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À DESCOBERTA DO ISLÃ - II

DOS QUATRO PRIMEIROS CALIFAS AO PRINCIPADO DOS TURCOS
OS QUATRO PRIMEIROS CALIFAS (632-660)

Maomé dera ele mesmo o exemplo ao lançar, ainda em vida, na planície sírio-jordaniana, expedições cujo objetivo era reunir pela força das armas as tribos árabes estabelecidas nessas regiões. As operações terminaram em fracasso. Após sua morte, o movimento assim iniciado estaria comprometido?

O Primeiro Califa: ABU BAKR (632-634) era irmão de Aicha, a jovem esposa preferida do Profeta. Era também um dos primeiros convertidos.

Teve de enfrentar uma revolta de tribos da Arábia central. Elas abandonavam a causa do Profeta... e recusavam-se a pagar ao Chefe a esmola legal (Zakat) instituída pelo Alcorão. Expedições militares puseram fim a essas tentativas de emancipação. Mas antes de ter restabelecido sua autoridade sobre todos os Muçulmanos, o Califa engajou outras expedições rumo ao Norte, em país povoado sobretudo de estrangeiros de confissões estigmatizadas pela pregação. Isca interessante para esses guerreiros do deserto, o Norte eram as margens do Mediterrâneo!

A Guerra Santa foi desencadeada. Não se sabe em que condições foi declarada. Sua proclamação devia ser feita oficialmente e transmitida aos povos visados por emissário. Dirigindo-se a povos que tinham um Profeta-Enviado e Escrituras (Judeus e Cristãos), ela implicava a submissão sem combate. Mediante essa rendição, o pagamento de um tributo e a obrigação de respeitar as diretrizes gerais da política muçulmana, esses povos seriam garantidos em seus cultos, instituições religiosas e bens. Em caso de resistência e combates, evidentemente para os vencidos pelo "povo eleito", as condições impostas tornavam-se muito mais severas. Os vencidos poderiam manter sua fé, mas tornar-se-iam na Cidade muçulmana protegidos ("dh'immi")... cidadãos de segunda zona... Os Coptas do Egito são, em nossa época, as testemunhas vivas de tal método. Quanto às outras populações, idólatras, animistas, adeptos de cultos orientais, elas conheceriam o total beneplácito dos vencedores, sem qualquer limitação corânica.

Os Cristãos das margens do Mediterrâneo e os Católicos da Europa sofreriam durante séculos os vexames das hordas muçulmanas... É preciso admitir, com toda humildade, com Daniel-Rops, que o jihad se inscrevia "como para os outros sofrimentos que Deus permite, na perspectiva de um julgamento sobrenatural e de uma expiação: diante de nossas infidelidades, nossos cismas, nossas heresias, o Senhor não desdenha nos entregar a um falso profeta, e até mesmo a seu servo..."

Abû Bakr não aproveitou por muito tempo o dinamismo de seus cavaleiros. Antes de morrer, designou como seu sucessor Umar.

O Segundo Califa: UMAR (634-644) Este homem fora um dos mais fiéis discípulos de Maomé. Aquele de quem o mestre dizia: "Onde estava a Justiça, ali estava Umar." Sob o impulso do Califa, homem rigoroso e muito duro, o jihad tomou sua verdadeira forma.

Rumo ao Norte-Nordeste, travessia da Palestina e primeiro contato com Bizâncio: derrota do Imperador Heráclio a sudoeste de Jerusalém. Heráclio é o imperador do Oriente que proclamou a nova heresia, o monotelismo, como lei do império (638), daí sua condenação por Roma. Marcava assim o primeiro passo no caminho em que Bizâncio se afastaria cada vez mais da verdadeira fé para conhecer o esmagamento militar...

As bandas muçulmanas submergiram a Síria, cuja capital Damasco foi tomada em 635, e conquistaram toda a Pérsia. Ispahan caiu em 644. Bizâncio tentou resistir na Síria: esmagada em 636, o exército imperial recuou levando a Verdadeira Cruz de Jerusalém. A Cidade Santa foi ocupada em 638, após um longo cerco. O Califa Umar veio orar no local do Templo de Salomão, onde hoje se eleva a mesquita. Além da Pérsia, os Muçulmanos alcançaram o Cáucaso e o Mar Cáspio.

Rumo ao Egito, as tropas islâmicas esmagaram os imperiais de Bizâncio em 640 perto de Heliópolis. O Cairo e depois Alexandria capitularam, Alexandria que foi o mais poderoso dos Patriarcados católicos, "cento e um bispados, proprietária de bens inumeráveis, armadora naval que controlava o comércio do país, doadora faustosa". O Patriarcado passou às mãos dos cismáticos Coptas, sempre subjugados pelos Egípcios que mantêm o Patriarca Chenouda III e os Bispos em deportação. É preciso assinalar que judeus e cismáticos se fizeram, com alegria, os fornecedores dos conquistadores. "A civilização helênica que, desde um milênio, desde Alexandre, havia coberto todo o Oriente Próximo, que havia suscitado plêiades de sábios e pensadores, foi varrida". Com o recuo, é justo acrescentar: e foi definitivamente esterilizada. A ofensiva parou por ordem às portas da Tripolitânia.

Nos territórios ocupados e submetidos a uma ativa arabização, apenas os armênios e, sobretudo, os maronitas resistiram. Estes últimos eram os fiéis de uma comunidade monástica fundada no século V em torno do túmulo de um grande anacoreta, São Maron. Os maronitas constituíram um bastião da fé mais pura, a mais escrupulosa. Obrigados pela invasão muçulmana a abandonar as belas planícies de Apameia e de Ciro, nas margens do Orontes, preferiram abrir mão de tudo a se submeter ou pactuar com os Infiéis. Refugiados nas montanhas do Líbano, tornaram-se, sob a direção de seu próprio Patriarca, os defensores de um reduto cristão que nem os séculos, nem os desencadeamentos da força deveriam destruir. Em 1984, essa resistência obstinada ainda está viva, apesar dos assaltos de um islã que só reencontra uma unidade razoável quando se trata de matar cristão.

O segundo califa foi assassinado em 644. Aqueles que ele designara para escolher seu sucessor elegeram um primo e genro do Profeta.

O Terceiro Califa: UTHMAN (644-656), preferido a ALI, muito mais próximo de Maomé, continuou a conquista em direção ao Afeganistão. Foi o criador da primeira frota muçulmana. Inaugurou os ataques às Ilhas Gregas: Chipre (648), Rodes (653), Creta e as Cíclades.

Em 656, Uthman foi, por sua vez, assassinado.

O Quarto Califa: ALI (656-660). Era primo de primeiro grau do Profeta, seu discípulo, seu primeiro vigário e esposo de sua filha Fátima.

Há alguns anos, o Governador da Síria, Mufawiya, da tribo dos Banû Umayya, grandes comerciantes caravaneiros de Meca, tornava-se cada vez mais poderoso, enquanto surgiam no mundo muçulmano várias tendências, vários métodos de designação do Califa. O poder de Mufawiya ajudaria no desenvolvimento da crise.

Encontravam-se em presença, primeiramente, os fiéis do absolutismo religioso de Maomé, que queria que o Comandante dos Crentes pudesse ser eleito por toda a Comunidade, entre os Crentes, qualquer que fosse sua origem; depois, aqueles que só reconheciam a autoridade da família do Profeta, portanto os ferrenhos partidários de Ali; finalmente, o terceiro partido era o dos políticos, que faziam passar, em suma, a eficácia antes do religioso. Eles estimavam que a legitimidade do comando resultava do poder temporal de uma tribo e que o Califado, autoridade espiritual, era dado por acréscimo. Era uma verdadeira inversão do pensamento do Profeta.

Reencontravam, no entanto, a concepção profunda da religião muçulmana, orgulhosa do pacto que a ligava ao seu Deus e considerando o conjunto dos "não crentes" como o dâr al-harb, o mundo da guerra, o mundo a conquistar. Para vencer essa batalha, é melhor ter também o poder terreno.

Aliás, os vizinhos próximos e inimigos, os bizantinos, davam o exemplo: desde o cisma, o Basileu dirigia a Igreja por cima dos Bispos. Finalmente, mas será que os muçulmanos sabiam disso, Roma e seus Pontífices sofriam enormemente com a falta de poder material e buscavam com obstinação constante um apoio temporal. Foi, finalmente, o jihâd que fez pender a balança, e a guerra tornou-se inevitável entre Ali e os defensores do cesaropapismo integral personificado no governador da Síria.

Ali começou com sucessos. Chegou até a aprisionar a última esposa do Profeta, Aicha, que se aliara aos seus adversários. Mas Mufawiya era um político astuto. Conseguiu afastar de Ali um certo número de seus partidários. Finalmente, em 655, em Siffin, os dois campos se confrontaram. Sendo o combate indeciso, as tropas do governador da Síria obtiveram uma trégua. Ali foi obrigado a aceitar uma arbitragem que lhe foi desfavorável.

Os cismas consumaram-se...

A maioria dos muçulmanos seguiu Mufawiya e aceitou como critério de fé a tradição (Sunna) do Profeta e de seus companheiros, a comunidade. Essa foi a origem dos SUNITAS.

Eles admitiam como princípio básico que todo soberano muçulmano deve ser considerado legítimo quando não ordena nada que esteja em oposição ao Alcorão e à Sunna, seja qual for, por outro lado, sua vida privada. O ensinamento do Profeta é interpretado mais livremente. Na época, a religião pôde servir de pretexto para as conquistas. Foi assim que a expansão militar acompanhou uma islamização sunita.

As quatro escolas sunitas

Posteriormente, algumas diferenças, mais rituais do que fundamentais, já que o crente pode escolher livremente entre elas, permitiram definir quatro escolas sunitas, ainda existentes:

A Escola Hanafita (Abû Hanifa) no Iraque, onde nasceu, e na Síria. O Afeganistão lhe confere um status preferencial. Ela é majoritária entre os sunitas do Paquistão, da Índia e da China. Foi o rito oficial do Império Otomano e domina atualmente na Turquia. Essa escola buscou desenvolver o raciocínio jurídico, uma certa racionalização dos métodos, mas foi aos poucos se esclerotizando.

A Escola Malikita (Malik Ibn Anas) conquistou o Egito, sobretudo o Alto Egito, e depois todo o Magrebe. Muito apegada ao costume, é a única reconhecida no Marrocos. Além disso, é a forma mais difundida na África Negra.

A Escola Shafiíta (Shafiï), que busca a valorização da Suna, domina no Baixo Egito, no Sul da Arábia, na África Oriental muçulmana, na Indonésia e na Malásia. Está presente na Eritreia, na Somália, nas Índias (costas de Malabar e de Coromandel) e entre os grupos muçulmanos do Vietnã, da Tailândia e das Filipinas.

A Escola Hanbalita (Ibn Hanbal) se pretende um estrito tradicionalismo. Ela só admite as tradições do Profeta e dos primeiros companheiros. Foi muito poderosa no Iraque. Dela nasceu o movimento Wahhabita, estendido à maior parte da península arábica. É a escola oficialmente reconhecida no reino Saudita e em vários emirados do Golfo.

As divisões dos partidários de Ali.

Os partidários de Ali não estavam unidos diante do poderoso movimento sunita.

Alguns o censuraram por ter aceitado a arbitragem e dele se separaram. São os CARIJITAS, os "puritanos do Islã". Para eles, toda grande falta cometida por um Imã o torna, por isso mesmo, ilegítimo; sua vida, tanto privada quanto pública, deve ser irrepreensível... As obras prescritas fazem parte da fé... Qualquer que seja sua raça, todo bom muçulmano pode ser Imã. Os mais radicais dos carijitas são partidários do assassinato religioso. Grupo pouco numeroso, existe no Magrebe, na Argélia (Ouargla) e na Tunísia (ilha de Djerba), em Omã e em Zanzibar.

A separação deles em relação a Ali levou este último a renunciar ao poder em 658. Três anos depois, ele foi assassinado.

Os únicos que permaneceram legitimistas e, portanto, fiéis a ele, parente próximo do Profeta, às pessoas "da casa", são os XIITAS. Para eles, o Imã deve ser um álida (descendente de Ali). Ele é, por natureza, dotado da impecabilidade que o garante contra toda falta. O amor árabe-muçulmano pela discussão dividiu novamente os xiitas em vários grupos:

Os Zaiditas, moderados, que só admitem 5 Imãs legítimos. De raça álida, ele é eleito. É a religião do Iêmen.

Os Imamitas ou Duodecimanos são majoritários. Reconhecem doze Imãs legítimos, em cada um dos quais reside, por emanação, uma parcela luminosa divina. O décimo segundo Imã não morreu. Ele está misteriosamente "oculto" ou "ausente". Seus fiéis aguardam a hora de sua manifestação... Essa espera está centrada no culto do "Imã oculto" e de seu retorno em glória para os últimos tempos...

Pode-se comparar a esse culto a espera do Mahdi, personalidade misteriosa, guia último da Comunidade que a conduzirá no "caminho reto" e cuja justiça preparará o aniquilamento (dos inimigos?), a ressurreição e o julgamento. Essa esperança está viva em todo o Islã, inclusive entre as massas sunitas.

Historicamente, é preciso assinalar que desde o final do século XV, quando um descendente de Ali, Ismael, apoiado em bandos de xiitas fanáticos, tornou-se xá da Pérsia, a religião nacional do Irã é o Xiismo.

Os Ismaelitas ou septimanos limitam a sete os Imãs legítimos. O sétimo retornará em glória nos últimos tempos do mundo. Eles divinizaram a raça alida. Sua visão de mundo é monista e emanatista. Sete princípios se escalonam de Deus à matéria, e os sete ciclos de Imã lhes correspondem. São os gnósticos do Islã. Praticam sete ou nove graus de iniciação.

Atualmente, subordinam-se ao Ismaelismo diversas tendências, entre as quais é preciso citar os Khojas, seita indiana do Aga Khan, e os Drusos. Neo-ismaelitas foram os Fatímidas, que reinaram sobre o Egito e foram aliados dos Cruzados.

Os xiitas e os carijitas foram fortemente influenciados por uma escola de teologia ou de apologética defensiva do Islã, surgida no primeiro século da Hégira, os MU'TAZILITAS. Estes enfatizavam com veemência diversos pontos, entre eles a inacessibilidade divina e "a Ordem do Bem..." É o reconhecimento tradicional de um dever que compromete todo muçulmano para com qualquer outro, Califa e Comunidade. A intervenção direta se dará pela espada e pelo sangue: pode-se e deve-se derrubar os chefes culpados; pode-se e deve-se obrigar, sob pena de morte, os opositores a adotar a verdadeira doutrina. Essas diretrizes impiedosas são agravadas por uma disposição jurídica própria do xiismo. O Aiatolá (Imã) do Irã, cercado pelos Hodjatoleslam e pelos Mulás, que têm o poder de "raciocínio", é infalível em suas decisões.

Apesar do imbróglio das diversas escolas, imbróglio que permitiu rivalidades e a ascensão à independência de certos chefes, no momento em que a expansão ia ganhar amplitude, a Comunidade estava bem solidária para apropriar-se definitivamente das terras e dos bens das populações conquistadas.

O governador da Síria, Mufawiya, vitorioso sobre Ali e reunindo sob suas ordens a grande maioria dos muçulmanos, foi proclamado Califa em 660. Ele escolheu logicamente Damasco como capital. Em 680, designará seu filho como herdeiro. Assim será fundada a dinastia dos Omíadas.

A DINASTIA DOS OMÍADAS (660-750)

Em menos de um século, ela verdadeiramente fundará o Estado Muçulmano, unificando todos os elementos díspares que o constituíam. As diversas religiões das populações conquistadas — monofisitas, nestorianos, persas zoroastrianos... — viram seus fiéis submetidos ao estatuto de proteção-sujeição, ou "dhimmi" (tributo anual per capita e minoria cívica). A arabização dos costumes, das leis, das estruturas fundiárias foi realizada progressivamente. Por volta de 700, entrou em vigor a proibição do grego na redação dos atos públicos, em favor da única língua árabe.

Essa dinastia conheceria e dirigiria o assalto dos muçulmanos contra o conjunto dos territórios civilizados, organizados e globalmente católicos. Qual era, na aurora do maior e mais longo rezzou da história, a situação do "mundo da guerra", designado à fúria invejosa dos arabo-muçulmanos?

Breve panorama: o mundo cristão de Constantino a Maomé.

Para responder à pergunta, é necessário recuar um pouco. O mundo a conquistar era o conjunto do Imperium Romano, cercando "seu" mar, o Mediterrâneo. Por volta de 30 antes de Cristo, no momento de seu apogeu, o Imperium cobria três milhões de quilômetros quadrados, com cerca de sessenta milhões de habitantes; da Inglaterra à Armênia, pelos "limes" do Reno e do Danúbio, passando pela Crimeia, cobria a Síria, a Arábia Pétrea e o Egito, depois subia por todo o Norte da África, pela Espanha e pela Gália.

No século III, "quando se considera o mapa do Cristianismo, não se pode deixar de ficar estupefato com o campo que ele cobre. Praticamente, em graus diversos, é o Império inteiro que foi semeado pelo Evangelho". Essa fermentação católica, agindo em todos os meios, só esperava o advento de Constantino, o Grande (306-337), para irromper à luz do dia.

Mas esse imenso Império era difícil demais para ser controlado justamente por causa de sua extensão, e sobretudo devido à pressão das numerosas populações bárbaras que acampavam às suas portas. Para se manter, o Império teve de ser dividido em duas partes: o Ocidente e o Oriente.

Apesar disso, na noite de 31 de dezembro de 406 para 1º de janeiro de 407, o Império do Ocidente viu o "limes" ceder, e foi a invasão dos Bárbaros. No Reno, os Francos, os Saxões, os Lombardos, os Burgúndios, os Alamãos..., mais abaixo no Danúbio, os Vândalos e, além deles, as duas tribos godas, precipitaram-se para se apoderar das riquezas acumuladas graças à simbiose entre a ordem romana e a religião católica.

Dois ataques prefiguraram as cavalgadas dos Cavaleiros de Alá: o dos Vândalos arianos e o dos Hunos.

Os Vândalos submergiram e saquearam a Gália. Uma horda passou para a Espanha em 409. Os Visigodos, aliados de Roma, os obrigaram a cruzar o estreito de Gibraltar para passar ao Norte da África. Eles destruíram e saquearam todo o Magrebe. Senhores de Hipona (Bône) em 431, após um cerco de dezoito meses durante o qual morreu Santo Agostinho, bispo da cidade, e de Cartago em 432, invadiram as Baleares, a Sardenha e a Sicília, para finalmente ir saquear Roma. Antes de serem esmagados por Belisário, general bizantino, em 533, os cem mil vândalos "exploraram" o território conquistado. No plano religioso, foi literalmente a perseguição. Se, apesar de tudo, a energia do Clero permitiu a resistência anti-ariana — 500 bispos no século V — os Vândalos encontraram nos Mouros seguidores zelosos.

A invasão dos Hunos foi muito mais breve. Em 451, eles chegaram sob o comando de Átila, o flagelo de Deus, e foram detidos no final de agosto do mesmo ano nos Campos Mauríacos, perto de Troyes, pelo Patrício Aécio com a colaboração dos Burgúndios e dos Francos de Meroveu, o ancestral de Clóvis.

O Império Romano do Ocidente desapareceu definitivamente em 476, quando o último comandante, Odoacro, devolveu as insígnias imperiais a Bizâncio.

No Ocidente: Resistência e renovo católicos do século VI ao século VIII

Na tormenta, os verdadeiros polos de resistência foram os Bispados católicos, liderados por homens como São Remígio, Santo Avito, Santo Cesário... Para refazer uma nação católica, precisavam de um homem, um chefe. Escolheram os francos pagãos e seu jovem chefe Chlodovicus (Clóvis), o primeiro Luís das dinastias francesas. Esposo da princesa burgúndia católica Clotilde, Clóvis, vencedor dos Alamãos, foi batizado e sagrado em Reims no Natal de 498 ou 499. Ele foi o artífice da reconquista católica da Gália, esmagando os Visigodos de Alarico II em Vouillé em 507.

Os arianos foram repelidos para a Espanha, mas, graças à pressão militar dos Ostrogodos arianos da Itália, que controlavam a Provença, puderam conservar a Septimânia (Languedoc) com Narbona. Clóvis deixava em 511, aos seus filhos, quatro reinos entrelaçados uns nos outros e que se estendiam da Saxônia-Turíngia até a fronteira espanhola.

A conversão dos Bárbaros continuava: os dois reinos da Burgúndia, o de Genebra e o de Vienne (França), e depois, na Espanha, o pequeno reino dos Suevos, rejeitado para o noroeste da península, tornaram-se católicos. Finalmente, o rei visigodo Recaredo é convertido pelo Bispo de Sevilha, Leandro, em 589. Por volta de 633-635, o Rei Suíntila foi o primeiro a reinar sobre toda a Espanha unificada.

A pacificação dos espíritos e a reorganização da Igreja foram, no mesmo ano, sancionadas pelo IV Concílio de Toledo. No resto da Europa, os monges católicos se ativaram. O irlandês São Columbano evangelizava as Ilhas Britânicas e a Bretanha celta; São Bonifácio se lançava ao ataque da Germânia...

O Papa, a partir de seu modesto território italiano chamado "Patrimônio de São Pedro", havia dirigido toda a evangelização e permanecia como o chefe espiritual incontestado, mas fraco. Será necessário o advento dos Carolíngios para trazer a Roma a força temporal complementar indispensável.

No Oriente: unidade política, depois divisões religiosas

O Império Romano do Oriente, simbolizado por sua capital Bizâncio, fundada em 330 por Constantino, o Grande, estava tranquilo. Bizâncio, verdadeira fortaleza consolidada por todos os imperadores, era o portão que bloqueava os Bárbaros persas, eslavos ou nômades das estepes, às portas da Europa. Cidadela inexpugnável, resistiu a todos os assaltos, exceto ao dos cruzados em 1204, para só ser finalmente submergida pelos Otomanos em 1453.

A catedral de Santa Sofia, construída pelo Basileu Justiniano e sua esposa Teodora em 537, era por excelência o monumento símbolo do poder católico. O Império participou da luta contra os visigodos desembarcando no sul da Espanha, que ocupou em parte; Belisário eliminou os vândalos do Norte da África e, em seguida, conseguiu subjugar os ostrogodos da Itália. A vitória, penosa, só foi completa em 554, após a morte do general, substituído por Narses.

Ao poder da espada somava-se o esplendor espiritual através dos Patriarcados de Alexandria, Jerusalém, Antioquia, Bizâncio e Cesareia, ricos em teólogos. Graças a esse poder, a Armênia era católica desde 300; em 410, o Irã reunia em Concílio quarenta Bispos, apesar das perseguições dos soberanos de religião mazdeísta; duas igrejas prósperas cresciam na Arábia e na Etiópia.

Cismas haveriam de romper essa bela unidade, apesar das intervenções de Constantino contra os donatistas da Cabília e os arianos do Egito. Foram-se organizando pouco a pouco, pela mistura do nacionalismo e dos desvios religiosos, conjuntos de territórios que não reconheciam mais a fé do Imperador: os monofisistas jacobitas da Síria, os coptas da Abissínia e do Egito; os nestorianos do Norte da Síria e do Irã. Em todas essas possessões que almejavam a independência em relação ao poder muito centralizado de Bizâncio, mantinham-se ilhas fiéis, os melquitas. Pouco a pouco, o poder imperial se desagregava, ainda mais porque desde Justiniano só reinavam mediocridades.

Os persas, precursores dos muçulmanos, no assalto ao Império do Oriente.

Os persas sassânidas, rivais do Império do Oriente desde 502, encontraram com seu chefe Cosroes II os meios da vitória. Ajudados por bandos mongóis, avançaram ao sul até o Egito e, ao norte, alcançaram o mar de Mármara em frente a Bizâncio. Em maio de 614, a tomada de Jerusalém, o roubo da Santa Cruz, tornada objeto de escárnio em Ctesifonte, a capital, foram sentidos pelo Oriente católico como uma verdadeira catástrofe.

No trono de Bizâncio reinava Heráclio (610-641), católico de fé ardente, entusiasta em servir a Cristo e ao Evangelho; ele foi verdadeiramente o primeiro Cruzado! Apesar de uma situação lamentável, com Cesareia, Alexandria e Bizâncio atacadas, sob o impulso do Patriarca Sérgio, o Império se ergueu para a cruzada.

Em 5 de abril de 633, a guerra santa católica começou. Vitória rápida no início, Heráclio avançou até o coração da Pérsia, onde queimou, para vingar o saque de Jerusalém, o templo mazdeísta de Tabriz! Depois vieram novos reveses sob os golpes de uma coalizão de persas, mongóis, eslavos e búlgaros. Bizâncio sitiada foi salva por Sérgio; Heráclio, permanecido no Cáucaso, retomou a ofensiva e invadiu novamente a Pérsia, onde os templos mazdeístas arderam... Em 23 de março de 630, Heráclio trouxe de volta a Santa Cruz a Jerusalém, carregando-a ele mesmo sobre os ombros.

Infelizmente, em discussões e termos "bizantinos", ele quis reconduzir os monofisistas à ortodoxia romana. Dando o passo, promulgou como lei do Império a Éctese, ou exposição da doutrina da vontade única, o monotelismo, em 638. É preciso reconhecer que o Papa Honório, mal informado, pareceu consentir. A condenação romana só veio com seu sucessor...

A ofensiva islâmica

Maomé e seus sucessores conheciam bem essa situação e as fraquezas do Império. Se, com o apoio dos nacionalistas cismáticos, eles puderam expandir o Islã no Egito e derrotar Heráclio em 641 — Bizâncio, Santa Sofia e os Lugares Santos permaneciam como os símbolos cristãos a serem destruídos. O combate será longo. Será preciso, desde essa vitória de 641, mais de oito séculos para que a vitória seja total e Santa Sofia transformada em mesquita.

Os omíadas tentaram por duas vezes reduzir Bizâncio. Em 673 começou o ataque por terra e por mar. Terminou em fracasso ao cabo de cinco anos de combates. Recomeçaram em 717 com forças enormes, estimulados pelos sucessos de seus irmãos na Europa. O novo Imperador Leão III, o Isauro (717-740), os derrotou diante de Bizâncio em 718. Essa vitória total ergueu um obstáculo decisivo a novas tentativas por muito tempo.

Na Ásia Menor, o esforço de conquista fora bloqueado. O mesmo não ocorria do outro lado do Mediterrâneo, apesar das grandes dificuldades devidas ao afastamento e à resistência dos indígenas.

... rumo à África

Três campanhas foram lançadas desde o Egito em direção ao Magrebe. A África se emancipara um pouco de Bizâncio. Fora erigida em Exarcado administrativamente quase autônomo. No plano religioso, o catolicismo da população permanecera ortodoxo. Daí resultava um consenso pouco favorável à fidelidade ao Basileu.

As tropas árabe-muçulmanas, detidas em 643 às portas da Tripolitânia por ordem de Umar, retomaram seu ímpeto em 665 para uma incursão no sul da Tunísia.

Em 669, o Califa de Damasco lançou suas tropas sobre a "Ifríquia". Após se apoderarem de Gafsa, os muçulmanos fundaram uma capital dos países ocupados: Cairuão (Fortaleza). Foram as tribos berberes, uma das quais comandada por uma mulher, que se opuseram aos invasores, na falta das tropas imperiais, cuja intervenção se limitou a algumas incursões pelo mar. A resistência durou quase trinta anos; Cairuão foi até tomada. Terminou com a conquista de Cartago.

A partir desse momento, a expansão foi rápida. Em 704, o Império não controlava mais do que a ponta extrema de Ceuta, no Marrocos, e as colinas circundantes. A ocupação direta do Magrebe durou até 1060, ano em que o Emir fatímida de Cairuão se declarou independente do Califa do Cairo.

A Igreja africana, que conseguira reunir novecentos Bispos na conferência de 412, estava prestes a morrer. Essa catolicidade fora florescente. Ela havia dado numerosos teólogos, incluindo Santo Agostinho, Doutores, Papas e Missionários que contribuíram para evangelizar a Gália.

Certamente, no início, o estatuto de "dhimmī" foi concedido, mediante um tributo de um quinto da renda, mas por volta de 850, não restava outra escolha senão a apostasia ou o exílio. Em 1050, havia apenas cinco Bispos católicos residentes, e suas ovelhas eram somente mercadores, mercenários, prisioneiros e crianças sobre os quais se debruçavam os religiosos da Mercê.

A população berbere converteu-se, portanto, muito rapidamente à fé do vencedor... era do seu interesse. As pequenas tropas árabes integraram em suas fileiras importantes reforços nativos. Alguns elementos mostraram-se excelentes combatentes. Foi o caso de Tarik, que se tornou tenente do delegado do Califa e comandante-em-chefe, Monça.

... rumo à Espanha

O exarca de Ceuta, Juliano, em péssimos termos com o rei visigodo da Espanha, cercado por uma população composta em grande parte de emigrantes espanhóis, arianos e judeus que haviam fugido da península desde o retorno do catolicismo, imaginou poder utilizar os berbere-muçulmanos para derrubar o Rei e entregou a sólida fortaleza a Tarik.

Essa manobra, verdadeira traição, iria desencadear a invasão. Qual era, então, a situação da Espanha católica na véspera da penetração muçulmana na Europa? À parte algumas praças bizantinas na costa sudeste, o Reino de Toledo estendia-se para além dos Pireneus, na Septimânia, território limitado a leste pelo Ródano, estendendo-se aproximadamente até a altura de Orange e limitado a noroeste pelas Cévennes. As principais cidades eram Carcassonne, Narbona, Nîmes e Uzès. A fraqueza da autoridade central permitia que os subordinados se rebelassem frequentemente, fossem eles asturianos, bascos ou languedocianos. As querelas dinásticas não cessavam. Uma feroz perseguição fez dos judeus que não se exilaram inimigos potenciais. O país, aliás muito rico, parecia maduro para a conquista. Monça, bem informado, obteve a aliança do bizantino Juliano.

O exército de Tarik, sete mil berberes, um contingente bizantino e um grupo de exilados arianos, cruzou o estreito de Gibraltar (Djebel Tarik) e marchou sobre Algeciras. A batalha contra as tropas do rei Rodrigo ocorreu às margens do Guadalete, em 19 de julho de 711. A rapidez do sucesso do estandarte verde foi surpreendente: o rei morto, seu exército destruído, a ocupação do país se deu muito rapidamente. Sevilha, Córdova e Toledo foram tomadas. Monça desembarcou por sua vez, e os aliados bizantinos e godos desiludiram-se! Para trocar de rei, entregaram a Espanha às tropas do Profeta por sete séculos!

Devido ao pequeno número de verdadeiros muçulmanos no exército de ocupação, a situação dos cristãos nesse novo estado islâmico nunca foi, nem de longe, tão penosa quanto a reservada aos cristãos do Magrebe. No entanto, desde o início da invasão, católicos se refugiaram nas serras da Galícia, de Aragão, de Navarra, iniciando a resistência. Em 718, Pélago retomou o título real da dinastia visigótica. Um sólido bastião foi criado no norte da Espanha e será o ponto de partida da "reconquista".

Por volta de 714, quase toda a península estava, portanto, ocupada. O Califa de Damasco chamou de volta Monça e Tarik. Um novo Califa, Sulaymān (715-717), ascendeu ao poder. O exército conheceu então um período de indecisão. Foi preciso esperar a nomeação de um novo governador da Espanha, Al-Khawlani, para que as operações pudessem ser retomadas.

... rumo à França

Sob o Califado de Umar II (717-720), o exército retomou seu avanço. Penetrou na Septimânia e sitiou Narbonne por volta de 718-719. Não parece que a resistência tenha sido muito intensa. Para explicar esse fato, os historiadores se perguntam se as muito importantes e influentes comunidades judaicas da região não teriam favorecido o estabelecimento muçulmano e anticatólico.

Em maio de 721, as tropas berberes desviaram-se em direção ao oeste, seguiram o vale do Aude e apareceram diante de Toulouse, capital da Aquitânia. O Duque Eudes reuniu um exército e obrigou os muçulmanos a levantar o cerco, tendo seu chefe Al-Sassik sido morto. Um segundo [ataque] levou as tropas de volta a Narbonne. Como o Duque Eudes não o perseguiu, esse fracasso não teve consequências, e foi somente a morte do governador Al-Chawlani que obrigou o invasor a adiar seu projeto.

Na primavera de 725, sob o Califado de Hisham (724-743), o novo titular, Aubasa, marchou em direção a Carcassonne com um forte exército. A cidade capitulou rapidamente. Aubasa morreu durante o verão. Apesar disso, a ocupação total da Septimânia ocorreu rapidamente a partir de Narbonne e de Carcassonne, tornadas praças-fortes operacionais. Após tomar Nîmes e Arles, o exército desembocou no vale do Ródano, que remontou rapidamente. De passagem, Lyon foi saqueada e devastada. Os berbero-muçulmanos alcançaram o sul da Borgonha e saquearam Autun em 725.

O Merovíngio Quilperico II, primeiro Rei da Nêustria, havia sido reconhecido Rei dos Francos pelo Prefeito do Palácio em 719 e havia reunido sob "sua" autoridade os três reinos dos descendentes de Clóvis. O Prefeito do Palácio e general-em-chefe guerreava no momento do avanço muçulmano nas fronteiras do reino contra os bávaros, os saxões e os alamanos. Esse Prefeito do Palácio era Carlos Martel.

As tropas califais, dada a extensão dos territórios conquistados, não formavam mais um verdadeiro exército. Haviam se dividido em várias bandos saqueadores, como assinalaram os cronistas da época.

Na Espanha, acabava de ser nomeado um novo governador, o Emir Abd al-Rahman. Em 731, ele lançou um novo apelo ao jihad e iniciou a terceira campanha, de longe a mais famosa. Um exército de cerca de vinte mil homens reuniu-se em Pamplona. Bastante heterogêneo, incluía uma minoria de orientais, numerosos contingentes berberes, uma grande quantidade de cristãos espanhóis (moçárabes) e judeus formando a infantaria. Somava-se a isso um número importante de escravos cristãos convertidos ao Islã e, segundo a crônica, particularmente ardentes na batalha.

No momento de passar à Aquitânia, ocorreu um incidente curioso. O berbere Munusa, responsável pelas províncias do norte, acabara de desposar Lampégia, filha do Duque Eudes, de quem se tornou aliado. Foi preciso eliminar o traidor. Al-Rahman sitiou o berbere em sua fortaleza de Puigcerdà e o compeliu ao suicídio. Tranquilo quanto à sua retaguarda, o exército pôs-se novamente em marcha. Atravessou o desfiladeiro de Roncesvales, invadiu o Bearne e a Bigorra, destruindo Oloron, saqueando Bayonne, Dax e Auch, e então dirigiu-se a Bordeaux. O Duque Eudes tentou resistir, mas foi derrotado perto da confluência do Garona e da Dordonha. A Aquitânia viu-se entregue ao saque e, mais precisamente, os mosteiros, ocasião de ricos despojos.

Um dos centros religiosos mais fulgurantes da Idade Média era a abadia de São Martinho de Tours. Os saqueadores dirigiram-se para lá, mas muito lentamente, pois, ao subirem para o norte, tomaram e saquearam, de passagem, Périgueux, Saintes e Angoulême. Esse tempo perdido deu a possibilidade ao Duque Eudes de ir pedir ajuda a Carlos Martel...

O Prefeito do Palácio levantou um exército e, cruzando o Loire em Orléans, avançou ao encontro do inimigo. Poitiers não fica longe, mas os muçulmanos atacaram primeiro a Abadia de Santo Hilário. Foi assim que, em outubro de 732, o exército franco pôs em debandada os berberes e seus aliados, perto de Châtellerault, na via romana que liga Tours a Poitiers. O número de mortos, entre os quais o governador Abd al-Rahman, e de prisioneiros foi importante. Infelizmente, Carlos Martel, demasiado preocupado com a situação na fronteira da antiga Austrásia, não aproveitou sua vantagem.

O exército vencido se desarticulou. Uma parte teria se fixado no local, outra se teria dispersado no Maciço Central, e o grosso da tropa reuniu-se em Narbonne.

Tornados prudentes por esse fracasso, os muçulmanos decidiram retomar a invasão pelo lado da Provença, evitando chocar-se novamente contra Carlos Martel.

* * *

Em 734, o governador de Narbonne concluiu um tratado com o Duque Mauronte. Essa Provença, erguida em província independente, "a Vienense", já em 250 depois de Cristo, por separação da Septimânia, que com ela formava a Narbonense, havia sido incorporada ao reino franco em 536 e, desde essa época, sempre havia gozado de uma independência certa, pois era governada por funcionários particulares, os Patrícios.

Seria a intenção oculta de se libertar totalmente dos Francos que fez entregar aos islâmicos várias praças-fortes da margem esquerda do Ródano? Seja como for, sabendo o Prefeito do Palácio na Renânia, estes atacaram. Tomaram Arles, antiga sede do Prefeito das Gálias, Saint-Rémy-de-Provence e Avinhão. Nesta última cidade, a população se revoltou contra a guarnição franca e a expulsou. O Duque pôde entregar a cidade aos invasores, que se apressaram em fortificá-la. Uma série de pequenas guarnições foi instalada ao longo de todo o vale do Ródano, de Avinhão a Lyon.

Na primavera de 737, Carlos Martel, consciente da ameaça assim criada, reuniu um novo exército que confiou a seu irmão Childebrando. Assim que este se dirigiu para Lyon, a guarnição berbere recuou para Avinhão, perseguida pelos francos. Carlos Martel juntou-se a seu irmão com tropas adicionais, incluindo um contingente lombardo, para cercar Avinhão. O choque foi terrível. A vitória franca permitiu uma vingança à altura da ameaça sentida... e da traição: o exército muçulmano e a população foram passados ao fio da espada. Desejoso de reverter totalmente a situação, Carlos foi sitiar Narbona. Um exército vindo da Espanha foi derrotado. No entanto, por razões obscuras e aparentemente mal aceitas pela população local, ele levantou o cerco e retomou o caminho para o norte.

Carlos Martel morreu em 741. Seu filho Pepino, o Breve, sucedeu-lhe, único herdeiro, pois o filho mais novo, Carlomano, tornara-se monge no Monte Cassino.

Em 742, o governador de Narbona deixou a cidade rumo a Córdova. Iria, com um exército, participar de um acerto de contas entre clãs muçulmanos. Os condes visigodos que permaneceram no poder sob o "protetorado" islâmico retomaram um pouco de autoridade e espírito de independência. Além disso, o Duque da Aquitânia realizou um ataque no Languedoque, em 751.

751! Pepino, o Breve, Prefeito do Palácio, depôs o último soberano merovíngio, Childerico III, e o enclausurou num convento próximo a Saint-Omer. A Igreja Católica consentira com essa operação, preferindo um poder temporal sólido. O Bispo Bonifácio (Santo) ungiu o novo rei em Soissons. Imediatamente, o carolíngio assumiu a liderança da reconquista. Recuperou, no ano seguinte, as cidades de Nimes, Agde, Maguelone e Béziers.

Turbulências no Oriente Médio... trégua para os cristãos

Durante esse período, graves turbulências eclodiram no Oriente Médio. A expansão muçulmana na região, inicialmente árabe, tornara-se sírio-palestina. Quando o Império Persa foi derrotado, ocupado e obrigado a pagar tributo, as conversões multiplicaram-se rapidamente. A oposição tradicional entre o mundo greco-sírio e o mundo persa, que ainda contava com muitos fiéis zoroastrianos, islamizados sobretudo pelos xiitas, atingiu o ponto de ruptura. A imensidão do Império árabe-muçulmano fez o resto.

A revolta eclodiu já em 747 na província de Coração, sob o comando de Abân-Moslim. Um recém-chegado, Saffali (Abu al-Abbas), descendente de Abbas, tio do Profeta, considerava os omíadas meros reis. Ele esmagou o exército do último chefe dessa família, Marwan II, e assegurou o poder em 750. Autodenominou-se califa nove anos depois. A dinastia abássida iniciava seu reinado.

Escapando do massacre, um omíada, neto do antigo califa Hicham, Abd al-Rahman, fugiu para o Magrebe e, em seguida, com algumas tropas, desembarcou na Espanha e tomou Córdova em 756. Foi o fundador de uma dinastia muçulmana espanhola que durou até 1031.

Na Septimânia, a guerra contra o ocupante islâmico-berbere continuava. Em 759, os cristãos de Narbona se revoltaram e massacraram a guarnição. A cidade abriu suas portas ao rei dos francos, pondo fim a quarenta anos de ocupação. As disputas entre o poder central dos abássidas e o Emir de Córdova, por um lado, e a luta deste contra os governadores de províncias, especialmente os dos Pireneus, Saragoça, Huesca e Barcelona, que permaneceram fiéis a Damasco, enfraqueceriam fortemente os muçulmanos. Os carolíngios não deixaram de tirar proveito disso, apoiando-se ora no califa, ora nos emires locais; o Languedoque conheceu assim um período de paz.

A DINASTIA ABÁSSIDA (750-1050)

Essa família impôs-se, portanto, em Damasco, com o apoio dos persas, muito imbuídos do xiismo.

Os cismáticos nestorianos, perseguidos por Bizâncio desde 457, começaram a se refugiar na Pérsia. Seu papel ali tornou-se importante. Enviaram, inclusive, missões para fora do Estado (conversão dos curdos antes de 600) rumo à Índia, à China, ao Turquestão e ao Tibete. Nunca se opuseram à penetração muçulmana. Aliados a essa dominação, quando Bagdá, às margens do Tigre, perto da antiga Ctesifonte, foi escolhida pelo califa abássida como capital em 762, o Católico nestoriano ali se instalou. Ele trouxe aos novos senhores seus mercadores, escribas, intelectuais, médicos e sábios. A ajuda assim fornecida permitiu-lhes continuar sua evangelização até a Ásia Central.

Esse império abássida conheceria uma série de evoluções, em diferentes níveis, que o conduziria ao enfraquecimento e depois ao colapso.

O primeiro problema foi o da unidade. A dimensão dos territórios dominados, as diferenças étnicas e as disputas religiosas levaram, como em Bizâncio, ao despertar dos nacionalismos.

Já em 755, um omíada havia se juntado a Córdoba, na Espanha. Em 800, o governador Ibn Sâlim obteve do califa a concessão do Emirado tunisiano de Cairuão em caráter hereditário. Ele se emancipou em seguida e fundou sua dinastia, os aglábidas, que reinou até 910. Essa família conquistou a Sicília por volta de 827 e Malta em 863. Foi derrubada pelos fatímidas do Egito.

Os berberes, anteriormente católicos, mudaram de rito muçulmano. Tendo aderido ao carijismo, sob esse pretexto religioso, atacaram os sunitas de Cairuão e fundaram diversos reinos em Tremecém e em Tiaret.

Um álida do ramo hasânida, Idris, escapando do massacre, chegou em 786 ao Egito e depois ao Norte da África. Após numerosas campanhas contra as tribos cristãs remanescentes, foi reconhecido como "Imã" por uma tribo berbere do Marrocos. Ele então se apoderou de Tremecém e fundou a cidade de Fez. Seu filho, nascido de uma berbere, foi proclamado soberano e fundou por volta de 790 o reino xiita do Marrocos, com Fez como capital.

* * *

É preciso constatar que, no final do século VIII, se o Islã como religião... obrigatória e imposta militarmente havia se espalhado amplamente, a autoridade física do califa existia apenas em um pequeno raio ao redor de Bagdá.

Isso se tornou ainda mais sensível após a morte do califa Harun al-Rashid (766-809), um dos maiores representantes da dinastia. Ele vivia no famoso palácio da "Porta de Ouro", em um esplendor que talvez nenhum príncipe oriental jamais tenha igualado.

Vendo no emir omíada de Córdoba apenas um rebelde a decapitar, desconfiando de Bizâncio, à qual fez pagar tributo por duas vezes, Harun tentou se aproximar do carolíngio Carlos Magno. O Rei da França, sagrado em 800, em 25 de dezembro, Imperador do Ocidente, combatendo Córdoba ao sul e se opondo ao Basileu na Itália, aproveitou a ocasião. O Imperador desejava proteger os peregrinos que, em número cada vez maior, se dirigiam a Jerusalém e aos Lugares Santos. O califa aceitou que todas as comunidades cristãs da Palestina e os peregrinos fossem colocados sob a proteção franca. O Ocidente católico ganhava pé no Oriente.

A desintegração progressiva do império abássida

A revolta fervilhava na Pérsia, onde os mazdeístas e a pressão nascente das tribos turcas criavam uma instabilidade permanente. Em Coração, por volta de 750 já, Mankana, o homem da máscara de ouro que se dizia a reencarnação de Abu Muslim, dominou com sua horda toda a região durante um ano.

Em 869, os escravos negros importados da África – a solidariedade comercial e escravagista do Islã funcionando muito bem – se revoltaram, agrupados em torno de um suposto descendente de Ali. Eles ocuparam a Baixa Mesopotâmia durante vinte anos. Massacrando os árabes, chegaram a tomar Bassorá e destruíram vários exércitos enviados contra eles por Bagdá.

Por volta de 860, revoltaram-se camponeses e artesãos igualitaristas carijitas, cujo chefe, Saffar, era um antigo funileiro. Ele controlou em pouco tempo todo o extremo leste da Pérsia, a província do Seistão. Tendo obtido a investidura do califa, anexou a província do Sinde, no curso inferior do Indo, e o Coração, onde instalou sua capital. Foi o fundador da dinastia dos safáridas (863-902) e ousou até atacar Bagdá em 879.

Aparição da dinastia fatímida

Além disso, uma mistura de xiitas e carijitas, oriundos de sociedades secretas, os carmatas, ensanguentou a Baixa Mesopotâmia e depois o norte da Síria. Seu líder era... o Imam Oculto, descendente de Ali e de Fátima, Ubayd Allah al-Mahdi. Ele passou para o Magrebe, conquistou os berberes para sua causa por volta de 880 e fundou a dinastia dos fatímidas.

A dinastia dos fatímidas instalou-se em Cairuão, destituindo os aglábidas. Estendeu seu domínio da Tripolitânia até os confins do reino do Marrocos. Seus corsários saquearam as costas da Itália, a Provença, a Córsega, a Sardenha, Gênova e Tessalônica em 924. Este último saque, no puro estilo muçulmano, resultou no massacre de toda a população, exceto vinte mil jovens garotos e garotas, vendidos como escravos.

Os fatímidas conquistaram o Egito em 969. O Cairo tornou-se sua capital em 972. Aproveitando-se da deterioração do poder abássida, avançaram até a Palestina e a Síria central. Foram os fundadores da Universidade cairota de Al-Azhar, ainda existente.

Seu domínio sobre o Magrebe não se deu sem dificuldades. O Marrocos passou para a obediência do Emirado de Córdova por volta de 980. A Argélia e a Tunísia, especialmente os doutores sunitas de Cairuão, revoltaram-se e, em 1046, pediram socorro a Bagdá. A repressão fatímida, em 1052, foi feroz. Os saques devastaram toda a região, causando uma regressão geral, tanto agrícola quanto urbana.

O avanço islâmico em direção à África Negra

Essa política de terra arrasada iria, infelizmente, servir aos interesses do Islã... Uma forte corrente de emigração para o sul levou as tribos berberes irredutíveis a criar Estados Nômades, com as populações deslocadas. Eles se estabeleceram nos oásis e depois rumo ao lago Chade e ao Tibesti. Do século IX ao X, esses Estados viverão de saques às terras dos negros.

Os diversos potentados negros reagiram e reverteram a situação, em particular os soberanos do Gana que, em 990, submeteram certas tribos nômades.

Finalmente, quando no século XI os Nômades foram completamente islamizados, lançaram a Jihad. Perto do fim do século, os muçulmanos haviam conquistado um império que ia da Mauritânia ao Níger, recuperando, de 1054 a 1076, o imenso reino do Gana. Entrando em colapso no século XII, dividiu-se em vários principados independentes, mais ou menos islamizados, que gradualmente empurraram os Muçulmanos para o norte. Embora os diversos reinos que existiram do século XI ao XV fossem mais ou menos impregnados de Islamismo, eles não foram mais dominados por um branco. Uma exceção, no Saara, Tombuctu permaneceu um grande centro religioso muçulmano, universitário e missionário.

Comércio e escravidão através do Saara

A conquista pela espada ou pela lança estava terminada, foi substituída pelo comércio... Desde o século VIII, aliás, as caravanas atravessavam o Saara, por numerosas rotas muito frequentadas, indo da África subsaariana ao Egito e ao Magrebe. O tráfico incluía, num sentido, o ouro e o cobre das minas do Saara, o marfim e os couros africanos; no outro, muitas mercadorias europeias.

O comércio de escravos negros seguiu as mesmas rotas. Começara por volta de 666, quando Sidi Oqba fez os oásis do Fezzan pagarem um tributo de várias centenas de homens. Esses negros foram vendidos como domésticos e alguns foram recrutados para o exército. O tráfico foi estimado em vinte mil cabeças por ano, ou seja, dois milhões por século. Capturados nas zonas arbustivas, ou vendidos por um reizete, reunidos nos grandes mercados das zonas de savana, transitavam, mercadorias vivas autorreprodutíveis, pelas trilhas em direção ao Egito e à Arábia, devidamente escoltados pelos Nômades.

Nessa ocasião, é bom esclarecer alguns pontos: a revolta do Mahdi no Sudão anglo-egípcio durante o século XIX teve como causa principal a vontade inglesa de abolir a escravidão; a escravidão só foi abolida na Arábia Saudita em 1962 e, em 1980, na Mauritânia...

A evolução no Oriente do século VIII ao XI.

Durante essa penetração africana, bem independente da vontade do Califa de Bagdá, a situação do poder não havia melhorado. As bandos carmátidas que não seguiram Allah-al-Mahdi continuaram suas exações. Em 930, conseguiram saquear Meca e apoderar-se da Pedra Negra, que mantiveram por vinte anos.

O processo de destruição do poder central deu-se em duas etapas, mas testemunhou sobretudo o amolecimento físico dos conquistadores no luxo e nos prazeres do Oriente. Primeiramente, o Califa abandonou o poder civil a um Vizir, chefe todo-poderoso dos escritórios, os diwan. Foi uma evolução em todos os pontos semelhante à sofrida pelos merovíngios diante dos Prefeitos do Palácio.

Haroun-Al-Rashid teve um sobressalto e livrou-se em 803 da demasiado invasiva família dos Barmécidas, pois soubera conservar o poder militar. Um governo duplo estendia-se assim sobre todo o Império: administração civil e estrutura militar.

O processo terminal foi iniciado pelo abandono do controle dos exércitos nas mãos dos generais persas e, depois, dos capitães de tribos turcas. Foi o problema do pagamento do soldo das tropas que permitiu a mudança. A partir do século IX aproximadamente, os soldos não eram mais pagos em dinheiro vivo, mas pela concessão, ao chefe de unidade, de um território do qual ele cobrava os impostos como direito de arrendamento ou as rendas. Ao chefe cabia o cuidado de pagar os soldos em espécie. Na etapa seguinte, esse chefe, por sua vez, pagava distribuindo uma parte de seus direitos. Finalmente, esse direito tornou-se vitalício e depois hereditário: o funcionário transformava-se em um feudal. Os exércitos tornaram-se propriedades privadas de chefes que os colocavam à disposição de quem quisessem ou os usavam para seu proveito pessoal... Seguiu-se a criação de principados ou dinastias independentes mais ou menos importantes.

Assim, o século X viu a supremacia da dinastia dos samânidas (902-999), que reinou sobre imensos territórios que se estendiam do mar de Aral ao Oceano Índico e ao Golfo Pérsico. Ela manteve uma civilização muito brilhante nas fronteiras do mundo árabe. A última dinastia persa e xiita foi a dos buídas, que se revoltou em 932, reinou sobre o oeste da Pérsia e, finalmente, impôs sua suserania aos abássidas em 946.

Estes, aliás, tiveram uma atitude bastante passiva em relação a esses movimentos e contentaram-se em lutar contra Bizâncio. Haroun al-Rashid mostrou-se o mais eficaz.

Em 927, o Império do Oriente reergueu-se e retomou a luta com vigor. Era a época em que os fatímidas subiam do Egito em direção à Palestina e ao litoral libanês. Os exércitos bizantinos tinham um excelente chefe. Libertaram Creta em 961, depois alcançaram a Cilícia e lançaram incursões através do território muçulmano. Com Chipre e Antioquia reocupadas, as tropas de Nicéforo Focas dirigiram-se ao litoral para opor-se ao avanço fatímida, que em 974 havia alcançado Beirute. Os bizantinos apoderaram-se de Damasco e penetraram na Palestina. Estavam no litoral quando a doença atingiu seu comandante, e foi o retorno a Bizâncio. Posteriormente, o Basileu assegurou simplesmente o domínio da fronteira nos limites da Síria e voltou seus exércitos para a Armênia e a Bulgária.

Assim, livres em sua ação, os fatímidas desencadearam uma violenta ofensiva em direção aos Lugares Santos no início do século XI. Ofensiva acompanhada de uma terrível perseguição contra os católicos: o Santo Sepulcro e as Igrejas de Jerusalém foram destruídos em 1010. O Califa Al-Hakim enlouqueceu de orgulho. Acabou por se proclamar Deus... e foi assassinado. Conservou discípulos e, atualmente, os drusos, habitantes do norte da Síria e do Líbano, ainda o veneram, o que explica muitas coisas.

A ascensão dos turcos e o fim dos abássidas.

Os abássidas, muito enfraquecidos, acabariam por desaparecer sob os golpes de seus poderosos servidores militares, os turcos.

Havia muito tempo que as tribos turcas se movimentavam. Partidas das Montanhas Altai, acima do deserto de Gobi, dirigiram-se para a planície mongol, a floresta siberiana e a imensa estepe que se estende do Ob ao mar Cáspio... Uma das primeiras assinaladas, os T'ou-Kive, do chefe Boumin, dividiu-se em dois grupos. A banda ocidental ameaçou a Pérsia. Instalou-se na Transoxiana ou Turquestão. Essa região, limitada ao nordeste pelo mar de Aral e pelo rio Syr Daria, tinha numerosas cidades construídas pelos persas. Os turcos convertidos ao Islã ali permaneceram sob a tutela dos samânidas.

Outros turcos forneceram milícias aos califas de Bagdá, em lutas frequentes contra os persas independentes do leste. De 836 a 892, tendo eclodido distúrbios entre os vinte mil homens da guarda turca do Califa e a população da capital, a corte teve de se exilar, mais ao norte, em Samarra. Os califas seguiam suas tropas!

Uma tribo turca, os Rhaznévidas ou Gaznévidas, cujo chefe era governador de Coração, apoderou-se do Afeganistão e emancipou-se. Começou a conquista da Índia no final do século X.

No final do século X, o epônimo turco Saldjuq e suas tribos confederadas seguiram a rota habitual. Descendo do Altai, estabeleceram-se na foz do Rio Sir Dária, aceitando mais ou menos serem vassalos dos Samânidas e depois dos Caracânidas. Foram convertidos ao Islã por missionários sunitas vindos de Bagdá. Essa fé religiosa novinha em folha, sua aptidão e seu ardor na guerra fizeram com que esses turcos se lançassem à conquista da Ásia para instaurar seu domínio e restaurar um islamismo unitário, puro e duro.

Em 1040, os Seljúcidas, em nome de seu primeiro chefe, tomaram Coração dos Gaznévidas, conquistaram a Pérsia, cuja capital, Ispaã, ocuparam por volta de 1051. Finalmente, substituíram em Bagdá, em 1055, os Buwayhidas como protetores do califa abássida. Seu chefe, Toqhrul Beq, recebeu o título de Sultão. O poder pertencia a ele.

Os altos e baixos do Islã ocidental

Durante o colapso dos Abássidas, o que acontecia com a presença muçulmana na Europa?

Como já foi mencionado, o Emir Abd-al-Rahman, omíada, que tomara o poder em Córdova em 755, enfrentava a oposição dos governadores provinciais.

Em 765, o rei Pepino, o Breve, enviou uma embaixada a Bagdá. Em 768, recebeu por sua vez os embaixadores muçulmanos em um castelo do Loire; tratados com magnificência, partiram carregados de presentes. No mesmo ano, Carlos Magno, ao ascender ao trono, continuou a política paterna. Finalmente, em 777, o governador de Saragoça em pessoa veio encontrar Carlos em Paderborn, na Saxônia, para pedir-lhe assistência contra o Emir de Córdova.

O carolíngio levantou um exército e, munido de uma carta de incentivo do Papa Adriano I, pôs-se em campanha. No final de maio de 778, os Pireneus foram cruzados em Roncesvales e as tropas juntaram-se diante de Saragoça às que vieram pelo passo de Perthus. Os governadores muçulmanos, como garantia de sua sinceridade, confiaram seus filhos aos chefes francos. O exército avançou através de Aragão, Navarra e Catalunha. Infelizmente, na Germânia, os saxões de Witikind haviam retomado o combate... Carlos, levando consigo as crianças mouras, preferiu voltar atrás para alcançar seu reino o mais rápido possível. Os muçulmanos só pensavam em recuperar os jovens reféns. Na rota de retorno, os francos tomaram de assalto a cidade de Pamplona, incitando assim os bascos à vingança. Foi preciso passar por Roncesvales. Os bascos deixaram passar o grosso das tropas e armaram uma emboscada à retaguarda, que levava os reféns. A configuração do terreno permitiu o massacre dos francos e a libertação dos cativos. Carlos Magno, voltando atrás, encontrou apenas cadáveres.

Consciente dessas dificuldades, não querendo jogar o jogo astuto com seus efêmeros aliados, o Rei criou uma vasta zona-tampão entre seu reino e a Espanha islâmica: o Reino da Aquitânia, que confiou a seu filho mais novo, Luís, em 781.

Enquanto isso, o Emir de Córdova consolidava seu poder e, em 793, Hisham I, sucessor de Abd al-Rahman, retomou o jihad contra os católicos. Um exército mouro veio sitiar Narbona e depois dirigiu-se a Carcassonne. O Duque de Toulouse acorreu em socorro da praça. As forças francas foram esmagadas. A situação tornava-se novamente crítica.

Felizmente, os muçulmanos não puderam se unir, e o Rei preparou o terreno com numerosas negociações. Assim, em 796, o tio do Emir de Córdova veio a Aix-la-Chapelle para se colocar à disposição de Carlos. Este hesitou, lembrando-se do fracasso da campanha anterior, mas em 798 optou por uma ofensiva visando à ocupação dos altos vales pirenaicos. Em dez anos, de 801 a 811, o Rei da França, tornado Imperador do Ocidente, estabeleceu-se solidamente numa linha de praças-fortes: Lérida, Barcelona, Pamplona, Tarragona e Tortosa. A "Marca" da Espanha, ao sul das montanhas, foi criada. Será, com o Reino das Astúrias, um dos baluartes de onde partirá a "Reconquista".

Os Emires de Córdova sempre tiveram uma posição difícil. Condenados por Bagdá, eram agora hostilizados pelos novos estados muçulmanos do Magrebe. Por consequência, tentaram obter a cessação da ofensiva franca e até mesmo ajuda militar. Numerosas tréguas foram estabelecidas em 810, 816 e 839, mas os sucessores de Carlos Magno, morto no início do ano de 814, estavam mais atraídos por Bagdá. Logo tiveram outras preocupações. Uma guerra fratricida ocorreu, terminando em 834 com o Tratado de Verdun. Carlos, o Calvo, fruto de um novo casamento de Carlos Magno, tornava-se Rei da França. Em 847, assinava com o Emir de Córdova, Abd al-Rahman II, o tratado de paz.

A guerra contra o Islã não cessou por isso e tomou outro rumo. Os Cavaleiros de Alá, homens a cavalo e condutores de dromedários, adaptaram-se bem ao mar e à navegação, sob o terceiro califa Uthman, fundador da "marinha" muçulmana. Seus corsários, desde o final do século VIII, atacaram as costas da Provença. É a época da construção das torres "sarracenas", usadas para a vigia e a resistência aos desembarques. Os piratas, chamados sarracenos, mistura de muçulmanos e marinheiros, escória das nações mediterrâneas, tinham suas bases no Magrebe, na Sicília e na Sardenha.

Por volta de 850, eles se estabeleceram na Camargue. A partir dali, lançaram ataques contra a Provença: Arles é saqueada, e a riquíssima abadia de Saint Césaire devastada. Distúrbios devidos tanto à escassez quanto a revoltas eclodiram na Espanha, impedindo a extensão da conquista ao reino do rei Luís da Provença.

Não foi por muito tempo. Por volta de 890, a ocupação do maciço dos Maures (Djebel al Kilâl) foi realizada. A implantação, bem-sucedida com poucos meios, aproveitou-se das discussões e rivalidades existentes entre os senhores feudais da região. Pouco a pouco, a comunidade muçulmana se fortaleceu e, graças a fortificações militares, o maciço foi organizado em verdadeira base de partida para operações mais importantes.

Toulon foi a primeira cidade destruída. Antibes e Villefranche-sur-Mer sofreram o mesmo destino. A oeste, os "mouros" alcançaram Marselha em 923 e, depois, Aix-en-Provence, cuja população foi em parte levada à escravidão. Outras bandos muçulmanos avançaram para o norte. As cidades episcopais caíram uma após a outra: Vence, Glandèves, Senez e Riez. Depois, foram atacadas Manosque e Apt em 896, Sisteron em 911 e Embrun em 916. A partir dali, os mouros e os sarracenos estabeleceram seu domínio sobre todos os passos alpinos. Já em 910, estavam em condições de cobrar tributo dos peregrinos que se dirigiam a Roma. Em 911, o Bispo de Narbonne não conseguiu passar. Subindo sempre mais longe, atacaram em 936 a abadia de Saint Gall, nas terras do rei da Germânia, Arnulfo.

Paralelamente, os aglábidas de Kairouan, senhores da Sicília, consideravam o sul da Itália como seu território de caça. As rivalidades existentes entre lombardos e napolitanos deram-lhes a oportunidade de cruzar o estreito de Messina. Instalaram-se em 836 em Tarento. Bizâncio tentou reagir a partir de suas possessões venezianas, mas um ataque sarraceno devastou a planície do Pó. A desunião dos cristãos entregou-lhes Bari. Em 846, desembarcaram na foz do Tibre e saquearam a Basílica de São Pedro, fora dos muros de Roma.

A intervenção do exército de Luís II, Rei da França, bisneto de Carlos Magno pela primeira esposa de Luís, o Piedoso, resultou em fracasso. Os muçulmanos partiram com seu butim sacrílego. Este carolíngio sentiu verdadeiramente que a Cruzada era e seria necessária para expulsar o Islã da Europa. O Papa Leão IV o coroou Imperador Romano do Ocidente. Ele lutou contra os muçulmanos até 871, ajudado pela frota bizantina. Após quatro anos de esforços, retomou Bari, mas morreu em 875. Seus tios dividiram seu reino entre si. Carlos, o Calvo, tornava-se então Imperador. Os sarracenos continuaram seus ataques, e o Papa pregou a Cruzada em vão.

Muito pelo contrário, os cristãos, em lutas incessantes uns contra os outros, tomaram-nos como aliados: o Duque-Bispo de Amalfi os instalou ao pé do Vesúvio, e a cidade de Gaeta os enviou aos Estados Pontifícios. Em desespero de causa, apesar do cisma oriental, o Papa João VIII apelou ao espírito da cristandade e pediu ajuda a Bizâncio. O Basileu enviou sua frota sob o comando de Nicéforo Focas. As pequenas principados do sul da Itália se submeteram, e as frotas sarracenas sofreram grandes desastres...

A Itália salva dos muçulmanos, a crise cristã iria se agravar. Do assassinato do Papa João VIII à falência do Império do Ocidente até 962 com Otão e o apagamento dos últimos carolíngios diante dos normandos, deixando o sul da França invadido, a Catolicidade parecia muito doente.

Encorajados pelas vitórias de seus congêneres, sua ocupação da Provença, seu domínio sobre as rotas alpinas, os muçulmanos da Espanha partiram novamente ao ataque. Em 920, um exército veio acampar sob os muros de Toulouse... Na Provença, o Rei de Arles, Hugo, tentou por volta de 942 uma ação contra os mouros com o apoio da frota de Nicéforo Focas. A rivalidade que o opunha ao Rei da Itália e último Imperador do Ocidente, Berengário, fê-lo tomar os mouros como aliados! A instalação de suas tropas no alto vale do Isère, na Maurienne, foi oficializada. Em 968, o novo Imperador Otão I, consciente do perigo, planejou uma expedição, mas morreu em 973 sem ter realizado seu projeto.

Pouco a pouco, porém, as exações dos sarracenos estimularam a nobreza regional. Um Abade de Cluny, a caminho de Roma, foi sequestrado em 21 de julho de 972. Na falta dos carolíngios, últimos descendentes de Carlos, o Calvo, substituídos à frente do combate contra os novos invasores normandos pelos Duques Robertianos, de onde nasceria a dinastia capetíngia, os Senhores e feudais franceses e italianos se coalizaram com o apoio da frota bizantina. Eles venceram os mouros no decorrer do ano de 973. Sinal incontestável da vitória, a cidade de Fréjus recebia em 975 um novo Bispo.

Grande parte da comunidade muçulmana foi massacrada. Uma parte deixou descendência na região; de fato, uma carta da Abadia de Montmajour, perto de Arles, datada de 998, assinala a presença de escravos sarracenos de ambos os sexos. Certamente, ainda houve algumas incursões muçulmanas em solo francês em 1020 em Narbonne e em 1046 nas Ilhas de Lerins, mas a ameaça havia desaparecido.

O renascimento católico tornava-se cada vez mais forte. A expansão da Cruz retomava, indo até os países nórdicos. Roma iria conhecer uma série de Papas formados por Cluny. Os capetíngios, primeiros reis verdadeiramente franceses de linhagem, e os Imperadores Romano-Germânicos como Otão III ou Henrique II, por sua autoridade e obediência global à Igreja, iriam preparar o consenso indispensável à reconquista católica e às Cruzadas.

* * *

O renascimento não era exclusivamente católico e europeu. No Oriente, preparava-se o advento de uma dinastia muçulmana que iria resistir aos assaltos dos cruzados.

Mais ou menos na mesma época em que Bizâncio, cismática, separava-se de Roma com seu Patriarca Miguel Cerulário, excomungado em Santa Sofia pelos Legados pontifícios, os turcos, "raça militar jovem", redutavelmenteinegavelmente mais temíveis que os civilizados amolecidos em que se haviam tornado os árabes e os persas, mostravam sua força. Senhores de Bagdá, os homens da dinastia dos seljúcidas velariam pela reconquista sunita no meio muçulmano.

L. D.