem nada pode aprender senão em virtude do que já sabe", MAISTRE tira daí a conclusão de que isso supõe necessariamente algo semelhante à teoria das Ideias inatas.
Ele cita até mesmo várias vezes São Tomás de Aquino sem compreendê-lo. Porque este último afirma que "Nada pode entrar no espírito senão por intermédio dos sentidos" (Nihil est in intellectu quod prius non fuerit sub sensu), porque afirma ainda que a inteligência, em nosso estado de degradação, nada compreende sem imagens" (Intellectus noster secundum statum praesentem nihil intelligit sine phantasmata), MAISTRE conclui "que não pode haver nenhuma relação, nenhuma analogia, nenhuma equação entre a coisa compreendida e a operação que compreende" e "que os mais nobres e mais virtuosos gênios do Universo concordaram em rejeitar a origem sensível das ideias" (Soirées de Saint-Pétersbourg).
Ora, São Tomás não diz que as ideias são produzidas pelos sentidos, mas que elas precisam dos sentidos para se fixar no espírito.
Em outra passagem, Maistre continua: "Observe bem em todos os livros filosóficos do século XVIII. Não se dizia francamente, não há Deus. Mas dizia-se: Deus não está aí. Ele não está em suas ideias, elas vêm dos sentidos, ele não está em seus pensamentos que são apenas sensações transformadas, etc..."
Claro, ele tem razão ao negar que as sensações possam produzir as ideias; mas erra ao concluir disso que nossas ideias não vêm das coisas percebidas pelos sentidos. O cartesianismo implícito que impregna seu espírito, após torná-lo inapto a perceber o que há de inteligível nas coisas, o obriga a buscar fora do Real conhecido a fonte das ideias. O que lhe resta? Uma revelação divina ou ainda uma atividade propriamente divina operando em nosso espírito.
Ele continua: "Toda ideia que não provém nem do comércio do espírito com os objetos exteriores, nem do trabalho do espírito sobre si mesmo, pertence à substância do espírito. Há, portanto, ideias inatas, ou anteriores a toda experiência. Não vejo consequência mais inevitável; mas isso não deve surpreender. Todos os escritores que se exercitaram contra as ideias inatas se viram conduzidos, pela só força da verdade, a fazer confissões mais ou menos favoráveis a esse sistema" (Ainda em "As soirées").
Esse inatismo foi ensinado por PLATÃO, também por Santo AGOSTINHO, mas este as rejeitou em suas "Retratações" (Livro I, cap. 2). Chegando aos 75 anos, ele disse: "Justamente, lamento ter feito tão grandes elogios seja de Platão, seja dos platônicos. Eram homens ímpios que não deveriam ser tão louvados por causa dos grandes erros em que caíram (quorum contra errores magnos defendenda sit christiana doctrina)."
Seguindo nisso a escola cartesiana, de MAISTRE, e BONALD na sua esteira, negam que o homem tenha a faculdade própria de formar as ideias. Eles supõem que é pela luz divina que vemos em nós as ideias.
Suposição absurda e desrespeitosa para com Deus criador! É extraindo das imagens recebidas das coisas sua forma inteligível que o espírito por sua atividade própria pode captar o real e apreender a ideia que a coisa realiza. Para compreender isso, é preciso saber que os seres que nos enviam sua forma já são a realização de uma ideia criadora e possuem em si esse caráter imaterial já pré-adaptado à natureza imaterial de nossa alma.
Mas se, como afirmam os inatistas, é Deus que, por sua luz infinita, grava diretamente essas ideias no espírito de todos os homens, na verdade não há ideias, mas um único agente, operando com a ajuda de um único instrumento, o entendimento divino, distribuindo diretamente as ideias em cada espírito.
Se o espírito humano não tem faculdade nem operação que lhe seja própria, é porque não tem ser próprio. Nosso espírito seria apenas uma parcela do espírito divino. Deus seria tudo em todos os espíritos. Estamos em pleno Panteísmo!
O "Eu universal" de FICHTE, o Absoluto de SCHELLING, a "Substância essencial, a Razão Geral" da Humanidade não são senão o espírito de Deus englobando os espíritos de todos os homens. É a consequência necessária e rigorosa do ensinamento de PLATÃO e DESCARTES.
Infelizmente! Joseph de MAISTRE e BONALD o retomaram para si. Há em sua obra um Panteísmo implícito.
C) DA REVELAÇÃO PRIMITIVA À DIVINIZAÇÃO DO POVO: de MAISTRE e BONALD a LAMENNAIS.
Foi o Visconde de BONALD quem apresentou a exposição mais acabada dessa revelação primitiva. Sua formação intelectual é inteiramente autodidata. Ele se ligou ao Padre MANDAR, um professor e amigo de J. J. ROUSSEAU. Leu Claude de SAINT MARTIN, o "filósofo desconhecido", fundador das lojas maçônicas ditas martinistas. Dele tomou emprestado todo o essencial de suas teses sobre os números, a estrutura da alma, sobre sua teoria da linguagem. TODA sua doutrina é maçônica e gnóstica, como a de MAISTRE. Durante o período de emigração, leu PLATÃO, DESCARTES e LEIBNITZ. Refere-se frequentemente a "O Espírito das Leis" de MONTESQUIEU e ao "Contrato Social" de ROUSSEAU, os grandes teóricos revolucionários. Como, com uma formação intelectual dessas, pôde alguém torná-lo um mestre da Contrarrevolução?
A ideia central de seu sistema é que "o homem pensa sua palavra antes de falar seu pensamento". A linguagem é, portanto, o instrumento necessário de toda operação intelectual e o meio de toda existência moral" (Investigações Filosóficas). Incapaz de inventar a linguagem, o homem teve necessariamente que recebê-la de Deus e, com ela, as principais verdades morais e religiosas. É a "Revelação primitiva" que nos faz conhecer essas verdades que a linguagem transmite de geração em geração, e é na infalibilidade de Deus revelador que se encontra a única garantia que estabelece sua certeza.
O Verbo cria e gera o pensamento que significa. As fórmulas de BONALD, nos diz Albert GARREAU, em seu livro "As vozes no deserto, Profetas do século XIX", assumem uma aparência inquietante.
No primeiro tempo da humanidade, diz nosso Visconde, quando as leis da natureza não eram conhecidas, o pensamento as ultrapassava e, de certo modo, remontava ao próprio Deus, autor de todas essas leis. Essa presença geral da divindade, que é um dogma para uma razão esclarecida, era para sua razão nascente uma presença local.
Deus, portanto, habitava em nossa alma e se substituía à nossa razão para ensinar-lhe as verdades de ordem natural. Adão era apenas um aborto de homem, dotado de uma razão nascente (? ?), sem dúvida, um macaco em vias de hominização à moda de Teilhard de Chardin.
"O gênero humano, isto é, as sociedades de todos os tempos e de todos os lugares, teve o sentimento da existência da divindade. Logo, a divindade existe, pois o sentimento geral do gênero humano é infalível". (Pareceria estar lendo J. J. ROUSSEAU) e: "Os homens nomeiam Deus, logo ele é; pois se não fosse, não seria nomeado." Vocês veem bem que para BONALD são as palavras que criam as coisas! Reconhecemos aí a prova ontológica, copiada diretamente de DESCARTES.
Esse sistema é extremamente grave, é de origem ocultista, inteiramente emprestado de Claude de SAINT MARTIN. Ele contém em si implicitamente toda a Gnose primitiva. A Cabala nos explica que a palavra é criadora dos seres. A cada letra do alfabeto, a Cabala faz corresponder um número místico. Portanto, as letras do Hebraico são sagradas e de origem divina. O Verbo é um ser intermediário entre o criador e a criação. Ele carrega em si mesmo o próprio ser das coisas que designa. Não é, portanto, um simples sinal convencional, inventado pelo homem para transmitir seu pensamento. É um verdadeiro retorno ao Nominalismo. É a palavra que traz ao pensamento seus objetos de conhecimento. Alcançamos pelo pensamento a linguagem e não os objetos que ela designa.
Sistema duplamente errôneo, porque supõe na fonte de nossos pensamentos uma Revelação. É, portanto, Deus que pensa em nós. A ordem natural e a ordem sobrenatural são confundidas. Todas as tradições de todos os países são os restos de uma Grande Revelação primitiva; elas são, portanto, sagradas. E os povos detêm em si mesmos a infalibilidade divina.
A tais absurdos, é preciso responder com algumas perguntas de bom senso. Se nosso pensamento é o produto de uma linguagem divina, como se podem explicar os erros? Poderia Deus enganar-se em sua Revelação? Como poderia o homem inventar multidões de Deuses? Dito de outra forma, o Politeísmo seria impossível.
Melhor ainda, o primeiro conhecimento dos homens é um ato de Fé. A filosofia não é, portanto, senão o desenvolvimento desse ato de Fé primitivo. Ela é, portanto, uma Teologia. Eis que isso arruína tanto a Fé quanto a Teologia.
Acreditar em Deus revelador da linguagem e criador do pensamento humano, sem antes ter apresentado uma prova de sua existência, é um ato desarrazoado, é uma demissão de nossa inteligência. O homem condenado a um ato de Fé, antes mesmo de ter podido fazer uso de sua razão (já que ela é dita nascente), que loucura! Deus, ao nos dar uma alma espiritual dotada de inteligência e ao nos tornar incapazes de usá-la, teria zombado de nós!
Na realidade, a linguagem não é a ferramenta do pensamento, mas o instrumento que o homem forjou para transmitir seu pensamento. Não há relação necessária entre as palavras e as coisas que elas significam: as palavras são símbolos, isto é, signos convencionais. De uma língua para outra, a palavra pode mudar, mas a ideia que ela representa permanece a mesma, porque está em relação necessária com o objeto, visto que dela é a forma inteligível. Pela palavra, nosso espírito atinge o próprio objeto. O Nominalismo é impensável.
Encontram-se n'"As Noites de São Petersburgo", de Joseph de MAISTRE, uma multidão de reflexões e observações que supoem tanto a origem divina da linguagem quanto a infalibilidade divina da Humanidade. Sob sua pena, encontra-se "a crença geral, a razão geral, o instinto natural e o consentimento universal das nações". É este o critério que o guia através de todas as suas especulações.
MAISTRE personifica os povos e os Impérios. Isso poderia ser um artifício literário, um jogo do espírito. Mas nele é uma mania ver Deus agindo através dos povos e determinando o curso dos Impérios:
"A existência e o curso dos governos não podem ser explicados por meios humanos. Há em cada império um espírito retor que o anima, assim como a alma anima o corpo e que provoca a morte quando se retira" (3º diálogo).
MAISTRE afirma que um povo, uma cidade, uma família, são seres morais e únicos, tendo cada um "suas boas e más qualidades, capazes de merecer ou desmerecer e passíveis de penas e recompensas" (10º diálogo). O gênero humano inteiro é também um imenso ser coletivo, suscetível de uma culpabilidade coletiva.
Encontram-se tais elucubrações no "Timeu" de PLATÃO, comparando o Universo a um grande animal, do qual o homem é uma célula, a terra um grande corpo animado por correntes magnéticas, assim como um organismo é dotado de um sistema nervoso, etc... etc...
O Padre de LAMENNAIS não fez mais do que levar as ideias que acabamos de expor às suas últimas consequências. Melhor ainda, ele explicitou seu conteúdo real e os admiradores de MAISTRE e de BONALD vão se alvoroçar. Por fim, a Igreja o condenará.
Quando o segundo volume de "O Ensaio sobre a Indiferença em matéria de Religião" foi publicado em 1820, algumas mentes mais ponderadas começaram a manifestar reticências.
O critério do verdadeiro não é a evidência da proposição que o enuncia, mas a autoridade da razão geral que o afirma:
"O que todos os homens creem ser verdadeiro é verdadeiro". É preciso rejeitar a razão do homem separada da razão humana e da razão de Deus, que se expressa através da razão humana geral ligada ao uso da palavra. O conhecimento não é inato no homem, nem adquirido, mas inato na sociedade. É preciso rejeitar, extirpar da filosofia cristã a ideia de que em cada um a razão é dotada do poder de alcançar o verdadeiro.
De modo que, para Lamennais, sob as religiões "ditas primitivas" e os cultos da Antiguidade, sob a alteração dos paganismos, reconhecem-se crenças universais, idênticas às ideias essenciais do Cristianismo. A verdadeira religião encontra-se em todos os povos. O cristianismo não é senão a explicação mais completa.
MAINE DE BIRAN reagiu imediatamente com muito bom senso: "Eis um outro mistério bem maior. A sede das verdades em questão é a Sociedade que, dotada de uma espécie de entendimento coletivo, diferente daquele dos indivíduos, foi imbuída desde a origem pelo dom da linguagem e em virtude de uma influência miraculosa exercida sobre a massa sozinha, independentemente das partes. O homem não é nada, apenas a Sociedade existe, é a alma do mundo moral. Só ela permanece, enquanto as pessoas individuais não passam de fenômenos... Entenda quem puder essa Metafísica social !!!..."
DOM GUERANGER estava então no seminário de Le Mans. Seu professor de filosofia, o Senhor Arcanger, e seu repetidor, o Senhor Nourry, eram menaisianos. Ele fez como eles, tomou partido pelo senso comum. "O senso comum, dizia ele mais tarde, nós realmente não o tínhamos, mas acredito que nossos colegas cartesianos eram ainda mais absurdos do que nós." E acrescentava: "Aliás, só compreendi essas questões, como muitas outras, depois de sair do Seminário."
É uma das glórias de DOM GUERANGER ter-se sempre levantado contra um divórcio tão prejudicial à razão e à Fé e ter sido o precursor de um movimento filosófico que, para se sustentar e defender a razão contra o Agnosticismo ou o Tradicionalismo, só precisava retornar às suas origens escolásticas e a São Tomás de Aquino. Já em 1862, o Padre RAMIERE, S. J., publicava: "Da Unidade do ensino da Filosofia no seio das escolas católicas", primeira tentativa de restauração do Tomismo na Igreja da França.
LAMENNAIS tenta se defender de ter inovado e tem razão. Todo o seu ensino provém de BONALD, "esse carvalho vigoroso, diz ele, que vai buscar sua seiva através dos rochedos primitivos até nas entranhas da terra."
"Este pobre livro, escreve ele a Saint-Brieux, em 3 de agosto de 1820, foi pouco compreendido até agora, sobretudo no clero de Paris. Fazem de mim um cético, porque eu arruinei o Ceticismo e dei, ao que me parece ao menos, uma base verdadeira à razão. Pessoas que, no entanto, têm espírito escreveram-me sobre isso coisas estranhas... O Senhor de BONALD pensa como eu e sustentará minha doutrina. Creio sinceramente que ela é de extrema importância para a religião, e é isso que me tranquiliza quanto à minha sorte."
"Quanto às minhas ideias, escreve ele ainda em 10 de fevereiro de 1837, à Senhora Cottu, elas se desenvolveram, não mudaram. O broto tornou-se folha, eis tudo... Minhas ideias, sempre as mesmas no fundo, se retificaram, se ampliaram, se desenvolveram, eis tudo. Só se está unido a Deus na medida em que se está unido à Humanidade, sem distinção de lugares, de tempos, de opinião, de crença..."
É maravilhoso! É fundando seu pensamento no pensamento coletivo da Humanidade que se pode alcançar a Verdade. Marx e Hegel não disseram outra coisa. A Humanidade divinizada, o Mundo detentor da Verdade infalível! Todas as religiões não passando de expressões variadas de uma mesma religião universal! Não estamos aqui em plena Gnose maçônica?
E não acabou. Vamos ver que essa Gnose é inteiramente ensinada em "As Noites de São Petersburgo", pelo próprio Joseph de MAISTRE.
D) DO PAGANISMO AO CRISTIANISMO E À SUPER IGREJA: De Joseph de MAISTRE a NEWMANN e PUSEY
Joseph de MAISTRE, refugiado em 1792 em Lausanne, na Suíça, leu uma obra de DUTOIT-MAMBRINI, discípulo de Claude de SAINT-MARTIN, publicada naquele mesmo ano nessa cidade sob o pseudônimo de KELEPH-BEN-NATHAN e intitulada: "Filosofia divina aplicada às luzes naturais, mágica, astral, sobrenatural, celeste ou divina, ou Imutáveis verdades que Deus revelou de si mesmo em suas obras, no triplo espelho analógico do Universal, do Homem e da Revelação escrita."
É particularmente em seus "Esclarecimentos sobre os Sacrifícios" que vamos encontrar o pensamento de Joseph de MAISTRE sobre a Religião Universal. Ele cita um livro publicado em 1730: "Conferência da Fábula com a Escritura Sagrada", onde se vê que as grandes Fábulas, os Cultos e os mistérios do Paganismo não passam de cópias alteradas da História e das tradições dos Hebreus, pelo Sr. de LAVAUR.
MAISTRE tira desta conclusão que "as tradições antigas são todas verdadeiras, que o Paganismo inteiro não passa de um sistema de verdades corrompidas e deslocadas, que basta limpá-las por assim dizer e recolocá-las em seu lugar para vê-las brilhar com todos os seus raios" (Soirées, II° encontro).
Ele especifica que os escritos de Plutarco, de Xenofonte, de Platão, "esse prefácio humano do Evangelho" e os ensinamentos de Sócrates estão cheios de ideias com uma semelhança impressionante com certos ensinamentos judeus e cristãos. Ele compara, sem hesitar, os deuses do paganismo aos anjos e santos do Cristianismo.
Ele escreve, na conclusão de sua obra "Do Papa", uma Invocação ao Panteão de Roma eterna: "Todos os santos no lugar de todos os deuses! É no Panteão que o Paganismo é retificado e levado de volta ao sistema primitivo do qual era apenas uma corrupção visível. O nome de Deus, sem dúvida, é exclusivo e incomunicável; no entanto, há muitos deuses na terra e no céu. Há inteligências, naturezas melhores, homens divinizados. Os deuses do Cristianismo são os Santos..." MAISTRE encontrou a inspiração deste trecho numa passagem do "piedoso THEYER, na relação que ele deu de sua conversão." (Religion E, 30 de dezembro de 1805 e 11 de janeiro de 1806).
Que diferença, aliás, há entre a Apoteose antiga e a canonização? Esculápio não era para Xenofonte o que chamamos de Santo... "Não há dúvida, especifica ele, 1°) que não se pôde passar subitamente do culto de Jeová ao culto dos espíritos, 2°) que os deuses das nações eram, aos olhos dos antigos adoradores do Verdadeiro Deus, verdadeiros deuses, 3°) mas que esses verdadeiros deuses eram e podiam ser maus deuses" (Mélange B, novembro de 1807).
Ele acrescenta em seus "Esclarecimentos sobre os Sacrifícios": "Uma crença justa em sua raiz, mas corrompida por essa força que havia corrompido tudo; havia gerado, apesar da razão, apesar da piedade natural, o uso geral dos sacrifícios de animais ou plantas e até mesmo o horrível abuso dos sacrifícios humanos. Foi uma depravação do Dogma inato. Pois o homem não adota naturalmente o erro. É a religião cristã que explicou e justificou o instinto religioso da humanidade, que desvencilhou esse sentimento universal dos erros e crimes que o desonravam. "Todos os dogmas e todos os usos da Igreja católica têm sua raiz "na profundidade da natureza humana e, consequentemente, em alguma opinião universal, comum em seu princípio a todos os povos de todos os tempos." (Do Papa).
Há, portanto, uma continuidade entre paganismo e Cristianismo. Poder-se-ia dizer que o Cristianismo seria o desabrochar do Paganismo. É bem o pensamento de Joseph de Maistre que aparece subjacente a todos os Diálogos das Soirées.
Mas, então, façamo-nos algumas perguntas. Como é que uma Humanidade, depositária de uma Revelação divina, proprietária de uma Verdade infalível, recebida diretamente de Deus, poderia ter "alterado" esse depósito divino? "corrompê-lo", "deslocá-lo"? E qual é essa força que poderia ter deteriorado uma crença justa até em sua raiz? Se os falsos deuses do paganismo são apenas Santos ou Anjos, como explicar a fonte dessa corrupção. Há, diz-nos ele, maus deuses! Por quê? E se um ser de caráter divino não carrega necessariamente em si a perfeição, o que significa a ideia de Divindade? E se a Perfeição pode se corromper, onde se deve colocar o Critério da Verdade? Já mostramos a incoerência fundamental dos Gnósticos no problema do Mal (cf. "Da Gnose ao Ecumenismo", Capítulo 1). Joseph de MAISTRE não escapa a essa contradição.
Segunda questão. Se o Cristianismo é apenas o Paganismo, "limpo", "purificado", aperfeiçoado, ele é apenas uma forma transitória da evolução na Religião Universal que poderá atingir mais tarde uma forma evoluída ainda mais perfeita.
Emile FAGUET já havia notado isso em "Políticos e moralistas", (1° série, 1891). Sua concepção da continuidade das religiões leva necessariamente a um Cristianismo "racionalizado", que, deixando cair seu dogma e seus mistérios, tornar-se-á a Religião da Humanidade. E isso é bem verdade.
MAISTRE especifica nas Soirées (II° encontro) "que à revelação limitada do Sinai, à de Cristo, mais ampla, mas ainda "restrita pelas circunstâncias de tempo e de lugar", sucederá uma nova manifestação da divindade: "Contemple este lugubre espetáculo e junte a ele a expectativa dos Homens escolhidos e verá se os Iluminados estão errados em vislumbrar como mais ou menos próxima uma terceira explosão do poder divino em favor do gênero humano, uma nova efusão do Espírito."
Joseph de MAISTRE: precursor dos movimentos carismáticos? Com certeza! Pois imbuído de Iluminismo maçônico...
E todo esse jogo intelectual não foi inocente. Teve consequências desastrosas cujos últimos efeitos sofremos hoje.
A influência de Joseph de MAISTRE, de BONALD e de LAMENNAIS foi muito grande sobre todos os espíritos cristãos durante o século XIX.
OZANAM buscava através dos séculos a herança comum da Humanidade. Por volta de 1830, um grupo de estudantes católicos acreditava com ele em uma palingenesia ou renovação do mundo pelo Catolicismo, divino complemento da religião primitiva cujos traços se encontram em todos os povos e que satisfaz as necessidades do indivíduo e da Sociedade (cf. Monsenhor BAUDRILLART: "Frederic Ozanam, 1912").
Goerres, Schlegel, Brentano, o redator das Visões de Ana Catarina Emmerich, Arnim, desenvolveram essas ideias na Alemanha.
NEWMAN escrevia em 1838, na Inglaterra: "A verdadeira religião é o cume e a perfeição das falsas. Ela combina tudo o que há de bom e verdadeiro em cada outra separadamente. A Fé católica é em grande parte a combinação de verdades separadas que os hereges dividiram entre si, daí o seu erro."
Eis um monstruoso ecumenismo: fazer surgir a verdadeira religião das falsas, combinar verdades parciais, isto é, misturadas com erros; considerar os hereges, não como tendo rejeitado verdades já conhecidas e professadas, mas como tendo conservado verdades parciais. Como dizíamos, o Cristianismo é bem o desabrochar do Paganismo, em seu espírito. Eles deveriam surgir por uma evolução natural.
Mas então pergunta-se por que Cristo veio sofrer a Paixão. Se o Paganismo continha em si mesmo implicitamente todo o Cristianismo, a Encarnação e a Redenção não têm mais nenhuma razão de ser.
Augusto COMTE percebeu bem a influência de Joseph de MAISTRE sobre o movimento de Oxford. Numa carta a Stuart Mill, Paris, 5 de abril de 1842, ele vê no Puseyismo um "estranho advento do Catolicismo anglicano e uma emanação espontânea de nossa escola retrógrada desde de Maistre." Estamos aqui, segundo a expressão de Julien BENDA, "na turva perversidade de Belphegor."
UMA REAÇÃO PSEUDO-CRISTÃ: O ONTOLOGISMO OU A VISÃO EM DEUS
A) De SANTO AGOSTINHO a BLANC DE SAINT-BONNET
Outros filósofos cristãos, impressionados pelas incoerências do Tradicionalismo, buscaram um acordo entre o pensamento de Descartes e a doutrina católica.
Dissemos que DESCARTES, por sua doutrina do "Cogito", acabava por fazer surgir o mundo inteiro do "Eu pensante". Era em germe todo o erro do Idealismo e do Panteísmo. Ao "penso, logo existo", esses pensadores cristãos quiseram substituir a ideia de infinito, isto é, de Deus que seria a única base de todo conhecimento intelectual. É o que se chamou de ONTOLOGISMO.
BLANC DE SAINT-BONNET recebeu em Lyon toda a sua formação filosófica do Padre NOIROT, cujas "Lições de Filosofia" foram publicadas por um aluno, TISSANDIER, ao qual ele havia comunicado seus cadernos de curso.
Para este Padre NOIROT, a Filosofia é a ciência das Ideias: "O objeto da Filosofia é, portanto, o próprio pensamento e tudo o que constitui de perto ou de longe o pensamento. São todas as ideias, todas as noções de que se compõe, em uma época qualquer, o saber humano" (p. 6). Eis a filosofia reduzida a uma psicologia e privada de Metafísica. "As noções que chamamos ideias necessárias, continua o Padre NOIROT, concepções, permaneceram imutáveis, invariáveis em meio a todas as revoluções do pensamento humano. Os filósofos que discerniram e descreveram este elemento do pensamento lhe deram nomes diferentes e cada uma dessas denominações expressa um dos caracteres dessas ideias."
Ele então cita PLATÃO e suas "ideias inatas", LEIBNIZ e suas "ideias necessárias", BOSSUET e FÉNELON e suas "ideias puras". "Essas noções, acrescenta ele, distinguem-se de todas as outras porque são indemonstráveis. Elas são verdadeiras porque existem." (página 40).
Mas se reduzirmos essas ideias absolutas a uma criação a priori da razão, caímos necessariamente no Kantismo e, por fim, no Ceticismo agnóstico. Para evitar tais conclusões, será necessário vincular essas ideias absolutas e a priori ao real, cuja natureza e leis elas devem fazer conhecer.
O Padre NOIROT realiza essa junção ao fazer um empréstimo da célebre teoria das Verdades eternas derivada de SANTO AGOSTINHO. "Esta razão que está em mim e que não sou eu, de onde vem ela? Não é ela algum hóspede celeste descido em nós para nos entreter com as coisas do alto?" –
Em seguida, ele cita BOSSUET: "Se procuro agora, diz a Águia de Meaux, onde e em que sujeito essas verdades subsistem eternamente e imutáveis como são, sou obrigado a admitir um Ser no qual a Verdade é eternamente subsistente e onde ela é sempre entendida, e esse ser deve ser a própria Verdade, e deve ser toda Verdade, e é dele que a verdade deriva em tudo o que é e se entende fora dele. Esse objeto eterno é Deus, eternamente subsistente, eternamente a própria Verdade." (páginas 111 e 112).
Esse texto, tomado de BOSSUET, resume uma prova da existência de Deus, sempre ensinada na filosofia cristã. Mas o Padre NOIROT o faz dizer outra coisa: que a razão seria em nós algo de divino.
É o Ontologismo, doutrina segundo a qual o primeiro objeto do olhar de nossa razão seria o próprio Deus, e seria Nele que ela buscaria suas ideias eternas, as quais teriam sido inseridas pelo próprio Deus em nosso espírito, e é ao recebê-las de Deus que a razão as concebe. A concordância dessas ideias com o real se dá por intermédio de Deus. Não é difícil encontrar nessa teoria traços evidentes do inatismo cartesiano.
BLANC DE SAINT-BONNET continua o ensinamento do Padre NOIROT. Ao precisá-lo, marca bem seu ponto de chegada, e o que não estava muito claro nele vai assumir subitamente um aspecto novo, o Panteísmo implícito de toda essa construção cartesiana.
"Desde sempre, diz-nos ele, percebeu-se que havia no homem algo além do homem, que nele a Verdade tomava um santuário e a consciência uma sede para ditar sentenças certas. Os grandes filósofos ao longo dos séculos se preocuparam particularmente com a razão... A razão é o que vê por excelência, o que vê o ser. Ver apesar do véu dos objetos exteriores, ver além dos sentidos e do horizonte dos fenômenos é próprio da razão. A razão é um reflexo ainda puro, embora enfraquecido, dessa Luz que decorre do próprio seio da Substância eterna. Ela desce de Deus, aparece à consciência como um hóspede que lhe traz notícias de um mundo do qual lhe dá a ideia e a necessidade... Esse parentesco entre a razão humana e a sabedoria divina, essa filiação direta na qual o pensamento do homem e o pensamento de Deus se encontram, explica-nos por que o bem, aqui embaixo, é realmente o bem, o verdadeiro, realmente o verdadeiro... Nossa razão pertenceu a Deus e faz parte de sua Sabedoria eterna, antes de descer em nós pela criação, e a alma não é enganada. Por mais humilde que seja o homem, ele pode dizer: Tenho algo em comum com Deus, possuo um elemento, faculdades que esse ser divino deve possuir..." (Trecho do livro "Da Razão", 1866).
Sublinhamos, ao longo deste texto, todas as fórmulas que desenvolvem essa ideia panteísta de que nossa alma é uma parcela da alma divina descida num corpo. Os Gnósticos, que negam que Deus seja algo além do Mundo, fazem dela uma parcela da alma do Mundo. O ponto de aplicação do princípio é análogo. Nossa alma racional não nos pertence e não constitui para nós o princípio de nossos conhecimentos.
Supõe-se que "o conhecimento direto de Deus é natural ao homem". É a negação de uma ordem sobrenatural, pois se concede à criatura o poder de conhecer diretamente o Criador, de vê-lo sem intermediário. Ora, a visão intuitiva de Deus ultrapassa absolutamente as forças e as exigências de todas as criaturas.
Quando a irmã de BLANC DE SAINT-BONNET publicou a obra de seu irmão, ela teve plena consciência de que sua doutrina se afastava sensivelmente do ensinamento da Igreja e, por isso, a fez preceder deste aviso:
"Revestindo de meu respeito e de meu afeto a pena de meu irmão, tenho o dever, como filha devotada da Santa Igreja Católica, de explicar certas expressões, certos pensamentos emitidos nestas páginas. Aluno do douto Padre NOIROT e dedicado ao culto da filosofia em uma época em que esta ciência era estudada fora de suas relações com a escolástica, Antoine BLANC DE SAINT-BONNET não teve a felicidade de conhecer os admiráveis ensinamentos de Leão XIII relativos ao caminho a seguir no estudo das ciências filosóficas e de se beneficiar desses ensinamentos. O leitor saberá, portanto, explicar as possíveis lacunas e dignar-se-á a desculpá-las..."
Acrescentemos ainda que os ontologistas frequentemente apelam para este texto de São João: "O Verbo é a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo." (Portanto, no momento de seu nascimento, Deus lhe insufla os princípios da razão). São Tomás de Aquino já refutou há muito tempo essa teoria das ideias inatas: "O texto de São João que citais, dizia ele aos platônicos, prova apenas uma coisa, que nós admitimos: que a Luz do Verbo ilumina o entendimento humano como causa universal, mas não prova que esta luz divina é a causa imediata das funções do espírito humano. Esse texto, longe de excluir a existência do intelecto agente no homem, a prova; pois é desta luz universal do Verbo que a alma recebe essa espécie de virtude particular chamada intelecto agente."
B) RETORNO AO REALISMO
O objeto da Filosofia não é o próprio pensamento, mas o próprio ser das coisas. Ao contrário da afirmação de DESCARTES e de todos os filósofos que acabamos de citar, o homem não pensa seu pensamento, ele pensa as coisas. As ideias não são o que é conhecido, mas aquilo pelo qual as coisas são conhecidas. Elas não são o termo do pensamento, mas o meio.
A partir de uma reflexão do pensamento sobre si mesmo, como a preconizada por DESCARTES, é impossível atingir qualquer verdade que seja, já que a verdade é uma conformidade de nosso pensamento com a forma recebida das coisas. Não se conclui do pensamento ao ser, mas no pensamento é dado o ser das coisas. Como poderíamos observar nosso pensamento, se não houvesse objeto nele? Não se pensa o nada, mas algo, e se se decidiu rejeitar num "dúvida metódica" todos os conhecimentos adquiridos, não há mais possibilidade para qualquer pensamento que seja. A Verdade é o ser das coisas atualmente pensado. Ela reside tanto no ser quanto em nosso pensamento. Não temos em nós a potência prodigiosa de criar um ser e de impor-lhe uma forma. Contentamo-nos em receber a forma dos seres que pensamos, extraindo-a, abstraindo-a das percepções sensíveis.
Entre Deus e nosso pensamento coloca-se a criatura, o único objeto imediato aqui em baixo de nosso olhar intelectual. E é essa percepção imediata do objeto que assegura o valor absoluto das ideias e dos primeiros princípios do ser e da razão.
A verdadeira filosofia cristã exalta o valor de certeza da razão humana. A inteligência dos primeiros princípios é o fruto direto do puro olhar da inteligência sobre os objetos. Ela os lê espontaneamente no real, desde que este lhe seja apresentado sob qualquer forma que seja. E esse primeiro olhar não é o resultado de um raciocínio, é uma apreensão direta. A lógica está nas coisas, nós a recebemos com o próprio conhecimento do ser das coisas.
A inteligência humana, segundo seu funcionamento natural, encontra seu objeto próprio, o ser, somente nas coisas criadas. Ela percebe nas criaturas as exigências e as leis do ser. Descobre então que a razão de ser primeiramente extraída de uma criatura qualquer contém a plenitude ilimitada de ser que é Deus. Deus está, sem dúvida, em certo sentido, no conteúdo de seu olhar, mas ali está apenas de maneira implícita. O conhecimento de Deus precisará aparecer explicitamente na sequência de um raciocínio. Somente a razão nos permite atingir Deus, ao menos na ordem do conhecimento humano, já que a visão intuitiva está além de todas as nossas capacidades nativas. Nossa ideia das coisas não é construída, nem inata; ela é extraída do real. É pela submissão ao real que nossa inteligência se conforma a ele e se torna verdadeira. Os grandes princípios da razão são infalivelmente verdadeiros porque são, primeiramente, as próprias leis do ser.
E. C.