Skip to main content

NAS FONTES DO RECENTRAMENTO APÓS O CONCÍLIO VATICANO II

Há pelo menos um século e meio, digamos 1830 para ser breve, a Igreja e toda a sociedade cristã têm sido submetidas, por parte de um número crescente de clérigos e leigos, a um projeto de transformação radical: gradualmente, este se estendeu das relações com a sociedade civil e política à doutrina religiosa e às estruturas eclesiais, e até mesmo aos recônditos íntimos da vida espiritual.

Esta empreitada, que se pode classificar globalmente como a do "Catolicismo Liberal", e que teve um impulso decisivo após 1880, baseava-se fundamentalmente em uma mentalidade racionalista e numa intenção de Alinhamento ao mundo moderno oriundo do pensamento cartesiano e da Revolução.

Ela culminou e triunfou no Concílio Vaticano II, após a morte do Papa Pio XII, sob os pontificados de João XXIII e Paulo VI, produzindo rapidamente os frutos lógicos de suas premissas, ou seja, a decomposição das estruturas institucionais e doutrinárias do catolicismo.

Viu-se então um certo número de fiéis protestar e até mesmo se levantar contra essa demolição que se podia bem qualificar, em certo sentido, de autodemolição, e é a essa corrente que se deu o rótulo, que se queria injurioso, de integrista e tradicionalista.

Enganar-se-ia, no entanto, gravemente quem imaginasse essa reação simples e unívoca. Um exame não superficial, que ultrapasse o mero sentimento, a revela, ao contrário, como complexa e muito equívoca, e, quanto mais os anos passam, mais esses traços se tornam visíveis, evidentes até para quem não fecha voluntariamente os olhos.

É, portanto, a este exame que devemos proceder, pois tornou-se indispensável e até mesmo urgente para quem quiser evitar ser arrastado, entre tantos outros, para as areias movediças do pseudo-tradicionalismo.

* * *

Desde os primórdios dessa reação, entre 1965 e 1970, pôde-se constatar uma dualidade entre duas correntes doutrinariamente diferentes, embora em estreito contato pela franja de seus adeptos.

Encontramos, por um lado, os grupos que contestavam radicalmente a orientação conciliar, bem como suas fontes pré-conciliares, e foram se organizando gradualmente para suprir as defecções eclesiásticas, sobretudo no plano dos sacramentos, com a instalação de capelas, escolas e casas religiosas autônomas.

Em quinze anos, essas microrredes se desenvolveram a ponto de oferecer a quase todos que realmente desejam a possibilidade de continuar uma vida católica verdadeira, ao preço de mil dificuldades, sem dúvida, mas real, no entanto, o que, no meio da dissolução das instituições eclesiais oficiais, aparece como algo inteiramente providencial.

Existe, por outro lado, um certo número de realizações diversas, apresentando uma tendência diferente que quer, não mais contestar e recusar, mas lamentar e reivindicar. Muitas organizações foram assim criadas para protestar junto à hierarquia legal contra os novos catecismos, ou contra o abandono do Latim e do Gregoriano na liturgia, por exemplo.

Os partidários dessa linha, no entanto, continuavam em geral a participar da práxis da "Nova Igreja", mesmo que criticassem incessantemente o que chamavam de "excessos". Foi assim que se viu desenhar-se rapidamente uma sutil distinção entre o Concílio e o para-Concílio, entre os textos do Concílio e o espírito do Concílio, etc. Queria-se, assim, tranquilizar-se estabelecendo um fosso entre um Concílio que teria promulgado reformas limitadas e sábias e um pós-Concílio que teria realizado uma revolução intensa e louca.

Essas noções logo se viram repercutidas e difundidas amplamente pelos meios de comunicação de massa, tornando-se bastante difícil conhecer sua origem e fonte exata.

Certamente é verdade que essa "análise" correspondia em larga medida ao desejo, ao sonho de muitos elementos tradicionais autênticos. De fato, tomados nessa tormenta da Revolução na Igreja, onde viam desaparecer tanto as bases fundamentais do cristianismo quanto seus mais caros e antigos costumes, muitos tradicionalistas recusaram então ver a verdade sobre a revolução em curso e preferiram embalar-se com explicações lenientes que os tranquilizavam, tanto em relação ao passado e ao presente quanto ao futuro.

Mas, na verdade, se aprofundarmos mais a questão, percebemos que essa corrente de protesto "contra os excessos" reunia também pessoas e grupos substancialmente diferentes, e que ao lado dos tradicionalistas "sonhadores" se encontravam pessoas muito mais seguras de suas posições, mas bem menos tradicionais, e cuja presença neste ponto é até das mais surpreendentes, como veremos em breve.


O ano de 1968, de que todos se lembram, desempenhou um papel de catalisador, de acelerador do processo revolucionário, tanto no âmbito religioso quanto no civil, desenvolvendo uma atmosfera de anarquia mais do que de revolução, uma anarquia negadora das instituições, mesmo que estas fossem portadoras de revolução, como tantas vezes se tornara o caso na Igreja desde, pelo menos, 1943/1945.

Esse fenômeno gerou, nos dois anos seguintes a 1968, um pouco por toda parte e em diversos domínios, um certo número de correntes de reação contra a desestabilização, a desorganização. Esse movimento foi particularmente sensível no meio universitário, onde favoreceu grandemente o surgimento da "Nova Direita", mas manifestou-se também no seio da Igreja, onde, a partir de 1970, reuniram-se alguns dos mais célebres fautoresdefensores da Revolução Conciliar: os incendiários descobriam de repente uma vocação de bombeiros.

Como explicar tal reviravolta? A tese clássica dos revolucionários moderados ultrapassados pelos extremistas, a dos girondinos contra os jacobinos, é insuficiente aqui em matéria religiosa, e explicaria mal o atrativo que tal empreendimento pôde exercer simultaneamente sobre cristãos tidos como não progressistas, ou mesmo tradicionais.

É preciso buscar mais profundamente na natureza da mensagem cristã, em suas relações com o mundo, e especialmente convém situar essa reviravolta na evolução dos espíritos, mesmo fora do cristianismo, nesse vasto e turvo movimento de rejeição do racionalismo e retorno ao espiritualismo, a um certo espiritualismo, que se fez notar há quase um século e começou a se impor nos últimos vinte anos (nota 1).

Nossos leitores habituais não se surpreenderão em reencontrar aí o tom e, talvez, a influência do neotradicionalismo guenoniano, com sua crítica ao mundo moderno e racionalista e seu panegírico da religião tradicional, que se traduz pelo respeito a certas constantes religiosas indispensáveis ao homem, mas também pela abertura a uma transcendência muito amplamente compreendida e diretamente negadora dos fundamentos do cristianismo.


Fidelidade e abertura! de certa forma. É precisamente o tema de uma reunião que ocorreu no final do ano de 1971 e que marcou a primeira manifestação de um grande movimento de "recentralização" que se prosseguiu depois de forma mais ou menos discreta e que está a todo vapor há mais de três anos.

Esse colóquio europeu de intelectuais católicos, em Estrasburgo, em novembro de 1971, reuniu mais de uma trintena de participantes sob a direção daquele que foi seu promotor com o cardeal Daniélou, Gérard Soulages. Sob o risco de ser fastidioso, o melhor é dar a lista, por si só muito esclarecedora:

Além de Soulages e Daniélou, Dom Elchinger, o bispo de Estrasburgo, Jean Guitton, o Professor Cullman (teólogo luterano, observador oficial no Vaticano II, e que enviou uma carta de aprovação), o cardeal Villot (que enviou um telegrama de encorajamento como secretário de Estado do Papa Paulo VI), o cardeal Journet, Dom Maurice Nédoncelle, ex-deão da Faculdade de Teologia de Estrasburgo, Dom Bruno de Solages, ex-reitor do Instituto Católico de Toulouse, Pe. de Lubac SJ, Pe. Congar OP, Olivier Lacombe, professor do Collège de France, o cardeal Pellegrino, arcebispo de Turim, Gabriel Marcel, Henri Hours, Pe. Holloway, Jacques Perret, da Sorbonne, Jean de Fabrègues, Claude Bruaire, René Pillorget, Padre Feuillet PSS, e Rémi Brague, das equipes Ressurreição de Montmartre (de onde mais tarde sairia o futuro cardeal Lustiger).

Esse colóquio era diretamente oriundo do "Movimento dos Silenciosos" e, se não trazia ostensivamente essa etiqueta, era com a intenção compreensível, e aliás confessada, de não comprometer seus participantes. Por outro lado, situava-se explicitamente na linha da mensagem endereçada ao Papa Paulo VI por um certo número de intelectuais católicos em dezembro de 1968, mensagem de fidelidade lançada por Maurice Vaussard e Henri Rollet (as duas tendências misturadas, já!) e assinada, entre outros, por Étienne Gilson, Gabriel Marcel e André Piettre.

Os Atos do Colóquio foram publicados numa obra intitulada "Fidelidade e Abertura"Abertura", cuja leitura é muito enriquecedora, pois nela se encontram a maioria dos temas desenvolvidos desde então pelos partidários da "Recentralização". É indispensável para cada um consultar esses textos, e nos contentaremos em citar aqui as linhas introdutórias:

"Este livro é oriundo do Colóquio europeu de intelectuais cristãos que se realizou em Estrasburgo em novembro de 1971. Filósofos, pensadores, teólogos, todos os que ele reuniu estavam unidos pela mesma preocupação: provocar uma reflexão sobre a responsabilidade e os deveres dos cristãos na crise atual que abala as Igrejas, particularmente a Igreja Católica: degradação do sentido dos sacramentos, desalento dos meios sacerdotais, desorganização das estruturas eclesiais, perversão da linguagem teológica.

... Sua atitude se resume em duas palavras: fidelidade e abertura. Fidelidade que não poderia ser assimilada à saudade nostálgica do passado, abertura que se recusa a ser uma canonização sistemática da mudança.

... Como repensar a Verdade cristã e reformulá-la para dar resposta aos novos apelos dirigidos à Igreja, mas seguindo o fio direito da longa e lenta tradição que é a própria essência da vida, tal é o cerne do debate aqui iniciado. (nota 2).


Uma segunda iniciativa, muito importante, foi a criação em 1975 da revista "Communio"Communio", sob o patrocínio do Padre Urs von Balthazar e por impulso de Monsenhor Joseph Ratzinger, futuro cardeal e futuro chefe do Santo Ofício.

Já no primeiro número, em setembro de 1975, encontramos um certo número de participantes do Colóquio de Estrasburgo, bem como nomes muito reveladores, os de dois gnósticos convictos, Costa de Beauregard e Philippe Nemo, e o de um jesuíta, o RP Caillaux, dirigente da importante comunidade carismática do Caminho Novo em Lyon.

Reunindo uma elite de teólogos e intelectuais, muitos dos quais jovens jesuítas, esta revista rapidamente alcançou difusão internacional, sendo editada em sete idiomas: alemão, francês, inglês, italiano, espanhol, croata e neerlandês, com edições em árabe, português e polonês já anunciadas.

Desde seu lançamento, esta revista foi apresentada como o contrapeso, a antítese da revista hiperprogressista "Concilium"Concilium", maestro da guerra contra a Tradição católica durante o Concílio Vaticano II, e há dez anos ela difunde um pensamento teológico de alto nível propício ao recentramento.

No início de 1982, um terceiro elemento revelador surgiu na própria França, parecendo testemunhar um progresso e uma diversificação dos temas do Recentramento. A revista "Integração" é, na verdade, uma emanação da revista Communio,Communio, uma espécie de prolongamento francês em direção a outros meios aos quais a revista alemã não podia se dirigir diretamente, e, aliás, o título "Integração" foi retirado de Communio.Communio.

Percebe-se na revista francesa a mesma inspiração de certos jesuítas, nomeadamente do RP de Finance, bem como uma abertura não dissimulada para os meios católicos tradicionais, seja através de uma entrevista com Monsenhor Ducaud-Bourget e outra com o Padre de Nantes, e por referências a certas revistas como Itinéraires, Una Voce, la Pensée Catholique, Défense de l'Occident, Lecture et Tradition,Tradition, etc.

Encontra-se também um artigo de Jean Borella sobre "Modernismo e Modernidade"Modernidade" no número de julho-agosto de 1982, assim como várias referências a redes neo-gnósticas: citemos o Centro de Estudos Evola dirigido por Léon Colas (cujo poema é publicado pela Integração) e que edita um boletim de estudos evolianos na região parisiense; ou ainda a revista italiana "Labrys"Labrys" editada em Perúgia pelo Instituto de Estudos Tradicionais e que publica textos muçulmanos, hindus, budistas japoneses, persas e espanhóis (de Santa Teresa).

Entre os outros colaboradores da revista, podemos citar ainda: Michel Bertrand, diretor de uma coleção na Albin Michel e autor de um artigo sobre "Amor e Contemplação"o", que publicou estudos de Simbolismo e Espiritualidade gnósticos, "Os místicos do Sol"Sol" e "Julius Evola, o visionário fulminado"fulminado" pelas edições Copernic; assim como Béatrice Clémentine, autora de trabalhos sobre Mestre Eckhart cuja publicação na revista foi anunciada. Por fim, não se deveria esquecer aquele que foi o mestre de obras, Yves Chiron, autor de um artigo favorável à obra de Evola sobre o Tantrismo "Cavalgar o Tigre"Tigre".

Integração não deveria durar muito tempo, apenas um ano, apesar de uma qualidade certa, ou talvez por causa disso, a cor sendo demasiado claramente anunciada para o meio visado, cedo demais, sem dúvida. Não nos surpreenderá encontrar Yves Chiron entre os redatores da Revista "Rebis"Rebis" consagrada a "Revolução sexual e Tradição", editada pelas Edições Pardès,s, importante centro de difusão gnóstica; nem vê-lo assinar em 1985 um artigo sobre Astrologia na revista guenoniana "Vers la Tradition"Tradition" da qual falamos em um dos nossos últimos números.


Ao final deste panorama rápido, vê-se que este movimento do "Recentramento" realiza, na verdade, a conjunção em uma única corrente de três meios cujos temas favoritos se misturam de forma sutil, de modo que muitos católicos tradicionais não viram nada, habituados que estão a reagir favoravelmente a algumas palavras-chave.

  • A primeira corrente é composta de progressistas, de várias espécies, aliás: desde os progressistas moderados que querem simplesmente "modernizar" a Igreja e que se assustam ao vê-la demolir, até os progressistas extremos que queriam mudar tudo na Igreja, mas que se inquietam ao ver suas estruturas mais elementares postas em perigo, enquanto sabem que a manutenção do quadro institucional é indispensável para seu empreendimento (à maneira daqueles citadinos que, tendo comprado uma velha fazenda, a reconstroem de alto a baixo guardando apenas as grossas paredes...).

Os membros desta corrente, já complexa em si mesma, com motivações múltiplas e diversas, querem doravante evitar os excessos, e buscam estabelecer uma média entre as posições extremas, tradicionais e progressistas: eles querem, segundo sua expressão, "voltar ao centro".

  • A segunda corrente é a dos neo-gnósticos, isto é, daqueles que, há pelo menos cinquenta anos, se desviaram do racionalismo ambiente (seja dentro ou fora da Igreja) e se esforçam para construir um novo espiritualismo; na maioria das vezes, eles apelam para uma das múltiplas variantes orientais, mas, na verdade, como já estudamos muitas vezes, trata-se apenas de dar vida ao velho panteísmo universal, à velha gnose pagã, vestindo-a um pouco de novo.

Lá também se encontram múltiplas tendências, algumas mais místicas, outras mais cientificistas, que podem por vezes se desentender, o que não nos deve iludir.

  • A terceira corrente é a desses católicos tradicionais que podemos qualificar como moderados (ou, se quisermos ser mais precisos, como "moderadamente tradicionais") e que não entenderam grande coisa da crise na Igreja nem do seu ambiente.

Geralmente oriundos de meios liberais que acompanharam com mais ou menos entusiasmo as primeiras evoluções da Igreja, desde o final do século XIX, em matéria social, política e até intelectual, ficaram incomodados quando o santos dos santos da religião foi atingido e colocado em grave perigo: sacramentos, vida religiosa, paróquia e até dogmas.

Não estando habituados a contestar a evolução eclesial nas suas primeiras etapas, seguiram a orientação conciliar até sentirem náuseas, contentando-se em protestar e reclamar precisamente aquilo que lhes havia sido deliberadamente tirado.

Ficaram, portanto, muito felizes por encontrar em seu caminho os membros das duas primeiras correntes, entre os quais muitos teólogos totalmente conciliares e até, como vimos, bispos, com a bênção romana (de Paulo VI já!) por cima. Para seu uso, aliás, surgiu há alguns anos uma revista internacional de grande difusão, Famille Chrétienne, publicada em vários países da Europa, que constitui, de forma totalmente visível e até muitas vezes gritante, uma verdadeira colcha de retalhos de noções e temas tradicionais e progressistas.

É importante entender bem a tripla composição desse movimento do Recentramento para compreender a sequência dos eventos que temos vivido nos últimos três anos: isso permitirá compensar em parte a falta de distanciamento de que sofre forçosamente uma boa análise.


O elemento novo, extraordinário, no desenvolvimento do processo de Recentramento foi a adesão de uma quarta corrente, a de uma parte, talvez a maior parte, dos grupos que se opuseram radicalmente à revolução conciliar e dos quais falávamos no início deste estudo para distingui-los precisamente dos outros.

Três elementos nos parecem garantir essa certeza, três elementos cujos laços profundos ainda são misteriosos, mas cuja conexão grita alto demais para não ser ouvida:

  • A chegada ao trono pontifício de novos pontífices, e sobretudo a de João Paulo II.

  • As negociações de paz entre Roma e os católicos tradicionais sobre esta dupla base: "Deixem-nos fazer a experiência da Tradição" e "interpretemos o Concílio Vaticano II à luz da Tradição", sendo o último fruto dessa manobra o Indulto para a missa tradicional.

  • A infestação dos meios católicos tradicionais, ou pelo menos dos seus núcleos dirigentes, por um número crescente de elementos neognósticos: a Revista La Pensée Catholique primeiro, depois o Instituto São Pio X e as Edições Fideliter, o jornal diário Présent e a revista Itinéraires hoje, e outros, sabemos, que acabarão por levantar a máscara.

Um percurso longo e subterrâneo, que temos anunciado e denunciado há anos diante de uma incredulidade quase geral, conduziu-nos assim a uma situação nova, em pleno movimento, que será preciso analisar.

No n.º 3 deste boletim, em 1980, publicámos um artigo intitulado "Cristianismo e Revolução: primeiras abordagens", recentemente reproduzido no n.º 11. Panorama histórico dos ataques à Igreja, ele pedia uma continuação sobre a situação de hoje, considerada não como fruto dos séculos passados, mas enquanto está grávida do futuro.

Este segundo estudo, esta segunda parte, poderá doravante aparecer sob um título que todos compreenderão: "Cristianismo e Revolução: a pseudo-síntese."

Pois, além dessas diversas reconciliações, desse "retorno ao centro", é o Ecumenismo que é o objetivo final, a meta profunda, do atual pontificado e daqueles que ele seduziu.

O número 4/5 da Revista guenoniana "Vers la Tradition", publicada durante o verão de 1983, foi muito instrutivo a esse respeito, e nós o citamos e comentamos longamente em nosso Boletim nº 12, "Gnose e Gnosticismo na França no Século XX", especialmente nas páginas 11 e 12.

O Sr. Borella defendia ali que o Catolicismo, a Ortodoxia, o Protestantismo e o Anglicanismo eram quatro estilos religiosos que o encontro de uma mesma revelação com temperamentos culturais diferentes não poderia deixar de suscitar. Partindo do princípio de que a fé cristã se baseia em um "triângulo dos fundamentos", a Tradição Apostólica oral, a Tradição escrita bíblica e a Tradição dogmática eclesial, ele considera que os gregos permaneceram fiéis à primeira, os protestantes à segunda, os católicos guardando apenas a letra do dogma.

E para precisar bem seu pensamento, ele concluiu nestes termos:

"Se resta uma possibilidade de praticar um ecumenismo verdadeiramente tradicional, ela não pode residir no enfraquecimento ou na renúncia da especificidade do cristianismo latino – que está aqui diretamente em causa – mas apenas no esforço para reencontrar, no seio de sua própria forma E DE DENTRO, as virtudes complementares do cristianismo integral que um melhor conhecimento das outras formas nos terá revelado. No dia em que os católicos tiverem reencontrado o sentido da transcendência soberana do Pai e da imanência deificante do Espírito, a Igreja de Pedro se tornará novamente a OIKOUMENE, a morada universal para todos os irmãos em Jesus Cristo".

Fora os imbecis, quem não compreendeu?

* * *

O tempo das ignorâncias, fingidas ou reais, está findo; o das responsabilidades de cada um, clérigo ou leigo, chegou, inelutável, tempo em que cada um deverá tomar partido claramente numa situação turva, numa mistura quase inextricável onde em breve não se saberá mais quem ainda é católico e quem já não o é: belo resultado, para dizer a verdade, da covardia daqueles que deveriam ter sido guias... e que não foram, na melhor das hipóteses, senão avestruzes.

P. R.


Nota 1 – Sobre este ponto, ler o artigo "Cristianismo e Revolução" publicado no Boletim nº 3 e reproduzido em segunda edição no nº 11. Este assunto constituiu também o tema do Colóquio da S.A.B. que reuniu, no mês de agosto de 1982, uma cinquentena de ouvintes para estudar "o espiritualismo subversivo" das origens aos nossos dias.

Nota 2 – "Fidelidade e Abertura" – Edições Mâme – 1972. Da maioria das comunicações deste colóquio poder-se-ia extrair uma infinidade de citações estabelecendo a doutrina do Recentramento – Será necessário outro artigo, particular e muito fornecido.